Exílio massivo, inclusão e exclusão política no século XX
INTRODUÇÃO
Na América Latina do século XX, tem início um processo de massificação do
exílio. Até então, costumava-se usar o desterro como mecanismo de ostracismo
reservado normalmente àqueles que pertenciam às classes privilegiadas e a suas
redes de apoio. Tanto para esses quanto para os que os forçavam a tomar o
caminho do desterro o exílio funcionou como mecanismo de exclusão política
paralelo e preferível ao "encarceramento" ou ao "sepultamento" (Luna, 1995:202;
Bonilla, 1989:1-2 apud Barahona, 2005:101), sendo esse último geralmente o
destino de opositores desgraçados oriundos das classes populares. A partir do
século XX, o exílio político passa a ser usado cada vez mais frequentemente
contra ativistas políticos e sindicais, intelectuais, estudantes e
profissionais de todas as classes sociais, cujo único delito haviam sido a
participação e a mobilização política contra um governo ou regime eventual.
A massificação do exílio ocorreu paralelamente à natureza cambiante dos
conflitos políticos e sociais da região. Os países latino-americanos
atravessaram - em ritmos diferentes, porém de maneira quase homogênea -
processos de crescimento populacional, mobilidade territorial, modernização
socioeconômica e crescente urbanização. Em cada um dos países, o ritmo desigual
das transformações criou acentuadas assimetrias internas. Apesar das diferenças
e das especificidades, durante o século XX a região foi cenário de profundas
transformações: emergência de centros dinâmicos de desenvolvimento nos entornos
urbanos, emergência de economias extrativas e de enclaves econômicos ligados ao
capital internacional, pressões para a ampliação da participação política e a
democratização das sociedades, defasagem da vida tradicional e cristalização de
estilos de vida modernos, e diversificação do âmbito religioso, entre outras.
Neste artigo, é analisado como esses processos afetaram o caráter do exílio
político, principal mecanismo de exclusão institucional empregado pelos estados
ibero-americanos desde seu estabelecimento no século XIX. A análise indica que
houve várias fases de estruturação do exílio e se concentra no estudo da
transição do uso restritivo desse mecanismo a seu emprego massivo a partir do
fim do século XIX e início do século XX. A tese sugerida neste artigo é a de
que um número cada vez maior de exilados de diferentes classes sociais se veem
afetados por sua participação no âmbito político e nas esferas públicas,
criando um fenômeno de ampla transcendência que viria a transformar a
funcionalidade do exílio e sua função para os estados ibero-americanos. A
ampliação da exclusão institucional deu lugar a uma dinâmica de dispersão dos
exilados, o que lhes permitiu gerar amplas redes de solidariedade e centralizar
cada vez mais a atenção da esfera pública internacional no exílio como reflexo
das políticas de exclusão e de repressão empregadas nos países expulsores. A
crescente conscientização produz então uma radical transformação na estrutura,
no impacto e na funcionalidade do exílio político nos estados ibero-americanos.
USO E ABUSO DO EXÍLIO COMO MECANISMO DE EXCLUSÃO POLÍTICA
O exílio político tem sido um dos mecanismos centrais de dominação e de
exclusão forjados pelas elites políticas latino-americanas a fim de se manterem
no poder. Sob distintas formas, definições e módulos operativos, desde o
deslocamento forçado e o desterro à expatriação e à migração voluntária (porém
precipitada), o exílio tem desempenhado papel vital na configuração de moldes e
de estilos da política latino-americana.
Os estudos históricos, sociológicos e políticos têm reconhecido prontamente a
centralidade do exílio político nesse contexto (San Cristóval, 1941; Luna,
1962; Rodríguez Plata, 1976; Zúñiga, 1982; Yundt, 1988; Lynch, 1989; Johnson,
1992; Katra, 1996; Loveman e Lira, 1999). Historicamente, as raízes do fenômeno
são anteriores ao estabelecimento dos estados independentes, remontando ao
período colonial, quando as autoridades se valeram da transferência e da
expulsão de indivíduos como parte de suas políticas de povoamento e defesa e,
de forma paralela, como mecanismo de controle social, dirigido a inadaptados
sociais, marginais, criminosos ou rebeldes (Scardaville, 1977:304-350;
Descalzi, 1978; Herzog, 1995).
A desintegração do império espanhol nas Américas e a subsequente disputa
desenfreada pelo poder geraram situações propícias à generalização do uso do
deslocamento forçado como mecanismo de regulação empregado com maior
frequência. Situações de luta iminente entre elites suscitaram com frequência o
dilema entre aniquilar o oponente, com o consequente perigo de iniciar um
círculo vicioso de retaliações, ou mobilizar forças das camadas sociais
inferiores a fim de vencer o oponente. A primeira alternativa implicava o
perigo de gerar uma situação conhecida nas ciências políticas como "soma-zero",
em que há a percepção de que o lucro de uma das partes envolvidas significa o
prejuízo de outras partes, o que eventualmente geraria conflitos crescentes,
capazes de ferir letalmente e de maneira completa uma camada social
privilegiada. A segunda opção não implicava um perigo menor aos olhos das
elites: a abertura do jogo político republicano a estratos sociais
marginalizados, cuja presença poderia acarretar uma "guerra de castas" ou um
conflito étnico, o que igualmente ameaçaria a hegemonia da classe governante e
a estrutura do poder.
As elites pressentiam, por meio do inato sentido de sobrevivência e de ansiada
conservação de sua hegemonia política, que a execução do líder de uma facção
inimiga poderia dar início a um ciclo de retaliação capaz de gerar as condições
necessárias à eliminação da classe dominante ou implicar a abertura e o
incremento da luta política até o ponto de incluir as camadas sociais
inferiores, o que seria igualmente negativo para a intenção de conservar sua
posição na pirâmide social. Mediante tal dilema, o uso do exílio político fazia
sentido, uma vez que se apresentava como solução intermediária e respeitava a
condição de classe dos afetados, deslocando-os meramente do solo da pátria para
outros territórios (Roniger e Sznajder, 2008).
Por outro lado, o desterro constituía uma pena significativa, já que, em
virtude das condições de comunicação da época, implicava a ruptura das redes
sociais, a perda de protagonismo político e muitas vezes a perda de fontes de
sustento que mantivessem o nível de vida a que o desterrado estava acostumado
no habitat anterior.
É assim que o desterro se transforma em uma fórmula política que permite manter
o controle da esfera pública sem incorrer nos eventuais custos de um crescente
ciclo de violência irredentista. O exílio adquire, desse modo, seu perfil
político como mecanismo de exclusão institucionalizada, ao lado da prisão, da
pena de morte e de outras medidas de exceção e de emergência usadas
exaustivamente desde então (Loveman, 1993). Entre os mecanismos de exclusão
institucionalizada mencionados por Félix Luna (1995) e Emma Bonilla (1989), o
exílio político foi a opção mais profusamente usada, em especial para com
aqueles que foram expulsos de posições de poder. Conscientes de sua própria
debilidade numérica, bem como da fragilidade no poder, as elites governantes
viram, no exílio político, um mecanismo particularmente favorável à manutenção
da estrutura hierárquica da esfera política nas nações ibero-americanas recém-
independentes.
Uma vez deslocados do território original, os exilados passaram a participar de
um jogo transnacional em que seus próprios projetos de retorno interagiam com
os interesses do governo do país receptor em lograr uma hegemonia regional pelo
uso das redes de exilados, e isso diante de uma das motivações daqueles que
provocavam o exílio, ou seja, a intenção de manter a oposição afastada do
território nacional.
O exílio se configura como uma estrutura tríplice, na qual elites de países
limítrofes protagonizam um papel destacado na política e nas esferas públicas
dos países próximos. A ligeira cristalização de estados autônomos no âmbito
hispano-falante exacerbou tal dinâmica no que tange a demandas e a disputas
territoriais por parte das elites de diferentes cidades e regiões americanas
(Sznajder e Roniger, 2009:73-90).
As classes políticas intervieram, portanto, de acordo com seus próprios
interesses, na configuração das facções políticas dos países vizinhos. Quando a
facção que um governo apoiava em um país vizinho era derrotada, frequentemente
os atores políticos vencidos encontravam asilo no território limítrofe,
recebendo inclusive apoio do governo local a seus planos de retorno. Cabe dizer
que, apesar da derrota, a política regional continuou desempenhando um papel
central, dado que elites governantes do país anfitrião atuaram dessa maneira a
fim de recuperar o controle da cena política vizinha ou, pelo menos, exercer
alguma influência diante do fortalecimento de aliados políticos em potencial.
Mesmo quando a facção derrotada era contrária à política forjada pelo governo
anfitrião, este poderia acolher os desterrados com a finalidade de controlar
sua liberdade de ação, reduzindo as possibilidades de conspiração dos exilados
contra um governo aliado no país vizinho. Em todos os casos, os indivíduos e as
comunidades de exilados desempenhavam um papel importante nessa estrutura de
três níveis, protagonizando um papel seja dentro dos planos de hegemonia
regional dos países de acolhimento, seja quanto às opções abertas às elites no
poder em seu país de origem (ver Figura_1).
A presença dos exilados foi então tolerada e até mesmo promovida como
ferramenta política a ser utilizada pelo país anfitrião em relação ao cenário
político do país de origem dos desterrados. Essa atitude se refletiu não
somente no país de origem dos exilados, mas também colaborou para a definição
de regras de pertencimento à comunidade política de acolhimento. Por exemplo,
os exilados políticos argentinos que se estabeleceram no Chile sob o regime
conservador eram bem-vindos desde que não interferissem na política interna ou
desde que apoiassem os governantes no poder. Quando assumiram posições
contrárias ao governo, os exilados foram expulsos do país (Halperín Donghi,
1980:500). O exílio se converte assim em um mecanismo central na vida política,
inerente às pautas da configuração da política moderna dos regimes governantes
na América Latina. Na expressão de Hirschman (1970), a política de exit
[deslocamento] passou a vigorar sobre uma política de voice [articulação
expressiva]. Quando a política chegou a níveis mais altos de consolidação, o
exílio já havia sido internalizado pela cultura política como mecanismo central
de exclusão institucional que prevalecia sobre formas mais abertas e
pluralistas de fazer política (Roniger e Green, 2007).
Um dos indicadores mais claros da internalização do exílio na cultura política
é a abordagem regional do tema do asilo em tratados e convenções que os países
ibero-americanos entabularam já a partir das décadas de 1960 e 1970, tornando-
se pioneiros nesse âmbito. Entre os antecedentes, devemos mencionar que, no
Ocidente, a Revolução Francesa constituiu um divisor de águas. Ao proclamar "os
direitos do homem e do cidadão", reconheceu a resistência à opressão enquanto
direito natural e perene, assentando assim, tacitamente, as bases para o
reconhecimento da perseguição política como uma figura legal, base do conceito
moderno de asilo político. No século XIX, a figura do asilo político se
converteu rapidamente em um foco de interpretação jurídica e de legislação
(Luna, 1962:20-1)1.
Na América Latina, houve prontas tentativas de enfrentar o problema do asilo
político em face de um pano de fundo contraditório. Por um lado, o movimento de
exilados gerava instabilidade. Por outro, os fatores de poder podiam utilizar
os exilados para acossar seus inimigos políticos nos países vizinhos. Mesmo
quando os governos podiam ter se mostrado contrários à concessão de asilo aos
"alvoroçadores" dos países vizinhos, não puderam ignorar que, com o tempo, eles
mesmos talvez precisassem recorrer a esse mecanismo caso fossem derrocados do
poder por um golpe de Estado. Consequentemente, essa questão se converteu em um
tema muito debatido nas negociações e nas reuniões sobre o asilo diplomático,
tornando a América Latina uma região pioneira nesse assunto (Franco et alii,
2001; Esponda Fernández, 2007).
Em 1867, os representantes diplomáticos dos estados ibero-americanos se
reuniram em Lima, onde debateram a questão do asilo diplomático sem chegar a um
acordo. O primeiro documento firmado foi produzido pela I Conferência Sul-
Americana sobre Direito Internacional Privado, realizada em Montevidéu, em
1889. Um Tratado de Paz e Amizade foi assinado em dezembro de 1907 pelos
representantes de Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua e El Salvador em
Washington, D.C., com o objetivo de alcançar estabilidade no istmo. Os
compactuantes se comprometeram a não permitir que dirigentes e ativistas
políticos residentes nas regiões de fronteira entre os países perturbassem a
tranquilidade do país receptor. Em 1911, os países andinos chegaram a um acordo
sobre a extradição em um congresso realizado em Caracas. Os países da América
Central chegaram a um acordo paralelo, na Guatemala, em 1934. Em Havana (1928),
Montevidéu (1933 e 1939) e Caracas (1954), foram assinados tratados
interamericanos em matéria de asilo e de refúgio políticos. O tratado de 1928
negou o direito de asilo aos delinquentes comuns e estabeleceu normas de
extradição àqueles que se haviam refugiado em delegações, ou em navios,
acampamentos ou aeronaves militares, ou em território estrangeiro. Ao mesmo
tempo, o tratado indicava que o asilo de delinquentes políticos seria
respeitado, porém seria cumprido somente provisoriamente nas delegações ou no
âmbito de estabelecimentos das Forças Armadas, sem permitir que os asilados
desembarcassem em território nacional. A Convenção sobre Asilo Político de 1933
acrescentava que a qualificação da delinquência política era de
responsabilidade do Estado que presta o asilo. A maioria das nações da América
aderiu ao tratado e o ratificou, com exceção da Venezuela, da Bolívia e dos
Estados Unidos. Em 1939, em Montevidéu, esses entendimentos se reuniram em um
tratado regional mais amplo.
A X Conferência Interamericana realizou, em 1954, uma convenção sobre asilo
diplomático e outra sobre asilo territorial. A primeira, que mantinha a linha
das convenções anteriores, declarava, em seu art. 2º, que "todo Estado tem
direito a conceder asilo; entretanto não está obrigado a outorgá-lo nem a
declarar por que o nega". Isso reflete o consenso, advindo durante o período
entre guerras, relativo à percepção de outorga de asilo como prerrogativa do
Estado, a ser concedida pelos estados individuais em consideração à gravidade e
à natureza do delito político cometido. A segunda convenção, relacionada ao
asilo territorial, trazia o direito dos estados a admitir dentro de seu
território - e em exercício de sua soberania - "as pessoas que julguem
convenientes, sem que por causa do exercício desse direito nenhum outro Estado
possa manifestar qualquer tipo de oposição".
A Conferência Interamericana de Caracas ratificou normas precedentes e agregou
novas normativas em consequência do famoso caso de Víctor Raúl Haya de la
Torre, fundador da Apra (Alianza Popular Revolucionaria Americana) no Peru. Com
seu partido desterrado em 1948, Haya de la Torre passou cinco anos detido, sob
asilo diplomático, na Embaixada da Colômbia, em Lima. Colômbia e Peru
apresentaram o caso ante a Corte Internacional de Justiça, que reconheceu, em
sua sentença de novembro de 1950, que a proteção havia sido indevidamente
concedida. Entretanto, como o Peru também havia exigido que a Corte sancionasse
a entrega de Haya de la Torre às autoridades peruanas, o Tribunal de Justiça
declarou, em junho de 1951, que, apesar de o Peru haver estado legalmente
facultado a exigir que o asilo cessasse, não existia obrigação por parte da
Colômbia de entregar Haya de la Torre, já que isso iria contra a tradição
latino-americana de asilo, segundo a qual se tratava de um refugiado político
que não deveria ser objeto de extradição. A Corte reconheceu, em sua sentença,
a situação de paralisia entre ambos os estados. Segundo as convenções de asilo,
o asilo diplomático é uma medida temporária que visa à proteção dos
"delinquentes políticos", devendo terminar tão logo seja possível. Contudo, a
Convenção não apresenta uma resposta clara à questão sobre como se deve dar por
concluído o asilo. Quanto aos delinquentes comuns, exige-se expressamente que
sejam entregues às autoridades locais. Para os delinquentes políticos,
prescreve-se a concessão de um salvo-conduto para sair do país. O salvo-
conduto, no entanto, pode ser reclamado somente se o asilo for concedido e
mantido de forma regular e se o estado houver requerido que os refugiados sejam
enviados para fora do país (International Court of Justice, 1951). O Tribunal
optou por não apresentar uma solução prática, sugerindo às partes que buscassem
orientação "nas considerações de cortesia e de boa vizinhança, que em matéria
de asilo têm tido sempre um lugar de destaque nas relações entre as Repúblicas
da América Latina". Somente em 1954, o governo peruano finalmente concedeu um
salvo-conduto para que Haya de la Torre pudesse sair do Peru, após anos de
amarga denúncia por parte dos liberais em todo o hemisfério ocidental, depois
de o caso ter sido levado à Corte Internacional de Justiça em 1950 e em 1951
(Luna, 1962:39-40).
Os países ibero-americanos também debateram o asilo territorial, inclusive
antes de o assunto alcançar repercussão mundial, após a Segunda Guerra Mundial.
No âmbito internacional, a criação do Alto Comissariado das Nações Unidas para
Refugiados (ACNUR; em inglês, UNHCR), em 1949, marcou a difusão da preocupação
para com o problema do desterro massivo, elaborando a figura dos refugiados
como correlata ao caso da Segunda Guerra Mundial. Segundo a carta do ACNUR,
cuja âncora conceitual foi elaborada contemplando as circunstâncias históricas
concretas do pós-guerra, um refugiado político é qualquer pessoa que,
em virtude de fundados temores de ser perseguida por motivos de raça,
religião, nacionalidade, pertencimento a determinado grupo social ou
opiniões políticas, se encontre fora do país de sua nacionalidade e
não possa ou, por causa de ditos temores, não queira recorrer à
proteção de tal país; ou que, carecendo de nacionalidade e
encontrando-se, em consequência de tais acontecimentos, fora do país
onde antes residiu habitualmente, não possa ou, por causa de ditos
temores, não queira regressar a esse país (ACNUR, 1951).
Junto com os refugiados - que a partir do pós-guerra puderam receber a
assistência do ACNUR, uma vez reconhecido seu status -, persistiu a dinâmica de
saída massiva de exilados. Diferentemente do refugiado, o exilado não possui o
direito de receber determinados benefícios, salvo a possibilidade de residir no
país anfitrião sem ser expulso ou repatriado contra sua vontade.
EXÍLIO MASSIVO: A OUTRA FACE DA AMPLIAÇÃO POLÍTICA
Comparativamente, os países ibero-americanos experimentaram um número limitado
de guerras internacionais, mas se viram imersos em constantes conflitos
internos (Centeno, 1999; Kacowicz, 2005), e um dos resultados têm sido as
recorrentes ondas de exílio.
Entre o fim do século XIX e o início do século XX, intensificou-se a integração
econômica das sociedades ibero-americanas na divisão internacional do trabalho
e nos mercados capitalistas, com sua consequente pressão sobre a força laboral
e sobre o regime de terras, enquanto os estados ampliavam seu domínio sobre o
território "nacional", seja pela via do extermínio dos povos originários, seja
por sua subjugação como força de trabalho dominada. Com o aumento das pressões,
surgiram também movimentos de resistência, contra os quais governos e elites
sociais aplicaram mecanismos progressivamente repressivos de controle e de
regulação política e social. Nesse contexto, foi natural presenciar de que
maneira o exílio - que já se encontrava codificado na cultura política desses
países desde o primeiro século de vida independente - se intensificou como
importante mecanismo de exclusão institucionalizada não somente contra
indivíduos da classe política desgraçados, mas também, cada vez mais, contra
ativistas e simpatizantes das classes médias e populares que se haviam
incorporado recentemente à política.
É a partir desse período que os países de maior potência na região atravessaram
um processo acelerado de industrialização e de diversificação de suas
estruturas sociais, incluindo uma crescente classe trabalhadora urbana com
participação direta nos setores produtivos e nos serviços relacionados. Ao
mesmo tempo, as burocracias estatais se haviam ampliado nas dimensões nacional,
estatal, regional e municipal. Esses setores penetraram cada vez mais na esfera
do domínio público, a princípio apoiando confrontos entre segmentos das elites
tradicionais e, de maneira progressiva, como parte de diferentes conjuntos de
aliança, que mobilizavam as massas por meio da promoção e do apoio às demandas
setoriais. Paralelamente à modernização econômica e social, aumentaram também o
ativismo político e a filiação a partidos políticos ou a organizações
vinculadas, como sindicatos, jornais e associações corporativas ou
profissionais, além da presença destacada de estudantes, intelectuais e grupos
acadêmicos.
A dinâmica de mútuo reforço de pressões socioeconômicas, de confrontação
política e de violência repressiva se inscreve em uma ampla série de
enfrentamentos sangrentos e intentos radicais de realização de transformações
revolucionárias, como os intentos realizados no México, na Bolívia, em Cuba ou
na Nicarágua. A violência repressiva foi igualmente endêmica, mas teve seus
ápices: o massacre de Canudos, em 1897, e a guerra do Contestado, em 1912-1916,
ambos no Brasil; a matança de Santa Maria de Iquique, no Chile, em 1907; a
Semana Trágica repleta de repressão ao anarquismo, gerando pogroms na
Argentina, em 1919; as diversas intervenções dos Estados Unidos na América
Central e no Caribe; a guerra civil na Costa Rica, em 1948; o assassinato de
Jorge Eliécer Gaitán, o qual deu início à "década da violência" na Colômbia; os
ciclos de guerra de guerrilhas e a repressão, durante duas gerações, a partir
da década de 1950, na Guatemala. A magnitude da violência impregnou esses
variados casos de contestação, mobilização e repressão, modulados pelo uso
exacerbado da retórica política juntamente com o uso mais frequente dos meios
de comunicação de massa2.
Paradoxalmente, um fator fundamental, subjacente à crescente utilização do
exílio político como importante mecanismo de exclusão, foi o desenvolvimento de
muitas das características modernas de uma sociedade civil nas diversas partes
da América Latina. O funcionamento de uma sociedade civil ativa gerou não
somente o fortalecimento das bases da democracia, mas também implicou maior
participação política e crescentes demandas por direitos sociais e políticos,
redistribuição igualitária e transparência institucional. Em âmbitos mais
estáveis, essas demandas poderiam ter sido canalizadas em prol do
fortalecimento da democracia. Contudo, no contexto ibero-americano, foram
interpretadas como pressões revolucionárias, retórica de mobilização popular e
ameaça à ordem estabelecida e aos fortes grupos de interesse. A falta de
institucionalidade democrática dos estados e dos partidos políticos contribuiu
então para reforçar a polarização política, criando um círculo vicioso no qual
o temor à revolução provocava repressão e, simultaneamente, se convertia em
fator que empurrava os radicais grupos de esquerda à ação armada. A própria
dinâmica da modernização gerava novas forças que os sistemas políticos não
haviam conseguido incorporar por meio da institucionalização democrática. Desde
uma perspectiva política, o populismo e o clientelismo foram utilizados com a
finalidade de incluir esses novos estratos, porém em formatos que não
fomentaram a autonomia e a representação democrática, o que viria a
intensificar, em um contexto de conflito, a instabilidade institucional. De
diversas maneiras, as Forças Armadas se perfilaram como fator de poder decisivo
e, em muitos casos, assumiram direta ou indiretamente o poder com a missão de
estabelecer uma nova ordem baseada nas doutrinas da segurança nacional. É nessa
etapa que a repressão ultrapassa limites anteriores de classe e se projeta não
somente sobre os implicados diretamente na violência política mas também sobre
amplos segmentos da sociedade civil, vistos como focos ou sustentáculos da
subversão da ordem estabelecida.
Os processos que atuavam por trás da utilização do exílio político desde o
século XIX sofreram transformações. Os exilados incluíam agora tanto membros da
elite política quanto uma ampla gama de ativistas políticos, sindicalistas,
intelectuais, estudantes e até mesmo pessoas desconectadas de qualquer
atividade pública ou participação política. A nova lógica de desmobilização
afetava indivíduos de todos os segmentos sociais. Ao mesmo tempo que
professavam neutralidade em termos políticos, os governos autoritários,
especificamente aqueles liderados pelas Forças Armadas, preferiam ver a si
mesmos como reserva moral da nação e guardião de seus valores perenes. Nesse
contexto, o exílio chegou a ser conceituado como um mecanismo para a exclusão
total daqueles que eram retratados como "inimigo". Este não era um inimigo que
apenas não deveria retornar à pátria e reatar seu antigo papel social e
político quando as circunstâncias o permitissem. Tratava-se de um inimigo que
deveria ser totalmente excluído, seja mediante a eliminação física, seja por
meio do exílio permanente.
Os regimes autoritários reformularam, portanto, os critérios de inclusão e de
exclusão de acordo com seus próprios princípios ideológicos. Desde o início,
categorias inteiras de indivíduos e de organizações foram consideradas inimigas
da pátria, tendo, assim, de ser excluídas institucionalmente. Com o objetivo de
eliminar pessoas ligadas a ideologias alheias, contrárias à nação e a seu
espírito, à tradição, ao bem-estar comum e ao futuro da pátria, ampliou-se a
rede repressiva. O marxismo, o leninismo, o trotskismo, o socialismo, o
comunismo, o liberalismo de esquerda, a esquerda cristã, algumas formas de
populismo e quem promovia essas ideologias ou simplesmente simpatizava com elas
aos olhos dos detentores do poder deveriam ser marginalizados ou eliminados, já
que representavam uma ameaça à nação e a seus respectivos "valores".
As doutrinas de segurança nacional determinariam critérios extensivos de
exclusão, que, por sua vez, seriam aplicados com diversos graus de autonomia e
interpretação, por meio de diferentes mecanismos de repressão. Entre as vítimas
estavam "alvos" tão variados quanto um professor que ensinava o marxismo ou
outras "doutrinas exóticas"; dirigentes sindicais e sindicalistas que lutavam
por maiores benefícios; estudantes de ensino médio que haviam interpelado as
autoridades com suas demandas por redução das tarifas do transporte público;
sacerdotes que haviam defendido os pobres em suas paróquias; advogados
comprometidos com a causa dos direitos humanos; oficiais de segurança que se
haviam negado a disparar contra estudantes em manifestações; membros de certas
disciplinas acadêmicas suspeitas, especialmente humanidades e ciências sociais,
como psicologia, sociologia e ciência política; artistas que haviam expressado
seu protesto contra a injustiça social e a opressão; e todo tipo de
organizações - desde partidos políticos até associações profissionais e
associações de vizinhos - seduzidas, segundo a ótica dos governantes, por
ideias antinacionais, antiocidentais e anticristãs. Em alguns dos países,
chegou-se até mesmo a queimar livros perigosos, regulamentar a vestimenta ou o
corte de cabelo dos jovens e proibir a radiodifusão de música "subversiva".
Nessa etapa, o exílio se transforma funcionalmente em um mecanismo regulador
dos estados-nação, centrado em torno da política e das esferas públicas
nacionais, e projetando-se nos âmbitos transnacional e transcontinental.
A FORMAÇÃO DE UMA ESTRUTURA QUÁDRUPLA DO EXÍLIO
No século XIX, a estrutura triangular do exílio se baseava nas tensas relações
entre a agenda dos exilados, as considerações políticas dos países de
acolhimento e as pressões exercidas pelos países de origem, todas emolduradas
em um contexto de fragmentação política e administrativa (ver Figura_1).
Essa estrutura formal predominou enquanto os estados foram os atores centrais
no âmbito internacional. A promessa da Revolução Francesa, em termos de
direitos do indivíduo e do cidadão, submeteu-se às transformações e às
supressões do império napoleônico e da restauração do antigo regime operada
pela Santa Aliança. O ressurgimento liberal de 1848 na Europa, muito vinculado
ao nacionalismo, concentrou-se no interior dos espaços públicos dos antigos e
novos estados-nação. Muito embora a soberania tenha sido o princípio básico da
normatização internacional, as políticas nacionais, em matéria de expulsão dos
opositores políticos ao exílio, geraram graves problemas no sistema.
Ainda durante o século XX, os países continuaram utilizando os exilados como
peões em suas estratégias internacionais. Um bom exemplo é a situação em uma
data tão tardia como a Primeira Guerra Mundial, quando o papel dos exilados
políticos se conjuga com uma Revolutionierungspolitik, quer dizer, com a
política que um país joga contra outro mediante o uso de exilados políticos,
emigrantes e outros agentes, enquanto os exilados fazem uso dos espaços
discursivos e políticos abertos nos países de acolhimento a fim de lograr um
resultado determinado no país de origem. Entre os casos mais famosos dessa
estrutura tríplice na Europa estão os movimentos de Roman Dmowski, do Movimento
Nacional Polonês, e de Thomas Masaryk, do Movimento Nacional Tcheco, que
conduziram movimentos populares em Paris contra os Impérios Centrais, ou o de
Vladimir Ilych Lenin, líder dos bolcheviques, enviado pelos alemães em um vagão
lacrado à Rússia, via Suécia e Finlândia, a fim de impulsionar a queda dos
Romanov e a saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial.
Nas Américas, um dos casos mais notáveis é o dos exilados cubanos que começaram
a se trasladar para os Estados Unidos na década de 1920. Apesar de os exilados
terem sido somente parte de uma comunidade mais ampla de cubanos - muitos deles
trabalhadores na indústria do tabaco -, protagonizaram papéis cada vez mais
influentes na determinação das decisões políticas nos Estados Unidos, de forma
paralela aos interesses econômicos e políticos de seu país de origem. Cabe
lembrar o progressivo passo dos Estados Unidos em pressionar a favor da
demissão do presidente cubano Gerardo Machado no início da década de 1930. No
entanto, a crise econômica e as dificuldades instaladas resultaram em protesto
generalizado, reprimido severamente pela administração Machado. A violência
institucionalizada produzira centenas de exilados que escaparam para os Estados
Unidos, sobretudo para a Flórida e para Nova York, onde foi mantida uma forte
campanha contra o caudilho cubano, com uma minoria propondo a intervenção
direta dos Estados Unidos. A presença de uma imprensa cubana opositora nos
Estados Unidos desempenhou um papel importante nas decisões adotadas pela
administração Roosevelt em abster-se de prestar maior apoio a Machado,
acelerando, portanto, sua fuga de Cuba e a série de acontecimentos que logo
alçaria Fulgêncio Batista ao poder. À parte os detalhes particulares desse e de
outros casos de exílio político nas Américas e em outras regiões, nota-se como
os exilados se moviam dentro de uma estrutura triangular, na qual quase não
havia espaços institucionais no plano internacional que pudessem servir como
ambiente eficaz para o debate e a regulamentação de questões relacionadas ao
exílio político, além de uma fonte de pressão sobre os estados-membros da
comunidade internacional.
Com a evolução do cenário mundial e a criação de redes transnacionais, a
formação de comunicações e fóruns internacionais em que os problemas do direito
internacional e os direitos humanos poderiam ser elaborados, a estrutura de
exílio sofreu uma transformação básica. Uma vez que o elemento transnacional
entra na equação do exílio como um fator de peso, os exilados políticos no
exterior adquirem cada vez mais ressonância internacional e nacional à custa de
âmbito delimitado pelas fronteiras nacionais. Gera-se, assim, uma estrutura
quádrupla, em que os exilados somam potencialidade por meio das redes
transnacionais, cuja presença permite a cristalização de coalizões políticas
portadoras de nova voz na esfera internacional e com maior poder de pressão
tanto sobre os estados expulsores quanto sobre os estados anfitriões (ver
Figura_2).
Essa estrutura de exílio vem se estabelecendo progressivamente na América
Latina. Nesta seção, é analisado um dos primeiros indícios - parcial, todavia -
da transição da política tríplice à estrutura quádrupla do exílio, tal como se
desenvolveu na década de 1950 no Caribe e na América Central, quando uma série
de ditaduras gerou ondas de exilados que se dispersaram por toda a região.
Gerou-se então uma intensa atividade de grupos de exilados dos estados daquela
região, particularmente na Guatemala, na Nicarágua, em Cuba, na Venezuela e na
República Dominicana. Em 1952, praticamente todo o Caribe hispano-falante
estava dominado por ditadores que suprimiam a oposição interna, até o ponto de
a oposição política na zona ser possível quase que exclusivamente no âmbito das
redes que os exilados lograram criar e manter no exterior.
A efervescente atividade dos exilados criou laços transnacionais nos principais
centros de atividade do exílio caribenho, situados nesse momento na Cidade do
México, em San José da Costa Rica, em San Juan de Porto Rico, em Miami e em
Nova York. Cerca de mil ativistas da Ação Democrática (AD) da Venezuela se
concentraram no México, em torno da liderança de Rómulo Gallegos. Os
dominicanos se distribuíram por toda a América Central e o Caribe,
concentrando-se sobretudo em San Juan e em Nova York. Miami foi o tradicional
bastião dos cubanos, também ativos no México, em San Juan e em Nova York. Os
nicaraguenses e hondurenhos preferiram o México e, dependendo das
circunstâncias, trasladaram-se também para San José da Costa Rica. Os exilados
mais militantes, de todas as nacionalidades, se encontravam na Guatemala de
Jacobo Arbenz Guzmán, por sua vez deposto pelo golpe de Estado que obrigou o
presidente, assim como muitos outros cidadãos e asilados, a se exilar3.
Os partidos arrecadavam fundos mediante contribuições voluntárias e,
ocasionalmente, por meio de atividades e sorteios. Além de suas atividades
políticas, os exilados se ocupavam da escrita, da docência e da oratória
pública, em parte porque essa era sua maneira de se sustentar economicamente,
mas também com a finalidade de projetar a causa no Caribe, na América Central e
na América do Norte através dessas atividades. O ex-presidente venezuelano
Rómulo Gallegos, por exemplo, deposto por um golpe militar em novembro de 1948,
foi um destacado escritor e orador popular, cujas reputação e relevância no
México e em todas as Américas centralizavam a causa do exílio. Outros eram
estudantes, uma categoria nem sempre bem-vinda, já que tendia a ser ativa
politicamente. Em 1956, o governo de Honduras tentou persuadir os estudantes
guatemaltecos exilados a se mudarem para a Costa Rica, tratando assim de evitar
que agitassem o corpo estudantil local.
Os exilados não estavam totalmente fora do alcance dos ditadores do Caribe. Os
dominicanos, em particular, foram cuidadosamente vigiados pela rede de
espionagem de Rafael Leónidas Trujillo, que utilizava os serviços diplomáticos
e consulares para hostilizar e mesmo liquidar seus inimigos. Depois de 1956,
Fulgêncio Batista e Trujillo haviam planejado juntos o assassinato do
presidente da Costa Rica, José Figueres, que apoiava a esquerda democrática
exilada. Em 1957, os agentes de Trujillo manipularam numerosas intrigas no
México e na América Central. Trujillo possuía amigos, no Congresso dos Estados
Unidos, que se sentiam atraídos por sua política anticomunista; graças a isso,
foi capaz de manter estreita vigilância sobre as atividades dos exilados. Por
outro lado, ocasionalmente pretendeu cooptar seus antagonistas com ofertas de
dinheiro e promessas de anistia. Em 1955, o Congresso da República Dominicana
aprovou uma lei de anistia, e Trujillo anunciou que o governo ajudaria
financeiramente os exilados que buscassem a repatriação. Marcos Pérez Jiménez
também tentou alcançar um acordo com seus inimigos, especialmente tratando de
eliminar Rómulo Betancourt e exercendo pressão sobre os países de acolhimento
para que o expulsassem de seus territórios, ou que ao menos limitassem seus
movimentos.
Nessa etapa, ainda se desenvolvia uma política de pressões e de contrapressões
entre os países expulsores e os países anfitriões, na qual os primeiros exigiam
que os segundos controlassem os exilados que haviam encontrado asilo em seu
território. O México, por exemplo, tentava projetar uma imagem de país de
acolhimento para os perseguidos políticos de outros países ibero-americanos,
mas, ainda que respeitasse o direito de asilo, suas autoridades vigiavam
cuidadosamente as atividades dos exilados. Em 1953, por exemplo, quando se
descobriu que, nos ataques de Fidel Castro, em Cuba, foram utilizadas armas
mexicanas, os mexicanos se comprometeram a realizar esforços para prevenir o
contrabando de armas para Cuba e expulsaram dois exilados cubanos. Em 1956,
Castro, Che Guevara e outros foram detidos sob a acusação de conspirar em ação
revolucionária contra Batista. Não obstante, antes do fim desse ano, Fidel
Castro já havia invadido Cuba usando a península de Iucatã como trampolim de
desembarque na ilha. Provavelmente, como resultado dessa experiência, o México
viria a expulsar, em 1957, 550 estrangeiros "indesejáveis", alguns dos quais
contratados nas ações políticas consideradas perigosas ou embaraçosas para o
governo mexicano. Por essa razão, e uma vez que Marcos Pérez Jiménez fora
derrocado na Venezuela, os exilados cubanos passaram a trasladar-se para
Caracas em 1958. Os Estados Unidos seguiram adotando uma política similar
quanto aos exilados cubanos, oferecendo-lhes refúgio, porém sem tolerar
violações a suas leis de residência (Yankelevich, 2002; Sznajder e Roniger,
2007).
Na década de 1944-1954, a Guatemala também foi um lugar de asilo que atraiu
numerosos exilados de toda a região, entre os quais destacados líderes
comunistas que vieram a atuar inclusive em assuntos políticos do país
anfitrião. Os líderes comunistas cubanos foram visitantes frequentes,
colaborando com os marxistas locais para controlar o trabalho organizado. Os
comunistas salvadorenhos foram os mais ativos. Os ativistas do Partido
Socialista Popular Dominicano, que era o partido comunista da República
Dominicana no exílio, também aderiram ao Partido Guatemalteco del Trabajo. Em
1952, eles se comprometeram a organizar todos os dominicanos exilados
espalhados pelo mundo em torno de um Comitê de Exilados Dominicanos. Outros
grupos nacionais no exílio estabeleceram frentes unidas similares na Guatemala,
entre elas a Asociación Salvadoreña Democrática, o movimento de nicaraguenses
partidários da democracia e o Partido Democrático Revolucionario Hondureño. O
exílio republicano espanhol também se destacava, e os diferentes grupos se
uniram para formar o Frente Democrático de Exiliados Americanos e Españoles. No
desfile de maio de 1953, os grupos de exilados marcharam com 70.000 partidários
a fim de manifestar sua lealdade ao presidente Arbenz. Ao mesmo tempo, a
Guatemala seguia lutando ativamente contra os ditadores do Caribe. Com a queda
de Arbenz em junho de 1954, os exilados tiveram de fugir da Guatemala. Após a
fuga, Castillo Armas incluiu seus nomes em uma lista de agentes comunistas que
estavam proibidos de regressar à Guatemala. A lista também incluía não
comunistas, como os líderes da AD, e Juan Bosch, do Partido Revolucionario
Dominicano (PRD).
A AD foi a maior e mais bem organizada entidade de exilados da região, sendo
Rómulo Gallegos seu porta-voz no México e Luis Augusto Dubue seu líder na Costa
Rica; e incluiu um Comitê de Coordenação, também dirigido por Dubue. O maior
número de ativistas se concentrava no México, onde mantinham a estrutura
partidária e uma intensa atividade. A Confederação de Trabalhadores da
Venezuela no exílio, sob a direção de militantes da AD, colaborava
estreitamente com o movimento sindical livre na escala internacional. A
juventude da AD dava especial atenção aos assuntos estudantis; entre 1955 e
1957, editaram, no México, um importante periódico, o Venezuela Democrática. A
comunidade celebrava reuniões públicas em homenagem aos mártires sucumbidos
tanto no exílio quanto em território venezuelano. Durante os primeiros quatro
anos e meio de exílio, os dirigentes da AD se preocuparam em assegurar uma rede
de comunicação confiável com seus companheiros de resistência na Venezuela,
dirigindo suas atividades desde o exterior do país e promovendo a causa
venezuelana ante a Organização das Nações Unidas (ONU). O fechamento das
colônias penais em 1949 e em 1952, e a libertação de Valmore Rodríguez (e
outros) do cárcere, em 1949, ocorreram graças às denúncias dos exilados
realizadas perante a ONU. Eles também obtiveram êxito na organização de um
boicote à Conferência da Comissão do Petróleo, da Organização Internacional do
Trabalho, realizada em Caracas em 1955, ocasião na qual importantes sindicatos
se negaram a enviar representantes. A AD também encabeçou uma estratégia de
cooperação com outros partidos opositores no exílio, inspirada tanto na
convicção de que a maré rapidamente se voltaria contra os ditadores quanto na
expectativa do término do mandato de Pérez Jiménez em fins de 1957. A agitação
posterior às eleições livres converteu-se na base para a unificação dos grupos
da oposição venezuelana. Depois de um plebiscito orquestrado a fim de permitir
a permanência de Pérez Jiménez no poder, a arena política tornou-se caótica.
Uma revolta militar contra Pérez Jiménez, em janeiro de 1958, conduziu à sua
eventual destituição. Quando a AD finalmente recuperou o poder, continuou
lutando contra os demais ditadores do Caribe.
As organizações políticas dos exilados eram fruto do exílio. Na República
Dominicana, não houve verdadeiros partidos políticos antes de Trujillo; com a
ascensão do ditador, os partidos políticos não foram mais tolerados. A formação
mais semelhante a um partido político, realizada pelos dominicanos, no sentido
moderno do termo, foi o PRD, fundado em Havana, em 1939, por Juan Bosch e Ángel
Miolán, com filiais em Porto Rico e em Nova York. Outros grupos - todos
fundados no exílio - se haviam fragmentado em porções de seguidores de líderes,
no velho estilo clientelista. À parte os comunistas, somente uma dessas
organizações do exílio perdurou por anos: a Vanguarda Revolucionária
Dominicana, em Porto Rico, fundada em 1956, com filiais no México e em Nova
York. Apesar da ditadura de Batista, sua sede foi mantida em Cuba até 1958,
quando foi trasladada para Caracas. Poucos partidos da esquerda democrática
conheceram o mesmo êxito no exílio, provavelmente porque nenhum deles esteve
tão bem organizado como a AD. Os exilados cubanos estavam profundamente
divididos em certo número de partidos rivais, incluindo o Partido Popular
Ortodoxo e o comunista Partido Socialista Popular. Os autênticos estavam
atomizados em facções e lideranças personalistas, e dificilmente despertavam
simpatia, ao mesmo tempo que muitos cubanos estavam decepcionados com sua
liderança. Não é de surpreender, portanto, que se dedicaram mais a atividades
conspiratórias do que a uma elaboração política partidária. Os exilados da
República Dominicana haviam estado no exterior por mais tempo, alguns desde
1930. Ao exilar-se em 1955, Germán Ornes queixou-se por haver deparado com uma
"aristocracia do exílio", na qual os que estavam no exílio por mais tempo
observavam com receio os recém-chegados e os consideravam colaboracionistas.
Por causa dos contatos transnacionais de Bosch com dirigentes democráticos e
organizações de exilados, foi possível obter fortes denúncias contra Rafael
Trujillo no âmbito internacional. Ainda assim, as atividades dos exilados
dominicanos em Nova York se caracterizavam por serem coalizões instáveis. Seus
protestos e manifestações não podiam demolir a ditadura de Trujillo, porém suas
atividades tiveram importantes efeitos: rechaçaram as demandas de Trujillo por
total submissão e contribuíram para modificar a imagem do ditador nos Estados
Unidos, criando assim uma transformação política. As reações exageradas de
Trujillo às atividades dos exilados provocaram desprezo para com seu governo.
Apesar das divergências entre facções, o PRD desenvolveu uma estrutura
partidária e adquiriu suficiente prestígio para que, chegado o momento, pudesse
oferecer uma alternativa democrática. Ao deixar o exílio, o PRD se livrou de
toda e qualquer suspeita colaboracionista.
A ditadura de Anastasio Somoza García, na Nicarágua, foi outro fator
determinante na criação de grupos de resistência no exílio, sobretudo na Costa
Rica. Em 1953, Pablo Leal usou a Costa Rica como base para a geração de apoio a
seu movimento contra Somoza. De lá se trasladou para Miami, onde Prío Socarrás
se comprometeu a apoiá-lo e lhe deu instruções para estabelecer contato com
seus representantes na Cidade do México. Com a ajuda de Socarrás, armas foram
enviadas à Costa Rica e, finalmente, introduzidas na Nicarágua por meio de
contrabando. Leal viajou então para a Guatemala, onde recrutou nicaraguenses
para a Revolução. No fim de 1953, esses grupos partiram da Guatemala para a
Costa Rica, onde Leal realizou os preparativos finais, incluindo a formação de
um Partido Nacional Revolucionario. Pablo Leal também se reuniu com figuras
como Bosch e Betancourt, e com o cubano Sergio Pérez, que o ajudaram na
aquisição de armas. Dos 21 companheiros que finalmente se juntaram a Leal em
direção à Nicarágua, havia 16 nicaraguenses e cinco de outras nacionalidades. A
expedição resultou na morte de vários, entre eles Amadeo Soler, um amigo do
dominicano Juan Bosch. Rómulo Betancourt foi descrito como o mentor do plano e
foi forçado a partir rumo a um novo local de exílio. Somoza foi assassinado em
1956 por Rigoberto López Pérez, um jovem poeta marxista que estivera exilado em
El Salvador. Isso, somado à solidariedade demonstrada pelos salvadorenhos para
com o assassino de Somoza, fez com que as relações entre Nicarágua e El
Salvador se tornassem tensas. Especialmente forte foi a demanda que a Nicarágua
dirigiu a El Salvador no sentido de que deveria controlar os nicaraguenses
exilados, demandando também a extradição de alguns deles. El Salvador se negou
a extraditar os exilados por questões políticas, reiterando a política de asilo
sempre que as pessoas deslocadas se abstivessem de atividades políticas em seu
território. De maneira similar, nicaraguenses exilados em Honduras se reuniram
nas cercanias da fronteira e, desfrutando de liberdade sob o governo de
esquerda democrática de Ramón Villeda Morales, planejaram a invasão à sua
pátria. Não obstante, as atividades dos exilados antissomozistas não
correspondiam exatamente aos interesses dos anfitriões, daí que o governo
hondurenho veio a internar os possíveis invasores e a tomar medidas para
deportá-los para a Guatemala a fim de impedir que tomassem parte na
insurgência.
Os países da América Central e do Caribe entraram na Guerra Fria com várias de
suas esferas políticas em estado de agitação. A dinâmica política se
caracterizou então por oscilações periódicas entre democracia e ditadura, e
entre a redefinição das linhas da adaptação e a geração de fluxos de exilados
políticos. Por diferentes razões, o México e a Costa Rica se converteram em
locais de asilo. A Guatemala o foi até o golpe de 1954; a Venezuela, após o
retorno à democracia em 1958. As embaixadas da Colômbia também foram
fundamentais para a concessão de asilo a muitos que aspiraram se exilar, pois,
apesar da violência que irrompeu nesse país no fim da década de 1940, tratava-
se de uma região cuja democracia se fez presente. Cuba desempenhou um papel
ambíguo atuando como país de acolhida para os exilados da América Latina ao
mesmo tempo que gerava ondas de exilados entre seus próprios cidadãos. Da mesma
forma, enquanto perseguia a oposição política e se considerava uma força de
vanguarda na luta contra o comunismo, a ditadura de Trujillo, na República
Dominicana, acolheu exilados variados, inclusive refugiados da Guerra Civil
Espanhola (1936-1939), refugiados judeus da Europa, que tentavam escapar da
barbárie nazista - os quais poucos países estavam dispostos a aceitar -, e
mesmo presidentes depostos, como no caso de Perón na década de 1950. O próprio
Rafael Trujillo alegou, orgulhoso, ser o arquiteto de uma doutrina diplomática
de asilo humanitário, baseada na alternativa de refúgio que ofereceu a judeus
que escapavam da Europa (Kaplan, 2008).
Devemos reconhecer que tanto os países autoritários quanto os democráticos
promoveram uma política ambígua em relação ao exílio e ao asilo. Embora os
países autoritários tenham sido os que tipicamente usaram esse mecanismo de
exclusão no que tange às oposições políticas, eles também ofereceram asilo a
habitantes de outros países. De maneira similar, administrações democráticas,
como as da Costa Rica e do Chile - que ofereceram refúgio a exilados políticos
de outros países da Ibero-América -, também utilizaram a expulsão como meio de
acertar contas com suas oposições. Na Costa Rica, por exemplo, José Figueres,
um político e empresário econômico, viu-se obrigado a exilar-se no México entre
1942 e 1944 por causa de sua crítica ao democraticamente eleito presidente
Rafael Ángel Calderón. No México, Figueres se uniu a um grupo de políticos de
outros estados ibero-americanos em situação similar a fim de formar a Legião do
Caribe, uma rede transnacional que conspiraria contra governos da República
Dominicana, da Venezuela, da Nicarágua e da Costa Rica. As políticas de
Calderón de expropriação de bens alemães no contexto da Segunda Guerra Mundial
alienaram os produtores de café de origem alemã, bem como muitos conservadores
que apoiavam Figueres. Em 1948, uma situação de polarização política e de
resultados eleitorais impugnados resultou em uma curta, porém sangrenta, guerra
civil. Quando Figueres tomou o poder, encabeçando uma junta de governo,
Calderón foi quem se viu obrigado a fugir rumo ao exílio, trasladando-se para a
Nicarágua e logo para o México, onde permaneceu por quase uma década.
Durante o período estudado, a dimensão transnacional de redes de solidariedade
já é um fator emergente, mas ainda está submetida a uma estrutura básica
tríplice de pressões e de contrapressões entre os países expulsores, os países
receptores e as redes de exilados que se trasladaram para o exterior para
reativar sua capacidade de luta contra os governos que forçaram o desterro. Uma
geração mais tarde, já nas etapas avançadas da Guerra Fria, a dimensão
transnacional adquire maior amplitude na equação do exílio ibero-americano.
A FUNCIONALIDADE CAMBIANTE DO EXÍLIO NA GUERRA FRIA
Quando os países tiveram de enfrentar a falta de um modelo viável de
desenvolvimento, a mobilização de massas, a polarização política e o dilema de
levar a cabo reformas ou expor-se às ameaças revolucionárias, viram-se acuados
pelas antinomias da Guerra Fria e das doutrinas de segurança nacional, que
transformaram toda a região em um cenário de violência generalizada e de
exclusão política. Com a intensificação dos enfrentamentos nos anos 1960 e
1970, ampliou-se o uso do exílio político como mecanismo de exclusão forçada,
cada vez mais e mais comum. Os exilados políticos ibero-americanos dispersaram-
se então por toda a Ibero-América, Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental,
bloco comunista e mesmo por localidades em países distantes, como Israel,
Argélia, Serra Leoa, Austrália e Moçambique4.
Levou tempo até que os governantes autoritários, no poder em distintos países
da América Latina durante a Guerra Fria, compreendessem a profunda
transformação que se operava na funcionalidade do exílio. No início, os
governos de fato continuaram abusando do exílio como mecanismo
institucionalizado de exclusão política, pensando que os cidadãos expulsos, ou
que escaparam para o exterior, seriam relegados a uma exclusão permanente da
política nacional, o que equivaleria a uma morte social e política dos
desterrados, complementando assim a desaparição física nos casos em que esta
não se viabilizava.
Do ponto de vista dos repressores, o exílio deveria operar um corte definitivo
entre os indivíduos desterrados e a política do país de origem. Os governantes
autoritários supuseram que, sendo eles parte de uma coalizão mundial de luta
aberta contra o comunismo internacional e seus aliados, poderiam suprimir toda
oposição usando métodos repressivos, o ostracismo e o desterro, como no
passado, com certa impunidade e imunidade a críticas no exterior, críticas que
eles poderiam desvirtuar mediante uma política de desinformação nos fóruns
internacionais.
Conforme visto, o exílio havia funcionado tradicionalmente sob uma estrutura
tríplice, baseada na interação entre as estratégias de exclusão e as pressões
exercidas pelos países expulsores, os países anfitriões e as estratégias dos
exilados, frequentemente à mercê dos governos do país de asilo. O peso dos dois
primeiros fatores refletiu por muito tempo a centralidade dos estados
consolidados que, dentro de suas fronteiras, promoviam a consciência nacional
por meio da educação, da manipulação simbólica, da administração pública e do
serviço militar. Essa estrutura triangular do exílio, presente desde a
independência, havia persistido enquanto os estados-nação continuavam sendo os
principais atores no cenário internacional, traçando assim diferenciações
claras entre as identidades coletivas de colombianos, argentinos, mexicanos,
brasileiros, peruanos e as de outras nacionalidades. O conceito de uma "grande
pátria" de bases bolivarianas não havia desaparecido, porém persistia às
margens da esquerda e da direita, havendo de recuperar-se parcialmente no
exílio, no contexto das campanhas de solidariedade e do redescobrimento do
destino comum compartilhado com cidadãos originários de outros países da
América Latina.
Essa estrutura básica sofreu uma transformação radical na segunda metade do
século XX, quando as redes transnacionais passaram a atuar como quarto fator,
detentor de crescente peso na equação do exílio. Tratou-se de um
reposicionamento dos exilados na esfera pública mundial, o que resultou cada
vez mais significativo dentro da equação exílica, já que os exilados e as redes
de solidariedade internacional se converteram em um dos fatores de maior
visibilidade do processo de ampliação do alcance do direito internacional
humanitário e da proteção dos direitos humanos a nível global.
Essa tendência resultou, parcialmente, da evolução do caráter transnacional da
repressão, que, no contexto dos entendimentos da Operação Condor, chegou ao
ponto de assassinar opositores em entornos bastante distantes de seu país de
origem, como no célebre caso do assassinato do ex-ministro chileno de Relações
Exteriores Orlando Letelier e de sua secretária, Ronni Moffitt, cidadã norte-
americana, em 21 de setembro de 1976 em Washington, D.C.; assassinato
orquestrado pela Dina (Dirección de Inteligencia Nacional) chilena. A Operação
Condor se estenderia para muito além das fronteiras de cada país da América
Latina como desdobramento natural da impossibilidade de conter a oposição
política tão somente mediante sua exclusão das esferas públicas nacionais. Uma
vez que o terror e o medo à perseguição se haviam expandido para além das
fronteiras nacionais, os exilados foram capazes de se beneficiar das redes de
solidariedade internacional projetando para o exterior a questão da repressão e
do exílio, e contribuindo para a sensibilização do grande público no
desenvolvimento de um espaço de ativismo transnacional. A contrapartida dessa
onda de ampliação da perseguição política foi a internalização dos princípios
dos direitos humanos promovida por organizações internacionais no cenário
mundial.
Foram fundamentais para essas mudanças organizações como a ONU, a Anistia
Internacional, o Conselho Mundial de Igrejas, a Igreja Católica, o ACNUR, a
Organização Internacional para as Migrações, a Cruz Vermelha, o Parlamento
Europeu e as comissões parlamentares de direitos humanos do mundo inteiro, as
associações internacionais de partidos políticos, como a Internacional
Socialista e a Internacional Popular, ou Democrata-Cristã, os partidos irmãos
em outros países, as confederações de sindicatos nacionais e internacionais, e
uma miríade de organizações não governamentais que se concentraram na defesa
dos direitos humanos no exterior de suas fronteiras nacionais. Essa
infraestrutura permitiu a rápida criação de uma densa rede de comitês de
solidariedade para com as vítimas da repressão que fugiam da perseguição na
Ibero-América. No denso cenário organizacional e de redes instrumentais dessa
transformação, participaram também associações civis e comitês de solidariedade
na Europa e nos Estados Unidos; funcionários nesses países; algumas das
administrações de países desenvolvidos interessadas em censurar violações
flagrantes de direitos humanos; as redes políticas de apoio aos perseguidos
políticos; representantes de poderosos meios de comunicação de impacto
internacional, tais como o Washington Post e o New York Times; as comissões
internacionais interessadas, como a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, com sede em San José da Costa Rica, ou o ACNUR e seus organismos de
apoio nacionais, registrando o fluxo massivo de exilados e refugiados ibero-
americanos na Europa e em outros países. Em particular, protagonizaram um papel
decisivo as organizações de direitos humanos nacionais e transnacionais, como a
Anistia Internacional e a Americas Watch, que vieram a ganhar maior
visibilidade e respeitabilidade, podendo assim contestar de forma crescente as
duvidosas explicações oferecidas pelos estados autoritários quanto a seu
desempenho humanitário.
A cristalização de uma esfera pública internacional aberta ao que outrora foram
considerados "assuntos internos", a serem resolvidos pelos próprios estados e
em caráter da soberania nacional, permitiu a sensibilização da opinião pública
mundial. Isso gerou pressões em múltiplas direções, inimaginadas pelos
governantes da Ibero-América até então. Assim, a esfera pública internacional
se tornou um aspecto crucial adicional no jogo de forças entre os exilados
políticos, os países de asilo e os intentos de repressão promovidos pelos
países expulsores. Teoricamente, a nova dinâmica do exílio massivo operou na
contramão do monopólio dos estados-nação, ao reduzir a pretensão dos estados
por direitos soberanos enquanto, simultaneamente, o âmbito internacional e
mundial se sensibilizava quanto à proteção dos exilados e à sua autonomia em
termos de influência política transnacional.
Esse processo se acelerou após o golpe de estado no Brasil em 1964, tal como o
analisa James Green (2003), focalizando-se no movimento de solidariedade norte-
americano. Os altos e baixos desse movimento estão estreitamente vinculados às
questões centrais da política dos Estados Unidos. Foi grande o interesse em
apoiar os exilados no final da década de 1960, especialmente entre os
intelectuais, os estudantes e o clero, interesse intimamente conectado com a
oposição à guerra no Vietnã. Na década de 1970, com a derrota eleitoral de
George McGovern e o começo da retirada dos Estados Unidos do Vietnã em 1973, o
movimento antiguerra perdeu ímpeto, o que também se refletiu na perda de
interesse pelo caso brasileiro. Não obstante, o trabalho em torno do caso
brasileiro fixou as bases para o movimento de solidariedade para com o Chile,
depois do golpe de Pinochet. Reavivou-se então o interesse pela situação na
América Latina. Segundo Green, o caso Watergate e as investigações da comissão
parlamentar do senador Frank Church, com respeito aos esforços de Washington
para desestabilizar o governo de Allende, trouxeram à tona a profundidade da
corrupção da administração de Nixon e proporcionaram um amplo espaço de debate
sobre a política de direitos humanos na América Latina5. O golpe de Pinochet
contra o governo constitucional de Salvador Allende foi um importante foco de
reativação da atividade de protesto, impactada pelo enorme sofrimento dos
chilenos em busca de asilo nas embaixadas de Santiago, de maneira que, uma vez
deslocados para o exterior, pudessem reavivar as redes de solidariedade com os
exilados em sua luta pela restauração da democracia e contra as violações
dos direitos humanos cometidas pela ditadura. Não menos fundamental na
reconstrução da cena internacional foi o impacto da descredibilização das
políticas de negação e perseguição de seus cidadãos pelos militares argentinos.
Ainda que as autoridades argentinas tenham enveredado por uma política
sistemática de desinformação e negação de violações de direitos humanos,
alegando que o tema dos desaparecidos era resultado de mentiras difundidas
pelas redes de conspiração vinculadas ao comunismo internacional, a crescente
evidência, na forma de uma densa rede de críticos nos âmbitos internacional e
transnacional, modificou radicalmente o equilíbrio político e discursivo, para
benefício dos exilados. Tal dinâmica - reproduzida em diferentes países e em
fóruns internacionais, e sustentada por redes na sociedade civil global - fez
com que a sorte dos cidadãos perseguidos se tornasse motivo de preocupação para
a comunidade internacional (Roniger e Sznajder, 2004).
Aqueles que de fato governavam nos países ibero-americanos se viram obrigados
com cada vez mais frequência a afirmar que eram os mais ardentes defensores dos
direitos humanos, reforçando de forma paradoxal a normatização de dito
discurso, que veio a se destacar por sobre os demais discursos hegemônicos da
soberania nacional, ao menos no nível declaratório. Como consequência dessa
transformação, a difícil situação dos exilados passou a ser seguida de perto e
examinada, e suas demandas por justiça não puderam ser ignoradas. A partir de
então, os exilados encontraram maior receptividade e espaços políticos onde
puderam potencializar seu ativismo a favor do fim dos regimes autoritários, da
restauração da democracia e, em alguns casos, da demanda por investigação
completa sobre o histórico das violações de direitos humanos cometidas pelas
ditaduras.
CONCLUSÃO PROGNÓSTICA
Na última década do século XX, em face do novo cenário da "terceira onda de
democratização" e da transformação do cenário internacional e transnacional,
parecia que o exílio, como mecanismo de exclusão amplamente usado por governos
autoritários, havia chegado a seu fim.
Não obstante e de maneira paradoxal, as duas últimas décadas têm revelado que o
exílio continua presente nas novas democracias sob duas formas principais. Uma,
derivada de ameaças e de repressão contra jornalistas investigativos e
intelectuais. Os jornalistas e intelectuais que, em virtude da democracia, se
atreveram a criticar funcionários públicos e dignitários têm sido
particularmente sensíveis à perseguição. Dentre os casos conhecidos se destaca
o da escritora e jornalista chilena Alejandra Matus, obrigada a escapar para o
exterior em abril de 1999, após a publicação de El Libro Negro de la Justicia
Chilena. O presidente da Corte Suprema, Servando Jordán, apresentou acusações
contra Alejandra afirmando, com base na Lei de Segurança do Estado - herdada do
regime militar -, que a crítica contida no livro constituía um "delito contra a
ordem pública". Consequentemente, a obra foi confiscada, e Alejandra, que havia
recebido ameaças de morte na década de 1980, fugiu para Buenos Aires,
estabelecendo-se mais tarde nos Estados Unidos, onde lhe foi concedido o asilo
até o Chile aprovar uma nova lei de imprensa em 2001 (Libertad de Prensa,
2006). A nova legislação permitiu que a jornalista regressasse do exílio nos
Estados Unidos e retomasse sua carreira no Chile. Não obstante, Alejandra teve
de seguir lutando pela liberdade de imprensa. Em 2003, abdicou de colaborar
para o jornal La Nación depois de que este se negou a publicar uma de suas
notas investigativas sobre um caso de suposta corrupção envolvendo a diretoria
do Instituto de Desenvolvimento Agrícola e Pecuário (International Development
Research Center, 2008).
Similar foi o caso de Baruch Ivcher Bronstein, presidente da Junta de Diretores
e dos acionistas majoritários da rede de televisão Frecuencia Latina-Canal 2,
no Peru. Ao confrontar elementos do poder com suas notas investigativas, Ivcher
perdeu a rede de televisão, foi para o exílio em Miami e continuou sua luta
ante organizações internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos e o Banco Mundial, que, por sua vez, bloqueou um empréstimo para o Peru
em virtude da restrição à liberdade de imprensa nesse país. Em represália, o
governo peruano ordenou a detenção de colaboradores próximos e abriu uma causa
judicial contra Ivcher e seu irmão, por acusação de evasão fiscal relacionada
aos anos de 1992-1995. Apesar de o governo peruano ter apresentado um pedido de
detenção à Interpol, a suspeita de perseguição política impediu seu
processamento. Finalmente, depois da queda de Alberto Fujimori e de Vladimiro
Montesinos do poder, e da revogação dos julgamentos pendentes pelo Congresso
peruano, Ivcher regressou a Lima no final do ano 2000 para reunir-se à sua
esposa e filhas, e retomar sua posição na rede de televisão.
O segundo módulo gerador de exílio massivo sob democracias tem tido lugar em
contextos de mudança radical, levada a cabo em situações de pressão sobre a
oposição e/ou de radicalização de uma retórica polarizadora, como no caso do
Peru, no governo de Alberto Fujimori, ou da Venezuela, no de Hugo Chávez. A
onda de expatriação venezuelana, por exemplo, tem praticamente duplicado o
tamanho da diáspora venezuelana nos Estados Unidos, a qual, de acordo com dados
do censo desse país, passou de um número de 91.507 em 2000 - um ano após Chávez
tomar posse de seu cargo - para 177.866 em 2006 (Semple, 2008). De maneira
similar, existe uma diáspora peruana composta de exilados e de migrantes
econômicos no Chile, que veio a aumentar em consequência de uma situação de
fechamento de espaços políticos e de crise econômica no Peru. Especificamente,
isso foi resultado de processos que amadureceram durante a década de 1980,
expressando-se nos primeiros anos da década seguinte: a hiperinflação e a
dívida externa de 1980 a 1992, a guerra civil do estado peruano contra o
Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru, entre 1980 e 1996, e
o golpe de estado de Fujimori em abril de 1992 (Luque Brazán, 2009).
Tudo isso sugere a importância de uma análise futura a respeito da relação
entre democracia e exílio, bem como estudos sobre a complexa e constantemente
ambígua relação entre exílio e migração econômica.
NOTAS
1. Em 1829, Hendrik Provó Kluit, em De deditione profugorum, afirmou o direito
de asilo político ao excluir dos tratados de extradição as pessoas perseguidas
politicamente.
2. Anos mais tarde, Peru e Colômbia seguiriam enfrentando as ações de
guerrilhas, como o Sendero Luminoso ou as Farc (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia), e o ELN (Exército de Libertação Nacional). O complexo do
narcotráfico, a delinquência, a guerrilha, a contrainsurgência e os
paramilitares seguiriam acossando a sociedade colombiana, enquanto, na tensa
situação em Chiapas e nos Andes, durante as décadas de 1990 e 2000, seriam
evitados os efeitos colaterais da violência no âmbito de um contexto
internacional cambiante.
3. A análise dos exilados no Caribe e na América Central se baseia sobretudo em
Ameringer (1974, especialmente pp. 161-221; 1996).
4. Para o caso dos exilados brasileiros, ver Rollemberg (1999); Viz Quadrat
(2004); e Prestes Massena (2009).
5. Ver Green (2009).