Transição, consolidação democrática e revolução capitalista
A democracia e regimes democráticos consolidados são um fenômeno do século XX,
um século liberal, em que os direitos civis eram assegurados, mas os direitos
políticos expressos no sufrágio universal estavam ainda ausentes. Hoje, a
democracia é a forma de governo predominante, está consolidada nos países
desenvolvidos, e tende a se consolidar nos países de rendamédia. Ademocracia
tornou-se um valor político tão forte que ninguém a questiona. Cidadãos,
acadêmicos e políticos estão sempre criticando seus governos e instituições e
têm diferentes ideias normativas sobre a democracia e sobre como aperfeiçoá-la;
mas há um consenso tão amplo sobre as virtudes da democracia e os males dos
regimes autoritários, e a democracia tem sido a forma de governo estabelecida e
preferida há tanto tempo, que ela é geralmente vista como consolidada. Esse
consenso, no entanto, é tão recente quanto a própria democracia moderna. Países
avançados tornaram- se verdadeiras democracias somente no século XX, quando os
pobres e as mulheres finalmente conquistaram o direito de votar e de
seremeleitos. Por que a democracia se tornou a forma de governo predominante
tão tardiamente na história? Por que, desde os gregos, os filósofos preferiram
alguma forma de monarquia ou de aristocracia à democracia? Reconheço que não há
respostas simples para essas questões. Mesmo assim, apresentarei algumas
respostas compatíveis com as observações históricas e comas exaustivas
pesquisas empíricas realizadas por outros cientistas políticos sobre o assunto.
Vivemos emsociedades capitalistas, nas quais, no curto prazo, uma classe
dirigente ameaçada pode escolher um regime autoritário; mas, em uma economia de
mercado, na medida em que os capitalistas não precisem controlar o governo para
sobreviver, eles se tornarão, de início, menos resistentes e, finalmente,
favoráveis às demandas da população por democracia.
Neste trabalho, meu argumento é o de que foi a remoção histórica de dois vetos
que a classe capitalista impunha à democracia que explicam as transições e,
principalmente, as consolidações democráticas. Primeiro, argumento que, depois
da revolução capitalista, a nova classe dirigente abandonou o veto que as
antigas oligarquias militares e religiosas faziam à democracia porque a
apropriação do excedente econômico deixara de depender do controle do Estado, e
passava a ser o resultado da realização de lucros domercado.Emsegundo
lugar,mostro que, durante todo o século XIX, o medo da expropriação, pelos
pobres, que atormentava a burguesia foi gradualmente desaparecendo, e esta
acabou aceitando o sufrágio universal. Depois que essas duas condições
históricas foram satisfeitas, as preferências se modificaram: a democracia, que
era uma demanda dos pobres ou dos trabalhadores, passou a ser racional para a
burguesia e para a emergente classe profissional. Em outras palavras, a
ascensão do capitalismo e do sistema liberal abriu caminho para que a
democracia se tornasse, no século XX, o equivalente do "bom Estado": a forma de
governo mais compatível com a estabilidade política e com a conquista dos
outros objetivos políticos das sociedadesmodernas.Os caminhos oumecanismos que
levaramà democracia variaram historicamente de país para país, mas as duas
condições necessárias para as democracias consolidadas foram, em primeiro
lugar, a revolução capitalista, que deslocou do Estado para o mercado o cenário
da apropriação do excedente e, em segundo lugar, a gradual percepção, pela
burguesia, de que o sufrágio universal não a levaria a ser expropriada pela
classe trabalhadora.
O método que uso aqui é histórico-estruturalista, em vez da abordagem
personalista que enfatiza pessoas e lideranças, ou, então, o método que supõe a
escolha racional. Nos termos da tradição da sociologia política e da política
comparativa, estou interessado em generalizar a partir da experiência empírica
ou histórica. Para explicar um fenômeno político novo - no caso, a democracia
moderna - utilizo o "método do fato histórico novo", no qual o pesquisador deve
procurar novos eventos que tenham alterado a realidade social em estudo. O
pressuposto é o de que só se pode explicar a transição e a consolidação
democráticas com fatos históricos novos. Somente a posteriori, depois de
encontrar esses fatos históricos novos que alteraram o objeto em estudo, é que
posso buscar as motivações racionais que estão por trás deles, pois as novas
condições podem ter tornado racional um comportamento político anteriormente
não-racional. A consolidação da democracia exige a combinação da busca de fatos
históricos novos com o exame a posteriori dos mecanismos sociais racionais
subjacentes1.
A VISÃO DOS FILÓSOFOS
No mundo antigo, a visão normativa sobre o bom regime político era clara: ele
deveria ser monárquico ou aristocrático, não democrático. O máximo que se podia
aceitar era o "regime misto" de Aristóteles, no qual alguns aspectos da
democracia se combinavam com o regime autoritário. Como o principal objetivo
político dos filósofos era a ordem social ou a segurança, eles eram ou
francamente autoritários, como Platão, ou moderados, como Aristóteles e
Políbio, que estavam preocupados em equilibrar os ricos e os pobres em nome da
estabilidade e da justiça. Ademocracia, por si só, era perigosa, sujeita a
facções, instabilidade e corrupção. Atualmente, a antiga democracia grega não
pode ser considerada como uma verdadeira democracia, tendo em vista a exclusão
das mulheres e dos estrangeiros e a existência de escravos. Mas foi um
desenvolvimento político extraordinário-assim como acivilização grega como um
todo foi um fenômeno histórico excepcional. Na república romana algumas das
características da democracia grega estavam presentes, mas de modo limitado.
Somente muitos séculos depois, com as grandes revoluções na França e nos
Estados Unidos, inspiradas, como mostrou Pocock (1975), na democracia grega e,
especialmente, no republicanismo romano, é que a democracia voltou, mais uma
vez, às mentes das pessoas como uma possibilidade. Mas essas seriam, antes,
revoluções liberais do que democráticas: elas dão prioridade à proteção dos
direitos civis e ao estado de direito sobre a afirmação dos direitos políticos,
particularmente o sufrágio universal2. Após a democracia grega e a república
romana, que ofereceram oportunidades para o pensamento político criativo, a
ideia do bom regime político reapareceu entre os séculos XIII e XV, no Norte da
Itália, sob a forma das cidades-Estado republicanas. A política-a arte de
governar por meio da discussão e do compromisso, e não simplesmente pelo uso da
força-começou, gradualmente, a reaparecer. A política reapareceu nas cidades-
Estado mercantis italianas com os humanistas republicanos e, particularmente,
com seu principal representante, Maquiavel. Após muitos séculos, em uma
determinada região do mundo, os tempos eram adequados para fazer e pensar a
política. Mas, com o surgimento dos modernos Estados nacionais sob a forma de
monarquias absolutas, essas oportunidades para a política e para o pensamento
político pareceram se enfraquecer. Não exatamente. A Reforma mudou a Europa, em
termos políticos e culturais. Por outro lado, considerando que os Estados-nação
que estavam surgindo eram o resultado de uma aliança política do monarca com a
burguesia emergente, os membros desta classe social começaram a participar da
criação de novas instituições. Finalmente, com as revoluções norte-americana e
francesa, não apenas a fortuna dos mercados, mas também a época da política e
do pensamento político ganharam um novo impulso.
Com a industrialização, a revolução capitalista se completou na Inglaterra, e,
logo depois, na França e nos Estados Unidos. A nova economia de mercado exigia
um regime político não arbitrário: um Estado liberal, que respeitasse os
direitos de propriedade e os contratos e no qual prevalecesse o estado de
direito, mas não necessariamente um Estado democrático. Os filósofos políticos
estavam ainda longe da democracia; eles viviam em monarquias absolutas e,
realisticamente, viam o Estado liberal ou constitucional como uma alternativa.
Surgiu uma nova geração de filósofos políticos esclarecidos ou liberais. O
liberalismo é originalmente a ideologia da burguesia, mas envolvia um leque de
interesses mais amplo. É bem conhecida a esclarecedora teoria de Barrington
Moore (1966) que relacionou o liberalismo e a democracia ao aparecimento da
"gentry" (pequena nobreza) - um numeroso estrato de proprietários situado
abaixo da aristocracia e acima dos ricos camponeses e da nova burguesia. Depois
do primeiro grande liberal, Locke, os pensadores liberais foram monarquistas
constitucionais. O liberalismo não era uma alternativa à monarquia, mas uma
forma de limitar constitucionalmente os poderes do monarca. Com as revoluções
norte-americana e francesa, a ideologia liberal tornou-se dominante, e a
palavra "democracia", há muito esquecida, voltou ao debate público. Na
Revolução Francesa em particular, houve um projeto democrático radical que se
mostrou contraproducente nas mãos dos Jacobinos. Ha-bermas (1988: 465),
escrevendo sobre a Revolução Francesa e sobre a dialética entre liberalismo e
democracia, ressalta que "democracia e direitos humanos formam o núcleo
universalista do estado constitucional que emergiu das Revoluções norte-
americana e francesa em diferentes variantes". No entanto, esse núcleo
universalista levaria um século para se tornar realidade. Depois das duas
revoluções, os liberais costumavam identificar a democracia com os piores
excessos da Revolução Francesa, ou com a ditadura da maioria. À luz de sua
experiência histórica, filósofos políticos liberais - como, por exemplo,
Benjamin Constant - continuaram hostis à democracia, que acarretaria
instabilidade e desordem, demonstrando, assim, a inerente incapacidade do povo
de governar. Mesmo Rousseau, que é geralmente associado à democracia, não era
realmente a favor da democracia moderna, isto é, representativa. Sendo um
cidadão da cidade-Estado republicana de Genebra, ele acreditava apenas na
democracia direta. No caso de grandes impérios, ou mesmo Estados-nação, ele
tinha a mesma visão de Montesquieu: o governo era muito mais complexo e
difícil, e não havia alternativa a algum tipo de despotismo. O critério básico
que distingue os regimes liberais dos regimes liberal-democráticos - a inclusão
das mulheres e dos pobres como cidadãos - não seria aceito por Rousseau. Como
observa Dahl (1989: 123) :
Ali [no Contrato Social] Rousseau ocasionalmente parece estar
afirmando um direito irrestrito a ser membro do demos. Rousseau deixa
claro que não é isso que ele pretende. No entanto, elogia Genebra,
mesmo se seu demosfosse composto de apenas uma pequena minoria da
população. As crianças estavam, evidentemente, excluídas. Mas as
mulheres também. E o pior: a maioria dos homens adultos também estava
excluída do demosde Genebra.
Os liberais, que haviam sido os filósofos políticos predominantes desde o
século XVIII, apoiaram a democracia somente no século XX. Antes, eles atemiam:
temiam que os pobres expropriassem os ricos e causassem desordem. Só gradual e
lentamente eles foram aceitando a política dos políticos democráticos de dar ao
povo direito de voto. Uma razão para isso, de acordo com Bobbio (1991: 26), foi
o clássico conflito entre razão e democracia.
Na grande tradição do pensamento político ocidental que começou na
Grécia, a avaliação da democracia, considerada como uma das três
formas ideais de governo, era predominantemente negativa: uma
avaliação que se baseia no pressuposto de que o governo democrático,
mais do que os outros, é dominado por paixões. Como se pode ver,
exatamente o oposto da razão.
Na segunda parte do século XIX, porém, as coisas começaram a mudar. Para a
economia de mercado, um regime político liberal não era suficiente para
proteger os direitos de propriedade e os contratos. A democracia, que costumava
ser uma palavra pejorativa, passou gradualmente por uma transformação. Em
meados do século XIX, John Stuart Mill, seguindo indicações já existentes nos
trabalhos de Jeremy Bentham e de seu próprio pai, James Mill, foi um dos
primeiros grandes filósofos a endossar a democracia3. De acordo com Macpherson
(1966: 1-2, 9), a pressão daqueles que não tinham voto, mas eram parte do
processo de mercado, tornou-se irresistível; por outro lado, escrevendo em
meados dos anos 1960, ele observou que "democracia costumava ser um palavrão
[...]. Depois, em cinquenta anos, a democracia passou a ser uma coisa boa. Sua
plena aceitação nas fileiras da respeitabilidade ficou evidente na época da
Primeira Guerra Mundial. "
BREVE LEVANTAMENTO DA LITERATURA
A teoria que esboço neste trabalho vincula a democracia ao desenvolvimento
capitalista e, mais especificamente, à revolução capitalista. Uma longa
tradição de pesquisa e pensamento sobre as transições democráticas que começa
com Lipset (1959) e Cutright (1963) usa uma abordagem histórica e estrutural
associada à teoria da modernização e à política comparativa. O clássico
trabalho de Lipset sobre desenvolvimento e democracia mostra que quanto mais
avançada for uma economia, mais democrática ela tenderá a ser. Lipset usa a
teoria da modernização e ressalta a importância da educação - que é, sem
dúvida, importante, mas não o bastante para explicar por que a democracia se
tornou a forma preferida de governo somente no século XX. Na verdade, seu
trabalho seminal estabelece uma correlação, não uma conexão causal. Uma série
de outros estudos confirmou a descoberta original de Lipset, mas permaneceu
inconclusiva em relação à causa subjacente. O estudo posterior de O'Donnell,
Schmitter e Whitehead (1986) apresentou uma abordagem alternativa, enfatizando
as particularidades de cada país, as pessoas ou lideranças políticas e as
divisões, dentro das elites autoritárias, entre os softliners (moderados) e os
hardliners (linha dura). Assim como este trabalho critica a abordagem da
escolha racional, que é hipotético-dedutiva e ignora a história, também critica
esta segunda alternativa, que vê a democracia como resultado de mudanças nos
pro-cessos políticos e nas lideranças politicas. A primeira é geral demais, a
segunda carece de generalidade e poder explicativo; e ambas deixam de
considerar as causas estruturais e culturais subjacentes às mudanças nas
instituições. Ambas as abordagens derivam do trabalho de Dankwart Rustow, de
1970, sobre as transições, que criticou a hipótese correta segundo a qual as
causas da democratização são também as causas da consolidação. Rustow criou
assim espaço para a escolha ou atuação ("agency"); mas esse tipo de abordagem
ou leva a modelos racionais abstratos, como os usados no pensamento econômico
neoclássico, no qual a escolha se torna simples maximização, ou termina em
estudos caso a caso, e a previsibilidade se anula. Em lugar disso, este estudo
oferece novas contribuições para a primeira tradição de pensamento, que também
é parte da política comparativa, mas busca determinantes estruturais da ação
social e política. É um estudo na linha das abordagens de Lipset (1959),
Barrington Moore (1966), Dahl (1971), Huntington (1991), e Rueschemeyer,
Stephens e Stephens (1992: 8), que buscam as forças estruturais existentes por
trás das transições e consolidações democráticas4. Os últimos citados enfatizam
mais do que eu o papel dos pobres na conquista da democracia (o fato de lutarem
por ela não significa que a causem), mas fazem uma análise de classes precisa
eesclarecedora:
A classe trabalhadora foi a força mais consistentemente pró-
democracia [...]. As classes altas dos proprietários de terra, que
dependiam de uma ampla oferta de mão-de-obra barata, foram a força
mais consistentemente antidemocrática. Verificamos que a burguesia em
geral apoiava a instalação do regime constitucional e representativo,
mas se opunha à ampliação da inclusão política para as classes
inferiores.
Mas, como Rueschemeyer, Stephens e Stephens observam, "as forças causais que
estão por trás do relacionamento entre desenvolvimento e democracia permanecem,
na verdade, em uma caixa preta" (ibidem: 29). De fato, o desenvolvimento
capitalista e a democracia aparecem juntos, mas não há uma clara explicação
para isso. Este trabalho oferece uma contribuição para a abertura dessa caixa
preta em relação às transições e, principalmente, em relação à consolidação
democrática. Atransição democrática pode seguir diferentes caminhos, mas que, a
partir do momento em que a revolução capitalista ou industrial se complete em
um país e a transição democrática ocorra, a probabilidade de que ele recaia no
autoritarismo é muito pequena ou nenhuma. Antes da revolução capitalista, os
países podem se tornar democráti-cos por imitação, ou sob pressão externa, mas
isso garantirá uma democracia instável; depois dela, outros países podem
continuar autoritários durante algum tempo; mas, a partir do momento em que a
economia de um determinado país se torne uma economia coordenada pelo mercado
em lugar de ser coordenada pelo Estado, que surja uma ampla classe média e que
esse país se torne democrático, sua democracia estará consolidada.
Eu sei que não há uma definição "operacional" da revolução capitalista - que é
difícil dizer quando um país já formou seu Estado-nação e realizou sua
revolução industrial. Sabemos que quando isto acontece o país passa a contar
com uma ampla classe de empresários, de trabalhadores, e de uma nova classe
média profissional. Que, então, o excedente econômico deixa de ser apropriado
por meio do controle do Estado para sê-lo mediante lucros e, mais tarde, também
por intermédio de ordenados elevados. Mas não creio que devamos pedir
definições operacionais precisas de papersque consideram la longue durée.
Esteéumtrabalho teórico, não um trabalho empírico, no qual eu apresento um
modelo de revolução capitalista para explicar a transição e a consolidação
democrática. E, naturalmente, além de considerar a experiência histórica, faço
uso de pesquisas sobre o tema realizadas por notáveis cientistas políticos.
DOIS CONCEITOS: DEMOCRACIA E REVOLUÇÃO CAPITALISTA
É hora de deixar claro o conceito formal de democracia que estou usando neste
trabalho. É o regime político constitucional em que todos os cidadãos adultos
votam (sufrágio universal), as eleições são livres e regulares e a constituição
garante o estado de direito, envolvendo liberdade de associação, de expressão e
de informação, e proteção aos direitos das minorias. Em outras palavras,
entendo como democrático um regime político que satisfaça minimamente os
critérios de Dahl que definem uma poliarquia (1971; 1989: 233) 5. No século XX,
a democracia ou poliarquia tornou-se finalmente predominante nos países
economicamente mais avançados, depois de eles terem adotado o último e mais
controvertido elemento da definição de democracia: o sufrágio universal. O
Quadro_1 apresenta os primeiros países a adotarem o sufrágio universal até os
anos 1940. O primeiro foi a Nova Zelândia, em 1893. A adoção do direito
universal de voto não significava que um país tivesse completado sua transição
para a democracia, mas na maioria dos países avançados foi exatamente isto o
que ocorreu. Esses países eram regimes constitucionais ou de estado de direito
há muito tempo. A liberdade de pensamento e de associação, além de eleições
regulares, também já existiam há algum tempo. Quando os proletários e as
mulheres tiveram finalmente direito a voto, as condições mínimas para a
democracia se materializaram. Como Santos (1998) observa, no ano em que o
sufrágio universal é adotado o número de eleitores dobra, ou mais do que dobra,
na maioria dos países. O fato de a democracia ser um fenômeno do século XX fica
bastante claro a partir do Quadro_1. A questão é: por que somente nesse momento
a democracia se tornou uma forma viável de governo?

Isso representou um terremoto na história da humanidade. A revolução
capitalista é a mudança econômica, social, política e cultural que começa com o
surgimento de uma classe burguesa e da revolução comercial, e se completa pela
formação de cada Estado-nação moderno e sua respectiva revolução industrial.
Envolve, no nível econômico, a transição da apropriação do excedente econômico
pelo Estado para o lucro como um modo básico de enriquecimento pessoal em uma
economia coordenada pelo mercado. Transforma o lucro na motivação econômica, e
a acumulação de capital e o progresso técnico nos meios para atingir esse fim.
Em nível institucional, implica a separação entre patrimônio público e
patrimônio privado ou, em outras palavras, a transição do Estado absoluto e
patrimonial, em que a busca de rendas é parte do jogo, para o Estado liberal,
noqualisso nãomaisocorreeem que os direitos civis dos indivíduos e suas
liberdades estão assegurados. Com a revolução capitalista, os novos Estados-
nação foram capazes de desenvolver três instituições básicas: o moderno
aparelho do Estado com um serviço público profissional, o sistema
constitucional e o mercado interno. Em nível cultural, envolve a transição da
tradição e revelação como fontes do conhecimento para a razão e a pesquisa
científica. Depois da revolução capitalista, além da classe trabalhadora e da
burguesia, uma nova e vasta classe média profissional foi gradualmente
emergindo e se tornou um fator central na estabilização política.
No pré-capitalismo, a produção estava organizada em nível familiar e o
excedente econômico era apropriado por meio da propriedade de terra e,
particularmente, pelo uso do poder político para cobrar impostos das pessoas,
para reduzi-las à escravidão ou à servidão. Para ser rica, a pessoa precisava
ser politicamente poderosa, ser parte da oligarquia que controlava o Estado. A
distribuição de renda era essencialmente uma questão política. Desse modo, o
controle do Estado, ou poder político, era crucial. E para obter riqueza e
prestígio era necessário, em primeiro lugar, que o indivíduo fosse
politicamente poderoso. Os grupos dominantes se apropriavam do excedente
econômico por meio da guerra; lutavam pelo butim, escravizavam os derrotados ou
impunham pesados tributos sobre as colônias, e se apropriavam da terra. À
medida que a sociedade foi mudando de tribal para formas mais complexas, como
cidades-Estado e impérios, a cobrança de impostos passou a ser cada vez mais
importante. A aristocracia militar, com o apoio de uma burocracia patrimonial e
de uma hierarquia religiosa, apropriou-se do excedente econômico dos
comerciantes, enquanto os proprietários de terras cobravam aluguéis dos
camponeses. A legitimidade religiosa foi sempre uma parte essencial do
processo, mas a própria existência de impérios e oligarquias dominantes
dependia da capacidade destes de deter poder político e fazer a guerra. Na
última forma de organização do Estado pré-capitalista, o Estado patrimonial, a
cobrança de impostos era essencial para financiar a aristocracia da corte e a
burocracia patrimonial. Não havia separação entre o patrimônio público e o
patrimônio privado: ser economicamente rico dependia de ser politicamente
dominante. Os pobres, identificados desde Aristóteles como patrocinadores da
democracia, costumavam pressionar por liberdade, por algum tipo de democracia,
mas o grupo dominante resistia, recorrendo a todas as formas de violência para
manter o Estado sob seu controle político. Como os mercados tinham apenas uma
existência marginal, não havia outra maneira de distribuir riqueza e renda
senão mediante o controle do Estado. Ocasionalmente, o povo, ou os
comerciantes, podiam ganhar algum poder e estabelecer alguma forma de
república, mas os poderosos interesses envolvidos no poder político logo iriam
corromper e eliminar o novo regime. Depois da revolução industrial, essa
situação mudou dramaticamente. Agora os sistemas constitucional e de mercado
coordenam a sociedade. Agora os lucros e altos salários ganham importância no
enriquecimento das pessoas, enquanto os aluguéis e a cobrança de impostos
perdem importância. O Estado continua a desempenhar um papel na aquisição e
distribuição da renda, mas não é mais uma condição para a existência da elite
econômica. Não é fácil determinar se um país passou por uma revolução
capitalista, mas, além da riqueza, uma boa medida é saber se a busca de rendas,
a captura patrimonial do Estado, ainda desempenha um papel importante no
enriquecimento das pessoas.
A revolução capitalista não criou a democracia, mas tornou-a possível. A nova
classe capitalista podia fazer agora o que as classes dominantes anteriores não
podiam: tinha a opção de não vetar a democracia, uma vez que o controle
absoluto do Estado não era mais uma condição necessária de sua riqueza. Apartir
desse momento, a rejeição aos regimes autoritários ganhou impulso, e o consenso
contra a democracia desapareceu. Como observa Dunn (1979: 8), a "rejeição da
viabilidade da democracia era uma boa síntese de um consenso intelectual
europeu que datava pelo menos do Principado de Augusto, um consenso que
desapareceu com surpreendente rapidez entre 1776 e 1850 na própria Europa".
Assim, tudo mudou com o longo processo histórico que foi a revolução
capitalista. À medida que a economia de mercado prevalecia, o novo grupo
dominante não precisava mais recorrer à violência ou ao controle do Estado para
se apropriar do excedente econômico. De acordo com Celso Furtado (1976: 33) :
Duas formas de apropriação do excedente parecem ter existido desde o
início dos tempos históricos. De um lado está o que chamamos de forma
autoritária, que consiste em extrair o excedente por meio de coerção.
De outro lado temos a forma mercantil, ou seja, a apropriação do
excedente por meio da troca [...]. O excedente utilizado para se
apropriar de outro excedente é o capital, o que nos permite dizer que
todas as formações socioeconômicas nas quais o excedente é
predominantemente capturado por meio da troca pertencem ao
gênerocapitalismo.
Furtado não estava discutindo o aparecimento da democracia, mas este contraste
entre a forma autoritária e a forma mercantil de apropriação do excedente foi a
semente da teoria que estou apresentando aqui. No momento histórico em que cada
sociedade nacional passou da apropriação autoritária para a apropriação
mercantil ou capitalista do excedente, o poder do Estado deixou de ser uma
condição necessária para adquirir riqueza. Os Estados continuaram a desempenhar
um papel importante que, no entanto, não era mais o de sustentar a apropriação
oligárquica, mas o de criar as condições institucionais para o investimento e a
realização de lucros no mercado. O controle do Estado continuou aser crucial
para a nova classe dirigente, mas os homens de negócio podiam deixar a
responsabilidade de governar e de proteger militarmente os novos Estados-nação
de agressões externas aos membros da antiga aristocracia ou a uma nova classe
de políticos profissionais que então surgiu. A condição, mais do que apenas
proteger direitos de propriedade e contratos, era de que eles criassem
instituições que estimulassem a atividade econômica.
Nesse momento, quando o argumento e a persuasão prevaleceram sobre a força,
começou a era da política. As pessoas tinham então a possibilidade de discutir
e criar instituições liberais e democráticas. O século XVIII já havia
experimentado uma indicação disso quando alguns pensadores contrastaram a
dureza da aristocracia com a suavidade do capitalismo. Montesquieu,
principalmente, ressaltou a "douceur"do comércio6. Albert Hirschman (1977),
comentando essa visão, observa que, enquanto os aristocratas guerreiros estavam
sujeitos a grandes e, às vezes, heroicas paixões, a burguesia limitava-se a
características mais modestas e moderadas. Analisando Shaftsbury, Hutcheson e
Hume, ele mostra como esses filósofos encaravam a atividade econômica como uma
"calma paixão". A Inglaterra foi o primeiro país a com-pletar sua revolução
industrial; não por acidente, foi também o primeiro Estado-nação e o primeiro
regime político liberal no mundo. No início do século XIX, a Inglaterra estava
pronta para oliberalismo, não para a democracia. O primeiro veto à democracia,
que refletia a necessidade de apropriação autoritária do excedente, havia sido
mais ou menos eliminado, mas o medo da expropriação pelos pobres continuava
forte. Os direitos civis poderiam ser assegurados, não os direitos políticos.
Na verdade, já havia sido estabelecido um regime constitucional um século
antes, na Revolução Gloriosa, mas o século XIX seria a época em que o
liberalismo clássico floresceria e se tornaria predominante.
O ARGUMENTO BÁSICO
Nos primeiros países que se tornaram democráticos, a transição para a
democracia foi produto de quatro fatos históricos, dos quais a revolução
capitalista é o primeiro e mais abrangente; os outros três são o aumento da
capacidade de organização dos trabalhadores, a perda gradual do medo dos
capitalistas de serem expropriados por um governo socialista, e o surgimento de
amplas classes médias entre os trabalhadores e os ricos. Antes da revolução
capitalista a aristocracia impunha um veto absoluto à democracia. Barrington
Moore já havia notado esse fato. Em sua discussão da coalisão política que
reuniu a burguesia inglesa com a aristocracia proprietária de terras, Moore é
claro:
Uma classe forte e independente de habitantes da cidade tornou-se um
fator indispensável ao crescimento de uma democracia parlamentar; sem
burguesia não há democracia [...] a burguesia inglesa do século XVII,
até grande parte do século XIX tinha o maior interesse material na
liberdade dos cidadãos. (Moore, 1966: 418, 424, tradução nossa)
A conclusão da revolução capitalista em cada país foi o fato histórico novo
mais geral que tornou a democracia viável e, por fim, desejável; foi a causa
direta da remoção do primeiro veto. Durante todo o século XIX a democracia
gradualmente se tornou o equivalente do bom Estado, na medida em que demonstrou
ser a mais estável forma de governo e, mais amplamente, a forma de governo que,
apesar dos conflitos de classe, melhor promovia os interesses de todas as
classes sociais. Depois da revolução liberal, os capitalistas haviam temido que
a democracia permitisse aos trabalhadores optarem pelo socialismo. Esse medo
diminuiu gradualmente, na medida em que os trabalhadores não demonstraram ter
esse objetivo. Assim, no início do século XX, acabamos tendo as primeiras
verdadeiras democracias. Como afirma Dahl (1989: 234), "embora algumas das
instituições da poliarquia tenham surgido em uma série de países europeus e de
língua inglesa no século XIX, em nenhum país os demosse tornaram inclusivos até
o século XX".
A revolução industrial abriu caminho para o Estado liberal, mas não para o
Estado democrático. O controle do Estado continuava sendo naturalmente um
objetivo político central para os grupos dominantes, por duas razões: o Estado
continuava a desempenhar um importante papel na distribuição da renda e um
papel central na garantia da ordem pública. Durante, e imediatamente após a
transição para a economia de mercado, um dos papéis do Estado, além de garantir
os direitos de propriedade e os contratos, foi o de criar condições para
aumentar a acumulação de renda para financiar o crescimento econômico. A nova
classe capitalista, formada por uma ampla classe média e uma pequena classe
alta, seria uma classe liberal. Seus membros lutavam não apenas por lucros, mas
também pela garantia de seus direitos civis duramente conquistados. A memória
da dominação arbitrária que havia caracterizado o absolutismo estava viva e
presente. Com a ordem liberal, eles haviam deixado de ser súditos para se
tornarem cidadãos dotados de direitos.
TRÊS NOVOS FATOS HISTÓRICOS ADICIONAIS
Mas foram necessários três novos fatos históricos adicionais para que a
democracia fosse, afinal, vitoriosa. O primeiro deles foi a perda do medo da
expropriação. Havia um segundo veto - este da burguesia, e não da aristocracia-
àdemocracia. Da mesma forma que levou tempo para a aristocracia conceder total
cidadania à burguesia, também levaria tempo para a nova classe empresarial
aceitar que os trabalhadores tivessem pleno direito a voto. A nova classe
capitalista era liberal, mas não democrática. Embora as sementes da democracia
estivessem no Estado liberal, os liberais clássicos combateram a democracia
principalmente durante a primeira metade do século XIX. Faziam isso em nome da
liberdade; o argumento era de que a liberdade e a igualdade conflitavam entre
si, que a igualdade de direitos - que é uma condição da democracia - seria
intrinsecamente incompatível com as liberdades cívicas. Da igualdade de
direitos, a democracia iria diretamente para a tirania da maioria e a negação
da liberdade. Como ressalta Lindblom (1977: 163), os primeiros filósofos
políticos modernos "são todos, em primeiro lugar, liberais e, em segundo lugar,
democratas, se é que realmente o são [...]. Os Criadores da Constituição
[norte-americana] eram liberais fervorosos, mas não mais do que democratas de
ocasião, e alguns não eram democratas de modo algum". Lindblom também vê uma
estreita relação entre poliarquia e capitalismo, que ele chama de "o sistema de
mercado da iniciativa privada". Ambos seriam "métodos para o controle popular
sobre as decisões 'públicas'", o primeiro por meio do voto, o segundo por meio
das preferências individuais dos consumidores.
A democracia só se materializou realmente no início do século XX porque foi
nessa época que o segundo veto - o medo da expropriação dos ricos pelos pobres
- foi abrandado. Depois da conclusão da revolução capitalista, a democracia
passou a ser uma possibilidade real, mas a nova classe dirigente capitalista
percebeu que seu advento poderia envolver a vitória dos trabalhadores nas
eleições e o estabelecimento de um regime socialista. Era o argumento liberal
da ditadura da maioria que surgia. Esse medo desapareceu gradualmente, levou um
século para que desaparecesse. Aos poucos foi ficando claro que na coalizão
burguesa-aristocrática do século XIX, trabalhadores não votavam necessariamente
em partidos socialistas, nem apoiariam uma revolução socialista.
Um segundo fato histórico adicional à revolução capitalista foi o aumento do
poder que a classe trabalhadora, reunida em grandes fábricas, conquistou à
medida que se tornou mais bem organizada e mais exigente. Os trabalhadores não
eram socialistas, mas percebiam que a democracia lhes era favorável. É preciso,
porém, observar que a classe trabalhadora não teve força para mudar o regime
político enquanto as elites mantinham seus vetos. No momento em que esses vetos
foram sendo abrandados, porém, o papel dos pobres na conquista da democracia
não pode ser ignorado. Eles não eram revolucionários: exigiam democracia, mais
do que socialismo. Pouco a pouco, os capitalistas perceberam que os
trabalhadores não votavam em bloco, e que a maioria destes não votaria a favor
da expropriação dos ricos. Eles observaram que a política democrática tendia a
dividir ideologicamente os partidos políticos, mas as diferenças entre eles
tenderiam a ser cada vez menores, na medida em que todos tinham de convergir
para um centro ideológico. Em outras palavras, os capitalistas perceberam que
uma tendência nítida para eleições democráticas envolvia uma mudança de
políticas, mas não de regime econômico. No final do século XIX, os argumentos
contra o sufrágio universal tinham perdido força, já que a burguesia havia
percebido que seu temor de expropriação pelos trabalhadores não tinha
fundamento7.
O surgimento de duas grandes classes médias - uma burguesia e uma classe média
profissional (esta última dividida em funcionários públicos e administradores
privados, pessoal técnico e administrativo) - reforçou essa percepção, e é o
terceiro fato histórico adicional que criou as condições para a transição e,
como veremos, para a consolidação da democracia. Como Rueschemeyer, Stephens e
Stephens (1992: 14) enfatizam, "a classe média surge como aprincipal força pró-
democraciana análise de Lipset". À medida que a industrialização avançava, uma
nova classe média profissional, que já existia no aparelho do Estado, surgia
dentro das novas grandes empresas comerciais. As duas classes médias começaram
a representar uma parcela cada vez maior da população total. Situadas entre os
ricos e os pobres, elas eram também uma razão para que os ricos temessem menos
os pobres e fossem convencidos a aceitar o sufrágio universal. A remoção do
segundo veto à democracia-o fim do medo da expropriação-estava se
materializando.
Assim, nos primeiros países democráticos, quatro fatos históricos - a revolução
capitalista alterando a forma de apropriação do excedente; o gradual
desaparecimento do medo da expropriação; o aumento da capacidade organizacional
dos trabalhadores; e o surgimento de grandes classes médias - contribuíram para
o aparecimento e a consolidação da democracia. Um fato fundamental - a
revolução capitalista abrange os demais - e três fatos históricos adicionais
que contribuíram para a remoção dos vetos à democracia. Se a democracia foi
conquistada, foi uma vitória dos pobres8, mas sua luta não foi revolucionária,
porque ela mudou não o regime econômico, mas somente o regime político, e a
mudança que ocorreu na classe trabalhadora foi menos estratégica para
atransição do que a mudança que ocorreu na elite.
Esse importante processo histórico envolveu conflitos e compromissos. Assim
como a primeira transição - do Estado absoluto para o Estado liberal - exigiu
que a aristocracia dividisse o poder com a burguesia, a segunda, do Estado
liberal para o Estado liberal-democrático, trouxe necessariamente os
trabalhadores para dentro do processo político. Para ambas as transições, a
revolução capitalista e os três outros fatos históricos novos acima mencionados
foram necessários; eles explicam a transição e a consolidação em geral. No
entanto, eles não foram suficientes para a transição para a democracia; foram,
apenas, a condição para a consolidação democrática, uma vez ocorrida a
transição.
MOTIVOS RACIONAIS A POSTERIORI
O complexo processo político derivado das revoluções capitalista e industrial
levou o mundo a uma ampla transição democrática, e os países ricos e de renda
média que completaram essa revolução, a constituírem democracias consolidadas.
Nestes últimos, a democracia, que era originalmente uma demanda dos pobres ou
da classe trabalhadora, tornou-se gradualmente uma opção racional para as
classes médias e para a rica classe capitalista. Ao contrário da antiga
aristocracia de proprietários de terras, a nova burguesia dependia menos do
Estado e valorizava mais as liberdades asseguradas pela democracia liberal.
Assim, eles gradualmente mudaram suas concepções sobre a democracia, seja
porque se sentissem pressionados, seja porque tivessem interesse em fazer isso.
Em primeiro lugar, a classe capitalista percebeu que os pobres não
representavam realmente uma ameaça, porque não tinham uma alternativa real ao
sistema capitalista. Em segundo lugar, ela se conscientizou de que o regime
democrático poderia ser mais estável, mais eficaz na garantia da ordem social,
do que simplesmente um Estado liberal em que o poder supremo estava nas mãos de
um soberano ou de um governante. E, em terceiro lugar, ela percebeu quea
propriedade e os lucros não estavam realmente ameaçados pela democracia. Em
outras palavras, ao contrário da antiga aristocracia, os novos ricos não eram
intrinsecamente opostos à democracia; eles eram intrinsecamente liberais, mas,
como o capitalismo não era um jogo de soma zero, perceberam que o liberalismo
combinado com a democracia poderia proteger adequadamente seus interesses,
independentemente do fato de também proteger os pobres e as classes médias.
De acordo com o modelo de revolução capitalista para explicar a transição e a
consolidação democrática que estou apresentando aqui, quando a rica classe
empresarial percebeu que poderia continuar realizando lucros sem ter o controle
direto do Estado, ela escolheu a democracia não tanto porque a pressão das
classes inferiores havia crescido, mas principalmente porque percebeu que essa
era uma maneira mais eficaz e estável de garantir a ordem pública, os direitos
de propriedade e os contratos, do que a alternativa autoritária. Ao endossar a
democracia, os ricos perdiam poder político, mas não muito. Eles sabiam que
poderiam contar com os partidos políticos conservadores e mesmo com os social-
democráticos para protegê-los, já que controlavam os investimentos e o
crescimento econômico, ou exerciam poder de veto sobre eles. Os ricos mantinham
o controle da forma de financiamento das campanhas eleitorais, e também da
mídia. Faziam concessões quanto ao poder político, mas não quanto aos valores e
princípios políticos liberais: eles se asseguraram de que a proteção das
minorias e dos direitos civis continuasse como elemento central de cada
constituição nacional.
Esse modelo histórico da transição global para a democracia que ocorreu no
século XX só tem sentido a posteriori, historicamente, sob duas condições:
primeiro, de que, do ponto de vista dos trabalhadores, uma revolução socialista
não fosse racional; segundo, de que uma taxa de lucro satisfatória de longo
prazo estivesse assegurada para os capitalistas. A primeira condição foi
esclarecida por Przeworski (1985: 139, 177, 180) que analisou de modo
convincente a racionalidade dos trabalhadores em se recusarem a apoiar uma
revolução socialista. De acordo com ele, os trabalhadores, nas democracias
avançadas, tinham fortes motivos para não sentirem nenhuma atração por uma
revolução que expropriasse os ricos. Se os trabalhadores tivessem o direito de
votar, eles racionalmente votariam nos partidos políticos socialistas
comprometidos com a revolução socialista. Mas não o fazem porque, de um lado,
na medida em que os capitalistas controlam os investimentos, eles "estão em uma
posição única no sistema capitalista: eles representam os futuros interesses
universais, enquanto os interesses de todos os outros grupos aparecem como
particularistas e, portanto, como inimigos de desenvolvimentos futuros". Por
outro lado, de acordo com Przeworski, os trabalhadores não tinham garantia de
que a mudança para o socialismo iria imediatamente melhorar suas condições
materiais. Ao contrário, eles não têm certeza de que o socialismo seja mais
eficiente do que o capitalismo e, mesmo se o for, a transição para o socialismo
poderá envolver uma deterioração do bem-estar dos trabalhadores. Portanto,
conclui ele, uma vez que "os trabalhadores têm a opção de melhorar sua condição
material cooperando com os capitalistas, a orientação socialista não pode ser
deduzida dos interesses materiais dos trabalhadores".
A segunda condição - de que o desenvolvimento capitalista mantém a taxa de
lucro em um nível satisfatório ou, nas palavras de Herbert Simon (1957), em um
nível gratificante a longo prazo-é um fato empírico. Após a revolução
industrial, a taxa de lucro não caiu conforme previsto pelos economistas
clássicos, mas manteve-se razoavelmente constante em nível satisfatório, do
ponto de vista dos empresários investidores. No nível teórico, Bresser-Pereira
(1986; 2004), em seu modelo clássico revisado de crescimento e distribuição,
argumentou que a taxa de lucro, não a taxa de salários, deveria ser considerada
como dada ou constante no processo de crescimento de longo prazo, enquanto os
salários deveriam ser vistos como o resíduo. Partindo da inversão do modelo
clássico de distribuição, ele mostrou que os salários aumentam a uma velocidade
inferior, igual ou superior à produtividade, dependendo do tipo de progresso
técnico: consumidor de capital, neutro ou poupador de capital. Por que a taxa
de lucro é constante a longo prazo? Essencialmente porque, de um lado, uma taxa
de lucro satisfatória - aquela que mantém os empresários inovando e investindo
- é condição para o desenvolvimento capitalista, e porque, de outro lado, dada
a capacidade do capitalismo de inovar e aumentar a produtividade, não há
nenhuma forma de organização econômica alternativa ao capitalismo9. Assim, os
aumentos salariais dos trabalhadores dependem de uma taxa de lucro
satisfatória. Em outras palavras, as "contratendências à queda da taxa de
lucro" mencionadas por Marx tinham de prevalecer: as sociedades capitalistas
sempre desenvolvem tecnologias, instituições e ideologias que asseguram uma
taxa de lucro satisfatória. Na medida em que salários e ordenados aumentam ao
mesmo tempo em que a produtividade cresce, a taxa de lucro é mantida constante
a longo prazo -o que significa que o jogo entre os ricos e os pobres não era um
jogo de soma zero, mas um jogo em que todos podem ganhar, o que torna a
democracia muito menos ameaçadora do que se pensava inicialmente.
Essas duas condições reforçam-se mutuamente. De um lado, os trabalhadores não
tinham motivo racional para apostar na revolução socialista; de outro, como os
salários aumentavam aproximadamente na mesma velocidade que a produtividade,
eles tinham bons motivos para continuar participando do sistema econômico. O
fato de que os trabalhadores, no final, não tivessem nenhuma opção melhor foi
percebido não apenas por eles, mas também pelos capitalistas. Assim, na medida
em que estes últimos compreenderam esse fato, viram cada vez menos razões para
temer a democracia. Ao contrário, tornaram-se cada vez mais confiantes nela. O
aumento dos benefícios diretos e sociais trazido pela democracia não seria um
ônus desde que esses benefícios não ameaçassem a taxa de lucro de longo prazo.
Os aumentos salariais poderiam sustentar a taxa de lucro na medida em que
mantivessem a demanda efetiva, como Keynes demonstrou. Assim como acabou sendo
racional para os trabalhadores individualmente, não apenas como classe, apoiar
o capitalismo e lutar pela democracia e por direitos sociais, assim também
acabou sendo racional para os capitalistas apoiar a democracia, embora
resistissem às iniciativas de bem-estar social. Os trabalhadores compreenderam
cada vez mais os limites de suas demandas salariais, enquanto os capitalistas
ficaram cada vez mais convencidos de que a democracia poderia facilitar as
demandas dos trabalhadores, mas, em compensação, fornecer um sistema político
legítimo mais capaz de garantir a estabilidade política do que o regime
autoritário. Além disso, os capitalistas perceberam que a democracia tornava o
estado de direito muito mais seguro-e nada é mais importante para a atividade
comercial do que um ambiente constitucional e legal estável.
Nesse modelo, o crescimento de uma ampla classe média burguesa e profissional
entrou como um fator moderador para reduzir o conflito entre os ricos e os
pobres. No entanto, se entendermos que a classe média era parte da classe
dirigente ampliada que caracteriza as sociedades modernas, percebemos
imediatamente que ela também tinha um grande interesse na democracia. Sendo
muito maior do que a antiga aristocracia, a nova classe dirigente formada pelos
ricos e pela alta classe média precisava de instituições que permitissem a
grupos dentro dela dividirem poder político ou se alternarem no governo de modo
ordenado. Nessas circunstâncias, a democracia era a escolha racional óbvia,
coletivamente e para cada membro. As instituições democráticas criavam
condições para a resolução de seus conflitos internos. Os grupos
aristocráticos, embora afligidos por violentas lutas internas, eram sempre
pequenos. Eles solucionavam seus conflitos pessoalmente. A nascente classe
capitalista, por ser grande, tinha na democracia uma maneira melhor e mais
segura de resolver seus conflitos.
Assim, gradualmente, todos os principais atores políticos perceberam que a
democracia era a forma de governo mais favorável, tanto para os negócios como
para os trabalhadores. Estava terminada a época em que as facções gananciosas e
turbulentas mencionadas pelos filósofos gregos atormentavam a democracia.
Durante muito tempo, as democracias que seguiram os passos discutidos aqui
enfrentariam crises e agitações, mas elas representavam um aumento relativo
significativo da estabilidade política. Trabalhadores, capitalistas e as
classes médias assinaram informalmente um novo contrato social ou político. A
luta pela justiça, a condenação da corrupção e dos privilégios, e a
possibilidade de construir modelos mais eficientes e mais justos de capitalismo
continuam a ser importantes tarefas políticas, mas a democracia se estabeleceu
como a forma universalmente preferida de conduzir esses esforços republicanos.
Como comparar este meu argumento com os de Charles Boix (2003), Boix e Stokes
(2003) e Acemoglu e Robinson (2006) sobre as transições democráticas? Eles
adotam a abordagem da escola da escolha racional e buscam motivos racionais
aprioripara elas. Eles argumentam que o desenvolvimento econômico causa a
democracia porque quando a distribuição da renda é mais igual (como aconteceria
no capitalismo) o medo de redistribuição por meio de impostos desaparece.
Assumem, portanto, que há uma relação linear entre desenvolvimento e
distribuição, o que é muito discutível. Como Edward Muller (1997) mostrou, a
relação entre desenvolvimento e desigualdade tem forma de U, mas nos últimos 30
anos nem mesmo essa forma está assegurada. Segundo, eu não vejo a transição
democrática como uma simples vitória dos trabalhadores. De acordo com Acemoglu
e Robinson (2006: XII) "dado que a democracia representa uma mudança de poder
em favor dos cidadãos, por que a elite criaria esse conjunto de instituições?
Nós argumentamos que isto ocorre porque cidadãos livres podem ameaçar e forçar
a elite a fazer concessões". Isto é muito simples e explica pouco. Por que os
cidadãos venceram? E até que ponto eles foram cooptados pelos ricos? Por outro
lado, por que não considerar os ganhos da classe capitalista e da classe
profissional com a democracia - principalmente mais segurança para alcançar
lucros satisfatórios e ordenados elevados no quadro da democracia?
CONSOLIDAÇÃO DEMOCRÁTICA
A explicação apresentada aqui de por que a democracia acabou sendo preferida
apenas no século XX é útil para explicar a transição geral para a democracia
ocorrida nesse século, mas não explica as transições dos países
individualmente. Como argumentado por Collier (1999: 20), muitos são os
caminhos para a democracia, "na maioria dos casos a política de democratização
é uma combinação de processos que vêm de cima e de baixo, envolvendo
combinações de interesses de classes, atores estratégicos e formas, locais ou
áreas de atuação". Além disso, influências externas podem levar a transições
democráticas que, de outra forma, não ocorreriam (pensemos no Haiti, por
exemplo), ou, no lado oposto, dirigentes autoritários bem-sucedidos podem
permanecer no governo muito além do que a evolução das variáveis econômicas e
sociais nos levaria a prever, como no caso de Cingapura.
O modelo histórico apresentado aqui, no entanto, é eficaz para explicar a
consolidação democrática. Podemos encontrar muitas características que são
comuns às democracias consolidadas, mas elas não explicam a consolidação
democrática - apenas definem uma democracia estável. Por outro lado, quando um
país faz sua transição para a democracia depois de ter completado sua revolução
capitalista e industrial, podemos prever que ele provavelmente continuará sendo
democrático. Somente um país que tenha completado essa revolução terá a
estrutura social, a cultura política e as instituições que são exigidas por uma
democracia consolidada. Um país pode importar instituições democráticas, mas é
impossível importar a estrutura social que torna a democracia racional para as
elites econômicas e políticas, ou importar a respectiva cultura democrática
necessária a um regime consolidado. Quanto mais totalmente capitalista for um
país, mais consolidado tenderá a ser seu regime democrático. Essa afirmação,
porém, não significa que a consolidação democrática somente possa ser explicada
pela revolução capitalista. Outros fatores, principalmente a desigualdade,
também desempenham um papel. Como a conclusão de uma revolução capitalista não
é um episódio preciso, mas um processo histórico, dentro desse processo, quanto
mais desigual for uma sociedade, provavelmente mais tempo será necessário para
que ela chegue à consolidação democrática (Muller, 1997). Embora, como
Dahrendorf (2000: 311) adequadamente observa, "a democracia dê a impressão de
estar sempre em crise", a permanente insatisfação dos cidadãos com suas
democracias não representa uma ameaça a elas, mas uma maneira de aperfeiçoá-
las. Desde a Segunda Guerra Mundial, as democracias desenvolvidas têm se
mantido estáveis, e embora a confiança pública na democracia nem sempre tenha
sido satisfatória, não podemos dizer que a democracia corra risco nos países
desenvolvidos, ou nos países de renda média quefizeram suatransição para a
democracia depois que as condições econômicas e sociais para tanto estiveram
presentes.
Linz e Stepan (1996: 55) tentaram englobar todas as formas de transição e
consolidação com o auxílio de quatro tipos de regime não democrático cujas
características influenciariam decisivamente os caminhos da transição e da
consolidação. A partir daí, eles descreveram o típico arcabouço institucional,
cultural e econômico existente logo antes da transição em um dos quatro tipos
de regime não democrático, a saber, o tipo autoritário: "uma sociedade civil
sólida, uma cultura legal que dá suporte ao constitucionalismo e ao estado de
direito, uma burocracia estatal em boas condições, que opera dentro de normas
profissionais, e uma sociedade econômica razoavelmente bem institucionalizada".
De acordo com eles, a Espanha, por exemplo, apresentava essas condições no
início dos anos 1970; o Brasil, eu acrescentaria, é outro exemplo disso, dez
anos mais tarde. Os dois autores não se referem à revolução capitalista, mas
nenhum país que não tenha passado por uma revolução capitalista terá essas
características. Por outro lado, um país oriundo de outro dos quatro tipos,
como o Haiti e o "sultanismo", poderá passar por uma transição, mas essas
condições não existirão e a democracia será eminentemente instável. Na verdade,
além da renda per capita, as características que Linz e Stepan listaram são uma
boa maneira de avaliar se um país completou sua revolução capitalista.
Nos anos 1970 e 1980, cientistas políticos estiveram envolvidos em grandes
estudos sobre as transições para a democracia. Depois de muitos episódios de
transição, a preocupação se voltou para a consolidação democrática e a
qualidade da democracia. Neste trabalho, não estou discutindo este último
assunto, mas o anterior é fundamental para ele. A discussão sobre a qualidade
da democracia na América Latina é marcada pelo conceito de O'Donnell (1991;
2004) de democracia delegativa e por sua mais recente discussão sobre direitos
humanos e democracia. Mas não devemos exigir da democracia mais do que um
regime político pode oferecer, nem voltar a cair na velha distinção entre
democracia formal e democracia substantiva. Em lugar disso, e de acordo com uma
abordagem histórica não limitada à América Latina, Huber, Rueschemeyer e
Stephens (1997) veem três formas sucessivas de democracia após a democratização
- democracia formal, participativa e social - na medida em que o regime
político garanta, além de sufrágio livre e universal, responsabilidade
(accountability) e liberdade de expressão, altos níveis de participação e
igualdade crescente nos resultados sociais e econômicos. Por seu lado, Bresser-
Pereira (2004) sugere que, após a transição, a primeira forma de democracia
será a aquela de elites ou liberal, seguida pela democracia social ou da
opinião pública, que, possivelmente, tenderá à democracia participativa, e,
mais adiante ainda, à deliberativa. Apesar de diferenças de terminologia, os
autores propõem que os países que experimentam desenvolvimento político após
uma transição democrática que atenda ao conceito mínimo de democracia movem-se
em direção a formas mais exigentes de organização política. Formas novas e mais
desenvolvidas de democracia, mais responsáveis, mais representativas,
envolvendo mais igualdade substantiva e mais participação política evoluem no
decorrer do tempo, juntamente com mais crescimento econômico, melhor
institucionalização e mais desenvolvimento de valores democráticos.
Quanto à consolidação democrática, encontramos a mesma linha divisória teórica,
entre a abordagem histórica ou socioeconômica, e a abordagem de processos e
liderança, que a existente na discussão sobre as transições democráticas10. A
segunda, em suas manifestações mais radicais, esvazia a consolidação de seu
conteúdo histórico real. Diamond (1997: xxxii), por exemplo, rejeita a
"explicação estruturalmente determinista" e afirma que "a oportunidade de
desenvolvimento e consolidação democráticos não está descartada para nenhum
país, por mais pobre que seja". Outros pesquisadores ofereceram algumas
contribuições valiosas, mas foram mais bem-sucedidos ao definir uma democracia
consolidada do que ao explicar por que ela se torna consolidada. Linz (1990:
156) definiu classicamente a consolidação democrática como uma situação "na
qual nenhum dos principais atores políticos, partidos ou interesses
organizados, forças ou instituições considera que haja uma alternativa ao
processo democrático para chegar ao poder, e [...] nenhuma instituição ou grupo
político tenha o direito de vetar a ação de tomadores de decisão
democraticamente eleitos". O'Donnell (1997: 43), rejeitando a separação entre
qualidade e formas históricas de democracia, rejeita a visão minimalista de
democracia implícita na definiçãodeLinz, eobserva: "nãovejomuito ganho
analítico em associar o termo 'consolidado' a algo que provavelmente, embora
não certamente, perdurará". Assim, ele não reconhece que uma democracia de
elites - a primeira forma de democracia que geralmente surge da transição e,
por essa razão, uma democracia de acordo com seu conceito mínimo - possa ser
uma democracia consolidada, mesmo se a experiência histórica o demonstra.
Schmitter (1997: 247) ressalta que "a presença da sociedade civil contribui
(positivamente) para a consolidação da democracia" - o que é verdade, mas não
explica quais são as condições históricas que abrem espaço para uma sociedade
civil ativa e sólida. Valenzuela (1992: 63) observa corretamente que o primeiro
passo para elucidar a consolidação democrática é associar a ela uma definição
mínima de democracia, mas, posteriormente, ele se limita a estabe-lecer como um
requisito para uma democracia consolidada uma "complexa institucionalização",
que ele contrapõe a uma "perversainstitucionalização". De acordo com ele, "uma
democracia consolidada seria aquela que não tem elementos perversos minando
suas características básicas", mas ele imediatamente reconhece que "a lista de
tais perversidades não pode ser ampliada infinitamente". Nessa mesma linha de
pensamento, Carey (1997: 68) tenta mostrar "por que a análise institucional é
de particular importância para a consolidação das democracias". De fato, as
democracias consolidadas geralmente têm instituições democráticas fortes, assim
como uma cultura razoavelmente democrática, mas essas afirmações apenas definem
ou caracterizam a consolidação, sem explicá-la.
Seguindo uma abordagem diferente, Huber, Rueschemeyer e Stephens (1997)
argumentam que "após um súbito aumento de mobilização durante a transição, o
equilíbrio dos poderes se voltou contra as classes subordinadas" - e esse fato
se tornou um obstáculo à consolidação democrática. Com relação à transição
democrática brasileira, Weffort (1984) argumentou que ela se tornou
conservadora na medida em que o processo acabou ficando sob o controle da
classe empresarial industrial. Isso realmente ocorreu, mas foi provavelmente
uma das razões pelas quais a democracia brasileira é uma democracia
consolidada. Mainwaring (2000), buscando as causas do aumento da sobrevivência
das democracias na América Latina, encontra três fatores de explicação: "a
primeira explicação se desenvolve em torno das transformações estruturais
desencadeadas pela modernização [...] em segundo lugar, da esquerda para a
direita do espectro, as atitudes políticas se alteraram [...]. Finalmente, o
apoio internacional à democracia, especialmente dos Estados Unidos, aumentou
[...]. " Em outras palavras, dado que "modernização" é um outro nome para
revolução capitalista, e "atitudes políticas" um substituto para a cultura
política, Mainwaring está adotando uma abordagem histórica condizente com a
visão apresentada aqui.
Na crescente literatura sobre transição democrática, a contribuição de
Alexander (2002: 57) é particularmente relevante. Apesar de adotar uma
abordagem da escolha racional, ele consegue apresentar um quadro amplo do
processo de consolidação. Mas não oferece uma solução para o próprio problema
que ele define como central: "o que leva a direita a esperar que seu bem-estar
e segurança estarão previsivelmente mais bem garantidos na democracia do que no
regime autoritário?" A questão está de acordo com o modelo apresentado neste
trabalho, porque situa os problemas nas preferências dos ricos ou da classe
capitalista em relação à democracia e porque Alexander mostra que essa classe
pode racionalmente mudar suas preferências à medida que surgirem novos fatores.
Como aconteceu no Brasil, no início dos anos 1960 a democracia não era racional
para a classe empresarial, e se tornou racional - mais capaz de atender à
necessidade de bem-estar e segurança econômicos dessa classe - após o final dos
anos 1970. Porém, como Alexander adota um método hipotético-dedutivo, da
escolha racional, ele não tem uma resposta à questão que tão corretamente
coloca. Alexander (2002: 66-67) praticamente admite os limites de seu método
quando se pergunta: em que condições os atores políticos poderão prever que as
recompensas esperadas da democracia serão previsivelmente maiores do que as do
autoritarismo? E ele responde: "colocar essa questão é o máximo a que os
princípios da escolha racional podem nos levar". Vários fatores diminuem as
recompensas esperadas pela direita de projetos autoritários, "mas eles só podem
fazer isso numa base que os atores percebam como temporária, e podem assim
induzir apoio temporárioà democracia. Mas não podem influenciar as recompensas
esperadas de um modo que os atores percebam como previsível e, portanto, não
podem criar compromisso com a democracia ou com a consolidação democrática".
Desse modo, ele reconhece não ter uma teoria geral da transição e da
consolidação democráticas. Como partiu de hipóteses corretas e colocou uma
excelente questão, se tivesse adotado uma abordagem histórica ele provavelmente
teria sido mais conclusivo. Ele quase faz isso, ao salientar o papel dos
fatores estruturais na transição e na consolidação democráticas, mas, no final,
não consegue identificá-los. Afirma que "os conservadores europeus só
consideraram mais atraente a previsibilidade da democracia quando acreditaram
que havia ocorrido uma mudança em um fator 'estrutural'". Qual é esse fator
estrutural? Ele ocorreu, segundo Alexander, "quando eles [os conservadores
europeus] acreditaram que a esquerda havia se tornado previsivelmente moderada,
não apenas taticamente moderada". Esse fato corresponde mais ou menos à segunda
condição histórica para a consolidação democrática que apresentei neste
trabalho: a perda, pelos ricos, do medo da expropriação. Ele não explica,
porém, por que a classe capitalista foi capaz de modificar sua visão sobre o
comportamento da esquerda ou dos trabalhadores, enquanto as classes dominantes
precedentes não o foram.
AS EVIDÊNCIAS
Dahl (1989) escreve sobre três períodos de crescimento da poliarquia: 1776-
1930, 1950-1959 e os anos 1980. Huntington (1991), provavelmente inspirado
nisso, identifica três ondas de democratização. Em cada onda, os países que
tinham se tornado capitalistas e liberais fizeram sua transição para a
democracia como previsto, enquanto os outros simplesmente os acompanharam como
resultado de imitação, pressão dos pobres ou pressão de outros países. No final
do século XX, além da maior parte dos países europeus e de língua inglesa,
todos os países latino-americanos e um número cada vez maior de países nos
outros continentes eram democráticos. A democracia tinha se disseminado - a
forma de governo predominante. Nos países asiáticos, que vinham experimentando
um extraordinário processo de crescimento econômico desde os anos 1950, as
elites burocráticas e capitalistas resistem à democracia, mas, na última
década, as transições democráticas tornaram-se uma realidade. O modelo
apresentado neste trabalho pretende oferecer uma explicação geral da transição
e da consolidação democráticas baseada no pressuposto de que a mesma teoria
deve explicar ambos os fenômenos, mas está em terreno mais firme no segundo do
que no primeiro. Historicamente, uma mudança completa da apropriação do
excedente econômico pelo Estado para a apropriação pelo mercado é uma condição
necessária e suficiente para a consolidação democrática, mas não para a
transição democrática. Nenhum país experimentou a consolidação democrática
antes de ter mudado a coordenação da economia, do Estado para o mercado, e de
ter reduzido substancialmente os aspectos patrimoniais de seu Estado, mas o
mesmo não pode ser dito em relação à democratização. Muitos países fazem suas
transições para a democracia enquanto a capturado Estado pelos interesses
privados permanece crucial para as elites; a democracia resultante é, porém,
instável.
Quanto às transições democráticas, temos muitos casos de países que se tornaram
democráticos antes que a revolução capitalista pudesse ser considerada
completada; e também uma série de países que só fizeram sua transição
tardiamente, muito depois de terem desenvolvido uma classe empreendedora e uma
ampla classe média; ou que ainda são autoritários, como no caso de Cingapura.
Com relação à consolidação democrática, no entanto, os casos excepcionais são
poucos. Provavelmente o mais extraordinário caso de uma democracia consolidada
estabelecida em um país em que as condições para isso não estavam claramente
presentes seja a Índia. É provável que líderes esclarecidos como Gandhi e Nehru
tenham desempenhado um papel importante, mas quando a transição ocorreu, já
havia uma grande classe capitalista na Índia. Por outro lado, os trágicos
fracassos da democracia depois da Primeira Guerra Mundial - particularmente na
Alemanha - são uma exceção à nossa regra, mas devemos levar em conta que a
transição para a democracia nesse país ocorreu logo após a guerra, em uma
situação de profundo ressentimento com relação à derrota, às condições impostas
pelos vencedores e à hiperinflação que se seguiu. Além desse caso, não vejo
nenhuma exceção a essa generalização. Empiricamente não é fácil demonstrar sua
validade, mas acredito que já existem evidências suficientes de que essa
alegação é verdadeira. Os países de renda média que saíram do estatismo ou do
comunismo, como a Polônia ou a Hungria, são exceções apenas aparentes ao meu
argumento sobre a consolidação. O estatismo pretendia ser um meio para o
socialismo, mas acabou sendo um caminho para a industrialização e o
capitalismo. Quando houve a rápida transição do estatismo para o capitalismo,
paradoxalmente a maior parte da revolução capitalista já havia acontecido sob o
comunismo. Essas sociedades eram objeto de forte intervenção artificial ou
planejada, mas seus níveis de renda, educação, tecnologia, além de vários
aspectos de seu sistema de valores e de sua estrutura social, eram
razoavelmente compatíveis com os requisitos da democracia consolidada.
A experiência histórica mostra que, depois que um país completa sua revolução
capitalista, ele tenderá a se tornar democrático; posteriormente, quando se
torna democrático, sua democracia será consolidada. Além da observação
histórica geral, seria possível dispor de evidências mais fortes de que um país
que tenha preenchido os requisitos históricos para a democracia, e se
democratizado, não voltará a cair no autoritarismo? Este é um ensaio
interpretativo, utilizando uma abordagem abrangente para identificar uma
trajetória comum de longo prazo; ele não entra em mecanismos causais precisos e
diferenças transnacionais sobre as maneiras pelas quais os países chegaram à
democracia. Não realizei novas pesquisas sobre o tema. As evidências já
disponíveis, porém, sustentam fortemente a hipótese apresentada aqui sobre a
consolidação da democracia. Toda a literatura que associa democracia ao
desenvolvimento econômico na verdade a apoia. Depois do clássico trabalho de
Lipset, todas as pesquisas confirmaram esse achado básico. Quanto mais
economicamente avançado for um Estado-nação, mais democrático ele será.
Assim, a simples observação histórica confirma essa alegação, mas os estudos de
Przeworski e seus colaboradores (2000) sobre desenvolvimento econômico e
democracia oferecem uma comprovação definitiva. Em seu estudo sobre democracia
no período 1950-1990, eles vão além de apenas mostrar a relação positiva entre
ambos os fenômenos. Eles também demonstram que "quando estão estabelecidas, as
democracias são muito mais passíveis de perdurar nos países mais altamente
desenvolvidos". O achado central, porém, é mais específico: eles concluem que,
nas democracias ricas (mais de seis mil dólares per capitaao ano) a
probabilidade de que o regime volte a ser uma ditadura é praticamente zero. Os
autores afirmam que seus achados não permitem estabelecer uma conexão causal.
Mas acredito que a hipótese de que países não exportadores de petróleo, com
renda per capitaacima deseis mil dólares ao ano, completaram sua revolução
capitalista é uma hipótese razoável ou conservadora. Se aceitarmos isso, segue-
se que a conclusão do processo de modernização implica consolidação
democrática. Como já admiti, há exceções a essa regra, mas são poucas.
Przeworski e seus colaboradores não acharam nenhuma.
CONCLUSÃO
Resumindo, a transição democrática foi o resultado de quatro fatos históricos
novos, todos relacionados à revolução capitalista, envolvendo a remoção dos
dois vetos exercidos pelos ricos. Além disso, a hipótese desenvolvida aqui
depende de duas condições: a falta de interesse dos trabalhadores em uma
revolução socialista e a constância, a longo prazo, da taxa de lucro enquanto
os salários e ordenados aumentam com a produtividade. Quando um país satisfaz
todos esses requisitos e a transição ocorre, a democracia resultante será uma
democracia consolidada. A mesma teoria que explica por que a democracia se
tornou generalizada no século XX explica a consolidação mais especificamente,
país por país.
O modelo de consolidação democrática apresentado aqui não estabelece uma
conexão causal definitiva. Mas mostra que, em uma sociedade em que os lucros e
os salários obtidos no mercado se tornam a forma predominante de apropriação do
excedente - indicação central de que a revolução capitalista foi completada -
as elites deixam de vetar a democracia. Posteriormente, à medida que os
direitos de voto vão sendo estendidos para os pobres, as elites capitalistas
percebem que essa mudança realmente não ameaça os direitos de propriedade e os
contratos.
Os trabalhadores, por sua vez, aumentam suas demandas de participação política,
mas fazem isso de modo moderado. Por fim, as elites acabam percebendo, com base
em suas próprias experiências e nas de outros países, que a democracia promove
melhor seus interesses do que os regimes autoritários: é mais estável e prevê
normas para que seus muitos membros repartam o poder e nele se alternem. As
classes médias, que crescem de modo extraordinário, sentem a mesma coisa. Em
outras palavras, depois que uma revolução industrial torna a apropriação do
excedente econômico dependente não do controle do Estado, mas do mercado, os
regimes autoritários deixam de ser atraentes para os capitalistas. Em um
segundo momento, a classe profissional que recebe ordenados em lugar de
salários cresce e divide o poder com os capitalistas. Ela também não tem razão
para preferir o autoritarismo. Por fim, a democracia torna-se racional para
todas as classes, apesar da insatisfação que a partilha do poder sempre causa.
Qual é a relevância da teoria apresentada neste trabalho? Primeiro, permite
compreender melhor o passado. Com ele, compreendemos porque a democracia se
tornou a forma de governo preferida e generalizada somente no século XX.
Segundo, por que a democracia se consolidou inicialmente nos países que
primeiro sofreram revoluções capitalistas, isto é, Inglaterra e Estados Unidos.
Terceiro, temos agora um critério para prever se um país que faz sua transição
para a democracia acabará sendo uma democracia consolidada. Se emergir de modo
endógeno, como um produto da revolução capitalista e da superação do medo da
expropriação, ela será consolidada, mas se for o produto de pressões externas
ou da tentativa das elites locais de imitar as instituições das sociedades mais
avançadas, ela não o será. O México, por exemplo, levou muito tempo para
tornar-se uma democracia, mas quando o fez já era uma democracia consolidada,
enquanto a Venezuela e a Colômbia, que alcançaram antes a democracia, ainda não
são democracias consolidadas. Quarto, ela nos leva a considerar um caso como o
de Cingapura - um país rico, mas, apesar disso, ainda sob um regime autoritário
- como a exceção, não a regra. Quinto, ela sugere que a pressão em favor da
democracia sem que estejam presentes as condições para a democracia pode ter
sentido para os países mais ricos, interessados em ter o estado de direito em
suas relações econômicas com outros países, mas não será necessariamente a
melhor opção para os países sob pressão. Pessoalmente, acredito que os países
africanos pobres, por exemplo, deveriam ser democráticos para escapar da
armadilha da pobreza, mas ninguém pode ter certeza sobre esse assunto.
NOTAS
1. Sobre o "método histórico-dedutivo", ver Bresser-Pereira (2009); sobre
"mecanismos sociais", ver Elster (1998) e a coleção editada por Hedström e
Swedberg (1998).
2. Observe-se que eu uso as palavras "liberal" e "liberalismo" em seu sentido
clássico, como a ideologia que, na esfera política, afirma o estado de direito
e os direitos civis, e na esfera econômica, a coordenação da economia pelo
mercado. Não uso essas palavras no sentido coloquial norte-americano de uma
ideologia progressista que se inclina favoravelmente à intervenção do Estado
para complementar a coordenação do mercado.
3. Podemos também ver uma tendência democrática em Thomas Paine e em
Tocqueville.
4. Utilizei essa abordagem, originalmente, em 1978 para analisar e prever a
transição brasileira para a democracia que ocorreria oito anos depois. Presumi
que o Brasil já tivesse completado sua revolução capitalista. Mas, em razão da
revolução cubana de 1959 e da radicalização política que se seguiu, a burguesia
brasileira optou, em 1964, por um regime autoritário. Treze anos depois, no
entanto, esse medo havia desaparecido, e a classe capitalista gradualmente se
aliou às outras fontes de pressão democrática (Bresser-Pereira, 1978; 1984).
5. Observe-se, no entanto que, embora eu acredite que a distinção de Dahl entre
democracia moderna e poliarquia seja útil em certas circunstâncias para
distinguir uma forma ideal de governo da realidade, e também da democracia
grega, neste trabalho utilizo "democracia moderna" ou simplesmente "democracia"
e "poliarquia" como sinônimos.
6. De acordo com Montesquieu (1748: 609) "où il y a du commerce, il y a des
moeurs doux" ("onde há comércio, os costumes são suaves").
7. Nos Estados Unidos, o sufrágio universal masculino já existia desde a
primeira parte do século XIX, provavelmente porque os norte-americanos foram os
primeiros a se livrar do medo da expropriação.
8. O ensaio de Therborn sobre esse assunto (1977) ainda é a referência básica;
o livro de Collier de 1999 sobre a classe trabalhadora e as elites na Europa
Ocidental e na América do Sul oferece uma contribuição importante para o tema.
Ver, também, Huber, Rueschmeyer e Stephens (1997), e Collier e Mahoney (1997).
9. Pensou-se durante algum tempo que o socialismo seria essa alternativa, mas
ele transformou-se em estatismo porque os burocratas, não os trabalhadores,
substituíram os capitalistas, e o estatismo, depois de ter conseguido provocar
um crescimento inicial, não foi capaz de coordenar sistemas econômicos mais
complexos e torná-los competitivos.
10. Mainwaring (1992: 327) observa que "a mais importante linha divisória nos
trabalhos atuais sobre democracia está entre aqueles que a veem basicamente
como resultado de condições econômicas, sociais ou culturais propícias, e
aqueles que a veem basicamente como resultado de instituições políticas,
processos e liderança". Como mostram esta crítica e todo o trabalho, eu me
incluo na primeira tradição de pensamento, que também identifico como abordagem
histórica.