Coordenação intragovernamental para a implementação da política externa
brasileira: o caso do Fórum IBAS
No presente contexto de progressivo adensamento das relações internacionais do
Brasil, que tem acarretado a sua crescente politização e a emergência de novos
stakeholders, diversos estudos detectam uma perda, ainda que relativa, da
capacidade do Itamaraty de coordenar a política externa brasileira. Contudo, se
nos últimos anos a comunidade acadêmica brasileira tem se dedicado, de maneira
mais sistemática, à análise do modo como o Ministério das Relações Exteriores
(MRE) interage com o Poder Legislativo (Alexandre, 2006, 2007; Diniz e Ribeiro,
2008, 2010; Ferreira, 2010; Lima, 2002; Lima e Santos, 2001; Maia e César,
2004; Neves, 2003, 2006; Oliveira, A., 2003) e com os grupos de interesse
domésticos (Carvalho, 2003; Cason e Power, 2006; Oliveira e Pfeifer, 2006;
Oliveira e Onuki, 2007; Oliveira, M., 2003; Santana, 2001), na agenda de
trabalho dos pesquisadores da área ainda há, claramente, uma lacuna importante,
relativa à maneira como o Itamaraty procura, na produção da política exterior,
articular os demais atores governamentais, que não raro têm interesses e
métodos divergentes daqueles da diplomacia do país.
Na verdade, existe hoje uma bibliografia já significativa que, reconhecendo a
centralidade do Itamaraty na produção da política exterior brasileira (ou quase
monopólio, segundo alguns críticos), se dedica à apreciação empírica do papel
efetivamente desempenhado pelo Itamaraty e à relevância de suas estruturas e
dinâmicas organizacionais, qual seja: Barros (1986) e Cheibub (1985; 1989) e,
mais recentemente, Vigevani e Mariano (1997); Figueira (2010); Moura (2006;
2007); Puntigliano (2008); Silva, Spécie e Vitale (2010) e Belém Lopes (2011).
Note-se, contudo, que o interesse dos analistas da política externa brasileira
tem, via de regra, se concentrado nos processos argumentativos, decisórios e de
negociação com os parceiros internacionais. A exemplo do ocorrido anteriormente
na academia estadunidense, na qual a implementação era considerada, nos anos
1970, como o "elo perdido" do processo de produção das políticas públicas, no
Brasil parecem ser ainda esparsos os esforços de compreensão dos estilos,
impactos, condicionantes e resultados da implementação. Como questão conexa,
parece também sub apreciado o papel das burocracias públicas como atores na
produção das políticas, capazes e muitas vezes legitimadas não apenas para a
execução das diretrizes emanadas dos atores propriamente políticos, mas também
atuando, em larga medida, como formuladoras (Faria, 2011). O presente artigo
parte do reconhecimento daquela lacuna, centrando-se na apreciação dos
mecanismos e estruturas organizacionais adotados pelo Itamaraty com o intuito
de promover a coordenação dos demais atores governamentais, no nível doméstico,
para a implementação das diretrizes do Fórum IBAS (Índia, Brasil e África do
Sul), criado em 2003.
A inovadora iniciativa conjunta envolvendo os três Estados intermediários '
Índia, Brasil e África do Sul ' afigura-se peça fundamental da estratégia de
cooperação entre os países do hemisfério Sul, a qual constituiu pilar da gestão
de política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu chanceler,
Celso Amorim, entre 2003 e 2010 (Lima, 2005; Cervo, 2010). Importa notar também
que a relativa maturidade do arranjo institucional do Fórum IBAS (já
devidamente implementado e em funcionamento nos dias correntes) permitirá aos
autores do artigo investigar com mais profundidade e detalhamento as
dificuldades operacionais de levar a cabo a política externa tal como fora
concebida, bem como as consequências momentâneas da sua implementação. Trata-
se, afinal, de um caso que, apesar de recente e ainda por desdobrar-se, já
apresenta contornos bem definidos, despertando o interesse dos estudiosos em
função de sua relevância presente e, presumivelmente, futura.
Tendo em vista nosso objetivo principal, o artigo está organizado da seguinte
maneira: na primeira seção, são apresentados, mui brevemente, os fatores que
parecem explicar o insulamento do Itamaraty. Nessa seção são também arroladas
evidências recentes de um comportamento organizacional, por parte do Ministério
das Relações Exteriores (MRE), no sentido da busca de superação desse
insulamento. A segunda seção, igualmente breve, procura compreender o
significado do Fórum IBAS nas estratégias de inserção internacional adotadas
durante a gestã o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A terceira apresenta
a estrutura organizacional do IBAS, destacando os distintos instrumentos de
coordenação inter e intragovernamental adotados. Ênfase é dada a esses últimos,
que têm o objetivo de garantir a coordenação da atuação de uma diversidade de
agências do governo federal brasileiro, envolvidas na busca de concretização
dos objetivos do Fórum. A quarta seção apresenta uma discussão sucinta acerca
da necessidade e dos tipos de estruturas usualmente implantadas para a produção
da coordenação das atividades das agências estatais no plano
intragovernamental. Na quinta seção do trabalho, os mecanismos de coordenação
adotados pelo governo brasileiro para a implementação doméstica das diretrizes
do IBAS são classificados, sendo a sua dinâmica brevemente analisada. Nas
considerações finais, é questionada a suposta perda de capacidade de
coordenação intragovernamental do Itamaraty.
O ITAMARATY: DO INSULAMENTO À BUSCA DE COORDENAÇÃO INTRAGOVERNAMENTAL,
INTERGOVERNAMENTAL E INTERSETORIAL
Como discutido por Faria (2008), parece haver hoje um quase consenso entre os
analistas da política exterior do Brasil, bem como entre diversos de seus
stakeholdersda sociedade civil, acerca do caráter insulado do processo de
produção de tal política no país. De maneira sumária, é possível afirmarmos que
a tradicional centralização do processo de formação da política externa no
Itamaraty pode ser compreendida pela confluência de distintos fatores, quais
sejam: (a) o arcabouço constitucional do país, que concede grande autonomia ao
Executivo nesta matéria, relegando o Legislativo a uma posição marginal, o que
também ocorre na maior parte dos países; (b) o fato de o Congresso brasileiro
ter delegado ao Executivo a responsabilidade pela formação da política externa;
(c) o caráter "imperial" do presidencialismo brasileiro; (d) o fato de o modelo
de desenvolvimento por substituição de importações ter gerado uma grande
introversão e insulamento dos processos políticos e econômicos do país,
redundando em grande isolamento internacional do Brasil, reduzido a partir do
início da década de 1990; (e) o caráter normalmente não conflituoso e
largamente adaptativo da atuação diplomática do país; e, por fim, mas não menos
importante, (f) a significativa e precoce profissionalização da corporação
diplomática do país, associada ao prestígio de que desfruta o Itamaraty nos
âmbitos doméstico e internacional.
Tais fatores, somados, parecem explicar o baixo grau de politização da política
externa do país, pelo menos até o final dos anos 80, o que reforça e justifica
o insulamento do Itamaraty, que parece ainda encarar a política externa
principalmente como uma política de Estado.
Desde a década passada, contudo, a aceleração do processo de globalização, a
mudança no paradigma de inserção internacional do país, o adensamento das
relações internacionais do Brasil e a politização de sua política externa têm
redundado em crescentes pressões, políticas, societárias e também
intragovernamentais, para que a produção da política externa do país passe a
ser menos centralizada no Itamaraty. Elemento central neste processo é, como
discutido por Lima (2000), o aumento do impacto distributivo da política
externa do país. Como demonstra a literatura sobre o papel do empresariado
nacional e do Legislativo na produção de tal política, listada há pouco, há
mobilizações de diversas ordens voltadas ao questionamento da postura do
Ministério das Relações Exteriores, tida como excessivamente insulada.
Há, contudo, diversas evidências recentes que apontam, se não para a plena
superação deste padrão insulado de formação da política, pelo menos para um
comportamento organizacional, por parte do MRE, no sentido da adoção de um
padrão mais cooperativo. Tais evidências, analisadas em maior detalhe por Faria
(2009), serão rapidamente arroladas aqui. Elas apontam mudanças no
comportamento do Itamaraty em diversas direções, quais sejam: (a) na busca por
uma maior coordenação intragovernamental, isto é, de uma articulação mais
estreita com os demais ministérios e agências do governo federal; (b) na
intensificação da busca por uma cooperação intergovernamental mais ampla, isto
é, de maior articulação entre o Itamaraty e os governos subnacionais, que têm
demonstrado grande ativismo em suas ações internacionais; e (c) no plano
intersetorial, ou seja, de articulação entre o governo federal e as entidades
do mercado (segundo setor) e a sociedade civil (em que proliferam as entidades
do chamado terceiro setor).
No que diz respeito à busca, por parte do Itamaraty, de uma maior coordenação
intragovernamental, pode-se mencionar, muito sumariamente, não apenas as
próprias estruturas de articulação instituídas pelo MRE para a implementação
das diretrizes e políticas do IBAS, como será discutido neste trabalho, mas
também iniciativas como: os Cursos de Capacitação em Relações Internacionais
ministrados para altos funcionários do governo federal, das autarquias e das
agências reguladoras pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), vinculada ao
Itamaraty; a oferta de apoio, doméstico e no exterior, a uma ampla gama de
atividades internacionais desenvolvidas pelos vários órgãos do governo federal,
incluindo a cessão de diplomatas para atuarem junto às assessorias de relações
internacionais, presentes hoje na maior parte dos organismos da administração
federal, entre outras. Cabe reiterarmos que esta área de atuação do MRE ainda é
virtualmente inexplorada pelos analistas acadêmicos da política externa do
país, sendo exceção o trabalho de Figueira (2010).
No plano intergovernamental, as iniciativas do Itamaraty são concentradas no
âmbito da Assessoria Especial de Assuntos Federativos e Parlamentares (AFEPA),
cuja atuação ainda precisa ser mais bem investigada. Nesse plano, têm papel de
destaque os oito Escritórios Regionais do Itamaraty, quais sejam: EREMINAS
(Escritório de Representação em Minas Gerais); EREPAR (Escritório de
Representação no Paraná); ERESC (Escritório de Representação em Santa
Catarina); ERESUL (Escritório de Representação no Rio Grande do Sul); ERERIO
(Escritório de Representação no Rio de Janeiro); ERESP (Escritório de
Representação em São Paulo), todos com sede nas capitais dos respectivos
estados, e o ERENOR (Escritório de Representação na Região Norte, antigo
EREMA), com sede em Manaus, e o ERENE (Escritório de Representação no
Nordeste), com sede em Recife. Parece haver indícios de que é crescente o
ativismo desses escritórios, criados a partir de 1995. Cabe destacar que os
EREs buscam cooperar, em uma vasta gama de assuntos internacionais, não apenas
com os governos subnacionais, mas também com toda sorte de atores societários,
indivíduos e organizações.
No que concerne às articulações intersetoriais, ou seja, às interações do
governo federal com as entidades do mercado e a sociedade civil, as evidências
talvez sejam contraditórias. No primeiro caso, Oliveira e Pfeifer (2006)
afirmam ter havido não apenas uma mudança no padrão de relacionamento entre o
empresariado e o Itamaraty durante o governo Lula, mas também uma certa
retração, após um processo de maior institucionalização das interações durante
o governo precedente, a despeito do fato de que, em "alguns aspectos, houve uma
aproximação estreita e resultados auspiciosos" (ibidem:400). Seja como for, no
caso das interações do primeiro com o segundo setor, no âmbito da política
externa, a literatura existente é quase unânime ao enfatizar a vigência de
interações ainda aquém das desejáveis.
Contudo, no que diz respeito às articulações do Itamaraty com a sociedade
civil, parece pertinente sugerirmos uma sensível ampliação da diplomacia
pública durante o governo Lula, não apenas no sentido da projeção de uma dada
imagem do Brasil no exterior, mas também de divulgação da política externa do
país no âmbito doméstico. É esta segunda vertente da diplomacia pública
brasileira que mais se associa com a temática explorada no presente artigo.
Nesse campo, cabe, inicialmente, mencionarmos a criação do canal oficial do MRE
no YouTube(http://www.youtube.com/mrebrasil), no qual é possível ter acesso a
vídeos e áudios de programas, entrevistas e coletivas do Ministro de Estado,
diplomatas e outras autoridades sobre temas de política externa. A página é
relativamente nova (foi criada em 18 de fevereiro de 2009), mas já tem 470
vídeos, que foram exibidos 490.179 vezes (dado do dia 16/4/2012, às 17 horas).
Destaque-se, ainda, o crescente ativismo da Funag, criada em 1971. Em recente
balanço feito pela Fundação em seu Newsletterde 18/6/2009, são listadas as
inúmeras atividades realizadas em 2008 com o intuito de "popularizar a política
internacional", de "aproximar a política internacional do cotidiano do
cidadão". Os números do balanço feito pela Funag são expressivos: em 2008 a
Fundação "publicou 116 títulos [dos 620 em catálogo, todos disponíveis na
internet], realizou 20 eventos, ministrou cinco cursos e criou bibliotecas em
todas as regiões do país"1. A Fundação também criou programas para a
distribuição gratuita de livros relacionados à diplomacia do país e à sua
política externa, bem como passou a fomentar um diálogo mais sistemático com a
comunidade de investigadores acadêmicos das relações internacionais do país.
Cabe recordarmos, ainda, que, a exemplo do que acontecia antes, o ministro das
Relações Exteriores do governo Lula procurou divulgar, com intensidade
significativa, as estratégias e resultados da política externa, por intermédio
de artigos publicados na mídia impressa. Uma eventual maior receptividade do
MRE aos aportes e demandas externos, ou o caráter bidirecional destas
interações, contudo, ainda é uma questão a merecer estudos específicos.
O FÓRUM IBAS E A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA
O Fórum Trilateral de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul (IBAS) foi criado
em 2003, pela Declaração de Brasília. Seus objetivos principais são: promover o
diálogo Sul-Sul, a cooperação e a convergência do posicionamento de seus
membros em assuntos de importância internacional; desenvolver oportunidades de
comércio e investimento entre as três regiões, trabalhar a redução
internacional da pobreza e em favor do desenvolvimento social; promover a troca
de informação trilateral, melhores práticas internacionais, o intercâmbio de
tecnologias e habilidades, assim como complementar os respectivos esforços de
sinergia coletiva, buscando a cooperação em diversas áreas, como agricultura,
mudança do clima, cultura, defesa, educação, energia, saúde, sociedade de
informação, ciência e tecnologia, desenvolvimento social, comércio e
investimento, turismo e transporte2.
Se, em um primeiro momento, a política externa brasileira (PEB) esteve
visceralmente ligada à defesa da independência e do recém-formatado território
nacional, pode-se afirmar que o início do século XX inaugurou um outro
moduspara a inserção internacional do Brasil: o país assume, de forma
flagrante, a tática de aproximação com o centro do poder mundial (com Londres
e, mais destacadamente, com Washington), tática essa que seria retomada por
praticamente todos os presidentes da República. O grau dessa aproximação e a
forma pela qual ela se desenvolveu vão variar com o tempo. Todavia, o que se
manteve mais ou menos constante, no curso de nossa história republicana, foi o
emprego da PEB a serviço do desenvolvimento econômico nacional (Lima, 2000;
Cervo e Bueno, 1992). Assim, independentemente do modo como se dava a inserção
brasileira em um momento específico da história (equidistante, pragmática,
autônoma, associada, responsável, altiva etc.), as preocupações quanto ao
desenvolvimento nacional estiveram conectadas às relações com o Norte ' a força
motriz da economia mundial.
Em regra, as relações com o Sul observaram sua função "complementar ao Norte"
(Cervo e Bueno, 1992:374). Situações muito específicas constituíram exceção a
essa regra. No campo da segurança (regional, hemisférica ou global), por
exemplo, a tendência não foi a de associação com o Norte, por motivos já bem
conhecidos. Na América do Sul, as consternações acerca da segurança regional,
da balança de poder e da manutenção do status quo, quando ocorreram, nunca
desfavoreceram o Brasil. O país apenas manteve seu horizonte de política
exterior no Sul quando questões de vizinhança (normalmente ligadas à segurança)
estiveram no centro da agenda nacional, ou seja, quando se precisou agregar
força de barganha em fóruns multilaterais pela "causa sulista" ou quando o Sul
se transformou em único trampolim para voos mais altos (rumo ao Norte), como se
nota nas décadas de 1970 e 80 (Belém Lopes e Vellozo Júnior, 2004).
De forma inovadora, portanto, a gestão da PEB de Lula parece ter encontrado, no
Sul, o local; e na tática de aproximação, via eixo Sul-Sul, a oportunidade para
implementar uma estratégia maior: pensar os ganhos e o relacionamento do Brasil
em relação ao Sul não apenas como complementares às suas relações com o Norte.
O governo Lula identificava nessas incursões ' dentre as quais se destaca o
Fórum IBAS ' a oportunidade de "unir semelhantes"para suprir o atraso
tecnológico e econômico nacional, por intermédio de alianças, e de pressionar
por uma nova governança global, capaz de espelhar e promover uma maior simetria
entre Norte e Sul.
Em um contexto de extrema concentração da renda mundial no hemisfério Norte,
que benefício pode haver nas chamadas estratégias de desenvolvimento Sul-Sul? É
necessário aplacar a alegação de pretensa irracionalidade econômica e política
dessas estratégias. Conforme aponta o relatório anual do Banco Mundial, os
países em desenvolvimento (PEDs), tomados em conjunto, contabilizam
aproximadamente 25% do Produto Nacional Bruto (PNB) mundial (World Bank
Indicators, 2002). Ainda há que se ter em conta que os índices (nos últimos
vinte anos) e projeções de crescimento dos PEDs em muito superam aqueles dos
países do Norte desenvolvido. Além disso, os PEDs concentram mais da metade do
mercado consumidor global. Ante o gigantismo demográfico do Sul não
desenvolvido, aumentos nos níveis de renda percapitadas populações de economias
periféricas significam um enorme potencial multiplicador de consumo (vertido em
aumento de exportações ou de produção no mercado interno, para os
empreendedores que nesses mercados puderem penetrar) (ibidem). Rubens Ricupero
(2004) endossa o argumento: "tem razão o presidente Lula: uma nova geografia do
comércio se delineia. Para japoneses e americanos, os mercados das economias
emergentes se aproximam de 50% de suas exportações e importações".
Partindo de uma concepção ampliada do desenvolvimento, que privilegia os seus
aspectos não econômicos, qual vem a ser a atratividade das parcerias
desenvolvimentistas Sul-Sul, tais como o Fórum IBAS? Aqui, os motivos são mais
intuitivos, porém não óbvios. Dividamo-los em três frentes: (i) os desafios
comuns da globalização; (ii) a reforma do sistema internacional; e (iii) o
diálogo sobre governança nacional. Questões como a liberalização de mercados
financeiros, a competitividade (espúria) no comércio internacional, os fluxos
migratórios e a destinação de investimentos internacionais demarcam o campo de
reflexão da primeira categoria. No tocante à governança global, o eixo Sul-Sul
permanece valioso para a cooperação política. A esse respeito, Ignacy Sachs
(1997:73) vislumbra: "a competição provável entre os três blocos de países
industrializados ' América do Norte, Europa e Japão ' possivelmente criará
oportunidades de um novo tipo de neoneutralismo". O pleito pela reforma da
Organização das Nações Unidas (ONU) e as ações concertadas na Organização
Mundial do Comércio (OMC) dão corpo a esse conceito. Por fim, no relativo ao
compartilhamento de "melhores práticas" de gestão interna dos PEDs, Ricupero,
novamente, toma a palavra: "não podemos [países em desenvolvimento] nos
comparar aos Estados Unidos ou à União Europeia, porque estes inventaram e
plasmaram a globalização". O emparelhamento de estratégias de desenvolvimento
dos PEDs ajuda a compreender "como estão resolvendo seus problemas de inserção"
(Ricupero, 2002:36).
O FÓRUM IBAS: ESTRUTURA ORGANIZACIONAL E MECANISMOS DE ARTICULAÇÃO
INTERGOVERNAMENTAL E DE COORDENAÇÃO INTRAGOVERNAMENTAL
Para a definição e implementação das diretrizes de ação do Fórum IBAS, foram
criadas três instâncias principais de articulação intergovernamental entre os
três países-membros, quais sejam: (a) a de articulação entre os Chefes de
Estado, por intermédio das Cúpulas Presidenciais, principalmente; (b) as
Comissões Mistas Trilaterais, que organizam a interação entre os ministérios
temáticos dos três países, por intermédio dos Encontros Ministeriais; e (c) a
dos chamados Pontos Focais, que são oficiais seniores responsáveis pela
coordenação institucional das atividades dos Grupos de Trabalho e pelas ações
de concertação política dos Chanceleres e dos Chefes de Estado, bem como por
gerenciar as atividades do Fundo IBAS. Para dar maior capilaridade doméstica à
busca de cooperação trilateral, foram criados também grupos específicos de
trabalho (os GTs), que se dedicam aos temas prioritários definidos no Guia de
Ações, estabelecido em 2004, cujo objetivo é possibilitar a troca de
informações e facilitar as interações e a cooperação técnica entre as
burocracias dos países-membros.
Antes de examinarmos os mecanismos e dinâmicas que têm sido adotados para a
implementação doméstica, no Brasil, das diretrizes de atuação do IBAS, ou seja,
as formas de articulação intragovernamental para a concretização dos objetivos
propostos, cabe comentarmos, brevemente, o funcionamento destas três instâncias
de articulação intergovernamental. Na base desta estrutura de articulação
intergovernamental, que conecta lideranças políticas e parte do aparato
burocrático-administrativo dos países-membros, encontram-se os Pontos Focais,
que são altos funcionários da Chancelaria dos três países, responsáveis pela
supervisão dos GTs, que serão discutidos adiante, e de seu adequado
funcionamento, seguindo as prioridades e cursos de ação definidos nas duas
instâncias superiores da hierarquia. Os Pontos Focais de cada um dos países se
reúnem regularmente, buscando a harmonização e o gerenciamento das atividades
do Fórum, de modo a monitorar e aprimorar o intercâmbio e garantir a evolução
do diálogo e da cooperação entre as partes. Para tanto, foram realizadas, até
abril de 2009, quatorze reuniões dos Pontos Focais.
Os Encontros de Chanceleres (ou Comistas) ocorrem no mínimo uma vez ao ano
(sendo normalmente realizados no primeiro semestre, preliminarmente às Cúpulas
Presidenciais) e são fundamentalmente baseados nas Reuniões de Pontos Focais,
que verificam previamente os pontos de interesse para o aprimoramento da
concertação política entre as partes. Nesses encontros são debatidos temas de
interesse global como: comércio, clima, desenvolvimento e gênero, além de
questões regionais e outros assuntos inerentes ao Fórum IBAS, como o andamento
das atividades do Fundo IBAS. Nessas ocasiões, normalmente são apresentados
documentos oficiais, denominados Comunicados Ministeriais, que resumem as
propostas de atuação do Fórum IBAS em âmbito global e regional, em termos de
cooperação técnica e política.
O nível mais alto da hierarquia do IBAS é o das Cúpulas Presidenciais. Tais
reuniões têm sido realizadas anualmente desde 2006, quando os presidentes dos
três países se encontraram em Brasília. Nesses encontros são assinados os
acordos de cooperação entre as partes e os três Chefes de Estado pronunciam-se
sobre o futuro do Fórum e sobre o seu posicionamento perante os principais
acontecimentos do sistema internacional de seu interesse mais imediato e sobre
temas globais e/ou regionais, além de explicitarem os objetivos de longo prazo
para o Fórum. Após cada encontro é publicada uma declaração oficial, contendo
as projeções futuras para a cooperação entre as partes.
Para a concretização das diretrizes definidas no âmbito intergovernamental, foi
fundamental a criação e institucionalização de mecanismos de coordenação no
plano intragovernamental, em cada um dos países-membros. Interessa-nos neste
artigo compreender a maneira como
o Brasil, buscando implementar os cursos de ação definidos, procura
reconfigurar a sua estrutura burocrática para a efetivação da
cooperaçãotrilateralnoâmbitodoFórum IBAS.A implementaçãodas diretrizes de
cooperação demanda mudanças organizacionais para a dinamização da coordenação
das ações no plano intragovernamental, notada-mente por meio da criação dos
Grupos de Trabalhos (GTs).
No caso brasileiro, a institucionalização inicia-se em 2004, com a designação
de um diplomata como responsável pela coordenação das ações do IBAS nos âmbitos
doméstico e internacional. Foi criada uma coordenação específica das atividades
do Fórum, dentro do organograma do MRE, qual seja, a Coordenação do Fórum de
Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (CIBAS), regulamentada pelo Decreto nº5.979,
de dezembro de 2006, que era parte da Subsecretaria Geral Política II (SGAP
II), do MRE. No entanto, o progressivo fortalecimento da iniciativa, o
incremento da cooperação e a ampliação das áreas de ação do Fórum exigiram do
governo brasileiro uma estrutura ainda mais robusta. Em 2008, para substituir a
CIBAS, foi criada a Divisão do Fórum Índia, Brasil e África do Sul (DIBAS),
responsável pela coordenação das ações do Fórum IBAS, que estava subordinada ao
Departamento de Mecanismos Regionais (DMR), ainda sob a égide institucional da
SGAP II. Em 2010, o DMR transformou-se em Departamento de Mecanismos
Interregionais e a DIBAS transformou-se em Divisão do Fórum IBAS e Agrupamento
BRICs.
Desde o fim da Guerra Fria, e com a mudança no paradigma de inserção
internacional do Brasil, no início da década de 1990, tem havido significativas
alterações na estrutura organizacional do Itamaraty, com a criação, fusão e/ou
expansão de Coordenações, Divisões e Departamentos (ver o trabalho de
Puntigliano, 2008). As constantes reformulações na estrutura do MRE refletem,
assim, não apenas as inflexões da política externa brasileira, mas também as
alterações no seu modo de ação e a multiplicação das relações internacionais do
país. A criação da DIBAS, menos de dois anos após o surgimento da CIBAS, com a
consequente ampliação do quadro funcional do MRE dedicado ao IBAS, reflete, por
certo, a própria dinamização do Fórum neste período.
Até 2007, a CIBAS contava com apenas um diplomata, responsável pelo trabalho de
articulação doméstica para a implementação das ações de cooperação no âmbito do
Fórum, a quem se somava o Ponto Focal no Brasil. Em fevereiro de 2008, a DIBAS,
que substitui a CIBAS, passou a ser composta por três diplomatas. Em julho do
mesmo ano, juntou-seàequipe mais um diplomata, queexerceriaachefiada DIBAS. Em
2009, foram agregados mais três servidores, sendo um designado para assumir a
Subchefia da Divisão, e dois novos estagiários substituíram os antigos, que
agora estão efetivamente lotados na DIBAS. Assim, em meados de 2009 o quadro
funcional do MRE dedicado ao IBAS era composto por seis pessoas, sendo quatro
diplomatas efetivamente lotados na DIBAS e mais dois estagiários do IRBr,
auxiliados pelos da DMR, além do próprio Chefe do Departamento, que era
o Coordenador Nacional Brasileiro do IBAS, somado ainda ao Ponto Focal
Brasileiro, lotado na SGAP II. Cabe destacar, porém, que outros funcionários
lotados na SGAP II e na DMR também auxiliam nas atividades do IBAS, no plano
administrativo.
A SGAP II, segundo o artigo 16 do Decreto nº5.979, de 6 de dezembro de 2006, é
a Subsecretaria responsável por assessorar o secretário-geral de Relações
Exteriores nas questões de política exterior de natureza bilateral, birregional
e multilateral com os países ou o conjunto de países das áreas geográficas por
ela abrangidas, quais sejam, Ásia, África, Oceania e Oriente Médio. A DIBAS,
que funciona como instituição coordenadora brasileira do Fórum IBAS, foi
instituída, em janeiro de 2008, pela Circular Telegráfica nº66.881, dentro da
estrutura da SGAP II, justificando-se, desse modo, a escolha do subsecretário
geral de Política II como Ponto Focal do IBAS no Brasil. No mesmo sentido,
justifica-se a escolha do chefe do DMR como Coordenador Nacional do IBAS no
Brasil, uma vez que a DIBAS está subordinada ao DMR.
Em 2010, a DIBAS transformou-se em DIB, agregando também o agrupamento BRIC,
uma vez que são coincidentes os países participantes ' lembrandoque em
2011aÁfricadoSul foiincorporada ao BRICs.
Entre 2010 e 2011, verificou-se uma diminuição no efetivo diplomático para
tratar desses mecanismos, restando, em abril de 2011, o Chefe da divisão,
diplomata responsável pelo Fórum IBAS e Aglomerado BRIC, e mais três diplomatas
lotados para auxiliá-lo.
Tanto o Ponto Focal como o Coordenador Nacional do IBAS no Brasil são altos
funcionários do MRE, responsáveis pela articulação e gestão das atividades do
Fórum tanto no plano doméstico quanto pelas interações com os outros dois
Estados membros. O Ponto Focal e o Coordenador Nacional do IBAS são
responsáveis por assessorar o ministro das Relações Exteriores e o presidente
da República no que concerne ao IBAS, por monitorar as atividades dos Grupos de
Trabalho, preparar encontros ministeriais e presidenciais, além de verificar o
andamento das políticas desenvolvidas pelo Fórum IBAS em outros países, por
intermédio das atividades do Fundo IBAS3.
Auxiliam, ainda, na execução das ações do IBAS as diversas Divisões e
Departamentos do MRE envolvidos nos vários Grupos de Trabalho. As informações
sobre as ações desenvolvidas pelo Fórum IBAS são mantidas atualizadas e
disponíveis no sítio eletrônico da DIB4 e de outras Divisões, bem como nas
páginas eletrônicas dos Ministérios e de outros órgãos envolvidos nas
atividades do Fórum.
As Embaixadas do Brasil, localizadas em Nova Déli e Pretória, também contribuem
ativamente, fazendo a intermediação da Chancelaria brasileira com seus pares
nos outros dois membros do Fórum. Colaboram, ainda, os Consulados localizados
em outras cidades da África do Sul e da Índia, como o da Cidade do Cabo e o de
Mumbai.
Em um nível hierárquico inferior da estrutura organizacional do Fórum IBAS,
encontram-se os dezesseis GTs, que são gerenciados, em cada um dos três países,
pelos Pontos Nodais. Estes são funcionários de alto escalão da burocracia
federal, podendo ser lotados no próprio MRE ou em órgãos federais, ou outros
ministérios. Os Pontos Nodais atuam como coordenadores domésticos dos GTs,
fazendo, além do gerenciamento doméstico das atividades, a coordenação das
interações intergovernamentais dos Grupos.
A escolha do Ponto Nodal é feita a partir das atividades desenvolvidas por cada
GT, ou seja, caso as políticas trabalhadas nos GTs estejam sob responsabilidade
principal de um órgão federal ou ministério específico, espera-se que o Ponto
Nodal seja, portanto, um funcionário lotado neste órgão ou ministério; caso as
ações desenvolvidas pelo GT estejam relacionadas mais diretamente ao MRE, o
Ponto Nodal deverá ser proveniente do MRE. Tal escolha tem por objetivo
facilitar tanto o relacionamento entre as instituições envolvidas nos GTs
quanto aproximar as burocracias dos outros dois países envolvidos no IBAS, uma
vez que as ações dos GTs, para serem implementadas, necessitam da cooperação
intragovernamental e intergovernamental.
Cada um dos dezesseis Grupos de Trabalho do IBAS é formado por representantes
dos três países, existindo, pois, um único GT do IBAS para cada uma das áreas
em que se busca a cooperação, do qual participam representantes dos três
países.
Conforme anteriormente anunciado, para cada GT há um Ponto Nodal em cada um dos
países, que é o responsável pela articulação doméstica em cada país, bem como
pela coordenação entre as delegações dos outros dois países-membros. Cabe, no
entanto, diferenciar os Pontos Nodais dos coordenadores ad hocque são
escolhidos em cada encontro trilateral dos GTs, momento em que estão presentes
representantes dos três países. Isso ocorre para facilitar o andamento do
encontro, bem como para possibilitar o secretariado da reunião, de modo que
seja possível a produção de uma ata final, na qual estarão definidos os
projetos a serem executados.
Os Pontos Nodais brasileiros coordenam as atividades dos GTs no plano
doméstico, intragovernamental, e as interações, na temática objeto de cada GT,
com as outras duas delegações da Índia e da África do Sul, devendo, ainda,
manter a DIBAS informada acerca de todas as atividades dos grupos.
Cabe destacar que alguns dos GTs mantêm atividades que envolvem a sociedade
civil (especialmente no Fórum entre Povos), como ocorre no GT de Comércio e
Investimentos, que está sempre em contato com o Fórum Empresarial do IBAS, cuja
coordenação no Brasil é feita através da Confederação Nacional das Indústrias
(CNI), bem como com o Fórum de Pequenas Empresas, que reúne as instituições que
gerenciam as atividades das pequenas empresas nos três países (no Brasil, o
Sebrae); na África do Sul, a Small Enterprise Development Agency (SEDA); e na
Índia, a National Small Industries Corporation Ltd. (NSIC).
A cooperação entre e no interior dos três países funciona de modo independente
em cada uma das áreas definidas nos GTs, como especificado nos Memorandos de
Entendimentos5 assinados pelos três países, bem como nos planos de ações
definidos e implementados por cada GT, que agem de modo particular, com ritmos
e estratégias próprias de ação. Esse fato se explica pelos diferentes tipos de
cooperação desenvolvidos por cada um dos GTs. A atuação dos GTs tem, algumas
vezes, implicação mais direta na sociedade, enquanto em outros casos ela
demanda alteração legal, o que resulta em distintos processos, envolvendo
ritmos igualmente variados.
As diversas instâncias de concertação política, relativas aos três níveis
institucionais, reúnem-se periodicamente, e mesmo sem uma estrutura
supranacional, como uma Secretaria Geral ou mesmo uma Presidência, no IBAS
convencionou-se a existência de uma secretaria informal, gerida por cada um dos
países num revezamento anual, ou seja, a cada ano um país fica responsável pela
realização de encontros ministeriais e cúpulas presidenciais.
Se neste artigo a nossa preocupação central é com a cooperação
intragovernamental, no Brasil, para a implementação das diretrizes do IBAS,
cabe mencionarmos, brevemente, o papel dos agentes societários nesta estrutura,
para além da participação de alguns grupos de interesse nos GTs, como será
ressaltado abaixo. Buscando expandir o processo de aproximação entre os países
e com o objetivo de incrementar a participação da sociedade civil no Fórum
IBAS, as chancelarias dos três países conceberam ações que envolvem entidades e
organizações de fora da esfera governamental. Destacam-se algumas iniciativas,
que se tornaram permanentes, devido às suas sucessivas edições, como os Fóruns
de Mulheres, Acadêmico, Empresarial, de Parlamentares e de Editores.
MECANISMOS E PROCESSOS DE COORDENAÇÃO INTRAGOVERNAMENTAL PARA A IMPLEMENTAÇÃO
DE POLÍTICAS PÚBLICAS
Na presente seção, nosso objetivo é explicitar, de maneira quase telegráfica,
os processos que levaram à fragmentação do planejamento e da gestão no setor
público; os fatores que têm gerado a pressão para o rompimento deste padrão
inercial; as dificuldades e barreiras à coordenação entre as agências
estatais6; e os mecanismos mais frequentemente adotados para a produção da
coordenação intragovernamental.
A definição de "coordenação" proposta por Alexander parece-nos pertinente neste
nosso esforço analítico: "[...] coordenação é definida como uma atividade
deliberada, por parte de uma organização ou um sistema inter organizacional,
para fazer convergirem as decisões e ações das suas subunidades ou organizações
membro. Essa coordenação manifesta-se tanto no processo como na estrutura"
(Alexander, 1993:331).
Inicialmente, é necessário que fique claro que a preocupação com a coordenação
intra governamental é um fenômeno relativamente antigo. Como sugerido por Guy
Peters, desde o tempo em que as estruturas governamentais começaram a se
diferenciar, com a criação de uma variedade de ministérios e departamentos,
muitos têm afirmado que uma agência desconhece o trabalho realizado pelas
outras e que os seus programas são contraditórios, redundantes ou ambos
(Peters, 1998:295).
Processos de distinta natureza têm sido responsáveis pela fragmentação do
planejamento e da gestão no setor público. Dentre eles, talvez sejam os
seguintes aqueles que mais diretamente têm obstaculizado a capacidade de
coordenação das agências estatais: (a) o fato de os governos terem
progressivamente ampliado o leque de suas atribuições; (b) os processos de
descentralização, devolução e/ou privatização; (c) o aumento da complexidade e
do caráter técnico de parte significativa dos assuntos e questões com as quais
se defronta o Estado; (d) as diretrizes de reforma do Estado, amplamente
adotadas nas décadas de 1980 e 1990, que via de regra se espelharam no
funcionamento das organizações do mercado e/ou buscaram a ampliação da
participação dos cidadãos ou "clientes". Como afirma Peters, esse "foco nos
clientes e nos servidores no interior de uma única organização torna menos
provável a coordenação" (ibidem:296).
Os fatores que têm gerado a pressão para o rompimento do padrão inercial de
planejamento e gestão, em geral fragmentado, podem ser sintetizados da seguinte
maneira: (a) os recorrentes problemas fiscais comosquais
têmsedeparadoosgovernos, os quais, somadosàscrescentes demandas por eficiência,
transparência e accountability, fazem com que a coordenação seja percebida como
uma forma aparentemente simples de se eliminar a redundância e a inconsistência
dos programas governamentais; (b) ainda que a visão prevalecente destaque a
tendência das organizações em geral e das burocracias públicas muito
particularmente de preservar ou de buscar a ampliação de suas próprias
prerrogativas, de sua autonomia e de seus orçamentos, alguns outros fatores
parecem operar no sentido do fomento à coordenação, tais como: a definição do
papel do técnico/profissional e a ênfase dada aos beneficiários/clientes, os
quais sentiriam em primeiro lugar o impacto positivo de tal mudança no
comportamento das organizações e de seus profissionais (ibidem:305); (c) por
fim, o reconhecimento de que a complexificação dos processos sociais tornou
obsoletas e ultrapassadas determinadas concepções que informavam o planejamento
governamental.
Contudo, são diversas as dificuldades e barreiras à coordenação entre as
agências públicas. Jennings Jr. e Krane (1994) sugerem a necessidade de
reconhecermos a existência de barreiras organizacionais, legais/técnicas e
políticas. As barreiras de ordem organizacional estariam relacionadas às
distintas missões, orientações profissionais, estruturas e processos das
agências públicas. As várias missões e orientações profissionais incidem sobre
a definição dos objetivos e das prioridades das organizações, podendo levar a
divergências acerca da maneira mais adequada de se atingir os fins propostos, o
que, obviamente, pode dificultar a ação coordenada entre diferentes agências.
Há também a possibilidade de que as organizações possam ignorar ou desconfiar
do modo de operação e das finalidades das outras agências. No que diz respeito
às estruturas e aos processos, obstáculos à cooperação podem ser derivados da
limitação das conexões interorganizacionais, reproduzida por distintas
estruturas e processos e pela eventual necessidade de que a aprovação de vários
níveis da organização seja requerida e/ou pela existência de uma diversidade de
"pontos de veto". Ademais, a abrangência geográfica da provisão de serviços
pode variar, podendo também haver incompatibilidade nos procedimentos e nos
sistemas de incentivo.
As barreiras legais e técnicas à coordenação podem se originar da própria
circunscrição, definida pela legislação pertinente, para a atuação da agência,
assim como de regulamentos internos emanados dos escalões mais elevados das
organizações e também da distinta capacitação tecnológica e da experiência
acumulada das agências. Destacam-se aqui as restrições legais à utilização dos
recursos financeiros e técnicos das organizações e a possibilidade de conflito
entre as regulamentações dos vários níveis de governo.
Como também destacado por Jennings Jr. e Krane (1994), as barreiras políticas à
coordenação podem estar lastreadas tanto no ambiente político externo às
políticas e programas, quanto na "política" interna da própria burocracia. No
que diz respeito às disputas intraburocráticas e à política da burocracia, o
conhecido termo "proteção do território" (turf protection) parece sintetizar
com precisão um comportamento já amplamente estudado. A ideia expressa é que
cada organização tem a sua área de atuação definida, hegemonia essa que ela vai
lutar para preservar (ou ampliar), procurando excluir competidores potenciais,
mesmo (ou principalmente) sendo eles outras organizações governamentais. Dito
de outra forma, para que esta "hegemonia" seja preservada sobre o território,
sobre uma clientela, sobre uma questão ou problema ou sobre uma dada forma de
atuação, o comportamento esperado é a competição, não a cooperação.
As barreiras políticas externas, por sua vez, são também de várias ordens:
podem ser oriundas de grupos de pressão que desejam proteger os seus interesses
na produção da política pública; podem estar relacionadas a estruturas e
processos do Legislativo que têm incidência sobre a fragmentação das agências e
das políticas ou programas, sendo também possível que o Legislativo faça valer
o seu interesse em privilegiar programas de maior visibilidade ou do interesse
de alguns de seus atores mais relevantes. Ademais, é crucial o apoio das
lideranças do Executivo às diretrizes de coordenação.
Por fim, cabe-nos apresentar, muito sinteticamente, os mecanismos mais
frequentemente adotados para a produção da coordenação intragovernamental. Em
sua apresentação de um arcabouço conceitual para a compreensão da coordenação
interorganizacional, Alexander (1993) nos alerta para a necessidade de
distinguirmos as estruturasde coordenação dos instrumentosde coordenação. De
acordo com o autor:
As estruturas de coordenação representam asformassurgidasentre as
organizações (no caso das redes informais) ou que foram designadas ou
estruturadas (no caso das estruturas formais de coordenação) [como as
que estamos analisando neste trabalho] para produzir a coordenação
interorganizacional. Elas são os mecanismos de ligação que
transformam campos ou redes interorganizacionais descoordenados ou
menos coordenados em campos ou redes mais coordenados. Os
instrumentos de coordenação são os elementos específicos da ação,
interação ou comportamento organizacional que permitem a coordenação
interorganizacional. Reuniões ou contatos telefônicos são exemplos de
instrumentos das articulações informais; contratos ou budgetsign-
offsão exemplos de instrumentos formais. Os instrumentos da
coordenação interorganizacional lidam com os três problemas básicos
de coordenação: retroalimentação (feedback), orientação e controle
(Alexander, 1993:339-340)
Na Figura_1, reproduzimos, em sua completude, a proposta, feita por Alexander,
de um arcabouço conceitual para a compreensão da Coordenação
Interorganizacional, que, contudo, não será plenamente explorado neste artigo:

Como forma de apresentação sucinta dos mecanismos de coordenação possíveis,
complementando a proposta de Alexander de uma forma mais simples, reproduzimos
abaixo os mecanismos arrolados por Regens (1988):
[/img/revistas/dados/v55n1/a05qdr01.jpg]
Antes de nos dedicarmos, na próxima seção, à análise das estruturas, dinâmicas
e processos da coordenação intragovernamental para a implementação, no Brasil,
das diretrizes do Fórum IBAS, cabe reiterarmosque aseção queaquiseencerra teve
oobjetivodesinalizar,brevemente, para a complexidade dos processos de
coordenação. No que se segue, várias das barreiras à coordenação, por exemplo,
deveriam ser analisadas para que pudéssemos produzir uma apreciação menos
sumária dos processos e estruturas em questão.
ESTRUTURAS, DINÂMICAS E PROCESSOS DA COORDENAÇÃO INTRAGOVERNAMENTAL PARA A
IMPLEMENTAÇÃO, NO BRASIL, DAS DIRETRIZES DO FÓRUM IBAS
Antes de nos determos, mais especificamente, na apresentação dos Grupos de
Trabalho do IBAS, serão classificadas as estruturas de coordenação
intragovernamental instituídas. Se o nosso foco recairá, nesta seção, sobre o
funcionamento dos GTs, o complexo arranjo adotado para a implementação da
cooperação trilateral no âmbito doméstico deve ser mencionado, ainda que
sumariamente (ver também a Figura_1).
(a) Secretaria Intergovernamental do IBAS' Institucionalizada de maneira não
formal pelos três países que conformam o IBAS. Os Estados-membros decidiram, de
forma consensual, que a cada ano um dos membros será responsável pela
coordenação das atividades do IBAS, como se ocupasse a presidência do Fórum.
Nesse sentido, por não ser uma estrutura formalizada, considera-se que esta
secretaria rotativa pode ser pensada como um "programa não administrado", como
definido por Alexander (1993). Esta é vista pelo autor como a mais simples
estrutura de coordenação de uma rede interorganizacional, sendo que tal
estrutura raramente é encontrada exercendo sozinha a coordenação, posto que é
sempre respaldada por outras estruturas de coordenação interorganizacional, a
exemplo do que ocorre no Fórum IBAS. Entretanto, cabe sugerir que a Secretaria
do IBAS também pode ser pensada, ainda segundo as categorias propostas por
Alexander, como equivalente às "redes informais", pois esse tipo de rede dá
suporte às demais estruturas de coordenação, utilizando-se de instrumentos
diversos.
(b) DIB' Em função da complexidade e do caráter multifacetado das ações
realizadas pela DIB, essa Divisão do Itamaraty pode ser vista como equivalente,
em sua atuação como coordenadora geral das atividades do IBAS, como uma
"organização líder", ainda segundo as categorias de Alexander (1993). Para esse
autor, a "organização líder" representa um arranjo em que uma organização
assume as responsabilidades pela coordenação das atividades de uma rede
interorganizacional, sendo dotada de um status especial perante as outras
organizações parceiras, tendo ainda responsabilidades funcionais. Todavia,
parte da implementação pode ser responsabilidade de outras organizações da
rede, como fica evidente quando se estudam as atividades desenvolvidas pelos
dezesseis Grupos de Trabalho do IBAS ou a implementação das atividades do Fundo
IBAS. "A organização líder é uma estrutura de coordenação de nível mais alto.
Ela representa um quadro geral (overall framework) de relações institucionais
entre os participantes principais de um sistema interorganizacional, mais do
que o mecanismo detalhado por intermédio do qual o processo decisório
concertado é atingido" (Alexander, 1993:338).
(c) Ponto Focal' As funções do Ponto Focal podem ser comparadas às de
uma"unidade de coordenação", já que ela existe para coordenar e implementar
decisões relevantes para o sistema interorganizacional, sendo distinta do grupo
interorganizacional por sua maior autonomia. "A unidade de coordenação não tem
qualquer função 'de linha' nem implementa qualquer das tarefas que cabe a ela
coordenar" (Alexander, 1993:336). Sendo o Ponto Focal uma ponte entre o setor
político, o ministro das Relações Exteriores e o presidente da República, porum
lado, e o setor técnico dos GTs, por meio da DIB, por outro, parece-nos
possível pensar que o Ponto Focal exerce funções e tem características
semelhantes às de uma "unidade de coordenação".
(d) Coordenador Nacional' O Coordenador Nacional do IBAS é um diplomata,
designado para gerenciar as atividades do MRE relativas ao Fórum, que se mantém
a par das atividades dos GTs desde o início, sendo o principal elo de
articulação intragovernamental do IBAS. Cabe ao coordenador nacional esse papel
de articulação política intragovernamental.
(e) Ponto Nodal' A função de coordenação do Ponto Nodal equivale à do
"coordenador", como descrita por Alexander (1993). Segundo este autor, esta é
uma estrutura utilizada em combinação com outras formas de coordenação, sendo
apenas um instrumento de concertação interorganizacional para tomada de
decisões. No funcionamento dos GTs, o Ponto Nodal é, sem dúvida, este
instrumento de concertação entre as diferentes entidades envolvidas no Grupo de
Trabalho em âmbito doméstico, como também entre os representantes do GT nos
outros dois Estados membros. Para tanto, conforme afirma Alexander (1993), a
personalidade, a qualificação e o comprometimento burocrático são importantes
fatores que influenciam o sucesso do coordenador.
Dois fatores independentes parecem relacionados à efetividade de um
coordenador. Um é a personalidade individual, as qualificações do
indivíduo e o seu engajamento nesta atividade que atravessa
fronteiras (boundary-spanning role). Ooutro éamaneiracomooseu
papelestáestruturado na rede interorganizacional (Alexander, 1993:
336).
No caso do IBAS, a localização burocrática do Ponto Nodal pode se somar às
características apresentadas por Alexander (1993), uma vez que, estando este
burocrata diretamente envolvido com o MRE, terá as diretrizes da política
externa como linha prioritária de ação para implementação da cooperação mais
técnica do IBAS. De outro modo, poderiam ser mais frequentes os conflitos entre
os interesses domésticos mais particulares de cada um dos agentes
governamentais, em detrimento das ações de cooperação internacional mais
diretamente definidas pelo Itamaraty.
(f) Grupos de Trabalho ' Parece inquestionável que, como estruturas de
coordenação, os GTs do IBAS possam ser classificados, segundo as categorias de
Alexander, como "grupos interorganizacionais". "Os grupos interorganizacionais
podem se tornar realidade a partir da rotinização de reuniões ou dos grupos de
trabalho e em resposta à necessidade de se solucionar problemas correntes
derivados de interdependências reais ou percebidas" (Alexander, 1993:335).
Formados por diferentes agentes governamentais, distribuídos horizontalmente no
organograma do governo federal, os GTs preenchem, deste modo, um segundo
requisito apresentado por Alexander (1993), o de que os "grupos
interorganizacionais" devem ser utilizados para coordenação horizontal entre
agências.
Os GTs concentram, tanto no plano intergovernamental como no
intragovernamental, as atividades setoriais de cooperação/coordenação do Fórum
IBAS, chamado Fórum de Diálogo, o qual pretende incentivar e ampliar a
cooperação entre os três países-membros. Assim, os GTs têm por função
desenvolver ações concretas de implementação das diretrizes de cooperação
estabelecidas nas instâncias de articulação política da IBAS. Eles foram
criados com o intuito de gerar um maior intercâmbio de experiências e práticas
governamentais, possibilitando a execução de ações conjuntas. Atualmente são
dezesseis os Grupos de Trabalho do IBAS. Este número, porém, não é fixo,
existindo hoje propostas de criação de outros grupos e de reestruturação
daqueles já implantados.
Em cada um dos GTs podem existir subgrupos, que são especializações do tema
central do GT, como, por exemplo, o de Educação, que conta com o subgrupo de
cooperação esportiva e um de cooperação entre academias diplomáticas. O de
Agricultura tem os subgrupos de saúde animal, de medidas sanitárias e
fitossanitárias, de agroprocessamento, de políticas públicas e pesquisa e de
capacitação. No GT de Ciência e Tecnologia há o subgrupo de pesquisa antártica.
Ainda que se estude hoje a possibilidade de ampliação do número de GTs, há um
consenso entreospaísesque nestemomento importamaisfortalecerasparcerias
existentes do que ampliar o número de áreas de trabalho. Portanto, alguns dos
novos temas a serem inseridos para cooperação entre as partes têm sido
incorporados como subgrupos dos GTs já existentes.
Cada GT funciona de maneira autônoma, tendo seu próprio ritmo de trabalho e
formas de atuação. Cabe, ainda, considerar as diferenças estruturais das
burocracias dos três Estados, uma vez que o andamento dos trabalhos nos GTs
pode ser obstaculizado ou facilitado pelas especificidades do aparato
burocrático-administrativo específico de cada país e setor de atuação. Todos os
GTs encontram-se em um mesmo nível hierárquico dentro da estrutura
organizacional do IBAS, não havendo participação direta das instâncias
políticas no funcionamento dos GTs. Em cada país há um coordenador nacional
para cada GT, que são os chamados Pontos Nodais. Estes são funcionários de um
dos órgãos governamentais envolvidos no GT naquele país, designados para
facilitar o acompanhamento e a implementação das atividades do Grupo.
No entanto, segundo telegramas e outras correspondências trocadas pelos três
países, além de atas e declarações oficiais dos três Estados, há dificuldades
de coordenação e acompanhamento das atividades dos grupos, devido ao grande
número de instituições envolvidas, bem como em razão da priorização de
interesses próprios por parte de cada um dos órgãos envolvidos. Para facilitar
este gerenciamento, foi proposta a criação de três grandes clustersou
comissões, nas quais os GTs estariam divididos por áreas de atuação, sendo que
a coordenação de cada uma dessas comissões ficaria a cargo de um dos países,
por um período determinado, havendo rotatividade periódica das
responsabilidades. Todavia, tal proposta ainda vem sendo debatida nas reuniões
do IBAS.
Segundo uma proposta apresentada pelo Brasil, tais clustersseriam divididos da
seguinte maneira: (a) Temas Sociais, o que incluiria os GTs de Administração
Pública, Assentamentos Humanos, Cultura, Desenvolvimento Social, Educação,
Saúde e os que posteriormente possam ser criados; (b) Temas Econômicos,
englobando os GTs de Administração Tributária e Aduaneira, de Comércio e
Investimentos, de Transportes, de Turismo e de Sociedade da Informação; e (c)
Temas de Recursos Naturais, envolvendo Agricultura, Ciência e Tecnologia,
Defesa, Energia e Meio Ambiente.
Os GTs mantêm encontros periódicos, de modo a controlar melhor suas ações e
definir planos de ações a serem implementados em cada um dos países ou nos três
Estados simultaneamente. Os encontros podem ocorrer tanto em paralelo a eventos
multilaterais de organizações internacionais sobre temas mais específicos,
quanto durante os eventos gerais do IBAS, como reuniões de Pontos Focais,
Comistas ou Cúpulas Presidenciais.
Os três países participantes do IBAS têm representação em todos os dezesseis
GTs. No Brasil, que nos interessa particularmente, os participantes são tanto
funcionários do MRE quanto de outros ministérios e demais órgãos federais. Como
nem sempre o MRE tem departamentos ou especialistas nas áreas de atuação dos
GTs, o acompanhamento das atividades dos grupos fica, então, em alguns casos,
sob a responsabilidade de outro ministério ou órgão federal, como exemplificado
pelo GT de Administração Pública. Também existem GTs que não mantêm
correspondentes nos órgãos e ministérios, ficando as atividades do grupo sob
responsabilidade apenas do MRE. No caso do GT de Cultura, mesmo existindo um
Ministério específico, não há neste órgão um funcionário designado para tratar
especificamente dos assuntos do IBAS, sendo o seu Ponto Nodal, portanto, lotado
no Itamaraty. Os outros GTs, além de contarem com representantes do MRE, contam
com representantes de órgãos ou de outros ministérios, atuando todos em
conjunto para a implementação das políticas do Fórum IBAS.
Existe um Ponto Nodal para cada GT, que é um funcionário designado para
representar o GT em encontros trilaterais. Eles também gerenciam as atividades
dos Grupos, além de atuarem na interlocução dos órgãos envolvidos nas
atividades do GT, bem como dos representantes dos outros dois Estados
participantes do Fórum. Constata-se uma certa independência na atuação dos GTs,
uma vez que há uma interlocução direta feita com os grupos e seus
representantes em cada um dos países, havendo também autonomia dos grupos para
decidir sobre os prazos e o modo de implementação de políticas e para marcar
encontros e atividades do GT, sem maiores interferências externas.
A seguir serão descritas e analisadas, de forma bastante sucinta, as atividades
dos dezesseis Grupos de Trabalho, apresentados por ordem alfabética7. Serão
enfatizadas, por óbvio, as questões relativas à implementação da iniciativa
IBAS por parte do Estado brasileiro.
(1) Administração Pública
Como parte das atividades de implementação das políticas de cooperação entre os
três Estados na temática de administração pública, além do Memorando de
Entendimento, que já foi assinado pelos países, mas ainda não entrou em vigor,
aguarda-se atualmente a aprovação pelos outros países da minuta do Estatuto do
IBAS sobre Administração Pública, que, como vimos, está sob a responsabilidade
do Brasil.
Ainda no sentido de implementar ações efetivas de cooperação na área, foi
realizado em São Paulo e em Brasília, pela Escola Nacional de Administração
Pública (ENAP), em setembro de 2008, o Seminário "Práticas Sul-Sul em Gestão de
Escolas de Governo, Desenvolvimento de Dirigentes e Prestação de Serviços ao
Cidadão", do qual participaram as escolas de administração pública dos três
países: a ENAP do Brasil; a Administrative Staff College of India (ASCI), da
Índia; e a Public Administration Leadership and Management Academy (Palama), da
África do Sul. O objetivo do evento foi dar início ao intercâmbio de
experiências, possibilitando a efetiva cooperação regional.
O Ponto Nodal do GT de Administração Pública encontra-se no Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), por não haver contraparte dentro das
divisões do MRE, ficando a cargo da própria DIB a tarefa de articulação com o
MPOG para a implementação das ações do GT.
(2) Administração Aduaneira e Tributária
O GT é denominado de Revenue Administration Steering Group (RASG). No encontro
do grupo ocorrido em setembro de 2008, em Nova Déli, houve uma reunião dos
Chefes das Administrações Aduaneiras e Tributárias dos três países. Emergiram
do encontro posições comuns sobre arrecadação de grandes contribuintes e sobre
auditoria e investigação, além de ter sido sugerida a formalização de um
mecanismo de compartilhamento de informações, que reforçaria a cooperação já
existente. Também é parte do trabalho do GT a busca por superação de barreiras
ao comércio dos países e ao investimento, de modo que os Estados devem buscar a
cooperação para o reconhecimento mútuo de operações econômicas e de estratégias
de gestão das fronteiras e aduanas, de modo a facilitar os fluxos comerciais
entre os envolvidos.
Em 2009, foram instituídas no organograma do MRE a Divisão de Acesso aos
Mercados (DACESS), responsável pelas relações aduaneiras, e a Divisão de
Cooperação Financeira e Tributária (DCF), que assume a responsabilidade pelas
relações tributárias. Destaca-se a criação da Subsecretaria Geral de Assuntos
Econômicos e Financeiros, responsável pela agenda externa de negociações e
acordos nesse setor.
Todavia, o Ponto Nodal deste GT ainda se encontra na Receita Federal, que é o
órgão responsável pelas principais ações de cooperação desenvolvidas por este
GT. A criação destas novas divisões no MRE aponta a emergência destes temas na
agenda internacional do país, devido à multiplicação dos fluxos não apenas
comerciais e financeiros, mas também de serviços e de trabalhadores entres os
países.
(3) Agricultura
As reuniões do GT vêm sendo realizadas periodicamente. Em reunião ocorrida em
maio de 2008, cada uma das partes se comprometeu a realizar dez seminários e/ou
programas de treinamentos no sentido de ampliar e avançar na cooperação
trilateral.
Foi realizado em Brasília, em agosto de 2008, um seminário sobre
rastreabilidade e melhoramento genético animal, mas nesse evento a parte sul-
africana não pôde enviar representante. Houve a tentativa de realização de um
seminário sobre influenzaaviária. Entretanto, isso não foi possível, em função
de divergências de datas entre os Estados. Houve ainda, por parte dos indianos,
a apresentação de documento intitulado "The future of agricultural cooperation
in IBSA".
Avalia-se como sendo bom o ritmo de trabalho. Porém, as partes têm dificuldades
de executar os projetos e de implementar os acordos, especialmente devido à
diversidade de interesses quanto aos temas tratados no GT, especialmente sobre
o agronegócio.
Cabe destacar que, em cooperação com o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (MAPA), a Divisão de Produtos de Base (DPB), do MRE, é uma das
instituições vinculadas à execução das políticas propostas para o GT, havendo
também participação da sociedade civil, por meio de instituições como a
Confederação Nacional de Agricultura.
(4) Assentamentos Humanos
O Ponto Nodal desse GT está no Ministério das Cidades. O GT trata especialmente
da melhoria das condições de vida da população de áreas urbanas mais pobres,
como nas favelas. Também é parte das ações de implementação das políticas do GT
a assinatura do Memorando de Entendimento sobre Desenvolvimento e Assentamentos
Humanos. Busca-se também a realização de estudos comparativos de projetos bem-
sucedidos nos três países, neste caso com a possibilidade de ampliação dos
estudos para as áreas de obras públicas e águas, incluindo questões de
saneamento. Ainda como parte da implementação das políticas do GT, a Índia
ficou responsável pela organização de um seminário sobre "O desafio das
favelas", no ano de 2010.
(5) Ciência e Tecnologia
Com um rol bastante diferenciado de assuntos a serem trabalhados, o GT divide-
se em vários subgrupos, e em alguns aspectos parece "invadir"a área temática de
outros GTs, como o de Saúde, na questão das pesquisas sobre doenças, e o de
Meio Ambiente, na pesquisa antártica. Esses dois assuntos são prioritários para
as ações do GT, assim como o são a biotecnologia e a biossegurança,
nanotecnologia e novas fontes de energia ' neste último caso, numa interface
com o GT de Energia. Percebe-se, assim, que há sobreposições temáticas que
demandam melhor articulação entre os GTs, o que adensa e complexifica o
trabalho de coordenação intragovernamental, para que seja evitada a duplicidade
de trabalho ou a divergência de posicionamentos e estratégias.
A primeira reunião do Grupo foi realizada em 2004, em Nova Déli, quando foram
identificadas as áreas prioritárias a serem desenvolvidas no Grupo de Trabalho.
Em 2005, na II Reunião de Chanceleres do IBAS, assinou-se a "Declaração do Rio
sobre Ciência e Tecnologia", quando foi definido o plano de trabalho de 2005-
2007, que definia as principais linhas de cooperação para o GT, além de
programar alguns seminários e eventos a serem executados durante esse
intervalo. Em 2006 foi realizada, em Angra dos Reis, a III Reunião de Ministros
de Ciência e Tecnologia do IBAS, ocasião em que ficou acordada a criação de um
fundo de apoio a medidas concretas de cooperação trilateral, financiado pelos
três países com um montante total de US$ 3 milhões.
A questão da pesquisa antártica foi incorporada às atividades do GT em junho de
2008, durante a 31ªReunião Consultiva do Tratado da Antártida (ATCM), e vem
ganhando importância. Neste sentido, o Brasil e a África do Sul já
disponibilizaram suas estações para intercâmbio de técnicos entreospaíses,
tendosidorealizadooprimeirointercâmbio em março de 2009. Foi realizado também o
"Simpósio IBAS Antártida", no Brasil, aproveitando a definição de 2009 como o
Ano Polar Internacional.
Cabe destacar que existem alguns temas comuns entre o GT de Ciência eTecnologia
e o de Saúde, como a questão dos fármacos, ficando a pesquisa por conta do
primeiro e o segundo por conta da distribuição dos medicamentos. E ainda com o
GT de Meio Ambiente, na questão antártica, no referente ao tema da mudança
climática.
Apesar de toda essa sobreposição temática, o responsável pela coordenação do
GT, ou seja, o Ponto Nodal do GT, encontra-se no MCT, em sua Secretaria de
Relações Internacionais. Cumpre, todavia, registrar que o MRE tem hoje em seu
organograma uma Subsecretaria Geral de Energia e Alta Tecnologia.
(6) Comércio e Investimentos
O GT de Comércio e Investimentos é constituído por três segmentos principais:
um responsável pelos acordos comerciais entre os blocos econômicos (MERCOSUL '
SACU8' Índia), sob responsabilidade da DNC (Divisão de Negociações
Extrarregionais do Mercosul I); outro que cuida do comércio em geral; e um
terceiro, responsável pelos investimentos, ambos sob coordenação, no Brasil, da
Divisão de Informação Comercial (DIC), do MRE. Também compõem o organograma
brasileiro do GT, além dessas Divisões, o Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e a própria DIB.
A facilitação do comércio passa pela diminuição de entraves burocráticos à
exportação, um dos temas mais importantes das políticas de cooperação
desenvolvidas no GT. Todavia, o comércio está relacionado também com a
regulamentação das Normas edo sRegulamentos Técnicos. Nesse sentido, além do
MDIC e do MRE, importa ressaltar a participação da Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e
Tecnologia (Inmetro) como órgãos parceiros neste GT.
No que diz respeito às negociações para a criação da área de livre comércio que
poderá vir a unir MERCOSUL-Índia-SACU, as negociações estão bem avançadas. Caso
concretizado, este acordo gerará a maior área de livre comércio entre países em
desenvolvimento, com quase um bilhão e meio de pessoas e um PIB de mais de dois
trilhões de dólares.
Um aspecto importante da atuação do GT de Comércio e Investimento é a
cooperação entre pequenas empresas, iniciativa essa oriunda da articulação
entre três órgãos, o SEBRAE, a Small Enterprise Development Agency
(SEDA),daÁfricadoSul,eaNationalSmall Industry Corporation Ltd. (NSIC), da
Índia, que agora é parte do GT. Para a incorporação desta temática, foi criado
um subgrupo específico.
Com a criação da Subsecretaria Geral de Cooperação, Cultura e Promoção
Comercial, o Departamento de Promoção Comercial e Investimentos ficou como
responsável pela coordenação das ações do GT no Brasil.
(7) Cultura
O Ponto Nodal do GT está sob responsabilidade da Divisão de Operações de
Difusão Cultural, dentro do Departamento Cultural do MRE.
Já foram realizados Festivais de Dança (realizado no Brasil em outubro de
2007), de Cinema (realizado na Índia, nas cidades de Mumbai, Goa e Déli, em
outubro de 2008) e de Gastronomia (realizado durante a III Cúpula de
Presidentes, em outubro de 2008) para divulgação da cultura dos países. Cabe
ainda destacar a participação do Brasil em feiras e eventos de promoção
cultural nos outros dois países.
Para o futuro o GT espera realizar seminários sobre conservação do patrimônio
cultural dos países-membros. Para tanto haverá participação do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como instituição que irá
auxiliar o MRE neste projeto. Prepara-se, também, um seminário sobre
conhecimentos tradicionais e cultura indígena (Indigenous Knowledge Systems).
(8) Defesa
Uma das questões mais sensíveis ao GT é a cooperação em temas nucleares. Nesse
aspecto a cooperação bilateral entre Brasil e África do Sul está num nível mais
avançado, posto que está em curso o desenvolvimentodoprojeto de
criaçãodeummíssildecurto alcance. No entanto, cabe registrar a preferência do
Ministério da Defesa brasileiro pelos mecanismos trilaterais para o tratamento
de certas áreas de cooperação, que vinham sendo previamente realizadas de modo
bilateral com cada um dos Estados.
No âmbito organizacional doméstico, a gerência do GT de Defesa está sob a
responsabilidade do Ministério da Defesa, em cooperação com a Secretaria Geral
(SG) do MRE, bem como com a própria DIB. O Ponto Focal do GT, contudo, está
localizado no Ministério da Defesa. A cooperação em questões nucleares também
fica sob a responsabilidade do GT de Defesa, e não do GT de Energia, que tem
trabalha do principalmente com fontes alternativas.
(9) Desenvolvimento Social
São temas importantes para o GT: estratégias de alívio à pobreza,
microfinanças, sistema de conhecimentos tradicionais, seguridade social,
políticas sociais e desenvolvimento de capacidade institucional, todos visando
o monitoramento e avaliação das atividades, bem como a cooperação em outros
foros multilaterais. Cabe destacar que importa principalmente para o GT o
intercâmbio de experiências entre as partes, uma vez que há problemas comuns
aos países e que cada um mantém uma série de projetos bem-sucedidos, passíveis
de serem compartilhados.
Fazem parte da estrutura do GT funcionários da Divisão de Temas
SociaisdoMRE,bem como do MDS, estandooPonto Nodallocalizadona Assessoria
Internacional do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). O Fundo IBAS
trabalha em parceria com o GT de Desenvolvimento Social, mesmo não havendo
ações do Fundo nos países-membros do Fórum.
(10) Educação
O Ponto Nodal encontra-se no Ministério da Educação, apesar da forte
participação do Ministério dos Esportes nesse GT.
Em julho de 2007 foi realizado um seminário acadêmico junto da reunião do GT.
Durante a II Cúpula foram definidas as grandes áreas temáticas da cooperação
científica entre as partes, a saber: transformação e coesão social; governança
global e comércio e investimentos; engenharia, matemática e ciências da
computação; biotecnologia, agricultura e pecuária; desenvolvimento sustentável;
e educação superior.
Já no âmbito da cooperação de academias diplomáticas, houve dois encontros
entre seus diretores, um no Brasil, em setembro de 2007, e outro em setembro de
2008, já tendo ocorrido intercâmbio entre diplomatas dessas academias. Existe
em vigor um Memorando de Entendimento (ME) em Educação Superior. O ME sobre
Cooperação de Academias Diplomáticas está sendo negociado entre os países.
No Memorando de Entendimento em Educação Superior estão delineados os objetivos
a serem seguidos para a efetiva cooperação do GT. Em resumo, eles tratam da
criação de condições para a cooperação entre instituições acadêmicas,
faculdades, pesquisadores e estudantes, buscando fomentar o desenvolvimento de
projetos conjuntos de pesquisa. Procura-se, também, o alinhamento dos
respectivos sistemas de educação superior, buscando o desenvolvimento social e
econômico das comunidades locais, bem como o fortalecimento do treinamento e do
desenvolvimento de programas com recursos humanos de alto nível.
(11) Energia
Durante a reunião do GT de 2007, destacou-se a proposta indiana de promoção do
biodiesel, pois para as três partes o desenvolvimento de fontes de energia
renováveis apresenta-se como política importante a ser fomentada. Além do
biodiesel, fazem parte das ações de cooperação a busca de desenvolvimento dos
recursos eólicos, que conta com um Memorando de Entendimento, em vigor desde
outubro de 2007 ' tendo sido oferecida pelo lado indiano sua tecnologia de
produção de energia eólica, biomassa e solar, tema de grande centralidade na
Índia, que tem um Ministério específico dedicado às energias limpas e
renováveis.
Quanto à questão dos biocombustíveis, a Índia comprometeu-se, durante a reunião
do GT realizada em Nova Déli em setembro de 2008, a finalizar a tramitação
referente à ratificação do Memorando de Entendimento. Também houve interesse
das petrolíferas indianas na produção de etanol a partir de cana-de-açúcar,
tendo sido criado, para tanto, um subgrupo de agroenergia.
Coube ainda à representação indiana apresentar suas preocupações sobre
segurança alimentar e produção de biocombustíveis, tendo sido proposta a
realização de um seminário. Foram propostos também projetosconjuntos
nostermosdeComérciodeCarbono eMecanismo de Desenvolvimento Limpo, sendo, assim,
os biocombustíveis o foco principal do GT. Por parte do MRE, o tema está sendo
tratado pela Divisão de Recursos Energéticos Novos e Renováveis (DNR), do
Departamento de Energia. O Ponto Nodal é, contudo, a Chefe da Assessoria
Internacional do Ministério das Minas e Energia (MME).
(12) Meio Ambiente e Mudança Climática
Apenas em setembro de 2008 houve a primeira reunião oficial do GT, devido às
diferentes posições das partes sobre o tema Meio Ambiente, ficando inicialmente
acordado que o seu enfoque deveria recair sobre as mudanças climáticas.
Para o futuro, busca-se inserir nos temas abordados pelo GT a cooperação em
termos de espécies invasoras (ou seja, espécies não nativas), proteção dos
países megadiversos, além do melhor aproveitamento do conhecimento tradicional,
recursos biológicos e biossegurança.
Administra este GT, no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), em
cooperação com a Divisão de Política Ambiental e Desenvolvimento Sustentável
(DPAD) do MRE. Todavia, cabe ao MRE a responsabilidade central sobre o tema,
uma vez que é parte das atribuições do MMAa execução de políticas domésticas de
conservação ambiental, ficando a cargo do MRE a execução das relações
exteriores sobre o tema. Em outubro de 2008 foi assinado, durante a III Cúpula,
o Memorando de Entendimento sobre a questão.
(13) Saúde
Entre os principais assuntos trabalhados pelo GT estão: serviços laboratoriais,
medicina tradicional, vigilância epidemiológica, desenvolvimentodeações
nasáreas de HIV/AIDS,tuberculoseemalária econtrafação (falsificação) de
medicamentos. Nos temas concernentes a doenças como AIDS, tuberculose e
malária, o programa do GT de Saúde confunde-se com o GT de Ciência e
Tecnologia, que trabalha na pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos
para essas doenças. Deste modo, fica por conta do GT de Saúde a prevenção, o
controle e a distribuição de medicamentos, ao passo que o GT de Ciência e
Tecnologia se encarrega do fomento ao desenvolvimento de novas tecnologias.
Estão envolvidos no GT de Saúde, em âmbito doméstico, por parte do MRE, o
Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais (DHS), mais especificamente
sob a tutela da Divisão de Temas Sociais (DTS); e o Ministério da Saúde (MS), a
partir da sua Assessoria Internacional, contando ainda com as parcerias da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz). A coordenação do GT é realizada a partir do Ministérioda Saúde (MS),
em cooperação com os outros agentes envolvidos. Cabe destacar que o Ponto Nodal
desse GT é o Chefe da Assessoria Internacional do MS, sendo importante
considerar que, funcionalmente, sua lotação é no MRE, tornando assim mais fácil
e próximo o relacionamento entre MRE e MS.
É parte do plano de ação do GT a realização de Oficinas sobre Sistema de
Vigilância Sanitária e Epidemiológica. Neste sentido, a Anvisa torna-se
responsável pela organização. Com o objetivo de ampliar a troca de informações
sobre o sistema de saúde dos três países, seus projetos sociais e laboratórios
públicos, é parte do plano de ação realizar visitas técnicas entre as partes.
Pode-se, portanto, afirmar que as partes ainda se encontram numa etapa de
reconhecimento das ações e dos projetos desenvolvidos por cada membro, e só
após esse período espera-se o desenvolvimento de ações conjuntas.
Há, no âmbito da OMC, debates sobre a questão dos conhecimentos tradicionais e
da propriedade intelectual, havendo uma convergência entre os interesses de
Índia, Brasil e África do Sul, que foram previamente negociados entre as partes
por meio das reuniões do IBAS. Importa, portanto, este compartilhamento de
informações entre os países não apenas para cooperação técnica entre os mesmos,
mas também para a concertação política entre eles, de modo a fortalecer suas
posições e interesses no sistema internacional e em fóruns multilaterais.
Busca-se tanto obter resultados mais favoráveis para o Fórum IBAS como um bloco
único de interesses, como a consecução de objetivos mais particulares de cada
um dos países. Assim, podemos apresentar o tema HIV/AIDS como exemplo de que,
em alguns casos, há diferentes interesses entre os países, no caso
complementares, na busca pela possibilidade de quebra de patentes
farmacêuticas, a saber: para a Índia interessa a fabricação dos fármacos, para
o Brasil a quebra de patentes e, para a África do Sul, a possibilidade de usar
esses medicamentos no atendimento da sua imensa população infectada.
(14) Sociedade da Informação
O GT funciona principalmente baseado nos Planos de Ação, elaborados ao longo de
diversos encontros. O novo Plano de Ação previa um programa de inclusão
digital, o desenvolvimento de uma página eletrônica e uma série de Oficinas em
Sociedade de Informação.
Houve também a designação ad hocdos países que ficariam responsáveis pelo
desenvolvimento das atividades, restando ao Brasil o ponto sobre inclusão
digital, que deve ser desenvolvido a partir de projetos para a implantação de
várias formas de inclusão digital, com a criação de centros de acesso,
especialmente em áreas rurais mais remotas. O tema do governo eletrônico também
ficou sob coordenação brasileira. Para esse tema importa buscar o
desenvolvimento de uma metodologia para a administração da qualidade total das
informações sobre dados governamentais.
Sob a responsabilidade da África do Sul ficou a criação do site oficial, a
criação de um Fórum IBAS de Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC),
para que as municipalidades e os governos locais possam trocar informações,
além da criação de uma metodologia para os padrões de indicadores de governo
eletrônico. Já para a Índia ficou a responsabilidade pelo desenvolvimento de
uma arquitetura de Integração e Operabilidade das Normas Governamentais sobre
Sociedade da Informação.
Na Estrutura de Cooperação em Sociedade da Informação está definido que seriam
responsáveis pelo GT, na Índia, o Ministério das Comunicações e Tecnologias da
Informação; na África do Sul, o Ministério das Comunicações; e, no Brasil,
todos os Ministérios e Agências Governamentais envolvidos diretamente com a
Sociedade da Informação e as TICs, sob a coordenação do Ministério das Relações
Exteriores. Todavia, hoje, em virtude de a um maior desenvolvimento do tema, o
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) assumiu a
coordenaçãodoGT, fazendo-oapartir do Departamento de GovernoEletrônico.
(15) Transporte
É parte essencial das ações deste grupo aumentar a quantidade de rotas
marítimas e aéreas entre os países, de modo a fomentar as trocas comerciais,
turísticas e culturais entre os três Estados. A necessidade de maior
conectividade física entre os países-membros é um dos problemas apontados pelo
Fórum Empresarial do IBAS.
Foi elaborado um plano de trabalho para o subgrupo de transporte marítimo que
apresenta oito grandes projetos, a saber: cooperação entre empresas de
navegação; capacitação de recursos humanos; intercâmbio sobre fluxo entre
portos; regulação do setor; cooperação entre estaleiros; operação portuária e
desenvolvimento de hubs.
Já os projetos previstos para o setor aéreo incluem: arranjos de code share;
investigação de acidentes; segurança; certificação de produtos; intercâmbio de
tecnologias; treinamentos e cooperação no transporte de cargas. Busca-se
ampliar para o setor o número de rotas comerciais entre os três Estados.
Participam do GT, no subgrupo marítimo, a Agência Nacional Transportes
Aquáticos (ANTAQ), a Secretaria Especial de Portos da Presidência (SEP), o
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e a
Marinha. No subgrupo de transporte aéreo encontramos a Agência Nacional de
Aviação Civil (ANAC), a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária
(Infraero), o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos
(Cenipa) e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), além da Divisão
de Negociações de Serviços (DNS) do MRE, que é a responsável por gerenciar as
atividades do GT. Cabe destacar, ainda, que não há uma participação efetiva e
direta do Ministério dos Transportes, pois há uma grande fragmentação das
atividades deste Ministério em Agências Reguladoras, que são responsáveis pelas
políticas do setor, sendo sua participação nas atividades do GT mais apropriada
do que a do próprio Ministério dos Transportes.
(16) Turismo
Nesta área, mais uma vez, há sobreposição de conteúdos entre os GTs, neste caso
com o GT de Transportes, para que o problema logístico de conexão aérea entre
os países possa ser solucionado. Também em função desse impasse, o intercâmbio
turístico dos países é pequeno, apesar de se verificar um grande potencial a
ser explorado não apenas em termos de fluxos turísticos, mas em políticas de
incentivo às atividades da área, com destaque para a exploração de parques
naturais na África do Sul, cujo know howpode ser facilmente aplicado no Brasil.
A Índia, em especial, está interessada em inverter seu fluxo turístico, que é
maior no envio do que na recepção de turistas. No mesmo sentido, parece
interessante para o Brasil aumentar o fluxo de turistas indianos, que em sua
maioria preferem visitar a Europa e a América do Norte.
Como atividades mais práticas, foram realizados seminários para operadores de
turismo e diversas atividades de divulgação cultural, como festivais de cinema
e gastronomia, além da participação brasileira numa feira de artesanato na
Índia (tendo o Brasil sido o único país da América a ser convidado para
participar), entre outros eventos.
A Divisão de Feiras e Turismo (DFT) do MRE é a responsável pela coordenação das
atividades do GT, trabalhando em parceria com o Ministério do Turismo. Existe
ainda, embora em fase de desenvolvimento, um acordo trilateral para o GT de
Turismo, sob os cuidados do Instituto Brasileiro de Turismo, ou Embratur, que
foi assinado durante a III Cúpula do IBAS, realizada em outubro de 2008, cuja
internalização ainda está sendo debatida pelo legislativo brasileiro.
Estão previstas como futuras atividades do GT a realização de Feiras de
Turismo, a serem realizadas nos países para divulgar seus potenciais turísticos
e aumentar o intercâmbio das partes. Outro tema emergente no GT de Turismo é o
compartilhamento de informações e experiências entre África do Sul e Brasil, em
virtude da realização das Copas do Mundo de Futebol de 2010 e 2014,
respectivamente.
BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS
É interessante destacarmos que, na estrutura brasileira dos GTs, temos hoje
dezesseis grupos em funcionamento, com igual número de Pontos Nodais existentes
(na Índia são dezenove e na África do Sul são 21 os Pontos Nodais do IBAS).
Essa flexibilidade organizacional resta evidente pela maneira singular como
evoluiu cada área temática no âmbito da iniciativa IBAS (vide a descrição feita
ao longo da seção anterior do artigo), demonstrando assim a autonomia
desfrutada pelos GTs e/ou as dificuldades de criação ou subdivisão dos grupos;
e denotando, ainda, que é sempre possível fazer avançar as prioridades
políticas estabelecidas, a despeito (ou por causa) da estrutura de coordenação
e de suas especificidades.
Como visto, é a partir da estrutura dos Grupos de Trabalho que podemos
verificar como se dá a implementação das ações do IBAS. Fica patente a sua
grande capilaridade intragovernamental, ou seja, a densa articulação doméstica
entre os diversos órgãos governamentais que se faz necessária para que tal
iniciativa da política externa brasileira possa, enfim, ganhar concretude. São
os seguintes os ministérios diretamente envolvidos nos GTs: (i) Planejamento,
Orçamento e Gestão, (ii) Fazenda, (iii) Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
(iv) Cidades, (v) Ciência e Tecnologia, (vi) Desenvolvimento, Indústria e
Comércio, (vii) Cultura, (viii) Defesa, (ix) Desenvolvimento Social, (x)
Esportes, (xi) Educação, (xii) Minas e Energia, (xiii) Meio Ambiente, (xiv)
Saúde e (xv) Turismo. Há também, por certo, o envolvimento de diversos outros
órgãos e secretarias do governo federal. Na estrutura organizacional da
administração federal brasileira, todos os principais órgãos que compõem os GTs
estão num mesmo nível hierárquico, ou seja, são ministérios ou órgãos do
executivo federal que atuam de modo independente, submetidos apenas à
Presidência da República ' o que, com certa frequência, levou a sobreposições e
redundâncias em ações implementadas no âmbito da iniciativa IBAS. Ademais, se
as clivagens organizacionais são temáticas, há que se considerar também, em
função do presidencialismo de coalizão brasileiro, que esta estrutura é
"loteada" entre os partidos que compõem a base política do presidente de turno,
o que agrega outro elemento complicador para os esforços de coordenação
intragovernamental.
Deve-se considerar, também, a existência de ministérios tradicionais, com
burocracias e processos já consolidados, e outros de criação mais recente, o
que sugere, por si só, modos de atuação mais ou menos cristalizados e,
portanto, propensões diferentes ao insulamento e à cooperação. Em estruturas
mais convencionais de Estado, ainda se parte do suposto de que toda política
pública cujos efeitos estejam projetados para fora do território nacional deva
ser implementada pelo respectivo ministério dos negócios estrangeiros, espécie
de "guardião" (gatekeeper) da inserção internacional do país (Moses e Knutsen,
2001). O caso do IBAS ultrapassa, naturalmente, essa concepção tradicional. Há,
assim, no âmbito dos GTs, dificuldades de coordenação e acompanhamento das
atividades dos grupos, pesando também sobre o desenvolvimento das atividades os
interesses de cada órgão específico frente às necessidades relativas às ações
de política externa.
Alexander (1993) afirma que sistemas interorganizacionais e
intraorganizacionais devem buscar a coordenação de suas atividades quando seu
escopo e complexidade crescerem a ponto de não mais estarem contidos nos
limites do simples controle hierárquico. No caso da coordenação doméstica das
ações de política externa, uma multiplicação de temas da agenda internacional
exigiu nos últimos anos, dos organismos formuladores e condutores, a busca por
intercâmbios e parcerias em áreas e setores técnicos mais específicos,
justificando-se, desse modo, a multiplicidade de atores envolvidos nas
atividades domésticas do Fórum IBAS.
Diferentemente do que postulam alguns teóricos clássicos da disciplina
acadêmica das relações internacionais, que tratam os governos como um bloco
único de decisão e interesses, uma "caixa preta" lacrada e unitária, a
estrutura do governo para implementação da política externa é constituída por
um corpo burocrático extremamente complexo, por funcionários que têm posições,
percepções e interesses muitas vezes distintos e incompatíveis entre si.
Todavia, apesar da diversidade de objetivos entre os órgãos burocráticos
envolvidos no IBAS, deve-se buscar a prevalência dos objetivos gerais
delimitados pelos acordos assinados no Fórum. Todos os membros do IBAS buscam a
cooperação para o desenvolvimento, sendo importante para a materialização da
iniciativa não apenas a formulação, mas, sobretudo, a implementação das
políticas nos três países.
A pluralidade de agências em interação para a implementação da política
externa, considerando suas percepções, expectativas, recursos institucionais e
rotinas organizacionais, pode gerar conflito de interesses e divergências no
posicionamento dos atores governamentais. Alexander (1993) reforça que as
estruturas de coordenação, como os coordenadores formais, são necessárias
quando há horizontalidade entre as organizações envolvidas, situação que ocorre
no âmbito intragovernamental.
Dos dezesseis GTs do IBAS, cinco estão sob a coordenação direta do MRE, isto é,
os Pontos Nodais são funcionários do Itamaraty (GTs de Comércio, Cultura, Meio
Ambiente, Transporte e Turismo). Talvez se possa pensar que essas cinco áreas
são, precisamente, aquelas de interesse prioritário do MRE. Vale notarmos,
ainda, que dos onze GTs que não estão sob a coordenação direta do Itamaraty, em
apenas dois (Assentamentos Humanos e Sociedade da Informação) o Ponto Nodal não
é parte da assessoria internacional, ou equivalente, do Ministério ou outro
órgão federal responsável pelo GT (dados referentes a 2011). Este dado é
significativo porque indica que os trabalhos estão sendo coordenados por
pessoas que, mesmo não fazendo parte do corpo de funcionários do MRE,
provavelmente têm interações frequentes com o Itamaraty, em razão de suas
próprias atividades em seus órgãos de origem. Ademais, vale recordarmos que a
Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), vinculada ao MRE, ministra Cursos de
Capacitação em Relações Internacionais especificamente para altos funcionários
do governo federal, das autarquias e das agências reguladoras, os quais têm,
por certo, objetivo de capacitação, de produção de visões e interesses
convergentes e também de expansão e consolidação de uma rede intragovernamental
de especialistas que tenha o Itamaraty como instituição de referência.
Cabe aqui uma breve menção às assessorias internacionais dos diversos órgãos do
governo federal brasileiro. Como destacado por Faria (2009), dos 23 ministérios
do governo Lula (dados de junho de 2009), todos, à exceção do MRE, por motivos
óbvios, e do Ministério da Integração Nacional, tinham instituídas Secretarias
de Relações Internacionais, Diretorias ou Assessorias de Assuntos
Internacionais, ou órgãos semelhantes. Ademais, todas as oito secretarias que
tinham statusde ministério também possuíam instâncias com as mesmas funções,
bem como os seis outros órgãos dogoverno federal que desfrutavam do mesmo
status.
Esta "horizontalização da política externa brasileira", nos termos de França e
Sanchez (2009), deve ser vista, obviamente, como evidência clara da perda de
monopólio do Itamaraty sobre a agenda internacional brasileira, derivada do
indefectível processo de globalização, da consequente fragilização generalizada
das fronteiras entre o doméstico e o internacional e do adensamento das
relações internacionais do país. Contudo, como evidenciado pela experiência da
implementação dasdiretrizesdoIBASnopaís, oMRE parece estaratuando intensamente
no sentido da ampliação de sua capacidade de coordenação interministerial. Dito
de outra maneira, o que pode ser visto, por um lado, como concorrência
intragovernamental na definição da agenda internacional do país parece estar
redundando, por outro lado, em mais atenção do MRE não apenas aos atores
societários, mas também ao nível intragovernamental, para além de suas
tradicionais atribuições no plano internacional.
Em síntese, o caso que estudamos neste artigo traz indícios consistentes de que
a histórica relação tutelar que o Itamaraty mantém com a política externa
brasileira permaneceu por meio de outras fórmulas, em que pesem a aparição de
novos stakeholdersnas relações internacionais do país e o crescente
compartilhamento de papéis institucionais (no relativo à condução da PEB) no
seio do aparelho de Estado. O exemplo do Fórum IBAS bem ilustra como a fase da
implementação passou a constituir, para o MRE, um dos nervos mais sensíveis do
processo de fabricação da política exterior, dada a complexidade técnica dos
assuntos envolvidos e a diversidade dos interesses que se cruzam no interior
das burocracias governamentais. A necessidade de uma coordenação
intragovernamental eficiente entre essas agências tem levado o Ministério das
Relações Exteriores a reposicionar-se no ciclo de policymakingda PEB ' passando
da condição de operador preferencial e praticamente onipresente, pela via
diplomática, para uma função mais propriamente supervisora e articuladora das
dinâmicas de cooperação internacional do Brasil.
[/img/revistas/dados/v55n1/a05img01.jpg]
NOTAS
* Uma versão anterior deste artigo foi apresentada no II Encontro da Associação
Brasileira de Relações Internacionais, na cidade do Rio de Janeiro, em julho de
2009. A pesquisa que deu origem a este trabalho contou com o financiamento do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), a quem os
autores gostariam de agradecer. Cabe ainda uma palavra de reconhecimento aos
pareceristas anônimos de DADOS, por suas valiosas sugestões ao texto original.
1. Fonte: Newsletterda FUNAG de 18/6/2009, capturado em 8/7/2009, disponível em
http://www.funag.gov.br/newsletter/newslettertheme/newsletter.2009-
0618.7639762201/view
2. Sítio eletrônico do Fórum IBAS. Disponível em: http://www.ibsa-
trilateral.org/
3. O Fundo IBAS é um Fundo de Combate à Fome e à Pobreza, criado e financiado
pelos três países do IBAS, que objetivam desenvolver projetos autossustentáveis
para beneficiar países em desenvolvimento. Este é mais um dos ineditismos do
IBAS, pois altera o círculo tradicional de doadores. Os recursos do Fundo são
administrados pela Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul (UECSS) do PNUD.
4. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/temas-mais-informacoes/saibamais-
ibas.
5. Disponíveis para consulta em: http://www.itamaraty.gov.br/temas-mais-
informacoes/saiba-mais-ibas/documentos-emitidos-pelos-chefes-de-estado-e-de/
view.
6. A discussão destes três pontos iniciais da seção sintetiza, em ampla medida,
a argumentação de Faria, Rocha e Filgueiras (2006).
7. São as seguintes das fontes utilizadas nesta seção: entrevistas concedidas a
Joana Laura Nogueira por diplomatas do DMR e Pontos Nodais do IBAS entre 2008 e
2009, além da pesquisa realizada nos arquivos setoriais da DIB/MRE. Ver, para
mais detalhes, Nogueira (2009).
8. Southern African Customs Union, organização estabelecida em 1970 e
integrada, hoje, por África do Sul, Botsuana, Lesotho, Suazilândia e Namíbia.