O Rio de Janeiro e o Estado Nacional (1946-2010)
Este artigo procura mostrar que o estudo da trajetória política de um estado
específico, no caso, o Rio de Janeiro, em uma república federativa, é também
uma análise de como os contornos mais gerais da política estadual se relacionam
com a configuração do quadro político-partidário em âmbito nacional. Portanto,
para além de um estudo de uma unidade política subnacional, propomos, a seguir,
parâmetros teóricos e empíricos para o avanço de pesquisas sobre o federalismo.
O que sugerimos não é exatamente uma novidade. Nas décadas de 1970 e 1980,
cientistas sociais e historiadores, brasileiros e brazilianistas, procuraram
analisar o peso político específico dos principais estados brasileiros no
âmbito da Federação. Os mais destacados trabalhos dessa agenda de pesquisa
foram as obras de Love (1971; 1980), Schwartzman (1982) e Wirth (1977). Não é
surpresa terem sido Minas Gerais, São Paulo e o Rio Grande do Sul as unidades
subnacionais por eles estudadas. Surpreende, todavia, a ausência de reflexão de
monta sobre o Rio de Janeiro, tradicionalmente o segundo maior PIB e a terceira
maior população do país. Conquanto não faltem publicações sobre as
consequências políticas e econômicas da transferência da capital para Brasília
em 1960 e da fusão do antigo Estado do Rio de Janeiro com a Guanabara em 1975
(ex.: Ferreira, 2000; Freire, Sarmento e Motta, 2001; Lessa, 2000; Motta, 2001;
Osório, 2005), estas tratam sobretudo do impacto, por assim dizer, doméstico de
tais mudanças. Assim, inexiste artigo ou livro que avalie sistematicamente a
evolução do lugar do Rio de Janeiro na política nacional antes e depois da
transferência e da fusão. Procuramos aqui suprir essa carência.
Do ponto de vista empírico, examinamos evidências quantitativas da frequência
de políticos cariocas e fluminenses no Executivo Federal entre 1946 e 2010.
Metodologicamente, tratamos a antiga capital, o velho Estado do Rio de Janeiro
e o extinto Estado da Guanabara como uma unidade entre 1946 e 1974. A partir de
1975, essas três unidades se encontram dentro do novo Estado do Rio de Janeiro.
Dessa maneira, oferecemos novas verificações empíricas a respeito do papel do
Rio na política nacional e avançamos duas hipóteses: uma de natureza indutiva e
histórica e a outra de cunho mais dedutivo e institucional, ambas extraídas da
literatura sobre instituições políticas brasileiras e de nossas intuições a
respeito do que tem acontecido na política desse estado nos últimos anos. A
primeira argumenta que a participação de políticos do Rio nos gabinetes
presidenciais é, em boa medida, uma função do peso relativo do estado nas
bancadas de deputados federais dos principais partidos governativos. A segunda
sustenta que o fortalecimento do governo central, a partir da promulgação da
Constituição de 1988, no que toca ao seu relacionamento com os estados, forçou
o Rio a ajustar-se às alianças partidárias montadas pelos presidentes, o que
contribuiu para uma relativa recuperação da influência nacional do estado na
primeira década do século XXI.
Dito isso, o artigo se organiza da seguinte maneira: a próxima seção apresenta
uma medida quantitativa da variação do papel político do Rio de Janeiro na
política nacional entre 1946 e 2010, com foco na participação ministerial dos
estados; a terceira seção busca identificar as razões do impressionante
declínio político do Rio entre o final da década de 1960 e o começo do atual
século; a seção seguinte discorre sobre a recuperação política esboçada a
partir de 2003; a quinta oferece uma reflexão de cunho normativo sobre as
consequências, para o Brasil, do marcante declínio político e econômico do
estado no plano nacional; a sexta seção enuncia as conclusões.
A PARTICIPAÇÃO DO RIO DE JANEIRO NOS GOVERNOS FEDERAIS
Até recentemente, foram muito frequentes as notícias sobre a fuga de empresas e
o esvaziamento econômico do Estado do Rio de Janeiro. Por exemplo, dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que o Rio foi
a unidade da Federação que menos crescera entre 1985 e 2001. Além disso, entre
1985 e 2002, o Rio de Janeiro também fora quase sempre mal no tocante à sua
influência sobre a política nacional. Mesmo com a chegada de Lula ao poder em
2003, um presidente que recebera uma enorme percentagem dos votos dos eleitores
cariocas e fluminenses no segundo turno da eleição de 2002 (79,0%, a maior
percentagem obtida por Lula numa contagem por estado), parecia que os políticos
do Rio de Janeiro podiam ser facilmente descartados. Assim, em janeiro de 2004,
os três ministros do Rio que Lula nomeara no dia da sua posse - Benedita da
Silva, Miro Teixeira e Roberto Amaral - tiveram que deixar suas pastas ou foram
afastados do governo. De janeiro de 2004 a julho de 2005, o estado ocupou
apenas um cargo com status ministerial, a Secretaria de Direitos da Mulher.
Entretanto, e de forma não menos surpreendente, sob os dois mandatos de Lula,
entre 2003 e 2010, o Rio de Janeiro alcançou seu nível mais alto de
participação desde que o Brasil se redemocratizara em 1985, ficando, em média,
com 6,9% das nomeações ministeriais dos dois quadriênios.
Para se ter uma perspectiva histórica do peso político do Rio de Janeiro na
política nacional, convém tabular alguns números a respeito da participação dos
maiores estados nos gabinetes presidenciais durante os três regimes que tivemos
desde o fim da Segunda Guerra Mundial: o regime democrático de 1946 a 1964, o
regime militar de 1964 a 1985, e o novo regime democrático de 1985 ao presente.
Cabe ainda lembrar que, no contexto do nosso presidencialismo de coalizão, as
nomeações ministeriais constituem o principal mecanismo pelo qual os
presidentes montam sua base de apoio político e, consequentemente, o controle
de cargos ministeriais é um dos mais importantes meios de exercício de
influência política no plano nacional (Abranches, 1988).
Para estimar o peso dos estados nos gabinetes presidenciais, é preciso definir
critérios que estipulem quando a origem estadual de um ministro é relevante ou
irrelevante para a sua nomeação. Por exemplo, o fato de Pedro Malan ter nascido
e vivido no Rio de Janeiro não teve influência na sua escolha como ministro da
Fazenda de FHC. Já a nomeação de Guido Mantega para essa pasta por Lula pode
ser associada, entre outras dimensões, ao fato de ser um economista paulista.
Além disso, há que se levar em conta não o lugar de nascimento dos ministros,
mas o estado em que conduziram suas carreiras políticas. Assim, Dilma Rousseff,
ainda que tenha nascido em Minas, deve ser considerada uma representante do Rio
Grande do Sul nos gabinetes de Lula, uma vez que foi neste estado que
transcorreu a sua carreira política. Por último, ministros com perfil
exclusivamente técnico não devem ter suas nomeações relacionadas a qualquer
estado. É o caso do embaixador Celso Amorim, diplomata de carreira, que foi o
chanceler de Lula durante oito anos, mas cuja nomeação não esteve ligada à sua
origem santista.
Portanto, a diferença entre tecnocratas e políticos é fundamental para os
propósitos deste artigo1. Sem dúvida, aqueles também são atores políticos. Não
obstante, seus recursos, preferências e critérios de desempenho são
marcadamente diferentes dos que regem a ação de um político, mormente se este
for detentor de cargo eletivo. Para um político, a defesa e a promoção dos
interesses distributivos de partidos, classes sociais, grupos de interesse e
regiões são inevitavelmente o foco da representação. Já os tecnocratas tendem a
privilegiar critérios de eficiência e equidade alocativas com base em
conhecimento especializado ou experiência profissional (Centeno e Silva, 1998).
Porém, há também os tecnocratas cuja origem estadual é relevante, pois são
nomeados justamente para levar em conta o impacto de suas decisões em âmbitos
políticos subnacionais. Isso é inevitável num país de vasta dimensão
territorial e numa federação heterogênea como a brasileira.
Outra decisão operacional de monta deste artigo é inserir, na mesma amostra,
governos democráticos (os formados em 1946-1964 e 1985-2010) e autoritários
(1964-1985). Contudo, se nossa distinção fundamental é entre ministros
políticos e tecnocráticos, a comparação não deveria então cingir-se apenas aos
regimes democráticos, já que, por definição, os regimes autoritários não
precisam do apoio de políticos eleitos?
A favor da comparação de todos os governos do período 1946-2010, podem ser
arrolados os seguintes fatores. Em primeiro lugar, não obstante o regime
militar, ao longo desses 65 anos, as bases constitucionais do país permaneceram
praticamente inalteradas: o presidencialismo (com a exceção do interregno
parlamentarista de setembro de 1961 a janeiro de 1963), o bicameralismo, o
federalismo, e o calendário e os sistemas eleitorais da Câmara dos Deputados,
do Senado e das Assembleias Legislativas estaduais. Sem dúvida, durante essas
seis décadas e meia, houve considerável variação no formato dos sistemas
partidários, na extensão de poder do governo central vis-à-vis os governos
subnacionais, na competitividade e lisura das eleições, e na independência e
influência dos Poderes Legislativo e Judiciário. Entretanto - e aqui entra o
segundo fator - , a necessidade de o Executivo federal contar com o apoio da
classe política - seja no Congresso, seja nos estados - esteve sempre presente,
com a possível exceção dos 10 meses em que o Congresso esteve fechado em 1969.
Ou seja, houve grande continuidade institucional e nas práticas políticas, o
que permite o cotejamento entre os regimes democráticos e o autoritário.
Obviamente, em geral, os políticos foram menos importantes em 1964-1985 do que
em 1946-1964 e 1985-2010. Em particular, interessa-nos saber como o Rio de
Janeiro foi afetado pela degradação da classe política promovida pelos
militares.
Estabelecidos os critérios de avaliação do controle ministerial pelos estados e
lançadas as bases de comparação entre os três regimes, olhemos a Tabela_1 a
seguir. Nela exibe-se a percentagem de nomeações ministeriais (para cargos
civis) destinadas ao Rio e a outros seis grandes estados, por regime. O dado
mais impressionante é o declínio da participação ministerial do Rio de Janeiro.
Em 1946-1964, o ex-Distrito Federal e os antigos estados do Rio de Janeiro e da
Guanabara ficaram com 15,7% das nomeações ministeriais, abaixo apenas de São
Paulo, com 20,7%. Sob o regime militar, o antigo Estado do Rio de Janeiro e o
então recente Estado da Guanabara (até 1974) e o novo Estado do Rio de Janeiro
(a partir de 1975) receberam uma percentagem consideravelmente menor de
nomeações ministeriais, 5,3%. No período de 1985 a 2010, o peso médio do Rio
nos gabinetes presidenciais caiu novamente, para 4,6%, muito próximo ao nível
do Paraná (4,0%) e de Pernambuco (3,9%).

Cabe registrar que outros grandes estados também perderam influência política
no plano federal de um período para outro. São Paulo, por exemplo, experimentou
uma queda vertiginosa durante o regime militar. Porém, sob o atual regime
democrático, voltou a ter um nível de participação nos gabinetes presidenciais
próximo ao que tivera em 1946-1964. Note-se também que todos os sete estados
decaíram politicamente sob o interregno autoritário. Isso era de se esperar,
dado o forte caráter tecnocrático do regime e a aversão dos militares à
política partidária. Não à toa, a percentagem de ministros cuja origem estadual
foi politicamente irrelevante chegou a 65,3% entre 1964 e 1985 (havia sido de
11,4% em 1946-1964, vindo a ser 6,6% em 1985-2010). Já o Rio Grande do Sul
manteve aproximadamente a mesma cota de nomeações ministeriais ao longo dos
três regimes. Mas apenas o Rio caiu ao longo dos três períodos, sendo também o
estado que sofreu a mais drástica redução em sua presença nos gabinetes
presidenciais entre a primeira experiência democrática e a atual.
Até o momento, os dados foram examinados de um ponto de vista bastante
agregado. Se os desagregamos por presidência, um quadro mais complexo se
apresenta, permitindo identificar a gênese e a motivação do declínio. Os
Gráficos_1 e 2 a seguir descrevem, respectivamente, a percentagem de ministros
do Rio de Janeiro em relação ao total de ministros, por presidência, e a
percentagem de ministros deste estado em relação ao conjunto de ministros com
origem estadual politicamente relevante, também por presidência. Os dois
gráficos atestam que, entre 1946 e 1964, o estado teve presença política
marcante nos governos de Dutra, Café Filho e João Goulart e jamais medíocre nas
outras administrações. Sob o regime militar, políticos cariocas e fluminenses
se destacaram no governo de Costa Silva, mas não receberam, no que é a chave
para nossa explicação, sequer um ministério de Médici e Geisel2.
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Sob o regime democrático iniciado em 1985, o Rio de Janeiro passou a ser
aquinhoado com uma fatia bastante reduzida dos gabinetes presidenciais de
Sarney, Collor, FHC I e FHC II. A situação política do Rio de Janeiro melhorou
de forma significativa nos dois mandatos de Lula, alcançando seus mais altos
níveis de participação ministerial desde 1985, principalmente quando se
consideram apenas os ministros com origem estadual politicamente relevante.
Se considerarmos os dois terços de século coberto pelos Gráficos_1 e 2, fica
claro que o ponto de inflexão que inaugura o declínio político do Rio de
Janeiro foram as presidências de Médici e Geisel, pois, a partir desses 10
anos, nunca mais o Rio viria a ter uma cota do Executivo federal comparável aos
picos que se observam entre 1946 e 1968. Ressalve-se, contudo, que a chegada da
esquerda ao poder em 2003 sugere uma reversão do declínio.
RAZÕES DO DECLÍNIO POLÍTICO DO RIO DE JANEIRO
Quais são as razões para o marcante declínio político do Rio no plano federal,
mormente entre 1969 e 2002, se o estado, desde 1946, permaneceu como o detentor
do segundo PIB da Federação, da terceira maior bancada na Câmara dos Deputados,
sendo também berço de algumas das melhores universidades e institutos de
pesquisa do país?
Argumentamos que as razões do declínio político do Rio de Janeiro devem ser
buscadas, acima de tudo, em fatores políticos. Descontando-se o fato obviamente
relevante da transferência da capital para Brasília, as explicações que mais
contribuem para o entendimento do fenômeno dizem respeito, por um lado, ao
esforço - bem-sucedido - do regime militar de enfraquecer politicamente a
rebelde ex-capital do país. E, por outro, sobretudo a partir de 1985, à
dinâmica política do estado e às ambições eleitorais das suas lideranças.
No que toca ao colapso da presença de políticos cariocas e fluminenses nos
governos Médici e Geisel, o que oferecemos aqui são reflexões que, futuramente,
deverão ser objeto de pesquisa mais ampla. Assim, de acordo com Skidmore (1988:
106), as nomeações ministeriais feitas por Médici tiveram um caráter mais
marcadamente tecnocrático do que as dos seus dois antecessores militares. Além
disso, a Assembleia Legislativa da Guanabara era dominada pelo MDB (Movimento
Democrático Brasileiro), partido oficial de oposição ao regime. Embora o líder
do MDB carioca, Chagas Freitas, não representasse uma ameaça ideológica aos
militares, há que se destacar o fato de que o PTB (Partido Trabalhista
Brasileiro), partido do presidente deposto pelas Forças Armadas em março de
1964, "[...] participou na constituição do MDB local [da Guanabara e do Rio de
Janeiro] em proporções superiores à média nacional" (Dias, 2000:167-168). Ainda
nas palavras de Dias (2000:168),
Mesmo na fase mais fechada do regime, entre 1969 e 1973, o MDB
manteria sua posição eleitoral, obtendo 50% dos votos da eleição para
a Câmara Federal na Guanabara, na difícil eleição de novembro de
1970, valor bem superior à média nacional (21,3%) e à votação obtida
nos estados de São Paulo (16,4%) e do Rio Grande do Sul (36,4%).
[...] estes valores seriam repetidos por ocasião da grande vitória no
pleito nacional de 1974. O MDB obteve quase 60% dos votos na
Guanabara, tornando o segundo estado da Federação em termos de
importância econômica, com mais de dois milhões de eleitores, um
bastião oposicionista incontornável.
Ou seja, o fato de a Guanabara estar nas mãos de um MDB com tais
características certamente contribuiu para enfraquecer politicamente o Rio de
Janeiro perante o Executivo federal. Além disso, não se pode esquecer que até o
grande líder da direita carioca, Carlos Lacerda, bandeara-se para a oposição
aos militares em 1966, consagrando o Rio como uma das grandes ameaças políticas
ao regime autoritário.
O conflito do Rio de Janeiro com o regime militar continuou sob a presidência
de Geisel. Não à toa, sob esse presidente, se deu a fusão dos estados da
Guanabara e do Rio de Janeiro, fusão feita por meio da Lei Complementar nº 20,
de julho de 1974, apreciada em regime de urgência e aprovada em plenário em
pouquíssimo tempo e com escassas emendas (Ferreira e Grynszpan, 2000:118).
Convém deixar claro que não estamos a afirmar que a fusão tinha como objetivo
exclusivo aniquilar politicamente o Rio de Janeiro. Entretanto, apesar de suas
diversas motivações e complexa história3, é inegável que foi instrumental no
amesquinhamento político dessa unidade da Federação. Novamente no dizer de Dias
(2000:169),
Neste quadro de derrota eleitoral [do regime militar] e alternativa
oposicionista, a fusão ofereceu para os estrategistas do regime
militar, uma alternativa de baixo custo. Independentemente de suas
justificações burocráticas ou dos projetos dos próceres da segurança
nacional, o fato é o que processo da fusão representou, de imediato,
a possibilidade de retirar esta independência do Estado da Guanabara
e a nomeação discricionária de um novo governador. Ainda que o MDB
continuasse como a força política dominante, uma vez que, no antigo
Estado do Rio de Janeiro, o partido também havia vencido as eleições
de novembro de 1974, adiava-se o problema da constituição do governo,
com a nomeação do almirante Faria Lima.
À luz dos parágrafos anteriores, é, então, plausível sustentar que a fraqueza
política do Rio de Janeiro no Executivo federal na década de 1970 correspondeu
à força eleitoral, no estado, do MDB, nau capitânia da oposição. O quadro se
agravou mais ainda com a fusão ocorrida em 1975 e após o restabelecimento do
multipartidarismo em 1979. A Tabela_2 a seguir mostra o peso dos sete maiores
estados dentro das delegações do MDB e da ARENA (Aliança Renovadora Nacional)
na Câmara dos Deputados. Note-se que o Rio sempre teve a maior ou a segunda
maior bancada dentro do MDB, posições que jamais ocupou dentro da ARENA.
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Com a fusão, as forças políticas reunidas em torno da liderança de Chagas
Freitas entraram em disputa pelo controle da máquina partidária em oposição aos
seguidores de Amaral Peixoto, antigo líder do PSD (Partido Social Democrático)
em território fluminense e que, no contexto bipartidário imposto pelos
militares, passara a liderar o MDB local. Chagas finalmente derrotou Amaral
Peixoto nas eleições indiretas para o governo do estado em 1978. No entanto,
começou a enfrentar progressivo desgaste político, em larga medida devido às
dificuldades de coordenação das elites políticas do antigo estado com os atores
oriundos da antiga Guanabara. Para além dos efeitos da crise econômica que
atingiu o conjunto do país no início da década de 1980 e que fortaleceu
candidaturas de oposição em todos os estados, a derrota do candidato do PMDB
(Partido do Movimento Democrático Brasileiro) ao cargo de governador do Rio nas
eleições de 1982, Miro Teixeira, pode ser creditada também a um vigoroso
processo de realinhamento político resultante da nova configuração territorial
do estado.
De toda forma, com relação ao minúsculo peso político do Rio no Executivo
federal entre 1985 e 2002, cabe registrar, em primeiro lugar, que o eleitorado
do estado esteve sempre mais à esquerda do que as coalizões partidárias que
dirigiram o governo nacional ao longo daqueles 18 anos. Tal quadro redundou em
sérias divergências entre as duas entidades políticas.
Em segundo lugar, o principal partido a governar o Rio de Janeiro desde as
primeiras eleições pluripartidárias em 1982, o PDT (Partido Democrático
Trabalhista), sempre foi de médio a pequeno porte no plano nacional, o que
contribuiu para reduzir a importância desta unidade federativa nas negociações
relativas à formação de maiorias legislativas no Congresso. A Tabela_3 a seguir
mostra o grande peso que o Rio de Janeiro possuiu na delegação dessa sigla na
Câmara durante os vinte anos em que os partidos de esquerda estiveram na
oposição ao governo federal (1983-2002).
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Em terceiro lugar, os três grandes partidos que conduziram o governo nacional,
de Sarney a FHC, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), o então PFL
(Partido da Frente Libera) (hoje DEM - Democratas) e o PMDB, nunca tiveram um
número expressivo de deputados e senadores fluminenses em suas bancadas (à
exceção do PMDB a partir de 2006, tema a que voltaremos mais adiante). As
Tabelas_4, 5 e 6 a seguir exibem, respectivamente, o peso dos sete maiores
estados dentro das delegações do PSDB, PFL/DEM e PMDB na Câmara dos Deputados.
São Paulo e Minas Gerais sempre controlaram as maiores bancadas dentro do PSDB,
e Bahia e Pernambuco, dentro do PFL (a única exceção é 1998-2001, quando o RJ
comandou a segunda maior bancada dentro do PFL4). Com relação ao PMDB, entre
1982 e 2002, o Rio de Janeiro sempre ficou apenas com a sexta ou sétima maior
banca dentro da delegação do partido na Câmara (considerando-se apenas os sete
maiores estados). Ou seja, a relativa fraqueza do Rio dentro das três
agremiações que constituíram o núcleo partidário que lastreou politicamente a
presidência entre 1985 e 2002 certamente debilitou a influência do estado no
plano nacional.
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De maneira complementar, os governadores do Rio, à exceção de Marcelo Alencar,
sempre foram candidatos a presidente ou sérios presidenciáveis, o que, por sua
vez, os colocou em rota de colisão frontal com o governo federal. Tudo isto num
contexto de esvaziamento econômico do estado, o que contribuiu, em muito, para
acirrar os ânimos de eleitores e líderes cariocas e fluminenses para com
Brasília.
Cabe ainda um comentário a respeito de Marcelo Alencar, governador do Rio de
Janeiro entre 1995 e 1998, isto é, sob o primeiro mandato de FHC. Os dois
pertenciam ao mesmo partido, o PSDB. Assim, era de se esperar que o estado
tivesse uma participação no gabinete presidencial maior do que a verificada
(2%). Por que isso não ocorreu? Uma possível razão já foi listada nos
parágrafos anteriores: comparado ao de outros grandes estados, o peso do Rio
dentro das delegações legislativas dos três maiores partidos governativos do
período (PSDB, PFL e PMDB) era de segunda ordem. Além disso, pode ter sido
também relevante o fato de FHC ter obtido relativamente poucos votos no estado
(47,2%). De fato, os piores percentuais estaduais de FHC em sua triunfal
eleição em 1994 vieram do DF, RJ, SC e RS, sendo os três últimos justamente os
estados em que o PDT de Leonel Brizola era forte. De qualquer modo, um estudo
detalhado sobre as relações do Rio com o Executivo federal durante o primeiro
mandato de FHC se faz necessário.
Em suma, nos 20 anos que se seguiram ao restabelecimento do pluripartidarismo
em 1982, gerou-se uma espécie de ciclo vicioso nas relações entre o Rio de
Janeiro e o governo federal: a distância política entre o estado e Brasília
levou a um substancial declínio da presença do Rio nos gabinetes presidenciais,
dificultando o entrosamento entre esta unidade da Federação e a capital
federal, dificuldade que, no limite, levaria à queda nas transferências
orçamentárias da União para o estado5. Este resultado, por sua vez, acabou por
justificar, em "bases objetivas", uma quase permanente disposição oposicionista
no seio de eleitores e líderes cariocas fluminenses para com o governo federal,
aumentando mais ainda a distância entre o Rio e Brasília.
A RECUPERAÇÃO POLÍTICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Como se explica a recuperação política do Rio a partir de 2003? Entender a
recuperação do prestígio e do peso político do estado no plano nacional exige
uma pequena digressão histórica, especificamente, sobre o quadro político e
partidário que antecedeu o golpe militar de 1964. Lima Jr. et al. (1987)
mostraram que a dinâmica do sistema partidário no âmbito nacional caminhava na
direção da dinâmica do subsistema partidário estadual do Rio de Janeiro,
naquele tempo representado pelo Estado da Guanabara.
O que significa dizer que a dinâmica de um sistema partidário caminha na mesma
direção de um subsistema partidário? Foram duas as medidas usadas pelos autores
para responder à questão: (1) a evolução do grau de dispersão eleitoral e
parlamentar das forças partidárias na Câmara dos Deputados, em geral, e na
Guanabara, em particular (enfatizando tanto a bancada estadual da GB na Câmara
quanto a sua Assembleia Legislativa); e (2) a identificação dos partidos que,
num e noutro caso, ascendiam e declinavam em termos eleitorais e de cadeiras
legislativas.
O que mais chamou a atenção de Lima Jr. et al. quando observaram o quadro da
disputa eleitoral e parlamentar na Câmara dos Deputados a partir das eleições
de 1958 foram o avanço contínuo do PTB, em prejuízo do PSD, e a relativa
estabilidade da UDN (União Democrática Nacional). Como resultante,
identificaram um quadro de maior fragmentação eleitoral e partidária, e, como
efeito da natureza da disputa entre as bases de apoio dos trabalhistas e as
forças udenistas, também um quadro de radicalização e polarização ideológica.
Ou seja, o centro perdia força, com as extremidades ampliando seu poder, em
paralelo com o crescente enrijecimento das posições de bancadas e facções no
interior dos partidos.
O traço que sempre marcou a disputa partidária na antiga capital, e que
continuou a marcar o novo Estado da Guanabara, foi justamente o da polarização
entre o PTB e a UDN. No Rio de Janeiro, o PSD nunca gozou de grande densidade
eleitoral, sempre tendo que disputar espaço com uma miríade de pequenos
partidos, alguns mais e outros nem um pouco relevantes. O que Lima Jr. et al.
tentaram mostrar é que, às vésperas do golpe de 1964, a dispersão de forças
políticas na Câmara dos Deputados, ou seja, no plano nacional, assim como a
temperatura do jogo político neste mesmo plano, se aproximava cada vez mais
daquilo que sempre caracterizara a política na antiga capital.
Como indicamos na segunda seção deste artigo, com o golpe militar, a ex-capital
da República, sua polarização ideológica e sua influência sobre a política
nacional tornaram-se alvos preferenciais de intervenção do novo regime
autoritário. Depois de um início em que a presença de ministros oriundos do Rio
de Janeiro ainda era sentida, observa-se um longo período durante o qual esta
unidade da Federação perde relevância no cenário político nacional, sobretudo
se medimos esta relevância como presença nos gabinetes presidenciais.
Vale lembrar o que dissemos no início do trabalho: o estudo da recuperação
política do Rio é também um estudo de como os contornos mais gerais da política
estadual se relacionam com a configuração do quadro político-partidário em
âmbito nacional. Recapitular alguns pontos e aprofundar outros mais uma vez se
faz necessário.
Com a extinção do PTB e a cassação ou exílio dos seus principais quadros, a
esquerda política no Rio de Janeiro, composta, de uma parte, pelas camadas
sociais de mais baixa renda e, de outra, por parcelas da classe média
identificada ideologicamente com a esquerda intelectual, passou a votar no MDB.
Já o voto "popular" acabou dominado pela máquina eleitoral e política comandada
pelo ex-governador Chagas Freitas, dando origem ao fenômeno do chaguismo e
passando o voto mais intelectualizado, digamos assim, a ser canalizado para
políticos pertencentes à chamada ala "autêntica" do MDB6.
Como dito na seção anterior, a transição democrática e o restabelecimento do
multipartidarismo tiveram impactos importantes na estruturação da disputa
partidária no Rio. Leonel Brizola, herdeiro do antigo trabalhismo, reorganiza o
velho PTB, agora sob uma nova sigla, PDT, em 1980. Vence as eleições para
governador em 1982 e constitui uma importante bancada de deputados estaduais e
federais. Durante um longo tempo, Brizola e seu partido constituíram a
referência do voto de esquerda "popular" no Rio de Janeiro, assim como boa
parte dos políticos que viria a dar o tom da competição política no estado
ingressara na vida pública a reboque da sua liderança7.
Se o voto da esquerda, sobretudo o popular, foi canalizado, no Rio de Janeiro,
para o PDT, o mesmo não ocorreu em âmbito nacional. Neste nível, a partir das
bases estabelecidas em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, é o PT
(Partido dos Trabalhadores) a sigla que consegue a hegemonia de tal voto,
tendência que se consolida após a derrota de Brizola para Lula nas eleições
presidenciais de 1989 e o mal-sucedido segundo governo daquele no Rio em 1991-
1994. A Tabela_7, acima, apresenta o peso dos sete maiores estados dentro da
delegação do PT na Câmara dos Deputados, deixando clara a preponderância
daquelas três unidades da Federação.
[/img/revistas/dados/v56n3/01t07.jpg]
Com a decadência do brizolismo, sobretudo como resultado de conflitos que se
estabelecem entre antigas e novas facções e lideranças do PDT (cujo melhor
exemplo é o ex-governador Anthony Garotinho), o voto popular no Rio se tornou,
mais uma vez, objeto de disputa. Porém, o PT não logrou ampliar seu apoio
eleitoral para além de alguns nichos bem demarcados por lideranças como
Benedita da Silva, Carlos Minc e Jorge Bittar, lideranças cuja capacidade de
agregar apoio não avançou para além do necessário para a conquista de cargos
legislativos. No vácuo do brizolismo e da falta de pujança do PT local, surgiu
a oportunidade para o velho PMDB recobrar a posição perdida para Leonel Brizola
em 1982, como mostra a Tabela_6 acima, principalmente a partir de 2006.
Nas eleições de 2006, no segundo turno, o senador peemedebista Sérgio Cabral
obtém vitória contundente sobre a candidata do minúsculo PPS, a juíza Denise
Frossard. O segredo do sucesso de Cabral residiu em boa parte na decisão de
aliar-se, no âmbito nacional, ao candidato do PT à presidência, Lula, que
também disputava o segundo turno. Os contornos da aliança que hoje domina a
política carioca e a fluminense vieram então a se definir, contornos que
invertem a trajetória percorrida a partir do fim da década de 1960. Se, até
meados dessa década, a política nacional "seguia" a política carioca, com sua
marca de fragmentação e polarização ideológica, agora é a disputa local que se
orienta segundo os ditames da política nacional.
Desde 2006, após a vitória de Sérgio Cabral na disputa pelo governo do estado,
a coalizão entre o PMDB e o PT tem organizado a aliança entre setores
populares, setores da classe média e elites econômicas alinhadas ao projeto
defendido por Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff. É pela via do alinhamento
ao projeto hegemônico no plano nacional e da reprodução quase perfeita, no
âmbito estadual, da coalizão partidária que sustenta o Executivo federal que o
Rio de Janeiro conseguiu recuperar sua influência na política nacional. Temos
aqui não apenas uma coincidência de siglas a comporem coalizões governativas,
mas também uma aproximação de agendas, permitindo ao estado uma captura mais
ampla de espaço político e transferências orçamentárias.
Em suma, nossa hipótese, de natureza indutiva e histórica, reza o seguinte: na
década de 1950 e no começo da década de 1960, a política do Rio de Janeiro
moldara, em considerável medida, a estrutura da competição partidária nacional
e a composição dos gabinetes presidenciais. A década de 1960 viria a ser o
último período em que o Rio de Janeiro teria grande influência sobre os rumos
da política nacional, mesmo sob os governos militares de Castello Branco e
Costa Silva. A década de 1970 assistiria à redução radical dessa influência.
Ironicamente, os vinte primeiros anos do novo regime democrático iniciado em
1985 confirmariam o declínio político do estado. Já na segunda metade da
primeira década do século XXI, o Rio voltaria a ter um peso político nacional
mais compatível com a sua condição de segundo PIB e terceira população da
Federação. Porém, essa recuperação política expressou, sobretudo, o alinhamento
das forças partidárias do estado à política do Executivo federal.
Assim, se durante o período 1946-1964 a influência política do Rio de Janeiro
decorreu da capacidade de exportar seu padrão de competição partidária para o
plano nacional, sob o atual regime representativo, o Rio recupera influência
após decidir importar os padrões de alinhamento partidário estabelecidos pelo
governo central.
Que condições permitiram ao Rio exportar sua política para o plano nacional na
década de 1950 e que condições levaram o estado a ter que importar a política
da presidência, no começo do século XXI, para que voltasse a ter um papel
político nacional relevante? Aqui elaboramos a nossa segunda hipótese, de
natureza institucionalista e dedutiva.
Em 1946-1964, com a exceção do interregno de Nereu Ramos, quatro das seis
administrações presidenciais foram abortadas prematuramente. Entre outubro de
1988 e 2013, apenas uma das sete administrações federais não concluiu o seu
mandato constitucional. Segundo esse simples critério de avaliação de
desempenho político, o Brasil melhorou muito após a promulgação da Constituição
de 1988. Segundo Figueiredo e Limongi (2007) e Santos (2003; 2007), há
mecanismos institucionais que explicam a recente tendência a uma maior
estabilidade: a concentração de prerrogativas legislativas nas mãos do chefe do
Executivo promovida pela nova Carta Magna fortaleceu a efetividade
governamental, o que, por sua vez, diminuiu a probabilidade de encerramento
prematuro das presidências. Essas prerrogativas legislativas dizem respeito,
sobretudo, às medidas provisórias, à urgência constitucional e aos poderes
orçamentários.
Esses mesmos autores, todavia, reconhecem que o fortalecimento do Poder
Executivo tem-se dado pari passu à diminuição do poder legiferante do Congresso
e dos legisladores tomados individualmente. Como se dá o enfraquecimento do
Legislativo?
Em trabalho sobre o perfil dos deputados federais que conseguem ver aprovados
seus projetos de lei, Amorim Neto e Santos (2003) sustentam que o Congresso
brasileiro tem um papel de menor importância no elaboração das leis não só por
causa da ampla delegação ao Executivo de autoridade para tomar decisões sobre
políticas públicas de abrangência nacional (por meio de medidas provisórias),
mas também em virtude dos incentivos à construção das carreiras legislativas.
Esses incentivos decorrem do fato de ser o Poder Executivo o centro de
gravidade política do país, dissuadindo os deputados de tentarem uma carreira
mais duradoura no Congresso. Por sua vez, a existência de poucos políticos
dispostos a permanecer muito tempo no Congresso limita ainda mais o papel do
Legislativo na elaboração de políticas nacionais (Amorim Neto e Santos, 2003:
692).
De maneira complementar, a Constituição de 1988 procurou descentralizar o poder
político, numa resposta à concentração promovida pelo regime militar. A nova
Carta Magna transferiu montante considerável de recursos fiscais para estados e
municípios. Porém, o esforço de debelar a inflação acabou por chocar-se com o
intuito descentralizador da Assembleia Nacional Constituinte. O fim da inflação
alta em 1995 desvelou a crise fiscal dos estados. FHC os ajudou a sair dela
exigindo em contrapartida a privatização de empresas e bancos, o que, por sua
vez, ensejou um pujante processo de centralização (Arretche, 2012). Este tem
como uma das suas principais expressões uma alta e crescente carga fiscal,
extraída, em boa medida, por meio de contribuições tributárias que não têm que
ser partilhadas pela União com estados e municípios. A Lei de Responsabilidade
Fiscal, promulgada em 2000, é outro ponto de inflexão desse processo. Mas há
nele uma grande novidade: pela primeira vez em nossa história, o Brasil
experimentou um processo de centralização em bases democráticas, centralização
a que Lula viria a dar continuidade, seja aumentando a carga fiscal, seja por
meio de programas sociais como o Bolsa Família.
Para oferecer sólidas evidências do fortalecimento do governo federal ao longo
das últimas décadas, o Gráfico_3 a seguir, elaborado a partir de dados cedidos
pelo economista José Roberto Afonso, mostra a divisão da arrecadação direta
(como percentagem do PIB) entre União, estados e municípios em 1970-2012. Está
claro que, a partir do começo da década de 1990, a União é a grande vencedora
na disputa pela receita fiscal do país. A partir de 2000, a fatia dos estados
se estabiliza e a dos municípios cresce um pouco8. Isto é, os estados, na
última década, foram os perdedores no conflito federativo. Isso significou um
forte incentivo fiscal para que se ajustassem politicamente ao Executivo
federal.
[/img/revistas/dados/v56n3/01g03.jpg]
A centralização significa essencialmente o fortalecimento do Poder Executivo
nacional em detrimento dos demais entes federativos. Esse fortalecimento é
maximizado pelo fato de alguns estados e metade dos municípios não conseguirem
se sustentar exclusivamente com seus próprios meios fiscais. Portanto, no
tocante às relações entre o governo central e os governos subnacionais, o
Brasil tem vivido uma situação relativamente semelhante à identificada nas
relações Executivo-Legislativo, sob a qual o fortalecimento do Poder Executivo
corresponde ao enfraquecimento de outras importantes unidades políticas (no
caso, os governos subnacionais).
A proposição subjacente à discussão entabulada nos últimos parágrafos pode ser
formulada da seguinte maneira: a ampliação das prerrogativas da União gera
incentivos para que os atores políticos estaduais se coordenem no sentido de
emular em suas próprias unidades federativas o formato das coalizões políticas
organizadas em âmbito nacional. O caso recente do Rio de Janeiro seria a
manifestação empírica perfeita e acabada da validade da proposição.
Por último, uma nota sobre as relações entre o declínio político e o declínio
econômico do Rio de Janeiro se faz necessária. O Gráfico_4 a seguir, elaborado
a partir de dados cedidos pelo economista Carlos Roberto Azzone, mostra a
evolução do peso relativo das economias de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São
Paulo como percentagem do PIB nacional entre 1939 e 2010. É impressionante a
decadência econômica do Rio. No começo da série, o estado chega a ter 20,7% do
PIB nacional. Em 2010, este valor despenca para 10,8%! Isto é, ao longo de dois
terços de século, a presença econômica do Rio foi cortada pela metade. São
Paulo também decaiu, mas não à taxa observada para o Rio: de um pico de 42,7%
em 1973 para 33,1% em 2010. Minas Gerais se manteve relativamente estável ao
longo dos 72 anos analisados. Por conta disso, o Rio, malgrado seu declínio,
sempre se manteve como o segundo maior PIB estadual do país9.
[/img/revistas/dados/v56n3/01g04.jpg]
De qualquer modo, o esvaziamento econômico por que passou o Rio, em tese, pode
ser considerado um fator no declínio político da região, uma vez que dinamismo
econômico e poder político costumam andar de mãos dadas. Um possível mecanismo
que intermedeia a relação entre declínio econômico e declínio político é o
enfraquecimento de presidenciáveis ou candidatos presidenciais que tenham sido
governadores do estado. Como a perda de dinamismo econômico debilitara o
desempenho administrativo dos governadores do Rio e, consequentemente, sua
imagem perante o eleitorado nacional, suas postulações à presidência acabaram
sempre fracassando. São os casos das candidaturas presidenciais de Brizola em
1989 e 1994 e de Garotinho em 2002. O fato de Wellington Moreira Franco,
governador do Rio em 1987-1990, ter desistido de candidatar-se à presidência em
1989 pode ser também creditado à má imagem que deixara como administrador.
O Gráfico_4, porém, também deixa claro que o declínio econômico do Rio é um
fenômeno que precede a transferência da capital para Brasília, período em que a
influência política da região estava no seu auge. De maneira complementar, a
recuperação política do Rio na primeira década do século XXI também se deu num
contexto de perda de presença econômica nacional, ainda que a uma taxa mais
suave do que a verificada nas décadas anteriores. Tais constatações reforçam
uma das nossas principais proposições: a variação na influência política do Rio
no plano nacional deve ser explicada por fatores predominantemente políticos.
Foi bom para você? As Consequências do Declínio do Rio para o Brasil
O pronunciado declínio político e econômico do Rio é um dos aspectos mais
marcantes da história da Federação brasileira nos últimos cinquenta anos.
Sabemos que isso foi péssimo para o estado. Mas o que significou para o país?
Para esboçar uma resposta, visitamos brevemente o trabalho clássico de Simon
Schwartzman, Bases do Autoritarismo Brasileiro (publicado em 1982), uma
reflexão sobre o desenvolvimento brasileiro marcada por uma discussão a
respeito do papel dos principais estados. Segundo Schwartzman, a política
brasileira passara, historicamente, pelo eixo Rio-Minas-Nordeste-Rio Grande do
Sul, deixando de fora justamente o centro mais dinâmico da economia do país,
São Paulo (e também Paraná e Santa Catarina), o qual, no máximo, produzira
lideranças populistas, que não lograram transcender a fronteira do estado.
Seguindo Faoro (1958), Schwartzman vê o Estado Nacional brasileiro, até o final
da década de 1970, como sendo essencialmente patrimonialista, no sentido de que
não seria o "representante" de determinados interesses, mas, sim, o objeto de
interesses de um estamento político que viveria de e para o poder; de que a
política exercida por este Estado seria ou autoritária, com os militares, ou
populista, com Vargas, ou uma combinação das duas coisas; e que o sistema
partidário de 1946-1964 se basearia na cooptação das lideranças (inclusive
sindicais) pela oligarquia política10.
Schwartzman esperava que, com o tempo e a modernização do país, outro tipo de
política, originária de São Paulo, passaria a predominar no Brasil - uma
política mais autenticamente representativa, com partidos apoiados nas classes
modernas, burguesas e proletárias, da parte mais capitalista do país. Com o
declínio histórico do Rio e a chegada ao poder federal do PT e do PSDB -
partidos com tais atributos - a partir de meados da década de 1990, parte das
expectativas de Schwartzman se cumpriu. De fato, nossos dados sobre a
participação ministerial dos estados corroboram as teses e expectativas de
Schwartzman: o regime militar foi duríssimo com os políticos paulistas,
passando Minas e o Rio Grande do Sul a serem os estados com melhor participação
ministerial. De 1985 a 2010, entretanto, São Paulo emerge como o estado
dominante nos gabinetes presidenciais, capitaneado por líderes do PSDB e do PT,
resultado que oferece margem à visão segundo a qual o programa de modernização
da política brasileira previsto por Schwartzman estaria seguindo seu curso.
Uma leitura da história brasileira inspirada por Schwartzman, portanto, poderia
levar a crer que o declínio do Rio teve um aspecto positivo para o Brasil, uma
vez que significou o enfraquecimento de uma das principais bases estaduais do
populismo. A nosso ver, o problema com tal interpretação é a fragilidade do
conceito de populismo11 e a falta de precisão no que concerne ao significado
essencial da queda de influência política nacional desta unidade da Federação.
Como procuramos mostrar na segunda seção deste artigo, o problema da política
na antiga capital federal residia em seu caráter fragmentado e polarizado,
aspecto que, aos poucos, passou a invadir a dinâmica do conflito político no
âmbito nacional. Pelo lado conservador, a UDN não admitia soluções de
compromisso por entender que a democracia representativa brasileira padecia de
um vício de origem: varguista, corporativa, baseada na cooptação de segmentos
populares desqualificados para o exercício da escolha política por meio do
voto. Pelo lado do trabalhismo, os opositores seriam traidores da nação,
entreguistas das riquezas naturais e do fruto do sacrifício do povo
trabalhador. Por conseguinte, sim, a decadência do Rio significou, em alguma
medida, a revalorização dos mecanismos de mediação da política representativa.
Há alguma coisa negativa para o país advinda do declínio do Rio? Cremos que
sim, pois dificilmente pode ser boa para um país a dominância excessiva de uma
de suas unidades constitutivas, como tem sido o caso de São Paulo sob o regime
nascido em 1985. Os dezesseis anos seguidos em que o país foi governado por
presidentes originários politicamente desse estado - isto é, os quatro mandatos
de FHC e Lula - são um indicador eloquente de dominância. Se é verdade que
ocorreu uma desconcentração de poder no plano regional gerada pela decadência
carioca-fluminense, é também verdadeiro que temos assistido a uma tendência de
concentração por conta do excessivo peso de políticos oriundos de São Paulo.
Por último, o amesquinhamento de uma unidade da Federação com o peso econômico
e cultural da região em que se fez e consolidou a independência nacional acaba
por produzir o risco de retomada de uma política de gueto, de isolamento e
autovitimização vis-à-vis o resto do país, política deletéria para o Rio e para
o Brasil em seu conjunto, pois em nada contribui para uma sólida convivência
democrática entre as entidades federativas.
CONCLUSÃO
Este artigo procurou mostrar que, entre 1946 e 1964, uma unidade subnacional
importante como o Rio de Janeiro logrou exportar sua política para o plano
nacional porque a balança de poder entre o governo central, por um lado, e o
Congresso e a Federação, por outro, pendia para estes. Durante o regime
autoritário, o Executivo, como era de se esperar, concentrou amplas
prerrogativas, passando a ter recursos para punir o Rio por sua rebeldia. Com a
vida ancorada nesta unidade federativa, apenas técnicos com origem estadual
politicamente irrelevante viriam a participar dos gabinetes presidenciais entre
1969 e 1979.
A diferença entre tecnocratas e políticos é de extrema importância para nossa
discussão. Certamente, os primeiros também podem ser considerados atores
políticos. Todavia, sua agenda, interesses e medidas de sucesso são distintos
dos parâmetros que marcam a atuação de um político, sobretudo se eleito por
determinada região e estado. Em uma república federativa como a brasileira,
pressões pela defesa dos interesses distributivos de municípios e do estado são
fatos corriqueiros, necessários e inarredáveis na vida de um representante. Os
tecnocratas, por sua vez, sobretudo aqueles cuja origem estadual é
politicamente irrelevante para sua nomeação para um ministério, observam
indicadores relativos à nação como um todo. Seu estado de origem, quando da
avaliação das políticas pelas quais lutam, é apenas mais uma variável, a
atrapalhar ou ajudar o desempenho agregado do país.
Assim, o que nos interessou no artigo foi constatar que a participação política
do Rio de Janeiro no governo federal foi praticamente nula a partir de meados
da década de 1970 do século passado até boa parte do período relativo à
transição e consolidação democrática. Já no começo do século XXI, a balança
continuou a oscilar, agora em bases democráticas, para o lado do governo
central, forçando cariocas e fluminenses a ter que importar a política deste
para terem novamente um papel político nacional relevante.
De maneira complementar, o esvaziamento econômico por que passou o Rio desde
1950 e a transferência dos ativos administrativos da capital para Brasília em
1960 também devem ser considerados fatores relevantes no declínio político da
região, uma vez que dinamismo econômico e poder político costumam andar de mãos
dadas. Porém, a perda de influência política no âmbito nacional decorrente de
esforços bem-sucedidos do regime militar certamente contribuiu para acentuar o
declínio econômico. Além disso, a implantação do brizolismo no estado a partir
de 1983 acabou por ampliar mais ainda o fosso entre o Rio de Janeiro e o
governo federal, gerando um ciclo vicioso entre decadência econômica e
desentrosamento político, agravado pela crise inflacionária da década de 1980 e
do começo da década seguinte.
Ao que tudo indica, este ciclo parece ter chegado ao fim a partir de 2007,
quando o estado e o Executivo federal voltaram a se alinhar politicamente,
criando um ciclo virtuoso entre cooperação intergovernamental e revitalização
econômica. A questão-chave agora é saber se a retomada da relevância política
do Rio tornou-se um valor e desiderato de suas elites, isto é, com tendência a
se tornar meta permanente das próximas gerações de políticos do estado. Ainda
está por ser comprovado se o atual ciclo nada mais seria do que resultado da
astúcia dos últimos governantes, passageiro, portanto, tanto quanto o são as
pessoas, ao invés das instituições e práticas governamentais.
NOTAS
1. A distinção entre ministros que possuem origem estadual relevante e os que
não o possuem segue, em boa medida, a adotada por Santos (1971) em sua análise
sobre o perfil dos governadores nomeados pelos militares em 1970, em
contraposição à geração anterior, de 1966, ainda escolhidos pelo meio do voto.
O importante para nós, assim como para Santos, consiste na via de acesso ao
cargo, se por conta de seu currículo como profissional ou como político.
2. Convém enfatizar que dois importantes ministros de Geisel, Mário Henrique
Simonsen, da Fazenda, e Antônio Francisco Azeredo da Silveira, das Relações
Exteriores, eram naturais do Rio, mas suas nomeações não tiveram a ver com sua
origem carioca.
3. Para uma excelente discussão das diversas motivações e da longa história da
fusão, ver Ferreira e Grynszpan (2000).
4. Na verdade, o desempenho do PFL no Rio de Janeiro a partir de meados da
década de 1990 acompanhou a trajetória de um político específico, Cesar Maia.
Oriundo das hostes brizolistas, Maia se transferiu para o eleitorado
conservador em 1992, logrando conquistar a prefeitura da capital do estado três
vezes. Conflitos com parceiros nacionais, como o PSDB, além de acirradas
disputas internas pela liderança do partido, acabaram por não institucionalizar
o DEM como a opção conservadora no Rio como fora o caso da UDN.
5. Amorim Neto e Simonassi (2013) mostram que, entre 1985 e 2004, níveis mais
elevados de transferência de recursos per capita do governo federal para os
governos estaduais estão associados à composição partidária-estadual das
coalizões governativas.
6. Sobre as facções do MDB no Rio de Janeiro, ver o estudo clássico de Eli
Diniz (1982).
7. Sobre o "brizolismo" na política carioca, o estudo de referência é Sé
(1999).
8. Segundo Arretche (2012:145-171), a centralização a que nos referimos
fortaleceu os municípios sobretudo como executores de políticas federais.
Quanto aos estados, os mecanismos que contribuíram para o seu relativo
enfraquecimento foram a reestruturação das dívidas estaduais e as restrições
orçamentárias impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
9. De acordo com os dados de Azzone para 1939-2010, dos outros quatro grandes
estados (BA, PE, PR e RS), apenas Pernambuco experimentou um declínio econômico
da magnitude verificada para o Rio: de um pico de 4,5 em 1939 para 2,3% em
2004.
10. Análises clássicas sobre a evolução do sistema partidário durante o período
1946-1964, como são os casos de Soares (1973) e Souza (1976), de alguma forma
ecoam a visão dualista segundo a qual existiriam duas formas distintas de se
fazer política no Brasil: uma ideológica, autenticamente representativa, e
outra, oligárquica, patrimonialista, em algumas versões, estadocêntrica. Tais
"estilos" de se praticar a política, ademais, seriam bem localizados
geograficamente. Nossa visão corresponde mais à linha adotada por Lima Jr.
(1983), em estudo igualmente importante, de compreender as variações políticas
na Federação brasileira segundo o que chamou de "racionalidade contextual".
Nesta perspectiva, não haveria espaços geográficos mais claramente
representativos, mais ou menos ideológicos. As estratégias dos partidos
variariam de acordo com o contexto da disputa pelo voto, isto é, os principais
adversários em âmbito estadual e os níveis de disputa, se estadual ou nacional.
Neste sentido, clientelismo, patrimonialismo e ideologia conviveriam lado a
lado no interior de uma mesma unidade da Federação, sendo a intensidade de seu
uso função de tais variáveis.
11. O termo populismo possui diversas definições, dependendo do autor, país e
contexto histórico em que é utilizado. No Brasil, é muito comum uma acepção
pejorativa do termo, acepção oriunda quase sempre de uma visão da política como
epifenômeno. Tome-se, por exemplo, o conhecido estudo de Weffort (1978), em que
diversos tipos de políticos populistas são definidos e suas bases sociais,
identificadas. Contextos sociais subdesenvolvidos, nesta visão, levariam à
produção de líderes políticos ruins. Contextos desenvolvidos gerariam
lideranças modernas. A política é vista como destituída de poder de agência,
ou, como diria Santos (1986), um "balé metafórico da economia", incapaz de,
através de mecanismos como o voto e partidos, modificar a ecologia social e
impulsionar mudanças modernizadoras.