Avaliação de Impacto das condicionalidades de educação do Programa Bolsa
Família (2005 e 2009)
INTRODUÇÃO
A desigualdade de renda e os níveis de pobreza são alguns dos maiores desafios
a serem enfrentados pelos países em desenvolvimento. No caso do Brasil, a
desigualdade existente entre as camadas da sociedade sofreu um recuo importante
com a criação dos programas de transferência de renda a partir dos anos 1990.
Apesar de já terem sido observados, anteriormente, momentos de queda nos
indicadores de desigualdade, a partir da implantação desses programas a redução
se mostrou contínua e significativa.
Em 2003 o Governo Federal implantou o programa Bolsa Família, com o objetivo de
unir os programas de transferência de renda até então existentes e aumentar a
focalização das ações. O Programa caracteriza-se como transferência
condicionada de renda, pois possui condicionalidades nas áreas de educação e
saúde, que têm como objetivos ampliar o acesso das famílias a direitos sociais
básicos e aumentar o capital humano de seus beneficiários. Estudos geraram
evidências de que programas de transferência condicionada de renda produzem
impactos significativos na diminuição da desigualdade de renda, ou mesmo na
pobreza (Barros et al., 2006, 2007; Behrman, Parker e Todd, 2005; Castro e
Modesto, 2010; Hoffman, 2006; Janvry, Finan e Sadoulet, 2006; Ravallion e
Wodon, 2000; Rawlings e Rubio, 2005; Skoufias, 2005; Skoufias e Parker, 2001;
Soares et al., 2006). Entretanto, pouco tem sido produzido sobre o impacto do
Programa Bolsa Família sobre suas condicionalidades, as quais levariam à
melhoria dos indicadores de capital humano.
O objetivo central deste trabalho é verificar se as condicionalidades de
educação do Programa Bolsa Família, no que se referem à frequência escolar,
estão realmente funcionando. Isto é importante para aprofundar o conhecimento
sobre impactos do programa na evasão escolar de crianças atendidas pelo
programa. São utilizados dados da Avaliação de Impacto do Programa Bolsa
Família (AIBF) de 2005 e 2009 do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome (MDS). Utilizando modelos logísticos, será possível verificar como
diferentes características domiciliares, da mãe e da criança, assim como o
recebimento do Programa Bolsa Família, explicam a chance de crianças
abandonarem a escola de um ano para o outro.
CONTEXTUALIZAÇÃO
Pobreza, Desigualdade e Programas de Transferência de Renda
O Brasil é um dos países mais desiguais na distribuição de renda do mundo. Os
dados mostram que a renda total dos 50% mais pobres alcança, aproximadamente,
apenas 12% da renda total do país. Este valor é menor do que a renda dos 1%
mais ricos, os quais detêm 14% do total (Medeiros, 2005). A redução das
desigualdades é, então, a principal alternativa para a melhoria nas condições
de vida dos mais pobres. Declínios nos índices de pobreza já foram observados
em distintos momentos da história do país. Porém, o ritmo da queda não
representava algo suficiente para sanar os problemas de desigualdade de renda
no curto prazo. Até o início dos anos 2000, a política social no Brasil era
caracterizada pela pouca focalização, a ausência de integração entre os
programas existentes e a falta de coordenação entre os níveis de governo. A
pouca eficácia, ou até mesmo a ausência de uma política brasileira focada no
problema, fez com que a desigualdade de renda no Brasil permanecesse
praticamente intocada no final do século XX (Barros e Carvalho, 2003).
A desigualdade começa a cair no Brasil entre os anos de 2001 e 2004 de forma
significativa e contínua (Barros et al. 2006, 2007). As principais causas desse
novo comportamento estão associadas às mudanças no mercado de trabalho,
crescimento da economia, aumentos reais no salário mínimo, mais formalização do
trabalho, surgimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), aposentadorias
rurais e à implementação de outros mecanismos de proteção social. Esta queda
recente da desigualdade coincidiu com o surgimento de programas de
transferência condicionada de renda, os quais buscam solucionar problemas de
desigualdade e pobreza, exigindo contrapartidas das famílias atendidas. À
medida que procuram transferir recursos concentrados nas mãos dos mais ricos à
população mais pobre, esses programas esperam diminuir gradativamente a
distância entre ricos e pobres, além de amenizar a situação de pobreza no país.
Segundo Janvry e Sadoulet (2005), existem duas abordagens sobre os objetivos
das políticas de transferências condicionadas de renda (TCR): uma seria a
redução direta da pobreza; outra seria a redução da pobreza por meio do aumento
do capital humano das crianças pobres, o que possibilitaria uma quebra
intergeracional da pobreza. Se o objetivo maior das TCRs fosse a redução da
pobreza, não haveria necessidade de criação de condicionalidades, pois apenas a
transferência de renda atingiria os objetivos propostos. A discussão se
concentraria, então, nos aspectos relativos ao tamanho dessa transferência e no
melhor público-alvo para gerar mais impactos positivos com a política.
Entretanto, se o objetivo maior das TCRs fosse o de elaborar estratégias para
quebrar o ciclo vicioso que envolve as gerações das famílias pobres, seria
necessário pensar em estratégias de investimento em capital humano das crianças
oriundas dessas famílias. Portanto, o intuito não seria somente de resolver o
problema imediato do acesso às necessidades básicas por parte de uma camada
mais vulnerável dos cidadãos.
Antes de tudo, é importante lembrar que há um debate sobre o quanto é desejável
o condicionamento dos programas de transferência de renda, já que se trata de
acesso a serviços de educação e saúde, os quais já deveriam ser
disponibilizados a toda população (Szekely, 2006; Samsom, 2006). Além disto, é
questionado o custo decorrente da imposição de condicionalidades (Brauw e
Hoddinott, 2008). No programa Progresa/Oportunidades do México, cerca de 18%
dos custos administrativos e 2% do custo total são usados no controle de
condicionalidades do programa, que são discutidas ainda no âmbito da liberdade
de escolha dos indivíduos na alocação do seu tempo.
Nas Américas Central e do Sul, os programas de transferência condicionada de
renda estão em vigor desde o final dos anos 1990. México, Brasil, Honduras,
Nicarágua e Colômbia, são países onde esses programas oferecem subsídio
financeiro para famílias pobres com crianças, condicionado a certos
comportamentos educacionais ou de saúde. Alguns exemplos seriam o Chile
Solidário, o Progresa/Oportunidades, no México, o Bolsa Família, no Brasil, a
Red de Protección Social, na Nicarágua, o Programa de Assistência Familiar, em
Honduras, assim como outros programas na Jamaica, Bangladesh, África do Sul,
Gana e outros países africanos (Soares et al., 2006; Ravallion e Wodon, 2000;
Skoufias e Parker, 2001; Rawlings e Rubio, 2005). Evidências apontam que esses
programas têm efeitos significativos nos níveis de escolaridade das crianças.
No México, estimativas mostram que as taxas de matrícula cresceram
aproximadamente 8% para meninas, e 4,5% para meninos (Skoufias, 2005). Efeito
similar ocorre na redução da evasão escolar, com pesquisas encontrando reduções
significativas para participantes do Bolsa Família, no Brasil, e Oportunidades,
no México (Behrman, Parker e Todd, 2005; Janvry, Finan e Sadoulet, 2006).
No Brasil, os programas de transferência de renda representam menos de 0,8% da
renda das famílias e respondem por 16% da diminuição global da desigualdade
entre 1999 e 2009 (Castro e Modesto, 2010). Estima-se que entre 2002 e 2004 os
programas de transferência de renda foram responsáveis por 31,4% da diminuição
da desigualdade. O impacto chega a 86,9% se for considerada apenas a região
Nordeste (Hoffman, 2006). Além da queda na desigualdade, estes programas foram
importantes na redução da pobreza no país (Castro e Modesto, 2010). Desde o
início da implantação, o percentual de pobres diminuiu consideravelmente no
Brasil. Se considerarmos a pobreza entre 1999 e 2009, com base na linha de
pobreza de R$100,00 em 2004, a redução foi de 12% - o programa Bolsa Família
foi responsável por 16% dessa queda. Para a pobreza extrema, com base na linha
de indigência de R$50,00 em 2004, a redução foi de pouco mais de 5% - o Bolsa
Família foi responsável por quase um terço deste percentual. Mesmo não sendo a
transferência de renda a única responsável pelo arrefecimento da pobreza, é
possível observar que a acentuação na queda ocorreu exatamente a partir de
2003, ano de início do programa. Os programas de transferência de renda
anteriores ao Bolsa Família evitaram um aumento na pobreza em 40% entre 1999 e
2003.
Programa Bolsa Família: Unificação e Condicionalidades
Os primeiros programas de transferência de renda no Brasil possuíam agências
executoras distintas e sofriam com a pouca coordenação e troca de informações
entre eles. Foram criados os programas Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e
Auxílio Gás, em âmbito nacional, no ano de 2001, e dois anos depois surgiu o
programa Cartão Alimentação.
Em 2003, o programa Bolsa Família foi criado com o principal objetivo de unir
os quatro programas de transferência de renda existentes. Uma grande vantagem
inicial do programa foi a utilização do Cadastro Único, que existia desde 2001
e já vinha sendo aperfeiçoado para possibilitar a integração das informações
das famílias atendidas pelos programas federais preexistentes. Para receber o
Bolsa Família, os beneficiários devem manter seus filhos matriculados nas
escolas, fazer acompanhamento nutricional e de pré-natal, além de manter um
acompanhamento de saúde e as vacinas em dia. Em suma, o programa possui
contrapartidas de ordem educacional e de saúde. Apesar de ser um programa
federal com processos decisórios centralizados, as atividades operacionais do
Bolsa Família são bem descentralizadas. A identificação de famílias elegíveis,
assim como o acompanhamento das contrapartidas são atribuições dos municípios.
Um dos objetivos dessa descentralização é a economia de recursos, ao utilizar
as estruturas municipais já existentes (Soares, 2011; Soares, Ribas e Soares,
2009). Um dos grandes desafios para os programas de transferência de renda é a
focalização. É necessário garantir, com alguma segurança, que os recursos
empregados sejam destinados para aqueles que realmente precisam do benefício. O
programa Bolsa Família conseguiu avanços significativos com relação à
focalização, corrigindo problemas de programas precedentes. Mais de 80% dos
recursos do programa são destinados aos 40% mais pobres (Castro e Modesto,
2010). Se comparado às situações em que não há critério para seleção de
beneficiários, o Bolsa Família apresenta uma focalização 37% maior. O sistema
de seleção das famílias a serem cadastradas é o principal responsável por
garantir este nível de focalização, uma vez que as informações de renda das
famílias, em geral, autodeclaradas, são de baixa qualidade (Barros et al.,
2008). Portanto, a mudança na política social brasileira produziu impactos
importantes; com a implantação do Bolsa Família, a desigualdade de renda
continuou a declinar e, até o final da década de 2000, a tendência de queda da
desigualdade se manteve.
O Bolsa Família, sendo um programa de transferência de renda com
condicionalidades, possui três dimensões: (1) alívio imediato da pobreza, por
meio da transferência direta de renda; (2) ruptura do ciclo intergeracional da
pobreza, por meio das condicionalidades, que reforça o exercício de direitos
sociais nas áreas de saúde e educação (necessidade de articulação com
acompanhamento familiar); e (3) programas complementares: esforço coordenado
dos governos federal, estaduais e municipais e da sociedade civil para
implementação de programas/políticas sociais voltadas para o desenvolvimento
das famílias beneficiárias. Portanto, no curto prazo, o Bolsa Família tem o
objetivo de reduzir o nível de pobreza das famílias elegíveis, com melhoria no
bem-estar destas, em termos de consumo, nutrição, escolaridade e saúde. No
longo prazo, o programa busca alavancar o investimento em capital humano das
famílias elegíveis (pobre crônico e vulnerável), tendo em vista a redução
intergeracional da vulnerabilidade e pobreza. São contrapartidas do núcleo
familiar nas áreas de educação e saúde: propiciar frequência escolar mínima de
85% das crianças entre 6 e 15 anos; receber informação sobre vacinação,
crescimento e desenvolvimento de crianças até 7 anos; e obter acompanhamento do
parto e puerpério.
Com base nos resultados da primeira rodada da pesquisa de campo da Avaliação de
Impacto do Programa Bolsa Família (AIBF) de 2005, Rios-Neto (2010) faz uma
primeira exploração dos diferenciais estimados entre os grupos de tratamento e
comparação, o que permite uma perspectiva preliminar dos potenciais impactos do
programa - o programa estaria segurando mais as crianças na escola. Como estas
crianças são precisamente as que não estariam frequentando aula de outra forma,
elas assistem à aula e não se evadem ou abandonam o curso, mas não são
promovidas de ano. O Bolsa Família age sobre a demanda por educação através da
condicionalidade, o qual gera um "efeito preço" (redução do preço da educação
com a restrição de tempo na escola) e um "efeito renda" (aumento de renda). Um
programa de demanda por educação será efetivo se as condições de oferta
(sistema escolar e qualidade das escolas) funcionarem bem. Se não houver uma
facilidade pela oferta, a maior demanda não causará resultados.
Nos últimos anos, surgiram novas ações que visam ao redesenho ou à articulação
do PBF com outras políticas para atender a demandas específicas, como o
Programa Brasil Carinhoso, que visa reduzir a pobreza extrema entre crianças de
0 a 15 anos. O Bolsa Família possui, ainda assim, alguns desafios: (1)
articular os serviços do lado da oferta (educação, saúde, por exemplo) com o
estímulo à demanda, talvez pela operação de um "super gestor social"; (2) levar
em conta as diferenças entre as famílias beneficiárias no que concerne à
estrutura de riscos decorrentes do arranjo familiar existente e o momento do
ciclo de vida familiar (Programa para Jovens e Programa para Famílias
Monoparentais, por exemplo); (3) tratar dos problemas sobre superação das
condições de pobreza no longo prazo, o que levanta a necessidade de separar a
pobreza crônica da pobreza transitória. No caso da pobreza crônica, não há
saída nos parâmetros intrageracionais. A saída deve ser buscada na perspectiva
intergeracional, sendo importante a condicionalidade de educação. A experiência
americana da transição do Aid to Families with Dependent Children (AFDC) para o
Temporary Assistance to Needy Families (TANF), na reforma dos anos 90, mostra
que uma ênfase exagerada na saída pode excluir beneficiários que não possuem
condições de sobreviver decentemente sem o programa; (4) resolver a contradição
entre o investimento nas crianças e jovens (pobreza intergeracional) e
objetivos explícitos de empoderamento da mulher, que estão ausentes no momento;
(5) pensar nos impactos sobre o empoderamento da mulher, os quais têm sido uma
consequência não intencional do programa, embora haja evidências positivas
(Rios-Neto, 2010).
Os programas de transferência condicionada de renda possuem um grave problema
para o empoderamento das mulheres, por não terem sido desenhados para este
objetivo. Esta limitação decorre de o programa assumir um modelo tradicional de
divisão sexual do trabalho, em que compete ao marido ser responsável pela
mercantilização (trabalho para o mercado) e à mulher ser responsável pelo
cuidado familiar. Dependendo do arranjo familiar (monoparental, por exemplo) e
da fase do ciclo de vida familiar, a mulher pode ficar superpressionada para
resolver tanto a mercantilização (trabalhar por renda), quanto o aumento do
cuidado familiar (necessidade de investimento nas crianças). A ênfase nas
portas de saída do programa pode gerar uma pressão sobre a mulher, que teria de
buscar emprego e participar de programas de treinamento, enquanto a demanda por
cuidado familiar continua alta. Sob o ponto de vista da oferta de serviços
públicos, a oferta de creche e estudo em tempo integral seriam formas de
"desfamilização". Estes serviços reduziriam a demanda por cuidado familiar e
facilitariam a reconciliação entre trabalho doméstico e trabalho para o mercado
na população pobre.
Segundo Aguiar (2012), ao transferir o benefício diretamente para as mulheres,
o Programa Bolsa Família promove o empoderamento destas. Porém, há fortes
indícios de contínua divisão sexual do trabalho: elas são ainda as responsáveis
por tarefas de cuidados com a casa, inclusive com transmissão deste tipo de
comportamento para as filhas. As mulheres preferem continuar recebendo o
benefício, em detrimento da elevação da quantidade de trabalho remunerado. Há,
ainda, alto percentual de decisões do domicílio sendo tomadas pelos maridos. É
preciso implementar ações governamentais que visem romper com o padrão de
divisão sexual do trabalho, inibir a violência familiar, promover a
escolarização, capacitar profissionalmente os beneficiários, disponibilizar
trabalho remunerado, prover serviços de saúde adequados, expandir políticas de
cuidados como creches e pré-escolas, elevar a jornada escolar para tempo
integral e integrar outros programas sociais. Tais iniciativas beneficiariam as
mulheres que recebem o Bolsa Família.
Capital Social e Educação
Na medida em que o Programa Bolsa Família se propõe a não apenas efetuar a
transferência imediata de renda, mas também interferir nas condições familiares
para melhorar as condições de vida entre as gerações, cabe discutir,
paralelamente, de que modo os indicadores de capital social da família podem
impactar em uma melhoria nas condições educacionais das crianças. A maneira
como se constituem as relações sociais dentro e fora do ambiente familiar terá
um importante papel na construção de capital humano dos indivíduos.
A discussão acerca da definição, construção e reprodução de capital social é
muito vasta e permite que se avance por diversos caminhos e dimensões. Pierre
Bourdieu (1980) define o capital social como um conjunto de recursos atuais ou
potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável mais ou menos
institucionalizada de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros
termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são
dotados de propriedades comuns, mas também são unidos por ligações permanentes
e úteis. Em definição de Neves et al. (2007), capital social é concebido como a
capacidade de ação de uma coletividade para maximizar a satisfação do interesse
coletivo, superando assim, dificuldades interpostas pela ação individual
egoísta.
A associação entre capital social e educação discutida por Coleman (1988),
aponta duas dimensões importantes: a primeira, dentro do ambiente familiar; a
segunda, nas relações extrafamiliares. O capital social na família permitiria à
criança acesso ao capital humano dos adultos que, por sua vez, é produzido a
partir de mudanças nos indivíduos que produzem habilidades, capacidades que
permitem a ação de novos modos. O capital humano dos pais só tem impacto na
formação de capital humano dos filhos se há participação daqueles na vida
destes. Essa influência depende diretamente da presença física dos pais no
ambiente familiar, convivendo com a criança. Da mesma forma, a inserção da
família nas redes sociais estaria associada positivamente à escolaridade. Na
mesma linha de Coleman, Putnam (2000) identifica o capital social como sendo
fundamental no desenvolvimento econômico. Assim, quanto maior o capital social
do indivíduo, maiores seriam as chances de atingirem melhores níveis
educacionais. Neves et al. (2007) demonstraram que tanto do capital social
familiar (representado principalmente pelo tempo em que a mãe está presente no
ambiente doméstico), quanto o capital social comunitário (baseado nas redes
extrafamiliares e medido por um indicador de participação em organizações
sociais) apresentam um impacto positivo no alcance educacional dos filhos.
ESTRATÉGIA DE PESQUISA
Hipóteses
Na construção dos modelos analíticos, as crianças são a unidade de análise dos
bancos de dados. Para explicação da evasão escolar das crianças, serão
analisados os efeitos de variáveis referentes ao domicílio, à mãe e à criança,
além da variável que indica se a criança reside em domicílio que recebeu
benefícios do Programa Bolsa Família. Testaremos a hipótese de que as chances
de evasão escolar estão negativamente associadas com maior capital social
familiar, medido pelo tempo de presença da mãe no ambiente doméstico. Além
disso, a hipótese da evasão escolar será menor para crianças com mães que
apresentam capital comunitário, mensurado pela participação das mães em
organizações sociais. Espera-se também que crianças de mães brancas tenham
menor abandono escolar em relação às outras crianças, devido às desvantagens
socioeconômicas das mães pretas e pardas. O maior nível de escolaridade das
mães é visto também como fator importante para a diminuição da evasão escolar
das crianças. Será ainda testado se crianças de mães mais velhas possuem menor
chance de evasão escolar, em razão das melhores condições financeiras
vivenciadas no domicílio. Há a expectativa de menor abandono escolar para
crianças que residem em domicílios com melhor infraestrutura, o que inclui
estrutura de rede de água, iluminação elétrica e serviço diário de coleta de
lixo.
Bancos de Dados
Para a análise proposta neste trabalho, foi utilizado o banco de dados
proveniente da Avaliação de Impacto do Programa Bolsa Família (AIBF) de 2005 e
2009 do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Estas
pesquisas permitem a comparação de resultados obtidos em 2005 (com a detecção
de impactos de curto prazo) e 2009 (com impactos de médio prazo). Estas
pesquisas são representativas para três áreas no país: Norte/Centro-Oeste;
Nordeste; e Sul/Sudeste. Em 2005, foram coletadas informações de: (1) famílias
beneficiárias do Programa Bolsa Família; (2) famílias que não eram
beneficiárias do PBF, mas que estavam incluídas no Cadastro Único; e (3)
famílias não incluídas no Cadastro Único, mas com perfil semelhante ao das
famílias cadastradas. A pesquisa entrevistou 15.426 famílias, em 269
municípios, provenientes de 23 Unidades da Federação e do Distrito Federal. Em
2009, a amostra pesquisada foi a mesma da primeira rodada. Porém, devido a
dificuldades de localização, algumas famílias não foram entrevistadas
novamente. No total, 74,12% das famílias entrevistadas em 2005 foram
entrevistadas em 2009 (n=11.433). Devido ao processo de licitação pública
realizado pelo MDS para a seleção daqueles que fariam a coleta dos dados em
2005 e 2009, instituições diferentes foram selecionadas para a realização da
pesquisa nos dois momentos. Este procedimento é o mais adequado e apropriado em
termos legais. Porém, sabemos que pode haver problemas de comparação dos dados
coletados nos diferentes anos, em razão da mudança de instituições responsáveis
pela elaboração do plano amostral, aplicação dos questionários e tabulação dos
dados.
Os bancos de dados de 2005 e 2009 possuem informações domiciliares, bem como
características sociais, educacionais, econômicas, de saúde e de antropometria
dos moradores. Foram ainda coletados dados sobre gastos individuais, gastos
coletivos, avaliação das condições de vida e benefícios recebidos. Mais
especificamente, os questionários das pesquisas AIBF de 2005 e 2009 possuem uma
série de seções com perguntas sobre o domicílio e sobre seus moradores: (1)
características do domicílio; (2) características dos moradores, migração e
antropometria; (3) educação (dados gerais; e dados sobre gastos com educação);
(4) saúde (dados gerais; dados para mulheres de 10 a 49 anos de idade; dados
sobre agentes de saúde; dados sobre gastos com saúde; e dados sobre saúde da
criança); (5) trabalho e trabalho infantil; (6) rendimentos (exclusive
rendimentos do trabalho e benefícios do governo); (7) gastos individuais
(gastos com transporte público e particular e com comunicações; e gastos com
alimentação fora de casa e outros gastos nos últimos 7 dias); (8) gastos
coletivos do domicílio; (9) alimentos e bebidas alcoólicas e não alcoólicas,
adquiridos para consumo no domicílio; (10) inventário de bens duráveis (itens
presentes no domicílio de propriedade ou alugados pelos moradores; animais e
implementos agrícolas; e propriedades em posse de jure - legalizada - ou de
facto - não legalizada); (11) avaliação das condições de vida; (12) benefícios
(Programa Bolsa Família; e informação de benefícios que recebe ou já recebeu
para cada morador do domicílio). No caso da AIBF de 2009, há ainda as seguintes
seções: (13) acesso a crédito, inclusão bancária e educação financeira; (14)
percepção sobre pobreza, bem-estar e confiança; e (15) choques e mecanismos de
longo prazo.
As análises são realizadas com a comparação de grupos que receberam um
tratamento (Programa Bolsa Família), em comparação com aqueles que não
receberam. O objetivo é de estimar o que teria acontecido se as pessoas que
receberam o tratamento não o tivessem recebido, assim como o que teria
acontecido com o grupo de controle se eles tivessem recebido o tratamento. Como
possuímos um desenho não experimental, em que o recebimento da política não foi
determinado por um sorteio aleatório, não podemos realmente examinar um
contrafactual verdadeiro. Segundo Racchumi-Romero (2008), a pesquisa AIBF
realizou a classificação dos indivíduos em grupos de comparação e tratamento:
(1) o grupo de tratamento (T) é composto pelos domicílios que declaram receber
na data da pesquisa o benefício do Programa Bolsa Família; (2) o grupo de
comparação 1 (C1) é composto pelos domicílios que receberam outros benefícios
sociais; e (3) o grupo de comparação 2 (C2) é composto pelos domicílios que
declararam nunca ter recebido nenhum tipo de benefício, independentemente de
serem cadastrados em algum programa público. Seguindo sugestão de CEDEPLAR
(2007), este estudo analisou o grupo de tratamento em relação ao grupo de
comparação 2, visando captar o efeito puro do Programa Bolsa Família. Isto é
possível porque há a comparação de domicílios semelhantes em relação à
probabilidade de participação no programa. A comparação do grupo de tratamento
com o grupo de comparação 1 teria de ser realizada com mais cuidado, já que
este grupo de controle é muito heterogêneo em relação às políticas de
transferência de renda e existência de condicionalidades.
Estes grupos de tratamento e controle foram, ainda, definidos por três limites
máximos da renda domiciliar per capita. O primeiro grupo inclui os domicílios
com até 50,00 reais de renda per capita em 2005 e até 70,00 reais em 2009.
Segundo Racchumi-Romero (2008), a análise deste grupo permite captar
informações sobre a população em piores condições socioeconômicas, já que
agrega aqueles com renda domiciliar não superior à metade do limite de
elegibilidade oficial ao Programa Bolsa Família em cada ano. O segundo grupo
inclui os domicílios com até 100,00 reais de renda per capita em 2005 e 140,00
reais em 2009, equivalente ao limite oficial de renda definido para
elegibilidade ao Programa Bolsa Família no momento da pesquisa AIBF em cada
ano. Por fim, o terceiro grupo inclui os domicílios com até 200,00 reais de
renda per capita em 2005 e 280,00 reais em 2009. Este grupo apresenta até o
dobro do limite de elegibilidade oficial ao Programa Bolsa Família, o qual é
utilizado para garantir representatividade amostral em todos os grupos. Estes
procedimentos permitem utilizar os dados disponíveis da pesquisa AIBF e
comparar grupos de indivíduos que receberam o Programa Bolsa Família com outros
grupos que não receberam esta política, mas que possuem características muito
semelhantes entre si.
No caso deste trabalho, os bancos de dados são constituídos somente pelas
crianças com idade entre 7 e 14 anos, com o objetivo de analisar o impacto do
Programa Bolsa Família sobre a evasão escolar destas crianças, seguindo
proposta metodológica de Racchumi-Romero (2008:141). Desta forma, garante-se
que as crianças estejam dentro do grupo-alvo da condicionalidade de educação. A
amostra final de 2005 é composta por um total de 9.232 crianças entre 7 e 14
anos, que residiam em domicílios cuja renda per capita era de no máximo
R$200,00. Deste total, 6.761 compõem o grupo de crianças cuja renda per capita
do domicílio é de até R$100,00. No limite de renda domiciliar per capita de
R$50,00, há 3.312 crianças na amostra de 2005. No caso dos dados de 2009, os
domicílios com renda per capita de até R$280,00 englobam 8.437 crianças, de até
R$140,00 possuem 6.739 crianças e de até R$70,00 agregam 4.428 crianças.
Passos Analíticos e Variáveis Consideradas
Primeiramente, foram analisadas as distribuições das variáveis independentes
por suas categorias (Tabelas_1 e 2). Em seguida, foi investigado o percentual
de crianças que abandonaram a escola por situação de recebimento do Programa
Bolsa Família. Esta variável mede efetivamente a evasão escolar das crianças em
2004-2005 e em 2008-2009, o que permite avaliar a condicionalidade de educação
do programa. Testes de proporções permitiram verificar se os percentuais desta
variável de abandono escolar apresentaram diferenças estatisticamente
significativas entre as crianças que receberam e não receberam o Programa Bolsa
Família (Tabela_3). Finalmente, foram estimados modelos logísticos para uma
análise multivariada do impacto das variáveis independentes sobre a evasão
escolar das crianças, considerando os dados de 2005 e 2009, assim como os três
diferentes limites de rendimento domiciliar per capita (Tabela_4). Sendo Y a
variável que indica se a criança abandonou a escola (Y=1) e Xij as j variáveis
independentes com informações de cada i criança dos bancos de dados (unidade de
análise), o modelo de regressão logística binária pode ser exposto da seguinte
maneira:

[/img/revistas/dados/v56n3/03t03.jpg]
Além da variável de recebimento do benefício do Programa Bolsa Família pelo
domicílio da criança, as análises de estatísticas descritivas e de modelos
logísticos utilizaram as seguintes variáveis do domicílio, da mãe e da criança.
As variáveis de características do domicílio foram: (1) número de membros do
domicílio; (2) presença de parentes idosos no domicílio; (3) presença de rede
de água tratada; (4) iluminação elétrica; (5) lixo coletado diariamente; (6)
situação censitária (rural ou urbano); e (7) região de residência (Região
Norte/Centro-Oeste, Região Nordeste ou Região Sul/Sudeste). As variáveis de
características da mãe foram as seguintes: (1) informação se mãe é chefe do
domicílio; (2) cor/raça da mãe (preta/parda ou branca); (3) anos de
escolaridade da mãe; (4) idade da mãe; (5) informação se a mãe residia há menos
de 10 anos no município, como informação de migração; (6) informação se a mãe
participava em organizações sociais, como forma de mensurar capital social
comunitário; (7) horas trabalhadas pela mãe por semana; e (8) horas de cuidados
com a casa por dia. As variáveis de horas trabalhadas pela mãe por semana e
horas de cuidados com a casa por dia foram utilizadas para mensurar o capital
social familiar.
A variável de participação da mãe em organizações sociais foi gerada com base
na questão: "Gostaria de perguntar ao(a) Sr(a). sobre grupos, organizações,
redes, associações a que o responsável pelo domicílio participa. Estes grupos
podem ser formalmente organizados ou apenas grupos de pessoas que se reúnem
regularmente pelo menos duas vezes pro ano". Havia um total de dez tipos de
organizações que a pessoa poderia participar: (1) cooperativa ou grupo de
produção; (2) associação de comerciantes ou de negócios; (3) sindicato; (4)
associação/comitê de bairro ou comunidade; (5) grupo religioso/espiritual; (6)
grupo ou movimento político; (7) grupo ou associação cultural; (8) grupo
educacional (associação de pais etc.); (9) ONG ou grupo cívico (Rotary, Cruz
Vermelha etc.), Conselhos ou Comitês Setoriais (Assistência Social, Saúde,
Segurança Alimentar e Nutricional etc.); e (10) outros grupos. Aquelas mães que
responderam "participação" em pelo menos um dos tipos de organizações foram
consideradas como participantes em organizações sociais e receberam o valor 1
(um) nesta variável. Aquelas mães que não participaram de nenhum tipo de
organização, obtiveram o valor 0 (zero) nesta variável.
As oito variáveis da mãe consideraram a informação da chefe do domicílio ou
cônjuge. Em muitos casos, foram observadas informações em branco destas
variáveis da mãe, o que causaria a exclusão de grande número de crianças dos
bancos de dados. Foi então adotada a mesma proposta metodológica de Neves et
al. (2007), em que variáveis de controle foram incluídas na regressão para
informar a existência de casos sem resposta para cada uma das variáveis de mãe
inseridas.
Por fim, foram incluídas as variáveis de características da criança: (1)
informação se a mãe da criança reside no domicílio; (2) idade da criança; (3)
informação se a criança trabalha; e (4) sexo da criança. A seguir, são
analisados os resultados de análises descritivas e de modelos estatísticos dos
bancos de dados da AIBF de 2005 e 2009.
RESULTADOS
Análise Descritiva
As Tabelas_1 e 2 apresentam a distribuição percentual das crianças
respectivamente em 2005 e 2009, nos três limites de rendimento domiciliar
per capita, por uma série de variáveis de interesse. No que se refere à região
de residência do maior limite de renda considerado em 2005 (R$200,00 domiciliar
per capita), nota-se que a maior parte da amostra se concentra na Região Sul/
Sudeste (38,70%), seguida da Região Nordeste (30,73%) e Região Norte/Centro-
Oeste (30,57%). Em 2009, a Região Nordeste apresenta o maior percentual
(34,53%) no maior limite de renda (R$280,00 domiciliar per capita), seguida da
Região Sul/Sudeste (34,14%) e da Região Norte/Centro-Oeste (31,34%). Observa-se
nestas tabelas uma inversão na situação censitária dos domicílios em que
residem as crianças. Em 2005, a grande maioria das crianças residia em
domicílios localizados na área urbana. Em 2009, os percentuais na área urbana
diminuem. Tal resultado pode ser fruto de uma melhor focalização do Programa
Bolsa Família em anos mais recentes, beneficiando domicílios mais pobres em
áreas rurais. Porém, esta grande mudança dos dados pode ser resultado de
diferentes metodologias de classificação das áreas em rurais e urbanas,
utilizadas pelos distintos institutos responsáveis pela elaboração do plano
amostral e aplicação dos questionários em 2005 e 2009.
É possível observar que o número médio de membros do domicílio sofre um ligeiro
decréscimo à medida que se aumenta o limite máximo de renda domiciliar per
capita, tanto para 2005 (Tabela_1), como para 2009 (Tabela_2). Isso está de
acordo com a tendência geral de menor fecundidade e consequente menor número de
habitantes em domicílios com melhores condições financeiras. Há ainda uma maior
tendência de presença de idosos nos domicílios com maior renda. Tal resultado
pode ser consequência do fato de que estes idosos podem receber o Benefício de
Prestação Continuada (BPC), o que aumentaria o rendimento per capita de tais
domicílios. Como era de se esperar, as variáveis indicadoras de características
de infraestrutura do domicílio (presença de rede de água, iluminação elétrica e
lixo coletado diariamente) apresentam aumentos em seus percentuais ao aumentar
o limite máximo da renda domiciliar per capita nos dois anos analisados.
Quanto às variáveis da mãe, as faixas de maior limite de renda apresentam menor
percentual de mãe chefe do domicílio. Este é um indicativo de que as mulheres
são as principais provedoras no domicílio, justamente nas piores situações
econômicas analisadas. Tal tendência nos dois anos analisados indica que há
diferenças de gênero importantes nos domicílios pobres brasileiros. A pobreza
extrema está concentrada em domicílios chefiados pelas mães, o que enfatiza a
necessidade de levar em consideração questões de gênero na elaboração e
implementação de políticas públicas. Um dado positivo é que há maiores
percentuais de domicílios chefiados por mulheres em 2009 do que em 2005, em
todos os limites de renda considerados.
Quanto à cor/raça da mãe, há um maior percentual de mães pretas ou pardas nos
domicílios com menores limites de renda. Em 2009, os percentuais de mães pretas
ou pardas são ainda maiores do que em 2005. Estes percentuais sugerem que os
domicílios brasileiros em piores condições econômicas são habitados por mães
não brancas, enfatizando a desigualdade racial no país.
Em relação à escolaridade, os menores percentuais de mães com pelo menos nove
anos de estudo são encontrados nos domicílios com mais baixos limites de
rendimento. Os percentuais neste grupo de escolaridade mais elevado cresceram
de 2005 a 2009, mas ainda se encontram inferiores a 15% em todos os grupos de
renda analisados. Estes resultados enfatizam o caráter de vulnerabilidade
enfrentado pelas famílias em tais limites de renda domiciliar per capita.
Quanto à idade das mães, observa-se que os percentuais de mães no grupo de
idade mais avançada (50 anos ou mais) são os únicos que aumentam com os limites
máximos de rendimento domiciliar. Este é um indicativo de que domicílios em
piores condições econômicas tendem a ter mães mais jovens. Porém, os dados
também sugerem uma diminuição, entre 2005 e 2009, nos percentuais de mães de
até 24 anos e entre 25 e 34 anos.
Em relação à migração, independentemente do limite de renda, a maioria das mães
residia há 10 anos ou mais no município. Tais percentuais de não migrantes
aumentaram entre 2005 e 2009. Quanto à participação da mãe em organizações
sociais, observam-se expressivos percentuais de participação (acima de 30%) em
2005 para todos os limites de renda analisados. Os resultados observados em
2009 sugerem uma diminuição abrupta deste tipo de participação, o que pode ter
sido resultado da forma como tais informações foram perguntadas neste segundo
momento de coleta de dados.
Em todos os limites de rendimento domiciliar per capita, a maioria das mães não
trabalha. Tais percentuais aumentam nos domicílios de menor rendimento. Em
2009, o percentual de não trabalho pelas mães é ainda maior do que em 2005.
Tais resultados vão de encontro à discussão realizada por Aguiar (2012) de que
ainda é preciso pensar políticas públicas que incentivem a entrada das mulheres
no mercado de trabalho, quebrando a atual divisão sexual do trabalho.
Quanto às horas gastas pela mãe em cuidados com a casa por dia, os maiores
percentuais são verificados nos domicílios de menor rendimento em 2005. Porém,
os percentuais de mães que gastam entre 4 e 6 horas ou mais de 6 horas em
cuidados com a casa por dia diminuíram em 2009. Este é um indicativo de que
talvez tenha aumentado a participação de outros membros do domicílio na
realização de tais atividades.
Em relação às variáveis da criança, os maiores percentuais de mães que residem
no domicílio são observados para os grupos de menor rendimento. Estes
percentuais diminuíram de 2005 a 2009, mas continuam próximos de 90%. Quanto à
idade média das crianças, não houve uma diferença significativa entre os
limites de renda e os anos analisados. Observa-se, ainda, que os maiores
percentuais de crianças que trabalham ocorrem em domicílios com menores
rendimentos per capita, enfatizando a situação de vulnerabilidade destas
pessoas. De todo modo, o percentual de trabalho infantil caiu entre 2005 e
2009. Quanto ao sexo da criança, os percentuais de homens em 2005 aumentaram
nos três grupos de renda analisados. Em 2009, há mais equilíbrio em relação ao
sexo das crianças.
O percentual de crianças que estão em domicílios beneficiários do Programa
Bolsa Família aumenta quanto menor é o limite máximo do rendimento domiciliar
per capita. Os percentuais de crianças com o Bolsa Família, no limite oficial
do programa, aumentou entre 2005 (64,71%, em domicílios de até R$100,00 per
capita) e 2009 (70,87%, em domicílios de até R$140,00 per capita). O mesmo
ocorreu para os domicílios de menor limite de renda. Por outro lado, o
percentual de crianças com o Bolsa Família em domicílios acima do limite
oficial de elegibilidade do programa diminuiu no período: de 59,75%, em 2005,
para 36,41%, em 2009. Tais resultados sugerem melhor focalização do programa em
anos mais recentes.
Para uma análise inicial da variável de evasão escolar, a Tabela_3 apresenta os
percentuais de crianças que abandonaram a escola por situação de recebimento do
Programa Bolsa Família em 2005 e 2009, nos diversos limites de renda domiciliar
per capita. Em todos os limites de renda, nos dois períodos analisados, o
percentual de evasão escolar é maior entre crianças que residem em domicílios
não beneficiários do Bolsa Família. Além disso, o percentual de evasão aumentou
consideravelmente entre 2005 e 2009. Mais uma vez, tais resultados devem ser
analisados com cuidado, já que os institutos que coletaram os dados foram
diferentes nestes dois anos. Quanto aos testes de diferença de proporções, em
2005 observa-se que nos domicílios de menor limite de renda o percentual de
crianças não beneficiárias que abandonaram a escola foi 1,28% maior do que
entre crianças que residiam em domicílios beneficiários do Bolsa Família, com
significância estatística. Tais diferenças foram menores nos grupos de renda
mais altos, mas houve persistência da significância estatística. Em 2009, os
testes de diferença de proporções apresentaram significância estatística
somente para o grupo de menor limite domiciliar de rendimento per capita.
Crianças que residiam em domicílios não beneficiários do Bolsa Família tiverem
1,27% maior taxa de abandono escolar do que crianças residentes em domicílios
beneficiários. As diferenças de evasão escolar indicam que pode haver relação
entre o recebimento do Bolsa Família e menor chance de abandono escolar. No
entanto, essas diferenças podem estar associadas a outras características que
não o programa de transferência de renda. Para verificar esta possibilidade,
serão estimados modelos de regressão logística, controlando o impacto de outras
variáveis independentes.
Análise dos Modelos de Regressão
Foram estimados modelos de regressão logística para cada limite da renda
domiciliar per capita em 2005 (R$50,00, R$100,00 e R$200,00) e 2009 (R$70,00,
R$140,00 e R$280,00). Os modelos foram construídos com a inserção de diferentes
grupos de variáveis independentes: (1) características do domicílio; (2)
características da mãe; (3) características da criança; e (4) recebimento de
benefício do Programa Bolsa Família. A Tabela_4 apresenta as razões de chance,
exponenciais dos erros padrão e significâncias estatísticas dos coeficientes
dos três modelos de regressão logística estimados, em cada ano, para explicar a
evasão escolar das crianças (variável dependente).
No primeiro modelo de 2005 (limite de renda domiciliar per capita de R$50,00),
em relação às variáveis de domicílio, apenas as variáveis de região de
residência foram estatisticamente significativos. As razões de chance indicam
que, controlando pelas demais variáveis independentes, uma criança residente na
Região Nordeste possui 204% (razão de chances menos uma unidade, multiplicada
por 100) mais chance de se evadir da escola quando comparada a uma criança da
Região Sul/Sudeste. Uma criança residente na Região Norte/Centro-Oeste possui
uma chance 154% maior de se evadir da escola, se comparada a uma criança da
Região Sul/Sudeste. Essas relações são invertidas em 2009 (limite de renda
domiciliar per capita de R$70,00). Ser residente no Nordeste diminui a chance
de evasão escolar da criança em 27% em relação a uma criança residente no Sul/
Sudeste. Essa diminuição chega a 54% no Norte/Centro-Oeste.
No que se refere às variáveis de características da mãe, verifica-se que uma
criança residente em um domicílio com renda per capita de até R$50,00 em 2005,
em que a mãe é a chefe, apresenta uma chance de evasão escolar 97% maior do que
crianças de mães que não são chefes do domicílio. Há a possibilidade de que
estas famílias chefiadas pela mãe sejam monoparentais, o que aumentaria sua
vulnerabilidade frente aos riscos sociais em relação às demais famílias. Para
as crianças de mães brancas, observou-se uma chance 125% maior de evasão
comparada às crianças de mães pretas ou pardas. Estas estimativas em 2009 não
foram estatisticamente significativas para o limite de renda domiciliar per
capita de até R$70,00.
Quanto à escolaridade da mãe, em 2005, apenas a categoria de 9 anos de
escolaridade ou mais apresentou resultado estatisticamente significativo,
comparada à categoria de mães com zero anos de escolaridade. Tudo mais mantido
constante, para uma criança que mora em um domicílio com mãe que estudou 9 anos
ou mais, a chance de evasão escolar é 75% menor do que uma criança que mora em
um domicílio com mãe que não completou nem um ano de escolaridade. Em 2009,
todas as estimativas de escolaridade são estatisticamente significativas. No
limite inferior de renda, em relação às crianças com mães com zero anos de
estudo, crianças com mães de 1 a 4 anos de escolaridade apresentam 69% menos
chance de evasão, crianças com mães de 5 a 8 anos de estudo apresentam 33%
menos chance de evasão e crianças com mães de 9 anos ou mais de estudo
apresentam 45% menos chance de evasão escolar.
A idade da mãe apresentou significância estatística apenas para a categoria de
50 anos ou mais em 2005. Verifica-se que a chance de abandonar a escola é 95%
menor para crianças com mães de 50 anos ou mais, comparadas às crianças com
mães de idade entre 25 e 34 anos. Esta variável não foi significativa para o
modelo com limite inferior de renda em 2009. Quanto à migração, crianças de
mães que residiam há menos de 10 anos no município apresentaram 67% mais chance
de evasão escolar em 2009. Estes resultados não foram significativos em 2005.
O tempo trabalhado pela mãe na semana apresentou significância estatística
apenas para a categoria de 1 a 20 horas de trabalho por semana. Neste caso,
observa-se uma chance 74% menor de evasão para crianças residentes em
domicílios com mãe que tem esta jornada de trabalho, comparada às crianças
residentes em domicílios em que a mãe não trabalha. Ou seja, em domicílios de
renda muito baixa e com mãe trabalhando por poucas horas, há maior permanência
das crianças na escola quando comparadas às crianças com mãe que não possui
atividade remunerada. Esta variável não obteve significância estatística em
2009.
Quanto às variáveis referentes às crianças, uma variável importante de medida
de capital social é a presença da mãe da criança no domicílio, que reduziu em
78% as chances de evasão escolar em 2005, controlando pelas demais variáveis
independentes. Em 2009, essa redução foi de 30%, com significância estatística.
O aumento de um ano de idade aumentou em 17% a chance de evasão escolar da
criança, com significância estatística em 2005.
Por fim, cabe analisar o impacto do Programa Bolsa Família na evasão escolar
para o limite de renda per capita domiciliar de R$50,00, em 2005, e de R$70,00,
em 2009. Controlando pelas demais variáveis independentes em 2005, o fato de o
domicílio em que a criança residia ser beneficiário do programa fez com que
esta criança tivesse 57% menos chance de abandonar a escola em relação a uma
criança que residia em um domicílio que não recebia o benefício. Há indícios de
que a condicionalidade de educação foi eficaz na redução da evasão escolar
entre 2004 e 2005. Porém, o resultado de 2009 não foi estatisticamente
significativo.
Os modelos da Tabela_4, com limite de renda domiciliar per capita de R$100,00,
em 2005, e de R$140,00, em 2009, apresentam os resultados dos grupos com o
critério de elegibilidade oficial do Programa Bolsa Família naqueles anos.
Quanto às variáveis de características do domicílio, em 2005 verifica-se que o
número de membros do domicílio passou a ser importante para explicar a evasão
escolar das crianças. O aumento de um membro no domicílio elevou a chance de
evasão da criança em 12%, controlando pelas demais variáveis independentes, com
significância estatística. Em 2009, esta estimativa continuou não sendo
estatisticamente significativa.
O fato de residir em área urbana em 2005 aumentou em 90% as chances de evasão
escolar da criança, em comparação às que residiam em área rural. Este resultado
não foi significativo para 2009. Quanto à região de residência, em 2005, uma
criança na Região Norte/Centro-Oeste teve uma chance de evasão escolar 89%
maior em relação às residentes no Sul/Sudeste. Para uma criança na Região
Nordeste, essa chance de evasão foi 125% maior do que no Sul/Sudeste em 2005.
Em 2009, essa situação se inverteu. Crianças residentes na Região Norte/
Nordeste apresentaram 29% menos chance de evasão escolar do que as residentes
no Sul/Sudeste. O resultado do Nordeste não foi significativo em 2009.
Com relação às variáveis da mãe, em 2005 uma criança que morava em um domicílio
chefiado pela mãe apresentou 45% mais chance de evasão escolar do que uma que
morava em um domicílio em que a mãe não era a chefe. Crianças residentes em
domicílios com mãe branca apresentaram 103% mais chance de se evadir da escola,
em relação a crianças com mães pretas ou pardas, em 2005. Os resultados de
chefia do domicílio e raça da mãe não foram significativos em 2009.
Quanto à escolaridade da mãe, em 2005, crianças de mães com 9 anos de estudo ou
mais apresentaram 56% menos chance de evasão escolar, em comparação às crianças
de mães com zero anos de estudo. Em 2009, em relação à categoria de referência,
crianças de mães com 1 a 4 anos de estudo apresentaram 52% menos chance de
evasão; aquelas de mães com 5 a 8 anos de estudo, 31% menos; e as de mães com 9
anos ou mais de estudo apresentaram 39% menos chance de evasão escolar.
Em 2005, crianças de mães com idade até 24 anos apresentaram 372% mais chance
de evasão escolar do que aquelas de mães entre 25 e 34 anos de idade. Estas
estimativas não foram significativas em 2009. Esses resultados anteriores em
conjunto indicam que em domicílios chefiados por mães jovens e com baixa
escolaridade, as crianças apresentam altas chances de evasão escolar. Quanto à
migração, crianças de mães que residiam há menos de 10 anos no município
apresentaram 49% mais chance de evasão escolar em 2009. Estes resultados não
foram significativos em 2005.
Duas variáveis importantes apontam favoravelmente para um impacto do capital
social na redução da evasão escolar. A primeira delas é a participação da mãe
em organizações sociais. Verifica-se que o associativismo da mãe reduziu a
evasão escolar da criança em 36% em 2005. A segunda variável se refere ao
número de horas trabalhadas pela mãe durante a semana. Crianças de mães que
trabalhavam 40 horas por semana ou mais apresentaram 78% mais chance de
abandonar a escola em 2005, comparadas às crianças de mães que não trabalhavam.
Quanto aos resultados de 2009, eles foram estatisticamente significativos
somente para crianças de mães que trabalhavam de 21 a 39 horas por semana, as
quais apresentaram 36% menos chance de evasão escolar do que crianças de mães
que não trabalhavam.
Quanto às características das crianças, outra tendência que se manteve neste
limite de renda e que também está associada ao capital social é a residência da
mãe no domicílio. Controlando pelas demais variáveis independentes, as crianças
apresentaram 54% menos chance de evasão escolar se a mãe residia no domicílio
em 2005 e 30% menos chance de evasão em 2009. Para cada ano a mais de idade, a
criança apresentou 23% mais chance de se evadir da escola em 2005. A variável
de idade não foi significativa em 2009, o que é positivo em termos de
manutenção das crianças na escola.
No limite de renda domiciliar per capita de R$100,00 em 2005, a criança que
residia em domicílio beneficiário do Programa Bolsa Família apresentou 34%
menos chance de se evadir da escola, em comparação a uma criança que residia em
domicílio não beneficiário do programa. Nesta análise que envolve os domicílios
no limite oficial de elegibilidade ao programa, a condicionalidade de educação
funcionou em 2005, já que as crianças apresentaram menores chances de abandonar
a escola quando estavam em domicílios atendidos pelo Bolsa Família. Porém, esse
resultado não foi significativo em 2009.
Finalmente, são analisados os resultados dos modelos da Tabela_4 para os
limites de renda domiciliar per capita de R$200,00, em 2005, e de R$280,00, em
2009. Estes limites de renda foram estipulados para garantir representatividade
amostral em todos os grupos. Com relação às variáveis do domicílio, o número de
membros do domicílio e residência em área urbana continuaram apresentando
impacto positivo e significativo na evasão escolar. Mais especificamente, o
aumento de uma pessoa no domicílio também aumentou em 11% as chances de evasão
escolar das crianças em 2005. Crianças com residência em área urbana tiveram
130% mais chance de evasão escolar, em comparação às crianças residentes em
área rural, em 2005. Estas estimativas não foram significativas em 2009.
As crianças residentes em domicílios situados nas Regiões Norte/Centro-Oeste e
Nordeste apresentaram, respectivamente, 63% e 106% mais chances de abandonarem
a escola do que as residentes nas Regiões Sul/Sudeste em 2005. No caso de 2009,
crianças residentes no Norte/Centro-Oeste apresentaram 17% menos chance de
evasão escolar do que as residentes no Sul/Sudeste.
Diferentemente dos modelos apresentados anteriormente, o modelo para o limite
de renda domiciliar per capita de R$200,00, em 2005, apresentou significância
estatística para a presença de rede de água e lixo coletado diariamente.
Possuir rede de água tratada diminuiu a chance de evasão escolar da criança em
30%. Crianças residentes em domicílios com lixo coletado diariamente
apresentaram 38% menos chance de evasão escolar. Isso indica que a presença do
poder público, na forma de serviços prestados, melhorou a qualidade de vida e
diminuiu a vulnerabilidade de crianças neste limite de renda em 2005. Tais
resultados não foram significativos em 2009, no limite de renda per capita
domiciliar de R$280,00.
Assim como nos modelos dos limites inferiores de renda, as crianças que
residiam em domicílios chefiados pela mãe apresentaram maiores chances de
evasão escolar. Em média, crianças nestas circunstâncias tiveram 51% mais
chance de abandonarem a escola, se comparadas às crianças que residiam em
domicílios não chefiados pela mãe, em 2005. Além disto, crianças residentes em
domicílios com mães brancas apresentaram 47% mais chance de evasão escolar, se
comparadas às crianças com mães pretas ou pardas, em 2005. Mais uma vez, estas
estimativas não foram significativas em 2009.
Quanto à escolaridade das mães, crianças de mães que estudaram pelo menos nove
anos apresentam 52% menos chance de abandonarem a escola em 2005, em comparação
às crianças de mães com zero anos de estudo. Em 2009, em relação à categoria de
referência, crianças de mães com 1 a 4 anos de estudo apresentaram 54% menos
chance de evasão; as de mães com 5 a 8 anos de estudo tiveram 35% menos chance
de evasão; e crianças de mães com 9 anos ou mais de estudo apresentaram 37%
menos chance de evasão escolar.
Com relação à idade da mãe, crianças residentes em domicílios com mãe jovem
(até 24 anos) apresentaram 349% mais chances de evasão escolar, em relação às
crianças de mães com idade entre 25 e 34 anos, em 2005. Este resultado não
obteve significância estatística em 2009. Em relação à migração, crianças de
mães que residiam há menos de 10 anos no município apresentaram 84% mais chance
de evasão escolar em 2005 e 30% mais chance em 2009. Percebe-se que crianças
filhas de migrantes apresentam maior possibilidade de não continuarem seus
estudos.
Quanto à informação sobre capital social comunitário, as crianças de mães que
participavam de organizações sociais apresentaram 43% menos chance de evasão
escolar, comparadas às crianças de mães que não participavam deste tipo de
organização, em 2005. As estimativas de 2009 não foram estatisticamente
significativas.
Crianças que residiam em domicílios com mães que trabalhavam pelo menos 40
horas por semana apresentaram 52% mais chance de evasão escolar em 2005, em
relação às crianças de domicílios com mães que não trabalham. Este impacto pode
estar associado à ausência da mãe do ambiente familiar, o que provocaria uma
diminuição do capital social da família, tendendo a interferir negativamente
nas variáveis de educação das crianças. Porém, o contrário é observado em 2009.
Crianças com mães que trabalhavam de 21 a 39 horas por semana tiveram 33% menos
chance de evasão, e crianças com mães que trabalhavam pelo menos 40 horas por
semana apresentaram 18% menos chance de evasão escolar em relação às crianças
com mães que não trabalhavam, em 2009.
Em relação às variáveis das crianças, a presença da mãe no domicílio diminuiu a
chance de evasão escolar das crianças em 39%, em 2005, e 25%, em 2009. O
aumento de um ano de idade da criança elevou em 19% as chances de evasão
escolar em 2005.
Dentre os domicílios com renda per capita de até R$200,00, em 2005, crianças
que residiam em domicílios beneficiários do Programa Bolsa Família apresentaram
33% menos chance de abandonarem a escola em relação às crianças que residiam em
domicílios não beneficiários. Este resultado é um indicativo de que a
condicionalidade de educação do Programa Bolsa Família está funcionando, na
medida em que diminui as chances de evasão escolar das crianças. Porém, tal
resultado não se confirmou com os dados de 2009 para o limite de renda
domiciliar per capita de até R$280,00.
De uma forma geral, os graus de ajustes dos modelos, medidos pelos "Pseudo-R2"
foram muito inferiores nos modelos de 2009 em comparação com os modelos de
2005. Tal diferença pode ser resultado da mudança dos institutos de pesquisa
que elaboraram o plano amostral e aplicação dos questionários em 2005 e 2009.
Este fato acaba diminuindo a possibilidade de comparação entre estes bancos de
dados. Os resultados de 2009 não foram estatisticamente significativos para o
efeito do Programa Bolsa Família, apesar de terem sempre apontado para a
diminuição da evasão escolar (razões de chance abaixo de uma unidade). Além
disso, os modelos de 2009 apresentaram resultados interessantes no que concerne
à escolaridade da mãe, residência há menos de 10 anos no município, horas
trabalhadas pela mãe e residência da mãe no domicílio da criança.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises realizadas permitiram verificar que, para os três limites de renda
domiciliar per capita em 2005, o recebimento do benefício do Programa Bolsa
Família se mostrou responsável por uma redução nas chances de evasão escolar.
Para o limite de renda domiciliar per capita de até R$50,00, o programa foi
responsável por uma redução de 57% na chance de evasão escolar das crianças.
Para o limite de renda domiciliar per capita de até R$100,00, que corresponde
ao limite oficial para elegibilidade do programa em 2005, a redução foi de 34%
na chance de evasão escolar das crianças. Por fim, na faixa de renda domiciliar
per capita de até R$200,00, crianças residentes em domicílios beneficiários do
Bolsa Família apresentaram 33% menos de chance de abandonar a escola. Pode-se
dizer que as condicionalidades de educação funcionaram em 2005, na medida em
que foram estimados efeitos significativos na redução da evasão escolar das
crianças pertencentes às famílias atendidas. Os dados de 2009 não foram
estatisticamente significativos, apesar de terem sempre apontado para a
diminuição da evasão escolar.
Com relação às variáveis de capital humano familiar, foi possível observar que
a ausência maior da mãe no domicílio, representada por uma jornada acima de 40
horas semanais, esteve associada positivamente com a evasão escolar nos limites
de renda domiciliar per capita de R$50,00 e R$100,00 em 2005. Nesse mesmo
sentido, a residência da mãe no mesmo domicílio da criança apresentou um
impacto negativo na evasão escolar para todos os grupos de renda em 2005 e
2009. Estes resultados confirmam a hipótese da influência desse tipo de capital
na educação, já que a presença da mãe no ambiente familiar está associada à
menor chance de evasão escolar. O capital comunitário, aqui representado pela
participação da mãe em organizações sociais, também se mostrou associado a uma
diminuição da evasão escolar, em especial nos dois maiores limites de renda
domiciliar per capita em 2005.
Os resultados ora apresentados destacam a importância do controle de frequência
escolar dos beneficiários do Programa Bolsa Família, a fim de diminuir a evasão
escolar e aumentar os níveis de escolaridade das crianças atendidas. No
entanto, um efetivo aumento de capital humano e a almejada quebra do ciclo
intergeracional de pobreza não serão alcançados apenas mantendo um maior número
de crianças na escola. É de fundamental importância que estas políticas já
existentes sejam acompanhadas por um investimento na qualidade da educação
pública, principalmente nos níveis básicos de ensino.