A Recepção Controversa de Max Weber no Brasil (1940-1980)
A acolhida de Max Weber na sociologia brasileira não se fez sem problemas,
recusas e disputas. Ao longo de 40 anos (1940-1980)1, a escolha e apropriação
de suas ideias ocorreram em função dos interesses de pesquisa dos especialistas
brasileiros e nos limites de uma discussão metodológica, na qual os
pressupostos da construção ideal típica weberiana foram recusados em favor de
proposições classificatórias de caráter generalizante. Naquele período,
destaca-se ainda a ausência de referências às proposições weberianas sobre o
sentido da ciência nos acalorados debates que definiam o papel do sociólogo
como cientista e homem de ação. Sem a pretensão de percorrer detalhadamente a
recepção da obra de Max Weber nas primeiras décadas da institucionalização da
sociologia, o presente texto aponta questões concernentes à contribuição de Max
Weber à sociologia brasileira.
Alguns estudiosos (Souza, 1999:17-54; Vianna, 1999:173-193; Schwartzman, 2003:
207-213) escolheram obras paradigmáticas do pensamento social brasileiro para
analisar a recepção de Max Weber, perscrutando livros como Raízes do Brasil
(1936), de Sérgio Buarque de Hollanda, Os Donos do Poder (1958), de Raymundo
Faoro, ou Bandeirantes e Pioneiros (1954), de Clodomir Viana Moog. O
patrimonialismo, na acepção weberiana (Weber, 1985:580-624), e sua relação com
o desenvolvimento da sociedade brasileira é questão destacada nesses estudos,
que ressaltam o quanto a apropriação de Weber pode ser útil para o entendimento
do "atraso" do país.
Sigo aqui outro caminho: focalizo alguns problemas da recepção de Weber no
processo de reconhecimento da sociologia enquanto disciplina acadêmica no
Brasil, momento em que se define sua identidade cognitiva, social e histórica2.
Este procedimento, inicial e provisório, permite, entretanto, mostrar que
proposições centrais da sociologia weberiana, a exemplo da formulação dos tipos
ideais e do sentido da ciência, foram recebidas com muita parcimônia e
reelaboradas à medida que o mestre alemão se distinguia de outros sociólogos,
quer fossem alemães, franceses ou norte-americanos. Para tanto, 1) recupero os
temas dos primeiros artigos sobre Max Weber publicados na revista So ciologia,
nos anos de 1939 a 1955, quando foi editada pelo alemão Emílio Willems; 2)
evoco as disputas sobre o papel do sociólogo no processo de mudanças sociais,
nas quais sobressaem as proposições de Hans Freyer e Karl Mannheim em
detrimento das posições de Max Weber; e, finalmente, 3) retomo aspectos de uma
controvérsia sobre a recepção "equivocada" da sociologia weberiana, liderada
por Maria Sylvia de Carvalho Franco, que envolve escritos de Florestan
Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, publicados nas décadas de 1960-1970.
Nunca é demais lembrar a singularidade e complexidade da "trajetória" da obra
de Max Weber porque estas, em larga medida, definiram os percursos de sua
recepção. Por ocasião de sua morte, em 1920, o sociólogo alemão Othmar Spann
(1878-1950) referiu-se à herança deixada por Weber, afirmando que o autor era
"una persona demoníaca, inquieta, ... capaz de afectar los otros por la fuerza
de su personalidad pero a quien se le había negado dejar a la posteridad una
obra que pudiera perdurar... Su tiempo ha pasado, y la suya es una ciencia
muerta" (apud Roth, 1995:11). Guenther Roth relembra esse prognóstico - nada
auspicioso - na introdução à biografia de Max Weber, escrita por sua esposa
Marianne, e comenta com ironia que "pocos juicios han sido más equivocados". Na
realidade, Weber foi um dos raros estudiosos a ser lido amplamente depois de
sua morte, ainda que em vida não tenha deixado indícios claros de que suas
ideias circulariam urbis et orbis e seriam apropriadas, recep cionadas,
operacionalizadas, reelaboradas e rechaçadas, provocando tanto o conhecimento
como o debate sobre a vida política, social, econômica e cultural do
capitalismo moderno.
Ao chamar a atenção para a história singular da recepção da obra de Max Weber,
Roth (1995:11-55) adverte, em "Marianne Weber y su Círculo", que embora se
acredite que a qualidade intrínseca das obras dos grandes mestres seja o motivo
de sua permanência ao longo do tempo, tal permanência depende das orientações e
interesses de grupos e indivíduos. A advertência é válida especialmente para a
obra de Weber, cuja recepção e leitura estão relacionadas a alguns fatos dignos
de nota: primeiro, a envergadura do projeto de publicação da obra de Weber por
Marianne Weber (1870-1954) entre 1920 e 1924. A iniciativa ousada foi decisiva
para a visibilidade e o reconhecimento do pensamento weberiano na década de
1920 (Waizbort, 2012:9-197). Ao lado do empreendimento intelectual e editorial,
Marianne escreveu uma biografia do marido, publicada em 1926, que até hoje se
reputa como uma fonte importante, em que pese sua veneração pelo biografado e
informações imprecisas. O segundo fato foi, sem dúvida, a tradução para o
inglês de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo por Talcott Parsons,
publicada em 1930 por George Allen & Unwin3 ao apresentar o livro, como
tradutor, Parsons relembra a publicação de A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo no Archiv fur Sozialwissenschaft (1904-1905) e logo, com as
modificações feitas pelo autor, na série inacabada Gesammelte Aufsåtze zur
Religionssoziologie (1920). O excesso de notas de rodapé era certamente um
empecilho para uma leitura prazerosa, diz Parsons, mas não podiam ser
reincorporadas no texto ou omitidas, uma vez que mostravam como o problema foi
crescendo na "mente" de Weber e seria lamentável destruí-las em favor da
"perfeição artística" (Parsons, 1999:9).
O terceiro acontecimento relevante foi a tradução, por José Medina Echavarría
et al. de Economia y Sociedad para o espanhol, e a publicação do livro em 1944,
pela editora Fondo de Cultura Económica, no México. Não se conhecem ainda, no
seu conjunto, os efeitos desse fato, cuja intervenção extraordinária no
horizonte das ciências sociais da América Latina, ofereceu alternativas
teóricas e metodológicas. É preciso levar em conta que somente em 1962 surgiu a
edição italiana de Economia e Sociedade e, em 1968, a edição em língua inglesa.
Em 1991 foi publicado no Brasil o primeiro volume do livro e, em 1999, o
segundo, ambos com revisão técnica de Gabriel Cohn. Vale mencionar aqui,
também, em quarto lugar, a compilação feita por Hans Gerth e Charles Wright
Mills, From Max Weber, editado, em 1946, pela Oxford University Press.
Traduzido para o português, no Brasil, em 1970, com revisão técnica de Fernando
Henrique Cardoso, foi um dos livros de maior penetração entre os brasileiros
interessados, alunos, pesquisadores e professores, tendo alcançado mais de
vinte edições. O quinto acontecimento editorial de relevância é, sem dúvida, o
atual projeto de reedição da obra do sociólogo, a Max Weber Gesamtausgabe -
MWGA [Max Weber - Obra Completa], que vem sendo meticulosamente realizado por
especialistas de alto nível, desde a metade dos anos de 1980 e, com certeza,
mudará tanto os hábitos de leitura como os rumos da interpretação do pensamento
do autor (Pierucci, 2008:41-51; Villas Bôas, 2011:11-19; Hanke, 2012:99-118).
Acrescente-se a esses fatos o exílio da sociologia alemã no período nazista, de
1933 a 1945 (König, 1981a). Não há sociólogo interessado na história de seu
campo de saber, entre eles Theodor W. Adorno, René König e Wolf Lepenies, que
não discuta as consequências teóricas, temáticas e institucionais da ruptura
ocasionada pelo regime político nacional-socialista. A dispersão de 3.120
professores universitários, entre eles 234 estudiosos dos campos da economia e
ciências sociais ( König, 1981b:118), por diversas universidades e instituições
estran geiras, e seu refúgio, principalmente nos Estados Unidos a partir de
1933, é uma dimensão histórica que não pode ser desconsiderada em um estudo
sobre a recepção da sociologia de tradição alemã. Mas esse deslocamento forçado
de pessoas e ideias tem sido pouco destacado. O exílio é, geralmente, associado
ao castigo, ao afastamento, à impossibilidade e à punição. A condição de exílio
intelectual, entretanto, pode gerar uma inquietação produtiva (Said, 2005:60) e
delinear - como no caso da sociologia alemã - uma nova geografia interpretativa
da circulação e recepção das ideias, diferente daquela prevista nos paradigmas
das expectativas mais rotineiras. Inúmeros exemplos poderiam ilustrar a
produção e divulgação da sociologia alemã, como a publicação de The
Authoritarian Personality, em 1950, nos Estados Unidos, por Adorno, Brunswik,
Levinson e Sanford. Mais importante, entretanto, para a recepção da sociologia
alemã no Brasil foi o investimento em traduções e publicações de autores como
Werner Sombart, Georg Simmel, Hans Freyer, Alfred Weber, Ferdinand Tönnies e
Alfred Vierkandt, entre outros, na Argentina na década de 19304 (Blanco, 2004).
Seria indispensável um mapeamento refinado para compreender não apenas como
"chegaram" as ideias de Weber à América, mas quais os valores que conduziram os
processos de recepção, incluindo o ensino, as obras escolhidas, a literatura
secundária interpretativa utilizada em sala de aula, além da reconstrução das
ideias weberianas nas pesquisas empíricas e polêmicas geradas na disputa pelas
interpretações falsas e corretas. A obra de Weber, à maneira de um Wunderblock,
exige empenho na reconstrução das camadas de seu passado, que vão sempre
levando a novas camadas, pistas e interpretações.
Ao lado da singularidade da trajetória da obra de Max Weber, a tarefa de
esboçar problemas da recepção de suas ideias no Brasil exige que se relembre a
questão própria que distingue a sociologia brasileira em um contexto histórico
nacional. A julgar pelo numeroso acervo de livros, artigos e textos desta área
de conhecimento, no Brasil, a sociologia, durante largo período, ocupou-se
sistematicamente do conhecimento das peculiaridades da sociedade nacional com o
objetivo precípuo de verificar as chances efetivas de desenvolvimento do país.
A camada intelectual brasileira, desde finais do século XIX, discutia o
"descompasso" de uma nação surgida de uma colônia portuguesa com países
"adiantados" e "civilizados", fosse pela existência de três raças - branca,
negra e indígena - , pela indiferenciação entre a esfera do público e do
privado, fosse, ainda, pelo abandono das populações interioranas e atrasadas
dos sertões brasileiros em contraste com a população modernizada e republicana
do litoral. Aquele "descompasso", tal como uma marca de origem da camada
intelectual, persistiu ao longo do tempo, sendo ela o leit-motiv da produção de
conhecimento e da produção cultural brasileira. Não foi Mário de Andrade, o
arauto do Modernismo da década de 1920, que apregoava o abrasileiramento dos
brasileiros para que a nação acertasse seus relógios e entrasse no concerto das
nações modernas? A virada do Modernismo dos anos de 1920 destacou-se no
conjunto dos diagnósticos e dos ideais programáticos ao proclamar a aceitação
da parte brasileira no processo de equiparar o Brasil ao concerto das nações.
Mas a meta de modernizar o país permaneceu.
Ao institucionalizar-se, a sociologia não inventou novas questões nem
hipóteses, porém as reelaborou, apostando na dualidade da sociedade brasileira,
dividida em tradicional e moderna. Adotaram-se novos procedimentos teóricos e
metodológicos, intitulando-se de científica a nova disciplina que surgia junto
a um conjunto de outras, no período de criação da comunidade científica.
Mudaram-se os métodos, a construção do objeto, as possibilidades de explicação
e compreensão, mas as questões originais foram mantidas. Interessados na
investigação de problemas históricos e concretos, os sociólogos se voltaram
para a pesquisa das mudanças que transformassem o Brasil em uma sociedade
moderna, democrática, dotada de uma ordem racional, fundada na indústria e na
ciência. Essas particularidades nacionais da fundação e desenvolvimento da
sociologia propiciaram condições favoráveis tanto para o reconhecimento,
legitimidade e continuidade institucional da disciplina como para um debate
acirrado sobre os destinos da nação5.
A compreensão clara da questão própria que identifica a sociologia no Brasil é
condição do entendimento da lógica da apropriação do pensamento de Max Weber e
dos motivos da seleção e apropriação de conceitos que elaborou, assim como o
abandono de outros conceitos, ou mesmo a recusa de pressupostos,em 1939,
primeira revista especializada na disciplina; a publicação do Dicionário de
Sociologia e Etnologia, organizado por Emílio Willems em parceria com Herbert
Baldus (1939); do livro Leituras Sociológicas, de autoria de Willems e Romano
Barreto (1940); e, ainda, o Dicionário de Sociologia (1950), com verbetes de
Emílio Willems. Os empreendimentos voltados para a divulgação do conhecimento
em que pesem determinados fatores, como a escassez de publicações, o
desconhecimento da língua alemã e as leituras nas traduções em espanhol ou
inglês. A sociologia alemã tem um papel importante na constituição da
disciplina, a julgar pelas investigações que recentemente vieram a público
(Sell, 2007; Waizbort, 2007; Villas Bôas, 2006a; Souza, 1999), mas as pesquisas
sobre a recepção ainda não exploraram o quadro de interesses e apostas dos
sociólogos brasileiros como condição indispensável para deslindar a seleção, a
leitura e apropriação da obra de Weber.
PRIMEIRAS NOTÍCIAS
Ao final da década de 1940 e início dos anos de 1950, a recepção do pensamento
de Max Weber relaciona-se com iniciativas editoriais e acadêmicas, destacando-
se a criação de Sociologia, por Romano Barreto e Emílio Willems,
sociológico resultavam de esforços para formar professores e pesquisadores nos
cursos de ciências sociais das faculdades de filosofia criadas no país na
década de 1930. Estas faculdades abrigavam as mais diversas áreas do
conhecimento e constituíam um dos mais importantes setores das recém-criadas
universidades do país, a Universidade de São Paulo (USP), em 1934, e a
Universidade do Brasil, em 19396. A Sociologia associava-se, assim, ao
surgimento do mercado editorial ( Hallewell, 1985) e à criação da universidade
em um período de mocrático de governo. A disciplina contava, ainda, com
leitores interessados entre funcionários de órgãos públicos do Estado, alguns
deles sociólogos que pesquisavam, produziam conhecimento e publicavam livros
sob as expensas do Estado7.
Parte significativa da produção sociológica daquele período voltava-se para o
conhecimento do mundo rural brasileiro (Villas Bôas, 2007). O exame do meio
rural do país levava os sociólogos a focalizar relações de patriarcas, senhores
de engenho, coronéis, jagunços, par ceiros, arrendatários e trabalhadores
rurais. A convivência de novas e velhas relações de trabalho, as condições da
propriedade rural e a influência do meio rural na vida política do país eram
temas que chamavam a atenção dos pesquisadores na época. O livro Lutas de
Família no Brasil (1949), de Luiz de Aguiar Costa Pinto, e a tese de doutorado
defendida por Antonio Cândido de Mello e Souza em 1954, na Universidade de São
Paulo, intitulada Os Parceiros do Rio Bonito, são exemplos do interesse em
perscrutar o mundo rural brasileiro.
A presença de Max Weber é tímida nos anos em foco. Georg Simmel, Werner
Sombart, Alfred Vierkandt, Richard Thurnwald, Karl Dunkmann, integrantes do
círculo sociológico de Berlim, mas também Ferdinand Tönnies, da Universidade de
Kiel, e Leopold von Wiese, da Universidade de Colônia, são referidos com mais
frequência em trabalhos e pesquisas. São eles representativos de uma vertente
cuja concepção de sociedade tem como fundamento as relações, interações e ações
de indivíduos e grupos. A ideia de grupo social impunha-se, naquele momento,
como um instrumento sociológico importante na definição da identidade da
disciplina. Mostrava-se mais adequada para a realização das pesquisas empíricas
e históricas do que o conceito genérico de humanidade contido no pensamento de
Comte e Spencer. Referindo-se a Alfred Vierkandt, Evaristo de Moraes Filho
afirma que "É assim o grupo a forma básica da associação humana, um agregado
social, um ente coletivo por excelência, que deve ser compreendido como alguma
coisa sui generis. Trata-se de uma totalidade irredutível, com características
próprias" (Moraes Filho, 1978:22-23).
Sociólogos alemães que ocuparam um lugar de destaque nas primeiras décadas do
século XX nas universidades de Berlim, Kiel e Colônia chegavam ao Brasil
através da revista Sociologia. Fundada por Romano Barreto, professor de
sociologia do Colégio Universitário da USP, e Emílio Willems, professor
assistente de Sociologia Educacional na Faculdade de Filosofia Ciências e
Letras da USP, Sociologia desempenhou um papel relevante na divulgação da
sociologia alemã no país graças a Emílio Willems. Fugindo dos conflitos
políticos em Berlim, Willems chegou ao Brasil com 26 anos de idade, pouco
depois de obter o título de doutor em filosofia pela Universidade de Berlim, em
1931, com a dissertação Kollektivmeinung und Presse in Zusammenhången. Ein
Beitrag zur speziellen Soziologie, sob a orientação de Alfred Vierkandt
( Villas Bôas, 2006a:81-103). Willems havia estudado Ciências Econômicas na
Universidade de Colônia, onde conhecera os ensinamentos de Leopold von Wiese e
participara dos debates sobre a Sociologia na Universidade de Berlim. A
formação nas universidades de Colônia e Berlim confere a Willems uma posição
sociológica única, contrária ao desenvolvimento histórico linear e teleológico,
que ele assume tanto na revista que edita, como na elaboração de verbetes para
os dicionários que organizou e, ainda, em suas pesquisas sobre a aculturação
dos imigrantes alemães no Brasil e sobre pequenas comunidades brasileiras.
Uma análise da revista Sociologia, sob a direção de Emílio Willems, nos anos de
1939 a 1952, demonstra que Weber foi menos citado que Mannheim, Simmel e Marx.
Há regularidade nas referências a Weber, ainda que não façam menção à fonte
utilizada até 1944, ano da primeira edição de Economia y Sociedad em espanhol.
A concepção da sociologia econômica de Max Weber e a conceituação das classes
sociais são os temas de escolha preferencial. O principal artigo sobre o tema,
"Introdução à Sociologia Econômica" (1942), de autoria de Roger Bastide8,
problematiza a indefinição dos sociólogos que retomam repetidamente o debate
das teorias de Weber e Marx sobre o lugar das atividades econômicas na
sociedade (Luna, 1998:32-35). Além desse, há dois artigos sobre classe social,
um de Luiz de Aguiar Costa Pinto, "Sobre as Classes Sociais: Notas de Estudo"
(1946) e outro, de Florestan Fernandes, "A Análise Sociológica das Classes
Sociais" (1948). Costa Pinto apresenta e debate definições de autores diversos,
detendo-se na definição de Max Weber; dois anos depois Florestan retrata Weber
como um dos autores que mais contribuíram para a teoria sobre a diferenciação
em classes sociais no Ocidente. Chama a atenção para a ideia weberiana de
situação e posição de classe e, ao final, problematiza a proposta weberiana do
tipo ideal como empecilho à generalização indispensável à ciência, tema que vai
ocupá-lo ao longo da carreira, como veremos adiante.
Além das iniciativas de Willems, a resenha de Economia y Sociedad (1944) que
Alberto Guerreiro Ramos publicou na Revista do Serviço Público, do Departamento
Administrativo do Serviço Público (DASP), em 1946, intitulada "A Sociologia de
Max Weber: Sua Importância para a Teoria e a Prática da Administração" marcou
época. Aponta a magnitude do empreendimento editorial e focaliza com algum
destaque as categorias analíticas voltadas para os processos de burocratização
como instrumentos importantes no exame dos problemas administrativos
brasileiros. Guerreiro Ramos também trata dos pressupostos científicos do tipo
ideal proposto por Weber. Enquanto Sociologia voltava-se para o circuito
acadêmico e universitário, a Revista do Serviço Público, que pertencia ao DASP,
órgão público do governo federal criado em 1938, buscava alcançar profissionais
e funcionários envolvidos com a reforma e modernização do Estado brasileiro. A
resenha de Guerreiro Ramos permaneceu como um ícone da discussão sobre os
processos de racionalização e padronização, sendo referida até hoje em artigos
sobre a administração pública9.
Entre as pesquisas, um livro pioneiro antecede os estudos sobre os
trabalhadores, suas associações e sindicatos: O Problema do Sindicato Único no
Brasil, de Evaristo de Moraes Filho, vem a público em 1952, com uma introdução
detalhada, na qual o autor faz uma defesa intransigente da abordagem
sociológica das conquistas de direitos dos trabalhadores, referindo-se com
destaque a conceitos e autores da sociologia alemã (Leopold von Wiese, Simmel,
Sombart, Dunkmann, Vierkandt, Scheler, Max Weber). Sem deixar de mencionar
também autores franceses e norte-americanos, Evaristo de Moraes argumenta em
favor de uma sociologia dos grupos, das interações e relações sociais. As
referências a Weber (Moraes Filho, 1978:50, 62, 104-106, 173) discutem a
vocação profissional e o surgimento do capitalismo ocidental moderno. Embora
não se refira especialmente à ideia de associação livre por interesse (Weber,
1991:25; 1985:21), ela é eixo que estrutura a trama argumentativa da
investigação sobre as associações operárias livres. O Problema do Sindicato
Único no Brasil foi, entretanto, rechaçado pela crítica devido aos argumentos
do autor contrários à crença na inexistência de associações e lutas operárias
no Brasil e ao "mito da outorga", que apregoava a concessão pelo Estado dos
direitos dos trabalhadores, considerados incapazes de criar associações por
interesse, como os sindicatos. Relegado ao esquecimento, o livro de Evaristo de
Moraes Filho com sua discussão específica sobre os movimentos sociais e recusa
de uma visão teleológica da história, permaneceu afastado das discussões
sociológicas, sendo revisto, discutido e relido somente em sua segunda edição,
em 1978.
Voltemos a Willems. Seja por motivos lógicos ou factuais, Willems não aceita a
inevitabilidade de uma marcha sequencial do velho para o novo, do tradicional
para o moderno, razão pela qual sua reflexão permanece livre de uma visão
normativa, seja do passado, seja do futuro. Para ele, importam, sim, os
arranjos, os conflitos, as incompatibilidades entre homens e valores, a
multiplicação das alternativas, a escolha possível. A modernidade incluía
diferentes credos, formas de conduta e valores em conflito permanente (Willems,
1961:9-15). A adoção de uma perspectiva de trabalho para a qual importam os
valores que dão sentido e significado às ações humanas (Weber, 1956:226),
aliada à discordância e ao abandono de uma visão de história enquanto processo,
concorreu para que Willems fosse alvo de duras críticas, que dele reclamavam a
objetividade, somente possível com a adoção de uma concepção moderna de
história cujas leis permitissem revelar o que se escondia por trás das
aparências da vida social. Naturalmente, nem todos discordavam de Willems, mas
as críticas que lhe fizeram na época ( Villas Bôas, 2006a:101-103) prenunciam a
vertente metodológica que se tornou predominante na sociologia e interveio na
recepção do pensamento de Max Weber.
Dessas primeiras notícias10 da recepção de Weber desejo sublinhar um problema,
anunciado pela recusa dos pressupostos da sociologia de Emílio Willems e de
Evaristo de Moraes Filho, e que consiste no conflito entre duas vertentes
cognitivas cuja centralidade marcou o debate sociológico em meados do século
passado. A tendência que se define pela importância sociológica atribuída às
ações sociais, aos conflitos, à multiplicidade de crenças e às alternativas
históricas possíveis, e que se poderia julgar mais próxima de pressupostos de
uma sociologia weberiana é combatida por uma vertente, mais próxima do modelo
das ciências naturais, que recusa qualquer outra via do conhecimento que não
possa ser submetida a critérios de objetividade, medição, controle de dados e
validação científica.
A ÉTICA ESQUECIDA
A partir de meados da década de 1950, fase de acelerado crescimento industrial
do país, uma mudança sensível ocorre na configuração da disciplina. A questão
da modernidade se impõe à sociologia. O transplante de ideias, padrões
científicos, hábitos e costumes "racionais" passam a constituir um dos focos
polêmicos da atenção dos sociólogos. Embora discordassem quando à modalidade de
integração do Brasil no conjunto das sociedades modernas, aceitavam esse
desafio como uma exigência histórica, política e intelectual. Nesse momento,
torna-se difícil distinguir os ideais de modernidade almejados pelos sociólogos
das tarefas próprias da sociologia. Os sociólogos apostam na universalidade dos
processos de racionalização, industrialização e padronização do mundo,
abandonando definitivamente as diferenças culturais, consideradas resquícios de
um passado indesejável.
Não apenas se amplia o leque temático da disciplina, como o de suas diretrizes
teóricas. Os pesquisadores passam a tratar de temas rurais e urbanos, tendo
agora como referência o processo de transformação da sociedade de base agrária
em sociedade industrial. Três características são significativas na produção
sociológica desse período. Primeiro, a sociologia alarga os horizontes teóricos
da tradição de pensamento no Brasil, mostrando a diferença social entre os
homens a partir de sua inserção desigual no processo produtivo do trabalho. A
diferenciação das coletividades deixou de se basear nas suas origens étnicas,
na cor da pele, na religião e na cultura para encontrar na categoria trabalho
(Arbeit) um critério válido. Não era por isso uma sociologia marxista; nem
realizou estudos de classe de forma dogmática. Continuou a estudar os grupos
desfavorecidos, migrantes, negros, índios etc., dos quais, acreditava, dependia
a realização do projeto da sociedade moderna. Segundo, a disciplina incorpora
definitivamente uma concepção moderna de história. Com raras exceções (Villas
Bôas, 2006a), a ideia de processo contida na visão moderna, teleológica e
"etapista" da história define os fundamentos teóricos dos estudos sociológicos
dessa época. A sociologia torna-se programática. Finalmente, um dos temas mais
discutidos pelos sociólogos é o seu próprio papel numa sociedade em mudanças.
Nessa segunda fase, os sociólogos passaram a se considerar atores da mudança;
deixam de ocupar o mero lugar de pesquisadores da cena das mudanças para nelas
atuarem, fazendo uso de seu conhecimento. O engajamento político, intelectual
dos sociólogos serve, em grande medida, para legitimar a sociologia como um
saber científico válido.
Que lugar era reservado a Weber nesta virada importante na qual se conjugavam
uma concepção universalista de história e uma sociologia sequiosa do
cumprimento de um programa avassalador de racionalização e padronização em
todas as esferas da vida social? Como foram recebidas suas ponderações sobre o
sentido da ciência, a ética da convicção e a ética da política? Para Fernando
Correia Dias (1973:11-22), a presença de Weber em textos teóricos, pesquisas
empíricas e no ensino da sociologia teria mudado o "rumo do pensamento
sociológico" brasileiro. O autor pontua, entretanto, que "na apreciação das
contribuições weberianas, nossos sociólogos contemporâneos demonstraram notável
autonomia de pensamento, quer no sentido de prescindir dos comentadores mais
conhecidos, quer no espírito crítico, de modo a rejeitar como errôneas certas
interpretações" (Dias, 1973:24). Ressalta, ainda, que as pesquisas empíricas
com o objetivo de analisar as tendências do desenvolvimento social impuseram "o
acréscimo de uma dimensão histórica dinâmica à tipologia e ao quadro de
referência teórico de Max Weber [...] que tem revestido de significação
particularmente fecunda a sua utilização entre nós [...]" (ibidem:11). O texto
pioneiro de Fernando Correia Dias revela que Weber ocupou um lugar singular,
reelaborando-se criticamente suas ideias de acordo com os temas e a visão de
história predominantes. Prefiro, porém, comentar o silêncio sobre as posições
de Max Weber relativas à ética da responsabilidade e à ética da convicção, uma
vez que evidencia - de outro modo - o quanto as questões postas pelos
sociólogos brasileiros intervêm nas escolhas, na aceitação e na recusa de
ideias e ideais weberianos.
No período em que os sociólogos brasileiros se identificam como atores das
mudanças sociais e fazem valer seus ideais de modernidade como tarefas da
sociologia, as orientações de Hans Freyer e Karl Mannheim lhes servem de guia.
A escolha é curiosa, uma vez que os dois sociólogos integraram circuitos
sociológicos muito distintos e tiveram trajetórias intelectuais bem diferentes
(Muller, 1987; Kettler et al., 1984; Woldring, 1986). O livro mais citado de
Hans Freyer é La Sociología Ciencia de la Realidad, traduzido para o espanhol e
prefaciado por Francisco Ayala. Foi publicado em Buenos Aires em 1944, 14 anos
depois da primeira edição em Leipzig. As referências a Ideologie und Utopie
(1929) de Karl Mannheim são da edição brasileira publicada em 1950, em Porto
Alegre, com tradução de Emílio Willems e prefácio de Louis Wirth. Ora, uma das
principais questões de Hans Freyer era a relação do sociólogo com seu objeto de
estudo. Julgava que havia um envolvimento existencial do pesquisador com a
sociedade, o qual lhe possibilitava descobrir os padrões de seu desenvolvimento
(Muller, 1987:167-168). O sociólogo tinha uma responsabilidade moral
relativamente ao seu objeto e ao futuro. Certamente a sociologia não poderia
ser neutra, nem "livre de valores". Ele discordava da posição defendida por
Karl Mannheim em Ideologie und Utopie, cuja crítica ao conceito de ideologia e
consequente defesa da "ligação do pensamento com o ser" (Seinsverbundenheit des
Denkens) evidencia uma pluralidade de modos de pensar concorrentes e,
consequentemente, prejudiciais ao equilíbrio da ordem política. Para Mannheim,
a crise política exigia que os intelectuais se tornassem "portadores da
síntese" com o intuito de controlar a vida política.
Florestan Fernandes (1963) e Alberto Guerreiro Ramos (1958) lideraram uma
discussão sobre o valor e o sentido da sociologia. Apesar das divergências
entre eles, valorizam a ciência enquanto consciência reveladora de fatos e
processos sociais. Ao explicá-los ou interpretá-los, era possível distinguir o
curso da história. O sentido histórico conferido à disciplina científica exige,
consequentemente, que a constituição do conhecimento não prescinda da
referência ao passado, condição necessária para o diagnóstico do presente e
avaliação de chances futuras. Muito embora Hans Freyer não concordasse com a
determinação do futuro por leis inexoráveis, acreditava que sua visão futurista
pertencesse à sua época e não escondia a inclinação pela realização mais
completa da sociedade moderna (Freyer, 1965). Mannheim seguia outros
pressupostos, mas concordava com o planejamento racional do futuro da sociedade
(Villas Bôas, 2006a:105-140). De acordo com Florestan Fernandes, "Mannheim
contribuiu mais que qualquer outro sociólogo moderno para a formação de uma
teoria sociológica das técnicas de intervenção racional nos processos sociais"
(Fernandes, 1976:23). Na realidade, apesar das diferenças, Freyer e Mannheim
ofereciam fundamentos para o engajamento e intervenção dos cientistas sociais
no processo de mudanças.
Muito embora as conferências "Ciência como Vocação" e "Política como Vocação"
proferidas em 1917 e 1918 (Villas Bôas, 2008:58-61) integrem a coletânea From
Max Weber, organizada por Hans Gerth e Charles Wright Mills (1946) e sejam
fartamente citadas nas listas bibliográficas de publicações da década de 1950,
nenhuma referência é feita a elas na discussão que mencionei acima sobre o
valor e o sentido da ciência. A extensa literatura sobre as conferências,
sobretudo sobre "Ciência como Vocação" procura elucidar a resposta que Weber
teria dado à pergunta central "qual o sentido da ciência?" A ciência exigia o
fim das ilusões de sentido, uma vez que estava ligada ao progresso que não tem
fim, mas renova-se nele mesmo. Para Friedrich Tenbruck (1995:3-77), Weber
colocava-se uma dúvida radical. A palavra Beruf não tinha o sentido exclusivo
de profissão, mas significava, ainda, o preenchimento de uma vida interior.
Wolfgang Schluchter, no entanto, afirma que Weber insiste na base ascética das
ações profissionais. Elas não poderiam estar mescladas com ideais de ordem
política (Schluchter, 1996:7-47). Beruf é renúncia, autolimitação relacionada à
escolha de um indivíduo a qual provoca um conjunto de decisões. Além disso, "o
ser humano que assume uma posição, que avalia e julga, que vive suas ideias e
seus ideais, e o pesquisador empírico, que estuda o efeito desses ideais e
ideias vividos agem em esferas diferentes" (Schluchter apud Villas Bôas, 2011:
16). A ética da responsabilidade pertence a esse duplo contexto e se funda na
teoria dos valores.
Ora, o silêncio e o desinteresse pelas proposições de Max Weber são reveladores
da recepção do autor na sociologia brasileira. Uma parte notável da
intelectualidade brasileira almejava transformar o país em uma sociedade
moderna. Seu desejo era intervir na espontaneidade dos acontecimentos para
mudar a feição das instituições, das mentalidades, da distribuição de poder,
impondo uma regularidade nova à conduta cotidiana de homens e mulheres. Se
apostaram em valores, esses foram os valores da liberdade de fazer uso da
ciência para agir de acordo com seus resultados, certamente uma tarefa cuja
realização exigia seguir direção contrária ao ascetismo e à autolimitação.
UMA RECEPÇÃO "EQUIVOCADA"?
Em 1964, Maria Sylvia de Carvalho Franco defendeu sua tese de doutorado Homens
Livres na Velha Civilização do Café (na área de Sociologia da USP) diante de
banca composta por Florestan Fernandes, seu orientador, Sérgio Buarque de
Holanda, Antonio Cândido de Mello e Souza, Francisco Iglésias e Octávio Ianni.
A tese foi publicada pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP com o título
de Homens Livres na Ordem Escravocrata, em 1969. Os argumentos da autora eram
ousados. Dizia ela que a propriedade fundiária brasileira colonial conciliara
dois princípios opostos e reguladores da atividade econômica: a produção direta
dos meios de vida e a produção de mercadorias. Porém, os princípios opostos das
relações econômicas deviam sua existência a práticas constitutivas um do outro.
Do ponto de vista adotado pela autora, não seria mais possível sustentar, como
o fizera a maior parte dos historiadores, que a economia colonial se definia
como tradicional, mas, sim, enquanto uma unidade contraditória (Franco, 1997:
11, ênfases da autora). Para tanto, Maria Sylvia se baseava em La Decadencia de
la Cultura Antiga, de Max Weber, publicado em Madri, em 1950, advertindo que o
sentido geral da evolução da economia de base escravista foi o oposto da
Antiguidade, tal qual descrito por Weber. Na Antiguidade, o latifúndio, a
escravaria e a produção mercantil tiveram efeitos repressivos sobre a
diferenciação e integração da economia que foi tendendo para uma forma
autárquica. Na época moderna, o regime de escravos na colônia se desenvolveu em
estreita ligação com o mundo europeu, que se orientava para a utilização do
trabalho livre. O sistema colonial fazia parte do contexto de expansão dos
mercados da qual dependia sua vitalidade.
Com este argumento, Maria Sylvia não considera escravista o modo de produção,
porém tem como ponto de partida a modernidade da colonização portuguesa e o
capitalismo como fundamento de seu estudo. Propõe que a escravidão seja vista
como instituição. Na singularidade da produção colonial, o escravo fora
redefinido como uma categoria puramente econômica e o colonizador português
reunia tanto as funções de guerreiro-funcionário como as de comerciante-
empresário. Como efeito da expansão do sistema mercantil condicionada a uma
fonte externa de trabalho, surgiu uma população sui generis de homens livres
excluída da produção mercantil: "formou-se uma ralé que cresceu e vagou ao
longo de quatro séculos: homens a rigor dispensáveis, desvinculados dos
processos essenciais à sociedade. A agricultura mercantil baseada na escravidão
simultaneamente abria espaço para a sua existência e os deixava sem razão de
ser" (Franco, 1997:14). Eram eles tropeiros, vendeiros, sitiantes, camaradas e
agregados.
A força da argumentação de Maria Sylvia estava voltada para um alvo que não era
simples e envolvia a recepção equivocada de Max Weber, segundo ela, em estudos
que identificavam as sociedades subdesenvolvidas como sociedades tradicionais
(Botelho, 2012). Para alcançar seus objetivos, faz uso dos conceitos weberianos
de sociedade estamental, relação comunitária e autoridade tradicional para
demonstrar sua inadequação à sociedade brasileira e apontar o uso impróprio
daqueles conceitos pela técnica da generalização. Adverte então que
[...] os tipos ideais em que pese seu caráter formal, são construções
teóricas que expõem o caráter singular dos fenômenos culturais. Nessa
medida são históricos. São conceitos genéticos, cujo rigor supõe a
observância dos nexos de sentido entre seus componentes, da
configuração em que estão arranjados, com suas tendências essenciais
e o princípio que as governa. A negligência desses requisitos
transforma-os em conceitos classificatórios que meramente sumarizam
os traços comuns a certos fenômenos. (Franco,1997:15-16)11
O uso dos tipos ideais vinha sendo discutido pelo seu orientador, Florestan
Fernandes, um dos mais renomados sociólogos da USP, desde que escrevera sobre
os problemas lógicos da explicação sociológica entre os anos de 1953 e 1957, e
publicara três ensaios sobre o assunto, em 1959, no livro Fundamentos Empíricos
da Explicação Sociológica. Ocupado com a consolidação do método científico nas
ciências sociais, o autor divide o livro em três partes, tratando, na primeira
delas, da reconstrução da realidade nas ciências sociais; na segunda, dos
problemas de indução na sociologia; e, finalmente, na terceira, do método de
interpretação funcionalista na sociologia. É no ensaio sobre a indução que
Florestan analisa as proposições de Marx, Durkheim e Weber, mas na realidade
está a argumentar com Max Weber ao longo do livro. Muito embora gostasse de
dizer que a fusão das contribuições positivas dos autores clássicos era o
melhor caminho para o uso do bom método e do desenvolvimento da sociologia,
Florestan argumenta contra os pressupostos da construção ideal típica de Max
Weber, fazendo sérias objeções ao fato de que impossibilitava a apreensão de um
todo/totalidade histórica: "Os novos desenvolvimentos da teoria sociológica
dependem, fundamentalmente, da capacidade que revelarmos na fusão dessas
orientações, separadas no passado, mas naturalmente interdependentes e
complementares" (Fernandes, 1967:121). Weber simplesmente excluía essa
aspiração da ciência quando dizia que o objeto de investigação da ciência se
limitava a uma "porção finita" da realidade. O ceticismo de Weber era amainado
pelo fato de ter definido a sociologia como uma ciência empírica, uma vez que
na Alemanha seus contemporâneos Max Scheller ou Ferdinand Tönnies, por exemplo,
separavam a sociologia "pura" da sociografia, uma sociologia descritiva. Porém,
não era grande o mérito atribuído a Weber: a discussão de Florestan consistia
no fato de que a proposição dos tipos ideais não possibilitava a construção de
uma síntese em sequências de regularidades típicas no tempo; além disso, o
relativismo flagrante de Weber garantia ao sujeito do conhecimento uma
liberdade excessiva que permitia a utilização de critérios que não se
coadunavam com a realidade. A citação a seguir esclarece a objeção de Florestan
a alguns dos pressupostos das construções ideais-típicas.
[...] o método dos tipos ideais só permite lidar com as ações e
relações humanas capazes de se integrar em regularidades ou
uniformidades de sequência definíveis através de "conceitos
estáticos", isto é, conceitos relativos a processos sociais
recorrentes, dotados de alguma persistência ou duração, e os apanha
em unidades definidas de tempo e nos limites estritos destas unidades
(nas quais tais ações e relações se atualizam). O pressuposto lógico
da abstração consiste, nas interpretações dessa ordem, em admitir que
o que é essencial (ou típico) se repete. Em consequência caem fora do
horizonte interpretativo do investigador tanto o que se apresenta
como algo in flux quanto a própria concatenação lógica da realidade,
nos seus limites mais extremos, através da construção de conceitos e
fórmulas sintetizadoras, aplicáveis à descrição das regularidades ou
uniformidades de sequência irreversíveis e cíclicas. Existe sem
dúvida uma grande probidade intelectual atrás dessa forma de
representar as possibilidades da sociologia [...]. Mas, por curioso
que pareça, essa profissão relativista de modéstia intelectual
concede ao sujeito-investigador uma liberdade tão grande de
manipulação racional da realidade, que ele mesmo acaba fixando como e
porque os motivos e as condições externas da ação social devem ser
considerados e, restringindo, antecipadamente, os critérios através
dos quais julgará a veracidade das próprias afirmações (Fernandes,
1967:125).
Se a argumentação de Maria Sylvia em favor da utilização adequada do tipo-ideal
de Max Weber contrariava as reflexões de seu professor, ela atingia também
críticas mais recentes à metodologia weberiana, inscritas na tese de livre-
docência de seu colega, Fernando Henrique Cardoso, defendida em 1963, um ano
antes da defesa da tese de doutorado de Maria Sylvia e intitulada Empresário
Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil (1964). Nela, Fernando
Henrique faz uma análise dos empreendedores industriais no desenvolvimento
econômico com base em entrevistas feitas com empresários de diversas cidades
brasileiras12. De modo sutil, ele argumenta, ao longo do trabalho, contra os
pressupostos weberianos da construção ideal típica, a começar pelo "idealismo"
contido nas premissas do pensamento sociológico weberiano. No capítulo sobre o
"novo capitalismo" (as aspas são do autor), afirma que evidentemente as funções
empresariais fazem parte da economia moderna e Max Weber havia mostrado com
propriedade a diferença entre tradicionalismo (ênfase do original) e espírito
do capitalismo, porém, dificilmente o "espírito" do capitalismo subsistia na
motivação e nos objetivos dos empreendedores. As atividades desses atores
sociais variavam e se definiam de acordo com a situação de vida. Nessa
discussão, preferia ficar do lado de Karl Mannheim:
Guardadas as diferenças entre pensamento e espírito capitalista,
poder-se-ia dizer ainda uma vez com Mannheim: "O pensamento não cria
o mundo, mas ao contrário, em um mundo dado, com uma estrutura dada,
uma forma dada de pensamento é um instrumento que, em um determinado
momento, pode ser tanto adequado ou inadequado ou estar a caminho de
tornar-se cada vez mais adequado. Não existe pensamento 'como tal';
um determinado tipo de criatura viva pensa em um mundo com um
determinado tipo de estrutura a fim de realizar determinadas funções
vitais" (Mannheim, 1942:135 apud Cardoso, 1964:27).
Eram então as antigas leituras de Mannheim e suas reflexões sobre a ligação
entre o ser e o pensamento (Seinsverbundenheit des Denkens) (Villas Bôas,
2006a:105-130) reacendidas para fundamentar uma posição sociológica que se
recusava a aceitar a teoria da ação weberiana e, mais ainda, os pressupostos da
construção de seus tipos ideais como hipóteses para a formulação de problemas.
Mas Fernando Henrique não para por aí. Diz ele que nas hipóteses fundamentais
do livro não teve a expectativa de fazer uma classificação entre o
"empreendedor brasileiro" e um padrão universal de homem de empresa. Não estava
interessado em medir o "atraso" do empresário brasileiro, mas, ao contrário,
seu intento era medir as ações dos industriais a partir de condições
específicas. Desejava determinar as dependências funcionais e significativas
entre as condições de mercado e o tipo social de empreendedores existentes no
Brasil, verificando a gênese destas duas variáveis fundamentais para a
explicação da atividade empresarial. Nesse esforço, tanto a ação empresarial
resultava de uma estrutura determinada do mercado e da sociedade como atuava
sobre o mesmo mercado e sociedade. Finalmente, depois de uma discussão
prolongada com seus contemporâneos que ajuizavam o papel da burguesia
industrial, do Estado, e do desenvolvimento no Brasil, o autor delineia tipos
de empresários brasileiros, os capitães-de-indústria e os homens de empresa,
analisando a mentalidade dos empreendedores. Sua análise mostra, ao final, que
os empresários constituem um grupo heterogêneo, ambíguo, mas, sobretudo,
incapaz de exercer uma posição de dominação para a realização de seus
interesses. Apesar das diferenças entre os dois tipos, ambos estavam espremidos
entre as iniciativas estatais voltadas para a industrialização e as inversões
de capitais estrangeiros privados, nada mais restando à burguesia brasileira do
que se tornar um sócio menor do capitalismo.
Mas Maria Sylvia insiste em mostrar o uso inadequado dos tipos ideais nas
análises do desenvolvimento da sociedade brasileira. Seis anos depois da defesa
de sua tese de doutorado e da tese de livre-docência de Fernando Henrique
Cardoso, ela apresenta O Moderno e suas Diferenças (1970) ao Departamento de
Ciências Sociais da USP como tese de livre docência. Quer percorrer os
fundamentos teóricos das ideias de tradicional e moderno utilizadas para
interpretar as chamadas sociedades "subdesenvolvidas". Com esse propósito,
Maria Sylvia retoma o pensamento de Tönnies, Weber, Parsons e Redfield, na
primeira parte de seu trabalho, detendo-se na explicitação dos pressupostos dos
tipos ideais weberianos13. De acordo com a autora, aqueles especialistas eram
considerados fontes teóricas relevantes das análises dos processos de mudança,
característicos da passagem da sociedade tradicional à sociedade moderna no
contexto brasileiro.
Em cerca de 30 páginas da tese de livre-docência, Maria Sylvia faz um notável
empreendimento teórico, discutindo os pressupostos dos tipos ideais. Começa
pela distinção entre o saber teórico e a ordem prática, proposta por Max Weber,
quando adota a posição de que não se apreende o significado do mundo a partir
dos resultados do conhecimento científico, por mais que a época moderna
favorecesse e valorizasse a ciência antes de qualquer e todo conhecimento. O
significado do mundo só poderia ser atribuído pelos próprios homens e não
haveria um só significado, mas diversos ideais e valores em conflito entre si.
Tal posição, e somente esta, traria de imediato uma controvérsia entre os
sociólogos brasileiros, ávidos por conhecer o objeto de suas investigações no
sentido de apontar os rumos dos acontecimentos políticos e históricos de seu
país com o intento de provocar as mudanças. Lembre-se que, ao se forjar, à
sociologia brasileira não interessavam os limites ou as possibilidades do
conhecimento sociológico, porém o conhecimento do seu objeto com o objetivo de
intervir no rumo dos fatos à maneira dos ensinamentos de Karl Mannheim.
As dificuldades não se restringem ao ponto de partida do texto de Maria Sylvia.
A seleção de problemas de pesquisa a partir de determinados valores e pontos de
vista, proposta por Weber, era de difícil adoção ou aceitação pelos sociólogos.
Para Weber não há critério intrínseco à própria coisa que possa garantir a
constituição do objeto, porém, são as relações conceituais entre problemas que
podem definir o objeto da ciência. Tal constatação remete à atribuição de
excessiva liberdade ao pesquisador de que falava Florestan Fernandes.
Finalmente, mesmo sem percorrer a argumentação da autora por completo, vale
sublinhar sua advertência no que concerne à dissociação entre realidade e
conceito na proposta weberiana:
Em sua construção, que tem situações históricas por ponto de partida,
há um movimento da realidade para o conceito que gradualmente os
desliga um do outro, transcendendo o quadro original de referência.
Nesse plano, os tipos-ideais transformam-se em instrumentos
heurísticos, funcionando como conceitos limites, em relação aos quais
as situações investigadas são aferidas. (Franco, 1970:45)14
Em 1972, Maria Sylvia escreve "Sobre o Conceito de Tradição", artigo no qual
refina seus argumentos sobre o uso inadequado da noção de tradicional em
oposição à noção de moderno. Tradicional e moderno serviam para distinguir
sociedades "atrasadas" e sociedades "avançadas" que constituíam o começo e o
fim de um processo de modernização. Para ela era preciso enfatizar, uma vez
mais, "a grande distância que separa o contexto teórico dos autores alemães e a
leitura que deles fizeram os americanos: atualmente conserva-se apenas uma
equivalência nominal dos conceitos originais, alterando-se por completo sua
construção e suas funções no processo de pesquisa" (Franco, 1972:9). Se o
conceito de tradição é princípio constitutivo de um complexo de relações
sociais e define-se como uma forma de dominação, não deve ser tomado como um
fator de transmissão de valores e formas de conduta que levam à estabilidade.
Em uma conferência sobre Classes Sociais e História: Considerações
Metodológicas, pronunciada em 1973, Fernando Henrique (Cardoso, 1975:101)
rebate a argumentação de Maria Sylvia. Na realidade, ele concorda que o método
chamado de ideal típico não passava na sua aplicação do formalismo parsoniano
dos "pares de patterns-variables opostos", compondo matrizes organizadas a
partir do eixo tradicional/moderno e de alguns atributos psicológicos e sociais
que caracterizariam "idealmente o comportamento das classes". Contudo, apesar
das críticas ao emprego dos tipos ideais, insiste na posição que tomara em sua
tese sobre os empresários (1964), opondo-se a qualquer método in abstrato. Para
que os problemas sejam elucidados é preciso "teoria capaz de explicitar o que
está confuso na prática histórica e [...] prender umbilicalmente os conceitos
constituídos à variabilidade histórica das situações, dotando-os de um
movimento" (Cardoso, 1975:103). Questionando a pluralidade de hipóteses
alternativas em Weber, Fernando Henrique se pergunta se não vale mais a pena
assumir uma ontologia e uma concepção de ciência que impõem a
estruturação das explicações em termos de que algumas interpretações
e categorias permitem ir ao fundo da questão e são conditio sine qua
non para qualquer explicação, tendo, portanto, mais peso e relevância
que outras em função de sua capacidade de ir ao essencial do processo
histórico? (Cardoso, 1975:103).
Quando se leem os escritos de Maria Sylvia de Carvalho Franco, Florestan
Fernandes e Fernando Henrique Cardoso pode-se discordar da tese de Maria Sylvia
contrária à caracterização da colônia como uma sociedade tradicional, porém,
não se pode deixar de observar as objeções que se fizeram aos pressupostos e
tipos ideais elaborados por Max Weber. Pode-se também não concordar com a
autora no que respeita aos "equívocos" na recepção das ideias de Max Weber,
pois, afinal, a apropriação das ideias é seletiva e interpretativa, submetendo-
se a valores e interesses. Fernando Correia Dias possivelmente estava certo
quando afirmou (1973:11-22) que os sociólogos brasileiros fizeram uso de sua
autonomia e espírito crítico na apropriação do pensamento de Max Weber. No
período de 1940-1980, questionaram o que julgavam um limite à possibilidade de
conhecer o rumo das transformações sociais no país para nelas intervir,
mantendo-se fiéis à sua marca de origem. Nesse sentido, o argumento que pauta o
presente trabalho oferece possibilidades de repensar a tese mais comumente
aceita de que as ideias de Talcott Parsons exerceram uma influência direta e
decisiva na recepção do sociólogo alemão em países da América Latina.
O ano de 1979 assinala um marco para a recepção da sociologia alemã no Brasil
com a publicação de Crítica e Resignação. Fundamentos da Sociologia de Max
Weber, de Gabriel Cohn. Não se trata mais de perscrutar o caráter teórico e
metodológico da sociologia weberiana, visando a realização de pesquisas
empíricas. Deseja-se agora interpretá-la. Cohn busca reconstruir o esquema
conceitual da sociologia weberiana a partir dos pressupostos do próprio Weber,
apostando em uma seleção valorativa de temas indispensáveis para a compreensão
do pensamento weberiano em detrimento de análises que valorizavam a polêmica
Marx versus Weber ou rastreavam as influências recebidas por Weber. Ao
contrário, a primeira parte do livro dedicada a linhas de pensamento (Dilthey,
Windelband, Rickert e Simmel, entre outros) que revelariam afinidades com as de
Max Weber, não é considerada a mais relevante pelo autor, que confessa ter
objetivo mais ambicioso: "para além dos confrontos e aproximações entre o
esquema weberiano e outros, interessa-me captar a presença do contexto em que a
obra foi produzida no próprio interior dos seus conceitos básicos e de sua
articulação, em que ele está presente sob a forma dos seus pressupostos
fundamentais" (Cohn, 1979:XIII).
Na segunda parte de Crítica e Resignação, Cohn aborda questões concernentes à
racionalidade, à cultura, ao sentido, aos valores e à concepção de história,
que cunham a obra de Max Weber, realçando em sua argumentação a ênfase
atribuída por Weber à dimensão metodológica do conhecimento científico em
detrimento da crítica do objeto. O capítulo "As Armadilhas da Coerência", no
qual Cohn discute os limites do pensamento weberiano, inscreve, entre outros
assuntos, uma espécie de "resposta" à discussão havida entre seus colegas e
professores. Muito embora não faça qualquer referência aos debates sobre Max
Weber, o parágrafo que se segue é revelador e indica sua familiaridade com as
questões discutidas na época:
O pensamento de Max Weber tematiza o particular sem ter como
articulá-lo ao geral, que repele. Sua crítica científica é
metodológica, não é do objeto nem o transcende. Daí a ênfase na
dimensão do poder em suas análises. O objeto particular apresenta-se
assim e não de outro modo, igualmente possível, porque há uma força
que o constrange a ser assim, e essa força é social e também
particular: dominação, poder. Daí também a contrapartida valorativa
disso, no que concerne à tomada de posição extracientífica, que é a
negação heroica, individual, marca da adesão à ideia de uma autonomia
cuja realização efetiva não se concebe em termos universais, mas que
não se admite ver sufocada no particular. Nesse contexto a ciência é
o domínio da resignação, mas é preciso lembrar que se ela não pode
prescrever formas específicas de ação, tampouco prescreve a
resignação. Ela não prescreve nada fora do seu domínio. Weber não
quer a resignação, mas também não quer abrir mão da racionalidade; e
não tem como conceber uma crítica racional com validade objetiva e
capaz de ministrar diretrizes práticas. Assim a crítica racional fica
confinada ao domínio do conhecimento. Cumpre, portanto, não ter
ilusões quanto ao alcance da ciência e ficar atento para as lutas que
se desenrolam na arena dos valores e dos interesses inconciliáveis,
não para ficar inerte, mas para tomar posição de maneira adequada. Na
realidade, a ciência não prescreve nada salvo fazer ciência. (Cohn,
1979:148, ênfase do original)
Nas últimas três décadas, teses acadêmicas, artigos, traduções e livros chamam
a atenção para a importância de Max Weber, elevando seu lugar no rol de
importância entre os autores mais lidos no Brasil. As discussões atuais sobre a
secularização do mundo motivaram a leitura de sua sociologia da religião e os
debates sobre cidadania e direitos, a leitura de sua sociologia do direito. Tal
mudança radical criou uma espécie de ilusão sobre o papel desempenhado por
Weber no passado, legando ao esquecimento as disputas e as objeções que se lhe
fizeram. Weber desempenha agora outro papel.
NOTAS
1. O período de 1940 e 1980 corresponde aproximadamente às quatro primeiras
décadas da institucionalização da sociologia no Brasil na qual uma primeira
modalidade de recepção da obra de Max Weber se impõe e se caracteriza pelo
interesse no uso do instrumental teórico e metodológico weberiano na pesquisa
empírica. Para delimitar este período, tomei como marcos a criação da revista
Sociologia (1939) e a publicação de Crítica e Resignação. Fundamentos da
Sociologia de Max Weber (1979), de Gabriel Cohn, livro que inaugurou uma
segunda modalidade da recepção, orientada para a análise imanente da obra de
Max Weber. Não se pretende aqui uma divisão definitiva de períodos da recepção
da sociologia alemã, como mostrei em outro trabalho (Villas Bôas, 2006a), mas
apontar algumas especificidades da discussão brasileira sobre a questão em
foco. Até porque o surgimento de uma segunda modalidade não significou o
desaparecimento da primeira, porém, além de motivar escritos sobre a obra
weberiana, ofereceu uma alternativa relevante para as discussões até então
havidas e discutidas neste artigo.
2. Destaco algumas discussões que demonstram como Weber foi sendo lido em
concorrência com outros autores, aceito ou excluído, de acordo com valores
específicos de especialistas daquela época. Nesse sentido, sigo as orientações
de Wolf Lepenies (1981, vol. I:I-XXXV), cuja proposta de uma história da
sociologia a partir da construção da identidade cognitiva, social e histórica
da disciplina, não se filia à concepção de uma divisão convencional da história
em períodos, tipos, ou programas teóricos.
3. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo foi publicado no Brasil
somente em 1967, vindo a público uma nova edição em 2004.
4. Muito embora, como afirma Alejandro Blanco (2004:675), Max Weber não tivesse
ainda o lugar de relevância que adquiriu, vale dizer que as publicações de
editoras argentinas foram lidas e referidas pelos sociólogos brasileiros,
constando os livros do acervo das primeiras bibliotecas de Ciências Sociais no
Brasil. Esta foi uma das "entradas" importantes da sociologia alemã no país que
mereceria estudos mais aprofundados.
5. A hipótese sobre as questões inaugurais peculiares à sociologia brasileira,
que venho desenvolvendo em minhas pesquisas, certamente não é a única e deve
ser compreendida à luz de trabalhos como Miceli (2001),Vianna (1997), Souza
(2000), Trindade (2007), Botelho e Schwarcz (2009), Lima (1999), e Maio (1997),
entre outros.
6. A Universidade do Brasil funcionou no Rio de Janeiro, então capital do país,
servindo de modelo para outros estabelecimentos universitários. Foi precedida
pela Universidade do Distrito Federal (1935-1939), cujo projeto liberal
rechaçado pelo governo autoritário levou ao fechamento da instituição. A
Universidade do Brasil transformou-se em Universidade Federal do Rio de Janeiro
em 1967.
7. No período de 1945 a 1964, 34% dos livros de sociologia foram publicados por
editoras governamentais sem fins lucrativos, com o apoio de setores de pesquisa
de órgãos governamentais a exemplo do Centro Brasileiro de Pesquisas
Educacionais (CBPE) ou do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Ver Villas
Bôas (2007:37-47).
8. Roger Bastide (1898-1974) chegou ao Brasil em 1938 (com 40 anos) para ocupar
a cátedra de Sociologia I, no Departamento de Ciências Sociais da Universidade
de São Paulo deixada vaga pelo professor Claude Lévi-Strauss; Bastide aqui
esteve até 1954, onde foi professor de Florestan Fernandes, Maria Isaura
Pereira de Queiroz, Antônio Cândido de Mello e Souza, Fernando Henrique
Cardoso, Otávio Ianni entre outros. De volta à França, lecionou na École
Pratique des Hautes Études, 6e Section, hoje École des Hautes Études en
Sciences Sociales (EHESS).
9. Note-se que, décadas depois, Mauricio Tragtenberg dedicava-se à pesquisa e à
reflexão sobre a burocracia, tendo como referência as proposições de Weber
sobre o tema. Ver Burocracia e Ideologia (1974).
10. Há outras referências a Max Weber na década de 1940 e início de 1950, a
exemplo do artigo de Otto Maria Carpeaux, "Max Weber e a Catástrofe" (1942),
que, entretanto, não cabem no escopo deste trabalho, cujo intento não é mapear
todas as publicações sobre Weber no período em foco, nem fazer uma história da
sociologia, mas problematizar a recepção do sociólogo alemão.
11. A discussão sobre Weber baseava-se nas leituras de La Decadencia de la
Cultura Antigua, publicado em "Seleción y Recuerdo" da Revista de Occidente em
1950; The Methodology of the Social Sciences (Glencoe, Free Press, 1949); e
Economia y Sociedad de 1944.
12. Fernando Henrique inspirou-se em Joseph Shumpeter, mas faz largo uso de
sociólogos norte-americanos, além de tecer críticas a autores brasileiros que
tratavam do problema do papel da burguesia industrial no país. Nesta ocasião,
dirigia o Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (CESIT) e estava
envolvido com o sociólogo francês Alain Touraine. O livro é uma evidência de
que não havia uma pureza metodológica, como, aliás, creio que dificilmente ela
se encontra na sociologia brasileira, porém, uma escolha de autores, que, como
advertia Cardoso na sua tese de livre docência, contribuíam para a formulação
mais eficiente de um problema de pesquisa.
13. A segunda parte do trabalho retoma algumas questões da tese de doutorado
para analisar a constituição mental dos homens livres na cultura cafeeira,
através da análise do conto de Guimarães Rosa, "A Hora e a Vez de Augusto
Matraga" (1946).
14. Ver considerações sobre os tipos ideais weberianos como Hypothesis-Forming
Models proposta por Stephen Kalberg (1994:92-142). Valeria, em estudo mais
aprofundado, trazer a discussão de Kalberg como parâmetro para verificar a
recepção dos tipos ideais no Brasil.