Estrutura de Classes, Educação e Queda da Desigualdade de Renda (2002-2011)
INTRODUÇÃO
A queda da desigualdade de renda per capita é um dos fenômenos mais estudados
da última década no Brasil, com alguns consensos bem estabelecidos. Um dos mais
importantes diz respeito às causas desse fenômeno: se, por um lado, a expansão
das transferências públicas, como as do Programa Bolsa Família e do Benefício
de Prestação Continuada, desempenhou um papel relevante, por outro, não há
dúvidas de que o mercado de trabalho foi o principal fator por trás da queda da
desigualdade (Soares, 2006; Barros, Franco e Mendonça, 2007a; Hoffmann, 2007).
Há argumentos de diversos tipos para explicar por que o mercado de trabalho
tornou-se menos desigual, desde investigações sobre a relativa homogeneização
da composição etária da população e, portanto, diminuição dos retornos para a
experiência (Barros et al., 2007) até análises de mudanças na segmentação
setorial e espacial no Brasil (Ferreira et al., 2006; Barros, Franco e
Mendonça, 2007b). No entanto, maior peso costuma ser dado às mudanças na
composição educacional e nos retornos à educação da força de trabalho como
grandes causas dessa queda recente (Menezes-Filho, Fernandes e Picchetti, 2006;
Barros, Franco e Mendonça, 2007a).
O propósito deste texto é saber em que medida um ponto de vista tipicamente
sociológico - da análise de classes - ajuda a iluminar o fenômeno e como ele se
relaciona com os fatos já estabelecidos pela literatura da área. Mais
especificamente, o artigo tem como objetivo investigar como mudou a estrutura
de classes nesses últimos anos, o quanto da queda da desigualdade ela é capaz
de explicar - tanto de uma perspectiva estática quanto dinâmica - e como tais
mudanças se relacionam com os efeitos identificados da educação na
desigualdade. Afinal, uma maior oferta de trabalhadores mais educados pode
ensejar uma série de fenômenos distintos que colaborariam para a queda da
desigualdade, como mudanças nos tamanhos relativos das classes, compressão
salarial dentro de cada classe ou mudanças nos salários médios relativos entre
classes.
Para isso, o texto está organizado da seguinte maneira: além da presente
Introdução, a segunda seção trata de aspectos gerais da ligação entre classe,
educação e a estrutura da desigualdade; a terceira define a tipologia de
classes utilizadas e esclarece a metodologia empregada nas decomposições; a
quarta seção documenta as principais mudanças no mercado de trabalho brasileiro
entre 2002 e 2011; a quinta apresenta decomposições univariadas estáticas e
dinâmicas da desigualdade tal como medida pelo GE(0); a sexta seção traz as
decomposições multivariadas via regressão a partir da abordagem de Fields
(2003); a sétima e última seção reúne nossas principais conclusões.
A ESTRUTURA DA DESIGUALDADE: CLASSE E EDUCAÇÃO
Grosso modo, duas perspectivas teóricas são tradicionalmente acionadas na
investigação da desigualdade de renda no mercado de trabalho. A primeira dá
destaque às características da oferta de trabalho, com a motivação básica de
compreender a relação entre educação, experiência e renda. A segunda tem como
foco principal a relação entre a estrutura de classes e a desigualdade.
Tipicamente, essas perspectivas coincidem com divisões disciplinares, sendo a
primeira mais comum entre economistas e a segunda entre sociólogos, apesar de
haver uma relativa sobreposição entre os debates.
Normalmente, do ponto de vista da sociologia, a principal objeção ao primeiro
tipo de explicação está no foco excessivo dado pelas análises empíricas às
características individuais da oferta da mão de obra, em detrimento de aspectos
estruturais (Sorensen, 1996). Assim, a forma privilegiada de alcançar essa
dimensão seria através da atenção à dimensão ocupacional ou da análise de
classes. Instituições do mercado de trabalho e da demanda pelo trabalho seriam
fundamentais para compreender os diferenciais de rendimento.
Nesta perspectiva, algumas ocupações ou classes, menos especializadas e mais
abertas à substituição de trabalhadores, seriam menos protegidas e mais
sujeitas às flutuações ligadas à composição da oferta de trabalho. Outras,
devido às suas próprias idiossincrasias (complexidade das tarefas,
interdependência na cadeia produtiva, entre outras), têm outro tipo de
dinâmica, mais fechada (Parkin, 1979; Sorensen e Kalleberg, 1981; Goldthorpe,
2000). É a atenção a esse tipo de características um dos pontos centrais dos
trabalhos ligados à análise de classes, em seus esforços para agrupar as
ocupações em tipologias, independente dos princípios analíticos adotados - tipo
de contrato de trabalho, no caso neoweberiano, e relação com meios de produção
e exploração, no caso neomarxista (Breen e Rottman, 1995; Wright, 2000;
Goldthorpe, 2000).
Mas como a estrutura de classes se ligaria a mudanças na tendência da
desigualdade de renda? Há três tipos de processos possíveis. Primeiro, pode
haver mudanças estruturais no mercado de trabalho que levariam a uma nova
composição de classes em termos de tamanhos relativos, ou seja, um efeito de
alocação da força de trabalho. Segundo, pode haver mudanças nas médias
relativas dos salários entre classes, seja por restrições políticas, como em
parte ocorreu no Brasil dos anos 1960 e 1970 (Hoffmann e Duarte, 1972;
Hoffmann, 1973), seja por outros fatores, como flutuações na demanda por
trabalho, ações de licenciamento, certificação ou outras (Grusky e Sorensen,
1998; Weeden, 2002). Terceiro, pode haver mudanças na desigualdade
intraclasses, causadas, por exemplo, por mudanças na remuneração de outras
características, que dizem respeito, por exemplo, aos arranjos institucionais
que regulam o mercado de trabalho; a diferenças entre setores heterogêneos,
entre outras. Neste artigo, tentaremos ponderar entre esses três diferentes
mecanismos e sua importância na tendência da desigualdade de renda no Brasil
entre 2002 e 2011.
CLASSIFICAÇÕES E MÉTODOS DE DECOMPOSIÇÃO
a) Tipologia de Classes
Neste estudo, a estrutura de classes brasileira será entendida a partir da
tipologia formulada por Santos (2005), que é inspirada no esquema neomarxista
de Erik Olin Wright. Em Wright, a distribuição desigual de poderes e direitos
sobre os recursos produtivos dá origem à estrutura de classes, que, por sua
vez, condiciona as oportunidades de vida disponíveis para os indivíduos. Para
ele, cada período histórico é marcado por uma forma principal de exploração,
ligada à distribuição desigual de um ativo produtivo central. No capitalismo,
isso corresponderia à distribuição desigual da propriedade dos meios de
produção, mas a exploração e as relações de classes contemporâneas também
seriam estruturadas em torno da posse/não posse de outros ativos produtivos,
como as habilidades/credenciais e os ativos organizacionais (Wright, 2000;
2005).
A classificação de Santos (2005) procura refinar a de Wright e adaptá-la para a
realidade brasileira, com seu grande e heterogêneo contingente de trabalhadores
por conta própria e alcance restrito do assalariamento formal. A principal
fonte de informações para a tipologia é a posição na ocupação, que discrimina
os trabalhadores em relação à posse de capital: empregadores, empregados e
trabalhadores por conta própria. Em seguida, cada uma das três categorias é
desagregada de acordo com os tipos e o volume dos ativos possuídos, o que
envolve o recurso a variáveis auxiliares como o setor da atividade, o título
ocupacional, entre outras.
Dessa forma, a força de trabalho é classificada em um total de 13 classes: os
empregadores dividem-se em capitalistas e fazendeiros (a classe mais
privilegiada e com maior controle sobre o capital) e pequenos empregadores; os
trabalhadores por conta própria dividem-se em agrícolas, não agrícolas,
precários (sem acesso a capital) e especialistas autoempregados (segmento
privilegiado pelo acesso a habilidades e que também inclui pequenos
empregadores cujo título ocupacional denote conhecimento perito); finalmente,
os empregados repartem-se em gerentes (dotados de qualificação e autoridade),
empregados especialistas (dotados de qualificação), empregados qualificados (em
geral técnicos de nível médio e outros trabalhadores com níveis mais restritos
de qualificação), supervisores (dotados de autoridade), trabalhadores típicos
(grosso modo, é o trabalho proletarizado "padrão"), trabalhadores elementares
(com níveis mínimos de especialização e responsáveis pelas tarefas mais
simples), e trabalhadores domésticos (Santos, 2005). Como os militares não são
classificados na tipologia de Santos, eles foram excluídos de todas as
análises.
O esquema de classificação socioeconômica de Santos é atraente porque é
bastante canônico: ao seguir de perto a lógica de Wright, acaba sendo parecido
também com as tipologias de Goldthorpe e seus associados, bastante utilizadas
em estudos empíricos sobre desigualdade e mobilidade social (Erikson e
Goldthorpe, 1992; Goldthorpe, 2000). Afinal, as bases teóricas dos esquemas de
Wright e Goldthorpe são distintas, mas esses esquemas convergem na prática
quando operacionalizados por meio de títulos ocupacionais. Além disso, a
vantagem da classificação de Santos está em ser elaborada especificamente para
o Brasil, o que se reflete tanto no plano conceitual quanto na sua
operacionalização: no primeiro caso, são feitas distinções importantes em
categorias heterogêneas de trabalhadores precários que não seriam captadas em
tipologias internacionais; no segundo caso, não é necessário fazer nenhuma
tradução ou adaptação ad hoc para compatibilizar classificações internacionais
com as variáveis específicas das pesquisas brasileiras.
Mais ainda, a classificação de Santos é interessante porque, embora se preocupe
essencialmente com a estrutura da demanda por trabalho, toma como um dos ativos
estruturantes das posições de classes justamente a "qualificação", o que abre a
possibilidade de diálogo com abordagens voltadas para a oferta de trabalho.
Naturalmente, existem diferenças teóricas fundamentais entre os dois tipos de
abordagens, mas, se tomarmos a educação como proxy razoável da qualificação,
podemos então testar empiricamente a hipótese de que mesmo estimativas
conservadoras da influência da estrutura de classes sobre a desigualdade (isto
é, estimativas que supõem que a teoria do capital humano está "correta" e
avaliam a influência das classes líquida do efeito da educação) reiteram a
importância de ambos efeitos sobre o nível e a trajetória da desigualdade e, em
última instância, enriquecem nosso entendimento sobre as mudanças ocorridas no
Brasil na última década.
b) Fontes de Dados
Todos os dados utilizados neste texto são provenientes da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD), realizada anualmente - exceto em anos censitários
- pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como a PNAD 2002
não cobria as áreas rurais dos estados da Região Norte (exceto Tocantins),
estas áreas também foram excluídas da PNAD 2011.
Todas as análises baseiam-se apenas no trabalho principal dos indivíduos,
excluindo trabalhadores não remunerados e militares, bem como indivíduos cujo
status no domicílio era de empregado doméstico, pensionista e afins. Nossas
análises de sensibilidade indicam que o uso da renda horária ou a limitação da
análise apenas aos que trabalham 20 horas ou mais não alteram substantivamente
os resultados do trabalho. A Tabela_1 apresenta informações básicas sobre as
amostras para 2002 e 2011:

Para facilitar a interpretação, todos os rendimentos foram deflacionados para
junho de 2013. O deflator aplicado à renda foi o Índice Nacional de Preços ao
Consumidor (INPC), ajustado de acordo com a sugestão de Corseuil e Foguel
(2002).
c) Medidas e Decomposições da Desigualdade
A principal medida de desigualdade empregada neste trabalho é o GE(0), isto é,
o índice de entropia generalizada com , também conhecido como L de Theil. O GE
(0), assim como os demais indicadores da classe de medidas de entropia, possui
as propriedades da Curva de Lorenz e é aditivamente decomponível: a
desigualdade total é a soma da desigualdade dentro dos grupos e da desigualdade
entre os grupos (Shorrocks, 1980).
O GE(0) é mais atraente do que os demais indicadores de entropia justamente
porque permite uma interpretação contrafactual: o componente entre grupos é
exatamente igual a quanto a desigualdade total cairia caso as rendas médias de
todos os grupos fossem igualadas. Por isso, utilizamos o GE(0) nas
decomposições da desigualdade. Além disso, o índice também se presta a
decomposições dinâmicas de forma mais simples do que outras medidas de
entropia. Em termos de sua função de bem-estar, o GE(0) dá mais peso à cauda
inferior da distribuição, isto é, aos mais pobres.
A decomposição estática do GE(0) por k subgrupos é dada por:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s1.jpg]
Onde o primeiro termo representa o componente intragrupos e o segundo, o entre
grupos; é a participação relativa do subgrupo j na população; é o índice de
desigualdade para o subgrupo j; e é a renda média relativa () do subgrupo j.
A decomposição dinâmica - isto é, comparando dois pontos no tempo - do GE(0) é
obtida por:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s2.jpg]
Onde vj é a participação do subgrupo j na renda total; é a renda média do
subgrupo j e a barra horizontal indica a média entre os dois anos (Mookherjee e
Shorrocks, 1982). O primeiro termo representa o efeito "puro", isto é, o efeito
de mudanças nas desigualdades internas dos grupos na variação da desigualdade
total; o segundo e o terceiro termos representam o efeito alocação, isto é, o
quanto mudanças nos tamanhos relativos dos grupos contribuíram para variações
na desigualdade total; finalmente, o terceiro termo representa o efeito
"renda", ou seja, o quanto mudanças nas rendas médias relativas dos grupos
contribuíram para variações na desigualdade total.
Para tornar o trabalho mais exaustivo, três outras medidas de desigualdade são
ocasionalmente mencionadas: recorremos também ao coeficiente de Gini e ao GE(1)
- ou T de Theil - para medir a robustez da queda da desigualdade e ao índice de
dissimilaridade para avaliar mudanças na distribuição da população ocupada por
classes e níveis educacionais.
As duas primeiras medidas são bastante conhecidas e dispensam apresentações. Já
o índice de dissimilaridade é uma medida não paramétrica do grau em que duas
distribuições com a mesma classificação em categorias diferem entre si. Para n
categorias, sua fórmula é dada por:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s3.jpg]
Onde xi e yi correspondem ao número de casos na i-ésima categoria de cada
distribuição e X e Y correspondem ao total de casos das duas distribuições. O
índice representa o percentual de casos da segunda distribuição que devem ser
reclassificados para que ela se torne idêntica à primeira e, portanto, varia
entre 0% e 100%.
As decomposições multivariadas da desigualdade são obtidas pelo método proposto
por Fields (2003) com base em regressões e respondem a dois tipos de perguntas:
dada uma regressão qualquer para determinar a renda individual, trata-se de
saber, primeiro, quanto cada variável explica da desigualdade total e, segundo,
quanto cada variável explica de mudanças na desigualdade entre dois pontos no
tempo.
Matematicamente, considere uma função geradora de renda tradicional:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s4.jpg]
Onde y é um vetor n x 1 do logaritmo dos rendimentos, X é uma matriz n x (k +1)
de características dos indivíduos, incluindo um termo para a constante, b é um
vetor (k+1) x 1 de coeficientes e e é o vetor n x 1 de resíduos. O modelo
estimado a partir da amostra pode ser reescrito como:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s5.jpg]
A variância de y é decomponível como a soma das covariâncias entre as variáveis
compostas e o próprio y:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s6.jpg]
O percentual da variância do logaritmo da renda explicado por cada variável é
dado por:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s7.jpg]
Com:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s8.jpg]
Se o último elemento do somatório for excluído, o percentual explicado é
equivalente ao R² da regressão inicial:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s9.jpg]
Embora seja atraente, esta decomposição é limitada por se aplicar à variância
do logaritmo da renda, uma medida de desigualdade insatisfatória porque não
respeita o princípio das transferências (Foster e Ok, 1999). Fields lança mão
do trabalho de Shorrocks (1982) para mostrar que os pesos relativos de cada
variável obtidos pelas fórmulas acima independem da medida de desigualdade
utilizada desde que sejam assumidos alguns pressupostos razoavelmente
canônicos, como continuidade, simetria, decomponibilidade e independência do
nível de desagregação, entre outros (Fields, 2003). A contribuição de um fator
para a desigualdade deve ser igual a zero quando todos os recipientes receberem
a renda média daquele fator.
Na prática, isso significa que o peso na desigualdade total derivado para cada
fator zk é o mesmo das medidas de desigualdade mais populares, como o índice de
Gini, os índices de entropia e o índice de Atkinson, entre outros. Vale
lembrar, no entanto que, neste caso, a variável dependente da decomposição de
Fields é o logaritmo da renda, e não a própria renda. Ou seja, os pesos obtidos
são válidos, por exemplo, para a decomposição do logaritmo da renda, mas não
são diretamente comparáveis com a decomposição da própria renda.
Tais decomposições estáticas da desigualdade podem também ser facilmente
estendidas para a comparação entre dois pontos no tempo, embora nesse caso os
pesos atribuídos a cada variável dependam da medida de desigualdade escolhida.
Para uma dada medida de desigualdade I, as mudanças verificadas entre t e t+1
podem ser decompostas em:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s10.jpg]
Assim, a contribuição relativa de cada fator para a variação na desigualdade é
dada por:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s11.jpg]
Com:
[/img/revistas/dados/v57n1/04s12.jpg]
As fórmulas acima permitem decomposições multivariadas da desigualdade. Em
particular, permitem uma tentativa de isolar os efeitos de mudanças
educacionais dos demais componentes associados à estrutura e classes. Há, no
entanto, uma limitação nessas fórmulas: os "fatores" da decomposição são os
produtos de bkxk: ou seja, não temos como separar facilmente as variações nas
quantidades (a distribuição dos xk) das variações nos preços (bk), ao contrário
do que ocorre com as decomposições do GE(0).
Em suma, os dois tipos de decomposições cumprem papéis distintos. No caso do GE
(0), são decomposições univariadas - isto é, decomposições que só consideram
uma variável e, por isso, medem sua contribuição bruta para a desigualdade -
mas que permitem, com grande facilidade, investigar detalhes das mudanças1. No
caso das regressões, a decomposição multivariada permite avaliar as
contribuições "líquidas" de cada variável para a desigualdade total, ou seja, a
contribuição dada por uma variável mesmo quando mantemos constante um conjunto
importante de controles. Como sempre, não há exatamente uma decomposição
"melhor" do que outra; cada uma tem seus pressupostos e seus limites e o uso de
ambas serve para tornar mais robustas as evidências apresentadas.
Por fim, vale apenas lembrar que tanto as decomposições univariadas do GE(0)
quanto as decomposições multivariadas via regressão são feitas a partir de
medidas sintéticas da desigualdade, isto é, medidas que resumem toda a
informação sobre as distribuições de renda em um único número (ver discussão em
Fortin, Lemieux e Firpo, 2011). Com isso, explicar o que acontece em pontos
específicos da distribuição - por exemplo, entre os mais pobres ou entre os
mais ricos - está fora do escopo deste artigo.
QUEDA DA DESIGUALDADE E MUDANÇAS NO MERCADO DE TRABALHO ENTRE 2002 E 2011
Depois de grande estagnação, em especial nas regiões metropolitanas, durante
boa parte dos anos 1990, o mercado de trabalho brasileiro apresentou
comportamento muito positivo a partir de meados da década passada. Todos os
principais indicadores melhoraram entre o biênio 2002-2003 e 2011. A Tabela_2
traz dados relativos à força de trabalho ocupada e remunerada, exclusive
militares, que também não são contabilizados nas tabelas seguintes.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t02.jpg]
Todas as variações foram estatisticamente significativas. O percentual de
trabalhadores formais cresceu quase 12 pontos percentuais (p.p.), a renda média
real aumentou quase 22% e o número de horas trabalhadas caiu, ao mesmo tempo
que a desigualdade da renda diminuiu de acordo com os três índices.
No que diz respeito à desigualdade, particularmente, é possível chegar a
afirmações ainda mais fortes a partir das curvas de Lorenz para 2002 e 2011:
como não há interseção entre elas, pode-se concluir inequivocamente que houve
redução da desigualdade entre os dois anos não só para as três medidas
enumeradas na Tabela_2 como para todas as outras medidas comumente utilizadas.
Em suma, desde que as PNADs passaram a ir a campo anualmente, em meados dos
anos 1970, esta foi a primeira vez que se registrou um período prolongado de
crescimento da renda do trabalho com queda da desigualdade.
A Tabela_3 apresenta a distribuição da população ocupada e remunerada segundo
classes e a renda média de cada classe em 2002 e 2011. No primeiro caso, vemos
que a distribuição pouco mudou. As modificações mais relevantes ocorreram nas
classes mais pobres, com aumento relativo dos trabalhadores típicos e
encolhimento dos elementares, contas próprias precários e empregados
domésticos. No outro extremo da pirâmide social, o acesso à (grande)
propriedade praticamente não variou e, analogamente, houve pouca mudança no que
diz respeito às classes assalariadas mais abastadas. No geral, o índice de
dissimilaridade entre as duas distribuições é pequeno: pouco mais de 7% dos
casos teriam que ser reclassificados para que ambas fossem idênticas.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t03.jpg]
Quanto à renda média de cada classe, percebem-se mudanças mais expressivas.
Enquanto as classes com maiores rendas em 2002 tiveram flutuações menores e até
não significativas - o que implica que as variações que ocorreram em alguns
casos podem ser apenas um artefato estatístico - todas as classes com as piores
remunerações obtiveram ganhos expressivos e estatisticamente significativos. Ou
seja, enquanto a estrutura de classes pouco mudou, os salários relativos - isto
é, as razões entre os rendimentos médios do trabalho de cada classe - mudaram
muito mais, diminuindo a desigualdade entre classes.
Por que esse fenômeno ocorreu? Embora haja certamente diversos fatores em jogo,
as mudanças no perfil educacional da força de trabalho desempenham um papel
central. A distribuição por níveis educacionais e a renda média de cada nível
são apresentados na Tabela_4. Ao contrário da estrutura de classes, a
composição educacional dos trabalhadores ativos mudou muito: todos os níveis
inferiores perderam participação relativa e todos os mais altos ampliaram-se.
Todas as variações foram estatisticamente significativas, evidenciando o
crescente nível educacional das gerações mais jovens. As mudanças foram
particularmente intensas nos dois extremos da distribuição: o percentual de
indivíduos sem escolaridade ou apenas com o elementar incompleto caiu mais de 7
p.p., enquanto o de pessoas com ensino superior completo ou não cresceu 6,5
p.p. Com isso, pela primeira vez este último grupo se tornou mais numeroso do
que o primeiro. Enquanto o índice de dissimilaridade da distribuição das 13
classes foi de 7,4%, o da distribuição de apenas nove grupos educacionais
atingiu 16,8%.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t04.jpg]
Ao mesmo tempo, as mudanças nas remunerações médias também foram expressivas.
Por um lado, a mesma tendência observada anteriormente se confirma: o
crescimento da renda foi maior entre os menos escolarizados. Por outro, a renda
média dos indivíduos com maior escolaridade teve uma queda estatística e
substantivamente significativa, ao contrário do observado anteriormente para as
classes mais privilegiadas: enquanto o rendimento médio de um trabalho com
nível superior completo caiu 9% - em função sobretudo do aumento deste grupo ao
longo do tempo - , os rendimentos das classes com maior remuneração
apresentaram variações em geral positivas. A razão entre a renda média de um
trabalhador com ensino superior completo e outro sem escolaridade caiu 41%, de
9,5 para 5,6.
Em conjunto, as Tabelas3 e 4 mostram mudanças muito mais rápidas na
distribuição da educação do que na estrutura de classes. Como argumentamos,
desde sempre a educação tem sido apontada como um dos grandes determinantes da
desigualdade brasileira e o próprio conceito de "qualificação" constitui um dos
ativos mais relevantes na tipologia de classes utilizada. Governos quase nunca
conseguem mudar deliberadamente a estrutura de classes de um país no curto
prazo. A educação talvez seja o ativo produtivo mais sensível a políticas
públicas, mas os resultados disso podem reverberar nas relações de classe como
um todo, como se vê nas Tabelas 3 e 4, acarretando mudanças importantes na
estruturação da desigualdade.
DECOMPOSIÇÕES DA DESIGUALDADE MEDIDA PELO GE(0)
A Tabela_5 traz os valores absolutos e relativos dos componentes "entre grupos"
das decomposições estáticas do GE(0) para as duas variáveis de interesse -
classe e educação - e para a combinação delas em 2002 e 2011. Como discutimos
anteriormente, os valores indicam quanto as diferenças entre rendas médias
contribuem para a desigualdade total.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t05.jpg]
Os resultados mostram que a tipologia de classes explica um percentual maior da
desigualdade do que os grupamentos educacionais tanto em 2002 quanto em 2011.
Neste último ano, a desigualdade de rendimentos médios entre classes respondiam
por cerca de 40% da desigualdade total, contra pouco mais de 30% para a
desigualdade entre níveis educacionais. Como o GE(0) pode ser interpretado
contrafactualmente, esses números implicam que a desigualdade de renda do
trabalho cairia 40% caso as diferenças médias entre classes fossem eliminadas e
30% caso as diferenças de remuneração entre níveis educacionais desaparecessem.
Entre 2002 e 2011, a queda nas desigualdades "entre grupos" para classe e
educação foi mais rápida do que a queda na desigualdade total, de modo que o
peso relativo desses componentes diminuiu 4 p.p. nos dois casos. Em termos
absolutos, a queda do componente "entre grupos" para educação foi um pouco mais
forte do que para classes; em termos relativos, a magnitude foi muito parecida,
embora o poder explicativo da educação fosse menor inicialmente.
Como classe e educação estão correlacionadas e como as mudanças educacionais
foram mais intensas do que na estrutura de classes, isso sugere a possibilidade
de que apenas o componente educacional tenha de fato mudado, isto é, que toda a
queda observada no componente entre classes decorra apenas de mudanças
educacionais, como exploraremos mais adiante.
A combinação de classe e educação também apresentou quedas absolutas e
relativas. No entanto, vale observar que as variáveis educacionais acrescentam
pouca informação às de classes, mas as de classes acrescentam muita informação
às educacionais. Comparando a última decomposição com as duas anteriores, vê-se
que a contribuição marginal da adição da educação à decomposição por classes é
muito pequena, de pouco mais de 6 p.p. da desigualdade total. Já a contribuição
marginal da adição das classes à decomposição por educação é muito maior,
chegando a mais da metade do percentual explicado pela educação sozinha (em
2002, 50,9%-34,5% = 16,4%; em 2011, 46,4%-30,5% = 16,0%).
Até aqui, a análise baseou-se em decomposições estáticas, isto é, nos fatores
estruturantes da desigualdade em pontos específicos do tempo. Podemos também
decompor a mudança entre os dois anos para avaliar a importância de cada fator,
o que convencionalmente se chama de decomposição dinâmica da desigualdade.
A Tabela_6 mostra as contribuições relativas obtidas das decomposições
dinâmicas do GE(0) para as variáveis de estrutura de classes, de grupos
educacionais e a combinação entre ambas. Nos três casos, o efeito renda é o
mais importante: o principal componente da queda da desigualdade é a redução
das diferenças nos rendimentos relativos entre os grupos, confirmando o que foi
visto nas Tabelas 3 e 4. Na decomposição por classes, por exemplo, o maior
percentual de crescimento da renda média do trabalho para as classes mais
pobres respondeu por 52,1% da queda do GE(0), enquanto a queda da desigualdade
dentro das classes somou 34,4% e as mudanças no tamanho relativo das classes
ficaram com apenas 13,4%.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t06.jpg]
O efeito "puro", ligado às desigualdades internas aos grupos, foi mais forte no
caso da educação. Na prática, isso significa que tanto os grupos educacionais
quanto as classes tornaram-se internamente menos desiguais, isto é, mais
homogêneas, mas o ritmo foi maior no caso da educação. Contudo, como vimos na
Tabela_5, as classes utilizadas já eram e permaneceram sendo mais homogêneas do
que os grupos educacionais. Assim, não se deve exagerar a importância deste
resultado.
Finalmente, cabe notar que, nas três decomposições, o efeito alocação é
relativamente pequeno, chegando a ser negativo no caso da educação, isto é,
contribuindo para um aumento da desigualdade nesta decomposição. Em suma, a
mudança no tamanho relativo dos grupos educacionais entre os dois anos
contribuiu para um aumento da desigualdade. Mais uma vez, não se deve dar
importância desmesurada a este resultado, que era em certa medida previsível,
uma vez que o efeito alocação capta apenas mudanças ceteris paribus na
composição da população e houve grande aumento nos níveis educacionais com
rendimentos mais elevados.
Como separar as mudanças educacionais das mudanças na estrutura de classes? Em
outras palavras, como isolar a educação enquanto ativo produtivo estruturante
da desigualdade no mercado de trabalho e testar se, além dessas mudanças, houve
modificações correspondentes nos demais ativos que delimitam as relações de
classe?
As decomposições univariadas do GE(0) ofereceram, afinal, uma primeira
indicação: a variável "classes" capta mais dimensões do que a puramente
educacional e, por isso, explica mais a desigualdade total; além disso, a
contribuição mais forte para a queda da desigualdade vem de mudanças nos
salários relativos por níveis educacionais, mais do que por classes. Isso
sugere que as mudanças educacionais alteraram a relação entre educação e classe
e, portanto, é possível que os demais ativos destacados pela estrutura de
classes - a estrutura burocrática de organização do emprego e o acesso à
propriedade - tenham na realidade permanecido mais ou menos constantes.
Na próxima seção, estendemos a análise para decomposições baseadas em modelos
multivariados que nos permitem "isolar" os efeitos de cada variável em cada ano
e entre os anos. Ao contrário das decomposições acima, nessas decomposições via
regressão é possível investigar a influência de determinadas variáveis sobre a
desigualdade mantendo constantes uma série de controles, isto é, outros fatores
que também possivelmente afetam a distribuição de renda, mas que não são
centrais para este trabalho.
DECOMPOSIÇÕES VIA REGRESSÃO DA DESIGUALDADE NO MERCADO DE TRABALHO
As decomposições multivariadas com base em regressões foram aplicadas para 2002
e 2011 em três modelos distintos, sempre com o mesmo conjunto de variáveis de
controle: dummy para brancos ou amarelos; quatro dummies para as cinco
macrorregiões; dummy para áreas urbanas; duas dummies para as três áreas
censitárias da PNAD (municípios autorrepresentativos e não
autorrepresentativos, assumindo regiões metropolitanas como categoria de
referência); experiência (em anos) e experiência ao quadrado; tempo no emprego
atual (em anos) e tempo no emprego atual ao quadrado; e o logaritmo das horas
trabalhadas por semana. Além dessas, incluíram-se, no primeiro modelo, 12
dummies para as 13 classes discriminadas acima; no segundo, oito dummies para
os nove grupos educacionais; no terceiro e último, foram incluídas tanto as
dummies para educação quanto para classe. Em todas as regressões, a variável
dependente foi o logaritmo natural da renda do trabalho principal em reais de
2013. Modelos alternativos foram testados, tanto no que diz respeito à variável
dependente quanto às independentes, sem que os resultados tenham sido
substantivamente alterados.
As decomposições estáticas com os pesos relativos das variáveis para a
desigualdade em 2002 e 2011 estão na Tabela_7. As variáveis de classes mais uma
vez aparecem com maior poder explicativo do que a educação, ou seja,
representam maior percentual da desigualdade total do que as variáveis
educacionais. Isso ocorre tanto quando comparamos os dois modelos em separado
como quando olhamos para o modelo com os dois conjuntos de variáveis. Mais
ainda, a queda no percentual da desigualdade explicado pela educação foi maior
do que no das classes. Nos modelos em separado, o percentual da desigualdade
correspondente às variáveis de classes recuou 1,8 p.p., de 28,7% para 26,9%,
enquanto o dos grupos educacionais caiu 4,4 p.p., de 25,9% para 21,5%. Logo,
mesmo partindo de percentuais mais baixos, a queda foi maior para as variáveis
educacionais.
[/img/revistas/dados/v57n1/04t07.jpg]
No modelo com os dois conjuntos de variáveis, o contraste é ainda mais nítido:
o peso relativo das variáveis de classe fica basicamente constante, enquanto o
da educação recua mais de 3 p.p. Se em 2002 as classes respondiam por 2,6 p.p.
da desigualdade a mais do que a educação, em 2011 já eram quase 6 p.p. Os
números se tornam ainda mais chamativos quando lembramos que se trata de
estimativas conservadoras, uma vez que artificialmente removem todo o efeito
educacional da estrutura de classes, cuja construção almeja levar precisamente
o efeito "qualificação" em conta.
Vale observar que esses números não significam que a desigualdade entre classes
líquida da influência da educação tenha permanecido estática no período: como
vimos, as contribuições absolutas das variáveis dependem dos índices
específicos utilizados para medir a desigualdade. No caso do GE(0) e também de
outros índices, a magnitude da queda da desigualdade total foi tão grande que é
possível dizer que as contribuições absolutas de todas as variáveis diminuíram
no período. De fato, o que ocorreu é que a contribuição das variáveis de
classes caiu em termos absolutos em ritmo semelhante à da desigualdade total,
e, assim, seu peso relativo pouco mudou. Enquanto isso, o ritmo da queda da
desigualdade entre níveis educacionais foi fulminante - mais intenso do que a
já significativa queda da desigualdade de renda do trabalho como um todo - ,
fazendo com que a desigualdade entre eles caísse bastante em termos relativos.
Se considerarmos que no último modelo a inclusão das variáveis de classe e
educação permite isolar razoavelmente - ainda que artificialmente, como
dissemos - os efeitos das mudanças educacionais dos demais ativos estruturantes
das relações de classe e da demanda por emprego, parece lícito então
interpretar os resultados como sinais de que: a) embora tenha havido progresso
generalizado em termos absolutos, as mudanças educacionais foram mais rápidas
do que nas demais dimensões da estrutura de classes; e b) apesar de haver
espaço para o prosseguimento do processo no curto prazo, é provável que no
médio e no longo prazo essa contribuição das mudanças educacionais atinja seus
limites e a queda da desigualdade desacelere bastante, pois as demais dimensões
da estrutura de classes e da demanda por emprego passariam a constituir
gargalos para sua continuidade.
Finalmente, a Tabela_8 exibe a decomposição dinâmica da desigualdade entre 2002
e 2011 para o GE(0), seguindo o modelo de Fields. Em consonância com as
evidências anteriores, as variáveis educacionais são o principal elemento por
trás da queda da desigualdade. No modelo completo, a educação explica 28% da
queda do GE(0), e as classes, menos de 20%, reiterando a diferença de ritmo nas
mudanças educacionais vis-à-vis as demais dimensões captadas pela tipologia de
classes. Embora não seja o foco da nossa análise, chama a atenção também o
papel dos controles, que englobam sobretudo variáveis relacionadas à
segmentação do mercado de trabalho - por gênero, por região, por área de
moradia e afins - , o que é compatível com a literatura que destaca a maior
integração e menor segmentação como elemento também importante para a queda
recente da desigualdade (Ulyssea, 2007).
[/img/revistas/dados/v57n1/04t08.jpg]
Os resultados parecem corroborar a interpretação formulada acima. Todas as
variáveis contribuíram para a queda da desigualdade, o que aponta para a
robustez e generalidade do processo. No entanto, a diminuição das diferenças
entre níveis educacionais parece ter sido o grande motor do fenômeno, ao passo
que as demais dimensões estruturantes da desigualdade brasileira caminharam de
forma muito mais lenta. Ao menos no período em questão, a melhoria do perfil
educacional da força de trabalho em um contexto de poucas mudanças estruturais
na distribuição da população por classes serviu para aumentar a competição por
melhores postos e comprimir os diferenciais de renda, reduzindo a desigualdade.
Do ponto de vista normativo, parece seguro afirmar que se trata de um fenômeno
extremamente positivo. Afinal, os diferenciais salariais associados à
desigualdade de escolaridade vêm sendo apontados há décadas como um componente
estruturante da desigualdade brasileira, tanto pela literatura econômica quanto
pela sociológica. O argumento é bem conhecido: dada a alta desigualdade
educacional entre a população brasileira, haveria uma remuneração relativamente
desproporcional para as credenciais de educação no mercado de trabalho, devido
à escassez relativa de trabalhadores mais educados (Langoni, 1973; Ferreira,
2000; Barbosa Filho e Pessoa, 2008; Souza, Ribeiro e Carvalhaes, 2010). Nesse
sentido, os avanços educacionais nas últimas duas décadas parecem ter ensejado
um processo de erosão dessas "rendas" (Sorensen, 2000), aumentando a competição
entre os estratos de maior escolaridade.
Dado o peso histórico da educação na desigualdade brasileira e o fato de ser
uma área mais sensível a mudanças provocadas por políticas públicas do que a
estrutura de classes, é compreensível que as mudanças sigam o padrão acima. No
entanto, como ficou claro, em médio e longo prazos a continuidade do processo
de redução das desigualdades tende a depender cada vez mais das outras
dimensões aqui captadas pelas variáveis de classe, notadamente o acesso à
propriedade e a organização burocrática do trabalho, entre outras.
CONCLUSÃO
O objetivo principal deste artigo foi analisar as mudanças ocorridas na
estrutura de classes e no perfil educacional da força de trabalho brasileira na
última década, de forma a esclarecer melhor o papel das classes e da educação
na estruturação da desigualdade brasileira, tanto no que se refere ao nível da
desigualdade quanto à sua queda no período estudado.
No que diz respeito especificamente à queda da desigualdade, uma série de
explicações possíveis já foram levantadas, com destaque para aquelas
influenciadas pelas características da oferta de trabalho. Nessa linha, o
argumento principal ancora-se nas mudanças que aumentaram o nível de
escolaridade e deixaram a força de trabalho mais homogênea em termos
educacionais, o que acabou por diminuir os altos retornos para os trabalhadores
mais qualificados. Sem desconsiderar esse tipo de explicação, o texto procurou
investigar a questão a partir de um ponto de vista tipicamente sociológico,
qual seja, o da estrutura de classes. Em particular, tratou-se de tentar
entender em que medida houve mudanças em outros aspectos estruturais da
desigualdade, para além da educação.
Para isso, operamos a partir da tipologia de classes de inspiração neomarxista
de Santos (2005) e procuramos investigar especificamente o papel das classes e
da educação. Como tal tipologia baseia-se na distribuição dos ativos produtivos
e em sua liquidez em um contexto como o brasileiro, a ideia era verificar se as
mudanças observadas foram provenientes apenas de avanços educacionais ou se
decorreram também de mudanças relevantes na distribuição de outros ativos e na
organização do trabalho.
De início, mostramos que, enquanto a distribuição da força de trabalho ocupada
e remunerada por classes alterou-se pouco entre 2002 e 2011, a distribuição por
níveis educacionais mudou significativamente. As decomposições univariadas
estáticas do GE(0) mostraram que o percentual da desigualdade total explicado
pelas classes ou grupos educacionais diminuiu no período, o que significa, nos
dois casos, que a desigualdade entre grupos caiu mais rapidamente do que a
desigualdade total. Ainda assim, a desigualdade entre classes continua com
poder explicativo maior do que a desigualdade entre grupos educacionais. No
caso das decomposições dinâmicas, vimos que mudanças nas desigualdades
intraclasses e intragrupos educacionais foram menos importantes do que as
mudanças entre grupos para a queda da desigualdade.
Tudo isso confirma que a tipologia de classes utilizadas captura outras
dimensões estruturantes da desigualdade para além da educação, mas não responde
se essas dimensões também mudaram ou não. Para isso, recorremos à decomposição
proposta por Fields (2003) a partir de regressões lineares. Com o auxílio de
uma série de variáveis de controle, operacionalizamos um modelo apenas com
variáveis para classe, outro apenas com variáveis educacionais e um terceiro
com ambas.
Mais uma vez, a capacidade explicativa das variáveis de classes foi superior à
das educacionais. Mais importante do que isso, no entanto, foi observar o que
acontece com os pesos relativos de ambas quando controlamos pelas duas
simultaneamente: enquanto o percentual da desigualdade explicado pela educação
cai abruptamente, o das variáveis de classes permanece constante.
Em termos substantivos, isso aponta para duas conclusões: a) de fato o avanço
educacional parece ter sido muito mais importante para a queda na desigualdade
do que mudanças nas demais dimensões - acesso à propriedade, organização
burocrática da demanda por trabalho, entre outros - captadas pela estrutura de
classes; e b) caso esse processo continue é possível que ele atinja um limite
no médio e no longo prazo, pois essas outras dimensões da estrutura de classes,
que explicam parte significativa da desigualdade, tornar-se-iam entraves para
seu aprofundamento.
Finalmente, as decomposições dinâmicas via regressão corroboraram tal
interpretação, na medida em que, mesmo no modelo com ambas as variáveis, as
mudanças educacionais contribuíram de forma muito mais relevante para a queda
na desigualdade do que as mudanças na estrutura de classes. Em resumo,
portanto, o aperfeiçoamento das políticas educacionais nas últimas décadas
parece ter redundado de fato em um processo - necessário e positivo - de erosão
das "rendas" ligadas à educação, constitutivas desde sempre da estrutura da
desigualdade no Brasil. Assim, o papel da educação na estrutura de classes
brasileira parece estar mudando de forma rápida. No entanto, caso o objetivo
último seja o prosseguimento do processo de redução da desigualdade, parece
provável que outras dimensões institucionais da demanda por emprego adquiram
cada vez mais importância nos próximos anos.
NOTA
1. É possível fazer decomposições multivariadas do GE(0) a partir da combinação
de diversas variáveis, mas, na prática, isso é normalmente inviável pois requer
amostras grandes o suficiente para impedir a existência de células vazias.