Segurança e Defesa Nacionais: conceitos básicos para uma análise
Introdução
Desde o lançamento da primeira Política de Defesa Nacional (PDN) em 1996, no
governo Fernando Henrique Cardoso, se debate sobre a abrangência da mesma.
Mesmo com a publicação da sua equivalente no governo Luiz Inácio Lula da Silva,
não se chegou a um consenso sobre o tema, com praticamente duas visões, a civil
e a militar. Um bom exemplo da linha de pensamento militar é o texto de Darc
Costa (1999). Nele, o autor apresenta uma construção teórica, argumentada em
uma dita consagrada metodologia, na qual o planejamento de defesa estaria acima
de qualquer outro, e o mesmo teria como órgão central o Ministério da Defesa
(MD). Esta visão não é surpreendente entre os militares brasileiros, já que
estes foram profundamente influenciados pelo movimento dos jovens turcos que
estudaram na Alemanha entre os anos de 1910 e 1912, quando vivenciaram o país
mobilizado para a primeira guerra mundial e praticamente comandado pelo coronel
Erich Von Ludendorff, chefe do Estado Maior (Trevisan, 1993).
Uma excelente resposta a esta visão foi dada por João Paulo S. Alsina Jr
(2003), que, na discussão sobre o lançamento da primeira PDN e da criação do
Ministério da Defesa, faz uma rápida discussão teórica. O autor defende que o
trabalho de Barry Buzan e seus colaboradores sobre o conceito de segurança e
securitização, apesar de suas deficiências, tem a vantagem de superar as
amarras impostas pela visão funcionalista da Escola Superior de Guerra sobre
segurança. Tanto que Alsina Jr defende que defesa é a segurança militar
externa, ou seja, uma política pública setorial. Assim, este artigo tem como
propósito contribuir para este debate no Brasil, como Proença (1998) e Flores
(2002), trazendo à luz da experiência anglo-saxã, a definição da estrutura
hierárquica das Políticas de Segurança Nacional, Defesa e Estratégia. Tendo em
vista que esta análise está baseada na discussão sobre concepções acerca dos
conceitos envolvidos neste campo de atuação governamental, tais como segurança
e segurança nacional, também será apresentada a controvérsia sobre este tema na
literatura de Relações Internacionais. Por fim, será oferecida uma resposta à
difícil equação da relação civil-militar e o papel de cada um na elaboração
destas políticas.
Segurança e Segurança Nacional
A Segurança Nacional somente pode ser entendida como um problema político
quando se tem uma ideia razoavelmente clara sobre a natureza de uma ameaça e as
vulnerabilidades do objeto ao qual as ameaças são dirigidas. Esta distinção
entre ameaças e vulnerabilidades aponta para a importante divisão dentro de uma
política de segurança nacional, pois os Estados podem procurar reduzir as suas
inseguranças através da diminuição de suas vulnerabilidades ou enfraquecendo as
fontes de ameaças (Goldman, 1982, 64). Em outras palavras, uma política que
procure definir as ameaças à segurança nacional tanto pode ter seu foco para
dentro das fronteiras do país, a fim de reduzir sua vulnerabilidade por si
mesma, quanto para fora do Estado, procurando enfraquecer as ameaças externas
indo diretamente às suas causas, tanto por meio de negociações como de ataques
armados diretos. Quais são, então, as ameaças ou assuntos específicos de
segurança (security issues)?
Atualmente há duas grandes correntes em estudos estratégicos que defendem
perspectivas opostas quanto aos tópicos que devem ser considerados de Segurança
Nacional: a tradicional (ou "estreita") e a nova (ou "abrangente"). O debate
entre as duas posições cresceu pelo descontentamento com o imenso
"afunilamento" que o campo de estudos estratégicos sofreu pela obsessão militar
e nuclear da Guerra Fria.1 Este sentimento foi estimulado pelo aparecimento das
agendas econômica e ecológica no cenário internacional durante as décadas de
1970 e 19802, e mais tarde, pelo aumento das preocupações de identidades
nacionais e crimes transnacionais na década de 1990.3 Contudo, esse movimento
produziu uma "contra-reação", ou seja, um estreitamento dos estudos
estratégicos centrados em torno dos temas de ameaças e uso da força. O
argumento dos que defendem isso é de que a ampliação progressiva dos assuntos
tratados poria em perigo a coerência intelectual dos estudos estratégicos,
pois, ao se adicionar mais tópicos, acabaria por torná-lo vazio.
A maior parte dos tradicionalistas insiste no conflito militar como o elemento
chave para se entender a segurança e fizeram poucas tentativas de defender a
centralidade do Estado na análise de segurança, em grande parte, pela crescente
presença de atores não estatais nesta nova conjuntura. Porém, alguns ' como
Jahn, Lemaitre e Waever (Jahn et al, 1987) ' defendem o setor político como o
foco principal de análise, enquanto Mohammed Ayoob (Ayoob, 1995, 6-28) defende
o Estado como tal, e diminuem a importância do aspecto do conflito militar.
Apesar de pontos de vista diferentes, ambas as correntes definem o conceito de
ameaça em termos de ser externo ou vindo de fora, isto é, de fora da unidade de
análise mais aceita em Relações Internacionais, ou seja, o Estado. Como Ayoob
bem coloca, esta definição e o processo pelo qual se chegou a tanto podem ser
entendidos pelo fato de que as duas correntes refletem a trajetória de
trezentos anos de desenvolvimento histórico que pode ser traçado da Paz de
Wesphalia, até o fim da Segunda Grande Guerra. A evolução do sistema de Estados
europeus e sua interação com os processos de política interna de consolidação
nacional levaram à legitimação do sistema e dos participantes individuais.
Essas duas forças ' a interação entre os Estados soberanos e a grande
identificação dos indivíduos com seus respectivos Estados ' reforçou uma à
outra, e com tal reforço, criou-se a base para a tradição mais dominante na
literatura de Relações Internacionais, na qual a segurança vira sinônimo da
proteção contra ameaças externas aos interesses vitais e aos valores básicos de
um Estado. Por fim, Ayoob denomina essa corrente de "Conceito Ocidental de
Segurança" (Ayoob, 1995, 7).
Entretanto, ainda segundo Ayoob, essa definição de segurança não pode ser
aplicada na análise da situação de diversos países no mundo, primordialmente os
que já foram chamados de terceiro mundo, e hoje denominados de "Sul", em
desenvolvimento ou emergentes. Na sua busca por uma definição de um conceito
que melhor se aplique à realidade dos países em desenvolvimento, Mohammed Ayoob
elabora a ideia de que a dimensão internacional de segurança é inseparavelmente
interligada ao processo de formação do Estado (State building), sendo este o
núcleo da variável que determina a problemática da segurança dos Estados em
desenvolvimento (Ayoob, 1992, 63-80 e 1994, 15-28). Ou seja, a definição de
segurança por ele proposta tem como característica principal ser centrada no
Estado, enfatizando a conotação política do termo, e a maior empreitada na qual
os países em desenvolvimento estão empenhados desde a descolonização: a
formação do Estado (State building).
Isto porque, ao se tentar aplicar a definição ocidental de segurança na análise
da situação de países em desenvolvimento, verificar-se-ão grandes problemas de
conceituação. Como exemplo, Ayoob usa o primeiro e fundamental atributo deste
conceito, a proveniência externa das ameaças, pois a sensação de insegurança
que estes Estados sofrem emana largamente de dentro das suas próprias
fronteiras, ao invés de serem de fora delas. Apesar de essa situação não
significar a inexistência de ameaças externas, as ameaças internas têm maior
visibilidade, pois são abundantes nos países em desenvolvimento, podendo-se
arguir que tais conflitos frequentemente se transformam em conflitos
interestatais, devido ao fator de transbordamento dos mesmos para países
vizinhos com os mesmos problemas internos. Assim, as vulnerabilidades internas
dos Estados em desenvolvimento são as principais causas para o elevado número
de conflitos em diversas partes do globo abrangidas por esses países. Portanto,
a principal causa dessa situação ocorre devido às debilidades desses Estados.
Os baixos níveis de coesão social, legitimidade tanto do Estado quanto do seu
regime, são as raízes das causas da situação de insegurança em que se encontram
os países em desenvolvimento. Este baixo nível está relacionado à situação em
que estes países se encontram, ou seja, por estarem nos primeiros estágios do
processo de formação do Estado, e pela falta de tempo que os mesmos tiveram
para completar as diversas fases deste processo como ocorreu na Europa
Ocidental e na América do Norte. Isto ocorre porque, segundo Keith Jaggers
(1992, 29), conceitualmente, a formação do Estado pode ser bem definida como a
habilidade do Estado em acumular poder, sendo um processo pelo qual um governo
não somente cresce em produtividade econômica e coerção governamental, mas
também, em poder político e institucional, tendo assim, três faces distintas:
(a) poder como capacidade nacional; (b) poder como capacidade política; e (c)
poder como coerência institucional.
As definições de Jaggers são semelhantes às de Esward Azar e Chung-in Moon de
security software (1988, 77), que defendem que esse conceito é integrado por
três componentes primários: legitimidade, integração e capacidade política.
Portanto, pode-se dizer que o nível de segurança de um Estado está relacionado
ao grau de desenvolvimento político alcançado por um Estado. Além disso, ao se
tomar a definição de Charles Tilly (1985, 181) sobre o processo de formação do
Estado, pode-se complementar e estender o escopo dessa definição, pois, para
Tilly, o Estado é a principal fonte de violência organizada, onde os agentes do
Estado caracteristicamente agem em quatro atividades distintas: fazer a guerra;
formar o Estado; proteger da população; e extrair riquezas.
Tendo como base estas análises, pode-se concluir que o processo de State
Building pode ser descrito como o processo pelo qual o Estado não somente
cresce economicamente e mantém a coerção governamental, mas também tem poderes
políticos e institucionais, resultando no controle central do seu território e
população, como o monopólio legítimo sobre os meios de violência dentro das
fronteiras, e a capacidade de permear significativamente a sociedade que é
englobada por esse Estado.
A questão fica em como definir a segurança de um Estado. Por tudo que foi
visto, pode-se dizer que o significado de segurança será tão diverso quanto as
condições e as situações de diferentes Estados a que este conceito é aplicado,
assim como o processo de formação do Estado em países em desenvolvimento é
diferente dos países desenvolvidos, os primeiros enfrentam diferentes problemas
de segurança do que os outros, que são a falta de legitimidade de suas
fronteiras, instituições e regimes; coesão social inadequada; e ausência de
consenso da sociedade em assuntos sociais, econômicos e organização política
(Ayoob, 1995, 28). Portanto, os países em desenvolvimento estarão mais sujeitos
a se sentirem mais ameaçados do que os desenvolvidos.
Essa maior sensação de insegurança reforçou ainda mais a tendência de expansão
do conceito de segurança no mundo pós-Guerra Fria. Autores como Caroline Thomas
e Jessica Mathews propuseram a ampliação desse conceito para passar a integrar
a nova realidade do mundo. Thomas afirma que a segurança não se referia somente
à dimensão militar, mas a uma maior, que englobasse toda a existência do
Estado, como a procura por segurança interna através da construção do Estado
(nation-building), por sistemas seguros de alimentação, saúde, comércio e moeda
(Thomas, 1987, 1) ' uma visão diferente de formação do Estado, já que nesta
percepção, são os governos que moldam a realidade por meio de suas políticas
setoriais. Jessica Mathews, por exemplo, procura apontar as mudanças climáticas
e a devastação ambiental como as maiores fontes de insegurança nos anos
noventa, e que seriam os grandes desafios do novo milênio (Matthews, 1991, 362-
380). Entretanto, a própria Mathews reconhece que o impacto da degradação
ambiental em tópicos de segurança é muito difuso, sendo, portanto, problemática
a tentativa de se fazer esta correlação. Isto porque o declínio ambiental pode
levar ocasionalmente a conflitos diretos, especialmente quando recursos
hídricos escassos têm de ser divididos. Contudo, este impacto indireto na
segurança das nações é sentido somente quando os reflexos da degradação
ambiental afetam o desempenho econômico, e, indiretamente, na estabilidade
política (Mathews, 1991, 366). Assim, fenômenos como pobreza e degradação
ambiental deveriam ser analisados como ocorrências e variáveis que poderiam ser
ligadas ao campo da segurança, mas que na realidade não são partes constantes
dela.
Isto se dá porque o conceito de segurança precisa ser entendido como sendo
explicitamente no sentido político. O conceito de segurança deve ser aplicado à
segurança do Estado ' em termos de território e suas instituições ' e à
segurança daqueles que representam a territorialidade e institucionalidade
dele. Ou seja, uma situação de segurança/insegurança é definida em relação às
vulnerabilidades, tanto internas quanto externas, que ameacem ou tenham o
potencial de derrubar ou enfraquecer as estruturas do Estado (territorial e
institucional) e seu regime político (Ayoob, 1995, 9). De acordo com essa
definição, quanto mais um Estado ou regime pender para o lado da
invulnerabilidade no continuum vulnerabilidade-invulnerabilidade, mais seguro
ele estará. Outros tipos de vulnerabilidades, tanto econômica ou ecológica,
tornam-se componentes integrais da definição de segurança somente se eles se
tornarem tão críticos que passem a ter dimensões políticas e ameacem as
fronteiras do Estado, suas instituições, ou a sobrevivência do Sistema
Político. Em outras palavras, dívida externa, devastação de florestas
tropicais, ou até mesmo a fome não se tornam parte do cálculo de segurança a
não ser que elas possam vir a ter resultados políticos que tanto afetem a
sobrevivência das fronteiras do Estado, suas instituições ou enfraqueçam a
capacidade do Estado de agir efetivamente nos campos das políticas interna ou
externa.
Barry Buzan e seus colaboradores também definem segurança neste sentido (Buzan
et al, 1998, 21). Para eles, segurança é sobrevivência, ou seja, somente se
pode falar em segurança nacional quando um assunto é apresentado como sendo uma
ameaça real a algum objeto (tradicionalmente, mas não necessariamente, o
Estado, este incorporando o governo, território e sociedade). E utilizando-se
de um conceito defendido por Waever (Waever, 1995, 17) afirmam que a especial
natureza da ameaça justifica o uso de medidas extraordinárias a fim de lidar
com ela. Por essa razão, a invocação da segurança nacional tem sido a chave
para a legitimização do uso da força, mas geralmente ela tem servido como a
forma do Estado mobilizar, ou invocar poderes especiais, a fim de lidar com uma
ameaça existente.
Buzan e seus colaboradores ainda fazem uma profunda e interessante análise de
como esse processo se dá, ao qual eles denominam de "securitização". Para eles,
quando se invoca segurança nacional é o movimento que leva a política além das
regras do jogo estabelecidas e enquadra o assunto tanto como um tipo especial
de política ou acima dessa. Portanto, securitização pode ser entendida como uma
versão mais extremada da politização, pois, em teoria, qualquer assunto público
pode ser posicionado no espectro que varia do não-politizado (significando que
o Estado não lida com ele e de nenhum modo é tido como um tópico de debate
público e de decisões), passando por politizado (significando que o tópico é
parte de uma política pública, requerendo uma decisão governamental e alocação
de recursos), até a securitizado (significando que o tópico é apresentado como
uma ameaça existente, requerendo medidas de emergência, o que justifica ações
fora dos limites normais do processo político). Em princípio, dependendo das
circunstâncias, o posicionamento de qualquer tópico está em aberto, podendo
estar presente em qualquer parte do espectro, pois, como visto anteriormente,
uma questão pode ser conectada com outra e se dizer que é uma questão de
segurança do Estado (Buzan et al, 1998, 21). Esses teóricos ainda colocam que a
ligação de politização e securitização não implica, necessariamente, em ter que
passar pelo Estado, sendo possível que ambos possam ser feitos em outros
fóruns, como o Congresso nacional nas democracias.
Portanto, um tópico se torna de segurança não necessariamente por causa da
existência de uma ameaça real, mas porque ele é apresentado como uma ameaça. Os
três autores afirmam que é importante notar que o discurso de segurança não é
definido pelo uso da palavra segurança, mas sim a designação de uma ameaça
existente que requer uma ação emergencial ou medidas especiais, e a aceitação
disso por uma parte da população (Buzan et al, 1998, 22). A grande questão
passa a ser como combater estas ameaças.
Segurança Nacional e Planejamento de Defesa
Assim, a grande questão que se segue é como se dá o arranjo nas políticas
setoriais dos Estados a fim de garantir a sua segurança. Tendo em vista que,
para cada governo, a percepção de ameaça é diferente, as medidas tomadas também
serão diferenciadas de acordo com cada realidade. A aplicação das políticas
setoriais vai depender justamente desta percepção, fazendo-se necessário que se
realize uma análise do conjunto de decisões e ações adotadas por um governo
objetivando preservar ou criar, tanto interna como externamente, uma ordem
adequada aos seus interesses e valores mais importantes, não se podendo
descartar o uso da força. Neste caso, a política de defesa é somente mais um
dos instrumentos para tanto.
Consultando a literatura existente na área de defesa, pode-se constatar que os
conceitos de política de defesa nacional, política de defesa, planejamento de
defesa ou estratégia de defesa, são usados livremente e de forma a significarem
quase a mesma coisa. Em vez de decifrar a complexidade semântica da área de
segurança, Stephanie Neuman usou o modelo de teia-de-aranha (Neuman, 1984, 7),
que foi adaptado na figura-1 abaixo, para melhor pensar a respeito de todos
esses conceitos de forma conjunta e que resultou em uma maneira muito
apropriada de demonstrar a hierarquia das esferas políticas.
Pode-se afirmar essa hierarquização, porque, segundo esse modelo, a totalidade
da figura representa a Política de Segurança Nacional. Usando o termo no seu
sentido mais amplo, Newman argumenta que é nesta esfera que são articulados
tanto os interesses nacionais mais amplos, quanto os objetivos do país e os
meios (militares, econômicos, sociais e políticos) que serão usados a fim de
promover e protegê-los. Usando o exemplo norte-americano, a autora diz que os
interesses dos Estados Unidos são a preservação da integridade do Estado, o
bem-estar econômico dos seus cidadãos e as características do sistema socio-
político americano. Por isso, a fim de proteger esses interesses, os
formuladores de políticas americanos têm de resolver um grande número de temas
sociais, econômicos, militares e políticos, tais como se um imposto de
importação deve ser cobrado de sapatos italianos; quão longe se estendem as
águas territoriais americanas sob a lei dos mares; o direito de um esportista
estrangeiro permanecer no país; os termos de um acordo de limitação de armas
com outros países e etc. Todos esses assuntos, assim como centenas de outros,
afetam o bem-estar do povo americano, seus valores ou a soberania do Estado.
Por isso, as várias políticas setoriais ' saúde, impostos, comércio exterior,
agricultura, imigração, educação, defesa ' representam diferentes segmentos da
"teia-de-aranha", que juntos expressam os interesses políticos e de segurança
nacional dos Estados Unidos. Por fim, a autora frisa que formuladores de
políticas em outros países têm que enfrentar assuntos semelhantes. Apesar de
não identificado por Newman, é nesse nível, da Política de Segurança Nacional,
que várias decisões-chave devem ser tomadas, tanto pelo órgão responsável pela
defesa do país, como, e principalmente, pelo Presidente ou Chefe de Estado.
A primeira decisão é como o país define seus interesses nacionais, pois, para
que se formule qualquer política de defesa, esta deve ter como fundamento uma
clara concepção de interesse nacional, ou seja, têm que ser definidos por quais
deles o país estaria disposto a, em último instância, ir à guerra. A segunda
decisão é a identificação das ameaças a esses interesses. Para isso, o governo
deve fazer uma análise tanto do ambiente internacional para um curto período de
tempo, quanto para o de longo prazo, a fim de que se possam definir os
investimentos estratégicos a serem feitos. E, por fim, se não o mais importante
para as esferas seguintes, deve-se identificar os objetivos, pois são estes que
irão definir as políticas e alocações de recursos de todos os setores do
governo, e não somente o militar (Flournoy, 2001, 10-11).
Definidos os interesses nacionais, os objetivos e as ameaças a esses, há a
necessidade de conceber uma estratégia que estabeleça as responsabilidades de
cada setor do governo, ou seja, de cada ministério. Esta fase é importante
porque fica definido que, dentre os diferentes objetivos nacionais a serem
defendidos, quais serão aqueles de responsabilidade da área de militar, pois a
articulação entre os diferentes órgãos governamentais é importante para a não
sobreposição de esforços, a racionalização dos meios a serem empregados e o
efetivo controle dos meios militares pelo comando civil. Além disso, só com
estas definições é que se pode estabelecer as capacidades militares específicas
requeridas para a execução das missões que cabem ao órgão central de defesa de
um Estado (Jorndan et al, 1999, 189-197).
A Política de Defesa é, assim, a articulação entre os objetivos colocados pelo
mais alto órgão político e os meios militares. Para que essa articulação possa
ocorrer é necessário que se estabeleça na própria Política de Defesa, uma
estratégia, pois é nela que se provê a base para todo o planejamento e a
programação de prioridades para os órgãos integrantes da defesa. É importante
ressaltar que é na estratégia que se deve articular claramente as escolhas
sobre onde colocar ênfase, e onde e como assumir (ou administrar) os riscos,
pois não há planejamento que consiga eliminar todos eles (Flournoy e Tangredi,
2001, 137-139).
A escolha da estratégia vai conduzir o processo, pois algumas definições são
importantes para se prosseguir no planejamento militar. É nesse nível que se
tem que responder às perguntas fundamentais, tais como, quais as prioridades
estratégicas das forças armadas, o que elas devem ou não estar preparadas para
fazer, a fim de defenderem os objetivos de segurança nacional, como também,
quais as prioridades que devem ser dadas a cada tipo de missão. Porém, para se
chegar a tanto, é necessário fazer outros questionamentos, tais como: que tipo
de guerra as forças armadas devem estar preparadas para enfrentar nos próximos
10 a 25 anos? Neste caso, deve-se levar em consideração o mais amplo cenário
possível, pois, caso contrário, as forças estarão preparadas para somente um
determinado cenário, e não para outros.
Outras questões ainda a serem respondidas nesse nível são: em quais
circunstâncias e como as forças armadas devem ser usadas em operações de não
combate? Qual o papel da atualização frente às rápidas mudanças tecnológicas no
campo militar? Neste caso, não significa somente a compra de novos
equipamentos, mas também a modificação de conceitos operacionais, de doutrina,
de educação e treinamento e de estrutura organizacional. Por fim, há de se
definir os critérios para os tamanhos das forças e oferecer ao público em geral
a racionalidade dessa decisão, sendo que tipicamente o critério de
dimensionamento das forças delineia o número e os tipos de operações que as
forças armadas deverão estar preparadas a conduzir.
O próximo nível de decisão é o de planejamento de defesa, que envolve os planos
e decisões para a implementação da Política de Defesa. É neste nível que se
delineia os grandes objetivos militares do país e identifica as ameaças
percebidas, sendo que o planejamento de defesa tem como princípio a organização
das forças militares necessárias a fim de deter essas ameaças, ou que possam
lidar com elas, caso se concretizem. Esta concepção é bem resumida pelo antigo
Chefe do Estado-Maior Conjunto (JCF) americano John Shalikashvili, que afirmou
que a estratégia militar nacional dos Estados Unidos apontava os maiores
perigos que ameaçavam os interesses norte-americanos, identificava os objetivos
militares nacionais, determinava as missões militares que deveriam ser
executadas, a fim de atingir esses objetivos, e examinava as capacidades e
forças necessárias (Shalikashvili, 1997, 298-310). Por isso, Neuman utiliza-se
da análise de Lynn Etheridge Davis fez em relação à política nuclear americana
(Davis, 1975-1976, 24-25), aplicando o mesmo procedimento ao planejamento
militar convencional, dividindo-o em quatro categorias:
Política de Emprego (Employment Policy): como um país planeja o uso
do seu efetivo humano e material, a fim de evitar ou de viabilizar
uma guerra. Inclui as estratégias e táticas com a intenção de lidar
com as ameaças percebidas;
Política de Aquisição (Acquisition Policy): os tipos de
equipamentos militares que um país precisa comprar e os recursos para
tanto;
Política de Distribuição (Deployment Policy): onde um país aloca
suas tropas e material tanto em tempos de paz como em guerra;
Política Declaratória (Declaratory Policy): o que um governo afirma
publicamente sobre seus planos e política de defesa.
No nível mais ao centro da teia-de-aranha, aparecem a estratégia e a tática.
Neuman define estratégia como a ciência e a arte de empregar todos os recursos
de uma nação, ou coalizão de nações, a fim de atingir um objetivo específico da
guerra. Tática é relativo aos planos e ações que têm como fim a vitória de uma
específica batalha ou campanha.
Apesar da figura usada por Neuman ser muito ilustrativa para o entendimento das
esferas e ordenamento das diversas etapas do planejamento da estrutura de
defesa de um Estado, pode-se notar a falta de um fator muito importante, ou
seja, quais são os participantes e qual seu poder de decisão em cada um desses
níveis. Em nenhum momento a autora menciona qual o papel tanto dos militares
quanto dos civis.
As Responsabilidades de Civis e Militares
A Democracia requer que as forças armadas, assim como os outros setores não
eleitos do Executivo, sejam subordinadas aos funcionários eleitos. Paul W.
Zagorski aponta muito bem que a moderna teoria democrática dá a fórmula para se
estabelecer tal controle dos militares e de outros setores do Executivo, ou
seja, um único chefe executivo que controla um serviço civil, o qual, por sua
vez, é governado por normas legais e burocráticas (Zagorski, 1992, 51-55).
Assim, ao chefe executivo cabe designar os objetivos políticos, enquanto à
burocracia ' tanto civil quanto militar ' é suposta a execução ou administração
das políticas setoriais para se alcançar tais objetivos. Esta burocracia deve
ser organizada e recrutada em bases de competência técnica nos diversos campos
administrativos, ou seja, este sistema pressupõe que os militares estejam sob a
supervisão dos civis e a mando da Lei. Contudo, Zagorski faz a ressalva de que
as forças armadas não deveriam ser excluídas das discussões das políticas
públicas nas quais eles tenham pretensões justas de oferecer sua opinião
técnica.
Portanto, o controle civil sobre os meios militares é essencial para a
democracia. As dificuldades aparecem pelo fato de que tal controle requer
conhecimento e poder. O conhecimento implica um grau suficiente de entendimento
dos assuntos militares a fim de se formular políticas viáveis e críveis,
englobando tanto de modo geral os assuntos militares quanto à familiaridade com
suas próprias forças armadas. E poder implica na autoridade legal para se
compelir e a capacidade política para se induzir à obediência, ou seja, o
objetivo do controle civil é fomentar a lealdade das forças armadas ao sistema
político, enquanto preserva as instituições, profissionalismo e autonomia
militares (Zagorski, 1992, 147-149). Contudo algumas questões são fundamentais,
e dificilmente definidas: quais as questões que são internas às forças armadas,
sobre as quais a preservação do controle militar é essencial para assegurar a
autonomia, e quais as questões que são externas e requerem uma direção política
a fim de assegurar o controle civil?
Zagorsiki ressalta que esse debate ainda está indefinido, criando o potencial
para o conflito entre funcionários civis e militares. Apesar da maior parte dos
que analisam estas questões concordarem com os princípios básicos envolvendo o
controle democrático das forças armadas, o debate sobre o exato significado e
as implicações desses princípios são grandes. Isto se deve ao fato de que se a
autoridade política for muito generalista ao estabelecer objetivos e missões
para os meios militares, ela virtualmente estará abdicando das
responsabilidades em favor destas, ou então, se a autoridade política for muito
específica, ela estará se arriscando a entrar no micro-gerenciamanto das
questões militares, além de poder, no limite, partidarizar os militares. Outro
problema paralelo a este, existe com a noção de assessoramento militar e
decisões das lideranças civis nas políticas da área, pois sempre haverá
questionamentos de ambas as partes quando os civis não seguem o aconselhamento
dos militares, e isto pode gerar a desconfiança nestes como um não
reconhecimento do seu profissionalismo, ou então a desconfiança dos civis
quanto ao aconselhamento militar encobrir outros posicionamentos
corporativistas.
Por isso, há o debate sobre a natureza apropriada da extensão da influência
militar na formulação e execução na política de defesa. A busca dessa definição
já vem sendo debatida nos Estado Unidos há algum tempo como bem apontaram
Jordan, Taylor e Mazarr (Jordan et al, 1999, 189-197), sendo que a corrente
purista não nega a complexidade dos tópicos de segurança nacional, que são
reconhecidos como uma mistura de componentes econômicos, políticos e militares,
mas determinados pelos civis formuladores de políticas. Para os puristas, o
militar profissional é um expert no componente militar, sendo que a experiência
e o treinamento prepararam-no para fazer julgamentos sobre quais forças são
necessárias para uma missão e como estas podem ser mais eficazmente utilizadas.
Portanto, ao prover assessoria aos formuladores de políticas, os militares
deveriam confinar-se às considerações militares de uma política proposta. Ainda
segundo os puristas, aos militares não se deve perguntar por assessoramento
econômico ou político, pois estas áreas não são da competência deles.
Entretanto, há um outro grupo com outra visão, a fusionista, que não encara a
decisão militar nesses moldes.
A abordagem fusionista sustenta que, nas circunstâncias da segurança nacional
de um mundo com armas nucleares, não haveria considerações puramente militares,
pois o setor militar consome recursos significativos, assim como o uso da força
pode ter enormes implicações políticas, tanto doméstica como
internacionalmente, fazendo que decisões militares tenham consequências
econômicas e políticas e vice-versa. Por isso, ao dar o assessoramento, o
militar profissional deveria incorporar considerações político-econômicas
juntamente aos fatores militares.
A interpretação fusionista de uma maior participação dos militares na política
tem sido apontada como a solução para dois problemas. O primeiro seria que,
quando os militares incorporam perspectivas políticas nas suas funções, isto
faz que os seus assessoramentos se tornem mais influentes, realistas e
relevantes para as autoridades civis que estabelecem os objetivos estratégicos
do Estado, levando a um aumento do peso dos militares no processo político. A
segunda vantagem seria que haveria uma diminuição no hiato entre os fins
estratégicos definidos pelos civis e os meios militares disponíveis, ou mesmo
instruções confusas por parte dos civis para os militares. Por esse motivo a
maior parte dos líderes civis americanos tendeu a ser fusionista, assim como
uma parte dos militares também o foi. Tanto é assim que os presidentes
Eisenhower e, posteriormente, Kennedy instruíram tanto o estado-maior conjunto
a considerar fatores político-econômicos em suas formulações militares, como os
funcionários do Departamento de Estado a ouvirem as opiniões de militares
(Jordan et al, 1999, 189).
Entretanto, os críticos ao fusionismo, dentre eles Samuel Huntington, em seu
trabalho The Soldier and the State, têm alertado que o aumento da visão de
mundo dos militares a fim de incorporar a definição civil de "realidades
políticas", pode levá-los a atingir os níveis mais altos do processo político,
mas isso não seria o adequado para uma perspectiva militar para assuntos
estratégicos (Huntington, 1957, 163). Ainda segundo Huntington, o fusionismo
faz a instituição militar excessivamente civil, e assim se tornar suscetível
aos interesses políticos (particularmente aos domésticos) da liderança civil do
governo, levando tanto militares como civis ao risco de terem responsabilidades
interligadas de uma maneira confusa e debilitante. Para ele, um país e seu
processo de política de segurança nacional seriam melhor servidos por militares
que cultivassem seus valores organizacionais autônomos em uma instituição
politicamente neutra e profissional. Ao tal profissional militar seria
permitido separar-se de grande parte da sociedade que serve e estaria
preocupado, primordialmente, em desenvolver e aprimorar sua perícia funcional
de instrumento de guerra e de dissuasão. Assim, a análise de Huntington é mais
do que uma variação da visão purista, pois para ele é essencial o isolamento
cultural.
Ainda segundo alguns críticos do fusionismo, esse caráter profissional e a
autonomia institucional têm feito do militar um instrumento efetivo do processo
político, pois como os militares se tornam mais sensíveis às "necessidades
políticas", tanto no nível instrumental quanto no administrativo político,
surge um novo padrão organizacional. O caráter burocrático do militar fica
enfatizado, fazendo que os oficiais, gradualmente, redefinam seus papéis e
passem a se ver como gerentes de recursos, resultando que seu papel no processo
político seja dominado por suas prioridades administrativas. Além do mais,
segundo os seus críticos, o fusionismo acelera a convergência dos valores
militares e civis por todos os níveis do processo político, com o instrumento
militar, tomando cada vez mais os padrões e atitudes da grande burocracia
governamental. Estes críticos dizem que o estilo dominante da liderança muda do
tradicional modelo "guerreiro heróico" para o mais comum "gerente técnico", com
o mais alto escalão desenvolvendo um novo ethos "político-burocrático" que os
envolve mais ativamente, mas menos efetivamente, no processo político. Assim,
essa "convergência" entre militares e liderança civil tem impactos sérios tanto
no processo de política de segurança nacional, como no instrumento militar.
Edward Luttwak, um influente estrategista civil americano, criticou duramente
que o propósito militar não é ser "administrativamente eficiente", pois,
segundo ele, o conflito entre a eficiência civil e a eficácia militar vai de
cima a baixo da organização. O combate é diferente da atividade civil, e a
liderança na guerra é totalmente diferente do gerenciamento. Ele diz que o
oficial americano é um gerente em uniforme. Na verdade, as forças armadas
americanas são eficientes, elas somente não são muito efetivas (Luttwak, 1980,
38-53).
Portanto, enquanto muitos críticos do fusionismo claramente exageram os seus
pontos de vista, eles conseguem efetivamente chamar a atenção para um
importante dilema. A sofisticação política do militar, a sensibilidade, e seu
conhecimento funcional como instrumento da política são valores complementares,
contudo, eles estão sempre em tensão. Alguns críticos circunscrevem a esfera de
autonomia institucional, na qual o militar pode desenvolver seu ethos
profissional e conhecimento organizacional, como sendo necessário para
assegurar a efetividade da função do militar como um instrumento do processo de
política de segurança nacional.
Poder-se-ia, para uma melhor compreensão da participação de civis e militares,
elaborar um gráfico no qual ficaria mais clara essas responsabilidades, como
pode ser observado na figura número dois abaixo.
No gráfico pode-se observar com mais clareza a proposta de Zagorski, segundo a
qual a Grande Estratégia (como chamam os ingleses, ou Estratégia Nacional para
os americanos), ou seja, a coordenação feita no nível mais elevado da Política
para o emprego dos meios militares, políticos ou econômicos, em relação a
interesses nacionais, inimigos e ameaças, deveria ser formulada por civis com
assessoramento militar. Portanto, as concepções de Grande Estratégia
resultantes desse processo deverão ser críveis para os militares, a fim de que
não haja discordâncias profundas. O resultado seria a definição de uma
Estratégia, que por sua vez resulta em uma Política Militar, que é a designação
do número de homens, material bélico e outros recursos militares, além dos
princípios gerais de organização do sistema militar, e este também deve ser
feito sob controle civil com assessoramento militar (ou segundo Neuman, as
políticas de emprego, aquisição, distribuição e declaratória).
Para Zagorski a Estratégia Operacional (Estratégia Militar na figura), ou seja,
a maneira pela qual as guerras devem ser combatidas deverá ser desenvolvida
pelas forças armadas sob a direção e aprovação das autoridades civis. Já a
Tática, ou seja, como as forças são organizadas e empregadas a fim de se ganhar
as batalhas, deverá estar quase totalmente sob direção militar (Zagorski, 1992,
147-149).6 Vale a pena a ressalva que Zagorski faz de como esses componentes
tem de integrar-se de forma total coerentemente. Todo esse processo, bem
representado pelas figuras_1 e 2, evidencia quais as áreas abrangidas por cada
nível político e a participação de civis e militares em cada fase.
Conclusão
Na literatura internacional sobre segurança, não se conseguiu chegar a um
consenso sobre uma definição aceita tanto pela corrente tradicional como pela
nova. Entretanto, a visão de que segurança é sinônimo da proteção contra
ameaças externas aos interesses vitais e aos valores básicos de um Estado é a
mais aceita. Dentro deste debate, a crítica de Mohammed Ayoob sobre esta
concepção, que ele chama "Conceito Ocidental de Segurança" é irrefutável, pois,
para ele, ao se procurar visualizar as ameaças e vulnerabilidades, tanto
internas quanto externas de cada Estado, se poderá ter melhor explicação para
cada caso que se analise. Isto se dá porque, para ele, o foco da análise de
segurança tem que partir do princípio de cada Estado está em uma fase diferente
do processo de State Building. Assim, os baixos níveis de coesão social,
legitimidade tanto do Estado quanto do seu regime, são as principais causas da
insegurança interna dos países menos desenvolvidos.
Portanto, o conceito de segurança deve ser entendido como sendo explicitamente
no sentido político. Ele deve ser aplicado à segurança do Estado, em termos de
território, suas instituições e daqueles que o representam. Ou seja, uma
situação de segurança/insegurança é definida em relação às vulnerabilidades,
tanto internas quanto externas, que ameacem ou tenham o potencial de derrubar
ou enfraquecer as estruturas do Estado (territorial e institucional) e seu
regime político. O passo seguinte é como conseguir definir qual assunto pode
ser considerado dentro deste conceito.
Como defendido por Buzan, Waver e Wilde, qualquer assunto público pode ser
posicionado no espectro que varia do não-politizado, passando por politizado,
até securitizado. Somente se pode falar em segurança nacional quando um assunto
é apresentado como sendo uma ameaça real ao Estado, este incorporando o
governo, território e sociedade. A securitização se dá quando se invoca a
segurança nacional, o que possibilita levar a política além das regras do jogo
estabelecidas e enquadra o assunto tanto como um tipo especial, justificando o
uso de medidas extraordinárias, a fim de lidar com ela e legitimando o
processo. Portanto, um tópico torna-se de segurança não necessariamente por
causa da existência de uma ameaça real, mas porque ele é apresentado como uma
ameaça.
Partindo desse princípio e adotando o modelo de Stephanie Neuman, pode-se
diminuir a confusão sobre os conceitos de Segurança Nacional, Defesa Nacional e
Estratégia de Defesa, pois é possível visualizar de forma conjunta e de uma
maneira muito apropriada a hierarquia das esferas políticas.
No nível mais alto de decisão política está a Política de Segurança Nacional. É
nesta esfera que são articulados tanto os interesses nacionais mais amplos, e a
estratégia para articular quanto os objetivos do país e os seus meios
(militares, econômicos, sociais e políticos) que serão usados a fim de promover
e protegê-los. Estes instrumentos são organizados na esfera seguinte, nas
diferentes políticas setoriais, como saúde, monetária, comércio exterior,
agricultura, imigração, educação, defesa dentre outras.
Neste ponto que fica claro o escopo e a hierarquização das Políticas de
Segurança Nacional e de Defesa Nacional. Tomando por base que o processo de
securitização só pode ser feito no nível mais alto da tomada de decisão
política, por conseguinte, a implementação de políticas setoriais só pode ser
feita em um nível inferior, que, no caso de utilização dos meios militares, é a
Política de Defesa.
Como visto, a securitização se dá de acordo com a realidade de cada Estado. É
no nível mais alto da política que se vai definir quais os temas que devem ser
securitizados de acordo com as suas percepções de ameaças ou vulnerabilidades,
sejam eles internos ou externos. Assim, cada governo explicita quais os
assuntos que serão abordados pelos seus respectivos órgãos, mas que não
necessariamente serão resolvidos com o emprego do uso dos meios militares. Se
houver vulnerabilidades econômicas, por exemplo, o ministério responsável por
esta esfera de política é que será responsável pelas ações, como seria o caso
do ministério da saúde em casos da sua pasta. Se a securitização for feita em
relação a assuntos que devam ser solucionados via uso da força militar, esse
será o referencial para a política setorial específica, ou seja, a Política de
Defesa.
É com base nesse processo que, na Política de Defesa, estabelecem-se parâmetros
imprescindíveis para a área militar. É nesta política que se define a
estratégia a ser seguida, já que esta estabelece o planejamento e a programação
de prioridades para os órgãos integrantes da defesa e da formulação do
planejamento de defesa. Como visto, é neste nível que se fixa vários pontos
importantes para a estruturação das forças armadas de um país, como
prioridades, missões, emprego, atualizações, oferecendo ao público em geral a
racionalidade dessa decisão.
O próximo nível de decisão é o de Planejamento de Defesa, no qual devem ser
definidas a Política de Emprego, a Política de Aquisição, a Política de
Distribuição e a Política Declaratória. Por último, ficam a Estratégia
Operacional e a Tática, ligados diretamente ao emprego da força.
A definição do que fazer em cada nível só pode ser completa se também estiver
determinado quem participa desse processo, mais conhecido como o debate do
relacionamento civil-militar. Esse debate também não tem consenso,
principalmente no que se refere ao papel dos militares, tendo as correntes
purista e fusionista defendido lados opostos. Os puristas com a concepção de
que os militares devem se concentrar somente nos aspectos ligados ao emprego da
força, enquanto os fusionistas com a ideia de que os militares são parte do
corpo governamental que têm que participar de todo o processo político.
A figura elaborada pela Dra. Margareth Hayes facilita essa compreensão.
Partindo do nível mais alto da Política de Segurança Nacional até ao emprego da
força em campo, os dois lados participam, só que em proporções diferenciadas.
Quanto mais alto o nível político, maior participação civil e menor o militar,
chegando a inverter quando chega no nível tático.
Apesar de não haver consenso tanto para o conceito de segurança quanto para os
níveis das políticas governamentais dessa área, e muito menos para o papel dos
militares neste processo, esta estrutura teórica contribui para o ordenamento
desse debate, principalmente no Brasil, onde este assunto ainda é relativamente
recente.