Passado e presente nas relações Colômbia-Estados Unidos: a estratégia de
internacionalização do conflito armado colombiano e as diretrizes da política
externa norte-americana
Introdução
O texto a seguir envolve uma tentativa de resgate dos principais temas e
fundamentos das relações Colômbia-EUA, com ênfase analítica no período de
governo de Álvaro Uribe na Colômbia (2002-...). Aqui, a pretensão não é
exatamente uma análise da política externa norte-americana, mas uma reflexão de
como um país periférico, como a Colômbia, tem lidado com essa política. Há uma
hipótese subjacente nessa análise que aponta para uma interdependência entre os
assuntos internos e externos na realidade colombiana, sendo que a forma como se
desenvolve essa interconexão tem passado pelo tipo de relação que esse país
estabelece com os EUA.
Marcada por divisões geográficas, regionais, culturais, sociais, políticas e
econômicas que, na maior parte do tempo, foram equacionadas pela violência, a
Colômbia teve ao longo de sua história uma tremenda dificuldade para consolidar
sua unidade nacional e para garantir o funcionamento efetivo do seu Estado.
Dito de outra forma, o país tem convivido com um duradouro quadro de
incapacidade estatal para garantir soberania, mediar conflitos sociais e fazer
valer o Estado de Direito em várias partes do seu território, num ambiente de
cultura política de violência, de limites de participação política e de acesso
desigual aos recursos naturais. Nesse contexto, não é por acaso que a história
do país também tem sido marcada pelo surgimento de conflitos armados e pelo
desenvolvimento de economias ilegais. Na segunda metade do século XX, depois de
ter passado pelos conflitos da Guerra dos Mil Dias (1899-1902) e da Violência
Famosa (1948-1965), a Colômbia passou a vivenciar outro conflito interno
armado. A partir dos anos 1960, no auge da Guerra Fria e da Doutrina de
Segurança Nacional dos EUA, o país viu surgir grupos guerrilheiros de esquerda,
seguidos do aparecimento de organizações paramilitares de direita, que passaram
a estabelecer combates entre si e com o Estado. Desde então, o conflito armado
colombiano tem percorrido várias fases, e sido potencializado pela persistência
do quadro descrito acima e pelo desenvolvimento de outros fenômenos, tais como
as economias ilícitas do narcotráfico, do tráfico de armas e do contrabando.
Pode-se dizer que esse quadro e seus desdobramentos têm como consequência
fundamental o aumento da interdependência entre os planos interno e externo da
realidade colombiana. Nesse sentido, como esse texto pretende demonstrar, a
maneira como se equaciona essa interdependência tem envolvido percepções,
estratégias e abordagens políticas que se referem, entre outras coisas, às
relações entre a Colômbia e os EUA.
As relações Colômbia-EUA em perspectiva histórica: temáticas e fundamentos
Quando se analisa a história da política exterior colombiana, logo fica
evidente que, em grande parte do tempo, ela esteve permeada por uma forte
influência dos EUA. Seja por pragmatismo, convicção ou conveniência das elites
políticas e econômicas do país, ou por sugestões, intervenções ou imposições
dos EUA, o fato é que, desde a perda do Panamá, no início do século XX, a
Colômbia tem uma relação muito próxima aos norte-americanos. Um capítulo
fundamental dessa história está sintetizado na formulação da doutrina Respice
Polum, que teve início no governo de Marco Fidel Suarez (1918-1922) e
predominou na diplomacia colombiana ao longo do século XX. Segundo essa
doutrina, o país deveria adotar um alinhamento incondicional às diretrizes dos
EUA em matéria de política externa, sob a convicção de que, além de pertencer à
esfera de influência da "estrela polar do norte", a Colômbia poderia tirar
grande proveito dessa associação. Os pactos secretos com os EUA durante a
Segunda Guerra Mundial, o solitário envio de tropas para a Guerra da Coréia
(1951) e a participação ativa na expulsão de Cuba da OEA (1962) constituem
alguns bons exemplos de posições colombianas na política internacional afinadas
com as diretrizes da potência do norte. Não por acaso, no pós-Segunda Guerra, a
Colômbia foi grande receptora de recursos econômicos dos EUA, ficando atrás
apenas do Brasil nesse quesito, durante o período 1949-1974 (Pardo y Tokatlian,
1988; Tickner, 2000). Ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990, o espírito da
Respice Polum continuou orientando várias gestões, como a de Turbay Ayala
(1978-1982), que tomou medidas como: a assinatura de tratado de extradição com
os EUA; o rechaço à declaração franco-mexicana, que recomendava uma negociação
entre guerrilha e o governo de El Salvador; a participação do país na qualidade
de observador nas eleições salvadorenhas de 1982 (com o qual se dava
legitimação ao regime ditatorial); o envio de tropas colombianas para a
Península do Sinai para ajudar na garantia do cumprimento dos acordos de Camp
David sobre a paz no Oriente Médio; a permissão para a instalação de radares
norte-americanos em San Andrés, com o objetivo de monitorar o governo
sandinista na Nicarágua; e a decisão solitária na América Latina (somente
acompanhada pela ditadura Pinochet) de não apoiar a causa Argentina na Guerra
das Malvinas (Arana, 2004; Carvajal, 2005/2006).
Distanciando-se de uma visão estática das relações internacionais, é
fundamental reconhecer que o predomínio da doutrina Respice Polum não
significou que tudo nas relações externas colombianas tenha sido apenas
associação aos EUA. Pode-se dizer que, dependendo das condições, conjunturas,
objetivos e orientações, alguns governos colombianos estabeleceram diretrizes
de política externa de distanciamento e de relativa autonomia em relação aos
EUA. Uma diretriz emblemática dessa reorientação foi inaugurada pelo então
ministro das relações exteriores do governo de Carlos Lleras (1966-1970) e
depois presidente do país, Alfonso López Michelsen (1974-1978). Numa
perspectiva de diversificar as relações externas e alcançar uma maior esfera de
atuação no sistema internacional, foi elaborada a doutrina Respice Simila, ou
seja, mirar as nações semelhantes em grau de desenvolvimento, como a América
latina, por exemplo. (Tickner, 2000; Arana, 2004; Ramírez, 2004). Esse é o
horizonte em que podem ser entendidas algumas posturas de política externa da
gestão Alfonso López, tais como: o apoio sistemático ao Panamá na assinatura do
tratado de Carter-Torrijos, no sentido de que esse país assumisse o controle do
canal interoceânico; o reatamento das relações diplomáticas com Cuba em 1975; o
empenho para avançar nas negociações do Pacto Andino; etc. Também é o clima em
que se desenvolveu a política externa de três outros governos colombianos, a
saber: o de Belisario Betancur (1982-1986), marcado pela presença ativa da
diplomacia colombiana no Grupo de Contadora (1983) e no Consenso de Cartagena
(1984), buscando saídas multilaterais para problemas latino-americanos, e
também pela formalização da entrada da Colômbia no Movimento dos Países Não-
Alinhados; o de Virgilio Barco Vargas (1986-1990), caracterizado por um empenho
sistemático e programático de expansão das relações externas do país, sem
considerações ideológicas; e o de César Gaviria Trujillo (1990-1994), que
incluiu o país na Associação de Estados do Caribe (AEC) e assumiu a presidência
do Movimento dos Países Não-Alinhados. Note-se, no entanto, que essas posições
autonomistas no manejo das relações externas esbarraram, muitas vezes, nos
limites e nas dificuldades peculiares à diplomacia de países frágeis como a
Colômbia, tendo que retroceder posições em temas econômicos, por exemplo, nos
quais o poder dos EUA e dos organismos financeiros internacionais impôs duros
constrangimentos. Além disso, a ampla relação entre os assuntos internos e a
conjuntura internacional ' principalmente no que diz respeito ao tema do
combate às drogas, a partir da década de 1980 ' contribuiu decisivamente para a
"internacionalização" das questões internas, condicionando as possibilidades e
estabelecendo limites a uma política externa de caráter mais autonomista.
Do lado dos EUA, historicamente, sua política externa na América Latina foi
movida por preocupações relacionadas à sua segurança nacional, às suas
políticas domésticas e aos interesses de suas grandes empresas, configurando
uma história de mudanças periódicas cíclicas, com continuidades e modificações,
dependendo de variáveis como o volume de negócios, o grau de adesão das elites
latino-americanas, a resistência de vários segmentos sociais latino-americanos,
a importância de um determinado país no sistema de segurança hemisférica, etc.
Por essas razões que a diplomacia norte-americana nem sempre tratou as
distintas regiões da América Latina de forma homogênea. Em relação à Colômbia '
depois de patrocinar a fragmentação do seu território no episódio do canal do
Panamá, nos marcos do Big Stick, e, na década de 1930, no horizonte da Política
de Boa Vizinhança, de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), utilizar o país como
um dos grandes fornecedores de matérias-primas (platina e petróleo)
fundamentais à sua corrida armamentista ' a atenção dos EUA para esse país foi
retomada no contexto da Guerra Fria, assumindo a Colômbia como "nação amiga" na
sua luta contra as influências de origem soviética no hemisfério. Nessa
perspectiva, as Forças Armadas colombianas foram enquadradas na Doutrina de
Segurança Nacional norte-americana, com os EUA fornecendo apoio financeiro,
militar, técnico e logístico aos militares colombianos para a luta contra
grupos sociais e movimentos guerrilheiros de esquerda. Além disso, o país foi
palco de programas de cooperação econômica e social, nos marcos da Aliança Para
o Progresso, de John F. Kennedy (1961-1963), e de expansões das corporações
norte-americanas.
A partir da década de 1970, com o presidente Nixon, os EUA incluíram na sua
Doutrina de Segurança Nacional a luta contra a produção e comercialização de
drogas ilícitas, fato que teria, nas décadas seguintes, profundas implicações
nas suas relações com a América Latina, especialmente com a Colômbia. Com
Ronald Reagan (1981-1989), a política de combate às drogas esteve completamente
subordinada às diretrizes da política exterior dos EUA. Nesse sentido, o tema
das drogas, longe de ser tratado como um problema de saúde pública, de
desajuste social ou da própria política proibitiva interna dos EUA,
transformou-se numa questão de segurança nacional, pois os estrategistas
conservadores logo trataram de relacionar o problema com agentes externos, tais
como uma "conspiração de latinos" (Tena, 2000; Rodrigues, 2004).
Em 1982, foi aprovada a Defense Autorization Act, que permitiu ao exército
norte-americano participar da luta contra as drogas. Em abril de 1986, o
governo Reagan incorporou à doutrina de segurança nacional a National Security
Decision Directive (NSDD), que estabelecia a aliança entre terrorismo de
esquerda e narcotráfico como uma ameaça letal para a segurança nacional dos
EUA. Com a reformulação da doutrina de segurança nacional, a administração
Reagan aumentou a pressão sobre determinados governos latino-americanos no
sentido de erradicar os plantios e reprimir o tráfico de drogas. Além de
ameaças do uso da força, pressões políticas, econômicas e diplomáticas e o
treinamento e apoio logístico de forças policiais e militares latino-americanas
antidrogas, o governo dos EUA estabeleceu a Certificação. Por meio desse
mecanismo, o Congresso norte-americano passou a monitorar e avaliar os esforços
antinarcóticos de cada um dos países latino-americanos, suspendendo a
assistência econômica, impondo sanções comerciais e vetando empréstimos de
organismos internacionais de crédito aos países que não estivessem de acordo
com as suas diretrizes. A vitória na Guerra Fria no final da década de 80,
selada mais tarde com a queda do muro de Berlin (1989) e a desintegração da
URSS (1991), levou, imediatamente, a política externa norte-americana a
substituir o comunismo pelo narcotráfico como a grande ameaça proveniente da
América Latina à segurança nacional dos EUA. A administração George Bush (1989-
1992) retomou a expressão "guerra às drogas" para lançar a National Defense
Authorization Act (1989), que mobilizou o Departamento de Defesa na luta contra
o narcotráfico. Assim, o mundo pós-guerra fria nascia para a América Latina sob
a ingerência da política norte-americana de combate ao narcotráfico. A
estratégia militarista repressora de combate à oferta de drogas seria uma
poderosa justificativa para a crescente militarização da política de segurança
norte-americana na região, tendo a Colômbia como um dos palcos centrais dessa
política. O país ' com longa tradição contrabandista, localização geográfica
com acesso as duas costas dos EUA, terras férteis, clima adequado, mão-de-obra
abundante e Estado debilitado ' estava se convertendo em um dos maiores centros
de produção e tráfico de drogas ilícitas do mundo.
Em decorrência desse cenário, não é difícil perceber que, a partir da década de
1980, a política de segurança dos EUA em relação ao combate às drogas ilícitas
iria determinar a agenda desse país para a Colômbia, sobrepondo e influenciando
outras temáticas, como democracia, livre comércio e dívida externa.
Definitivamente, a crescente participação da Colômbia na produção e no tráfico
de maconha, cocaína e heroína e o recrudescimento do seu conflito armado
converteram oficialmente o país, aos olhos dos EUA, numa ameaça à estabilidade
regional e à segurança nacional norte-americana (Pardo, 1997; Rivillas, 2002;
Riaza, 2004).
Apesar de algumas ressalvas iniciais das administrações colombianas de
Betancur, Barco e Gaviria em assumir integralmente as definições, diagnósticos
e as estratégias norte-americanas acerca do tema do combate às drogas, aos
poucos, os governos colombianos foram sucumbindo à visão dos EUA. Isso ocorreu
devido à conjunção dos seguintes fatores que se seguem: primeiro, as imensas
dificuldades do debilitado Estado colombiano para deter o crescente poder do
narcotráfico no país, inicialmente o dos cartéis de Cali e Medellín, e depois o
dos inúmeros "micro-cartéis" regionais; segundo, os tremendos recursos
econômicos gerados pelo narcotráfico, que, além de contribuírem para exacerbar
os históricos índices de violência e de corrupção, também incrementaram o
poderio dos paramilitares de direita e das guerrilhas de esquerda, fazendo que
o conflito interno armado assumisse dimensões trágicas e gigantescas em números
de mortos, feridos, desaparecidos, sequestros, massacres e refugiados;
terceiro, as intensas pressões, ameaças e sanções dos EUA, que atingiram o
ponto máximo no governo colombiano de Ernesto Samper (1994-1998), no qual os
norte-americanos tiraram a Certificação e qualificaram o país como uma
"narcodemocracia", o que contribuiu para, entre outras consequências, debilitar
ainda mais o Estado colombiano, a perda de credibilidade do país no exterior e
a deterioração da situação econômica; quarto, a percepção de determinados
grupos sociais, econômicos e políticos colombianos de que a internacionalização
da política antidrogas, nos marcos dos EUA, poderia ser vantajosa para a
realização dos seus objetivos internos; quinto, a percepção de vários setores
da sociedade de que o debilitado Estado colombiano não possuía capacidade para
derrotar os grupos armados ilegais, necessitando de ajuda externa para
enfrentar o conflito armado interno.
E foi durante os governos de Bill Clinton (1993-2001) e de Andrés Pastrana
(1998-2002) que a confluência desses fatores desembocou numa completa
internacionalização da situação interna da Colômbia, evidenciada no Plano
Colômbia, financiado quase que exclusivamente pelos EUA. Do lado colombiano, no
início de seu governo, Andrés Pastrana apresentou o seu plano de
desenvolvimento, denominado "Cambio para construir la paz 1998-2002", no qual,
por um lado, apostava numa solução negociada com os movimentos insurgentes, e,
por outro, sustentava que o cultivo de substâncias ilícitas era, antes de tudo,
um problema social que deveria ser tratado de forma multilateral mediante uma
espécie de "Plano Marshall" para Colômbia. Nos termos do plano, tratava-se de
"internacionalizar a paz para 'desinternacionalizar' o conflito", ou seja,
buscar recursos de governos e organismos multilaterais para fortalecer
institucionalmente o Estado e desenvolver a economia, criando condições
econômicas, sociais e ambientais que propiciassem uma paz integral (Restrepo,
2001). Porém, a falta de envolvimento pleno da comunidade internacional,
sobretudo financeiro, e as dificuldades estruturais para cumprir os objetivos
do plano inviabilizaram essa estratégia. Nesse sentido, o governo colombiano
passou a considerar outra perspectiva, que foi recorrer a uma aliança tática
com os EUA para a resolução da sua situação interna. Não foi em vão que, em
setembro de 1999, quando mostrou sua versão do Plano Colômbia aos norte-
americanos, o presidente Pastrana, interessado na ajuda econômica desse país,
já havia mudado seu diagnóstico e estratégia, apresentando a Colômbia como um
país "problema", incapaz de garantir os monopólios estatais do uso da força e
do controle do território, diante do poder crescente do narcotráfico e das
guerrilhas. (Tickner, 2007). Ou seja, buscava o apoio dos EUA para a resolução
dos seus problemas internos, dentro da linguagem que os norte-americanos
estavam dispostos a cooperar. Estava de volta, de forma evidente, o espírito da
Respice Polum. Nascia, assim, a versão norte-americana do Plano Colômbia,
escrita apenas em inglês, baseada essencialmente na sua política antidrogas.
Do lado dos EUA, embora inicialmente o governo Clinton tenha apoiado o primeiro
plano de paz de Pastrana, uma conjunção de percepções e interesses ' de
diversas forças políticas e econômicas que possuem peso na elaboração da
política externa norte-americana ' sobre a situação colombiana, levou o país a
atender aos pedidos da Colômbia por mais recursos financeiros, porém, a
destinação dos recursos ocorreria de acordo com as visões, estratégias e
objetivos norte-americanos. Em outros termos, as percepções negativas do
Departamento de Defesa dos EUA sobre a capacidade do Estado colombiano para
enfrentar os conflitos internos, aliadas aos interesses econômicos e
geopolíticos dos grupos de pressão, da comunidade deexperts e da composição
partidária e ideológica do Congresso dos EUA naquele momento, levaram o governo
norte-americano a intervir diretamente com um pacote de ajuda, fundamentalmente
militar, para a Colômbia, baseado na sua histórica visão sobre o problema do
narcotráfico (Rivillas, 2002).
O Plano Colômbia, previsto inicialmente para durar até dezembro de 2005, previa
um investimento de US$ 7,5 bilhões, dos quais os EUA forneceriam US$ 1,3 bilhão
(US$ 47 milhões para o Equador). O governo colombiano aplicaria US$ 4 bilhões,
sendo que 80% dos recursos viriam de financiamento externo e 20% de ajuste
fiscal e de impostos sob controle do FMI, e o restante viria de países europeus
e instituições internacionais. Foram muitos e controversos os aspectos que
envolveram a criação desse plano, transcendendo inclusive à própria dimensão do
combate às drogas. No que se refere à questão de luta contra o narcotráfico, o
plano teve como linha mestra a política norte-americana, que estabelece o
consumo de droga no seu país não como um problema de demanda interna, mas como
de oferta externa, traduzindo-se imediatamente numa estratégia baseada na
erradicação dos cultivos mediante a fumigação e a militarização do combate nos
países produtores. Nesse sentido, embora o plano contemplasse propostas
sociais, econômicas, políticas, jurídicas e de Direitos Humanos, o caráter
bélico e repressor constituiu o seu eixo central, consumindo a maior parte dos
recursos. Outra questão a ser notada é que parte do montante financeiro inicial
destinado a fins militares na Colômbia foi utilizada diretamente para a compra
de serviços e equipamentos militares de empresas norte-americanas, como a Bell
Textron, a Lockheed Martin, a Military Professional Resources e a United
Technologies. Esse plano colocou a Colômbia no seleto grupo composto por
Israel, Turquia e Egito, principais países receptores de armamentos pesados e
semipesados, treinamento de forças de elite e de assessoria em inteligência
militar por parte dos EUA.
Em larga medida, pode-se dizer que essa dimensão militarista também teve como
alvo a expansão das ações das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)
e do Exército de Libertação Nacional (ELN) no conflito interno colombiano,
dando ao plano um caráter antiinsurgente, ainda que de forma velada, pois,
oficialmente, o Congresso norte-americano limitou as ações ao combate ao
narcotráfico. A crescente utilização de recursos econômicos do narcotráfico
pelas guerrilhas serviu para os EUA unificarem os problemas do narcotráfico e
das guerrilhas, sob o tema de combate à narcoguerrilha. Importa destacar que,
além das relações com o narcotráfico, as ações das guerrilhas colocavam
problemas aos interesses e princípios dos EUA no país, na medida em que as FARC
e a ELN se colocavam contra a agenda neoliberal do "Consenso de Washington",
atacavam e extorquiam corporações norte-americanas, geravam instabilidade
regional e cometiam sequestros e assassinatos contra cidadãos dos EUA. Assim,
assessorados por estrategistas militares norte-americanos e apoiados por uma
ampla base tecnológica de radares, aviões, helicópteros e materiais bélicos
disponibilizados ou vendidos pelos EUA, as Forças Armadas do Estado colombiano
passaram a aplicar uma dura ofensiva contra os grupos guerrilheiros.1 Por fim,
essa crescente militarização promovida pelo Plano Colômbia também teve como
objetivo garantir a segurança e os interesses econômicos de grandes corporações
dos EUA presentes no país. Sob esse aspecto, as atividades das companhias
petrolíferas norte-americanas na região assumem a maior relevância, e as
corporações são muitas: OXY, Texaco, Harken, Chevron, BP-Amoco, Reliant, Eron,
Global, Halliburton. Estudos da Associação Internacional de Jornalismo
Investigativo (ICIJ), com sede em Washington, revelaram que a aprovação do
Plano Colômbia pelo Congresso norte-americano ocorreu mediante um pesado
lobbyde empresas petrolíferas interessadas nas reservas colombianas e na
segurança de seus negócios no país. Segundo a investigação, entre 1995 e 2000,
essas companhias investiram US$ 92 milhões em lobby para a aprovação do
projeto.2
Pode-se dizer que, com a adoção do Plano Colômbia, a Colômbia incorporou
definitivamente a estratégia militarizada norte-americana de combate ao
narcotráfico, com os EUA reeditando sua antiga estratégia da "Guerra de baixa
intensidade", na qual oferecem recursos econômicos, logísticos e militares para
que seus aliados possam implementar seus combates internos em sintonia com os
objetivos norte-americanos.
Vistos em conjunto, todos esses fatos que envolveram a formulação do Plano
Colômbia nos remetem a vários elementos fundamentais das relações Colômbia-EUA
discutidos até aqui. Não é difícil constatar, por exemplo, que se trata de
relações completamente assimétricas, nas quais prevalecem a agenda dos EUA, bem
como suas definições, diagnósticos e estratégias acerca do tema. No que se
refere ao lado norte-americano, parece ter ficado evidente que sua relação com
a Colômbia depende de como se definem os interesses e os objetivos gerais de
sua política externa, levando em conta sua segurança nacional, suas políticas
domésticas e os interesses de suas grandes empresas. Nessa perspectiva,
dependendo dessas condições, a Colômbia pode ter uma atenção maior ou menor dos
EUA. Do lado colombiano, a recorrência ao Respice Polum como estratégia de
política externa para viabilizar a agenda interna faz que, inevitavelmente,
suas elites governantes tentem vincular os assuntos do país aos interesses e
temáticas centrais da política externa norte-americana, sob pena de perder
importância na agenda dos EUA. Essa opção traz benefícios, como a recepção de
grandes recursos econômicos e militares para um Estado debilitado, porém pode
trazer vários custos, como verificaremos a seguir, entre eles, a falta de
autonomia para formular a política externa e a possibilidade de alterações nas
prioridades de interesses da política externa norte-americana.
Álvaro Uribe e a política de segurança dos EUA no pós-11 de Setembro
Todas essas estratégias que envolveram a criação do Plano Colômbia ganharam
mais vigor com a conjuntura criada no início deste século, que apresentava, do
lado colombiano, a ruptura do processo de negociação de paz com a guerrilha, a
exigência de grande parcela da população pelo fim do conflito interno armado e
a eleição do outsider Álvaro Uribe Vélez (2002-2006), e, do lado norte-
americano, a publicação da nova doutrina antiterrorista do governo Bush após o
11 de Setembro. Álvaro Uribe e George W. Bush, seguindo suas respectivas
estratégias, interesses e objetivos, compartilharam a idéia de que as
guerrilhas são grupos de terroristas que controlam o narcotráfico e ameaçam a
segurança regional e mundial. Logo após sua posse, interessado em avançar na
estratégia de internacionalização dos conflitos internos para cumprir sua
agenda doméstica, Álvaro Uribe afirmava que: "Na Colômbia não existe guerra,
aqui temos terrorismo de grupos armados contra o Estado e a sociedade, e, isto
deve ser resolvido rapidamente" (Uribe apud Quiroga, 2003: 164). No mesmo
sentido e na mesma época, com interesses econômicos ligados ao petróleo, gás
natural e carvão e reafirmando os compromissos norte-americanos com a
democracia, a segurança hemisférica, o livre comércio e os Direitos Humanos, o
governo dos EUA se pronunciava por meio do seu Secretário de Estado para
assuntos do Hemisfério Ocidental, Otto J. Reich, dizendo que: "A Colômbia pode
derrotar os terroristas, mas necessita de ajuda dos amigos. Nossos valores,
nossa segurança e o futuro do nosso continente estão ligados à vitória da
Colômbia em sua guerra contra o terrorismo [...] O presidente Bush já pediu ao
Congresso autorização para oferecer ajuda militar e de inteligência ao governo
colombiano para sua guerra contra o terror" (The Washington Times, 19/6/2002).
Portanto, o Plano Colômbia foi inserido na estratégia norte-americana de
combate ao terrorismo, transformando o governo de Uribe num grande aliado da
nova política de segurança dos EUA.3 Com Bush e Uribe, ficou estabelecido
publicamente o caráter antiinsurgente do Plano Colômbia. Assim, o conflito
interno colombiano se transformou numa frente adicional da guerra dos EUA
contra o terrorismo internacional, com os norte-americanos ampliando o seu
papel na situação doméstica colombiana, mediante seus diagnósticos, políticas e
interesses. Os resultados desse processo serão analisados mais à frente, mas
não custa, desde já, concordar com a observação de Pablo Celi (2007), de que as
definições de segurança difundidas pelos EUA podem representar vários problemas
para os países que as adotam integralmente, pois, sujeitas a fatores
ideológicos e outros interesses, essas definições induzem percepções
equivocadas das realidades locais, impedindo seu melhor conhecimento e
tratamento.
Com o apoio dos EUA e de diversos setores da sociedade colombiana, o presidente
Uribe colocou em ação sua política interna, com a chamada "Política de
Segurança Democrática", com o objetivo de recuperar "a legitimidade, a
legalidade e a governabilidade do Estado colombiano", com destaque para os
seguintes pontos: o controle do território e da soberania nacional; a segurança
dos cidadãos; o combate às drogas ilícitas e ao crime organizado; o
fortalecimento do serviço de Justiça; o desenvolvimento das regiões pobres e de
conflito, com programas produtivos e de paz; a promoção e a proteção dos
Direitos Humanos; e a cooperação em programas bilaterais e multilaterais para a
proteção das fronteiras (Departamento Nacional de Planeación, 2003). Para
atingir essas metas, Uribe, em seu primeiro mandato presidencial, tomou uma
série de medidas, tais como: a criação de uma rede de informantes em toda a
sociedade, com programas de recompensa para as pessoas que delatassem os
colaboradores de grupos insurgentes ou criminosos; a colocação de tropas do
Exército e da polícia para garantir a segurança nas estradas; a solicitação do
aumento da ajuda econômica dos EUA para não somente manter a política de
erradicação dos cultivos ilícitos via fumigações, como também combater as ações
das guerrilhas; o aumento das forças do Exército com o recrutamento de
"soldados camponeses", etc. Além disso, o presidente Uribe decretou o Estado de
Comoção Interior, em 2002, que permitiu ao governo elevar impostos para
aumentar o efetivo das Forças Armadas e policiais, autorizar prisões sem ordens
judiciais e instituir a possibilidade de detenção de pessoas com base em
suspeitas de intenções de cometer delitos. Em conjunto, para enfrentar os
grupos armados ilegais, a "Política de Segurança Democrática" exigiu um aumento
do gasto público destinado à segurança e defesa, um aumento do efetivo da Força
Pública, uma mudança na doutrina operacional e uma modificação progressiva do
marco legal e institucional para garantir a ofensiva contra esses grupos
(Coyuntura de Seguridad 23, 2008).
Pode-se dizer que, no que diz respeito ao conflito com as guerrilhas, a
estratégia de Álvaro Uribe esteve, durante o seu primeiro mandato, calcada no
confronto militar para exterminar ou forçar a rendição desses grupos, conforme
a frase do próprio presidente em seu Plano Nacional de Desenvolvimento: "A via
do diálogo no meio do conflito está esgotada [...] A paz não se negocia, se
constrói."4 Inicialmente, as forças militares de segurança lançaram uma dura
ofensiva que expulsou as FARC de lugares estratégicos nos Departamentos de
Cundinamarca e Antioquia, recuperando o controle de zonas próximas aos grandes
centros urbanos, rodovias e infra-estrutura. Além disso, o governo Uribe
recusou qualquer tipo de negociação com os guerrilheiros, rejeitando,
inclusive, a proposta das FARC de trocar seqüestrados por guerrilheiros
encarcerados, fato que contrariou os familiares dos prisioneiros e os grupos de
Direitos Humanos que eram a favor da troca humanitária. Como observou, entre
outros estudiosos do assunto, Sandra Borda Guzmán (2007, 71): "a estratégia
militarista do governo colombiano debilitou as posições alternativas que
preconizavam uma saída negociada para o conflito". Tal posição custou à vida de
muitas pessoas, que acabaram sendo assassinadas pela guerrilha. Aliás, nesse
particular, o permanente assassinato de civis pelas FARC tem implicado, entre
outras questões, na perda dos derradeiros apoios políticos que esse grupo
possui na sociedade colombiana e no exterior, no reforço da caracterização de
suas atividades como "terroristas" e no endurecimento da repressão
governamental contra os movimentos sociais que atuam no campo da esquerda
democrática.
Ainda no que diz respeito às FARC, o aumento do respaldo econômico e militar
dos EUA permitiu ao governo Uribe lançar, em maio de 2004, o Plano Patriota,
que se constituiu na mais ambiciosa ofensiva militar do Estado colombiano
contra os grupos guerrilheiros. O plano se concentrou nas regiões dos
Departamentos Caquetá, Guaviare, Meta e Putumayo, que historicamente serviram
como centros de comando, treinamento e retaguarda das FARC. A ação militar
envolveu cerca de 18 mil soldados, apoiados, armados, treinados e monitorados
pelo Comando Sul das Forças Armadas dos EUA. No primeiro mandato de Álvaro
Uribe, ficou evidente que a maior parte da ajuda antidrogas norte-americana se
dirigiu às atividades contra-insurgentes, impondo duras derrotas aos grupos
guerrilheiros FARC e ELN, sem, no entanto, eliminá-los.
Embora não tenha derrotado completamente as guerrilhas e nem abalado
significativamente a indústria da droga, o governo conseguiu impor duros
reveses aos guerrilheiros, diminuindo significativamente seu número de membros,
suas atividades armadas, sua presença territorial, suas ações de sequestro e
sua capacidade de extrair recursos da indústria da cocaína. Nessa questão da
relação das guerrilhas com as atividades do narcotráfico, talvez se possa dizer
que os resultados dessa política de Uribe condizem com a tese de Mark Peceny e
Michael Durnan (2006) sobre a aplicação da política antidrogas dos EUA em
situações de conflito armados internos. Segundo esses autores, essa política,
em geral, não tem grande efeito sobre a indústria da droga, porém, tem a
capacidade de tirar o equilíbrio de forças entre os grupos combatentes no
sentido de extrair recursos da indústria da droga, na medida em que resolvem
punir, com a não participação nos negócios da droga, um dos lados. Assim, o
tratamento diferenciado dados aos grupos armados ilegais no conflito
colombiano, tornou as FARC alvo de guerra, enquanto o tratamento mais ameno
conferido às Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) facilitou a manutenção desse
grupo nos negócios da droga, embora não fosse bem isto que estivesse previsto
pelos EUA. Nessa discussão, também vale a pena constatar que o enfraquecimento
das guerrilhas não significou alterações na produção e no fluxo das drogas aos
EUA, deixando evidente que a questão do narcotráfico no país envolve outros
fatores. A importância imprescindível que os recursos do narcotráfico têm para
a sobrevivência das FARC não é a mesma que as FARC têm para a sobrevivência dos
negócios do narcotráfico, que, inclusive, pode prescindir as FARC.
Se a posição do governo Uribe em relação às guerrilhas foi o confronto, o mesmo
não ocorreu no tratamento dado aos paramilitares, no qual, com o aval dos EUA,
optou-se pela negociação política. Desde o início do governo houve uma série de
negociações com as AUC, que culminaram no Acordo de Santa Fé de Ralito, em
julho de 2003, no qual ficou estabelecido que as milícias deveriam promover um
imediato cessar-fogo e o desarmamento até o fim de 2005. Em troca o governo
ofereceu aos paramilitares garantias de incorporação à vida civil e política,
abrindo, inclusive, a possibilidade de atenuar e anistiar as punições sobre os
crimes contra a humanidade promovidos por esses grupos. Os resultados desse
acordo foram pouco significativos, com os paramilitares se recusando a cumprir
temas como a extradição aos EUA, a devolução de fortunas adquiridas ilegalmente
e o julgamento de seus delitos em tribunais (Kurtenbach, 2005). Isso levou o
governo a estabelecer um novo pacto com as AUC, firmado em maio de 2004, no
qual foi criada uma zona de reabilitação para os paramilitares em Tierralta,
Córdoba. E o Congresso aprovou, em julho de 2005, a Lei de Justiça e Paz, que
estabelecia, entre outros termos, um regime de penas mais brandas (pena máxima
de oito anos de prisão), a aplicação da extradição aos EUA somente em caso de
ruptura das negociações e a não obrigatoriedade da confissão plena e
verdadeira, inclusive para os delitos relacionados ao tráfico de drogas, para
obter os benefícios (Caicedo, 2006).
Dados oficiais indicam que, até o final de 2006, quando foi celebrada a última
desmobilização das AUC no país, o governo Uribe conseguiu desmobilizar cerca de
32. 000 paramilitares. Durante esse processo foram entregues 18. 051 armas, o
que, para os analistas, é um número baixo. Para vários membros de organizações
humanitárias internacionais e alguns estudiosos do assunto, o governo Uribe,
com essas negociações, além de não penalizar como deveria os paramilitares e
não ter uma política de reparação para as vítimas das atrocidades promovidas
por esses grupos, não combateu explicitamente, em algumas regiões, a histórica
relação íntima de membros do governo e das Forças Armadas com os paramilitares
para combater as guerrilhas.5 Instituições como a Human Rights Watch, a Anistia
Internacional e o Centro de Investigação e Educação Popular da Colômbia
denunciaram, nos últimos anos, que os paramilitares seguiram promovendo
violações dos Direitos Humanos depois desses acordos com o governo. Há
denúncias também de que o governo não combateu as atividades de narcotráfico
desenvolvidas pelos paramilitares, sobretudo nos latifúndios de coca do norte
do país. Além disso, apesar dos avanços na desmobilização das AUC, organismos
internacionais, como a Internacional Crisis Group (2007) e a Seguridad &
Democracia (2008), constataram as evidências de que a Política de Segurança
Democrática não conseguiu eliminar totalmente as atividades dos grupos
paramilitares. Novas facções, como as Águias Negras, têm surgido e operado em
torno de atividades como o tráfico de drogas, homicídios e extorsões, em
regiões de pouca presença estatal ou de antiga presença das AUC, como nos
Departamentos de Norte de Santander, Nariño, Córdoba, Valle, La Guajira e
Bolivar. Essas facções, que a Oficina do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos (ACNUDH) tem denominado de "novos grupos armados
ilegais", são compostas por paramilitares que não se desmobilizaram,
paramilitares desmobilizados que regressaram as atividades ilícitas e
delinquentes comuns. Esses grupos operam fundamentalmente em torno dos negócios
ilícitos do narcotráfico e outras atividades econômicas criminosas. A diferença
em relação aos paramilitares das AUC, já desmobilizados, está no fato de que
esses grupos não estão coordenados nacionalmente e não possuem um projeto
político coletivo. Além disso, esses grupos não têm uma dinâmica contra-
insurgente, fazendo, inclusive, em algumas regiões do país, pactos e alianças
com grupos guerrilheiros no sentido de preservar os seus ganhos ligados ao
narcotráfico. Aliás, nessa questão, quando praticam uma operação contra-
insurgente, como tem feito a Organização Nueva Generación (ONG) na região de
Nariño, fazem buscando controlar território e populações para dominarem o
negócio do narcotráfico (Informe sobre América Latina N. 20, 2007; Coyuntura de
Seguridad N. 20, 2008; Ávila y Gantiva, 2008; Vidal y Ortiz, 2008).
No que se refere ao combate às drogas, dados do governo colombiano indicaram
uma redução de 46,4% nos cultivos ilícitos, entre 1999 e 2005. Assim, os
plantios de coca teriam passado de 163.290 hectares, em 1999, para 85. 750, em
2005. Sendo fumigado, no período 1999-2005, um total de 723.125 hectares e
erradicados manualmente 61.614 hectares (DNP, 2006: 13). Esses dados não
tiraram o país da condição de maior plantador de coca e produtor de cocaína do
mundo, sendo responsável por 54% dos plantios e 65% da produção, segundo o
Relatório da ONU sobre Drogas (2006). De acordo com Diana Marcela Rojas (2007),
a redução do plantio não diminuiu a oferta, as drogas ficaram mais puras, e o
preço final da cocaína no mercado norte-americano caiu. São muitos os
estudiosos e instituições que, a partir dessas informações, apontam para uma
ineficácia da política antidrogas dos EUA para resolver o problema. Por fim,
vale lembrar que a promessa de Uribe de eliminar totalmente os cultivos de coca
no país até 2006 não foi cumprida.
Em conjunto, cabe reconhecer que, apesar do predominante aspecto militar, da
limitada atenção às questões sociais e de direitos humanos e da ineficaz
política antidrogas, a "Política de Segurança Democrática", nos marcos do Plano
Colômbia, resultou em grande popularidade ao governo Uribe, sobretudo nos
setores urbanos. Tanto que a reeleição de Uribe, em maio de 2006, pode ser
creditada, em grande parte, a "Política de Segurança Democrática", que garantiu
a vinda de investimentos externos, fortaleceu o Estado e melhorou as condições
de segurança nos principais centros urbanos do país. Na verdade, as décadas de
conflitos e de atrocidades cometidas pelas guerrilhas e pelos paramilitares
contra civis desarmados e inocentes fez com que vários setores da sociedade
apoiassem uma solução militarizada para o conflito e tolerassem medidas
repressivas do Estado em nome de uma determinada segurança (Zuluaga Nieto,
2003).
Com essa breve análise do primeiro governo de Álvaro Uribe, nos marcos do Plano
Colômbia e da Política de Segurança Democrática, não é difícil constatar que a
Colômbia incorporou várias diretrizes da política de segurança norte-americana
para a resolução do seu complexo conflito interno. Mais do que isso, a
internacionalização do conflito armado trouxe uma alta dependência do governo
colombiano em relação aos EUA em praticamente todos os principais temas do
país, tais como o próprio conflito armado, o narcotráfico, o desenvolvimento, o
papel do Estado, a democracia etc. Para Diana Marcela Rojas (2009: 122),"a
embaixada dos EUA na Colômbia atua como um verdadeiro "superministério", que
interage com a maior parte das agências governamentais colombianas". O
alinhamento incondicional com os EUA, como saída para seus problemas, tem
implicado em relegar a busca de outros espaços na agenda internacional, bem
como impedir outras estratégias ou abordagens para o tratamento de questões
regionais em termos de segurança, comércio, integração, etc (Reynales, 2004;
Rojas, 2006; Guzmán, 2007). Além disso, os termos desse alinhamento têm trazido
muitas desconfianças, desentendimentos e atritos nas relações com os demais
países andinos.
Ao longo do ano de 2005, na iminência do prazo de encerramento do Plano
Colômbia, a administração Bush procurou deixar claro que manteria a intervenção
econômica e militar na Colômbia em nome da luta antiterror. Conforme as
palavras da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, em visita à
Colômbia em maio de 2005:
O Plano Colômbia formal, de cinco anos, está chegando ao fim, mas
nosso compromisso com a Colômbia não. A assistência militar,
policial, judicial e econômica que estivemos dando fez que a Colômbia
estivesse a caminho de uma maior segurança, de cuidar do problema das
drogas e de lidar com o narcoterrorismo de maneira eficaz (Jornal
Folha de São Paulo, 10/7/2005).
Em reunião com Álvaro Uribe no seu rancho no Texas, em agosto do mesmo ano, o
presidente Bush também reafirmou o mesmo compromisso:
Pedirei ao Congresso que mantenha o nosso compromisso para dar
prosseguimento aos programas do Plano Colômbia, para que a Colômbia
possa continuar com os seus progressos e vencer a sua guerra contra o
narcoterrorismo. Nossa parceria estratégica é vital à segurança, à
prosperidade e à liberdade de ambos os nossos países e das Américas
(Jornal Folha de São Paulo, 5/8/2005).
No mesmo encontro, o governo colombiano fez questão de manifestar o seu
alinhamento à política de segurança dos EUA, com as seguintes palavras de
Álvaro Uribe: "O grande inimigo da democracia colombiana é o terrorismo"
(Jornal Folha de São Paulo, 5/8/2005). E assim, com afinidades e interesses
mútuos, o plano foi prorrogado até o começo de 2007, quando Álvaro Uribe, no
início do seu segundo mandato, apresentou a Estrategia de Fortalecimiento de la
Democracia y Del Desarrollo Social (EFDDS) 2007-2013, também denominada de
Plano Colômbia II (DNP, 2007).
Uma breve análise da EFDDS revela que foi mantida a perspectiva de
internacionalizar os conflitos internos colombianos, tanto no que diz respeito
às temáticas como no que está relacionado ao tratamento dado aos assuntos.
Entre os objetivos principais da EFDDS, cabe destacar: a luta contra o
narcoterrorismo; o fortalecimento da justiça; a promoção dos Direitos Humanos;
a abertura dos mercados; o desenvolvimento social integral; a atenção integral
aos desmobilizados; a atenção integral ao desarme e a atenção integral à
reinserção. Segundo o Ministério da Defesa colombiano, a essência da EFDDS é a
combinação entre o componente militar e a ação integral pela recuperação social
e militar do território. Note-se que, apesar de continuar prevalecendo a ênfase
militar, a atenção integral às questões sociais foi revigorada nas diretrizes
da nova estratégia. Talvez se possa dizer que essa atenção às questões sociais
decorra, por um lado, das críticas sofridas pela Política de Segurança
Democrática por não ter apresentado grande avanço nessa área, e, por outro, da
necessidade de continuar atraindo recursos financeiros da cooperação
internacional e da ajuda humanitária. Seja como for, o fato é que a perspectiva
da internacionalização dos conflitos internos foi mantida, até mesmo no
calendário da nova proposta, que segue o tempo de duração do mandato
presidencial da Casa Branca (2009-2013) e não dos mandatos colombianos (2006-
2010; 2010-2014) (Rojas, 2007).
Outra temática enfatizada na EFDDS que seguiu a aliança com os EUA, esteve
relacionada ao tema da abertura dos mercados. Note-se que, desde o início de
sua gestão, Álvaro Uribe havia associado o tema comercial ao de segurança na
sua relação bilateral com os EUA. Esse empenho pode ser evidenciado nos
esforços do governo colombiano pela criação da ALCA, nos moldes propostos pelos
EUA, e, depois, com a interrupção das negociações desse acordo, os esforços
para a construção de um Tratado de Livre Comércio com os norte-americanos.
Também nessa linha, a Colômbia ' que tem os EUA como principal destino de suas
exportações (principalmente petróleo, carvão e café) e maior provedor de suas
importações ' já havia conseguido da gestão Bush, em 2002, a ampliação do ATPA
(Lei de Preferências Comerciais Andina), que passou a se chamar ATPDEA (Lei de
Preferências Alfandegárias Andina e Erradicação de Drogas), conferindo tarifas
alfandegárias preferências para os países andinos empenhados na estratégia
norte-americana de combate ao narcotráfico. Agora, em 2007, a EFDDS previa
avançar nas negociações do tratado bilateral de livre comércio com os EUA, que
havia sido firmado com Washington em 22 de novembro de 2006, necessitando
aprovação dos Congressos nacionais, porém os ventos da política norte-americana
começavam a mudar.
Política externa de Álvaro Uribe e as mudanças políticas nos EUA
Conforme foi verificado, ao longo do seu primeiro mandato, Álvaro Uribe manteve
uma relação privilegiada com a administração George W. Bush e a cúpula do
Partido Republicano, tanto que a diplomacia personalista colombiana se deu ao
luxo de desmontar a boa relação com o Partido Democrata, herdada da gestão
Pastrana. No início do seu segundo governo, Uribe deixou clara a necessidade e
a perspectiva de manter uma relação especial com os EUA, no sentido de garantir
suas políticas internas. Ocorre que, a partir de novembro de 2006, com a
vitória dos democratas nas eleições para o Congresso dos EUA, a política norte-
americana começava dar sinais de um novo ciclo, o que, por consequência, trouxe
obstáculos às pretensões do governo colombiano. Em pouco tempo, a relação com a
Colômbia, que parecia ser um exemplo de caso bem-sucedido da política de
segurança norte-americana, acabou se transformando em caso exemplar de alguns
equívocos dessa política. Ou seja, o novo Congresso dos EUA, refletindo as
conjunturas interna e externa, desejava dar novos enfoques e atenções à
política externa do país.
Tudo isso teria implicações nas relações EUA-Colômbia. O primeiro semestre de
2007 é emblemático nesse sentido, a rejeição ao Tratado de Livre Comércio (TLC
' EUA-Colômbia) e a diminuição dos recursos e reorientação das prioridades do
Plano Colômbia pelo Congresso norte-americano deixaram evidente que o jogo de
forças e o clima ideológico da política doméstica dos EUA haviam mudado. No
caso do TLC, ao mesmo tempo em que o Congresso dos EUA, com a inclusão de
algumas normas de proteção trabalhista e ambiental, aprovava os TLC's com o
Peru, o Panamá e a Coréia do Sul, vetava o tratado com a Colômbia, com alegação
de que esse país não dava mostras concretas de empenho sistemático ao combate
dos paramilitares, bem como não havia solucionado os escândalos das relações
entre membros do governo e os paramilitares, e, ainda, pouca atenção dava aos
Direitos Humanos (Policy Paper 30, 2008).6 Em relação ao Plano Colômbia, por
sua vez, as pretensões colombianas sofreriam um novo golpe dos Democratas.
Pouco interessado nos resultados bélicos do governo Uribe e com as mesmas
críticas que inviabilizaram o TLC, o Congresso norte-americano renovou o Plano
Colômbia para 2007, com redução da ajuda econômica e reorientação dos gastos.
Houve uma redução de 10% da ajuda econômica, que de U$ 586 milhões foi para U$
527 milhões. Enquanto os gastos foram reorientados de 76% do componente militar
e 24% do componente social para 55% e 45% respectivamente (Policy Paper, 30,
2008). Também se deve notar que houve incremento de recursos para investigações
judiciais em relação aos paramilitares e redução de recursos para a fumigação
aérea, ou seja, reparo em temas que vários estudiosos do Plano Colômbia vinham
apontando como equivocados há muito tempo.
Em 2008, as perspectivas de manutenção de uma relação privilegiada com os EUA
foram diminuindo à medida que, no processo sucessório presidencial norte-
americano, os pré-candidatos do Partido Democrata (Hillary Clinton e Barack
Obama) mantinham as mesmas posições do partido em relação aos temas da
Colômbia, e o governo colombiano não escondia o seu apoio ao candidato
Republicano John McCain. Nesse sentido, apesar de todo o empenho pessoal de
George W. Bush, que colocou a necessidade do TLC com a Colômbia como um assunto
de segurança dos EUA no tabuleiro andino, não houve nenhum avanço nessa área,
com o Congresso norte-americano apenas renovando o ATPDEA até dezembro de 2008.
Em relação ao Plano Colômbia, foi liberado pelo Congresso o montante de U$ 545
milhões para o ano de 2008, com a distribuição dos recursos nos mesmos moldes
de 2007. E não surtiram efeito as pressões dos Republicanos para que fosse
privilegiado novamente o componente militar no pacote de ajuda para o ano de
2009.
Porém, no que diz respeito ao Plano Colômbia, o fato mais importante do ano de
2008 ocorreu em novembro, com a publicação do informe sobre o plano pelo
Government Accountability Office (GAO), agência de controle das contas do
governo norte-americano. O documento apontou que, entre os anos de 2000 e 2008,
os EUA gastaram com o plano a quantia de U$ 6.130 milhões, sendo U$ 4.859,5
milhões na estratégia antidrogas e de segurança, U$ 1. 031,8 milhões na
promoção do desenvolvimento econômico e social, e U$ 238,7 milhões no
fortalecimento do Estado de direito. Na estratégia de combate às drogas, o
estudo demonstrou que, apesar de ter ocorrido uma redução de 50% na produção de
ópio e heroína, os cultivos de coca atingiram uma área de 157.000 hectares em
2006, representando um aumento de 15% em relação ao ano de 2000. Os números não
conferem com os informes da ONU e nem com os do governo colombiano. No entanto,
o que há de comum nesses relatórios é o reconhecimento de que não houve impacto
no fluxo de cocaína aos EUA, ou seja, a estratégia é um fracasso. Porém, essa é
uma conclusão que somente a ONU admite categoricamente. Por fim, o documento
destacou que a segurança interna do país melhorou, e recomendou que fosse
necessário buscar uma estratégia de diminuição da ajuda, embora tenha admitido
a existência de uma profunda dependência do governo colombiano em relação ao
apoio norte-americano em todas as áreas.
Diante dos trágicos casos do Afeganistão, Colômbia e México, nos quais os EUA
gastam bilhões e não equacionam o problema, a nova gestão de Barack Obama
(2009-2013) tem feito indicações claras de que possa rever alguns aspectos de
sua política de combate às drogas. Não é uma tarefa fácil dentro da sociedade
norte-americana, pois a política proibitiva e militarizada é uma construção
secular enraizada em vários grupos sociais e políticos no país. Tanto é assim
que, recentemente, a secretária Hillary Clinton e o presidente Barack Obama
fizeram declarações históricas em que assumem a co-responsabilidade dos EUA
pelo problema das drogas (tráfico de armas e demanda), porém, na reunião do
Comitê de Entorpecentes da ONU, em março de 2009, os EUA ' com o apoio da
Rússia, Japão, Itália, Vaticano e Colômbia ' vetaram a inclusão do conceito
"redução do dano" nas diretrizes da política internacional de combate às
drogas. O conceito ' apoiado pela Organização Mundial de Saúde, União Européia
e grande parte dos países latino-americanos ' refere-se às drogas como um
problema de saúde pública, prevendo a distribuição de seringas descartáveis a
usuários de drogas injetáveis, promoção da higiene e supervisão médica
preventiva a doenças que podem ser transmitidas por uso de drogas ilícitas.
Tudo indica que, sem abrir mão do combate militar e a lógica proibicionista, a
política norte-americana de combate às drogas passe a enfatizar, de fato,
enfoques multilaterais e ações nos campos econômicos, sociais, institucionais e
de Direitos Humanos. As alterações no Plano Colômbia parecem caminhar nesse
sentido.
Em conjunto, no período compreendido entre a vitória Democrata no Congresso dos
EUA em 2006 e os primeiros atos do Governo de Barack Obama em 2009, a
personalizada e pouco profissional diplomacia colombiana tem apresentado muitas
dificuldades para entender e trabalhar com essas mudanças ocorridas nos EUA,
algo que deveria ser básico para um governo que colocou o seu destino na
garantia de uma relação privilegiada com os norte-americanos. Básico, porém não
tão fácil ideologicamente. Sintonizado com a agenda republicana, centrada no
narcotráfico, no livre-comércio e no terrorismo, o projeto conservador de Uribe
tem encontrado muitas dificuldades para atender a nova agenda da política
norte-americana, sobretudo no tema dos Direitos Humanos. Assim, com reações que
vão do espanto à indignação, o governo colombiano vem percebendo que, por conta
do novo ambiente político nos EUA, não conseguirá manter as relações com os EUA
nos mesmos termos da era Bush. Seja como for, o fato é que, ainda que continue
recebendo atenção dos EUA nas questões do narcotráfico e do terrorismo, a
Colômbia vai ter que trabalhar com a mudança nos termos dessa relação, o que
exigirá do governo Uribe uma habilidade política interna e externa que ele
talvez não tenha, ou por falta de condições ou por falta de disposição.