Cooperação técnica internacional: aportes teóricos
Introdução
Neste artigo partiremos do pressuposto de que houve uma mudança estrutural na
dinâmica da sociedade internacional que tem possibilitado que entidades
municipais tivessem iniciativas de aproximação com entidades privadas e
governamentais no exterior; em muitos casos, conduzindo ao desenvolvimento de
diplomacia municipal, diplomacia federativa ou paradiplomacia. Na nossa
hipótese, a profusão desse fenômeno no Brasil reflete o alto grau de
vulnerabilidade internacional do Estado nacional aos fluxos econômicos,
sociais, políticos e culturais da globalização, o que acaba ampliando a
tendência de o governo central redistribuir os custos do adensamento da
globalização aos entes federados via descentralização de políticas públicas à
luz do discurso favorável à ampliação do processo de democratização.
Como resultado, as instâncias subnacionais de governo ' estados e municípios '
passam a ter que absorver custos gerados pela dinâmica global que antes não
lhes eram atribuídos, sem contrapartidas financeiras consideráveis da União.
Paradoxalmente, o governo federal instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), a qual limita o endividamento público no País.
Para amenizar os custos econômicos e sociais dessa situação, muitos agentes
públicos brasileiros responsáveis pela gestão municipal passaram a utilizar-se
das possibilidades existentes no campo da cooperação técnica internacional
(CTI) para elevar a eficiência de sua gestão em prol da melhoria da vida dos
cidadãos do município.
O problema é que a literatura nacional sobre esses temas possui dois vícios de
origem: uma perspectiva excessivamente prática, meramente instrumental, ocupada
com a elaboração de projetos de captação de CTI para os municípios, combinada a
uma exiguidade de discussões teóricas e reflexões mais elaboradas pouco
eficazes à consolidação necessária de conceitos sobre esse fenômeno. Ambos os
vícios se retroalimentam e vêm legando uma profusão de experiências de
internacionalização de municípios por meio de CTI nos entes federados sem a
devida análise e acompanhamento das suas consequências econômicas, políticas e
sociais ao País.
Ciente dessa lacuna, o objetivo central deste artigo é empreender uma análise
teórica prospectiva sobre esses fenômenos. Para uma primeira aproximação à
temática, na primeira seção demonstramos como o adensamento de um sistema de
governança global e a mudança crescente do papel do Estado nacional como
consequência dos efeitos da interdependência proporcionaram às entidades
governamentais subnacionais ' especificamente aos municípios ' a possibilidade
de exercerem atividades que, até então, eram da competência exclusiva do
Estado-nação. O conceito que mais se aproximou da descrição desse novo fenômeno
foi o de paradiplomacia. Dessa maneira, investigamos também suas origens, seu
significado e sua aplicabilidade no País na segunda seção.
No caso dos municípios brasileiros, a concretização do fenômeno da
internacionalização municipal vem ocorrendo majoritariamente por meio de
experiências de CTI. Ao aprofundarmos o estudo teórico sobre esse fenômeno,
percebemos a existência de pelo menos quatro tipos ideais de CTI passíveis de
se transformarem em conceitos: a) cooperação vertical; b) cooperação técnica
tout court;c) cooperação horizontal; e d) cooperação descentralizada. Estes
serão analisados na terceira seção. Por fim, realizamos uma reflexão sobre as
consequências da profusão do fenômeno da CTI à sociedade brasileira.
As redes de interdependência complexa
A ordem internacional contemporânea pode ser considerada como uma série de
entendimentos rotineiros por meio dos quais flui a política mundial de um
momento ao outro (Rosenau 2000, 16). Essas séries de entendimentos
rotineiros produzem consensos acerca de questões globais, os quais subsidiam o
processo de formulação e implementação de políticas públicas nos diversos
estados nacionais, afetando suas unidades federativas.
Essas séries de entendimentos rotineiros podem ser consideradas como a
chamada globalização, a qual, para Keohane e Nye (2001, 229), caracteriza-se
como um aumento da velocidade institucional nos adensamentos de redes de
interdependência complexa, as quais vêm sendo consolidadas, pelo menos, desde o
período das grandes navegações e seriam responsáveis pelas alterações na ordem
internacional.
Em outras palavras, essas séries de entendimentos rotineiros, que geram
consensos mundiais na lógica multicêntrica, obrigando os diversos atores
presentes na política internacional a atuarem vislumbrando uma nova realidade,
para além da figura do estado nacional, configuram uma tendência à compreensão
das relações internacionais contemporâneas: a noção de relações de
interdependência.
O conceito de interdependência começa a ser esboçado a partir da década de
1970. A teoria da interdependência complexa, desenvolvida por Keohane e Nye
(2001), oferece uma sensível ampliação dos mecanismos de análise para as
Relações Internacionais. O artifício mais importante dessa visão teórica é o
conceito de interdependência. De acordo com esses autores, In common parlance,
dependence means a state of being determined or significantly affected by
external forces. Interdependence in world politics refers to situations
characterized by reciprocal effects among countries or among actors in
different countries. (Keohane e Nye 2001, 7). Em miúdos, significa uma
condição de dependência mútua entre atores interconectados.
O conceito de interdependência baseia-se em três características principais,
quais sejam: múltiplos canais de negociação, ausência de hierarquia entre os
temas da agenda internacional, e menor papel da força militar.
A primeira característica trata-se dos:
Multiple channels connect societies, including: informal ties between
governmental elites as well as formal foreign office arrangements;
informal ties among nongovernmental elites (face-to-face and through
telecommunications) and transnational organizations (such as
multinational banks or corporations). These channels can be
summarized as interstate, transgovernmental, and transnational
relations. (Keohane e Nye 2001, 21).
Os múltiplos canais que caracterizam as redes são consequência principal da
revolução tecnológica e da informação gerada pela globalização. Após essas
revoluções houve a diminuição de custos das informações e dos transportes e,
portanto, o aumento da velocidade de seus fluxos, o que permitiu que as
barreiras entre as sociedades dentro das zonas democráticas diminuíssem
consideravelmente, tornando possível mudanças no processo político de vários
países. As barreiras geográficas perdem sua rigidez permitindo uma maior troca
de informações entre os atores, o que conduz a um fenômeno de ampliação de suas
relações.
Esses movimentos de fluxos proporcionados pela abertura de múltiplos canais não
mais acontecem apenas entre as burocracias estatais. Apesar da preponderância
dos Estados nas relações internacionais e em vista da necessidade de
reorganizar a estrutura internacional para a compreensão da dinâmica das
sociedades inseridas na lógica da globalização, tornou-se relevante analisar a
atuação de outros atores, como as Organizações Internacionais (como o Banco
Mundial e o FMI), organizações não governamentais, multinacionais, bancos,
corporações e, no nosso caso, como veremos à frente, os governos subnacionais.
A segunda característica é a agenda das relações interestatais estarem
permeadas por múltiplas questões sem hierarquias predefinidas. Como decorrência
da característica precedente, novos temas, antes limitados à lente doméstica,
tais como a aids, o terrorismo e as migrações, transbordam fronteiras e ganham
terreno nas agendas das relações interestatais. Essa razão conduz ao
adensamento de redes de interdependência complexa configurada por diversos
atores que lidam com diversas temáticas ' tais como sociais, políticas e
ambientais, entre outras ', caracterizando a globalização multidimensional.
Essas duas características explicam o porquê das agendas políticas
internacional e doméstica se confundirem, pondo fim à hierarquia de assuntos,
transformando totalmente a formação das agendas globais e domésticas.
Yet as the complexity of actors and issues in world politics
increases, the utility of force declines and the line between policy
and foreign policy becomes blurred: as the conditions of complex
interdependence are more closely approximated, the politics of agenda
formation becomes more subtle and differentiated. (Keohane e Nye
2001, 28).
Essa realidade tende a mudar as opções, as escolhas e as decisões dos governos,
já que essas causam impactos distributivos sobre a sociedade, deslocando para a
esfera pública a discussão sobre a política internacional.
Por fim, essa nova dinâmica gerada pela interdependência complexa parece estar
diluindo as fronteiras internas e externas do Estado-nação, pois os novos
temas, assim como a atuação desses novos atores, se tornaram vetores
condicionantes do cotidiano das sociedades nacionais e de seus interesses.
A última característica é que a military force is not used by governments
toward other governments within the region, or on the issues, when complex
interdependence prevails (Keohane e Nye 2001, 21). O que demonstra como a
combinação das duas primeiras características reforça a tendência à
transnacionalização, e como isso diminuiu a utilização dos recursos militares
entre governos que estão inseridos na interdependência complexa, possibilitando
assim uma maior cooperação entre eles.
Essas relações de mútua dependência não tendem a distribuir equitativamente os
ganhos e as perdas geradas pela interdependência complexa. Esse processo tende
a prevalecer às assimetrias, ou seja, os resultados serão diferentes para cada
ator, pois os atores atuantes nessa sociedade internacional, agora
transnacionalizada, não são iguais, sobretudo em se tratando de capacidades.
Para Di Sena Jr. (2003, 25) (...) os participantes não gozam do mesmo grau de
desenvolvimento e não controlam os mesmos recursos.
Isso porque as transações na interdependência dependem de constrangimentos e
ganhos que se explicam como joint gains or joint losses to the parties
involved (Keohane e Nye 2001, 8), devido, entre outras razões, às diferenças
envolvidas nos relacionamentos. O que significa que na interdependência existem
assimetrias pelo motivo de que alguns atores conseguem ter o controle de
maiores recursos de poder e, por conseguinte, ter maiores possibilidades de
auferirem ganhos relativos, mesmo que sejam de pequenas diferenças.
Essas assimetrias muitas vezes podem ser percebidas avaliando-se o grau de
vulnerabilidade e sensibilidade dos Estados. Esses conceitos são construídos a
partir da utilização dos recursos de poder, explicados como um recurso para
controlar resultados garantidos por quem tiver menores custos, a partir das
assimetrias geradas no processo.
Logo:
In terms of the cost of dependence, sensitivity means liability to
costly effects imposed from outside before policies are altered to
try to change the situation. Vulnerability can be defined as an
actor's liability to suffer cost imposed by external events even
after policies have been altered. (Keohane e Nye 2001, 11).
Em suma, os países sensíveis sofrem os impactos da lógica da interdependência
assimétrica, mas têm capacidade de resposta. Já os países vulneráveis sofrem os
impactos maiores advindos da mesma dinâmica, e não têm capacidade de resposta
no plano das relações internacionais.
Como podemos perceber, provavelmente, por um lado, o principal efeito da
interdependência é possibilitar o desencadeamento de um processo de cooperação
internacional, fundado na noção de soberania compartilhada, por meio do qual
podem-se resolver problemas com caráter de transnacionalidade. Por outro, a
incapacidade do Estado de atender às demandas de todas as suas unidades
subnacionais gera uma segmentação, com diminuição da concentração do poder
político central. Em virtude dessa realidade, alguns autores sugerem que o
Estado moderno, enquanto corpo político isolado, formado por governantes e
governados, tendo uma jurisdição plena sobre um território demarcado '
incluindo nessa jurisdição o direito ao monopólio da força coercitiva ' e com
legitimidade baseado no consentimento de seus cidadãos, estaria dando lugar a
uma nova forma ou lógica de Estado no qual as decisões políticas passam a estar
permeadas e influenciadas por redes transnacionais intergovernamentais, como
vimos acima.
Logo, o papel do Estado transforma-se: ele torna-se um instrumento de adaptação
das políticas domésticas à realidade internacional, reagindo a decisões tomadas
em outras esferas de poder, sejam elas regionais, transnacionais ou
internacionais (Herz 1999).
Essa mudança representa um desafio às tradicionais noções de soberania e
legitimidade do Estado que vê seu poder diminuído porque a (...) expansão das
forças transnacionais reduz o controle que cada governo pode exercer sobre as
atividades de seus cidadãos e dos outros povos (Held e Mcgrew 2001, 34'35).
A interdependência crescente, dentro dessa nova realidade marcada pela
globalização, questiona a legitimidade e a soberania porque diminui a
capacidade dos Estados de oferecer bens e serviços às suas populações sem
apelarem para a cooperação internacional (Krasner 2000).
Dessa maneira, vale ressaltar que os problemas políticos já não podem ser
solucionados satisfatoriamente sem a cooperação com outras nações ou mesmo com
outros agentes não estatais (Keohane e Nye 1984). Essa afirmação pode ser
constatada pelo aumento no número de instituições, de regimes e de organizações
não governamentais (ONGs) internacionais que surgiram no final do século 20,
assim como pelo aumento de atividades nos foros internacionais de formulação de
políticas.
O adensamento de um sistema de governança global e a mudança crescente do papel
do Estado nacional como consequência dos efeitos da interdependência
proporcionariam às entidades governamentais subnacionais, especificamente aos
municípios, a possibilidade de exercerem atividades que, até então, eram da
competência exclusiva do Estado-nação (Philip et al. 1996, 17 e 19).
No caso brasileiro, a política de descentralização desenvolvida durante o
governo FHC, em virtude dos efeitos da interdependência, possibilitou aos
gestores municipais buscar novos instrumentos gerenciais para a solução dos
problemas do seu município. Em muitas ocasiões, tais instrumentos são acessados
a partir de redes de cooperação técnica internacional entre atores subnacionais
sem relação direta com o Estado nacional.
Essa realidade tende a contribuir para uma maior participação da dimensão local
na esfera internacional. É por isso que as cidades e as regiões procuram
assumir um papel estratégico nas relações internacionais, de forma a vir
complementar o papel do Estado nacional, especificamente, na experiência que
ora analisamos de políticas de cooperação técnica. Nessa perspectiva,
crescentemente, ao redor do planeta, redes de cidades e regiões buscam elaborar
uma internacionalização eficiente e capaz de trazer soluções para os problemas
locais. Em seguida, nossa tarefa será compreender o significado teórico da
internacionalização das cidades na perspectiva da CTI.
O conceito de paradiplomacia
Segundo Saskia Sassen (2004, 375), as cidades assumiram um papel estratégico na
nova geografia do poder. Pois (...) com suas complexas redes de empresas,
que oferecem serviços altamente especializados e talento profissional, são
lugares estratégicos para a produção destas funções especializadas necessárias
às grandes corporações.
Paralelamente, Sassen reconhece que a principal dinâmica que opera na economia
global tem a capacidade de desligar o Estado moderno da intersecção entre
soberania e o território que caracterizam o Estado e o sistema estatal
modernos (idem, p. 376).
Mas isso não significa dizer que a globalização retira do Estado nacional sua
importância. Ao contrário, a materialização da globalização no âmbito das
cidades e das regiões proporciona aos governos locais um papel político de
maior relevância dentro do próprio Estado nacional e cria a possibilidade da
formação de uma nova estratégia de desenvolvimento do próprio Estado, que é
fruto da somatória do desenvolvimento de cada uma das unidades que o compõem.
Caso o Estado-nação não consiga proteger suas unidades subnacionais dos efeitos
devastadores externos (econômicos, principalmente) resultantes do
aprofundamento da interdependência, não se deve impedir que essas unidades
defendam seus interesses por conta própria, às vezes, contribuindo com o
próprio Estado-nação (Kincaid 1990, 56), inclusive convergindo com sua
orientação internacional.
Para Soldatos (1996, 207), o fenômeno da permeabilização das fronteiras dos
Estados nacionais pode ser a causa de problemas socioeconômicos sérios para as
cidades (interdependência-vulnerabilidade), mas também pode proporcionar-lhes
oportunidade para a cooperação internacional (interdependência-oportunidade).
Nessa perspectiva, para Dowbor (1997, 12), as grandes metrópoles mundiais
estão adquirindo um peso novo no processo de gestão das nossas sociedades, como
pólos de um conjunto de atividades internacionalizadas, e como articuladoras
das políticas internas.
Verificando com atenção o processo eleitoral nas cidades brasileiras,
percebemos a ênfase que se deu à importância das cidades no desenvolvimento do
País. Também, essas últimas eleições mostraram a preocupação dos políticos
locais com as decisões governamentais no âmbito nacional, inclusive na política
externa. A federalização do debate local não reflete somente uma disputa
político-partidária, mas também a preocupação dos atores sociais, políticos e
econômicos locais em participar do processo decisório nacional, cujos reflexos
são percebidos, imediatamente, na esfera local.
Esse crescente intervencionismo das autoridades subnacionais em atividades que
transcendem as fronteiras nacionais é chamado por Fry (1996) de
globolocalismo. E é resultante da combinação dos seguintes fatores: 1)
proteção e reforço das coletividades locais, em uma época de ligações
transregionais; 2) necessidade e busca de receitas mais elevadas; 3)
contraponto às assimetrias e desigualdades no âmbito do sistema nacional; 4)
maior acessibilidade em matéria de estabelecimento de ligações internacionais;
5) preocupação eleitoral; 6) ampliação progressiva das esferas de ação dos
comitês regionais; 7) internacionalização crescente da população; 8)
protecionismo; 9) defesa de certos princípios de moralidade internacional; e
10) incertezas com relação à interpretação de dispositivos constitucionais (Fry
1996, 42).
A concretização dessa inserção internacional sustentada ocorre por meio de uma
paradiplomacia que pode ser definida, segundo Prieto, como
(...) o envolvimento de governos não centrais nas relações
internacionais, mediante o estabelecimento de contatos permanentes e
ad hoc, com entidades públicas ou privadas estrangeiras, com o
objetivo de promoção socioeconômica e cultural, bem como de qualquer
outra dimensão exterior nos limites de sua competência constitucional
(Prieto apud Rodrigues, 2004a, 443).
No entanto, alguns autores, como Rodrigues (2004b), preferem o termo política
externa federativa para definir a ação das cidades no plano internacional.
Segundo ele, poder-se-ia admitir que as ações internacionais de governos
subnacionais possuem uma identidade própria, não necessariamente coincidentes
ou concordes com a diplomacia da federação. Portanto, essa política externa
federativa pode ser definida como a estratégia própria de um estado ou
município, desenvolvida no âmbito de sua autonomia, visando à sua inserção
internacional, de forma individual ou coletiva (Rodrigues 2004b, 40).
Como podemos perceber, ainda que não haja consenso conceitual em torno dessas
novas iniciativas de governos subnacionais, não é possível deixar de reconhecer
sua importância mundial. Portanto, compreender o novo papel que a atuação
internacional dos governos subnacionais pode ter para auxiliar o governo
central a promover políticas públicas eficazes à promoção de desenvolvimento
econômico e social sustentável no Brasil passa a ser uma tarefa essencial.
Nesse sentido, vamos adotar a ideia de Soldatos (1996) que trata esse fenômeno
como internacionalização das cidades. Segundo ele, há dois tipos principais:
a internacionalização ativa e a passiva.
A internacionalização passiva é aquela desempenhada pelas cidades-espaço, que
acolhem atividades e instituições internacionais, mas não acolhem instituições
e serviços de importância estratégica para o desenvolvimento de funções de
influência ou de controle (sedes de grandes organizações internacionais, sedes
de grandes empresas multinacionais, serviços estratégicos, etc.). Seu papel é
de peso regional (Soldatos 1996, 218). Como veremos adiante, esse perfil de
internacionalização corresponde ao tipo de cooperação técnica internacional
vertical, mas pode também vir a ser foco irradiador de cooperação
descentralizada em setores específicos. Ou seja, essas cidades recebem apoio
técnico internacional sem ter capacidade de oferecer contrapartidas.
Já a internacionalização ativa é aquela desempenhada pelas cidades-atores, que
se distinguem por uma atuação dinâmica. Essas cidades possuem uma rede de
serviços de suporte às atividades internacionais (escritórios internacionais de
advocacia, grandes escritórios de arbitragem internacional, grandes
instituições bancárias, estrutura sofisticada de transportes e comunicações,
etc.). Essas cidades fazem parte das grandes redes internacionais de alta
tecnologia (aeronáutica, informática, etc.) e de serviços de ponta, além de
disporem de uma estratégia de planificação da sua atividade internacional. São
cidades que exportam fatores de produção (Soldatos 1996, 218). Por isso, são
capazes de receber e oferecer apoio técnico internacional, ou seja, são
locusprivilegiado de difusão de cooperação técnica internacional horizontal e
cooperação descentralizada.
Neste artigo, nosso foco será tratar da internacionalização das cidades a
partir da perspectiva da cooperação técnica internacional, pois pode haver
amplas oportunidades às cidades brasileiras nesse setor propício às suas
respectivas internacionalizações. Nesse sentido, a seguir, pretendemos promover
uma breve discussão teórica a respeito da evolução do conceito de cooperação
técnica. Para auxiliar na criação de cenários hipotéticos lastreados na
realidade internacional que possam auxiliar na identificação e na articulação
das necessidades e problemas enfrentados pelas administrações municipais
brasileiras vis-à-vis às novas possibilidades apresentadas pela arena externa,
junto da qual os gestores municipais poderiam criar soluções concretas e
viáveis para os problemas enfrentados pelos municípios que administram.
Um exercício de conceituação da cooperação internacional
A pesquisa realizada nos permite estabelecer quatro tipos ideais conceituais de
Cooperação Internacional, os quais podem ser classificados em uma escala
evolutiva: a) cooperação internacional vertical, b) cooperação técnica tout
court, c) cooperação internacional horizontal e d) cooperação internacional
descentralizada.
O primeiro tipo de cooperação, herdeiro de uma visão pós-Segunda Guerra
Mundial, possui caráter assistencial e consiste na transferência vertical de
conhecimentos e técnicas dos países avançados aos países menos desenvolvidos, o
que pressupõe uma postura passiva por parte destes últimos e evidencia sua
condição de subalternidade. Apesar da negação constante, é possível constatar
que esse tipo de assistencialismo nunca foi desinteressado, uma vez que esteve
sempre vinculado a objetivos nacionais específicos dos países desenvolvidos,
principalmente no período da Guerra Fria. A promoção desse tipo de cooperação
se enquadra na lógica da inserção internacional passiva dos municípios.
A cooperação internacional vertical continua existindo, ainda que seja
veementemente negada por parte dos agentes que as oferecem. Isso porque, na
atualidade, seu viés assistencialista passou a ser condenado mundialmente,
gerando um consenso pejorativo sobre seus resultados, sobretudo por não
contribuir para a geração de condutas autônomas nos agentes receptores,
capacitando-os a, no futuro, solucionarem seus problemas cotidianos com maior
independência.
O maior exemplo disso ocorre com as grandes corporações transnacionais do setor
de fármacos, as quais se mantêm como agentes doadores de cooperação
internacional vertical aos países mais pobres para evitar que seus governos
invistam recursos na descoberta e fabricação de novos medicamentos para a cura
de doenças que afligem suas populações. Na realidade, os agentes doadores
repassam seus produtos aos países pobres em troca da manutenção do seu
monopólio sobre agentes químicos de alto lucro na indústria farmacêutica.
Assim, evitam a entrada de novos competidores no mercado, bem como a ação
pública legítima contra seus monopólios condensados e protegidos pelos
mecanismos internacionais de proteção de patentes, tais como o Agreement on
Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights (Trips) na Organização
Mundial do Comércio (OMC).
Com o passar dos anos, esse tipo de assistencialismo passou a constituir-se,
ele mesmo, em situação incômoda. Logo, procurou-se substituir o caráter
assistencialista pelo conceito de cooperação técnica tout court, que constitui
o segundo tipo de cooperação. Isso tornou possível tratar os países em via de
desenvolvimento como parceiros no processo de solução de seus problemas, como
agentes intervenientes no processo de cooperação internacional, possibilitando
a redução do envolvimento constante de peritos estrangeiros, que foram
substituídos por consultores de curto prazo, com a função de apoiar os esforços
locais. Desde então, os países em desenvolvimento mudaram de posição: de
receptores, transformaram-se também em agentes do processo cooperativo. Esse
tipo de cooperação já parece ser uma evolução, representando um meio-termo
entre as estratégias de internacionalização municipal ativa e passiva.
Um exemplo ilustrativo desse modelo é a cooperação técnica de tecnologia
avançada de perfuração de poços de petróleo em águas profundas oferecida pelo
Brasil via Petrobrás para vários países, tais como a Nigéria. Ou ainda, a
tecnologia de exploração de gás e construção do Gasoduto Brasil-Bolívia por
parte do Brasil para o escoamento dessa commoditypara o mercado consumidor
brasileiro, sem a qual a Bolívia não teria capacidade de fazê-lo. Nessa lógica
também se insere a experiência da construção da Hidrelétrica Itaipu Binacional
entre Brasil e Paraguai, a qual tem gerado benefícios mútuos.
O terceiro tipo de cooperação internacional surge como evolução da mudança
conceitual explicitada acima, e passa a ocorrer a partir do surgimento de ações
de cooperação entre países em via de desenvolvimento. A cooperação deixou de
ser exclusivamente um mecanismo de interação Norte-Sul, passando a existir
também no sentido Sul-Sul. Além disso, nesse processo evolutivo, a cooperação
também deixou de ser exclusivamente vertical ou técnica para incorporar
características horizontais. Esse tipo de cooperação proporciona para as
cidades brasileiras uma internacionalização ativa.
A concretização desse perfil de internacionalização ativa das cidades
brasileiras pode vir a se efetivar devido ao fato de o País ter alcançado um
nível intermediário de desenvolvimento, que o capacita tanto a receber volumes
expressivos de cooperação técnica internacional como a prestá-la para países
menos desenvolvidos, da América Latina e da África. Sob essa ótica, a Agência
Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores
(MRE), afirma que:
(...) a cooperação técnica internacional passa a ser encarada sob
suas duas vertentes principais: como instrumento de política externa
e como auxiliar de promoção do desenvolvimento socioeconômico do
país. Nesse sentido, a política brasileira de cooperação técnica
internacional se realiza pela combinação dos elementos básicos das
duas vertentes, ou seja, da recebida e da prestada, e será eficiente
na proporção que assegure o alcance dos principais objetivos de uma e
de outra (Warwar 2005).
Portanto, pode-se afirmar que a cooperação internacional mais benéfica se
distingue por: a) focalizar o desenvolvimento da infraestrutura humana; b)
gerar fluxo de conhecimento tanto para a organização prestadora como também ' e
principalmente ' para a instituição local, de forma a garantir continuidade dos
programas, evitando a dependência permanente e promovendo o desenvolvimento
institucional das novas tecnologias absorvidas; e c) ter custos quase nulos
para quem está recebendo.
Enfim, a cooperação internacional horizontal parece ser a mais adequada do
ponto de vista de geração de bem-estar para as populações do receptor, visto
ser uma das modalidades básicas da cooperação para o desenvolvimento. Embora a
cooperação internacional de primeiro e a de segundo tipo ' assim como suas
interfaces ' também possam ser importantes e gerarem efeito sinérgico e de
complementação, ressalta-se muito relevante conjugá-las sempre no sentido de
assegurar a prevalência da cooperação internacional horizontal.
Isso porque ela objetiva a troca de conhecimentos mútuos entre parceiros para a
solução de problemas comuns em diversas áreas, como, por exemplo, urbanização,
meio ambiente, tratamento do lixo hospitalar, transporte, educação, saúde, etc.
Nesse sentido, cidades brasileiras têm muitas características em comum com
outras localidades no mundo e estão aptas a oferecer cooperação para suas
congêneres, bem como a receber auxílio advindo de cooperação internacional
horizontal, tout courte vertical.
É importante ressaltar que esse tipo de cooperação internacional horizontal não
pode, de maneira alguma, ser confundido com a cooperação econômica e comercial,
que em um primeiro momento propõe auxílios apenas para países em vias de
desenvolvimento, mas junto deles envia um pacote de produtos de empresas
originárias dos seus países.
Diante disso, o grande desafio das cidades brasileiras consiste em atuar
internacionalmente para transformar seu espaço urbano em locusprivilegiado para
o estabelecimento de cooperação internacional horizontal, tendo em vista a
capacidade desses municípios de gerarem políticas públicas úteis para outras
localidades. Isso tem duas consequências práticas. A primeira consiste em
estabelecer condições que permitam baratear serviços para o erário público. A
segunda reside no fato de a cooperação atuar no sentido de, em um primeiro
momento, oferecer melhores condições de vida para os cidadãos, para em seguida
permitir ao receptor utilizar a tecnologia recebida como conteúdo para
intercâmbio com outros parceiros, em âmbito nacional e internacional,
aumentando com isso a possibilidade de recebimento de outros auxílios de seu
interesse. Para tanto seria necessário aproveitar mais adequadamente a massa
crítica de ciência e tecnologia disponível nessas cidades, no âmbito das
instituições existentes, como é o caso dos grupos de pesquisa, das
universidades e dos hospitais universitários, dentre outros.
Vale ressaltar que, mesmo enfatizando o papel das cidades nesse terceiro modelo
de cooperação internacional, a figura do Estado nacional é imprescindível, como
ficou confirmado pela pesquisa quando tratamos da transferência de tecnologia
do Brasil para a África do Sul, mediada pela ABC, visando ao tratamento dos
doentes de aids do país africano. O que evidenciou a necessidade de mais
pesquisa teórica para compreendermos casos específicos de cooperação
internacional que envolviam a internacionalização de governos subnacionais sem
a intermediação de estados nacionais.
Ao analisarmos a literatura sobre o assunto percebemos a possibilidade de
incorporarmos no nível conceitual uma nova modalidade de cooperação
internacional, aqui representando nosso quarto tipo: a cooperação internacional
descentralizada. Ela possui características gerais da cooperação horizontal sem
necessariamente incorporar a figura do Estado-nação[1]. Isso porque, como vimos
antes, o Estado nacional dos países em desenvolvimento, graças às suas
vulnerabilidades decorrentes dos fluxos de interdependência global, tornou-se
incapaz de responder aos problemas do cotidiano das localidades. Como resposta,
as cidades perceberam a associação como um instrumento eficaz para buscar
soluções comuns aos seus problemas particulares. Gradualmente, a formação de
parcerias e redes de trabalho vem se adensando, pois permitem a formação de
solidariedades estratégicas, cooperação descentralizada e troca de informação
entre as cidades, os munícipes e as diversas organizações econômicas, políticas
e sociais que dão vida à malha de sociabilidade local, criando e recriando os
espaços locais e suas respectivas bases de sustentabilidade comunitária.
Nesse sentido, fomos percebendo a existência de pelo menos três atributos
definidores da cooperação descentralizada. O primeiro deles é ser ela qualquer
iniciativa promovida por entes que não pertencem à administração central do
Estado, tais como associações privadas, administrações municipais e
provinciais, universidades, fundações, sindicatos, setor privado em geral, etc.
A Comissão Europeia compreende a cooperação descentralizada como qualquer
iniciativa proposta indiferentemente por ONG ou por entes locais. Ou seja, o
predominante nessas iniciativas é a reivindicação de autonomia, visibilidade
própria e vontade de se diferenciar da administração central por meio de
financiamento da cooperação descentralizada.
Ademais, muitas dessas experiências não possuem legalidade jurídica nos
territórios nacionais nos quais são desenvolvidas. Dowbor (2006) considerou que
essas experiências são aquelas que estão para além do controle dos Estados
nacionais porque seus agentes se internacionalizaram partindo de ação e vontade
própria sem nenhuma intermediação do governo central. As ações desses agentes
estariam criando espaços internacionalizados de relacionamentos não previstos
nas relações internacionais clássicas mediadas pelo Estado nacional.
Como derivação do primeiro atributo, o segundo é o pressuposto de que todas as
partes envolvidas devem ter algo a contribuir na aliança estratégica[2]
elevando a noção de trocas qualitativas pró-desenvolvimento como primordial em
todo processo, o qual deve ter como fim último servir como mecanismo efetivo
para o desenho e a prática de políticas públicas que solucionem os problemas
dos cidadãos. Em outras palavras, os agentes condutores das experiências
descentralizadas de cooperação internacional são capazes de gerar políticas
públicas mais eficazes por desenvolverem suas atividades em parceria com os
cidadãos atingidos por suas ações. Eles partem da noção de que é o cidadão,
acostumado à dinâmica de sociabilidade da sua comunidade, que conhece os
problemas da localidade em que vive e, portanto, deve participar como agente e
receptor dos serviços e das políticas públicas geradas no bojo de uma
cooperação internacional descentralizada. O que, como efeito colateral
positivo, demanda níveis ampliados de participação política, logo processos de
tomada de decisões mais democráticos.
Isso requer que os sujeitos descentralizados da cooperação sintam-se atores do
desenvolvimento local, parte integrante da comunidade local, aspirando a
contribuir com o desenvolvimento humano no nível global. A incapacidade do
governo central em prover os mesmos serviços oferecidos pelos agentes de
cooperação descentralizada o conduz a incentivar essas experiências, até mesmo,
muitas vezes, por meio de doações financeiras. Em muitas ocasiões, emergem
experiências inovadoras, até no tocante à ampliação de experiências
democráticas. Entretanto, em outras ocasiões, essa prática pode acabar em
corrupção e deve ser bastante monitorada pela sociedade civil.
Por fim, o terceiro atributo definidor da cooperação descentralizada trata de
boas motivações éticas dos agentes que se envolvem com ela. Na maioria das
vezes, eles querem construir um mundo melhor e, para tanto, se propõem a
realizar projetos que visam a contornar as condições sub-humanas de parcelas
significativas da população mundial. Isso exige que cada um cumpra sua tarefa,
seja como pessoa, seja como organização. Nos últimos anos, visando a alcançar
esse objetivo, muitos desses agentes passaram a exigir dos governos e das
organizações internacionais a construção de mecanismos e procedimentos
adequados para dar-lhes o suporte necessário para o cumprimento de suas
tarefas. Parece haver experiências bem sucedidas nessa perspectiva.
Contudo, em muitas outras ocasiões, muitos governos se utilizam dessas boas
motivações éticas para repassar para atores sociais tarefas suas, incorporando-
os como partners ativos de execução de serviços públicos, mas não na formulação
das políticas a serem adotadas para solucionar problemas sociais coletivos.
Essa prática limita o aprendizado social desses atores que buscam cooperar com
governos e organizações internacionais, cada qual com suas competências e
capacidades, na identificação, formulação, negociação e execução de políticas
públicas que incidam sobre a qualidade do desenvolvimento humano nas sociedades
mais pobres do planeta. Dito de outro modo, as boas motivações éticas dos
agentes de cooperação descentralizada não devem ser instrumentalizadas pelos
governos para suprir suas responsabilidades; pois se desenvolverem-se nesse
sentido, tendem a perder seu caráter político-social[3].
Diante do exposto, sob o conceito de cooperação descentralizada, podemos
incluir iniciativas diversas, as quais devem constituir
(...) un sistema organizado de partenariados territoriales de
desarrollo y solidaridad entre comunidades locales del sur y del
norte, con el objetivo de hacer trabajar juntos los propios actores,
de manera coordinada, hacia los objetivos y con los métodos del
desarrollo humano, tanto a nivel local como buscando enlaces a nivel
nacional e internacional (Carrino 2003, 4).
O que implica uma eleição estratégica de agentes descentralizados,
compartilhada e apoiada por estruturas nacionais e por organizações
internacionais, as quais devem adotar uma visão do desenvolvimento global
fundamentada no desenvolvimento local.
Em resumo, a cooperação descentralizada é um mecanismo para influenciar o
desenvolvimento global por meio de conexões internacionais entre comunidades
locais do Sul e do Norte do mundo, em uma dialética construtiva com os governos
centrais e com as organizações internacionais. Visa a unir forças para um
interesse comum: o desenvolvimento humano orientado para a redução da pobreza,
do desemprego, da exclusão, da violência e de outros desequilíbrios que ameaçam
o futuro. A sua vantagem principal é a descentralização de ações, reunindo
diversos agentes, numa rede de gestão mais democrática, criativa, flexível e
mais próxima dos problemas cotidianos das populações excluídas, sobretudo, dos
países pobres. Os receptores dessa cooperação descentralizada dão-lhe ampla
legitimidade porque percebem o grau elevado da informação, do diálogo e da
transparência na tomada e implementação de suas decisões, o que já não tem
ocorrido nas gestões públicas de países em desenvolvimento, nas quais a
prestação periódica de contas à população é quase inexistente.
Para finalizar, queremos apenas reforçar a ideia de que a cooperação
internacional descentralizada preconiza um modelo de cooperação mais
participativo em que se reconhecem atores não governamentais como parceiros
importantes das tradicionais relações Estado-Estado. Ela visa a reforçar a
participação da população nas ações de desenvolvimento orientadas para a
exploração de complementaridades e reforço de redes globais na perspectiva do
desenvolvimento local. Porém, como vimos, é essencial uma cooperação de
parceria entre operadores variados como organismos públicos (municípios), ONGs,
associações e agrupamentos locais, agentes empresariais, universidades, etc. A
cooperação descentralizada surge das transformações na ordem internacional,
como vimos anteriormente.
Considerações finais
O objetivo central deste artigo foi empreender uma análise teórica prospectiva
sobre as condições internacionais e domésticas do Brasil que conduziram seus
entes federados ' especificamente os municípios ' a encontrarem no instrumento
de Cooperação Técnica Internacional alternativa ao desafio de aprimorar e
melhorar a gestão pública municipal no País em prol dos interesses de
cidadania.
O primeiro resultado que alcançamos foi demonstrar que o adensamento das
experiências de paradiplomacia no Brasil via CTI foi resultado tanto de
transformações sistêmicas internacionais quanto de uma estratégia da União para
lidar com os resultados negativos da interdependência econômica sobre a nação.
Ao transferir aos entes federados, sem compensações, os custos da inserção
internacional do País num mundo caracterizado pela interdependência global, a
União acabou involuntariamente cedendo na sua exclusividade de formulação e
implementação da política externa brasileira. Estados e municípios aproveitaram
esse lapso para desenvolver parcerias internacionais com o argumento de
preencher as lacunas deixadas pela União.
Diante dessa situação, trata-se de a União desenvolver capacidade governamental
de articular necessidades e soluções internas com essas novas possibilidades
abertas no exterior pelos entes federados subnacionais, sem romper com o papel
clássico exercido pelo Estado nacional no campo da política internacional. Sem,
obviamente, atrapalhar o desenvolvimento de parcerias internacionais já
realizadas e as que estão por vir.
Outro resultado que julgamos relevante foi sugerir um mapa conceitual mínimo
que poderá ser duplamente útil aos gestores municipais. Primeiro, por permitir
a eles avaliar, com conhecimento de causa, os tipos de CTI disponibilizados
pelos futuros parceiros internacionais aos seus municípios. Possibilitando-lhes
verificar a pertinência da adoção ou não deles pela sua cidade. Por exemplo,
nosso artigo demonstra que essas experiências internacionais só são benéficas
como alternativas menos custosas para a solução duradoura de problemas locais,
o que só pode ser viabilizado com parceiros que adotam os modelos de cooperação
horizontal e cooperação descentralizada. Simultaneamente, ficou também evidente
que a cooperação vertical e a cooperação técnica internacional a juros mais
civilizados são uma opção, mas não tão adequadas, na medida em que proporcionam
alternativas pela via do mercado, da lucratividade, sem atentar-se para as
necessidades das demandas da cidadania.