As relações econômicas internacionais do governo Geisel (1974-1979)
Introdução
De meados da década de 1960 até o final da década de 1970, o Brasil ascendeu
rapidamente na escala global de distribuição de poder econômico relativo, e,
com isso, mudaram suas ambições e seu padrão de relacionamento com a economia
mundial. O período no qual essas transformações operaram de forma mais complexa
foi durante a presidência de Ernesto Geisel (1974'1979). Esses processos
ocorreram em um contexto de declínio relativo dos Estados Unidos e de distensão
da Guerra Fria, os quais proporcionaram as condições para a adoção de uma
política econômica externa cuja tônica, entre outras, era a diversificação de
parcerias sob o signo da promoção do desenvolvimento econômico (Lessa 1995). A
orientação da diplomacia econômica definiu-se, portanto, pela aproximação com
outros parceiros, entre eles a América Latina, a África e o Leste Europeu (Lima
e Moura 1982, 351'54). Ao mesmo tempo, o período caracteriza-se por um projeto
de asserção da autonomia nacional voltado para a redução das vulnerabilidades
do País frente às incertezas da economia internacional. Nesse sentido, é
ilustrativa a afirmação do chanceler Azeredo da Silveira de que o Brasil
deveria almejar a condição de potência para ter a capacidade de prescindir de
outras nações líderes naquilo que [fosse] essencial à consolidação de seu
desenvolvimento.[2]
As relações econômicas internacionais não podem ser, no entanto, explicadas
apenas por desígnios de ascensão, autonomia e diversificação. A atuação externa
brasileira durante a gestão Geisel encerra incoerências, conflitos e tensões
que só podem ser compreendidos se levar-se em conta um conjunto de variáveis
que interagem para determinar o padrão de comportamento do País na economia
global. Neste artigo, trataremos daquelas que consideramos as principais
tensões e incongruências da inserção econômica do período e proporemos um
quadro analítico que ajude a explicar o comportamento do País e os resultados
de suas ações.
A primeira tensão diz respeito, de um lado, à busca da autonomia e da segurança
econômica, para fazer frente às incertezas do ambiente econômico internacional
e, de outro, à acentuação da dependência e da vulnerabilidade externa da
economia brasileira no período. Se, por um lado, o Brasil adotou medidas que
buscavam diversificar suas relações comerciais e atenuar sua dependência de
insumos, bens de capital e petróleo importados, por outro, tomou decisões que
acabaram por aprofundar sua vulnerabilidade financeira e sua dependência do
capital estrangeiro, bem como exacerbaram, em curto prazo, a necessidade de
importação de petróleo e insumos importados. Para entender melhor essa questão,
analisaremos os casos do endividamento externo brasileiro e da participação do
capital estrangeiro no setor de exploração petrolífera.
A segunda questão diz respeito à mobilidade ascendente do Brasil em termos de
poder econômico relativo no sistema internacional e às tensões e incongruências
dela decorrentes no que tange ao processo de redefinição do interesse do País
perante a economia política internacional. A hipótese discutida é que a melhora
na posição relativa do País não se traduziu, direta e uniformemente, na
expansão das ambições de sua política externa. O processo de mudança no
comportamento depende não apenas da trajetória material, mas de como variáveis
domésticas intermedeiam a relação entre alterações na posição relativa e
comportamento externo (Lobell et al. 2009, 4'5; Rose 1998, 167; Schweller 2003,
317'18; Zakaria 1998, 35'37). Recorreremos aqui aos casos da expansão do
crédito e investimento brasileiro direto no exterior; da atuação brasileira em
relação aos cartéis de commodities; e do Sistema Econômico Latino-Americano
(Sela).
Em terceiro lugar, observa-se que alguns resultados relativos à inserção
econômica externa do País não decorrem necessariamente de políticas
governamentais ou de projetos explícitos de política externa. Parte da
literatura tende a atribuir a diversificação das relações econômicas no período
a um projeto coerente que visava a proporcionar ao Brasil melhor posição nas
barganhas com as grandes potências. No entanto, nem todos os resultados da
diversificação podem ser entendidos nesses termos. Primeiro, porque algumas
decisões relativas a questões internas afetaram negativamente a busca da
diversificação da dependência. Segundo, porque houve dinâmicas econômicas
exógenas que influenciaram o relacionamento do País com o exterior e que eram
independentes das políticas governamentais adotadas. A esse respeito, serão
analisados os casos da aproximação com a África negra e com o Oriente Médio.
O que há de comum no tratamento das questões e dos casos apresentados é o
quadro analítico que propomos. Consideramos que para descrever e explicar a
economia política da inserção externa brasileira do período é preciso atentar
para dois grupos de variáveis. Primeiro, há as variáveis que estão no nível
sistêmico, que dizem respeito à posição relativa do País no sistema econômico
mundial e às oportunidades e restrições sistêmicas com que se depara o País em
sua atuação externa. Essas variáveis, no entanto, não agem diretamente sobre o
comportamento do País: as pressões sistêmicas, assim como as oportunidades e as
restrições do ambiente internacional, são filtradas e processadas por variáveis
intervenientes no nível doméstico. As variáveis domésticas relevantes para
nosso estudo são: as ideias e percepções dos tomadores de decisão; as disputas
interburocráticas no interior do aparelho do Estado; a política doméstica; e as
dinâmicas econômicas exógenas às políticas governamentais.
Acreditamos que esse marco analítico pode ser bem-sucedido na organização dos
fluxos de causalidade que explicam a inserção econômica externa do País,
podendo ser aplicado também a outros períodos. Ele ajuda a prevenir três
problemas associados ao estudo da política externa brasileira. O primeiro é a
explicação da inserção internacional do País somente pelo exame da retórica
oficial e pelo voluntarismo dissociado das oportunidades e dos constrangimentos
do sistema internacional. Nesses termos, o ponto de partida e o ponto de
chegada das narrativas são comumente os epítetos concebidos pelos próprios
decisores ' pragmatismo responsável, diplomacia da prosperidade,
diplomacia do interesse nacional, etc. ', estruturados em uma concepção
altista de agência, dado que se trabalha com o sistema internacional como
categoria meramente contextual, e não como fator estruturante na análise. Além
disso, esse tipo de análise tende a confundir as intenções declaradas dos
atores com a ação propriamente dita. O segundo problema analítico opera em uma
lógica inversa, pois transforma a ação dos Estados em mero epifenômeno das
relações de poder e dos fluxos econômicos internacionais, não havendo espaço
para a agência do homem de Estado. Por fim, o terceiro problema que o marco
analítico apresentado ajuda a dirimir é a noção de que não há, ou é mínima, a
distância intertemporal entre ação dos agentes econômicos e estatais, de um
lado, e suas consequências para a inserção econômica do País, de outro.
Ajuste, autonomia e dependência
Quando houve a troca de governo, em março de 1974, as condições estruturais que
sustentaram o milagre econômico já haviam se esgotado. A economia aquecida
pressionava as taxas de inflação, e o preço do barril do petróleo indicava que
o Brasil, em longo prazo, teria que enfrentar problemas de reestruturação da
economia (Fishlow 1986, 511). O enfrentamento era inevitável porque: (a) as
reservas cambiais não poderiam cair abaixo de US$ 2 bilhões, sob o risco de
afetar a confiança dos investidores, um fator central na economia; (b) as
importações não poderiam ser cortadas significativamente sem prejudicar o
crescimento econômico ' cerca de 75% das importações não energéticas eram
relacionadas com investimentos; (c) o serviço da dívida externa brasileira já
consumia 36% das receitas das exportações brasileiras; (d) o crescimento das
exportações não conseguiria ter ritmo semelhante ao ritmo das importações em
curto prazo, de maneira a diminuir a necessidade de financiamento externo
destas; (e) a exploração de petróleo no País não seria suficiente para diminuir
importações de combustível.
Frente ao choque externo advindo do aumento no preço do petróleo a partir de
1973 e ao elevado grau de endividamento externo do País à época, os decisores
da política econômica se depararam com a necessidade de adoção de políticas de
ajuste externo. As principais opções dos tomadores de decisão podiam ser
resumidas a: (1) realizar um ajuste externo recessivo, com ênfase no
realinhamento dos preços relativos (aumento dos preços domésticos de energia),
desvalorização real para estimular as exportações e políticas fiscal e
monetária restritivas para controlar a inflação; ou (2) implementar uma
estratégia de ajuste estrutural, com investimentos na ampliação da capacidade
produtiva doméstica de bens de capital e petróleo e da capacidade exportadora
do País, fortemente ancorada em fontes de financiamento público e externo
(Fishlow 1986, 519; Hermann 2005, 98'100).[3]
É à luz do diagnóstico nada otimista sobre o desempenho da economia,
compartilhado por diversas figuras da burocracia econômica do País, que se deve
analisar as motivações das primeiras ações do governo Geisel no campo
econômico. Logo após sua posse, foi tomada a decisão de aumentar os preços dos
derivados de petróleo e diminuir os controles de preços, o que indicava certa
inclinação a adotar mecanismos de mercado para o ajuste da economia. Além
disso, optou-se por uma restrição monetária e fiscal de forma a diminuir o
crescimento da produção na economia já aquecida (Coes 1995, 18; Fishlow 1986,
514; Hermann 2005, 97; Macarani 2008, 8'10).[4]
Não houve, dessa maneira, a definição e implementação de uma estratégia de
crescimento via endividamento no primeiro momento do governo. A adoção da via
do ajuste pela entrada líquida de capital financeiro ocorreu de forma
incremental, tendo se materializado no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II
PND), anunciado em meados de 1974. Tratava-se de um plano de investimentos
públicos e privados dirigidos aos setores de infraestrutura, bens de produção,
energia e exportação, que dependia, para sua viabilização, de fontes de
financiamento público e externo (Hermann 2005, 100).
Como isso ocorreu em um governo altamente comprometido com o insulamento da
economia brasileira? Dois fatores ajudam a explicar essa questão: as eleições
legislativas de 1974 e a ampla disponibilidade de capital estrangeiro. Sobre o
primeiro aspecto, convém considerar que Geisel estava profundamente
comprometido com a manutenção das elevadas taxas de crescimento da economia
como forma de dar estabilidade ao processo de abertura gradual do sistema
político ' como a legitimidade do regime militar estava ancorada no crescimento
econômico, qualquer abalo neste reverter-se-ia automaticamente em abalo naquela
(Coes 1995, 18, 31 e 112; Fishlow 1986, 515; Gaspari 2003, 437'38; Gaspari
2004, 46). Quando o governo recebeu o resultado da derrota nas eleições
parlamentares, no primeiro ano de gestão, não houve saída a não ser afastar-se
de políticas que pudessem trazer recessão ao País (Macarani 2008, 10).
A grande oferta de recursos no mercado de capital internacional foi o segundo
aspecto relevante, pois, sem isso, o Brasil não conseguiria desembolsar o
volume de dólares adequado para o pagamento das importações. Foi somente no
final de 1974 e início de 1975 que os mercados internacionais tiveram liquidez
adequada para sustentar o endividamento brasileiro ' a dívida externa do País,
em 1974, saltaria de US$ 12,5 bilhões para US$ 17,2 bilhões.[5]
Inicialmente, as autoridades públicas eram descrentes da capacidade de o País
captar externamente todos os recursos necessários para a sustentação da taxa de
crescimento da economia. No final de 1974, Paulo Lira, presidente do Banco
Central, mostrava-se cético quanto à possibilidade de o País conseguir somas
significativas de recursos de origem árabe (petrodólares) em curto prazo.[6] O
mesmo pode ser dito sobre Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda.[7]
Outras autoridades do governo demonstravam equivalente descrença quando
examinavam a capacidade do mercado de capitais europeus em sustentar as
necessidades brasileiras.[8] Mesmo assim, várias medidas foram tomadas para
estimular a entrada de capital financeiro no País. Ainda no final do governo
Médici, em fevereiro de 1974, tomou-se a decisão de suspender o requerimento
mandatório de depósito de 40% do total equivalente em cruzeiros de moeda
estrangeira proveniente de empréstimos internacionais. Em setembro de 1974, o
prazo mínimo de maturidade dos empréstimos externos financeiros foi reduzido de
10 para 5 anos.[9]
Se as difíceis condições de financiamento externo facilitavam, inicialmente, a
ação dos que buscavam o ajuste recessivo, devemos analisar como esse grupo
atuou no início do governo Geisel, quando ainda não era nítida a capacidade de
financiamento externo. No primeiro ano do governo, os resultados da economia
brasileira eram muito preocupantes. A inflação esperada era de 20%, tendo o ano
fechado em 35%; estimava-se um deficit comercial por volta de US$ 1,5 bilhão,
tendo ocorrido o triplo. Havia, dessa maneira, grandes incentivos para que
houvesse propostas articuladas de ajuste da economia brasileira pela via
contracionista. Elas, todavia, apresentaram-se tarde demais, além de não terem
sido articuladas em um programa claro.
Uma dessas iniciativas veio de Marcos Vianna, presidente do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico (BNDE), que propôs uma inversão de rumo ao ministro
do Planejamento, Reis Velloso, em março de 1976. A motivação da iniciativa
estava nas crescentes críticas do setor privado à atuação do governo, o que
demandava ajustes na política econômica como forma de manter o apoio desse
setor. O centro do plano estava na contenção do poder estatal sobre a economia.
Mesmo com esse propósito, Vianna concordava com a ação das empresas do Estado
nos setores de petróleo, minério de ferro, aeronaves e vacinas. Na prática, a
estratégia proposta por Vianna não mudava os fundamentos do modelo econômico e
não tocava em problemas graves, como o financiamento externo e a inflação. Era
uma rota alternativa que não trazia uma real inversão de rumos.
Outra iniciativa de ajuste da estratégia de crescimento brasileiro veio de
Simonsen. Na área comercial, ele desprezava a estratégia de crescimento
brasileiro calcada na proibição de importação de produtos capazes de concorrer
com similares nacionais. Achava que o comércio internacional era uma avenida de
mão dupla ' se o Brasil tomasse medidas unilaterais de proteção, não haveria
razão para se surpreender quando outros países o fizessem contra os produtos
nacionais (Simonsen 1969, 177). Mas suas preocupações estavam voltadas para o
domínio monetário e para a sustentabilidade da dívida externa. Seu maior alerta
veio no texto O problema da credibilidade externa brasileira, no qual alertava
que a inflação, o deficit comercial, o excesso de despesas públicas e o
crescimento da dívida externa iriam levar o País à bancarrota. Ele levava os
sinais de perigo a Geisel, mas o comprometimento do presidente com a via da
aceleração econômica não lhe permitia qualquer influência substantiva.[10]
Esse comprometimento era moldado pelas tendências da economia brasileira e por
eventos conjunturais que davam periodicamente um sentido de otimismo sobre a
capacidade brasileira de isolar-se da crise externa. Quanto ao primeiro ponto,
observa-se que as exportações do País tinham crescido a uma taxa anual de 25%
nos seis anos precedentes ao choque do petróleo, nível bem maior do que as
taxas de juros cobradas no período (Macarani 2008, 8'9). Se essa tendência se
mantivesse, e a dívida externa mantivesse ritmo de crescimento estável, a
relação dívida/exportação declinaria com o tempo, tornando a dívida externa
brasileira administrável. Assim, do ponto de vista econômico, a contratação de
empréstimos internacionais com taxas de juros menores do que as expectativas de
crescimento das exportações era argumento poderoso. Apesar de ter sido
apresentado como equivocada uma década depois, houve poucas discussões sobre os
riscos dessa estratégia no início da década de 1970. Além disso, se o primeiro
choque do petróleo tivesse sido o único, ou se tivesse tido menor impacto, a
estratégia de financiamento adotada pelo governo, em retrospecto, poderia ter
sido aceitável (Coes 1995, 18'19, 112'13).
Sobre o otimismo alentado por eventos conjunturais, um bom exemplo foi a
descoberta de petróleo na Bacia de Campos. A descoberta teve impacto nas
predisposições cognitivas tanto dos atores econômicos como dos oficiais do
governo. A bolsa de valores teve alta e investidores revisaram para cima a
capacidade de endividamento do Brasil, mesmo havendo fontes técnicas indicando
que a diminuição significativa da dependência do petróleo estrangeiro ainda
estava longe de ser alcançada. O clima de euforia se reforçava com estudos da
própria Petrobras indicando que a produção nos novos campos poderia preencher
75% do consumo nacional dentro de 4 ou 5 anos. Como se sabe hoje, somente na
década de 1990 essa meta foi alcançada. Mas, na época, a crença de que o
aumento expressivo da autossuficiência estava próximo ajudou os decisores a
conceber um quadro bem menos instável para a economia brasileira em médio
prazo.
Em toda essa trajetória, o objetivo era ingressar na turbulência internacional
diminuindo o nível de dependência externa. Mas, enquanto se buscava a
independência no lado comercial da equação ' com a ampliação do programa de
substituição de importações e os investimentos em geração de energia e nas
indústrias de bens de capital e intermediários ', no lado financeiro, a
estratégia governamental de endividamento externo a aprofundava (Castro e Souza
1985, 41; Batista 1987, 69'77). A lógica do insulamento, que buscava aumentar a
resistência da economia a choques externos, acabava alimentando a própria
condição de vulnerabilidade do País ' sobretudo em termos financeiros. Entre as
crenças da elite militar e civil sobre os perigos da dependência externa e a
necessidade política de manutenção das taxas de crescimento econômico, as
premissas ideológicas foram colocadas de lado.
Não há exemplo mais claro desse processo de ruptura com o arcabouço de ideias
nacionalistas do que o papel que o capital estrangeiro teve, no governo Geisel,
em segmentos estratégicos da economia. Para Geisel, ideias liberais no campo
econômico condenavam o País a uma posição subalterna ' as empresas
estrangeiras podiam fazer o que quisessem, desde que fosse coisa que brasileiro
não soubesse fazer (Gaspari 2003, 294).
O difícil relacionamento entre insulamento e nacionalismo seria colocado à
prova na busca do aumento da autossuficiência energética no segmento de
petróleo e derivados. O dilema enfrentado pelos decisores era que, em curto
prazo, a autossuficiência só poderia ser alcançada por meio de parcerias com
empresas estrangeiras na exploração. A hipótese já era discutida desde a década
de 1950, mas o nacionalismo era sempre vencedor nas batalhas decisórias. Quando
o governo Kubitschek restabeleceu relações comerciais com a União Soviética e
houve a possibilidade de troca de petróleo soviético por produtos brasileiros,
por exemplo, Geisel foi contra e ajudou a dinamitar o projeto. Via na ideia
sério perigo para o Brasil, pois isso criaria graves laços de dependência: os
soviéticos poderiam vir a utilizar a situação para pressionar o Brasil ou
simplesmente suspender os suprimentos. Geisel, desde essa época, achava que a
importação de produtos essenciais criava problemas de dependência graves ao
País, algo que foi aprofundado com a crise do petróleo (Gaspari 2003, 63;
D'Araujo e Castro 1997, 247).
No governo Médici, alguns ministros da área econômica desejavam franquear a
empresas estrangeiras a exploração de petróleo nacional por intermédio de
contratos de risco. Geisel novamente foi contrário à ideia; para ele, não
tinha sentido o Brasil Grande' chamar estrangeiros para fazer esse serviço
(Gaspari 2003, 258). Agora, confrontados com a crise do petróleo, o tema
voltava à pauta. Geisel relata da seguinte forma a questão:
Quando a situação do nosso suprimento foi ficando mais grave devido à
exagerada multiplicação dos preços, e vendo que a resposta que a
Petrobrás vinha obtendo não era muito promissora a curto prazo, pelo
menos em nível que correspondesse às necessidades do Brasil, Veloso e
outros fizeram a sugestão de abrir o Brasil aos contratos de risco.
Eu relutei muito. Não era muito favorável, mas acabei concordando e
fui à televisão anunciar a decisão de autorizar esse tipo de
contrato. (...) Relutei em aceitar [os contratos de risco] porque eu
era favorável ao monopólio, achava que a Petrobrás devia tomar conta
de todo o problema do petróleo. Tive que aceitar, contudo, em face da
emergência que o país atravessava. (D'Araujo e Castro 1997, 307'308).
[11]
Percebe-se, a partir da declaração de Geisel, que ele tomou posições contrárias
às suas crenças sobre a participação do capital estrangeiro na exploração do
setor estratégico de petróleo. A razão dessa aparente contradição é o fato de a
debilidade engendrada pela crise econômica externa ter demandado um
aprofundamento da busca pela autossuficiência que não poderia ser conseguida em
curto prazo sem a ajuda externa. O incessante desejo de que o Brasil seguisse
como uma ilha de prosperidade em meio à turbulência mundial traduzia-se, no
caso, em fortalecimento dos laços com as grandes corporações internacionais, a
despeito do profundo nacionalismo do governo.
Da análise conclui-se que não foi inevitável a implementação de um projeto de
crescimento pela via do endividamento. No início do governo, tentou-se um
tímido ajuste e, posteriormente, vários atores governamentais defenderam, sem
sucesso, esse rumo. A liquidez do sistema financeiro internacional (Devlin
1989, 123'39), por um lado, e as crenças das lideranças políticas de que era
necessária a continuidade do crescimento econômico para sustentar o regime, por
outro, deram os meios e os fins das ações governamentais. Estas, no entanto,
não foram condizentes com as premissas de autossuficiência dessa elite política
' o que traduz relevante contradição na política econômica externa do período.
Em suma, as decisões que resultaram no aprofundamento da dependência externa no
período, em termos de endividamento e de participação de empresas estrangeiras
na economia brasileira, foram fortemente condicionadas por choques externos
(preço do petróleo e liquidez financeira) e constrangimentos políticos internos
(necessidade de sustentação do regime). Essas variáveis constituíram clara
limitação aos ímpetos de autonomia frente à economia mundial.
Mobilidade, restrições e política econômica externa
O governo Geisel coincidiu com o fim de um período de exuberante crescimento
econômico. Havia, então, a crença de que o país podia, efetivamente,
transcender suas circunstâncias históricas, melhorar seu posicionamento
relativo na estrutura internacional de poder (Spektor 2004, 196).
Inicialmente, esta seção analisará como o Brasil atuou, em certas ocasiões, de
forma ágil na reestruturação de sua ação no sistema internacional face às
alterações em sua posição relativa. Para isso, examinaremos a expansão do
crédito além das fronteiras e a posição do País na formação de cartéis de
commodities (minério de ferro). Em seguida, analisaremos casos em que não foi
realizada uma reavaliação da atuação do País diante de uma nova realidade. O
fracasso na implementação da correção de interesses será ilustrado por dois
casos: a projeção econômica brasileira no Equador e a atuação do País dentro do
bloco dos países em desenvolvimento nas iniciativas econômicas multilaterais do
período. Em cada caso, serão explicitadas as variáveis que intermediaram a
transmissão das pressões de nível sistêmico para a política econômica externa
brasileira.
Investimento e crédito externo brasileiro
Em algumas ocasiões durante a gestão Geisel, os atores governamentais
perceberam os sinais do sistema internacional e conseguiram não só mudar a
concepção de interesse do País como implementar mudanças nas políticas de
acordo com essa nova percepção. Um primeiro aspecto relevante foi a projeção
externa brasileira por meio de empréstimos e financiamentos de longo prazo e
investimento direto no exterior (ver gráficos a seguir). O aumento da
capacidade econômica brasileira foi acompanhado de correções nos rumos da
projeção econômica externa do País. Em certas áreas geográficas, esse era um
processo que já vinha do início da década de 1970 (Schneider 1974, 15). Com o
governo Geisel, esses ajustes se tornaram mais sintomáticos, principalmente no
âmbito da América do Sul. Havia, naquele momento, a percepção de que o Brasil
deveria ajustar de vez seu comportamento externo, que não era mais compatível
com atitudes tímidas.
O desenvolvimento econômico doméstico demandava a ruptura dos grilhões que
prendiam o País em uma condição de timidez estrutural na sua inserção econômica
internacional. Era necessário desembolsar recursos para projetar interesses.
[12]

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Em termos agregados, nos Gráficos_1 e 2 é possível ver a projeção externa do
País em termos financeiros: houve sensível aumento do investimento externo
brasileiro e de empréstimos, principalmente por parte de empresas estatais e
construtoras privadas. Como apontam Iglesias e Veiga (2002), essa primeira fase
do investimento de empresas brasileiras no exterior se concentrou na Petrobras,
em instituições financeiras e em empresas de construção. Como indicadores sobre
a atuação financeira brasileira são difíceis de serem desagregados, pode-se
trabalhar com exemplos específicos encontrados. Um deles foi a criação do Banco
Interamericano de Poupança e Empréstimo (Biape).[13] Tratava-se de uma
sociedade anônima criada no âmbito americano para fomentar empréstimos
habitacionais. Na divisão acionária, o Brasil optou por ter a maior
participação, conjuntamente com a Venezuela (cada um com 35%). Não é possível
saber o impacto da instituição, mas o ativismo, em termos relativos na
distribuição das quotas, é enorme ' e, curiosamente, semelhante com o padrão
existente na proposta de criação do Banco do Sul, nos anos 2000.[14]
Muitas vezes, no entanto, a pressão do sistema internacional e a retórica
oficial chocam-se com idiossincrasias dos tomadores de decisão. Assim, quando
se fala no aumento do arco de projeção brasileiro na América do Sul, deve-se
considerar que isso não ocorreu sempre. Houve casos em que, mesmo havendo
recursos, harmonia da iniciativa com as premissas ideológicas do regime,
empreendedores bem posicionados no aparelho estatal e interesse dos países
vizinhos, o Brasil não conseguiu lançar-se com desenvoltura. É o caso, por
exemplo, da expansão brasileira no Equador. O país, que não tem fronteira com o
Brasil, tinha importância marginal para a inserção externa brasileira na
América do Sul. No início da década de 1970, no entanto, observou-se ação
crescente de empresários e militares brasileiros no país.
Os militares interessavam-se pela integração física da região amazônica.[15]
O projeto central era a chamada Via Interoceânica e seu plano inicial era de
1960 ' uma via de transporte que saía da cidade portuária de San Lorenzo,
passava por Quito e chegava a Manaus, totalizando 3.735 km, que só começou a
sair do papel no fim do governo Médici, por falta de recursos para a iniciativa
até então. No início da gestão de Geisel, a construtora Camargo Corrêa
preparava-se para assumir a construção do trecho rodoviário equatoriano, a
Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil (Cacex) e o Banco do Brasil se
articulavam para aportar os recursos, e o Itamaraty cuidava dos canais de
interação políticos. Seria, depois de concluído, o principal sinal tangível da
presença brasileira no Equador.
Quando houve a necessidade de aprovação presidencial para o início das obras,
Geisel determinou o engavetamento do projeto. A justificativa inicial era uma
questão de ordem prática: não havia razão para financiar a obra se o Equador,
exportador de petróleo, tinha condições de arcar com os custos. Segundo, e mais
importante ' o presidente, considerando sua experiência pessoal com os
equatorianos durante sua gestão na Petrobras, afirmava não ter tido qualquer
manifestação efetiva de colaboração com o país, sem contar que um Oficial do
Exército brasileiro não [havia sido] aceito para cursar a Escola Superior de
Guerra de Quito.[16] Mesmo tendo todas as condições possíveis no plano
doméstico e internacional, mesmo sendo o projeto harmônico com as pressões de
expansão e mobilidade do sistema internacional, o homem de Estado obstou a
projeção maior do Brasil no Equador. Somente em 1995 os dois países voltaram a
discutir seriamente a construção da Via Interoceânica.[17]
Formação de cartéis
Já no plano das relações multilaterais do País, uma referência de ajuste
previsível entre o comportamento esperado e o efetivamente observável na
política econômica externa foi a questão do cartel de minério de ferro. Fica
explícito, no caso, que as lideranças domésticas brasileiras percebiam como
limitadas as vantagens potenciais que poderiam advir com a organização dos
mercados de produtos primários, em um período que marcou o maior sucesso de
cartelização do século 20. Dessa forma, apesar das iniciativas de diversos
países em desenvolvimento para estender o sucesso do caso do petróleo a outros
produtos, o Brasil teve posição distinta no caso do minério de ferro,
demonstrando não ser um alinhado decidido do Terceiro Mundo no plano
multilateral, como indicavam as primeiras pesquisas sobre o período (Lima e
Moura 1982, 356).[18]
Até 1973, o Brasil buscava estabelecer arranjo com outros produtores de minério
de ferro ' principalmente Canadá, Austrália e África do Sul ' para aumentar o
preço do produto.[19] Contudo, em 1974, a posição do Brasil já era outra: não
havia mais desejo em participar de um cartel do ferro. A justificativa
apresentada era que, primeiro, ao contrário da Organização de Países
Exportadores de Petróleo (Opep), havia um número excessivo de países
mineradores de ferro, tornando difícil a criação de um cartel ' a maior
disponibilidade dos depósitos de minério ao redor do mundo dificultava a
necessária coordenação.[20] Segundo, o Brasil estava investindo pesadamente no
aumento das exportações do produto. Já em 1973, tinha-se a expectativa de que,
com o aumento da produção, o Brasil seria o maior exportador mundial de minério
de ferro em 1980.[21] De fato, os dados disponíveis indicam que a participação
brasileira na produção mundial de minério de ferro dobrou entre 1972 e 1980,
passando de 6% para 12% no período.
A participação nas exportações mundiais do produto cresceu em ritmo ainda
maior, tendo aumentado de cerca de 8% em 1972 para 22% em 1980 ' um ritmo de
crescimento elevado sob qualquer ponto de vista.[22]
A cartelização do setor, no entanto, ao estabelecer quotas de exportação,
impediria o crescimento das exportações brasileiras. Considerando que esse
movimento de expansão era superior ao dos concorrentes, o País abdicaria de
aumentar sua participação no mercado mundial de minério de ferro se houvesse
fixação de quotas nos níveis do início da década de 1970. Essa percepção fica
explícita em outubro de 1975, quando Shigeaki Ueki, ministro das Minas e
Energia do Brasil, envia mensagem ao ministro do comércio da Índia, D. P.
Chattopadhyaya, na qual declara ser prematuro um esquema de valorização do
minério de ferro. A decisão brasileira, para o ministro brasileiro, estava
calcada no autointeresse do País: buscava-se a liderança mundial na produção do
minério e achava-se que a entrada em um grupo no qual ocorreria o congelamento
do crescimento da produção por um sistema de quotas de exportação prejudicaria
esse objetivo. Não havia uma objeção filosófica a esquemas de organização de
produtores; a iniciativa apenas não atendia aos interesses brasileiros de longo
prazo nessa instância específica. O interesse decorrente de uma percepção de
ascendência futura na ocupação do mercado de minério de ferro traduziu-se de
forma direta na política econômica externa do País.
A crítica brasileira à cartelização do setor trouxe problemas. Para um
diplomata americano, a decisão do governo brasileiro de abertamente obstar a
criação do cartel do ferro acabou reduzindo a credibilidade do governo junto a
outros atores do mundo em desenvolvimento.[23] Foi o custo que se decidiu pagar
para se garantir a expansão e mobilidade do País.
Todavia, nem sempre o País decidiu arcar com os custos do isolamento. Havia,
entre decisores brasileiros, a percepção de que o desenvolvimento do País faria
com que ele compartilhasse certos interesses com os países desenvolvidos.[24]
Mas esse rápido crescimento era visto com desconfiança por alguns países em
desenvolvimento.[25] Aqueles mais radicais viam com suspeição a nova retórica
brasileira nos fóruns multilaterais econômicos. Na abertura da Rodada Tóquio do
Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), por exemplo, o Brasil adotou uma
posição moderada, distante do radicalismo de outros países latino-americanos.
[26] Carlos Hugueiras, chefe da divisão de política comercial da chancelaria
peruana, confidenciava para diplomatas americanos que o Brasil, em muitos
sentidos, era um país desenvolvido que tinha visão de mundo distinta da
perspectiva defendida pela maioria dos países da região.[27]
Porém, o desejo de evitar o isolamento constrangeu o governo brasileiro a não
externar as suas reservas às iniciativas radicais do mundo não alinhado.
Contribuía para isso a percepção de que o País tinha escassa influência para
exercer uma pressão moderadora sobre esse grupo. Portanto, apesar de chegar, em
alguns casos, a conclusões precisas quanto às reais possibilidades de sucesso
das iniciativas terceiro-mundistas, o Brasil optou por manter atitude discreta
na propagação de ideias contrárias à articulação desses arranjos.
Em âmbito reservado, atores governamentais brasileiros pronunciavam-se
contrariamente a essas iniciativas, principalmente as concentradas na América
Latina. Um desses exemplos foi a atuação brasileira na construção do Sela. A
ideia, lançada por Venezuela e México, era, sobretudo, voltada para regular o
comércio e as finanças internacionais com base em parâmetros semelhantes aos da
Nova Ordem Econômica Internacional proposta na Assembleia Geral das Nações
Unidas. Severo Gomes, ministro da Indústria e Comércio, em fevereiro de 1975,
como resposta à iniciativa do Sela, confidenciava que a formação de cartéis
internacionais para a defesa dos preços de matérias-primas não era uma solução
desejável para os países em desenvolvimento. O Itamaraty também tinha
restrições à proposta.[28] De acordo com Luiz Felipe Lampreia, diplomata
brasileiro, o Brasil era contra a iniciativa, mas, se a criação da instituição
fosse inevitável, o País teria de participar e exercer uma influência voltada
para políticas razoáveis e efetivas.[29] Foi o que de fato ocorreu. Mesmo
havendo no governo vozes contrárias à atuação brasileira nos arranjos do Sela,
o Itamaraty decidiu não externar as reservas do País no plano multilateral e,
ainda, participar do arranjo.[30]
Os casos discutidos nesta seção mostram que, frente a um mesmo conjunto de
constrangimentos estruturais ' decorrentes do incremento na posição relativa do
Brasil na economia internacional desde a década de 1960, em termos de sua
participação do Produto Interno Bruto (PIB) mundial ', o País respondeu de
forma diversa a diferentes desafios. Se, em determinadas ocasiões, os tomadores
de decisão lograram reavaliar o interesse brasileiro, imprimindo mudanças no
curso de ação tradicional do País (como nos casos do investimento e crédito
brasileiro no exterior e do cartel da mineração), em outros momentos, o País se
ateve a trajetórias passadas, não implementando mudanças esperadas, ainda que
graduais, por conta de sua ascensão relativa (como, por exemplo, no caso do
Sela).
Variáveis sistêmicas, portanto, não são suficientes para explicar as variações
observadas no comportamento externo brasileiro no conjunto de casos
apresentados. Para entender as variações na política externa econômica, teve-se
que lançar mão de variáveis domésticas intervenientes que interferiram na forma
como os sinais do ambiente internacional foram filtrados e transformados em
ação.
Desvios do pragmatismo responsável
No governo Geisel, em diversas instâncias, a inserção econômica externa do País
não decorreu diretamente de políticas governamentais ou da retórica da política
econômica externa associada ao período, apesar de alguns resultados serem
convergentes com essas variáveis. Há, em certos casos, disfunção causal entre
retórica, ação e resultados ' indicando a importância de se analisar variáveis
em outros níveis explicativos e o aspecto intertemporal da ação governamental.
Serão analisadas aqui as decisões políticas do governo com relação à China, às
ex-colônias portuguesas e ao Oriente Médio.
A suposta causalidade entre a retórica governamental da diversificação de
exportações e as políticas adotadas poderia ser observada, em tese, tanto na
decisão de estabelecer relações diplomáticas com a República Popular da China
como na decisão de reconhecer as ex-colônias portuguesas. Mas qual foi o
impacto do cálculo da potencialidade desses mercados para os produtos
brasileiros nas decisões governamentais mencionadas?
No caso do relacionamento do Brasil com a China, antes do governo Geisel, havia
um componente comercial na maior interação entre os dois países. Foi por
intermédio de missões empresariais que os primeiros contatos políticos se
estabeleceram (Pinheiro 1993, 253'54 e 259). As fontes primárias disponíveis
indicam, no entanto, que a explicação do reconhecimento da China estava no
desejo de o Brasil ter uma política externa independente, colocando em prática
o elemento ecumênico do pragmatismo responsável e projetando seus interesses
de maneira condizente com seu novo status internacional.[31] Nesse caso,
portanto, a relação entre a justificativa econômica e as reais motivações do
governo brasileiro destoa de forma nítida.
A retórica sobre os ganhos econômicos serviu, primariamente, para o esforço de
justificação da decisão de reatamento, que era eminentemente política.[32] Isso
não significava a inexistência de interesse em aumentar o intercâmbio
comercial. Muito pelo contrário ' em conversas privadas com terceiros sempre se
salientava essa motivação, assim como no diálogo entre os dois governos antes
do reconhecimento. Mas o potencial comercial da relação não explica a ação
brasileira.[33] A distância entre a retórica e o elemento causal pode ser vista
na discrepância dos interesses existentes na sociedade e no governo, e o
reconhecimento da escassa potencialidade do comércio bilateral.[34] Com efeito,
o comércio entre o Brasil e a China era muito limitado: o Brasil havia
exportado US$ 70 milhões em 1972 e US$ 65 milhões em 1973, principalmente
açúcar e algodão. Por sua vez, as importações provenientes da China eram quase
inexistentes. A visita da missão comercial chinesa ao Brasil, em agosto de
1974, que buscava incrementar os laços comerciais entre os dois países,
serviria, assim, para dar credibilidade à justificativa econômica do
reatamento, apesar de a única medida concreta na reunião bilateral ter sido um
contrato de fornecimento de açúcar para a China. Os próprios empresários
paulistas participantes do processo indicavam que não viam nenhum
desenvolvimento significativo dos prospectos comerciais chineses, nem mesmo em
médio e em longo prazo. O embaixador americano no Brasil comentaria, após o
encontro, que os aspectos econômicos da visita ficaram somente no nível das
expressões retóricas.[35]
Se a retórica econômica servia, primordialmente, para justificar o reatamento,
o que explicaria, além das razões já citadas, a própria decisão? Considerando a
ação externa como uma sinalização aos atores domésticos, poder-se-ia argumentar
que a tomada de posição brasileira pode ser entendida dentro da lógica
governamental de abertura política. Equilibrando-se entre a emergência da
pressão para a abertura política e a obstinação da linha dura, Geisel poderia
ter utilizado o reatamento com a China como sinalização de sua autoridade aos
grupos militares que desejavam prosseguir com a implementação do confronto
contra as oposições ao regime. O presente estudo não apresenta evidências que
sustentem essa interpretação, mas propõe pesquisa futura que busque dirimir a
questão. O importante, para os fins deste trabalho, é que as evidências
disponíveis eliminam a hipótese de que a decisão de reatamento com a China foi
uma instância do projeto de diversificação de exportações do governo Geisel.
Outro domínio de discussão na literatura diz respeito a como o reconhecimento
das ex-províncias ultramarinas portuguesas foi afetado por razões de
diversificação de exportações. Em uma conversa com o embaixador americano no
Brasil, o chefe do Departamento de África do Itamaraty, Ítalo Zappa, afirmava
que a diplomacia brasileira não possuía nenhum esquema econômico
grandiloquente para a região. A decisão brasileira de reconhecer Guiné-Bissau,
por exemplo, era uma forma de desvincular o País de um modelo antiquado de
antagonismo nas relações do País com a África e não se baseava na
potencialidade de ganhos econômicos. O País, portanto, movia-se com interesses
estritamente políticos. Era uma decisão calcada na consolidação dos laços
africanos em um novo enquadramento da política externa.[36] O caso de
Moçambique também foi adverso para a realização de aumento dos fluxos
comerciais, dado os ressentimentos existentes contra o apoio brasileiro aos
portugueses (Penna Filho e Lessa 2007).
O caso angolano, por sua vez, era mais complicado. Havia claro desejo do
governo brasileiro em abrir novos mercados para produtos industrializados e
conseguir fornecimento de petróleo. No entanto, a implementação desses laços
comerciais com o país africano não veio da forma como se esperava (Gaspari
2004, 126; Pinheiro 2007, 84). Assim como no caso chinês, Angola era bastante
sensível domesticamente, por Luanda estar sob claras tendências comunistas após
a vitória do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Por conta dessa
situação, buscou-se um perfil baixo para o relacionamento com o país após o
reconhecimento de sua independência (Pinheiro 2007, 105).
Isso demonstra que, entre intenções e comportamento, há diversas variáveis
intervenientes que limitam a capacidade dos decisores de atingir seus
objetivos. Enquanto Angola apresentava grande demanda por remédios, alimentos e
equipamentos, oferecendo-se para pagar adiantadamente à vista e em dólares, o
Brasil não se dispôs a apoiar as transações no ritmo que se esperava (Melo
2000, 123). Mais uma vez, a política doméstica obstou a realização dos
interesses de diversificação de parcerias da gestão Geisel.
Observando-se a forma como a literatura apresenta o desenvolvimento das
exportações brasileiras na gestão Geisel, percebe-se que, geralmente, são
utilizados dados absolutos ou de distribuição das exportações por destino como
indicadores do sucesso de uma política de diversificação de exportações. A
dificuldade, no entanto, é que esses dados não são suficientes para indicar o
vínculo de causalidade proposto. Na década de 1970, várias economias
periféricas cresciam a ritmo superior aos países centrais ' o que justificaria
o crescimento da participação desses países na pauta de exportação brasileira.
Para avaliar os reais efeitos de uma política de diversificação de exportações,
podemos utilizar dois tipos de estudos: um quantitativo e outro documental. O
quantitativo busca examinar a participação brasileira na distribuição das
importações de outros países e regiões, o que indicaria, em termos comparados,
se o País aumentou ou reduziu sua participação nesses mercados. O estudo
documental demonstraria até que ponto o esforço de promoção comercial do País
na gestão Geisel foi uma resposta a uma demanda do próprio crescimento das
economias periféricas.
Analisando os dados, chega-se a relevante conclusão: o avanço do País em
mercados não tradicionais (países em desenvolvimento e exportadores de
petróleo) durante a gestão Geisel, em termos comparados, teve resultados
pífios. Com efeito, a maior expansão relativa do País ocorreu entre 1971 e
1973; antes, portanto, do marco temporal deste estudo.
[/img/revistas/rbpi/v54n2/a03gra03.jpg]
Podem-se realizar testes com países específicos utilizando a base de dados
comerciais do Fundo Monetário Internacional (FMI). No caso do Iraque, os
resultados são igualmente interessantes. Primeiro, outros países também
aumentaram seu volume de exportações para o país; ou seja, o Brasil não foi
caso isolado. Segundo, o Brasil era um dos grandes exportadores para o Iraque,
entre os países em desenvolvimento, chegando a responder por até 20% das
exportações desse grupo de países para o Iraque. Porém, se observarmos os dados
na perspectiva das importações globais iraquianas, vemos um pico da
participação brasileira em 1973 ' antes que os efeitos do choque do petróleo
fossem sentidos. Nos anos seguintes, a participação cai gradualmente até chegar
em 1,1%, em 1978.[37] Confirma-se, portanto, nesse caso específico, a hipótese
de que o Brasil não expandiu e diversificou-se de forma tão acentuada no
período, se comparado com outros países.
Na disputa mundial por novos mercados após o choque do petróleo, não se pode
dizer que o Brasil foi bem-sucedido. Isso não quer dizer que o País não
aumentou as vendas para esses países. As exportações para países em
desenvolvimento não exportadores de petróleo passaram de US$ 1,3 bilhão em 1974
para US$ 3,7 bilhões em 1979, e as exportações para os países exportadores de
petróleo subiram de US$ 460 milhões para US$ 670 milhões no mesmo período. Mas
essas cifras não indicam se o aumento decorreu de esforços de promoção
comercial.
De fato, no auge da crise do petróleo, seria de se esperar que os exportadores
de petróleo aumentassem suas importações, o que se refletiu no crescimento dos
números absolutos de importação originada no Brasil. No entanto, em termos da
participação relativa brasileira nesses mercados, não se observaram melhoras
significativas. O aumento dos fluxos comerciais bilaterais apenas reflete o
fato de que os países exportadores de petróleo viram sua renda aumentar
substantivamente no período.
[/img/revistas/rbpi/v54n2/a03gra04.jpg]
Identifica-se, além disso, a partir dos Gráficos_5 e 6, uma tendência de longo
prazo ' iniciada nos anos 1950 ' de diminuição da participação de parceiros
tradicionais (Estados Unidos e Europa Ocidental) no comércio exterior
brasileiro e de aumento da participação do grupo de países em desenvolvimento.
Os dados disponíveis indicam, portanto, que o processo de diversificação das
parcerias comerciais do País possui uma longa trajetória anterior e não
constitui característica distintiva da inserção econômica internacional do
governo Geisel.
[/img/revistas/rbpi/v54n2/a03gra05.jpg]
[/img/revistas/rbpi/v54n2/a03gra06.jpg]
Do ponto de vista documental, as evidências disponíveis confirmam o argumento
aqui apresentado: a súbita demanda externa por importações teve grande
importância no aumento das exportações brasileiras para destinos não
tradicionais. A criação da Interbrás, em 1976, foi sintomática. Ao final de
1974, Ueki relata a Geisel que a Petrobras estava sendo continuamente
solicitada para intermediar negócios de exportação em países em que tinha
presença, sem, no entanto, conseguir atender aos pedidos de forma sistemática.
Germinava, então, a ideia de que a empresa poderia ser grande exportadora de
produtos brasileiros. Os dois decisores, no entanto, não desejavam expandir
ainda mais o sistema de promoção comercial vigente à época. Eles concordavam
que a Braspetro, empresa responsável pela exploração e produção de petróleo no
exterior, deveria auxiliar os exportadores brasileiros, mas era inconveniente a
criação de uma trading, pois a Petrobras possuía importantes missões no
exterior ainda não cumpridas.
A elevada demanda dos países exportadores de petróleo por produtos brasileiros
' sobretudo Iraque, Argélia e Líbia ', por sua vez, sinalizava a vários
participantes do sistema de promoção comercial do País que a posição de Geisel
era equivocada. Eles se mobilizaram, e, em meados de 1975, a elevada expansão
das atividades comerciais da Braspetro e a pressão junto ao governo levaram
Geisel e Ueki a recuar e aceitar a criação da Interbrás, em novembro de 1975.
[38] Foi, portanto, a demanda dos importadores por produtos brasileiros e a
iniciativa de funcionários do sistema de promoção comercial que levaram o
governo a criar o que viria a ser a principal iniciativa institucional de
expansão do comércio exterior da década de 1970.
Conclusão
Este estudo buscou apresentar um esquema analítico que ajude a explicar o
comportamento do Brasil na economia política internacional. Não se pretendeu
formular um modelo explicativo acabado, mas um mapa que indique onde encontrar
as variáveis explicativas relevantes e a direção dos fluxos de causalidade
entre elas. A variável dependente é a política externa econômica brasileira. A
variável independente é a posição relativa do País na estrutura de distribuição
internacional de poder econômico ' uma variável de nível sistêmico. Há,
ademais, um conjunto de variáveis intervenientes relevantes, localizadas no
nível doméstico. As principais identificadas pela literatura, e reiteradas
neste estudo, são: ideias e percepções dos tomadores de decisão; clivagens
interburocráticas; e fatores relacionados às dinâmicas da política doméstica.
Como ressaltado, trata-se de estudo inicial que visa a mapear o conjunto de
variáveis relevantes para se entender a inserção econômica internacional do
Brasil. Partimos de estudos de casos restritos à gestão Geisel, mas acreditamos
que o esquema proposto possui alcance mais amplo: ajuda a explicar a política
externa econômica de outros períodos e fornece parâmetros para o estudo
comparado com outros países.