A Rodada Doha, as mudanças no regime do comércio internacional e a política
comercial brasileira
Introdução
O comércio internacional vem passando por profundas transformações nos últimos
anos. Em 1947, ano em que o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) foi
assinado, a fração de mercadorias exportada representava apenas 7% do total da
produção mundial. Em 2001, quando a Rodada Doha da Organização Mundial de
Comércio (OMC) foi lançada1, mais de um quarto da produção mundial era
transacionada internacionalmente. Entre 1947 e 2001, o volume de comércio
tornou-se aproximadamente 22 vezes maior, englobando serviços além de
commodities e produtos manufaturados2. Paralelamente ao grande aumento nos
fluxos comerciais nas últimas décadas, observou-se a gradual fragmentação e
dispersão da produção industrial, gerando novas dinâmicas de trocas
internacionais intra e entre empresas. Durante os dez anos de negociação da
Rodada Doha (2001'2011), essas mudanças na estrutura do comércio internacional
tornaram-se ainda mais evidentes, impulsionadas pela consolidação de países
emergentes como proeminentes atores no cenário de comércio global, com destaque
para a China.
Em estudo publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), Bonaglia e Goldstein (2007) fazem referência à existência de
"uma nova geografia do comércio internacional" ligada ao rápido avanço da
globalização dos processos produtivos por meio das "cadeias de valor globais
(CVG)". A emergência das CVGs tornou-se viável principalmente pelos avanços nas
tecnologias da informação, pelo declínio nos custos de transporte e pelo
surgimento de novas formas de organizar a produção, fazendo surgir conceitos
como "produção modular" e "manufatura flexível". Para Dicken (2003), a economia
global se transformou em uma "estrutura caleidoscópica e altamente complexa",
envolvendo a fragmentação de processos produtivos e sua realocação geográfica
em escala global.
A desagregação e dispersão geográfica da produção gerou profundos impactos no
comércio internacional. A gama de produtos e serviços que são comercializados
internacionalmente se expandiu de forma considerável acompanhando o movimento
de capitais e os investimentos em tecnologias que se tornaram muito mais
fluidos e dispersos do que eram anteriormente (Dymond e Hart 2008). Essa
dimensão do processo de globalização virtualmente eliminou a tradicional noção
de que, no comércio internacional, são transacionados primordialmente
commodities e produtos acabados.3
Como observamos, em 2001, quando os países-membros da Organização Mundial de
Comércio lançaram a Rodada Doha, esse novo cenário do comércio internacional
marcado pela globalização econômica já estava em pleno vigor. No entanto,
negociadores acordaram um mandato negociador4 nos moldes das rodadas
anteriores5 à criação da OMC, não levando em conta os desafios impostos pelas
novas dinâmicas do comércio internacional. Dessa forma, a agenda de Doha e seu
mandato revelaram-se alheios a essas mudanças e ajudam a explicar por que Doha
já nasceu obsoleta.
Ao longo dos dez anos de negociação da Rodada, os impactos da globalização da
produção tornaram-se ainda mais evidentes, mas não foram efetivamente
incorporados em sua agenda. Essa desconexão entre as novas realidades da
economia internacional e o espírito negociador da Rodada seria uma das grandes
causas de seu insucesso. Dessa forma, buscamos analisar neste trabalho a
hipótese de que as razões pelas quais a Rodada não produziu um desfecho até o
momento são de ordem estrutural, embora as explicações mais corriqueiras
enfatizem os impasses como resultantes da falta de capacidade dos negociadores
em acordarem concessões satisfatórias que pudessem levar os países-chaves a
aceitar o pacote de Doha.
O presente artigo argumenta, ademais, que tal descompasso reside, na realidade,
nos próprios países-membros da OMC que, em sua maioria, ainda não pautam suas
políticas comerciais e suas estratégias de inserção internacional por essas
novas dinâmicas do comércio internacional, o que se reflete em suas posições
nas negociações multilaterais. O Brasil seria um exemplo típico desse numeroso
grupo de países cujas agências e mecanismos de promoção comercial baseiam-se
essencialmente em concepções tradicionais de fomento à exportação de produtos
acabados. Haveria ainda no Brasil um agravante dessa prática anacrônica, que
seria a tendência à proteção do mercado nacional contra a importação de partes
e componentes.
Uma primeira tarefa deste trabalho foi identificar as novas realidades do
comércio internacional, destacando o processo pelo qual as dinâmicas das CVGs
passaram a orientar grande parte do comércio. Assim, inicialmente, será
analisada a evolução teórica do modelo de CVGs. Em seguida, serão discutidos os
impactos dessa nova forma de estruturação do comércio internacional sobre o
sistema multilateral de comércio, em particular os desafios colocados às
negociações da Rodada Doha da OMC. Na terceira parte, usando como referência o
caso do Brasil, serão apresentadas e, na medida do possível, avaliadas as
formas pelas quais as políticas comerciais tradicionais baseadas essencialmente
em negociações de acordos de liberalização comercial para produtos nacionais
acabados tornaram-se inadequadas às novas estruturas de produção e aos novos
canais pelos quais transitam a maior parte do comércio internacional,
refletindo negativamente nas negociações da OMC. Como conclusão geral, a
expectativa é que, em países como o Brasil, o debate sobre o comércio
internacional seja colocado em outras bases, levando em conta essas questões
que, ao longo das últimas décadas, remodelaram amplamente a forma como as
trocas comerciais são conduzidas neste mundo de relações globalizadas.
A evolução do modelo de CVGs
A crescente fragmentação e dispersão geográfica da atividade econômica é uma
das principais características desse novo modelo de comércio integrado, onde as
empresas dispõem de várias formas de engajamento na economia global, quer seja
como compradores, ou provedores, ou vendedores, ou distribuidores, ou
consultores ou prestadores de serviços (Sturgeon 2008). O conceito de CVG surge
para descrever esse novo arranjo produtivo, que inclui o conjunto de atividades
realizadas por agentes localizados em diferentes países desde a concepção de um
produto até o seu "pós-consumo", isto é, design, produção, marketing,
distribuição e apoio ao consumidor final. Em recente estudo concluído pela OMC
e pelo Institute of Developing Economies (IDE-JETRO), o comércio de produtos
intermediários resultante dessa fragmentação de atividades ao longo da cadeia
de produção é chamado de "trade in tasks", ou seja, "comércio de tarefas".6
O conceito de CVG deriva dos trabalhos de Hopkins e Wallerstein (1977; 1986)
sobre cadeias de commodities globais (CCG), que destacam o poder do Estado em
moldar os sistemas globais de produção, por meio de tarifas e regras de
conteúdo local aplicadas sobre o comércio de produtos. Gereffi e Korzeniewicz
(1994) retomam esse conceito de CCG, mas tendo como principal ator a firma em
vez do Estado, argumentando que em contextos de liberalização comercial, a
capacidade do Estado em aplicar tarifas e regras de conteúdo local ficam
limitadas. Nessa obra, Gereffi e Korzeniewicz desenvolvem a premissa de que um
novo sistema produtivo global estaria emergindo, onde a integração econômica
iria além do comércio internacional.
Essa corrente de pensamento de economia internacional desafia ferramentas
clássicas da economia comumente usadas para explicar o comércio, especialmente
teorias de oferta e demanda e vantagens comparativas dos países (Flexor 2009).
Ou seja, a abordagem de cadeias globais tem como nível de análise as empresas
(agentes e elos de cadeias produtivas), em vez dos países ou, mais exatamente,
dos Estados como agentes que determinam parcerias comerciais. Nesse modelo, o
comércio reflete os interesses das empresas transnacionais e a forma como elas
exercem controle sobre fluxos de produtos e serviços globais, em um ambiente de
extrema fragmentação dos processos produtivos e dispersão geográfica.
Como apontado por Dicken (2003), os aspectos mais importantes na análise de
cadeias de produção são (i) a forma como a cadeia é coordenada e regulamentada
e (ii) sua configuração geográfica. Dicken argumenta que existem dois níveis de
coordenação das cadeias de produção. O primeiro nível seria aquele exercido
pelas firmas (particularmente as transnacionais), por meio das várias formas de
relacionamentos enquadradas em um sistema econômico. Dicken faz uso dos dois
modelos de coordenação de cadeia desenvolvidos por Gereffi e Korzeniewicz
(1994):
a) Producer-driven: referem-se às cadeias onde corporações transnacionais
controlam o conjunto de fornecedores e distribuidores que compõem o sistema de
produção. Alguns exemplos desse tipo de cadeia são as indústrias automotivas,
de aviões, computadores, máquinas elétricas etc.
b) Buyer-driven: referem-se às cadeias coordenadas por grandes compradores
internacionais, tais como varejistas (Walmart, Carrefour etc.), proprietários
de marcas reconhecidas internacionalmente (Nike, GM, Honda, Fisher Price etc.)
e tradings.
Dicken considera que o Estado é quem exerce o segundo nível de coordenação
sobre as cadeias de produção, em contraposição a outros autores que defendem
que o Estado está, na realidade, desaparecendo em função da globalização (Reich
1991; Ohmae 1995). Para Dicken, todos os elementos na cadeia de produção são
regulados por uma estrutura política cuja unidade básica é o Estado-nação.
Assim como nas firmas transnacionais, o comportamento dos Estados varia
conforme sua composição cultural, política e social, e sua posição no espectro
ideológico, enquanto as firmas, por sua vez, têm necessariamente que operar
segundo os sistemas regulatórios nacionais e internacionais. Stopford e Strange
(1991) chamam de "nexo triangular" as interações entre firmas-firmas, Estado-
Estado e Estado-firma. Ainda segundo Dicken, a nova economia internacional
estaria sendo moldada e reestruturada pelas interações complexas e dinâmicas
desse nexo triangular entre firma e Estado.
Sturgeon (2008) chama atenção para o fato de que a tipologia buyer-driven/
producer-driven está baseada em uma visão estática e empírica da tecnologia e
das barreiras de entrada, mas que na realidade ambas são dinâmicas devido às
mudanças tecnológicas e ao aprendizado das empresas e dos setores (Henderson
et al. 2002). Para Sturgeon, uma abordagem mais dinâmica acerca da governança
das cadeias leva a duas constatações. A primeira delas diz respeito ao fato de
muitas indústrias estarem deixando de seguir o modelo de integração vertical do
tipo producer-driven; a segunda constatação aponta para o fato de que o modelo
buyer-driven não é capaz de capturar todos os arranjos de governança em rede
atualmente observados.
É nesse contexto que surgiu na última década a discussão sobre a necessidade de
aperfeiçoar e fazer avançar esse modelo estático das CCGs. Desenvolve-se, dessa
forma, o modelo de CVG, que busca dar conta das mudanças observadas nas cadeias
de produção e prever possíveis desenvolvimentos futuros. As tipologias de
governança internacional das cadeias de produção teriam evoluído dos modelos
producer-driven/buyer-driven para um modelo muito mais complexo e dinâmico.
Segundo o modelo de governança de CVGs desenvolvido em Gereffi et al. (2005),
existem cinco formas genéricas em que as firmas podem coordenar ou "governar"
as conexões entre as atividades da cadeia de valor global: 1) conexões simples
de mercado, governadas por relações de preço e pela facilidade de encontrar e
trocar fornecedores e compradores; 2) conexões modulares, onde as informações
complexas sobre as transações são codificadas e na maioria das vezes
digitalizadas antes de serem enviadas a fornecedores altamente competentes;
3) conexões relacionais, onde informação tácita é trocada entre compradores e
fornecedores altamente competentes; 4) conexões cativas, onde fornecedores
menos competentes recebem instruções detalhadas; e 5) conexões dentro da mesma
empresa, governadas por relações de hierarquia. Os autores apontam três
variáveis-chaves que atuam sobre as cinco formas de governança das CVGs,
combinando-se em grau e intensidade variados e imprimindo padrões distintos no
relacionamento: (i) a complexidade de informações trocadas entre as diferentes
tarefas da cadeia de valor; (ii) as possibilidades de se codificar essas
informações; e (iii) as capacidades e habilidades dos fornecedores.
Esse modelo de governança das CVGs tem sido usado para compreender por que
algumas atividades da cadeia são fáceis de serem realocadas geograficamente,
enquanto outras permanecem enraizadas em determinado local (Sturgeon 2008). O
modelo de governança modular tem sido reconhecido como o mais moderno, visto
que ele permite uma forte coordenação de atividades à distância, mesmo em
setores de alta complexidade, como em indústrias de tecnologia intensiva. Por
outro lado, o modelo de conexões relacionais requer que as firmas estejam
localizadas proximamente, para a troca de informação tácita, o que incentiva a
formação de clusters industriais (Gluckler 2007).
É importante ressaltar, entretanto, que esses cinco padrões de governança
expostos acima são tipos ideais (Sturgeon, 2008). O que se observa no mundo
real é uma mistura das várias formas de governança dentro de determinado setor
produtivo, cadeias de valor, firmas e mesmo em um único estabelecimento. Esses
padrões de governança servem como base para pesquisadores e tomadores de
decisão entenderem as múltiplas formas de conexão nas cadeias de valor. Com
base nesse instrumental, policy makers podem formular políticas comerciais que
propiciem a entrada de empresas nessas cadeias de produção, gerando aumento de
comércio e adensamento da atividade industrial no país.
A análise da dinâmica de governança das CVGs oferece uma contribuição
substancial para a compreensão do comércio internacional. Sob a ótica das CVGs,
os tomadores de decisões, tanto em países desenvolvidos como em países em
desenvolvimento, têm condições de avaliar mais adequadamente as formas de
acesso aos mercados internacionais, as barreiras de entrada enfrentadas por
pequenas e médias empresas, e o posicionamento nas CVGs mesmo nos casos de
atividades que exigem mão de obra intensiva. Como observado por Flexor (2009),
é interessante notar que tanto nas negociações comerciais quanto na formulação
de políticas comerciais, o foco tem sido nas discussões de tarifas, subsídios e
outros instrumentos tradicionais de política comercial ' a discussão sobre a
organização das cadeias globais tem sido um aspecto virtualmente ausente nas
mesas de negociação comercial. Nas negociações de Doha não tem sido diferente.
A visão de que um conjunto expressivo de restrições e oportunidades comerciais
reside na própria forma como as CVGs estão organizadas e são coordenadas ainda
é marginal em muitos países, particularmente no Brasil, o que se reflete nas
negociações da OMC.
O sistema multilateral de comércio, a Rodada Doha e as CVGs
A análise do sistema internacional de comércio, sob o enfoque tradicional,
costuma levar em consideração três aspectos centrais: i) o conjunto de regras e
compromissos estabelecidos pelo Gatt e OMC; ii) as negociações multilaterais de
liberalização comercial; e iii) os acordos regionais de preferências
tarifárias. Em todos esses aspectos, o Estado é visto como o principal agente
do comércio, capaz de negociar preferências tarifárias, comprometer-se com
regras e gerenciar aduanas e, com isso, orientar a adoção de padrões de
comércio que, presumivelmente, convém aos interesses identificados como
"nacionais".
No entanto, a emergência das CVGs como forma de organização do comércio
internacional traz um importante componente à análise, ainda comumente
negligenciado: o papel das empresas e suas relações de interdependência nas
CVGs. Nesse ponto, destaca-se não somente a atuação das grandes empresas
multinacionais principais coordenadoras das cadeias, mas também das pequenas
empresas participantes nas redes globais de trocas. Na última década, os
instrumentos tradicionais de política comercial e as formas de se mensurar o
comércio, assim como o modelo de comércio estabelecido pela OMC e os acordos
tarifários, passaram a ser questionados em face das profundas transformações
geradas pela desagregação e dispersão da produção na lógica das CVGs.
Dymond e Hart (2008), por exemplo, argumentam que a emergência de uma economia
global tem minado a premissa central de sustentação do sistema multilateral de
comércio ' a de que governos são os atores principais na determinação dos
fluxos internacionais de comércio. Segundo os autores, diante da nova economia
internacional, o modelo de comércio estabelecido com o Gatt e a OMC e os
acordos preferenciais estariam se tornando irrelevantes. Além disso, argumentam
que algumas das premissas centrais desse modelo de governança global por meio
do Gatt e atualmente da OMC teriam alto potencial de gerar resultados
econômicos perversos sob a lógica das CVGs: (i) a troca de obrigações e
direitos entre "pares" ou pequenos grupos de países; (ii) o princípio-chave da
OMC de "reciprocidade", que seria destrutivo para empresas que são partes de
CVGs; (iii) o caráter relativo do princípio de tratamento nacional; e (iv) a
aplicação de medidas de defesa comercial, que seria contrária à eficiente
operação das cadeias globais.
Outros autores, como Pierre Sauvé (2001), chamam a atenção para o crescente
descompasso entre o acelerado ciclo de produção e inovação que as empresas
enfrentam nos mercados globais e o lento ciclo negociador capitaneado pelos
governos nas negociações multilaterais de comércio. Tal descompasso estaria
minguando o entusiasmo do setor privado na busca pelo multilateralismo e
estimulando iniciativas que possam ser conduzidas sem a participação dos
agentes governamentais. É notório que, desde o início da Rodada Doha, o
engajamento do setor privado nas negociações tenha sido sempre marginal. Ao
longo dos dez anos da Rodada, esse interesse foi diminuindo ainda mais em face
da crescente desconexão dos temas tratados com a realidade da economia global.
Para muitas empresas, barreiras tarifárias passaram a ser somente mais um custo
transacional, ao lado de custos logísticos ou de infraestrutura. Ademais, em
vista da proliferação de acordos de preferência tarifária no sistema
internacional, a promessa de maior acesso a mercados por meio de redução
tarifárias oferecida pela Rodada Doha não foi suficiente para entusiasmar
grande parcela do setor privado.
É crescente o entendimento de que o setor privado estaria sendo atraído por
caminhos não governamentais para assegurar acesso a mercados e o
estabelecimento de padrões e normas para seus produtos. Kaisa Sorsa (2010)
destaca o significativo aumento da "autorregulação" colocado em prática por
crescente número de empresas nas CVGs, argumentando que a evolução das
estruturas globais de produção tem desafiado de muitas formas a regulação
convencional realizada usualmente pela OMC. Para a autora, o estabelecimento de
normas técnicas e padrões pelo setor privado não deveria ser visto como mais
uma barreira ao comércio, mas uma tentativa de suprir lacunas de regulamentação
em um ambiente de rápida evolução de processos e produtos.
É importante notar que, nos principais documentos referentes às negociações da
Rodada Doha da OMC, pouca ou nenhuma referência foi encontrada sobre as novas
dinâmicas do comércio internacional e a necessidade de adaptação ou evolução
das regras do sistema multilateral de comércio em resposta à nova realidade.
Não estão incluídos na agenda negociadora temas menos convencionais como novas
regras de origem para bens produzidos em cadeias globais; ou modernização da
legislação antidumping para incluir maneiras de se taxar toda uma cadeia de
valor de um produto. Em uma agenda que se declara ser "para o desenvolvimento",
não é foco das discussões incentivos para que países pobres fomentem a inserção
de pequenas e médias indústrias em cadeias globais, ou até mesmo subsídios que
pudessem ser permitidos para que empresas de determinado país possam assumir
uma posição mais alta na cadeia de valor por meio do desenvolvimento
tecnológico.
Nos últimos dois anos, em vista do impasse da Rodada Doha, é perceptível um
movimento por parte do próprio secretariado da OMC com vistas a fomentar a
discussão sobre possíveis respostas para os novos desafios do comércio
internacional, como válvula de escape para uma possível derrocada nas
negociações da Rodada. A OMC vem promovendo estudos acerca das implicações da
lógica das CVGs na maneira como se fazem as estatísticas do comércio
internacional e como se mensura a agregação de valor nas diferentes etapas
produtivas executadas em países diversos.
Ademais, a OMC lançou recentemente a iniciativa Made in the World7, que
reconhece a dispersão internacional da produção e busca novas formas de
posicionamento frente a regras de origem em um mundo onde a natureza das
relações comerciais vem se tornando uma relação de maior integração e
interdependência entre os agentes econômicos situados em diferentes países. Por
meio dessa iniciativa, a Organização abre também espaço para discussão de novas
metodologias para a elaboração de estatísticas comerciais, com base no valor
agregado em cada etapa da produção. Com isso, a OMC busca destacar que o uso de
estatísticas tradicionais em um cenário de produção globalizada estaria levando
a interpretações errôneas de possíveis desequilíbrios comerciais entre os
países.
Em paralelo, o secretariado da OMC publicou recentemente um estudo em conjunto
com o IDE-JETRO8, analisando os impactos das CVGs nos padrões comerciais no
leste asiático. Tal trabalho destaca as novas dinâmicas comerciais na região,
enfatizando a evolução do modelo comercial tradicional de trocas de produtos
acabados entre os países para uma nova tendência onde predomina o comércio de
"tarefas" em um ambiente produtivo interconectado e interdependente.
É importante notar, no entanto, que essas iniciativas de modernização das
discussões sobre o comércio internacional têm partido da OMC (atualmente sob a
chefia de Pascal Lamy) como instituição, e não dos países-membros da
Organização. Como destacamos anteriormente, a grande maioria dos governos ainda
não processou as novas realidades do comércio globalizado de forma que pudesse
refletir em novos posicionamentos no âmbito da OMC.
Consideramos que o Brasil esteja no meio desse vasto número de países que
continua pautando sua política comercial em conceitos e paradigmas anteriores à
expansão das CVGs e das novas dinâmicas do comércio internacional. Dessa forma,
a seguir buscaremos analisar mais detalhadamente o caso brasileiro, discutindo
sua política comercial e, na medida do possível, os impactos do posicionamento
do Pais nas negociações da OMC.
Política comercial brasileira: um caso típico de aplicação de paradigmas
anteriores à globalização
Durante o governo Lula da Silva (2003'2010), em várias ocasiões o ministro das
Relações Exteriores e o próprio presidente da República declararam de maneira
até enfática que a estratégia de comércio internacional a ser implementada pelo
Brasil deveria ser "a de mudar a geografia comercial do mundo", referindo-se a
categorias como "países ricos", "Norte-Sul", "economias emergentes" etc. Essa
afirmação dava a entender que o governo buscava, sob esse mote, envidar
esforços no sentido de diversificar as parcerias comerciais brasileiras,
tornando o País menos dependente de parceiros tradicionais, isto é, de países
considerados como economias desenvolvidas, em especial os Estados Unidos.
Essa preocupação evidencia, de um lado, a noção tradicional de que o Estado
desempenha um papel central no estabelecimento dos fluxos de comércio e, de
outro, a ausência da percepção de que as dinâmicas de comércio internacional,
em sua parcela mais significativa, estão muito mais relacionadas à dispersão
geográfica da produção do que à velha concepção de comércio na qual produtos
acabados são produzidos em um país e chegam, por meio do comércio, aos
consumidores residentes em outros países. Esse entendimento pode continuar
valendo para o comércio de commodities, mas não vale mais para boa parte dos
produtos industrializados, que respondem pela maior parte do comércio
internacional.9
Ao se considerarem as inúmeras manifestações oficiais referentes à Rodada Doha
e a outras iniciativas voltadas à promoção das relações comerciais, a conclusão
é que, no Brasil, a análise das CVGs parece ainda não ter sido incorporada ao
entendimento corrente tanto por parte dos analistas e quanto dos policy makers.
Seja em declarações oficiais, seja nas páginas econômicas da imprensa, é
difícil observar qualquer menção a essa discussão, mesmo que de forma
implícita, nas políticas adotadas ao longo do governo Lula da Silva. Com
efeito, é notória a ausência dessa percepção acerca do papel desempenhado pelas
CVGs no comércio internacional em documentos como a Estratégia Brasileira de
Exportação (2008-2010), a Política de Desenvolvimento Produtivo e o Plano de
Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (2007-2010).
Pode-se considerar que a política comercial dos oito anos do governo Lula da
Silva esteve focada em cinco vertentes principais: i) promover o crescimento
das exportações; ii) diversificar as parcerias comerciais do País, buscando um
maior relacionamento com países do hemisfério sul; iii) negociar acordos de
preferências comerciais que respeitassem os "limites" brasileiros;
iv) aplicação de instrumentos de defesa comercial e do sistema de solução de
controvérsias da OMC; e v) incentivar o aprofundamento da integração regional.
Uma breve análise dessas vertentes pode ser instrutiva para a melhor
compreensão do caráter tradicional da política comercial praticada pelo governo
brasileiro ao longo do governo Lula da Silva.
Promoção das exportações
Durante o governo Lula, as exportações brasileiras quase triplicaram, passando
de US$ 73,2 bilhões em 2003 a US$ 201,9 bilhões em 2010. É importante notar, no
entanto, alguns pontos que evidenciam, em seu conjunto, o caráter tradicional
da política comercial praticada. Em primeiro lugar, a participação das
exportações sobre o produto interno bruto (PIB) caiu de 13,2% para 9,7% no
período, o que pode ser explicado pela correspondente redução no índice de
abertura da economia brasileira que recuou de 22,0% a 18,4%, como pode ser
visto na Tabela_1.
Com exceção do ano de 2009, que sofreu os reflexos da crise financeira
internacional, as exportações brasileiras cresceram a uma média de 23,4% ao ano
durante o período 2003'2010. Grande parte desse crescimento foi resultado do
aquecimento da demanda internacional por commodities, com destaque para o
mercado chinês. A participação de produtos básicos na pauta exportadora
brasileira cresceu de 29,0% no início do governo Lula a 44,6% em 2010,
superando pela primeira vez desde 1980 as exportações de produtos
manufaturados, que caíram para 39,4% em 2010.10
No período de 2003 a 2010, o governo conseguiu atingir a meta estipulada pela
política de desenvolvimento produtivo,11 que previa que as exportações
brasileiras representassem 1,25% das exportações mundiais. Em 2010, o Brasil
superou tal meta, passando a ser o 22º maior exportador mundial, com 1,3% do
comércio.12 A participação brasileira representa uma fatia pequena do comércio
global, ficando atrás de todos os outros países que compõem o grupo BRICS. Em
relação à abertura tarifária, a média simples da tarifa brasileira aplicada
manteve-se estável ao longo do período, em torno de 13,6%.13
Em termos de gestão da política comercial, pode-se considerar que o governo
Lula foi importante para iniciar a construção de um consenso na sociedade e no
governo sobre a relevância do comércio exterior, assim como para o
desenvolvimento de uma cultura exportadora entre as empresas, visto que a
história recente do País esteve marcada por anos de fechamento comercial e
substituição de importações. Observou-se, no entanto, além do descompasso em
relação às mudanças que estavam ocorrendo na estrutura do comércio
internacional, a duplicação de ações de promoção comercial entre os muitos
órgãos governamentais com prerrogativas sobrepostas nessa área.
Diversificação das parcerias comerciais
Em conjunto com a promoção das exportações, o governo Lula deu ênfase à
diversificação das parcerias comerciais brasileiras, procurando estabelecer um
maior relacionamento com os governos dos países do hemisfério sul. Tal esforço
esteve diretamente atrelado aos objetivos da política externa brasileira no
período, que buscou uma maior aproximação com o continente africano, o Oriente
Médio e a América do Sul. Essa vertente dizia respeito diretamente à ideia de
"mudar a geografia comercial do mundo". É importante destacar que a procura por
novas parcerias comerciais não esteve ligada a uma ótica de melhorar a inserção
de empresas nacionais nas cadeias produtivas globais, uma vez que a visão da
estrutura do comércio internacional na perspectiva do governo Lula esteve
predominantemente relacionada com a tradicional clivagem Norte-Sul, uma
concepção claramente "estatocêntrica" das relações internacionais.
A mais notável mudança ocorrida no período 2003'2010 foi a ascensão da China
como principal destino das exportações brasileiras, superando os Estados
Unidos. Em 2003, os Estados Unidos eram responsáveis por 22,8% das compras
internacionais de produtos brasileiros. Em 2010, a participação americana havia
caído para 9,5%. Essa queda de 13,3 pontos percentuais foi quase totalmente
absorvida pela China, que em 2010 chegou a comprar 15,25% das exportações
totais brasileiras, e no início do governo Lula as exportações para a China
correspondiam a somente 6,2% do total de exportações brasileiras ' ou seja, um
crescimento de 9,05 pontos percentuais.
Os esforços políticos de promoção comercial voltados para os países do
hemisfério sul resultaram no aumento da corrente de comércio com a África, o
Oriente Médio e os países asiáticos. No entanto, não se constata uma
diversificação tão significativa dos destinos das exportações brasileiras ao se
compararem as participações de blocos de países no total exportado nos anos de
2003 e 2010. Com base na Tabela_2, pode-se notar que os produtos brasileiros
perderam mercado em parceiros tradicionais como Estados Unidos e União
Europeia, sendo redirecionados em grande parte para a China e outros países
asiáticos. Tal fato talvez seja melhor explicado pela demanda chinesa por
matérias-primas do que pelas iniciativas diplomáticas brasileiras de
diversificação comercial.

Como parceiro tradicional, a fatia de produtos brasileiros importada pelo
Mercosul tornou-se mais expressiva, sendo responsável por 11,19% das
exportações brasileiras. É curioso notar uma queda nas exportações para a União
Aduaneira da África Austral (SACU), bloco com o qual o Mercosul assinou acordo
de comércio preferencial em 2008. Constata-se também um pequeno aumento na
participação da África nas exportações brasileiras, mas um incremento modesto
se comparado ao número de iniciativas, visitas políticas e missões comerciais
empreendidas ao continente durante o governo Lula.
Rodada Doha e negociação de acordos preferenciais
O período 2003'2010 foi marcado pelo envolvimento brasileiro em um grande
número de negociações comerciais, mas com poucos resultados mensuráveis. A
estratégia do governo brasileiro em privilegiar as negociações multilaterais no
âmbito da OMC, especialmente na Rodada Doha, mostrou-se inócua em vista do
impasse nas negociações. É preciso reconhecer, no entanto, que a diplomacia do
governo Lula foi bem-sucedida ao promover uma inflexão na dinâmica negociadora
na OMC, abrindo caminho para a participação brasileira em processos de
negociação e consulta antes reservada a pequeno grupo de países desenvolvidos,
em particular os Estados Unidos, o Japão e a União Europeia. Entretanto, o
governo brasileiro não usou essa oportunidade para propor alternativas
inovadoras que pudessem trazer a negociação mais perto da realidade do comércio
internacional atual, mantendo um espírito negociador baseado em conceitos e
visões tradicionais do sistema internacional de comércio.
No início do primeiro mandato, destacaram-se as negociações da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) e as negociações Mercosul-União Europeia. O
projeto da Alca, após a constatação da existência de diferenças
irreconciliáveis entre os negociadores acerca do escopo do acordo, saiu de
pauta no final de 2005. Paralelamente, o processo Mercosul-União Europeia foi
perdendo ímpeto nos anos seguintes, e a retomada oficial das negociações
ocorreria somente em 2010, mas sem avanços significativos até o presente.
O Mercosul concluiu somente dois acordos de livre comércio durante o governo
Lula, com parceiros cujo fluxo comercial é pouco significativo.14 O Acordo de
Livre Comércio Mercosul/Israel foi assinado em 2007, já tendo entrado em vigor,
ao passo que o acordo assinado com o Egito em 2010 encontra-se em tramitação no
Congresso Nacional. Em ambos os acordos o acesso livre de tarifas se aplica
somente a bens, não incluindo serviços e investimentos.
Além dos acordos de livre comércio, o Mercosul concluiu um pequeno acordo
preferencial de comércio com a Índia, abrangendo um conjunto de 900 linhas
tarifárias. Em 2009, o Mercosul assinou um acordo similar com a SACU. Outras
negociações foram iniciadas, como as conversações com o Conselho de Cooperação
do Golfo (CCG), o Paquistão, o Marrocos, a Jordânia, e um acordo trilateral
Mercosul'SACU'Índia. No âmbito da Associação Latino-Americana de Integração
(Aladi), foram concluídos novos acordos de complementação econômica com o Peru,
Cuba, e um acordo Mercosul-Colômbia/Equador/Venezuela.
Essa intensa movimentação do governo brasileiro reflete o caráter tradicional
da visão predominante na formulação da política comercial: a ideia de que o
comércio internacional está estruturado essencialmente sobre a venda de
produtos acabados nos mercados internacionais. OMC, Mercosul, Aladi e SACU,
além das inúmeras missões e negociações bilaterais, são todas instâncias
intergovernamentais, onde são acordadas questões como redução tarifária, regras
de origem e defesa comercial, que privilegiam o comércio de produtos acabados,
em especial commodities, mas pouco contribuem para a concepção mais moderna da
existência de uma enorme massa de produtos globalmente produzidos.
Defesa comercial e contenciosos na OMC
O uso de medidas de defesa comercial pelo Brasil mostrou-se crescente durante o
governo Lula, sendo este um instrumento escolhido para a proteção da indústria
nacional frente ao aumento de importações de determinados produtos observado no
período. Segundo dados do Departamento de Defesa Comercial do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), de 2003 a 2010 foram
aplicadas 112 medidas definitivas, diante de 176 investigações abertas.15 Nos
oito anos anteriores ao governo Lula, o Brasil havia aplicado 66 medidas
definitivas, entre dumping e salvaguardas.
O Brasil foi um dos países que mais utilizou o sistema de solução de
controvérsias da OMC desde sua criação em 1995, tendo participado em 25 painéis
como demandante, em 14 disputas como demandado e em 64 casos como terceira
parte.16 Durante o governo Lula da Silva, o País conquistou algumas "vitórias"
emblemáticas para o setor agroexportador, como foram os contenciosos dos
subsídios americanos à cotonicultura, o de subsídios às exportações de açúcar
concedidos pela União Europeia e a disputa sobre a taxa de equalização
americana sobre importações de suco de laranja.
Integração regional
A política externa do governo Lula da Silva priorizou as relações com o
Mercosul, buscando um aprofundamento da integração regional e a criação de um
espaço de cooperação ampliado na América do Sul. Nas iniciativas de integração
regional podemos identificar uma modesta preocupação do governo com o tema da
integração produtiva como vetor para o crescimento do comércio e investimentos
na região. Com efeito, por meio da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP),
o governo brasileiro envidou esforços para articular as cadeias produtivas no
âmbito do Mercosul e da America do Sul como um todo, com o objetivo de melhor
utilizar o potencial de escala regional e aproveitar oportunidades em mercados
globais. Em 2006, o Mercosul lançou o Programa de Integração Produtiva, e o
governo brasileiro definiu quatro áreas iniciais de ação: (i) cadeia produtiva
de petróleo e gás; (ii) adensamento da cadeia produtiva automotiva;
(iii) cadeias produtivas ligadas ao turismo; e (iv) criação de grupos
empresariais.17 Tais iniciativas foram complementadas por políticas de
integração física da região e melhoramento de infraestrutura para o comércio.
É difícil avaliar os resultados concretos dessas iniciativas, levando-se em
consideração o orçamento reduzido para os projetos, o baixo engajamento do
setor privado nos países menores e as assimetrias das economias da região. Por
outro lado, é preciso considerar também que uma maior integração produtiva
exigiria melhorias efetivas para superar os gargalos em infraestrutura de
portos, aeroportos e estradas da região. Nessas áreas são por demais evidentes
as carências brasileiras às quais ainda se somam os entraves legais, fiscais e
burocráticos que acentuam o fechamento da economia brasileira e praticamente
inviabilizam iniciativas de integração internacional do sistema produtivo.
Conclusão
O fenômeno da globalização trouxe consigo mudanças estruturais importantes no
comércio internacional. Entre essas mudanças está o fato de que, mais do que em
qualquer outra área das relações internacionais, o papel do Estado mudou
sensivelmente e passou a sofrer forte concorrência de outros atores,
notadamente as corporações industriais, comerciais e financeiras. Como
consequência, as apreciações e, em grande medida, o próprio conceito de
multilateralismo no campo do comércio demandam uma revisão. As teorias
utilizadas para interpretar os fenômenos internacionais falam de abordagens
"estatocêntricas" e de abordagens onde o Estado perde sua importância,
dividindo com outros atores as iniciativas no curso dos acontecimentos na
esfera internacional. Nas relações econômicas, aparentemente a perda de
importância relativa do Estado vem se tornando particularmente visível. A
atuação de empresas ' não apenas das grandes corporações transnacionais '
ganhou relevância ao estabelecer negócios e oportunidades de investimento de
natureza essencialmente internacional.
Nesse quadro, são cada vez mais evidentes as desconexões entre os regimes
vigentes, que continuam reconhecendo a centralidade do Estado, e a realidade
composta de atores não estatais cuja relevância é crescente. Uma Rodada onde
predominam os temas e as formas tradicionais de conduzir o comércio, baseadas
em acordos e arranjos interestatais, como não poderia deixar de ocorrer,
refletiu-se numa agenda de pouca relevância para os principais interessados no
comércio internacional: os conglomerados industriais, comerciais e financeiros
' pequenos e grandes ' responsáveis pela maior parte das transações econômicas
internacionais.
Tarifas, subsídios e regras de origem afetam essencialmente o comércio de
commodities, mas vêm perdendo relevância para os produtos manufaturados, cada
vez mais dependentes de sistemas globalizados de produção, isto é, de um
intenso e dinâmico fluxo de comércio de partes e componentes que irão resultar
em telefones celulares, computadores, automóveis e outros produtos hoje
fabricados e consumidos em toda parte. Os bens agrícolas, por exemplo, até
meados do século 20 representavam quase metade das exportações mundiais; hoje
representam menos de 10% do total, enquanto as condições de comércio de
matérias-primas como petróleo, ferro e alumínio são negociadas à margem de Doha
e da própria OMC.
Argumentamos no trabalho que as deficiências estruturais da agenda de Doha e a
incapacidade de adaptação do modelo de rodadas comerciais aos novos desafios do
comércio internacional têm contribuído para a estagnação das negociações. Os
impasses na Rodada Doha são um reflexo dessa desconexão, e do descompasso que
reside nos próprios países-membros da OMC que, em sua maioria, ainda não pautam
suas políticas comerciais e suas estratégias de inserção internacional por
essas novas dinâmicas do comércio internacional. Para compreender esse
fenômeno, o caso brasileiro parece ser exemplar. A política comercial
brasileira, no discurso e na prática, evidencia de forma bastante clara o
porquê dessa desconexão entre a ação das autoridades, que investem em foros
interestatais como Doha, enquanto a realidade do comércio mundial caminha
celeremente em outra direção.
Com efeito, a política comercial brasileira durante o período 2003'2010 esteve
desalinhada das novas tendências e realidades do comércio internacional, como
foi discutido neste trabalho. Como resultado, é possível identificar um
paradoxo na estratégia de inserção no comércio internacional do governo Lula da
Silva: ao mesmo tempo em que o discurso político refutava uma aceitação
qualificada como subserviente da tradicional divisão internacional do trabalho
entre o Norte industrializado e o Sul pouco industrializado e clamava por uma
realocação "soberana" da posição brasileira no comércio internacional, as
políticas implementadas no período resultaram no retorno do País à condição de
economia predominantemente agroexportadora. Como mostrado pelos dados
apresentados, o declínio da importância relativa dos bens manufaturados na
pauta de exportação foi visível ao longo do governo Lula da Silva e, em 2010, a
participação de bens industrializados na pauta de exportações brasileiras
tornou-se menor do que 50%, voltando a patamares que já se pensavam superados
para sempre.
Por fim, pode-se extrair também como conclusão que os desafios sistêmicos
apresentados ao longo deste trabalho exigiriam uma resposta brasileira mais
sofisticada do que a articulada pelo governo nos últimos anos. Como se pode
observar com a experiência vivida por outros países, a adoção de uma concepção
de "comércio integrado" ' onde investimentos, inovação e exportação de valor
agregado dialogam de maneira sistemática e profunda ' talvez fosse capaz de
fazer com que o Brasil retomasse a trajetória de uma economia cujo comércio
exterior refletisse a sua face mais moderna, além de se constituir num fator
mais dinâmico no processo de geração de empregos e de desenvolvimento
tecnológico. A adoção de uma concepção mais moderna do comércio também
refletiria positivamente no posicionamento brasileiro nas negociações da OMC.