A Política Externa Brasileira em relação ao Fundo Monetário Internacional
durante o Governo Lula
Introdução
O Brasil tem mantido relações formais com o Fundo Monetário Internacional (FMI)
desde as conferências que o conceberam. Essas relações vêm variando desde então
por conta dos diferentes contextos políticos e econômicos, no âmbito
internacional e doméstico, assim como pela natureza das relações Brasil-EUA,
entre alinhamento, aliança, autonomia e distância crítica (Hirst 2009). Durante
o governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), um novo ciclo no relacionamento
entre o FMI e o governo brasileiro se iniciou: a relação entre a administração
FHC e o FMI se deu de maneira cooperativa, não havendo obstáculo político para
que o governo brasileiro solicitasse apoio junto ao Fundo quando necessitou.
No governo FHC se buscou "imprimir coerência à ação externa", consolidando a
lógica da autonomia pela integração (Fonseca Júnior 1998) pela qual o Brasil
buscou, internacionalmente, uma maior integração financeira e comercial e
"completa adesão aos regimes internacionais, possibilitando a convergência da
política externa brasileira com tendências mundiais, evitando, assim, o seu
isolamento diante do mainstream internacional" (Vigevani, Oliveira, e Cintra
2003, 36). Acreditava-se que, em um ambiente de abertura ao capital
internacional, o País seria beneficiado pelos investimentos diretos, já que a
concorrência forçaria a indústria nacional a se modernizar, ao passo que o
fechamento do mercado nacional, por sua vez, só aprofundaria a "defasagem em
relação aos países ricos e mesmo aos outros países subdesenvolvidos" (ibidem,
33). Na perspectiva crítica de Cervo e Amado (2010), essa nova lógica da
política externa se vincula à emergência do paradigma do Estado Normal nas
estratégias internacionais do Brasil, fundamentado nos ideários neoliberais do
Consenso de Washington e na expectativa de que a adesão brasileira aos regimes
internacionais produziria distribuição mais favorável do poder político nas
relações internacionais. Essa conformação da política internacional e econômica
do governo FHC contribuiu substancialmente para um padrão de bom relacionamento
com o FMI.
Em 2003, a nova estabilidade adquirida no ano anterior foi interrompida com o
recrudescimento da crise no Cone Sul. Desse modo, a inexistência de qualquer
acordo entre a Argentina e o FMI, bem como a drenagem do sistema bancário
uruguaio com o fechamento de agências e o bloqueio de depósitos, fez com que o
Brasil se deparasse com nova crise financeira, além de um declínio abrupto e
significativo da paridade do real em relação ao dólar. Um novo acordo com o
Fundo se fez, então, necessário. Contudo, o FMI hesitava em realizar esse novo
acordo frente à grande possibilidade de Lula ser eleito presidente da
República. O Partido dos Trabalhadores (PT) sustentava historicamente uma série
de críticas ao FMI, considerado pelo partido um símbolo de dominação política e
submissão internacional. Entretanto, foi possível a obtenção da renovação do
acordo com o FMI no segundo semestre de 2002, mas somente após a publicação da
"Carta aos Brasileiros" pelo então candidato Lula, na qual ele afirmava que, se
eleito fosse, respeitaria os contratos assumidos. Também foi fundamental para
essa renovação do acordo com o Fundo a obtenção pelo governo FHC do apoio
formal de todos os candidatos à presidência do País, após reunião realizada com
cada um deles em Brasília.
Como condicionalidade inserida no referido empréstimo, o Brasil firmou o
compromisso de manter o nível do superávit primário em 3,75% do PIB em 2003 e
sua previsível recondução nas diretrizes orçamentárias de 2004 e 2005. Além
disso, o País deveria devolver cerca de US$ 10 bilhões desse empréstimo, em
junho de 2003. Meses após o novo acordo com o FMI, Luís Inácio Lula da Silva
foi eleito presidente do Brasil. Apesar do apoio formal do novo presidente a
essa renovação de acordo garantido durante a campanha eleitoral, havia ainda
expectativas e dúvidas quanto à forma como ele e seu governo se relacionariam
com o Fundo. Passados oito anos de governo Lula, vêm à tona as questões que
orientaram a pesquisa cujos resultados principais sintetizamos neste artigo:
como se configurou a política externa do governo Lula em relação ao FMI? Como o
governo Lula se posicionou no que tange às reformas dessa agência financeira
internacional?
Para realizar a presente investigação foram utilizados os métodos de pesquisa
bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica percorreu minuciosamente
livros, artigos e matérias jornalísticas que abordavam os temas relativos ao
FMI, à política externa brasileira e ao processo de reforma da governança
financeira internacional. Já a pesquisa documental ocorreu a partir da análise
de 3.148 discursos oficiais, entrevistas, apresentações e notas da Presidência
da República, do Ministério da Fazenda e do Ministério das Relações Exteriores,
durante o governo Lula. Para analisar esses documentos foi utilizado o método
de Análise de Conteúdo, com abordagem quantitativa1 e qualitativa, seguindo
modelo proposto por Bardin (1977).
Os primeiros anos do governo: estabilização macroeconômica e continuidade
política
O aumento da frequência absoluta e relativa do termo "FMI" nos discursos do
presidente Lula e de seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, como
se pode verificar nas Tabelas_1 e 2 a seguir, indica, de maneira preliminar, a
importância crescente que tal instituição teve na agenda política do governo
entre 2003 e 2010. De fato, Lula foi eleito presidente em um momento de elevada
instabilidade econômica. Durante o período eleitoral de 2002, o real fora
altamente desvalorizado (sua cotação frente ao dólar chegou aos R$ 4,00) e o
risco-país superou os 2.000 pontos, ocasionando forte aumento dos juros
acessíveis ao Brasil no mercado financeiro internacional. Nessa época, o Brasil
respondia por mais de 20% do total dos empréstimos do FMI, sendo o segundo
maior devedor do Fundo, logo depois da Turquia.

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Ao assumir o governo em 2003, diferentemente do "terrorismo monetário" previsto
por especuladores, Lula estruturou sua política econômica com base no preceito
da continuidade em relação ao governo FHC. Para minimizar as preocupações
alardeadas por agências internacionais de rating, Lula convidou Henrique
Meirelles, figura conhecida internacionalmente por ter sido ex-presidente do
Bank of Boston, para ocupar o posto de presidente do Banco Central do Brasil.
Importante notar que Meirelles fora o candidato (pelo PSDB) mais votado para
deputado federal de Goiás, porém não chegou a ocupar a sua cadeira na Câmara
dos Deputados por haver aceito o convite. Além disso, "o governo brasileiro
firmou unilateralmente o compromisso com o FMI de aumentar o superávit primário
para 4,25% do PIB. Esse aumento significou um corte de R$ 14 bilhões do
orçamento" (Gonçalves 2005, 174).
Para assumir o Ministério da Fazenda, Lula escalou Antônio Palocci, segundo o
qual todos os acordos com o FMI deveriam ser cumpridos, sem alteração da
política econômica brasileira, o que não deixou de provocar reações calorosas
da esquerda nacional e sul-americana. Em 2003, o presidente Lula fez breves
menções ao FMI em 5 dos seus 288 discursos proferidos, e no primeiro deles, em
maio de 2003, o presidente parece justificar as medidas econômicas tomadas: "o
terrorismo que venderam sobre nós desapareceu com algumas medidas sensatas que
nós tomamos. Porque falar, às vezes, é mais fácil do que fazer. Em economia, a
gente, muitas vezes, faz e não fala, porque, se falar, não faz" (Lula 2003a).
Assim, no início de 2003, as relações do novo governo com o FMI foram baseadas
no respeito aos acordos estabelecidos e na política de não confrontação.
Entretanto, já em setembro de 2003 pôde-se perceber o desejo do presidente Lula
em diminuir as relações de proximidade com o Fundo. Nesse mês, o presidente
discursou por duas vezes sobre a possibilidade de não renovar o acordo de 2002
com o FMI, o qual venceria em dezembro de 2003, mas ressaltou que isso se daria
sem fazer "embate ideológico", mas a partir de "uma decisão política, com visão
na economia do País" (Lula 2003b, 2003c). Como sublinha Almeida (2004, 170) "o
FMI constituía, como é sabido, um dos principais objetos da demonologia
econômica do PT, durante toda a sua história, opondo-se o partido e o seu
candidato a qualquer acordo que limitasse a soberania brasileira". Pode-se
deduzir a situação pouco confortável para o presidente Lula em manter acordos
com o FMI pela frequência que ele relembra, em seus discursos, seu passado de
protestos contra o Fundo, como o proferido em 25 de setembro de 2003: "É
importante lembrar que durante parte da nossa vida, e da minha, sobretudo, nós
passamos gritando: 'Fora FMI'" (Lula 2003c). A seguir, para ilustrar esse
argumento, apresenta-se na Figura_1 a frequência absoluta do tema "Relembrar
passado de protestos contra o FMI" nos discursos de Lula durante o seu governo.
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Vale ressaltar a coincidência, ilustrada na Figura_1, entre o momento de
campanha eleitoral de 2006 e a redução das menções à militância de Lula contra
o FMI, de um lado, e o aumento dessas menções quando o Governo Lula afirma sua
política externa mais soberana e autônoma, por outro lado. Esse segundo momento
corresponde a uma nova fase de crescimento econômico sustentado, de
reconhecimento internacional do Brasil e a um período de crises globais (entre
2007 e 2010), em que o papel do FMI foi publicamente debatido e suas falhas na
regulação financeira foram apontadas por gestores, políticos e analistas.
Entretanto, o governo, sob influência do pragmatismo de Antônio Palocci, então
ministro da Fazenda, decidiu, em 2004, prorrogar por mais 15 meses o acordo com
o Fundo, apesar de não ter havido necessidade de sacar mais recursos
disponíveis nesse período. Em março desse ano, Lula entrou em contato com
diversos chefes de Estado dos países desenvolvidos a fim de solicitar apoio a
uma proposta brasileira de revisão dos acordos firmados com o FMI. Tal proposta
preconizava que os investimentos em infraestrutura não fossem contabilizados
como despesa pública, flexibilizando, assim, a meta de superávit primário
acertada com o Fundo. A defesa de tal proposta é o único tema em todos os sete
discursos proferidos por Lula que mencionam o FMI ao longo de 2004. De acordo
com Gonçalves (2005), esse movimento governamental de defesa que investimentos
em infraestrutura não fossem contabilizados como despesa pública causou grande
estranheza, já que o valor programado em investimentos para 2004 era de R$ 12
bilhões, valor menor do que o governo teve que economizar no ano anterior
devido ao seu ato de aumento voluntário do superávit primário. Reinaldo
Gonçalves (2005, 176) avalia que:
A iniciativa do presidente brasileiro em 2003'2004 mostra que o
governo, além de replicar a política de ajuste macroeconômico do
governo anterior, não tem uma estratégia sólida e eficiente de
atuação junto ao FMI. Em lugar de o país ter uma posição firme quanto
à reforma das instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), o
governo parece se perder em inócuas jogadas de diplomacia
presidencial, ou seja, marketing pessoal. Nesse sentido, a percepção
é de que a política econômica externa do país é determinada,
prioritariamente, por fatores subjetivos que têm a ver com as
idiossincrasias do tomador de decisão (Gonçalves 20005, 176).
Em abril de 2004, o governo brasileiro foi "autorizado pelo FMI a apresentar
projetos-piloto de investimentos em infraestrutura, com o benefício de exclusão
dos desembolsos do cálculo do superávit financeiro", desde que comprovasse que
tais investimentos teriam retorno financeiro (Folha de São Paulo 2004, B1). Em
fevereiro do ano seguinte, o FMI aprovou os projetos-piloto brasileiros,
liberando em torno de US$ 1 bilhão anual, para os três anos seguintes, em
"investimentos públicos em infraestrutura e outras áreas com retorno
potencialmente alto em termos macroeconômicos e fiscais" (Valor Econômico 2005,
C1). Entretanto, isso não significou que o FMI houvesse alterado o seu método
de calcular o superávit dos países, ou seja, investimentos em infraestrutura
ainda seriam considerados despesas em outros casos.
O primeiro discurso do presidente Lula que cita o FMI, no ano de 2005, ocorreu
em 22 de fevereiro e visou a comunicar que o governo brasileiro não faria a
renovação dos acordos com o Fundo em março desse ano. Para alguns
especialistas, a não renovação do acordo fazia sentido, na medida em que o País
já não se encontrava mais em crise, estava obtendo superávits nas transações
correntes e havia reduzido de maneira consistente sua vulnerabilidade externa;
para outros, a vulnerabilidade externa ainda era elevada, razão pela qual
qualificavam como erro o fato de o governo não renovar o acordo. Entretanto,
para além dos aspectos relativos à racionalidade econômica, Gonçalves defende
que o determinante de tal ato teria sido:
[...] a conjuntura política em geral e os conflitos de interesses em
particular. Ou seja, o ciclo político brasileiro passou a ser
influenciado pelas eleições presidenciais de 2006. Tendo em vista o
estigma do FMI, o grupo dirigente (governo federal) não teria
interesse de carregar até as eleições presidenciais de 2006 o ônus de
ter mantido um acordo com o FMI durante todo um mandato (Gonçalves
2005, 178'179).
Pode-se perceber a relevância desse fato para o governo federal pela sua
decisão em comunicá-lo em rede nacional de televisão e rádio. Tal
pronunciamento foi feito pelo ministro Palocci. Se levarmos em consideração os
mandatos de Palocci e Mantega, esse meio de comunicação foi usado tão somente
em três ocasiões ao longo dos oito anos.
Outro tema inserido na agenda política do governo com o FMI desde o final de
2004, que ganhou mais importância em 2005, foi a defesa de novos mecanismos de
financiamento do desenvolvimento e combate contra a fome e a pobreza. Essa
política foi comunicada a seguir pelo governo brasileiro a diferentes âmbitos e
instituições internacionais, passando a fazer parte das agendas da política
externa brasileira. Todas as três declarações do ministro Amorim que se
referiram ao FMI ao longo do ano de 2005 abordaram esses temas, assim como 4
dos 20 discursos de Lula sobre o Fundo, nesse mesmo ano.
No final de 2005, outra decisão foi tomada pelo governo Lula no sentido de
maior desvinculação em relação ao FMI: foram pagos de maneira antecipada
aproximadamente 10,8 bilhões de Direitos Especiais de Saque (DES) ' cerca de
US$ 15 bilhões ' referentes aos empréstimos tomados junto ao Fundo. Tal ato
também provocou divergências entre economistas. O Ministério da Fazenda
justificou que o pagamento ao FMI ampliou a autonomia do Brasil na gestão de
suas políticas macroeconômicas e maximizou sua confiança internacional,
fortalecendo o mercado de capitais pátrio e diminuindo o risco-país. De acordo
com o Ministério da Fazenda, essa decisão foi tomada com base:
[...] na melhora continuada das reservas internacionais ao longo dos
últimos anos, no desempenho robusto das exportações, na melhora do
perfil da dívida pública externa, cujo prazo médio das emissões tem
excedido 11 anos ', no ritmo do pré-financiamento da rolagem da
dívida externa prevista para 2006, e na aquisição de divisas pelo
Tesouro para o pagamento de juros e dívidas contratuais junto a
organismos (Ministério da Fazenda 2010, 5).
Entretanto, diversos economistas e associações da sociedade civil defenderam
que o governo brasileiro teria priorizado o pagamento de uma dívida que não
precisava ser quitada naquele momento pelo simples fato de apresentar um taxa
de juros bastante baixa (4% ao ano), como pode ser conferido no artigo de
Carneiro (2010). Tal argumento se viu ainda mais reforçado quando foi lembrado
que, no início de 2006, o governo antecipara novas captações externas, no valor
de US$ 8 bilhões, pagando juros em torno de 8% a 12,75% ao ano. Esses
opositores ao pagamento antecipado ainda acrescentaram que a política econômica
brasileira não havia se alterado em relação àquela que era defendida pelo FMI,
reforçando a noção de que não havia necessidade econômica, naquele momento
preciso, de realizar o pagamento.
Pode-se concluir desse debate que, para além dos argumentos econômicos, a
decisão governamental foi claramente fundamentada na importância política desse
pagamento antecipado ao FMI. No dia 16 de janeiro de 2006, o presidente Lula,
em pronunciamento à nação em cadeia de rádio e TV, inicia o seu discurso com as
seguintes afirmações:
Meus amigos e minhas amigas, há poucos dias o Brasil zerou a sua
dívida com o FMI. Com isso, deixamos de pagar juros, e com essa
economia vamos poder investir mais em favor do nosso povo. Com
soberania viramos uma página da nossa história. O Brasil vai caminhar
com suas próprias pernas. Ao devolvermos ao FMI o dinheiro que estava
à disposição do Brasil por conta da crise de 2001'2002 estávamos
provando, dentre outras coisas, que não dependemos mais de
empréstimos externos para continuar crescendo, podemos fazê-lo com
nossos próprios recursos [...] (Lula 2006).
O tema "pagamento antecipado do empréstimo ao FMI" se transformou em uma
espécie de mantra repetido por Lula até o final do seu governo. Os temas "não
renovação do acordo com o FMI", "pagamento antecipado ao FMI" e "não haver mais
dívidas com o FMI" estiveram presentes em 95% dos discursos de Lula que citaram
o FMI em 2005 e em 100% no ano de 2006. Constata-se, assim, a elevada
importância dada por Lula em expressar a desvinculação entre o governo federal
com o FMI nesse período eleitoral. Foi justamente a partir da não renovação dos
acordos com o Fundo que o Presidente Lula passou a aludir com maior frequência
ao FMI nos seus discursos, como pode ser verificado na Tabela_1. Após a eleição
de 2006, esses temas continuariam bastante frequentes nas falas de Lula sobre o
FMI (em 2007 chegaram a 80% e em 2008 a 60%), mas passariam a ser menos
pronunciados lentamente, sendo substituídos por outros que também ressaltavam a
independência brasileira frente ao Fundo, como será visto adiante.
Observa-se nos discursos de Lula a existência de dois subtemas vinculados a
esses temas que denotam a busca pela desvinculação entre o governo brasileiro e
o FMI nas agendas externas, quais sejam: o "não rompimento com o FMI" e a
"conquista de independência". Ao fazer uso de argumentos classificados no
subtema "não rompimento com o FMI", o presidente Lula busca explicar que o
processo de desvinculação com o FMI se deu sem conflitos ou rupturas. Já o
subtema "Conquista de independência" é utilizado por Lula para afirmar que a
não renovação dos acordos com o Fundo ou o fato de não dever mais para essa
instituição traria como resultado maior independência e autonomia para o
Brasil.
O subtema "não rompimento com o FMI" esteve presente em quase 45% dos discursos
de Lula (Figura_2) que abordam os temas da "não renovação do acordo com o FMI",
do "pagamento antecipado ao FMI" e de "não haver mais dívidas com o FMI" em
2005. Entende-se que o governo Lula necessitava ressaltar aos investidores
internacionais que essas decisões relativas ao FMI não significavam uma mudança
nas políticas macroeconômicas brasileiras e nas relações com credores
internacionais. À medida que a economia se consolidava, essas preocupações se
minimizavam, diminuindo a presença desse subtema nos discursos do presidente.
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Já o subtema "conquista da independência" esteve presente em quase 50% dos
discursos de Lula que abordam os temas da "não renovação do acordo com o FMI",
do "pagamento antecipado ao FMI" e de "não haver mais dívidas com o FMI" em
2005, chegando a quase 70% em 2006, ano eleitoral, o que mostra a importância
política dada às relações entre o Brasil e o Fundo pelo presidente então
candidato a reeleição. A relação do Brasil com o FMI é tida pelo governo como a
representação da "velha e crônica dependência econômica" do País que precisaria
ser superada (Lula 2005). É relevante notar que, após o período eleitoral, esse
subtema perdeu força nos discursos presidenciais e foi substituído por outros.
Apesar desse esforço do presidente Lula em ressaltar o término da relação
creditícia entre o Brasil e o Fundo, observa-se a inexistência de discursos que
critiquem as políticas econômicas recessivas e o regime de condicionalidades do
FMI até 2007, seja da parte do presidente, seja do lado de seus ministros da
Fazenda e das Relações Exteriores.
No ano de 2006, no bojo das agendas da política externa brasileira de reforma
da Organização das Nações Unidas (ONU), identificou-se outro posicionamento do
governo federal em relação ao FMI. Foi o caso da defesa do aumento da
interlocução dessa instituição com o Conselho Econômico e Social da ONU
(Ecosoc). Entretanto, não se pode considerar tal posicionamento uma defesa de
reforma propriamente dita do FMI, já que não propõe nenhuma alteração no seio
da instituição, seja no seu modus operandi ou na distribuição de quotas entre
os países. Sabe-se que o ministro Palocci defendia o aumento das quotas de
participação brasileira no Fundo. Contudo, a única ocasião em que o presidente
Lula defendeu uma reforma no FMI, propondo o aumento da participação
brasileira, deu-se durante reunião com o então diretor-gerente do Fundo,
Rodrigo de Rato, em janeiro de 2006.
Já em 17 de setembro de 2006, o ministro Guido Mantega discursou na Assembleia
de Governadores do FMI, afirmando que "a gestão de crises havia sido a tônica
da ação do FMI no século 20 e que a prevenção de crises deveria ser tomada como
o principal objetivo para o século 21" (Mantega 2006). Assim, o ministro
defendeu que o FMI deveria "completar o seu kit de ferramentas com um mecanismo
de financiamento que visasse à prevenção de crises" (Mantega 2006). Nesse
discurso, Mantega defendeu também a reforma do sistema de quotas e a
distribuição dos votos na instituição, ampliando a participação dos países
considerados sub-representados, argumentando que tal mudança seria fundamental
para assegurar maior legitimidade para o Fundo. Essas posições apresentadas
pelos governantes brasileiros dialogam diretamente com alguns dos princípios
constitutivos da política externa brasileira, a exemplo da defesa do
multilateralismo, mas também são o reflexo das demandas brasileiras de
democratização das instituições internacionais e de maior participação política
de países em desenvolvimento no processo decisório dessas instituições.
Entretanto, não emanou do governo, até fins de 2008, uma proposta de agenda de
reformas do FMI, diferentemente do que ocorreu com as reformas do Conselho de
Segurança da ONU e da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Percebe-se que o FMI não se constituiu em uma prioridade na agenda de política
externa do governo Lula, pelo menos até 2008, como se verá adiante. Predominou
até 2008 a opinião de que a OMC e a ONU seriam organismos prioritários para a
atuação brasileira no sistema internacional, visão esta que pôde ser confirmada
a partir da aula magna de 2006, ministrada por Celso Amorim aos estudantes do
Instituto Rio Branco:
É que eu volto aqui ao roteiro do Eugênio e eu li lá, o Eugênio tinha
feito no seu roteiro, depois vocês vão ler, as duas organizações mais
importantes do sistema multilateral são a ONU e OMC. E eu em um
primeiro momento tive até uma dúvida ' e olha que eu trabalhei duas
vezes embaixador da OMC ', eu falei "Será que eu posso dizer isso?"
Digamos, colocando de lado, em segundo plano, o Banco Mundial e FMI,
mas eu acho que a avaliação do Eugênio está certa, porque no fundo
são mesmo os dois organismos mais importantes.
Não é que o Banco Mundial não tenha funções importantes, o FMI não
tenha funções importantes. Mas, para começar, o processo decisório
nesses órgãos é totalmente concentrado, eles desempenham funções
importantes para o sistema multilateral, mas realmente eles não estão
no centro do sistema multilateral como processo de decisão. E eu
diria também, em um sentido mais profundo que, também do ponto de
vista, onde está a verdadeira solução para os países pobres, eu acho
que ela está dos dois lados, mas ela está mais na OMC que no Banco
Mundial e no FMI. No FMI nem falar, mais do que no Banco Mundial.
Porque através de um comércio mais justo, mais aberto, que reconheça
também as assimetrias e as necessidades de tempos para a adaptação
que os países em desenvolvimento podem realmente realizar as
condições para seu crescimento econômico, para sua justiça social.
(Amorim 2006).
Diante do exposto até então, verifica-se que, no primeiro mandato de Lula, a
política externa em relação ao FMI foi regida por uma dupla lógica. Uma
primeira de caráter político-doméstico, que buscou atender aos anseios de
setores do PT e de camadas da população do País que interpretam as relações com
o Fundo sob a chave da subordinação política e do anacronismo econômico. Assim,
o presidente procurou, de maneira reiterada, expressar a não existência de
vínculos de dependência, mas tampouco de conflitos, entre o seu governo e o
FMI, especialmente em período eleitoral. Uma segunda lógica concomitante foi
mais voltada para o cenário externo, quando o governo manteve uma racionalidade
pragmática em relação ao Fundo, utilizando-se de seus serviços creditícios
quando necessário, não criticando diretamente suas políticas, nem confrontando
seus interesses, ao mesmo tempo em que ressaltava seu respeito a essa
instituição financeira. Essa segunda lógica, a racionalidade pragmática, buscou
a manutenção da confiança junto ao mercado internacional, esperando que, com
isso, fosse possível assegurar uma imagem de estabilidade econômica e notações
mais elevadas para o Brasil junto às agências internacionais de rating.
Além disso, percebe-se que, apesar das diversas ações diplomáticas no sentido
de estimular a alta gerência do FMI a desenvolver mecanismos alternativos de
financiamento à pobreza e ao desenvolvimento, de defender sua aproximação com o
Ecosoc, de estabelecer novas formas de cálculo do superávit dos países em
desenvolvimento, ou mesmo no sentido de reconfigurar as relações de poder no
plano regional sul-americano por meio do apoio à criação e ao desenvolvimento
do Banco do Sul, o governo Lula não manteve uma agenda de política externa
ativamente orientada para o debate de propostas sobre as reformas
institucionais mais substantivas da arquitetura financeira internacional.
Uma nova agenda para a política externa brasileira em relação ao FMI
No início de 2007, a política do governo Lula para com o FMI não se alterou
profundamente, havendo uma continuidade em relação ao primeiro mandato. Nesse
ano, o presidente Lula mencionou o FMI em 11,4% dos seus discursos, e 74% deles
abordaram os temas "não renovação do acordo com o FMI", "pagamento antecipado
ao FMI" e "não haver mais dívidas com o FMI". Já o embaixador Celso Amorim,
nesse ano, somente se referiu ao Fundo uma única vez em seus pronunciamentos
publicados no site do MRE, momento em que voltou a defender a aproximação dessa
instituição com o Ecosoc.
Entretanto, observa-se que a crise mundial que se iniciou nos EUA em meados de
2007 modificou a política do governo brasileiro para com o FMI. A partir do
final desse ano, Lula passou a ressaltar a relação de independência financeira
do Brasil diante do Fundo mesmo em tempos de crise econômica, assim como passou
a enunciar críticas contundentes às políticas econômicas de austeridade e às
condicionalidades do FMI. Outro tema sobre o FMI que foi muito pronunciado
pelos dirigentes do governo Lula, a partir de 2009, foi a ineficiência do Fundo
diante da crise que se iniciou nos Estados Unidos.
O grande efeito que a crise mundial iniciada em 2007 produziu nas agendas da
política externa foi a mudança de prioridade em favor das reformas
institucionais do FMI. Como afirma o MRE, "o Brasil percebeu, durante a crise
financeira, o surgimento de uma oportunidade para a mudança na estrutura do
sistema financeiro e econômico internacional" (MRE 2010). Como estratégia de
mobilização política para a realização das reformas defendidas, o governo
brasileiro passou, ademais, a empenhar esforços diplomáticos principalmente em
duas instâncias distintas: no G-20 financeiro e no âmbito do grupo Brasil,
Rússia, Índia e China (Bric). No âmbito do G-20 financeiro, o governo passou a
apoiar "vigorosamente os trabalhos do grupo e atuou como um dos principais
atores no processo de consolidação do G-20 como principal foro para lidar com
temas econômicos internacionais" (MRE 2010). Já no âmbito do Bric, o País vem
articulando ações políticas no sentido de pressionar o FMI em favor das
reformas institucionais consideradas relevantes na perspectiva desses países.
Algumas dessas ações contribuíram para que um novo acordo sobre créditos e
empréstimos entrasse em vigor em 2011, os chamados "New Arrangements to Borrow"
(NAB), na terminologia do Fundo.
A partir de 2008, especialmente após as primeiras reuniões do G-20 financeiro e
do Bric, o tema "reforma do FMI" passou a aparecer com elevada frequência nas
agendas e discursos do presidente Lula e do ministro Celso Amorim, não ficando
mais restrito ao Ministério da Fazenda. É verdade que esse tema foi menos
pronunciado em 2010, o que poderia ser explicado pela necessidade de apresentar
propostas mais moderadas em ano eleitoral e pela mudança de liderança no
governo que ocorreria de todas as formas, seja com José Serra, seja com Dilma
Rousseff. Antes disso, até 2009, o governo brasileiro passou a defender
reformas significativas do Fundo e passou a se colocar enfaticamente contrário
a qualquer reforma minimalista, "que simplesmente mexa nas margens",
argumentando que isso:
[...] poria em questionamento a relevância e a legitimidade do Fundo.
Os países em desenvolvimento, ou muitos deles, acabariam por seguir
seu próprio caminho, caso se tenha a percepção de que essas reformas
não ocorrerão ou que elas sejam meramente cosméticas. Procuraremos
auto-segurança construindo altos níveis de reservas internacionais e
participando de instituições monetárias regionais. A fragmentação do
sistema multilateral, que já está surgindo, vai se acelerar (Mantega
2007).
Nesse momento, o principal "porta-voz" das mudanças defendidas pelo governo
Lula para o Fundo é o ministro Mantega, representante oficial do Brasil junto
ao FMI. Os pontos principais dessas reformas ' que desde então vêm sendo
defendidas ' são os seguintes:
1. Nova fórmula para alocar as cotas de participação dos países
sócios do Fundo, distribuindo maior quantidade de cotas aos países em
desenvolvimento.
2. Revisão das cotas periodicamente a cada cinco anos, para que
reflitam a posição relativa dos países membros na economia mundial.
3. Criação de um novo instrumento de liquidez concebido,
especificamente para apoiar os esforços de prevenção a crises;
4. Revisão da maneira de seleção do diretor-geral e do diretor-geral
adjunto, adotando um processo aberto, transparente e baseado no
mérito, sem levar em conta a nacionalidade.
5. Reforma dos instrumentos e condições de empréstimos, minimizando
as condicionalidades excessivas e intrusivas.
6. Aumento de recursos do fundo.
7. Maximizar a vigilância sob as economias desenvolvidas.
Essa priorização dada às reformas do FMI passou a orientar as ações do governo
de Lula para com o Fundo, buscando maximizar a influência brasileira nessa
instituição. Na reunião do G-20 de 2009, em Londres, os países com recursos
disponíveis decidiram fazer aportes de modo que o FMI arrecadasse US$ 500
bilhões. Dessa forma, em abril de 2009, o ministro Guido Mantega anunciou um
acordo com o FMI para participar do Plano de Transações Financeiras (PTF), fato
que concedeu ao Brasil posição de credor do FMI. Na época, 47 dos 185 membros
do Fundo integravam o PTF.
Além da quota de US$ 4,5 bilhões, Mantega afirmou que "a entrada no chamado
plano de transações financeiras do FMI não anula a decisão do Brasil de fazer
um aporte adicional ao organismo, como parte de um esforço internacional para
elevar a capacidade de financiamento do fundo" (Versiani e Costa 2009). O valor
de tal aporte fora pensado, inicialmente, em US$ 10 bilhões, mas, em novembro
de 2009, o Ministério da Fazenda anunciou que, em uma ação articulada com os
demais membros do Bric, a sua contribuição ao FMI subiria para US$ 14 bilhões,
podendo o Brasil, dessa forma, integrar-se aos Novos Acordos de Empréstimos,
tradução para o termo NAB já mencionado. De acordo com nota divulgada pelo
Ministério da Fazenda:
A reunião de ontem concluiu uma etapa decisiva de um processo de
negociação iniciado há cerca de 9 meses. Nesse processo, o Brasil
atuou em estreita cooperação com os demais integrantes dos BRICs
(Rússia, Índia e China). O resultado dessa cooperação foi uma vitória
política importante, de caráter inédito. Pela primeira vez na
história do FMI, os quatro países em conjunto terão efetiva
capacidade de veto na instituição. No novo NAB, somente os BRICs, os
Estados Unidos, o Japão e o conjunto dos países da União Européia
terão poder de veto sobre as principais decisões. [...] O Brasil
vinha buscando três objetivos na negociação do NAB. Primeiro, que o
NAB tivesse caráter temporário, servindo de ponte para a reforma de
quotas, que deve ser concluída até janeiro de 2011 e permitirá
reequilibrar o poder decisório no FMI em favor dos países em
desenvolvimento. Segundo, que o aporte de recursos ao NAB pudesse ser
feito mediante a aquisição de notas ou bônus. Terceiro, que o Brasil,
conjuntamente com os outros BRICs, tivesse influência real sobre a
reforma do NAB, a sua governança e especificamente sobre como esse
vasto volume de reservas será utilizado. Os três objetivos foram
alcançados. Quanto ao primeiro, decidiu-se que o novo NAB vigorará
até novembro de 2012. Uma nova negociação das regras do NAB deverá
ocorrer até novembro de 2011. Nessa data, o Brasil já saberá os
resultados da reforma de quotas (em termos de redistribuição de
quotas e votos entre os países membros e, também, de aumento no valor
total das quotas do FMI). À luz disso, poderá decidir se mantém ou
não a sua participação no financiamento do Fundo. Se o resultado da
reforma de quotas for satisfatório, o Brasil poderá manter uma
participação no NAB ou, ainda, converter a sua contribuição ao NAB em
aumento da sua quota no FMI. Caso contrário, o Brasil poderá decidir
encerrar a sua participação no NAB. Quanto ao segundo objetivo,
decidiu-se que os participantes poderão optar entre contribuir por
meio de empréstimos ou pela aquisição de notas emitidas no âmbito do
NAB. Quanto ao terceiro, ficou estabelecido que os BRICs passarão a
deter em conjunto mais de 15% de participação no acordo. Este
percentual lhes dá poder de veto sobre as principais decisões que
serão tomadas pelo NAB (Ministério da Fazenda 2009b).
Essa nota evidenciou a estratégia brasileira, em conjunto com os demais membros
do Bric, de pressionar o Fundo por reformas do sistema de quotas. Esse
empréstimo ao Fundo passou a ser um tema muito pronunciado pelo presidente
Lula, estando presente em cerca de 45% do seus discursos sobre o FMI em 2009 e
em 60% em 2010.
A título de síntese, verifica-se que a política do governo Lula em relação ao
FMI foi de pequenos ajustes no início do seu segundo mandato, não tendo
produzido mudanças significativas em relação ao primeiro mandato. Contudo, com
o recrudescimento da crise iniciada nos Estados Unidos, a política externa
sofreu mudança mais profunda, enfatizando a demanda por transformação
institucional do FMI. Dessa forma, primeiramente se observou uma diversificação
de temas relativos ao FMI nas agendas e pronunciamentos dos dirigentes
brasileiros, podendo-se constatar o surgimento de críticas mais contundentes
sobre a atuação do Fundo, principalmente no que diz respeito a suas políticas
econômicas prescritas, às condicionalidades e à apatia regulatória da
instituição diante da crise financeira sistêmica. Verifica-se, ademais, que a
reivindicação de reformas no FMI se fortaleceu no segundo mandato de Lula,
englobando não mais exclusivamente o Ministério da Fazenda, mas também o
Ministério das Relações Exteriores e a própria Presidência. Definitivamente a
partir de 2008, a defesa de reformas para o FMI entrou na agenda prioritária da
política externa brasileira. Como estratégia de pressão por tais reformas, o
governo passou a se articular com os demais membros do Bric, cada vez mais
presentes nas diferentes agendas da política externa brasileira (comércio,
modelos de desenvolvimento, cooperação técnica e científica, segurança
internacional, etc.).
Entretanto, ponto que nos parece fundamental, essa mudança de postura frente ao
FMI não significou que Lula tenha mudado seu discurso para o público doméstico.
Nessa segunda fase ainda persistia nos discursos do presidente a preocupação em
ressaltar para a população brasileira a não subserviência do Brasil ao Fundo.
De fato, ao longo de todo o segundo mandato, a mensagem passada repetidamente à
população brasileira era de que o FMI não mais exerceria controle político
sobre o Brasil, mas sim o Brasil passaria a exercer maior influência nas
dinâmicas institucionais e financeiras do Fundo.
Considerações finais
Este artigo teve por objetivo compreender as principais características da
política externa do governo Lula em relação ao FMI e seus processos de
reformas, utilizando-se dos métodos de pesquisa bibliográfica e análise de
conteúdo de pronunciamentos oficiais (Bardin 1977). A primeira constatação a
que chegamos é a existência de duas dimensões distintas dessa política, bem
delimitadas, mas que se influenciam mutuamente: a dimensão doméstica da
política externa brasileira e a sua dimensão sistêmica (Lima 2000; Hirst e
Pinheiro 1995). Na sua dimensão doméstica, verifica-se que a política externa
em relação ao Fundo se pautou na ênfase à independência e à autonomia do Estado
nacional. Os temas mais pronunciados pelo presidente Lula sobre o Fundo em seus
discursos buscavam transmitir a ideia de não subserviência do Brasil em relação
a essa instituição e de transformação histórica das relações políticas e
institucionais do País com o FMI. O ideal da inserção internacional soberana do
Brasil está nas bases desse posicionamento do governo Lula.
No entanto, considerando que o FMI é um objeto político bastante controverso '
principalmente pela sua liderança, entre os anos 1980 e 1990, na condução da
agenda de ajuste macroeconômico em países em desenvolvimento ' e que sua imagem
pública no Brasil é alvo de vários ataques, da esquerda e das correntes
nacionalistas, pode-se levantar a hipótese de que o presidente Lula tenha
utilizado a relação com o Fundo de maneira político-eleitoral, outro aspecto da
dimensão doméstica da política externa brasileira com o FMI. É evidente que não
se deve entender que o plano doméstico subordine a dimensão sistêmica, mas sim
pensar ambas as dimensões dialeticamente, em tensão e contradição constantes ao
longo dos dois mandatos do presidente Lula. Entre 2003 e 2010, a política
externa com o FMI mostrou-se pragmática, foi orientada pelos princípios
orientadores das políticas macroeconômicas e, ao mesmo tempo, procurou
aproximar-se das bandeiras de luta mais tradicionais do Partido dos
Trabalhadores, mormente a partir do segundo semestre de 2007.
De fato, em sua dimensão sistêmica, a política externa do governo Lula para com
o Fundo pode ser dividida em dois momentos: do início do governo a meados de
2007, a fase da não confrontação; da crise estadunidense até o final do
governo, a fase de priorização das demandas por reformas institucionais. Na sua
primeira fase, a política externa buscou respeitar acordos e evitar
confrontações com o FMI, objetivando, com isso, evitar quaisquer empecilhos
para o reestabelecimento da confiança internacional na economia do País. Nessa
primeira fase, o FMI não foi prioridade na agenda de política externa
brasileira, e as reformas institucionais foram defendidas apenas pelos
ministros da Fazenda, mas de maneira pouco enfática e desarticulada da política
externa. Ou seja, tudo indica que parecia inexistir, ainda nesse momento, um
projeto político consolidado no seio do governo a fim de definir a sua relação
com o FMI, ou então que, do ponto de vista sistêmico e da estabilidade
macroeconômica do País, o momento ainda não fosse condizente com mudanças mais
profundas nas relações institucionais com o FMI.
Entretanto, a partir da crise de 2007 ' e após haver reconquistado confiança
internacional e acumulado elevadas reservas internacionais ', o governo passou
a tecer críticas contundentes ao Fundo, especialmente às suas políticas
econômicas liberais e sua ineficácia diante da crise. Essas críticas foram
igualmente acolhidas por outras reivindicações oriundas de economias emergentes
e potências intermediárias no cenário internacional, a exemplo da África do
Sul, da Índia e da Turquia. Em seguida, e a partir das articulações em torno do
G-20 financeiro e do grupo Bric, o governo passou a priorizar o tema da reforma
do FMI, articulando, na política burocrática, os interesses da Presidência da
República e dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores. Nesse
momento, havia no governo a crença de que a crise constituiria momento singular
em termos de mudança potencial no sistema financeiro internacional, devendo o
Brasil buscar maximizar a projeção de seus interesses estratégicos. Observa-se
que tal posição se encontrava em congruência com as diretrizes da política
externa brasileira, no sentido da defesa do multilateralismo, da prioridade à
cooperação Sul-Sul, bem como de maior autonomia e participação dos países em
desenvolvimento no sistema econômico e político internacional (Vigevani e
Cepaluni 2011).
A partir dessa busca por reformas, o Brasil estabeleceu sua política em relação
ao FMI, guiando suas ações no sentido de assegurar sua presença no debate sobre
a governança da instituição, por exemplo, ao decidir conceder US$ 14 bilhões ao
FMI a fim de obter, conjuntamente com os demais membros do Bric, aumento de seu
poder de voto. Corroborando a ideia de que a política externa com o FMI não se
subordinou à política doméstica, mas que ambas se reforçaram mutuamente, o fato
de o Brasil ter se tornado credor do Fundo foi amplamente utilizado por Lula
para apontar novos tempos nas relações do Brasil com as agências financeiras
internacionais, além de sinalizar política e publicamente para o contraste
entre esse perfil por ele apresentado como mais altivo e soberano e o momento
dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. As relações do Brasil com o FMI
eram, nesse sentido, instrumentalizadas a fim de tentar diferenciar padrões de
comportamento político do Estado nacional na ordem econômica internacional.
De fato, esse uso político da relação entre dimensões externa e doméstica é uma
característica peculiar da política externa do governo Lula, uma vez que se
observa, com elevada frequência nos discursos do presidente, uma conciliação
retórica estratégica entre ataques e afagos ao FMI e suas políticas. Sem
dúvida, trata-se também de um elemento da idiossincrasia de um presidente
sindicalista, cuja cultura política lhe permitia lidar diretamente com o
conflito dentro da dinâmica de governo e, ademais, habilidade de conciliação e
negociação nos planos doméstico e internacional. É evidente que, a partir das
pesquisas cujos resultados foram aqui apresentados, ficam em aberto algumas
questões, a serem exploradas em futuros projetos, inter alia: qual a influência
que a política externa brasileira vem exercendo nos processos de reformas em
curso no FMI desde 2008? De que forma o Brasil constrói sua política de demanda
por reformas no FMI em parceria com os demais membros do Bric? Como se dá a
participação brasileira no âmbito do G-20? Como a busca por reformas do FMI vem
sendo tratada pelo Brasil no plano regional sul-americano?