Corpo e Doença no trânsito de saberes
Enunciação do problema
O corpo e a doença constituem objetos cujo conhecimento não encontra um modo de
acesso único. Fenômenos sociais e culturais ' como qualquer fenômeno humano ',
o corpo e a doença, assim como a dor e o sofrimento, constituem objetos de
pesquisa que atravessam fronteiras disciplinares por envolverem dimensões da
existência humana reivindicadas, cada uma delas, como próprias de áreas
específicas do saber, correspondendo à fragmentação disciplinar que marca o
campo científico, neste caso, entre as ciências humanas e as biológicas. Em seu
estudo, aparece inevitavelmente o problema de como se relacionam esses
distintos campos do conhecimento, cujos olhares transformam o corpo e a doença
em objetos radicalmente diferentes, porque construídos a partir de referências
epistemológicas distintas, como as que distinguem o campo da biologia ' fundado
na suposição da objetividade do conhecimento empírico ' e o campo simbólico da
antropologia. O problema evidencia-se, sobretudo, diante do fato de que esses
estudos, mesmo na perspectiva das ciências sociais, se desenvolvem
frequentemente em espaços institucionais vinculados à área da saúde, cuja
organização segue a lógica dos saberes biológicos.
Num momento de fragilidade da institucionalização das ciências sociais na área
da saúde, Carrara ressaltou que a discussão que propunha, à época, sobre a
entrada da antropologia social nos domínios da biomedicina, transformando-a em
"'objeto' de nossa própria 'ciência'" (1994, p. 37), talvez interessasse apenas
àqueles, como o autor, localizados em espaços institucionais vinculados à
saúde, portanto "híbridos" do ponto de vista da divisão tradicional das
disciplinas científicas. Hoje, diante da visível expansão institucional desse
campo de estudos,1 juntamente com a abertura das ciências sociais para outras
áreas (direito, direitos humanos, segurança pública, relações internacionais,
comunicação, meio ambiente etc.), parece-me que a discussão sobre os termos da
comunicação possível entre distintos campos do conhecimento se apresenta como
um problema não apenas de interesse geral das ciências sociais, mas necessário
ao seu empreendimento.
Este ensaio propõe-se a discutir o campo de estudos antropológicos sobre o
corpo e a doença, recortando-o a partir da exigência, intrínseca a esse campo,
de situar-se em relação aos saberes biológicos. Destaca o modo próprio como a
antropologia trata as questões do corpo e da doença, clássicas em seus estudos,
mapeando-o a partir da forma pela qual o saber antropológico se relaciona com
os saberes biomédicos nesse campo suposto interdisciplinar.
A noção de "interdisciplinaridade" implica um diálogo entre disciplinas, cuja
condição de possibilidade está em manter definidas as diferenças disciplinares,
delimitando claramente o lugar de onde se fala e as fronteiras que separam e
aproximam os saberes, na tensão que lhe é inerente, uma vez que a tentativa de
diálogo não consegue prescindir de alguma, quando não muita, tensão na busca da
equidade dos postulados de um campo diante do outro. Não se trata, portanto, de
pensar a interdisciplinaridade a partir da possibilidade de uma identificação,
mas, ao contrário, o encontro possível supõe a separação prévia, implícita no
reconhecimento da alteridade. A identificação anula o outro, em lugar de
reconhecê-lo. O primeiro movimento em direção ao diálogo é o da separação, para
que o passo seguinte leve ao encontro possível, se o for, entre um e outro
(Sarti, 2003).
Embora haja um amplo reconhecimento, na área da saúde, da irredutibilidade dos
fenômenos humanos à dimensão biológica, quando um antropólogo toma como objeto
de reflexão o corpo, a dor, o sofrimento, a saúde e a doença, ele terá um
enfrentamento com um campo de conhecimentos no qual os saberes biológicos se
constituem socialmente como referência. Campo difícil, marcado por relações de
poder instituídas pelo lugar social que tem o saber biomédico em nossa
sociedade. Este saber constitui a representação oficial do corpo humano no
mundo ocidental contemporâneo, não apenas no âmbito do "campo científico" '
campo de lutas, de disputas, tanto em sua mecânica interna, como em sua relação
com a sociedade, como nos mostrou Bourdieu (1976) ', mas como referência
cultural para toda a sociedade.
Recorrendo à clássica formulação de Althusser (1985), segundo a qual a
ideologia tem como marca interpelar o sujeito, em sua subjetividade, a
medicina, como aparelho ideológico, interpela-nos permanentemente, onde quer
que estejamos. É ela que, onipresente, vem nos dizer não apenas como curar
nossas doenças ou aliviar nosso sofrimento, mas, propriamente, como viver.
Embora não seja única e isso se dê num campo de tensões e ambiguidades, é a
biomedicina que tem o domínio da concepção de vida e de morte na sociedade
ocidental contemporânea.
Cumpre esclarecer que a "biomedicina" é entendida, aqui, como o campo de
saberes biológicos no qual se baseia a medicina, envolvendo as instituições e
as práticas de saúde a ela associadas.2 O uso do termo coincide com as
formulações de Canguilhem, para quem a medicina é uma técnica e uma arte,
"situada na confluência de várias ciências, mais do que uma ciência
propriamente dita" (2006, p. 6). Este autor busca a relação entre as ciências
(biológicas) e a técnica, desvendando os mecanismos pelos quais os postulados
científicos (da fisiologia, em particular) se constituem em discursos
normativos, que impõem um padrão de normalidade, referência única para pensar a
doença (e, consequentemente tratá-la), que é vista como uma variação
quantitativa ' portanto, a ser mensurada' do estado "normal" da saúde. Sua
argumentação em favor de uma diferença qualitativa entre saúde e doença ' já
que o estado patológico corresponde a um "valor negativo" em relação à "vida" '
evidencia a historicidade das concepções científicas do que se constitui (e
institui) como normal e patológico e, assim, permite relativizar esses
conceitos, abrindo caminho para que a experiência clínica e o discurso do
doente ' e não apenas a "ciência" ' possam dizer da doença. Assim, do ponto de
vista de uma ciência que informe a clínica, segundo Canguilhem:
É muito importante não confundir a doença com o pecado nem com o
demônio. Mas só porque o mal não é um ser não se deve concluir que
seja um conceito desprovido de sentido, ou que não existam valores
negativos, mesmo entre os valores vitais; não se pode concluir que,
no fundo, o estado patológico não seja nada mais do que o estado
normal (2006, p. 68).
[...] o conhecimento científico, embora invalidando qualidades que
fez aparecer como ilusórias, nem por isso as anula. A quantidade é a
qualidade negada, mas não a qualidade suprimida (Idem, p. 73).
Para o antropólogo, definir-se dentro deste campo do conhecimento, confrontando
saberes, não é algo que lhe é estranho, por responder ao procedimento,
intrínseco à disciplina, de questionar os termos em que se dá a relação entre o
pesquisador e o pesquisado, o que nos faz sempre perguntar sobre o estatuto de
nosso conhecimento em face do nosso objeto de pesquisa.
Como a antropologia constituiu-se como disciplina científica que estuda
sociedades diferentes daquela à qual pertencia o antropólogo, o mundo não-
ocidental, a discussão das condições e dos termos em que se dá a relação entre
o antropólogo e a cultura que ele estuda se torna um problema não só ético e
metodológico, como epistemológico. O saber antropológico constrói-se
precisamente dentro dessa problemática. Para validar a si mesma, a antropologia
considera não apenas o diálogo entre o estudioso e seus pares, mas os
enunciados válidos na antropologia se fundam, ainda, nas condições de
possibilidade do diálogo do pesquisador com seu objeto de estudo, tal como foi
ressaltado por Rouanet (1990), em um texto em que precisamente discute ética e
antropologia.
Quando se trata de estudar o corpo, a saúde e a doença, o objeto de
investigação torna-se, direta ou indiretamente, o próprio campo científico que
produz a verdade sobre o que é o corpo, a saúde e a doença no mundo ocidental,
ou seja, a biomedicina e seus agentes.
Assim, se entre as questões em torno das quais se debate a antropologia
contemporânea está o questionamento sobre o lugar a partir do qual o
antropólogo vê, escuta, fala e escreve, problematizando o antropólogo como
autor ' questão na qual Geertz (1989) é um nome emblemático ' ou, ainda, o que
Clifford (1983) denomina a "autoridade etnográfica", esta questão recoloca-se
quando a antropologia tem o corpo, a saúde e a doença como objetos,
configurando-se de outra maneira.
A noção de autoridade etnográfica supõe que quem detém a autoridade do
conhecimento é o antropólogo, diante de um objeto cujo saber é socialmente
desautorizado e deslegitimado; autoridade essa que se constituiu como tal, em
face do mundo não-ocidental, a partir da emergência da antropologia como parte
das Ciências Humanas no final do século XIX e início do século XX, tendo como
contexto histórico o colonialismo europeu. O questionamento dessa autoridade,
hoje, no contexto do pós-colonialismo, no interior da própria disciplina, deve-
se à associação do discurso antropológico com o poder, herança do contexto do
mundo europeu que marcou a fundação da disciplina, que define a supremacia do
saber ocidental sobre outras formas de conhecimento. Muita controvérsia e
imprecisão surgiram, entretanto, disso que é reconhecido como um postulado
evidentemente válido para explicar o surgimento da disciplina, mas não para
acompanhar seu próprio desenvolvimento crítico.
A questão ética e epistemológica que está posta para o antropólogo, no que se
refere ao estatuto do saber antropológico, é a de buscar o lugar possível de
reconhecimento e legitimidade para o discurso de seu "objeto" transformado em
sujeito, atribuindo-lhe um estatuto de saber, pensando o discurso como
estrutura que inscreve não apenas o sentido da palavra enunciada, mas também o
das práticas e das relações nas quais se enuncia. Essa questão é
particularmente relevante no campo da saúde, pelo não reconhecimento do
discurso do doente pelo discurso biomédico. Reconhecer a condição de sujeito do
outro e a legitimidade de seu discurso, entretanto, não se confunde com a
(ingênua) reivindicação de uma suposta simetria entre os saberes, questão que
transcende o lugar do encontro do antropólogo com o nativo, na pesquisa, e é
problemática precisamente pelos termos em que se deu e se dá historicamente
este encontro. A esse respeito, remeto à argumentação de Duarte:
Hoje veicula-se com frequência a denúncia da disposição
interpretativa como o indício de um autoritário privilégio do
observador sobre a experiência nativa. A posição do projeto
antropológico não tem como não ser assimétrica, uma vez que as
disposições culturais que o suscitam são diferentes daquelas que
inspiram ou inspiraram a vida de todas as demais ordenações
simbólicas emergentes no mundo. Reconhecer essa assimetria
"situacional" não significa, porém, assumir necessariamente alguma
preeminência ontológica ou epistemológica sobre os "nativos"
(inclusive os internos a nossas próprias sociedades, populares ou
eruditos, subordinados ou dominantes, marginais ou hegemônicos). A
ideia de que seja possível, por outro lado, conceder às concepções do
outro um lugar de mais verdade ' com maior coerência cosmológica ou
autenticidade vivencial, por exemplo ' acaba por expressar uma
sofisticada e rematada arrogância, como se de nós, ainda seus
observadores e descritores, dependessem a revelação e chancela de tal
dignidade ontológica (2008, p. 22).
O antropólogo da saúde, no que se refere à relação com o grupo pesquisado,
enfrenta uma situação singular. Ao contrário do que geralmente ocorre com seus
pares, ele tem que se enfrentar com o fato de que o lugar de autoridade, no
campo interdisciplinar da saúde, não é o do saber antropológico, mas o das
ciências biomédicas. Assim, é a partir de um lugar desautorizado perante seu
objeto de estudo que o antropólogo se situa neste campo. A busca de
reconhecimento entre os saberes inverte-se. Converte-se em estratégias para
fazer valer os pressupostos epistemológicos relativistas da antropologia num
campo referido pelo saber empírico, fundado no pressuposto da objetividade do
conhecimento, das ciências biológicas, tomado como referência única na
validação do conhecimento científico.3
Vale recorrer a uma ideia presente em um texto de Lévi-Strauss, "A sociologia
francesa", no qual ele ressalta o que chamou de universalismo da sociologia
francesa, pela estreita colaboração entre esta e todas as correntes do
pensamento que tivessem o homem ou o estudo do homem como objeto. Assim, esta
sociologia, diz ele, "nunca se considera uma disciplina isolada, trabalhando
dentro de seu próprio domínio, mas, sobretudo, um método ou uma atitude frente
aos fenômenos humanos" (1947, p. 515).
Pode-se reter esta ideia, voltando a um texto anterior à polêmica atual sobre o
estatuto do saber nativo ante o antropológico; para falar em outros termos, do
método antropológico como uma maneira de olhar o mundo, configurando não apenas
uma perspectiva, mas também uma atitude perante os . fenômenos humanos.
Pretende-se, aqui, argumentar que o estudo antropológico, dentro do campo dos
estudos sobre o corpo, da saúde e da doença, exige que seu olhar ' a definição
de sua perspectiva teórica e metodológica ' venha acompanhado, ao mesmo tempo,
de uma atitude do antropólogo frente aos saberes biológicos, que permita
estabelecer os termos da comunicação possível entre antropologia e biomedicina,
atitude necessária diante do lugar "de mais verdade" ocupado pelos saberes
biológicos neste campo. Isso significa dizer que há, implícita, uma dimensão
política específica a se enfrentar no desenvolvimento dos estudos
antropológicos, e das ciências sociais de modo geral, dentro do campo da saúde.
Dimensão que se converte em problema epistemológico, na medida em que de seu
enfrentamento depende a própria construção do saber antropológico, em seus
próprios termos, de forma a fazer valer a análise antropológica como forma de
conhecimento, em si, do corpo, da doença e da saúde ' e não como um
conhecimento subsidiário, de menor valor heurístico.
A partir do problema assim estabelecido, pode-se definir um eixo de
diferenciação para se entender, em linhas gerais, o campo da antropologia do
corpo e da doença, recortando-o pela posição em que se colocam diante das
ciências biológicas. Sob este prisma, pode-se falar em duas perspectivas, que
correspondem a duas vertentes dentro da antropologia que estuda o corpo, a
saúde e a doença: a "antropologia médica", subsumida na lógica do saber
biomédico; e a "antropologia da saúde" (ou da doença), que opera a partir de
uma noção de cultura que se configura como outra referência epistemológica em
relação à biomedicina.
A "antropologia médica"
A denominada "antropologia médica" (ou "etnomedicina") tem sua matriz principal
na antropologia norte-americana, mas também na anglosaxônica, embora esteja
presente de forma geral nos estudos sobre saúde e doença em vários países. Para
situar essa vertente, pode-se dizer que estão, entre suas principais
referências de origem, os trabalhos de Good (1994), Kleinman (1980, 1995),
Scheper-Hughes e Lock (1987), autores que denominam, eles próprios, seu campo
de trabalho como sendo a "antropologia médica".4
Correndo o risco de simplificação, inevitável quando se classificam trabalhos
diversos dentro de uma categoria comum, pode-se dizer que se trata,
genericamente, de uma antropologia, de base empírica, que analisa a diversidade
em torno das concepções de corpo e de doença, elaborando o que pode ser
considerado um rico inventário dessa variação cultural, situando-se por
referência ao sistema biomédico oficial e, frequentemente, a seu serviço.
Destaca-se seu caráter instrumental em face das necessidades do sistema médico
oficial. A antropologia ocupa, nessa perspectiva, o lugar do tradutor das
diferentes linguagens culturais em termos inteligíveis para o campo biomédico,
e vice-versa.As noções de corpo e doença alheias às definições da biomedicina
têm, aqui, o estatuto de um "outro". Permanecem no registro do exótico em
relação às referências biomédicas. Estas continuam constituindo-se como lugar
absoluto, por sua naturalização, numa perspectiva que, mantendo-se num plano
empírico, reduz e encapsula a cultura como fenômeno particular. Assim, essa
antropologia, ainda que busque situar-se em relação, caminha paralela ao
conhecimento biomédico, andando atrás, pode-se dizer, uma vez que a noção de
cultura, essencializada, não marca efetivamente uma alternativa teórica às
análises empiricistas sobre corpo, saúde e doença que abra a possibilidade de
um encontro de perspectivas diversas. Há, implícitas, imagens reificadas do
outro, como nas narrativas coloniais.
A própria nomenclatura, na qual o termo "médica" aparece como adjetivo, ao lado
de "antropologia", substantivo, é sintomática de uma relação em que um dos
campos está subsumido ao outro. Essa perspectiva, no Brasil, é mais difundida
nos espaços institucionais da saúde e nas publicações desta área, pelas óbvias
implicações práticas e políticas que tem o enfrentamento dessa assimetria.5
É comum que, nas instituições de saúde, o antropólogo se ocupe das "outras"
formas culturais de pensar o corpo, a saúde e a doença, como se isto, por si
só, garantisse uma contribuição antropológica à área da saúde. Como se a
antropologia se definisse pelo seu objeto e não pelo problema que a constitui
como campo disciplinar e como método de investigação, que é a análise dos
fenômenos humanos ' quaisquer fenômenos humanos ' como construção cultural, o
que implica que o lugar da alteridade não pode se fixar, porque é sempre uma
questão de perspectiva. Desse risco Lévi-Strauss (1962) nos alertou, já no
começo dos anos de 1960, no famoso texto sobre a suposta crise da antropologia
em face do desaparecimento das sociedades ditas "primitivas".
Perpassa pelo desencontro entre antropologia e biomedicina uma dificuldade '
base do etnocentrismo ' que diz respeito ao fato de que a biomedicina,
ocidental e contemporânea, é a referência internalizada (inconsciente,
portanto) para os cuidados de nossas próprias dores e sofrimentos. Nessa linha,
Clavreul (1978) chama a atenção, em sua análise da "ordem médica", para a
dificuldade de crítica a esta ordem, uma vez que, como sujeitos culturais,
segundo o autor, "cada um de nós é solidário demais com o discurso médico a
ponto de não abraçar de antemão suas razões".6
O não enfrentamento desse etnocentrismo, que é, como cultura, da ordem do
inconsciente, traduz-se em uma busca ingênua de complementaridade, sem levar em
conta que o que diferencia a antropologia e a biomedicina não é o objeto, mas o
olhar sobre o objeto. Assim, a antropologia médica incorpora-se à biomedicina e
torna-se o que Le Breton (2001) chamou de "antropologia residual", por meio da
tentativa conciliatória de dividir objetos entre uma e outra, eludindo a tensão
que alimenta a busca de reconhecimento dos distintos saberes. Quando não se
privilegiam as "outras" culturas, numa redutora divisão de atribuições
disciplinares, divide-se o que diz respeito à cultura ocidental, pela qual se
referencia a biomedicina, dentro da mesma perspectiva simplificadora. Desta
vez, o "social" é considerado atribuição da antropologia (e da sociologia),
enquanto o "individual" cabe aos saberes biológicos ou psicológicos.
O fundamento dessa divisão é a identificação, que percorre esse campo, entre o
social e os fenômenos "coletivos" como o objeto próprio das ciências sociais,
enquanto a biomedicina e a psicologia, ou a psiquiatria, teriam como objeto o
"indivíduo", como se o este não fosse, tanto quanto a coletividade, uma
categoria social. Reifica-se o social como coletivo, transformando-o em
"coisa", atomizada num corpo coletivo, como um organismo, seguindo fielmente o
positivismo do Durkheim de As regras do método sociológico. Ambas as dimensões
' social e individual ' são reificadas e naturalizadas, desconsiderando, de um
lado, a dimensão de construção histórica e cultural da categoria indivíduo
(Dumont, 1993) e, de outro, a complexidade do social como categoria simbólica.
Assim concebido seu objeto, a antropologia encontraria seu lugar no âmbito da
saúde pública, da medicina social ou da saúde coletiva, uma vez que é ali o
espaço reservado para se tratar do "social" na área da saúde, fazendo do
antropólogo um profissional estranho aos outros âmbitos da saúde. Essa
antropologia "médica" confere, assim, à antropologia o lugar do saber sobre o
outro ' exótico ', deixando a biomedicina fora do alcance da análise cultural.
Augé (1986), há tempos, chamou a atenção para a relativa fraqueza teórica da
antropologia médica, que a impede de levar adiante a contribuição da disciplina
para o campo da saúde, uma vez que gira em torno de questões já superadas em
sua discussão interna, deixando de pensar nos pontos em que o estudo
antropológico da doença pode renovar a problemática antropológica.
Para sintetizar a crítica a essa perspectiva, remeto ao trabalho de Duarte
(2004) e, em particular, à sua resenha, publicada na revista Physisa respeito
das formulações da antropologia médica norte-americana, sobre as doenças
chamadas "nervosas":
Perpassam esses trabalhos não só a concepção difusa e mais grosseira
de que os sujeitos civilizados são os que operam com noções claras,
distintas, racionais, do que é o corpo e do que é espírito ou mente
(por oposição aos saberes dos nervos, que confundiriam esses planos
classificatórios), mas também a ideia de que as categorias
psicologizantes contemporâneas expressam a realidade do que se passa
com os seres humanos, enquanto sistemas como o do nervoso são '
apenas eles ' "culturais" ou "simbólicos" (Duarte, 1993, p. 51).
A antropologia da saúde
A segunda vertente, que pode ser denominada antropologia da saúde (ou
antropologia da doença), está vinculada, sobretudo, a uma tradição que remonta
a Marcel Mauss e tem na França o palco principal de sua origem e
desenvolvimento (Augé, 1986; Augé e Herzlich, 1984; Laplantine, 1991; Le
Breton, 2001). Augé (1986) argumenta, em favor desta vertente, que há apenas
uma antropologia, que se atribui distintos objetos empíricos (saúde, doença,
religião, parentesco), sem se dividir em "subdisciplinas" e pergunta se esses
diferentes objetos de observação do olhar antropológico, ao término de seu
esforço de construção, não constituíram um único objeto de análise.
A questão é pertinente. Trata-se, como propõe Augé, de pensar não apenas na
contribuição da antropologia para o campo da saúde, mas em como a antropologia
da saúde e da doença pode ajudar a (re)pensar o objeto da antropologia. Está em
jogo não apenas o inventário etnográfico das distintas concepções de saúde e
doença e suas consequências práticas para o tratamento, que alimenta a
"antropologia médica", mas também a questão teórica que permeia esses estudos
num campo em que a noção de cultura se enfrenta, de forma radical ' envolvendo
uma atitude, ou postura política ', com um saber que lhe nega a razão de ser,
postulando a primazia da dimensão biológica dos fenômenos em pauta, quando não
sua exclusividade.
Comparada à perspectiva anterior, a antropologia da saúde, fiel à tradição
relativista da disciplina, considera todos os sistemas médicos, bem como todos
os discursos sobre o corpo, a saúde e a doença, como categorias culturais,
qualquer que seja sua procedência, pelo simples fato de que eles existem e
dedica-lhes o mesmo interesse (Laplantine, 1999). Em muitos sentidos, retornam
a Marcel Mauss, para quem não existe assunto nobre e assunto indigno para a
ciência. A "ciência" torna-se o objeto de estudo etnográfico. Trata-se de não
excluir do campo da análise antropológica, de antemão, qualquer objeto e tratá-
lo como categoria cultural, o que implica escapar à lógica das hierarquias do
mundo social.
Se a antropologia aceita voltar-se apenas para o que está fora da biomedicina,
naturalizando-a, ou privilegia aquilo que constitui o "erro", enfim, a derrota,
nesse campo tomado como categoria absoluta, termina por reproduzir as divisões
constitutivas do universo simbólico ocidental. Entre essas divisões está a que
marca este mundo desde, pelo menos, o Renascimento e sustenta as ciências
biológicas, portanto a biomedicina, como saber e práticas: a cisão entre a
pessoa e o corpo humano, cisão que, na mesma medida que se realiza e
concretiza, evidencia as ambiguidades e as tensões morais que sempre a
envolveram.
Segundo Le Breton (2001), essa cisão é anterior ao dualismo cartesiano, que
separa corpo e espírito. Este a concretiza e consolida, no século XVII, dentro
da concepção mecanicista do corpo como um organismo, mas a raiz histórica, a
fundação, desta separação está no desenvolvimento da anatomia, com base na
prática oficial de dissecação de cadáveres a partir do começo do século XV.
Para este autor, com os anatomistas, em particular com Vesalius, cuja obra, De
humani corporis fabrica, é de 1543, nasce uma distinção implícita na episteme
ocidental entre o homem e seu corpo. Ali está a fonte do dualismo
contemporâneo, que visa ao corpo isoladamente, numa espécie de indiferença em
relação à pessoa que o habita, que marca tão claramente a biomedicina até os
dias de hoje.7
Entre as expressões mais evidentes dessa clivagem, no mundo contemporâneo, está
o transplante de órgãos, cujas dificuldades, que transcendem as questões de
ordem técnica, revelam os conflitos e as injunções morais de que se reveste
esta prática cultural.
Essa foi, assim, uma mutação ontológica decisiva no mundo ocidental, em sua
concepção da pessoa, que possibilita e abre o caminho para o desenvolvimento da
anatomia e da fisiologia, nas quais se baseia a biomedicina. Segundo Le Breton
(2001), é esta dualidade entre corpo e pessoa que caracteriza, então, a
concepção de corpo na modernidade e que se prolonga até a contemporaneidade.
Se a concepção de corpo mais comumente reconhecida em nossa cultura (ocidental)
é a que deriva do conhecimento anátomo-fisiológico, foi necessária, como
condição de possibilidade deste conhecimento, a construção de uma noção da
pessoa cindida, separada de seu corpo, que passou a ser concebido apenas em sua
dimensão biológica. O corpo, separado da pessoa, é pensado como um atributo
que, hoje, dados os recursos da biotecnologia, pode inclusive ser modificado.
Aqui, "o corpo é associado a ter um corpo e não a ser um corpo", como mostra Le
Breton (2001) em sua análise do corpo criado pela anatomia, a partir do
Renascimento.8
É disso que trata, então, a antropologia da saúde: da noção de pessoa, a
concepção do humano, o anthropos, construção necessariamente social e
histórica, que está pressuposta nas diversas concepções e práticas que envolvem
o corpo, a saúde e a doença, em qualquer âmbito da vida social, em qualquer
tempo ou espaço. O objeto da antropologia da saúde, portanto, não se constitui
pelo que é o corpo, a saúde e a doença, mas pelo que sujeitos, em cultura,
pensam e vivem o que é o corpo, a saúde e a doença. Como antropólogo, o
estudioso coloca-se em perspectiva diante de seu objeto. Longe de constituir-se
em realidade objetiva, o que é o corpo depende, sempre, da perspectiva ' de
dentro e de fora, de cima, de baixo ' de quem o carrega consigo, de quem o
olha, do que se vê...
É compreensível, assim, a influência decisiva de Marcel Mauss neste campo de
estudos, sobretudo por suas formulações sobre o caráter social da noção de
pessoa, dos sentimentos ou dos usos do corpo, as "técnicas corporais". Não só
Mauss, mas a Escola Sociológica Francesa de modo geral (Émile Durkheim, Robert
Hertz, entre outros) que, ao afirmar como objeto das ciências sociais "fatos
humanos" estudados até então pela medicina e pela psicologia, como corpo,
sentimentos, morte e doença, foi pioneira em dar ferramentas teóricas que
permitissem tornar inteligíveis esses fenômenos como fatos sociais e culturais.
Pode-se pensar no conhecido estudo de Hertz, A preeminência da mão direita,
originalmente publicado em 1909, como emblemático de uma perspectiva de relação
entre os saberes biológicos e sociais. O autor considera as formulações de
Broca sobre a anatomia humana, segundo as quais há uma conexão entre a
preeminência da mão direita e o maior desenvolvimento do homem no hemisfério
cerebral esquerdo, que enerva os músculos do lado oposto. Ele cita Broca,9 que
afirma : "somos destros na mão, porque canhotos no cérebro".10 Hertz inverte a
questão e pergunta: por que não dizer que somos canhotos no cérebro, por que
destros na mão?
Hertz pretende mostrar que, embora exista uma base anatômica para esta
assimetria, a desteridade não é uma necessidade natural, mas um ideal. Para
ele, a diferença em valor e função entre os dois extremos do nosso corpo não
pode ser explicada pela anatomia, porque tem características de uma instituição
social, portanto sua explicação pertence à sociologia. Conclui, então, que, se
não houvesse a assimetria orgânica, "ela teria que ser inventada", porque
corresponde a um valor social.
A atualidade desta afirmação de Hertz aparece claramente quando se pensa nas
características e nas definições de corpo, ou de partes deste, que nossa
sociedade "inventa" como justificativas morais diante, por exemplo, das novas
possibilidades propiciadas pela biotecnologia, em particular, em face do
envelhecimento, ou outros processos corporais, como a reprodução (assistida), o
transplante de órgãos etc.
O corpo
A experiência propriamente fisiológica do corpo, portanto, para ser
compreendida, requer a referência às categorias sociais que lhe dão sentido. O
corpo é constitutivamente simbólico. A existência humana, sim, é corporal.
Nascemos, crescemos, adoecemos e morremos num corpo. Como diz Le Breton (2001),
existir significa mover-se corporalmente em um determinado espaço e tempo. No
entanto, a forma como cada pessoa vive sua realidade corporal e concebe o corpo
que habita é tributária da noção de pessoa, própria à coletividade da qual faz
parte.
Quando se fala, no discurso biomédico, em dor corporal, a tendência é associá-
la a um fenômeno neurofisiológico. Admite-se que existam "componentes" sociais
ou psicológicos na vivência da dor. Pensa-se, entretanto, em uma existência
corporal prévia e autônoma ' que configura a noção de corpo biológico ', à qual
se agregam fatores psíquicos e culturais. Ao contrário desta proposição, o
corpo, na perspectiva antropológica, não existe fora do registro simbólico, nem
lhe antecede. O mundo social e cultural não atua ou intervém sobre um corpo
preexistente, tomado, neste registro, como "natureza". O corpo constitui-se
como realidade humana pelo significado a ele atribuído pela coletividade,
significado que é tributário, como já foi dito, da noção de pessoa (Sarti,
2001, 2003).
Não há uma existência corporal prévia, ou seja, uma ordem natural que anteceda
à intervenção cultural. O corpo faz-se humano porque está constitutivamente
inscrito em um sistema simbólico.
A realidade objetiva atribuída ao corpo pelas ciências biológicas, que o
predispõe à observação experimental, é, em si, uma construção simbólica,
necessária ao desenvolvimento dessas ciências, como foi demonstrado por
Canguilhem (2006) em sua crítica às noções biomédicas de normal e patológico,
antes mencionada. Tal como as ciências biológicas concebem o corpo humano como
realidade física, objetiva, separada do sujeito que o habita, a literatura
antropológica, simetricamente, brinda-nos com inúmeros exemplos etnográficos
que mostram distintas formas de pensar a estrutura e o funcionamento do corpo
e, sobretudo, de delimitar as fronteiras do corpo em relação ao mundo que o
cerca, o que recoloca a questão do corpo como limite entre mim e o outro, tal
como posta no mundo ocidental.
Os estudos ameríndios são referência fundamental para a antropologia do corpo e
da saúde, por demonstrarem a descontinuidade entre os mundos humano, animal e
vegetal como uma construção cultural, o que tem implicações decisivas para sua
concepção e formas de lidar com a existência corporal (Descola, 1996, 2005;
Lima, 2002). Esses dados etnográficos são particularmente relevantes para uma
antropologia do corpo, por permitirem desconstruir um dos pilares fundamentais
que sustentam a noção de corpo no mundo ocidental, que é a dualidade natureza e
cultura, associada à suposição, que dela decorre, de que o corpo biológico faz
parte da ordem da natureza. São dados que permitem relativizar o conhecimento
biomédico, em comparação com outros sistemas simbólicos, de modo a desfigurar o
estatuto de verdade adquirido pela biomedicina no que se refere ao conhecimento
sobre corpo, saúde e doença.
No âmbito da crítica à ideia do corpo naturalizado da biomedicina, destacam-se,
ainda, os estudos de gênero, que problematizam a construção social do corpo do
homem e da mulher. Dentro da questão em pauta ' os termos da comunicação
possível entre antropologia e biomedicina ' remeto ao trabalho de Laqueur
(2001), cuja pesquisa evidencia que a diferenciação entre os sexos, na história
da medicina, é datada: define-se no século XVIII, quando, segundo o autor, se
inventaram "os dois sexos para fundar o gênero", base para a criação da
ginecologia como especialidade médica dirigida à mulher. Como demonstra, ainda,
uma extensa literatura, tratava-se de consolidar um modelo e uma moral de
família por meio do controle disciplinar do corpo e da sexualidade da mulher
(Rodhen, 2001).
Ainda no âmbito da necessidade de estranhamento em relação às categorias sobre
as quais se assenta nosso sistema cultural, além da noção de "natureza", a
noção de "indivíduo" é outro dos eixos ' críticos ' em torno dos quais gira a
discussão de uma antropologia do corpo.
Corpo e indivíduo são noções que caminham juntas na cultura ocidental moderna e
contemporânea. A noção atomizada do "indivíduo" como representação do "eu", na
sociedade ocidental moderna, valeu-se do corpo. Como lembra Le Breton (2001),
Durkheim, ao mencionar a necessidade de um "fator de individuação" na
constituição do "eu", afirma: "É o corpo que desempenha esse papel" (Durkheim,
1989, p. 331).
A noção de um "eu", socialmente identificado pela categoria "indivíduo",
delimitado por sua existência corporal, é uma aparição recente, mesmo na
história do mundo ocidental. Categoria social, historicamente constituída entre
os anseios modernos de liberdade e autonomia, o indivíduo contrapõe-se às
amarras do mundo tradicional, onde está submerso na coletividade. Assim,
segundo Dumont (1993), o indivíduo constitui-se em um valor.
Como sabemos, a partir do trabalho de Dumont, o triunfo da ideologia
individualista, que sustenta esta representação da pessoa, foi historicamente
expresso, no século XVIII, pela Revolução Francesa na Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão. Esse processo consolidou a noção moderna de corpo e de
pessoa, ancorando sua representação de si e seu lugar no mundo social.
A análise da noção de indivíduo, como categoria social, configurando um valor
da modernidade, está particularmente presente nos estudos antropológicos que
tomam como objeto a saúde mental, portanto a psiquiatria e os saberes
psicológicos em geral. Destaco a definição, elaborada por Russo, dos "três
sujeitos da psiquiatria", que marcam a tensão em torno do indivíduo moderno do
qual trata esse ramo da medicina: o sujeito biológico, "determinado por sua
natureza biológica"; o sujeito cidadão, "tolhido pelas injunções vindas da
sociedade (pela opressão sociopolítica)"; e o sujeito da singularidade,
"singularizado por seus conflitos intrapsiquicos" (1997, p. 1).
Assim, é nas tensões envolvidas na própria ideia moderna de sujeito/pessoa/
indivíduo que se pode igualmente localizar a doença, diante de uma cisão entre
corpo e pessoa que, embora corresponda à representação dominante da existência
corpórea no mundo ocidental, jamais pode eludir as ambiguidades, os conflitos e
as incertezas que a constituem.
A doença
Se a noção de corpo supõe a noção de pessoa, em qualquer sociedade, a concepção
de doença é tributária de ambas essas noções. Tal como a concepção de corpo, os
sistemas classificatórios das doenças articulam-se ao universo social que o
constrói e o exprime. São construções simbólicas.
Entre a enorme variedade de representações da doença, etnograficamente
conhecidas, envolvendo diversos modelos etiológicos e terapêuticos, é possível
distinguir, segundo Laplantine (1991), duas tendências, não necessariamente
excludentes: o modelo ontológico, que corresponde às medicinas centradas na
doença, baseadas em modelo fisicalista (está aqui pressuposta a ideia de um
"ser" da doença); e o modelo relacional ou dinâmico, que corresponde às
medicinas centradas no doente, baseadas em um modelo que considera a dinâmica
interna do organismo como um todo, em sua relação com o meio.
Considerando-se essa classificação, dentro da concepção de corpo predominante
na sociedade ocidental contemporânea ' que separa corpo e pessoa ', o modelo
que lhe corresponde é o ontológico. Em um corpo alheio ao sujeito, a doença lhe
é estranha, constituindo-se em entidade autônoma, que fala por si mesma. Assim,
outra episteme, distinta daquela na qual se funda e se sustenta a medicina
ocidental contemporânea (biomedicina), implica igualmente uma outra concepção
de pessoa, diversa em relação àquela que cindiu o ser humano entre corpo e
pessoa, autonomizando o corpo em corpo biológico, matéria a ser desvendada,
pela experimentação.
Canguilhem (2006) e Foucault (1977) estão entre os filósofos que mais
radicalmente fizeram a crítica da pretensão de objetividade do positivismo das
ciências biológicas. Para além da evidente afinidade entre ambos,11 Macherey
(1993) chama a atenção para as diferenças ' ou, mesmo, oposições' no ponto de
vista desses dois autores, relevantes para se pensar os caminhos possíveis de
seu diálogo com a antropologia a partir dos problemas que estão em jogo na
leitura paralela das duas obras: O normal e o patológico, cuja versão original
é de 1943, eO nascimento da clínica, de 1963. Ambas abordam a questão da
relação intrínseca da vida com a morte, ou a vinculação do ser vivo ao ser
mortal, tal como ele a vivencia a partir da experiência clínica da doença, mas
o fazem de formas diferentes. A diferença fundamental entre os dois reside
naquilo para o que cada olha.
Canguilhem fez a crítica da objetividade da biologia a partir da experiência
concreta do "ser vivo", abrindo, segundo Macherey, uma perspectiva
"fenomenológica" do jogo da vida, apreendido em sua dimensão biológica e no
qual se origina a normatividade essencial da vida. Canguilhem atribuía ao ser
humano um estado paradoxal (Roudinesco, 2007), o de ser permanentemente
atingido pela doença, que se inscrevia na normatividade da vida, polarizada
entre valores positivos e negativos. Foucault, por outro lado, fala de um
nascimento histórico, situado no desenvolvimento do processo social e político,
fazendo, então, uma "arqueologia" das normas médicas, vista do lado do médico
e, por trás dele, das instituições médicas, e não do doente. Canguilhem voltou
sua atenção para o doente que, para Macherey, é o "grande ausente" na obra de
Foucault. Para este, a doença está submetida ao "olhar médico", um olhar
normatizado e normatizador. Aqui, Foucault reproduz a análise do olhar
vigilante, controlador, absoluto, que persegue sua obra, tendo sua expressão
mais clara em Vigiar e punir.12
Assim, ainda segundo Macherey (1993), o conceito de experiência aparece em
ambos, mas com significados diferentes. Não se trata, para Foucault, de uma
experiência do ser vivo, mas uma experiência histórica, anônima e coletiva, de
onde surge a figura inteiramente desindividualizada da clínica. A experiência
clínica é construída como norma, que se dá numa estrutura triangular: de um
lado, está o doente ' objeto olhado, objeto do olhar ', de outro, o médico '
membro de um "corpo", o "corpo médico", reconhecido como aquele que tem a
competência para fazer-se sujeito desse olhar: o "olhar médico". A terceira
posição é a da instituição, que legitima socialmente a relação entre o objeto
do olhar e o sujeito que olha.
Para realizar essa forma histórica, a priori, que se antecipa à vivência
concreta da doença, negligencia-se não apenas o doente, mas também o próprio
médico. É essa a estruturação histórica que estabelece a relação entre o ser
vivo e o ser mortal. O cadáver aberto e exteriorizado pela dissecação revela a
verdade interior da doença, evidencia a relação do médico com o doente: não há
sujeitos que sofrem, há estruturas que levam ao sofrimento. Nas condições em
que se realiza a experiência clínica, a morte, e também a vida, deixam de ser
um "absoluto ontológico e existencial" e, ao mesmo tempo, adquirem uma dimensão
epistemológica: "por paradoxal que isso possa parecer, ela [a morte]'ilumina' a
vida" (Macherey, 1993, p. 291).
Para Canguilhem (2006), a experiência fundamental no conhecimento sobre a
doença é a do doente. O conceito central para sua análise é a de "ser vivo",
sujeito de uma experiência que o expõe, de maneira intermitente e permanente, à
possibilidade do sofrimento (Macherey, 1993). A doença, parte da vida, é um
modo de estar na vida. Ela exprime um outro modo de viver. Institui, portanto,
uma diferença: "Não existe fato que seja normal ou patológico em si. A anomalia
e a mutação não são, em si mesmas, patológicas. Elas exprimem outras formas de
vida possíveis" (Idem, p. 113).
E, assim, a ideia de cura remete a algo inexistente anteriormente à experiência
da doença, um novo estado fisiológico: "nenhuma cura é uma volta à inocência
biológica. Curar é criar para si novas formas de vida, às vezes superiores às
antigas. Há uma irreversibilidade da normatividade biológica" (Idem, p. 176).
Pode-se ver uma afinidade entre o pensamento de Canguilhem e pensamento
antropológico pelo lugar central assumido pelo problema da diferença em ambos.
Em Canguilhem, a problemática da diferença surge de seu olhar sobre a
experiência concreta do "ser vivo" ' que adoece ' para pensar sobre a doença,
que leva a dar ao doente um lugar fundamental no conhecimento da doença,
indissociando-os, perspectiva que inverte os termos do conhecimento e abre o
caminho para a crítica do etnocentrismo da biomedicina: não é a ciência que
informa a clínica, mas o inverso.
Zempléni (1994), ao dizer "que o objeto da etnomedicina ou da antropologia
médica, continua sendo a doença e não o doente", remete às possibilidades
analíticas abertas pela língua inglesa que distingue entre disease e illness,
ressaltada pela antropologia anglosaxônica, e lembra que essa distinção
recupera a que René Lériche, médico francês, estabeleceu, em 1936, de forma
pioneira no campo biomédico, entre a "doença do médico" e a "doença do doente"
(Lériche, 1936). Não sem razão, é por meio do estudo da dor, cujo conhecimento
não pode prescindir da experiência do doente, que Lériche chegou à relevância
do lugar do doente no saber sobre a doença. Dessa forma, é a Lériche que
Canguilhem presta tributo em seu estudo sobre o normal e o patológico, em
particular quando afirma: "Sempre se admitiu, e atualmente é uma realidade
incontestável, que a medicina existe porque há homens que se sentem doentes e
não porque existem médicos que os informam de suas doenças" (2006, p. 59).
A tarefa do antropólogo torna-se, assim, a de construir um conhecimento sobre
saúde e doença que não seja mero subsidiário da biomedicina, mas ao mesmo tempo
possa com ela relacionar-se, posto que, como cientistas sociais, não há como
ignorar o discurso no qual se assenta a concepção da sociedade ocidental sobre
aquilo que tomamos como objeto de reflexão ' base do cuidado de nossas próprias
dores, doenças e sofrimentos ', sob o risco de uma excessiva autorreferência,
postura defensiva que compromete não apenas o alcance social do empreendimento,
mas seu próprio valor heurístico.
Considerações finais
Para finalizar, gostaria de ressaltar o lugar da antropologia no estudo do
corpo, da saúde e da doença a partir do que a constitui como disciplina, no
interior do campo das ciências humanas. Pode-se recorrer a Foucault, quando o
autor atribui à antropologia (etnologia) ' ao lado da psicanálise ' um lugar
singular nesse campo, uma vez essa disciplina se constitui em um e por um
confronto: "a etnologia só assume suas dimensões próprias na soberania
histórica [...] do pensamento europeu e da relação que o pode confrontar com
todas as outras culturas e com ele próprio" (1992, p. 394).
Ao argumentar que a antropologia, como a psicanálise, interroga "não o próprio
homem, tal como pode aparecer nas ciências humanas, mas a região que torna
possível, em geral, um saber sobre o homem", Foucault atribui aquilo que a
distingue por "alojar-se no interior da relação singular que a razão ocidental
estabelece com as outras culturas", não ocidentais, e, a partir daí, traçar "o
contorno das representações que os homens, numa civilização, podem dar de si
mesmos" (Idem, p. 395). É, assim, na tensão constitutiva desse estar dentro e
simultaneamente enfrentar-se com o estar fora da racionalidade ocidental ' na
qual a biomedicina se fundamenta e se sustenta ', numa relação de alteridade,
que a antropologia se move no campo científico que estuda o corpo, a saúde e a
doença. Tensão que é tributária do fato de que, se a antropologia nasceu sob a
égide do pensamento universalista ocidental, é ela a crítica do etnocentrismo e
do racionalismo implícitos neste pensamento.
No enfrentamento do caráter fundante e inelutável dessa tensão ' um movimento
permanente entre o dentro e o fora ', está a possibilidade de a antropologia
dar sua contribuição efetiva aos estudos do corpo e da doença, constituindo-se
em referência alternativa à racionalidade biomédica, mas desde que se mantenha
em constante vigilância. A força avassaladora do discurso biomédico sobre as
concepções e as práticas que envolvem o corpo, a saúde e a doença em nossa
sociedade não pode eludir a responsabilidade do antropólogo da saúde diante do
fato de que ele faz, acima de tudo, antropologia e se pauta por suas
referências epistemológicas e pelos debates que a animam, o que o situa, dentro
do campo da saúde, por definição, num lugar de resistência.
Notas
1 No caso da antropologia, essa expansão reflete-se em sua
significativa presença nos debates em congressos da área (Reunião
Anual da Anpocs, Reunião Brasileira de Antropologia e Reunião de
Antropologia do Mercosul, entre outros).
2 Para a discussão da biomedicina (ou racionalidade biomédica), como
a referência cultural que informa as concepções e as práticas de
saúde e a noção de doença no mundo ocidental contemporâneo, ver
Camargo Jr. (1997, 2003).
3 O que pode ser observado, por exemplo, na definição de critérios de
avaliação da produção científica dos pesquisadores, na pesquisa e na
pós-graduação da área da saúde, que obedecem estritamente à lógica
das ciências biológicas, desconsiderando a natureza distinta da
produção do conhecimento nas ciências humanas. Sejam cientistas das
áreas biológicas ou humanas, de todos é exigida a publicação nas
revistas científicas avaliadas segundo critérios biomédicos, sem
qualquer abertura para o reconhecimento da diferença, o que coloca os
pesquisadores da área de ciências humanas numa posição estrutural de
desvantagem relativa, com os problemas que daí decorrem no que diz
respeito, sobretudo, ao acesso a recursos para pesquisa.
4 No entanto, apesar de esses autores se (auto)situarem no campo da
antropologia médica, muito do que caracterizou essa vertente, tal
como aqui descrito, não necessariamente se aplica in totum ao
trabalho isolado desses autores, em particular as importantes
contribuições de Arthur Kleinman e Margareth Lock. Uma análise mais
detalhada dessa tendência implicaria considerar os contextos sociais
e institucionais específicos de constituição do campo, além do perfil
de seus pesquisadores, o que não é o escopo deste ensaio, mais
panorâmico.
5 No que se refere às publicações, as revistas que veiculam artigos
da área de antropologia na perspectiva da "antropologia médica" se
encontram prioritariamente entre aquelas da área da saúde, em
particular da saúde pública.
6 No original: "Chacun de nous est trop solidaire du discours médical
pour ne pas en épouser d'avance les raisons" (p. 27).
7 Se a dissecação de cadáveres cinde o humano no século XVII, no
século XIX vem redefinir a relação com a morte. É interessante
mencionar, aqui, "as mais belas páginas", segundo Roudinesco (2007),
do livro de Foucault (1977), Abram alguns cadáveres, no qual ele fala
de Bichat ' cirurgião que, no começo do século XIX, inventou, com
seus estudos de anatomia patológica ' nos quais abria cadáveres ',
uma nova relação entre vida, doença e morte. A morte deixa de ser um
absoluto, é retirada do domínio da religião pela ciência. A passagem
da vida para a morte passa a ser vista a partir de processos
fisiológicos e patológicos inscritos nos próprios organismos vivos.
"Em lugar de permanecer o que tinha sido durante tanto tempo, noite
em que a vida se apaga e em que a própria doença se confunde, ela [a
morte] é dotada, de agora em diante, do grande poder de iluminação
que domina e desvela tanto o espaço do organismo quanto o tempo da
doença" (Foucault, 1977. p. 165).
8 No original: "Le corps est associé à l'avoir et non plus à l'être"
(p. 47).
9 Paul Broca, cirurgião e antropólogo francês (1824-1880), estudioso
do cérebro e das funções da linguagem.
10 No original: "nous sommes droitiers de la main, parce que nous
sommes gauchers du cerveau" (p. 81).
11 Afinidade à qual se refere Roudinesco (2007, p. 44), em seu
trabalho sobre os filósofos franceses da segunda metade do século XX.
Canguilhem foi o orientador da tese de doutorado em filosofia de
Foucault (Loucura e desrazão: história da loucura na idade clássica).
12 É interessante observar o comentário de Richard Sennett em Carne e
pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental (1997), numa parte
da introdução ao livro que denominou "Uma nota pessoal", na qual fala
da influência de seu amigo Foucault nessa obra, que foi iniciada
junto com ele, mas mudou de direção, depois de sua morte. Afirma o
autor: "Numa de suas obras mais conhecidas ' Vigiar e punir '
Foucault imaginou o corpo humano asfixiado pelo nó do poder. À medida
que seu próprio corpo enfraquecia, ele procurou desfazer esse nó; no
terceiro volume da sua História da sexualidade, e ainda mais em notas
elaboradas para os tomos que não viveu para completar, Michel
Foucault explorou os prazeres corporais que não se deixam aprisionar
pela sociedade. Sua paranoia sobre controles, tão marcante em toda
sua vida, abandonou-o quando começou a morrer" (p. 25).