Ditadura militar, tortura e história: a "vitória simbólica" dos vencidos
Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir hostilidades tais que
tornem impossível a confiança recíproca na paz futura.
KANT, À paz perpétua.
1
Estivemos durante muito tempo acostumados a uma concepção da guerra que remonta
à longínqua Paz de Westfália (1648), quando os Estados europeus, exangues pelo
morticínio da Guerra de Trinta Anos, estabeleceram o princípio da soberania e a
moldura dentro da qual as relações internacionais - inclusive as relações
belicosas - daí em diante se dariam. A visão que daí exsurge é a da guerra como
um evento envolvendo gloriosas batalhas em que dois exércitos claramente
identificados e regidos por um código de conduta - o que incluía o respeito aos
vencidos - se batiam frente a frente. É sobre esse mundo que teorizou
Clausewitz, autor da célebre definição da "guerra como continuação da
política". Ela chegava a incluir uma imagem de "matadouro" que era ao mesmo
tempo um exemplo supremo de coragem e disciplina: soldados "em fileiras para
serem abatidos" (Keegan, 1995, p. 26) - mostrada, aliás, no lindo e melancólico
Barry Lyndon de Stanley Kubrick. A imagem, mesmo tendo alguma correspondência
com a realidade, tem também um lado enganador não negligenciável. Era comum,
por exemplo, os exércitos regulares recrutarem soldados mercenários para
diversas tarefas da guerra não cobertas pelo código de honra, e que permaneciam
no terreno da selvageria pura e simples:
Seus patrões civilizados decidiram cobrir com um véu seus hábitos de
saquear, pilhar, estuprar, assassinar, raptar, extorquir e
sistematicamente vandalizar. Preferiam não admitir que se tratava de
uma forma de guerrear mais antiga e mais disseminada que aquela que
praticavam (Keegan, 1975, p. 22).
Por isso a definição do general William Sherman, um dos vencedores da Guerra de
Secessão americana, responsável pelo incêndio de Atlanta - também mostrado num
outro filme célebre E o Ventou Levou -, é certamente mais condizente com a
realidade do que a do nobre alemão: "A guerra é o inferno" (Apud Keegan, 1975,
p. 22).
Como quer que seja, tudo isso ruiu no finado século XX, o mais mortífero da
história. A mecanização dos exércitos e o uso de novos explosivos tornaram o
poder de fogo mais destruidor, e a adaptação de uma invenção recente, o avião,
para fins militares, levou o "inferno" para as populações civis, daí em diante
vítimas desamparadas de bombardeios que vinham do alto, num processo que teve
seu paroxismo nas bombas de Hiroshima e Nagasaki e hoje prossegue nas guerras
monitoradas por satélite. Com isso operou-se uma mutação fundamental no
fenômeno da guerra: as "hostilidades tais" de que falava Kant, que destroem a
confiança recíproca, não eram mais subprodutos talvez inevitáveis, mas de todo
modo indesejáveis da guerra, na medida em que passaram a integrar os
procedimentos "normais" dos confrontos armados. Ao lado disso, outra novidade
que a vigésima centúria trouxe consigo é igualmente danosa para o
restabelecimento, uma vez findas as hostilidades, da "paz futura" reclamada
pelo filósofo alemão: o retorno da tortura no seio mesmo da civilização
europeia, tão ciosa do seu humanismo e das declarações de direitos do homem. É
nesse novo contexto que adquire todo o sentido uma frase brilhante cuja autoria
desconheço: "Existem guerras justas, mas não existem guerras limpas".1
Os historiadores são de um modo geral unânimes em relação a esse ponto: entre
fins do século XVIII - cujo ápice crispado foi a Revolução Francesa - e o
aparecimento dos Estados totalitários depois da Primeira Guerra Mundial, a
tortura tinha praticamente cessado de existir na Europa - ao menos na sua
porção ocidental, submetida à influência política e cultural do vasto movimento
a que damos o nome genérico de Iluminismo.2 Claro que essa verdade histórica
deve ser nuançada. Assim, em ocasiões insurrecionais - Guerra da Vendéia,
Comuna de Paris etc. -, a repressão exemplar que se seguiu a esses movimentos
foi acompanhada de represálias terríveis contra os vencidos. As atrocidades
anti-insurrecionais, entendidas como atos muitas vezes gratuitos de crueldade
praticados pelos vencedores, pertencem a todos os tempos e a todas as
latitudes. O que efetivamente desapareceu, de um modo geral, foram atrocidades
como procedimentos "ordinários" de sustentação de um regime político. O exemplo
mais eloquente do desaparecimento da tortura nesse sentido durante mais de um
século é fornecido pelo acontecimento maior do Iluminismo: a Revolução
Francesa. Esta, como se sabe, cortou muitas cabeças, mas não torturou,
estabelecendo uma efetiva ruptura com as práticas judiciárias do Ancien Régime.
Para ver isso, consideremos um exemplo expressivo. Em 1757, em Paris, trinta e
poucos anos antes da Revolução, a população da cidade acotovelava-se na Praça
da Grève para assistir ao célebre suplício de Damiens, um quase débil mental
que feriu levemente o rei Louis XV com um canivete. Damiens sofreu durante duas
horas inenarráveis padecimentos até ser esquartejado, ainda vivo, por quatro
cavalos. O suplício, com todos os detalhes, está relatado logo na abertura do
livro Vigiar e punir, de Michel Foucault. Contrastando com isso, considere-se o
tratamento apesar de tudo civilizado a que teve direito Charlotte Corday em
1793, ano do auge do Terror revolucionário, guilhotinada por ter assassinado
Marat, um dos líderes mais populares da Revolução. Os investigadores
encarregados do caso tinham tudo para acreditar na hipótese de um complô mais
vasto, estando, portanto, confrontados com a necessidade de obter de Charlotte
Corday os nomes dos possíveis cúmplices. No entanto, não se tocou sequer num
fio de cabelo da acusada. A similitude das duas situações só torna ainda mais
surpreendente a diferença de tratamento que um e outra tiveram de suportar.3
Mas a volta da tortura pôs em xeque o que Edward Peters chama de "modelo
progressista-humanitário", durante muito tempo implicitamente adotado pelos
historiadores do direito para explicar o seu desaparecimento em termos de um
progresso do espírito humano exprimindo-se através da palavra dos grandes
reformadores penais da época do Iluminismo, notadamente Beccaria e Voltaire
(Peters, 1985, p. 77). Uma das explicações recorrentes para o seu retorno
residiria numa outra importante mutação que se operou no fenômeno da guerra: às
escaramuças entre inimigos fardados e como tal identificados somaram-se
acontecimentos tipicamente modernos como as "guerras revolucionárias" e as
"guerras de libertação nacional", nas quais os insurgentes adotam o terrorismo
como uma das formas de luta e onde o aparato de repressão se vê desafiado por
um "inimigo interno" escondido no seio da população que é preciso a todo custo
descobrir. Nessas circunstâncias, torturar para obter informações voltou a ser
uma opção tentadora. E as grandes democracias ocidentais, as mesmas que
promoveram o Julgamento de Nuremberg, caíram nos anos seguintes à Segunda
Guerra Mundial, uma a uma, na mesma tentação de empregar métodos pelos quais
condenaram os vencidos da véspera: os franceses na Indochina e na Argélia, os
ingleses na Irlanda do Norte, os norte-americanos no Vietnã, e assim por
diante.
As democracias se vêem, assim, às voltas com um dilema crucial: adotar métodos
cujos princípios condenam, igualando-se aos adversários. Diante disso, o uso de
certos métodos é capaz de produzir resultados inesperados e não desejados pelos
que os adotam - uma espécie de "contraeficácia", em suma.4 É o caso da tortura.
Forma extremada de violência, ela volta a interpelar as sociedades democráticas
nesse início do século XXI, quando os Estados Unidos, na esteira dos atentados
do 11 de Setembro, adotaram-na e chegaram a oficializá-la, mesmo que em
documentos "reservados" e camuflada por eufemismos. James Olson, espião
aposentado da CIA, afirmou: "ninguém pode ter feito o tipo de carreira que fiz
sem algum tipo de questionamento" (James Olson, 2006, p. 13). Qual? A questão
da tortura é provavelmente um deles. Citando Alan Dershowitz, autor do livro
que deu o que falar - Why terrorism works -, Olson lembra que a tortura de
terroristas pode ser moralmente justificada em alguns "casos de 'bomba-
relógio'" ("ticking bomb" cases) (Idem, p. 65), visando salvar vidas. No
contexto traumático que se seguiu à derrubada das Torres Gêmeas, essas questões
deixaram o âmbito restrito dos especialistas e afloraram no debate público.
Em 2005 uma matéria do The New York Times noticiava que um "parecer secreto" do
Departamento de Justiça dos Estados Unidos tinha permitido a prática de tortura
física e psicológica contra suspeitos de terrorismo, inclusive simulação de
afogamentos. À época, era titular do Departamento Alberto Gonzales, autor de um
memorando, também vazado para a imprensa, autorizando o uso de técnicas de
interrogatório "duras" contra suspeitos de terrorismo. O memorando rejeitava o
qualificativo de tortura para tais técnicas, pois elas seriam dosadas para não
causar mal excessivo ao interrogado. Segundo Gonzales, "a tortura contra um
suspeito em interrogatório só se configura quando a dor que causa é decorrente
de danos permanentes à integridade física do acusado" (Veja, 5.9.2007).
Instruções como a do secretário Gonzales repercutem posições como a do já
citado Alan Dershowitz, advogado e professor de direito na prestigiosa
Universidade de Harvard. Em 2003 Dershowitz meteu-se numa polêmica por ter
supostamente defendido a tortura: "Distorceram minhas palavras. Nunca defendi a
tortura. Sou contra a tortura". Na sequência da sua argumentação, entretanto -
como tantos outros antes e depois dele -, ele se rende aos fatos e passa a uma
defesa transversa da sua prática:
A tortura está sendo utilizada por nossas autoridades, e elas não dão
sinais de que estejam dispostas a parar com essa prática. Então, que
se estabeleçam regras democráticas para o uso da coerção física nos
interrogatórios de acusados de terrorismo (Veja, 17.9.2003).
Lembra o caso francês na Argélia, em que chegou a haver a recomendação, feita
num relatório de um funcionário de alto escalão, Roger Wuillaume, de
regulamentar a tortura. Merecem ser transcritos alguns trechos do seu informe:
É preciso ter a coragem de tomar uma posição sobre esse delicado
problema. Com efeito, ou nos confinamos na atitude hipócrita que
prevaleceu até o presente, e que consiste em querer ignorar o que
fazem os policiais, desde que não haja marcas ou que não se possa
fazer a prova das sevícias empregadas [...], ou então assumimos a
atitude falsamente indignada daquele que pretende ter sido enganado,
jogamos o anátema sobre a polícia, proibimos-lhe qualquer outro
procedimento que não seja o interrogatório correto e a lançamos na
confusão, ao mesmo tempo em que a paralisamos.
Para escapar desse dilema, o funcionário propõe uma solução baseada no savoir-
faire dos próprios torturadores:
O procedimento da mangueira d'água e da eletricidade, desde que
utilizados com precaução, produziriam uma comoção muito mais
psicológica do que física, sendo portanto excludentes de qualquer
crueldade excessiva. O método, no caso da mangueira, consistiria em
introduzir água na boca apenas até a asfixia, evitando-se o desmaio
ou a ingestão; quanto à eletricidade, tratar-se-ia unicamente de
descargas rápidas e múltiplas praticadas sobre o corpo, à maneira de
pequenos choques (apud Vidal-Naquet, 1972, pp. 32-33, trad. livre).
A recomendação de Roger Wuillaume, destinada a uma circulação "confidencial",
foi rechaçada pelo governo do então presidente francês Guy Mollet. Enquanto
isso, nos porões, continuou-se a torturar. Esse costuma ser um dos traços
marcantes que caracterizam o uso da tortura no mundo moderno: sua
"indizibilidade".5 Nesse domínio, a dissimulação é de regra, abrangendo desde
eufemismos como "pressão física moderada", aceita nos anos de 1990 pela Corte
Suprema israelense (Veja, 27.11.96), até o sinal verde do secretário norte-
americano de Justiça, Roberto Gonzales, dado sob a forma de um "parecer
secreto". Mas mesmo aí, como vimos, ele não admite tratar-se de tortura, pois
seriam evitados "danos permanentes" nos interrogados!
Uma das raras exceções ao princípio geral do não reconhecimento público da
tortura vem justamente de um dos personagens mais importantes da guerra da
Argélia, o general Massu. Em 1971, mais de dez anos depois dos acontecimentos,
Massu, assumindo não ter "medo da palavra", interroga-se: "À questão: 'houve de
fato tortura?' eu só posso responder pela afirmativa, ainda que ela não tenha
sido institucionalizada nem codificada". Explica:
Tratava-se de obter uma informação operacional urgente, da qual
dependia a vida de seres inocentes [...]. Então, na prática, se para
obrigar a 'entregar o serviço' era preciso 'bater um pouquinho', os
investigadores eram levados a aplicar nos acusados dores físicas cuja
violência era graduada para se chegar à confissão (Massu, 1971, pp.
165-167, trad. livre).
2
Com raríssimas exceções, nunca se viu tal franqueza por parte dos militares
brasileiros que conduziram a "guerra suja" entre 1969 e 1976. Antes de seguir,
entretanto, convém abrir um breve parêntese histórico a fim de evitar a
equivocada impressão de que a tortura foi inventada pelo regime de 1964. Na
verdade o aparato de repressão erigido a partir de 1964 e consolidado em
dezembro de 1968, com seu cortejo de prisões arbitrárias, torturas e
desaparecimentos, não foi uma invenção ex nihilo do regime militar. A tortura
no Brasil contra presos comuns sempre fez parte da nossa história de "longa
duração", por assim dizer. O "pau-de-arara", o método de tortura por excelência
adotado nos porões da ditadura - tão característico daqueles anos a ponto de
ter se tornado símbolo do movimento Tortura Nunca Mais - , já era utilizado de
forma rudimentar pelos senhores de escravos para imobilizá-los, como se pode
ver em gravuras de Debret feitas "no tempo do rei". É interessante observar que
o torturador emblemático dos anos de chumbo, aquele que em certo momento se
tornou símbolo dos seus horrores, foi um civil, o delegado Sérgio Fleury da
polícia de São Paulo.
O que de novo ocorre a partir de 1964, sobretudo depois de dezembro de 1968 com
o AI-5, é que o delegado Fleury é convocado para aplicar sua expertise em
presos políticos e a tortura passa a atingir segmentos da população antes
protegidos por imunidades sociais: estudantes, jornalistas, advogados etc. Não
era a primeira vez que tais métodos saíam do seu habitat - as cadeias comuns -
e eram empregados com um desígnio político. A crônica dos atentados aos
direitos humanos no Brasil do século XX está repleta de acontecimentos desse
gênero. Assim a imprensa operária das primeiras décadas do século fala de
violências e maus tratos aplicados aos militantes do nascente movimento
operário.6 Da mesma forma, durante a ditadura de Vargas fenômeno semelhante já
havia ocorrido, porém de forma minoritária, pois a maioria dos perseguidos era
de comunistas das classes populares: operários, pequenos comerciantes,
funcionários subalternos etc. Durante o regime militar, a proporção se inverte:
mais da metade dos presos a partir de 1968 são estudantes universitários ou
detentores de um diploma de nível superior, segundo dados do Brasil nunca mais
sobre a ocupação dos condenados pela justiça militar: quase 56% pertencia
àquele perfil (Arquidiocese de São Paulo, 1988, p. 11). Entre as duas
ditaduras, a tortura política desaparece. Duas décadas mais tarde, porém, ela
estará de volta. E isso fará a diferença para a história que se seguiu e a que
voltamos, retomando a questão da "indizibilidade" da tortura por parte de quem
a praticou.
O coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi de São Paulo no início dos
anos de 1970, também escreveu um livro de memórias depois que, em 1985, foi
reconhecido pela então deputada federal Bete Mendes numa cerimônia pública como
um dos seus torturadores. Escreveu-o, como ele mesmo diz, "em respeito a mim
mesmo, no momento em que sou caluniado, achincalhado, vilipendiado, chamado de
monstro e comparado com os assassinos nazistas que horrorizaram a humanidade"
(Ustra, 1987, p. 15). O livro ilustra à perfeição o não dito aqui analisado. No
capítulo chamado "Guerra é guerra", tem-se a impressão de que ele vai tudo
dizer, ao argumentar logo no primeiro parágrafo: "É necessário explicar [...]
que não se consegue combater o terrorismo amparado nas leis normais, eficientes
para um cidadão comum. Os terroristas não eram cidadãos comuns" (Idem, p. 157).
Pois bem: e como eram então tratados esses cidadãos incomuns? O relato de Ustra
sobre o que acontecia durante o "interrogatório" chega a ser um achado de humor
involuntário: "Os presos, ao serem interrogados, iam 'entregando', isto é, iam
contando tudo a respeito de suas organizações" (Idem, p.73).
Já na década de 1990, no âmbito de um projeto do Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio
Vargas, doze oficiais superiores aceitaram falar sobre aqueles anos e sobre o
envolvimento das forças armadas na repressão política. O padrão de discrição,
quando não de simples negação da tortura, mantém-se. De todos eles, apenas um,
o general Adyr Fiúza de Castro, não apenas admite como até defende a prática
com certo entusiasmo:
Guerra é guerra. [...] Agora, não sou um homem mau, não me considero
um homem mau. Mas não sou contra a tortura. Acho que ela é válida em
certas circunstâncias - para adquirir informações. [...] E todo mundo
acha. Desde os esquimós até a China, todo mundo usa, quando
necessário.7
Entre os demais, apenas dois baixam a guarda em algum momento. O general José
Luiz Coelho Netto, chega a roçar a verdade, quando admite que podem ter havido
"uns encontrões ou uns cascudos", para se recompor logo em seguida: "Mas isso
não é tortura. Tortura é outra coisa. Nunca houve tortura. Nunca houve". O
general Leônidas Pires Gonçalves, que foi ministro do Exército no governo José
Sarney também admite que ocorreram episódios de tortura, mas os atribui à
iniciativa local e pessoal de um ou outro brutamonte: "Houve tortura? Houve.
Mas quem pode controlar uma pessoa na ponta de linha que não teve uma educação
moral perfeita, e de origens as mais variadas?". E é peremptório quanto à
inocência dos altos escalões: "Agora, uma coisa eu tenho assegurado e asseguro
historicamente: nunca foi política, nem ordem, nem norma torturar ninguém"
(Idem, pp. 238 e 249). Por fim, ouvido no mesmo projeto do CPDOC, o ex-
presidente Geisel reconhece, com sua circunspecção habitual, que houve, sim,
tortura, e até defende o seu uso, num tom próximo ao do general francês:
Eu acho que houve. Não todo o tempo. [...] Acho que a tortura em
certos casos torna-se necessária, para obter confissões. [...] Não
justifico a tortura, mas reconheço que há circunstâncias em que o
indivíduo é impelido a praticar a tortura, para obter determinadas
confissões e, assim, evitar um mal maior!.8
Certificado com uma chancela mais alta do que esta, impossível. De toda forma,
qualquer dúvida que um ou outro espírito crédulo ainda pudesse ter sobre a
tortura como política de Estado no Brasil, naqueles anos, desmoronou em 1995,
quando, aparentemente por um deslize da burocracia, um documento "confidencial"
do Gabinete do Ministro do Exército que estava no Departamento de Ordem
Política e Social (Dops) do Paraná, extinto em 1983, foi parar no Arquivo
Público daquele estado e ficou disponível para o público. Descoberto pela
professora de história Derlei Catarina de Luca, o documento, intitulado
Interrogatório, é estonteante. Assume de saída que
[...] o objetivo de um interrogatório de subversivos não é fornecer
dados para a Justiça Criminal processá-los; seu objetivo real é obter
o máximo possível de informações. Para conseguir isso, será
necessário, frequentemente, recorrer a métodos de interrogatório que,
legalmente, constituem violência (Ministério do Exército, 1971, p.
18, grifos meus).
Quatro páginas adiante, entretanto, seu redator, num exercício de
contorcionismo inacreditável, escreve com todas as letras: "Ainda que algumas
das técnicas constituam violência perante a lei, nenhuma delas envolve torturas
ou tratamento inadequado" (Idem, p. 22, grifos meus). Mais do que isso, o autor
do documento está plenamente consciente dos efeitos deletérios que a prática da
tortura - ou, na sua linguagem esquizóide, "o emprego de violência
indiscriminada em interrogatório" - acarreta para aquele mesmo que a emprega,
alertando para algumas consequências negativas do seu uso, como "grande
desgaste político internacional", "certo alheamento do povo, por vergonha, medo
ou até nojo" etc. E chega a reconhecer - credite-se-lhe isso! -, entre esses
efeitos deletérios, "injustiças clamorosas e irreparáveis" (Idem, pp. 37-38). O
embaraço, tão comum nesses casos, lembra o problema da quadratura do círculo:
impossível resolvê-lo - e a única saída para quem se veja obrigado a enfrentá-
lo é assumir que o círculo não pode ser quadrado! As Forças Armadas brasileiras
nunca o fizeram, mesmo quando resolveram, em 1985, contar o seu lado da
história num projeto urdido pelo ministro do Exército do primeiro governo
civil, general Leônidas Pires Gonçalves, a que foi dado o nome exótico de Orvil
- a palavra "livro" ao contrário.9
O "livro" em questão é Brasil: nunca mais, inquestionável dossiê sobre a
tortura praticada nos porões do regime com base em dados existentes nos
próprios inquéritos feitos pelos militares, fruto de um ousado projeto
capitaneado por dois renomados religiosos: o cardeal católico Dom Evaristo Arns
e o pastor presbiteriano Jaime Wright - ele próprio irmão de um desaparecido
político, Paulo Wright.10 Foi um grande sucesso editorial no ano em que, pela
primeira vez desde 1964, um civil assumiu a presidência da república, e desde
então tornou-se referência obrigatória sobre o assunto. O Orvil tinha a
intenção de contrapor-se ao que os militares sempre consideraram uma atitude
inadmissível dos seus críticos: a parcialidade. Informa Lucas Figueiredo:
[...] uma das prioridades da gestão do novo ministro [do Exército]
era proteger os homens que, segundo suas palavras, haviam colocado "a
própria vida em risco no combate ao terrorismo e à subversão" -
homens que agora o Brasil: Nunca Mais apontava como bestas-feras.
Ainda tentando domar a crise que desabou sobre as Forças Armadas,
Leônidas teve uma ideia: se a Arquidiocese de São Paulo podia fazer a
exumação do regime militar, por que então o Exército não fazia o
mesmo com aqueles a quem a Arquidiocese defendia? Afinal, será que só
um lado tinha pecados a esconder naquela história? (Figueiredo, 2009,
pp. 68-69).
Certamente não. O "outro lado" tem também feitos que os próprios autores
preferem não lembrar. Afinal, é fato que as ações violentas da esquerda armada
"resultaram na morte de aproximadamente cem pessoas" (Idem, p. 71). Aí se
inclui, é verdade, a execução do dinamarquês naturalizado brasileiro Henning
Albert Boilesen, presidente da Ultragás, conhecido por arrecadar nos meios
empresariais paulistas dinheiro para alimentar a Operação Bandeirantes (Oban) -
precursora dos futuros DOI-Codis - e por suas incursões nos porões da
repressão, "onde era recebido como gente da casa". Boilesen não era exatamente
um inocente. Mas culpa nenhuma tinha o recruta Mário Kosel Filho, de 18 anos de
idade, que simplesmente estava de sentinela num quartel no Ibirapuera, em São
Paulo, contra o qual militantes da VPR jogaram uma camionete cheia de
explosivos. Kosel Filho foi estraçalhado (Idem, p. 110). Apesar disso, há uma
espécie de senso comum crítico do regime militar que prefere ignorar os matizes
que compõem o quadro turvo daquela época. Mas o horror das câmaras de tortura
não autoriza que se ignore essa parte da história. É verdade que a esquerda
brasileira - já há bastante tempo, aliás - fez seu mea culpa em relação à luta
armada e às ações que lhe eram inerentes: assaltos a bancos, sequestros,
atentados a bomba etc.11 Mas é também verdade que, no tocante a ações
especificamente condenáveis, a autoria continua não sendo reivindicada por
ninguém. Houve pelo menos três casos de "justiçamento" particularmente odiosos
pelas razões que os motivaram: as vítimas, presas e submetidas à tortura,
"entregaram" companheiros que foram mortos.12 Essa é a matéria-prima de Orvil.
É lógico que não seria razoável esperar que seus redatores viessem reivindicar
as barbaridades cometidas nos porões e dar os nomes dos torturadores que as
praticaram - de resto, coisas já bastante conhecidas. Seria razoável esperar,
porém, que, pretendendo trazer à luz o que o livro Brasil: nunca mais teria
negligenciado, o fizesse com o rigor e a objetividade exigíveis num repto como
esse - até como forma de dar credibilidade à "versão de quem ganhou a guerra,
uma versão incrivelmente pouco difundida", como lembra Figueiredo (2009, p.
130). Mas isso não ocorre. Remoendo rancores e paranóias, o Orvil entrega-se
aos delírios que caracterizam a negação sistemática das Forças Armadas
brasileiras sobre o sistema de tortura montado no país e a prática dos
desaparecimentos que, pelo menos em alguns momentos e contextos, foi
sistemática. Chega a ser incrível que, depois da enxurrada de fatos sobejamente
conhecidos sobre o que acontecia nos porões do regime, um livro que pretendia
resgatar o que os militares consideram uma história escamoteada viesse
reafirmar que as denúncias de tortura tinham como motivação "atender a
vaidades" ou fazer "propaganda adversa, buscando denegrir, aos olhos da
população brasileira e do mundo, os órgãos de segurança do país"; que, durante
os interrogatórios, o prisioneiro era pura e simplesmente "pressionado
insistentemente"; que não há "desaparecidos", porque todos "os subversivos
presos", dados como tal, "permaneceram vivos e foram postos em liberdade"
[sic!] (Figueiredo, 2009, pp. 104 e 115). Com isso, as Forças Armadas
brasileiras puseram a perder a oportunidade de terem o seu lado da história
levado a sério por tantos quantos, sem espírito sectário, se debrucem sobre o
período com a intenção de realmente compreender o papel que elas desempenharam.
O livro, nesse sentido, é apenas mais uma confirmação de que, no mundo moderno,
a tortura é uma ação que cobre de vergonha aquele que a emprega.
3
Essa discrição envergonhada que de um modo geral recobre a sua prática
significa que mesmo os torturadores têm consciência de que seus atos vão além
do que certa sensibilidade moderna aceita como os limites da "guerra entre
civilizados". Até o general Massu adverte seus leitores de que a tortura é "um
métier moralmente perigoso" (Massu, 1971, p. 166). No Brasil, passados 25 anos
da posse de um civil na presidência da república em 1985, a questão da tortura
continua irrompendo episodicamente na vida política do país, como aconteceu
logo após a edição do III Plano Nacional de Direitos Humanos, quando a previsão
de se apurar os crimes cometidos pelos torturadores e esclarecer o destino dos
desaparecidos provocou toda a celeuma conhecida. Ao que tudo indica, nunca
haverá punição de tais crimes - pelos menos no sentido penal do termo. Uma
punição simbólica já aconteceu.
A Lei de Segurança Nacional dos militares continha um dispositivo que
considerava crime a "guerra psicológica adversa", frequentemente ridicularizado
pelos críticos do regime por causa do pleonasmo contido na expressão: afinal,
toda guerra é adversa! Pois eis que os militares, ao cabo do seu regime,
perderam a "guerra psicológica" que lhe moveram os derrotados, massacrados nas
câmaras de tortura. A "guerra suja" que se deu no Brasil e na América Latina
nos anos de 1960 e 1970 mostrou que os vencidos podem ter a última palavra,
quando os vencedores ganham a guerra valendo-se de métodos que cobrem de
vergonha aqueles que os empregam, perdendo com isso os louros da glória e a
legitimidade para narrar seus feitos. Com efeito, depois de ter se tornado uma
política de Estado e de ter vitimado milhares de pessoas, a tortura dos
militares brasileiros tornou-se uma realidade em si mesma e, como tal, gerou
efeitos não previstos, não controlados e, sobretudo, não desejados pelos
próprios vencedores da "guerra suja": o seu opróbrio! Este é um fato
sociológico a não ser negligenciado e que merece ser longamente meditado: no
Brasil, como na América Latina de um modo geral, ocorreu este fenômeno no
mínimo curioso da vitória, ao menos simbólica, dos vencidos. Nenhum torturador,
afinal, tem estátua com a célebre menção "A Pátria agradecida". No Chile, o
general Pinochet teve sua plácida velhice octogenária envenenada pela
possibilidade - remota, é verdade - de um dia ser preso. Em todo caso, morreu
cercado de processos judiciais e enfrentando uma condenação moral que, no seu
caso - e a despeito da existência, no próprio Chile, de pinochetistas saudosos
dos velhos tempos -, foi praticamente mundial. Na Argentina, grandes
dignitários de uma das ditaduras mais sanguinárias de que se tem notícia estão
sob custódia da justiça - inclusive o general Jorge Videla, que passou cerca de
dez anos cumprindo prisão domiciliar e, mais recentemente, foi transferido para
um cárcere militar, por decisão de um juiz federal (El País, 11.10.2008).
No Brasil, é verdade, não se viu nada parecido. Várias circunstâncias não
possibilitaram um processo criminal dos torturadores e seus mandantes. A
recente decisão do STF, votada em maio de 2010, no sentido de não se mexer na
Lei de Anistia pela folgada maioria de 7 votos a 2, parece pôr uma pedra
definitiva na questão da responsabilidade penal dos torturadores do regime
militar. Nem por isso, entretanto, pode-se afirmar que eles permaneceram
completamente impunes. Além das penas morais, houve uma espécie de justiça no
processo lento e claudicante mas que, com idas e vindas, terminou se impondo: o
isolamento paulatino dos oficiais diretamente envolvidos na repressão política,
afastados de postos de confiança e discretamente preteridos em promoções por
merecimento. De tal forma que, em 1995, quando o presidente Fernando Henrique
Cardoso assinou o projeto de lei reconhecendo e assumindo, em nome do Estado
brasileiro, "a responsabilidade das transgressões cometidas à lei e aos
direitos humanos" durante o regime militar, a "linha-dura" das três forças
militares estava "na reserva ou sem a mínima condição de alcançar o generalato
ou mesmo o último degrau dos oficiais superiores" - o que tornou pífio e sem
maiores repercussões o protesto de algumas vozes que nos quartéis se ergueram
contra o projeto (IstoÉ, 6.9.1995). A avaliação dos militares é a de que,
vencedores no plano das armas, "foram derrotados na luta pela memória histórica
do período." Para eles, teria ocorrido "uma situação peculiar em que o vencido
tornou-se o 'dono' da história" (D'Araújo et al., 1994, p. 13). Heróis daqueles
tempos turvos, quando alguns chegaram a ganhar medalhas como a do Pacificador,
hoje em dia procuram se refugiar no anonimato. O já citado coronel Brilhante
Ustra, senhor do DOI-Codi de São Paulo durante o governo Médici com o codinome
de "Doutor Tibiriçá", "não gosta que o seu nome apareça em lugar algum - nem na
lista telefônica" (Veja, 9.12.1998).
4
Entretanto, a tortura, banida do mundo do direito, está sempre irrompendo no
mundo dos fatos. Por quê? Creio que a resposta é simples, apesar de
desagradável. Em meio aos debates que a prática da tortura suscitou na França
na época da guerra da Argélia, há uma reflexão corajosa de Edgar Morin que
merece ser retomada:
A tortura é eficaz. É verdade que essa eficácia tem seus limites: ela
é incapaz de determinar a vitória na guerra; ela provoca, de volta,
uma contra-eficácia, ao suscitar vingadores. Mas ela é eficaz.
Estatisticamente, a tortura faz falar e produz informações úteis. Tal
é a constatação de todos, vítimas, torturadores, advogados, que
conhecem esse aspecto da guerra da Argélia, mas que, por razões
divergentes, dele falam pouco (France-Observateur, 9.7.1959, trad.
livre).
"A tortura é eficaz" - retenhamos e encaremos essa evidência incômoda! Por isso
é tentador sucumbir ao seu demoníaco charme. É a questão com que os norte-
americanos (mas também os ingleses atacados em Londres, os espanhóis atacados
em Madri e sabe-se lá quem amanhã) se defrontam hoje em dia: "Um terrorista
colocou uma bomba: deve-se torturá-lo para saber onde ela está?" A pergunta,
para nosso desconforto, não foi extraída de nenhum panfleto da extrema-direita
norte-americana, mas foi formulada pelo psicanalista argentino Miguel
Benasayag, um ex-torturado pela ditadura militar do seu país, num livro em que
reflete sobre a tortura no mundo moderno. Ele mesmo, sem dar nenhuma resposta,
reconhece a vertigem que ronda qualquer um de nós diante de tal pergunta, ao
lembrar que "ninguém gostaria de ser confrontado a essa questão" (Benasayag,
1986, p. 21, trad. livre). Esse é um dos argumentos mais correntes entre os que
defendem a tortura, e também, pelo seu impacto, o que tem maior poder de
convencimento. Trata-se do que Elio Gaspari chama de "parábola do avião cheio
de crianças":
Imagine-se um avião cheio de crianças no qual se sabe que há uma
bomba. Ela explodirá dentro de duas horas, e acaba de ser preso o
terrorista que com quase toda a certeza sabe onde ela foi escondida.
Ele se recusa a falar. [...] Aceitando-se que a bomba existe e que o
preso sabe onde ela está, parece preferível torturá-lo.
Mas, como lembra o mesmo Gaspari, há uma grande disparidade entre "a frequência
com que a charada do avião de crianças é repetida na literatura anti-
insurrecional e a parcimônia com que se menciona um caso semelhante ocorrido na
vida real". Mesmo assim, a verdade, incômoda por certo, é que eles existem:
Em novembro de 1956 a polícia de Argel prendeu em flagrante um
terrorista que acabara de colocar uma bomba no gasômetro da cidade.
Sabia-se que ele montara outro artefato e que, se este explodisse,
poderia matar milhares de pessoas. O terrorista recusava-se a falar e
o chefe de polícia levou o problema ao secretário-geral da
prefeitura, Paul Teitgen. Católico fervoroso, combatente da
Resistência, Teitgen sabia o que estava em questão, pois fora
prisioneiro e vítima de torturas da polícia alemã no campo de Dachau.
Ele conta: "Eu me recusei a deixar que o torturassem. Tremi a tarde
toda. Finalmente, a bomba foi achada e desarmada. Graças a Deus eu
tive razão" (Gaspari, 2002, pp. 42-44).
E se não tivesse?... Resumindo: se a situação é possível em exemplos sacados
para a ocasião, é também verdade que ela não costuma ocorrer no cotidiano do
combate ao terrorismo. Deixemos falar alguém muito bem situado para fazê-lo, o
ex-capitão e ex-torturador argentino Franscisco Scilingo:
Jamais qualquer organização de guerrilha na Argentina atacou uma
escola. Na sala de tortura não se interrogavam prisioneiros sobre
bombas a dois dedos de explodir, mas sobre o próximo encontro que
eles tinham com seus companheiros (apud Verbitsky, 1995, p. 22, trad.
livre).
Como quer que seja, há pertinência e também coragem em levantar tal pergunta,
como faz Benasayag. Ela implica, além do mais, reconhecer que a tortura, mesmo
sendo uma abominação, não é simplesmente uma maquinação de figuras abomináveis!
O risco de ser mal interpretado é enorme. Afinal, alguém que dá tais ordens ou
se dispõe a torturar um ser humano não seria, ipso facto, um sujeito
abominável? A questão é legítima. Realço apenas que o juízo não dá conta de
pessoas normais que, num contexto político-ideológico favorável, ou ainda
submetido a uma pressão institucional, torna-se circunstancialmente um monstro.
É verdade que, na palavra de um expert no assunto, o general Massu, "a tentação
oferecida pelo exemplo de um método anormal [...] criava uma psicose doentia
que levava os agitados de todo tipo a cometer os mais diversos desmandos"
(Massu, 1971, p. 166, trad. livre). Tal ambiente é capaz de atrair, e
certamente atrai, sádicos que se comprazem em exercer um "métier moralmente
perigoso" como esse. Mas a figura oposta, também conhecida, do torturador que é
ao mesmo tempo um sujeito sem desvios de conduta, existe. Ou de alguém ser
capaz, uma vez de volta do abismo em que imprudentemente se meteu, de se
arrepender de seus atos. O já citado ex-capitão Francisco Scilingo, que
participou dos sinistros vuelos em que prisioneiros políticos entorpecidos, mas
vivos, eram jogados de helicóptero em alto-mar, desabafa: "Eu me sentirei mal
toda minha vida" (apud Verbitsky, 1995, p. 178, trad. livre). Num terreno
enlameado como esse, tudo, do maniqueísmo à nuança, é possível, sendo razoável
admitir que pessoas normais, dentro de determinadas circunstâncias, podem ser
capazes de torturar. Há mesmo evidências científicas de que isso é possível.
Refiro-me a um célebre e controvertido experimento feito no início dos anos de
1970 pelo psicólogo social Stanley Milgram sobre obediência à autoridade.
Milgram recrutou vários voluntários que deveriam, supostamente, participar de
um estudo sobre aprendizagem e punição. Eles eram colocados diante de um homem
amarrado a uma cadeira, tendo um fio elétrico conectado ao corpo. O homem era
um ator e tudo era fingimento, mas as pessoas que participavam da experiência
nada sabiam e eram levadas a acreditar que se tratava de uma cobaia de verdade.
As pessoas tinham à sua disposição uma série de botões indicando voltagens
elétricas que iam de 15 a 450 volts. Havia também informações de que os volts
variavam de "choque leve" a "perigo: choque severo". Os voluntários eram
instruídos a administrar um choque de 15 volts para a primeira resposta errada,
aumentando a voltagem a cada vez que o respondente cometesse um erro.
À medida que as respostas erradas iam acontecendo e os choques aumentando, o
homem se contorcia fingindo dor e gritando. Quando algum voluntário dava sinais
de hesitação, Milgram o tranqüilizava dizendo que o homem estava bem e que o
sucesso da experiência dependia da sua obediência às ordens. É de se notar que
qualquer voluntário tinha a liberdade de desistir de prosseguir a qualquer
momento. Em que pese isso,
[...] surpreendentemente, 71% dos sujeitos experimentais se mostraram
prontos a administrar choques de 285 volts ou mais, muito embora os
interruptores daqueles níveis estivessem marcados com as etiquetas
"choque intenso", "choque extremamente intenso" e "perigo: choque
severo" e apesar do fato de o ator parecer sofrer muito com aqueles
níveis de corrente elétrica (Brym et al., 2006, pp. 140-141).
Conclusão da pesquisa: a maioria das pessoas tem dificuldade em desobedecer a
figuras de autoridade, por causa das punições, certo, mas também pelo
ostracismo, ridicularização etc. a que ficam submetidas no grupo a que
pertencem se fraquejarem. Bem mais recentemente, entre nós, o psicanalista
Contardo Calligaris, refletindo sobre como é possível que "homens quaisquer,
sem nenhuma predisposição moral patológica", possam se tornar "algozes", ia
mais ou menos no mesmo sentido de Milgram:
[...] qualquer um (ou quase) pode se esquecer de sua humanidade não
por convicção nem por crueldade ou por medo, mas, simplesmente, pelo
descanso que ele encontra na obediência, no sentimento de fazer parte
de uma máquina da qual ele pode ser uma engrenagem (Folha de S.
Paulo, 6.12.2007).
Além do mais, muitas vezes o que sociedades traumatizadas por eventos desse
tipo desejam é esquecer um passado do qual todos querem se livrar e, assim,
costumam ser lenientes com seus torturadores. O caso da França é um bom
exemplo. A tortura na Argélia teve no historiador Pierre Vidal-Naquet o seu
implacável cronista. Ele lembra que um dos mais notórios torturadores das
forças militares na Argélia, o coronel Bigeard, "que mandava jogar no mar os
cadáveres dos argelinos que tinha torturado e assassinado [...], construiu uma
reputação de soldado legendário". Sobreviveu incólume à "guerra suja" dos
franceses. Promovido mais tarde a general, tornou-se deputado e chegou a
participar do primeiro governo de Jacques Chirac, em 1974. Daí concluir Vidal-
Naquet: "Pode-se colocar como princípio que, com raríssimas exceções, quando os
responsáveis são agentes da ordem - policiais, militares, guardas de prisão - a
repressão desses crimes nunca é levada ao seu termo". Ele lembra que houve
contra "certos torturadores e certos assassinos de patente geralmente modesta
processos e mesmo algumas condenações a penas leves". Fora isso, operou o que
pitorescamente chama de "incrível cascata de anistias" (Vidal-Naquet, 1989, pp.
37-38, 40 e 124, trad. livre). A objeção que pode legitimamente ser levantada
contra esse argumento é a de que, no caso da França, os torturados eram
argelinos, ou seja, mais "árabes" do que "franceses", apesar de boa parte deles
ter a cidadania francesa pelo fato de a Argélia, na época, ser um território
francês.
No caso das ditaduras latino-americanas, ao contrário, torturadores e
torturados eram da mesma nacionalidade. Noutras palavras, o torturado não é um
"outro", cujas dores seriam mais facilmente esquecidas. Assim, os militares do
Cone Sul não puderam se beneficiar dessa distância. Evidentemente, eles não se
conformam. Numa proclamação de generais uruguaios assim que a Suprema Corte
daquele país, finda a ditadura, começou a atribuir competência à jurisdição
civil para julgar crimes cometidos por militares durante seu período no poder,
lê-se: "Os exércitos não podem ser julgados após o fato por terem vencido uma
guerra" (apud Weschler, 1990, p. 173). Mas quase foram. Naquele país, a duras
penas, uma Comissão Nacional Pró-Referendo, presidida por familiares de mortos
e desaparecidos, conseguiu mais do meio milhão de assinaturas necessárias,
segundo a Constituição, para uma consulta ao país mediante iniciativa dos
cidadãos. O projeto que lhes foi submetido revogava a lei de autoanistia que os
militares tinham feito aprovar antes de deixar o poder. Foi marcado um
plebiscito para um domingo de abril de 1989. Numa jornada tensa, em que pairava
no ar a ameaça, nem sempre velada, de insubordinação militar em caso de sua
aprovação, o projeto foi derrotado por uma margem não negligenciável: 53% dos
cidadãos votaram contra; 41%, a favor, e 6%, votaram nulo ou em branco. No dia
seguinte, o jornal conservador El Dia, que se posicionara contra a revisão da
anistia, proclamou: "A Lei foi confirmada e a paz triunfou" (apud Weschler,
1990, pp. 236-237).
A exceção que confirma a regra - com o caso chileno oscilando entre os dois
extremos - é o que aconteceu na Argentina. Afinal, o principal mentor da
carnificina que se abateu sobre o país entre 1976 e 1982, general Videla, está
na prisão. O que tornou isso possível, vale lembrar, foi o fato de os militares
terem deixado o poder após a derrota fragorosa e humilhante na Guerra das
Malvinas. No ano seguinte, "o novo governo civil em Buenos Aires pôde
proporcionar tanto a verdade, através do Nunca mas,13 quanto uma quantidade
módica de justiça, mediante julgamentos públicos dos principais membros da
Junta e outros delinquentes de alto escalão" (Weschler, 1990, p. 170).14 É bom
não esquecer, porém, que ao longo do governo Alfonsín os militares argentinos
reagruparam-se e passaram cada vez mais a se opor às cobranças da justiça,
inclusive com rebeliões armadas. Disso resultaram as leis conhecidas como
"Ponto Final" e "Obediência Devida", que protegiam os violadores de direitos
humanos durante a ditadura, votadas em 1986 e 1987. Praticamente extorquidas
pelos militares em virtual estado de ameaça permanente, ambas foram quase vinte
anos depois declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte daquele país, num
julgamento definitivo sobre a questão em 14 de junho de 2005 (Jornal do Brasil,
15.6.2005). O general Jorge Rafael Videla, aos 83 anos de idade e condenado à
prisão perpétua, provavelmente não voltará a conhecer a liberdade.
É comum, no Brasil, ouvirmos referências aos casos argentino e chileno, em que
as leis de autoanistia que os militares se deram foram revogadas e eles
continuam prestando contas à justiça. Há, no meu modo de ver, diferenças
significativas entre a ditadura dos dois países e a nossa própria experiência
ditatorial. Um aspecto interessante é que, naqueles dois casos, a vida política
institucional foi extinta. Os ditadores governaram sozinhos, sem ter de compor
com partidos políticos, negociar apoio etc. No Brasil, mesmo que a maior parte
do tempo sob a forma de simulacro, as instituições - em que pese os episódicos
fechamentos do Congresso - mantiveram-se em funcionamento a maior parte do
período ditatorial. Algumas vezes, como ocorreu nas eleições legislativas de
1974, o governo sofreu grandes revezes. Embora não houvesse dúvidas sobre quem
estava no poder, a manutenção de um Congresso funcionando fez dos políticos
partícipes do jogo e atores não negligenciáveis na hora em que se negociou a
transição do regime. É bom lembrar que os militares brasileiros, com avanços e
recuos - as famosas "sístoles" e "diástoles" do general Golbery - mantiveram
alguns dos rituais do regime democrático, inclusive a rotatividade dos
generais-presidentes, todos periodicamente sacramentados por um Colégio
Eleitoral cuja maioria era formada por políticos submissos, sem dúvida, mas
assim mesmo atores sociais relevantes, muitos ainda ocupando a cena política.
Já naqueles dois países a ditadura concentrou-se em dois nomes sobre quem foi
mais fácil cair todo o ódio reprimido: os generais Pinochet e Videla. Este foi
finalmente substituído pelo general Galtieri, que empreendeu a campanha
desastrosa de retomada das Ilhas Malvinas, provocando uma guerra com a
Inglaterra que a Argentina perdeu. Humilhados pela derrota, os generais
portenhos foram praticamente enxotados do poder. Além disso, ponto a não
negligenciar é a diferença brutal nos números de mortos e desaparecidos. O
número estimado de 400 mortos pelo regime militar brasileiro - entre os quais
estão cerca de 140 desaparecidos - é sem comum medida com a carnificina
promovida pelos regimes de Pinochet e Videla. No passivo argentino, números por
baixo chegam à cifra impressionante de cerca de 20 mil mortos e desaparecidos!
Para a mãe ainda viva de um desaparecido político brasileiro, o raciocínio pode
parecer cínico e cruel. Mas, sociologicamente falando, por mais que seja
embaraçoso dizer, o pequeno número de vítimas fatais, no Brasil, nunca foi
capaz de impactar e mobilizar a sociedade brasileira como ocorreu no país
vizinho. Entre nós, os grupos de familiares de desaparecidos nunca tiveram a
visibilidade e a importância que têm até hoje, na Argentina, as Mães da Praça
de Maio. Como quer que seja, perseguidos pela justiça ainda hoje, como no caso
argentino, ou anistiados de vez, como no caso brasileiro, em qualquer das
hipóteses os militares, mesmo vencedores nos porões, perderam a "guerra
psicológica adversa" que lhes moveram os sobreviventes. Como disse um oficial
brasileiro num tom de amargura, "o vencido tornou-se o 'dono' da história"
(apud D'Araújo et al., 1994, p. 13).
5
A desolação do militar brasileiro incita-nos a interrogar o antigo postulado,
familiar a qualquer aprendiz de ciências sociais, de que a história é sempre
contada pelos vencedores. A "guerra suja" que se deu no Brasil e na América
Latina nos anos de 1960 e 1970, ao fim da qual os vencidos no plano das armas
arrebataram dos vencedores o direito de narrá-la, convida-nos à reflexão. Para
introduzi-la, cito um antigo vice-ministro da Educação da Argentina, Emilio
Fermín Mignone, cuja filha, presa, conheceu os porões da Escola de Mecânica da
Marinha. Mignone faz uma reflexão lúcida e - para um pai que viu a filha
suportar os horrores que suportou - incrivelmente serena sobre as consequências
de um regime que tortura e mata seus opositores:
As autoridades militares praticam a "guerra suja" sem se dar conta de
que, além de imoral, ela é suicida. Como podem eles não ter
consciência de que daqui a dois anos, quer eles tenham matado os
vinte ou trinta mil já presos ou que esperam prender, quer tenham-nos
libertado depois de meses de sequestro e acorrentamento, de
encapuzamento e de torturas, a literatura sobre a questão vai inundar
o país e retornar como um bumerangue incontrolável sobre as próprias
forças armadas? (apud Verbitsky, 1995, p. 98, trad. livre).
A possibilidade aventada por Mignone (que, aliás, realizou-se menos de dois
anos depois de findo o reinado de terror dos generais argentinos) alicerça-se
em dois pressupostos - um de natureza política, outro de natureza
epistemológica -, a saber: é preciso, para que uma verdade dessas venha à tona,
que se esteja num tipo de sociedade em que a palavra possa circular livremente:
a democracia; em segundo lugar, mas não menos importante, é preciso que
estejamos todos de acordo acerca de uma evidência que não goza de grande
prestígio intelectual em meio ao perspectivismo contemporaneamente reinante nos
arraiais das ciências humanas: a verdade factual existe e é objetiva! A
necessidade de um enunciado desse tipo pode parecer estranha ao senso comum,
uma vez que as pessoas em geral acreditam neste postulado como algo certo. Por
outro lado, a filosofia, desde que Descartes enunciou sua famosa dúvida, ainda
não chegou à conclusão de que o mundo existe!, e partilha-se nesse âmbito a
opinião segundo a qual "não existem fatos, mas apenas interpretações" (Machado,
1984), de acordo com a famosa perspectiva nietzscheana. O assunto é momentoso e
não é minha intenção - ainda que pudesse - dele dar conta ao final de uma
argumentação que apenas precisa dessas certezas. Socorro-me, para não alongá-la
muito, das reflexões de Hannah Arendt sobre as relações entre a verdade a
política.
Arendt sempre foi uma pensadora capaz de abordar assuntos tormentosos sem
perder o bom senso. Para ela, "a imparcialidade" do historiador é possível e
"veio ao mundo quando Homero decidiu cantar os feitos dos troianos não menos
que os dos aqueus, e louvar a glória de Heitor não menos que a grandeza de
Aquiles". Na sua admiração nunca desmentida pelos gregos, qualifica essa
atitude como "o mais alto tipo de objetividade que conhecemos" (Arendt, 1972,
p. 81). Ela não ignora a complexidade do assunto, nem as dificuldades que a
empresa da "imparcialidade" acarreta, como deixa claro na questão que ela
própria se põe:
Mas os fatos realmente existem, independentes de opinião e
interpretação? Não demonstraram gerações de historiadores e filósofos
da história a impossibilidade da determinação de fatos sem
interpretação, visto ser mister colhê-los de um caos de puros
acontecimentos (e decerto os princípios de escolha não são dados
fatuais) e depois adequá-los a uma estória que só pode ser narrada em
uma certa perspectiva, que nada tem a ver com a ocorrência original?
(Idem, p. 296).
E ela mesma, resolutamente, adianta uma resposta possível:
Sem dúvida, esta e muitas outras perplexidades inerentes às Ciências
Históricas são reais, mas não constituem argumento contra a
existência da matéria fatual, e tampouco podem servir como uma
justificação para apagar as linhas divisórias entre fato, opinião e
interpretação, ou como uma desculpa para o historiador manipular os
fatos a seu bel-prazer (Idem, ibidem).
Como gostava de fazer, Arendt argumenta fazendo uso de uma redução do absurdo
da posição contrária, como forma de realçar a correção da posição que adota.
Assim, explicitamente assumindo que está tomando "a palavra no sentido em que
os homens comumente a entendem", ela dá o seguinte exemplo:
[...] durante a década de 20, conforme conta a história, [o estadista
francês] Clemenceau, pouco antes de sua morte, travava uma conversa
amigável com um representante da República de Weimer sobre a questão
da culpa sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial. "O que, em sua
opinião" - perguntou este a Clemenceau - "pensarão os historiadores
futuros desse tema espinhoso e controverso?" Ele replicou: "Isso não
sei. Mas tenho certeza de que eles não dirão que a Bélgica invadiu a
Alemanha" (Idem, ibidem).
Arendt está teorizando não sobre uma Verdade maiúscula, mas sobre a verdade
como expressão de dados fatuais "brutalmente elementares", como ela afirma -
"verdades modestas tais como o papel, durante a Revolução Russa, de um homem
cujo nome era Trotsky, que não aparece em nenhum dos livros de história russa
soviéticos" (Idem, p. 287). Não é coisa de pouca importância. Prova-o os
constantes atentados que os diversos poderes do mundo costumam perpetrar contra
tais "verdades modestas". É claro que os fatos não falam por si. Colhidos no
"caos de puros acontecimentos" que compõem a inesgotável realidade, eles só
fazem sentido quando são narrados - e o são sempre a partir de "uma certa
perspectiva", como Arendt mesma reconhece.
Assim, o projeto "Brasil: nunca mais", ao escolher narrar a brutalidade do que
o coronel Adyr Fiúza de Castro batizou de "martelo-pilão" (Figueiredo, 2009, p.
73) para esmagar os delírios revolucionários dos jovens brasileiros que pegaram
em armas, e nada dizer sobre os resultados sangrentos - numericamente bem
inferiores aos produzidos pelo regime, é verdade - de suas ações, não esteve
comprometido com o que Arendt chamou de imparcialidade de Homero. O projeto fez
uma escolha - e a escolha é legítima. Os militares, por seu turno, ao
resolverem narrar no projeto Orvil o que esses jovens revolucionários
praticaram, também fizeram uma escolha, igualmente legítima. Mas ao persistirem
em fabulações como a de que os desaparecidos "foram postos em liberdade", não
estiveram atentos ao que Arendt disse a respeito de eventos desse jaez, a
saber: "fatos indesejáveis possuem a enfurecedora pertinácia de nada poder
demovê-los a não ser mentiras cabais" (Arendt, 1972, pp. 298-299).
6
Passados 25 anos da entrega do poder aos civis, é mais do que tempo de
tratarmos a ditadura militar como um acontecimento trágico, mas irremovível da
nossa história. Isso exige uma atitude mais objetiva e menos militante dos que
se dispõem a pensá-la. Não é fácil. A "guerra suja" enche de tal horror o
analista moderno, que a necessária separação entre fatos e valores - como
reivindicava um Weber - questiona o historiador e o sociólogo. Mas o próprio
horror pode ser tratado como matéria sociológica, e ponho-me a um exercício
desses. As recusas obsessivas dos militares em admitir o que todo mundo sabe é,
em si mesma, um fato a merecer atenção. Essa maneira de agir vincula-se, a meu
ver, ao fato de que em relação a outras formas de violência a tortura apresenta
algo mais que faz dela um caso especial não comparável às demais: o espetáculo
do sofrimento físico que lhe é inerente, fonte do consequente horror que
geralmente inspira.
E que não é de hoje. Jean-Jacques Rousseau, num texto célebre de 1754, introduz
na reflexão política o conceito de piedade, que ele define como "uma
repugnância inata em ver sofrer o seu semelhante [...], virtude tão universal e
tão útil ao homem que, nele, ela precede o uso de qualquer reflexão, e tão
natural que até mesmo os animais manifestam algumas vezes sinais de possuí-la"
(Rousseau, 1965, p. 74, trad. livre). A reflexão de Rousseau, um dos autores
mais paradigmáticos da cultura iluminista do século XVIII, põe em relevo um dos
aspectos mais interessantes do que chamei de sensibilidade moderna, justamente
o horror que inspira o sofrimento físico. A condenação moderna à crueldade da
tortura vai além do simples ato de consciência individual, na medida em que a
repulsa que a envolve possui uma dimensão social atestada pelo opróbrio que, de
um modo geral, recai sobre aqueles que a praticam. Nesse caso, a condenação à
tortura é um fato social.
Ou seja, não se trata simplesmente de um imperativo kantiano que, como tal,
permaneceria apenas no plano do dever-ser. Refiro-me à realidade empírica da
condenação moral que se abate sobre os torturadores - noutros termos, a um dado
sociológico. Nunca seus defensores sentem-se à vontade quando se trata de
justificar um método que um coronel brasileiro classifica de "abominável" e o
general francês de "moralmente perigoso". Trata-se sem dúvida de um fenômeno
curioso: a tortura, reintroduzida na prática, não foi beneficiada por nenhuma
reabilitação teórica. Por quê? A resposta que primeiro ocorre, a da hipocrisia,
deixa sem explicação essa necessidade quase obsessiva de se usar tal máscara -
que, aliás, vem também de muito longe.
O historiador Alec Mellor reporta uma curiosa troca de correspondência entre
Pussort, ministro de Louis XIV, sob cujo longuíssimo reinado (1643-1715)
torturava-se à vontade, e Lamoignon, magistrado de Paris, a respeito da maneira
de "dar a questão".15 Lamoignon, preocupado com o fato de que o artigo da
Ordenação real que disciplinava o assunto não entrava em detalhes, dirige-se a
Pussort para manifestar sua inquietação e pedir-lhe maiores esclarecimentos:
"Seria desejável que a maneira de dar a questão fosse uniforme em todo o reino,
porque em certos lugares dar-se-á tão rudemente que aquele que a sofre fica sem
condições de poder trabalhar e permanece muitas vezes estropiado o resto dos
seus dias". A resposta de Pussort é surpreendente. Ele tranquiliza Lamoignon
dizendo estar "subentendido" no artigo em questão que os juízes deverão ter o
cuidado de não estropiar suas vítimas, mas, ao mesmo tempo, esclarece que
"seria difícil tornar a questão uniforme", porque a sua "descrição [...] seria
indecente numa Ordenação" (Mellor, 1949, p. 112, trad. livre). Se, há mais de
trezentos anos, um ministro da corte de Louis XIV já era capaz de perceber como
uma indecência a descrição da tortura numa Ordenação, vê-se o quanto chega a
ser inimaginável, em pleno século XXI, a regulamentação em lei da "mangueira
d'água e da eletricidade", como queria Roger Wuillaume na Argélia, ou da
"simulação de afogamento", como parece pronto a aceitar o norte-americano Alan
Dershowitz - desde que seja feita segundo "regras democráticas"...
Defrontamo-nos aqui com o aquilo que já mais de uma vez chamei de sensibilidade
moderna - fenômeno que teria como um dos traços mais característicos o horror
que inspira a crueldade física -, sobre que parece necessário dizer alguma
coisa ao modo de uma ressalva. Há aí, reconheço, um corte até certo ponto
arbitrário. Ma non troppo...
O fato é que a corrente político-filosófica que chamamos de Iluminismo, e que
desembocou na Declaração de 1789, é fortemente animada por uma sensibilidade
que tinha como um de seus alvos aquilo que o historiador Harold Laski chamou de
"dores inúteis" (Laski, 1953). Desde então, com idas e vindas (algumas
monstruosas, como o nazismo), ela não deixou de ter um lugar importante no
imaginário moderno. É claro que não podemos nos entregar ingenuamente à ilusão
de que as "ideias dominantes" correspondem às práticas que de fato ocorrem na
sociedade. Pode acontecer justamente que o crescimento de um sentimento contra
a crueldade seja simétrico ao crescimento dessa mesma crueldade. Afinal, foi a
barbárie nazista que ocasionou o surgimento da declaração da ONU de 1948, assim
como foram os horrores perpetrados pelo regime militar que fizeram surgir os
movimentos de defesa dos direitos humanos no Brasil. Além disso, como sabemos,
boa parte da opinião pública brasileira é conivente com as torturas infligidas
aos presos comuns provenientes das classes populares - a mesma opinião que
considera o respeito a seus direitos humanos como "privilégios de bandidos"
(Caldeira, 1991). Nesse sentido, o apoio à tortura é, também, um fato social!
Não deixa por outro lado de ser verdade, entretanto, que esse apoio é sempre
embaraçoso, e a matéria da minha reflexão é justamente este embaraço.
Coisa interessante: já os romanos consideravam a tortura res fragila et
periculosa. Essa advertência, porém, lembra-nos um historiador, "era baseada
não num humanismo anacrônico", mas na convicção de que a prova assim produzida
não inspirava confiança (Peters, 1985, p. 34). Apesar disso é curioso observar
que, mesmo entre os romanos, a tortura era geralmente reservada aos escravos,
"a majestade do Cidadão [preservando-o] da vergonha de ser submetido à tortura"
(Mellor, 1949, p. 52, grifos meus). O que significa essa reserva? O
reconhecimento de que a tortura é "coisa servil"? Nesse caso parece legítimo
especular com a hipótese de que já existe entre os romanos, pelo menos
implicitamente, uma condenação moral à tortura, na medida em que eles a
reservavam àqueles que os seus valores colocavam abaixo da humanidade. Mas,
segundo os historiadores, procurar-se-ia em vão, entre os Antigos, uma
condenação explicitamente moral da tortura, como se tornou comum nos tempos
modernos. Nesse sentido pode-se dizer que, efetivamente, a condenação moderna à
tortura em razão de sua crueldade constitui um ponto de ruptura com os Antigos.
A esse respeito existe em Do espírito das leis de Montesquieu, outro clássico
do Iluminismo, um exemplo interessante que vale a pena ser referido. Há no seu
livro um capítulo em que trata "Da tortura ou da questão contra os criminosos",
no qual o autor, como que antecipando a observação de Rousseau sobre a
precedência da piedade sobre a razão, escreve:
Ia dizer que elas [a tortura e a "questão"] poderiam convir aos
governos despóticos, onde tudo o que o medo inspira participa dos
fundamentos do governo. Ia dizer que os escravos, entre os gregos e
os romanos... Mas ouço a voz da natureza que grita contra mim
(Montesquieu, 1974, p. 101).
É-se tentado a insistir na pergunta: por que a abolição da tortura só se deu no
contexto do século XVIII? As causas desse acontecimento histórico, somos
inclinados a dizer, não se resumem ao irresistível poder de convencimento dos
reformadores, mas não é a ocasião aqui de enfrentar essa questão, que me
contento apenas em assinalar,16 pois é tempo de concluir.
7
Apesar de só em 1985 ter havido o retorno à democracia, com a posse de um civil
na presidência da República, a última ação típica dos anos de chumbo da
repressão brasileira ocorreu em dezembro de 1976, com o episódio que ficou
conhecido como a Chacina da Lapa - em que três altos dirigentes do PCdoB foram
mortos no ato e os sobreviventes, presos, foram submetidos à tortura. Isso já
faz quase 35 anos, mas essa história continua nos assombrando. Para que ela se
torne finalmente um objeto do passado sobre o qual os historiadores possam se
debruçar com a imparcialidade de Homero, esqueletos precisam aparecer, e tabus
precisam ser revistos. Não há retórica, mas literalidade, nas duas últimas
exigências. Os esqueletos são os corpos - ou qualquer coisa que deles reste -
dos desaparecidos. Esse é o débito dos militares. Mas, de outro lado, a
reclamação castrense de que os vencidos tornaram-se os "donos da história" e
contam-na pela metade, não é estapafúrdia. É o tabu que precisa ser revisto.
O horror das câmaras de tortura dos DOI-Codis não autoriza que ignoremos parte
dessa história ou que, quando a apresentamos, façamo-lo de maneira enviesada,
como muitas vezes ocorre. Recuemos ao princípio, o golpe de 1964. Foi, sem
dúvida, um golpe, e chamá-lo de "revolução", como pretenderam os vencedores de
então, chega a ser patético. Mas, apesar de tudo, a intervenção militar de 31
de março de 1964 não pode ser reduzida a uma versão caricatural segundo a qual
"gorilas" (como se dizia na época) saíram das casernas para esmagar todo um
povo que despertava. Vale lembrar que algumas das instituições mais
representativas da chamada sociedade civil, como boa parte da grande imprensa,
a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e também a Igreja Católica - sim! -,
aplaudiram num primeiro momento a destituição do presidente Goulart, na ocasião
vista como uma ação de emergência que visava salvaguardar o regime democrático
(Skidmore, 1988, pp. 63-64). Em 1º de abril de 1964, nosso poeta maior anotava
no seu diário: "Sensação geral de alívio" (Drummond de Andrade, 1985, p. 149).
Em seguida, a dinâmica infernal do processo levou à realidade dos porões,
quando os apoios iniciais, um a um - sobretudo no caso da OAB e da Igreja
Católica -, foram se retraindo até se tornarem clara e decidida oposição.
Dentro desse mesmo espírito de revisão de tabus, deve-se de uma vez por todas
rever a visão, que se tornou hegemônica, de que a luta armada só ocorreu por
causa do regime militar e em decorrência dele. Os que pegaram em armas contra a
ditadura longe estavam de ser combatentes da democracia como a conhecemos hoje.
O que se queria era uma guerra revolucionária para edificar o socialismo no
país - o que, na época, queria dizer instalar no país uma "ditadura do
proletariado". Encaremos de vez essa verdade que hoje se tornou incômoda: o
projeto da luta armada como forma de edificar o socialismo no Brasil é bem
anterior a 1964. Para não ir muito longe, basta lembrar o famoso racha no
Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, de onde saiu o PCdoB, ocorrido em
1962. A dissidência deu-se justamente por causa do "pacifismo" do velho PCB,
naquele momento contrário às teses da insurreição armada para chegar ao poder.
No Manifesto da nova organização, "as forças sociais em ascensão" são
convocadas a instalar um "governo popular revolucionário" (Reis Filho e
Ferreira de Sá, 1985, pp. 30-31), e o exemplo cubano, bem recente, mostrava que
isso não se daria pelo voto. Isso ocorreu dois anos antes de 1964. O golpe
militar, obviamente, levou água ao moinho dos partidários da luta armada. Daí
que, em 1967, o Partidão sofre uma nova cisão, dessa vez protagonizada por
Marighella, que em 1967 sai do PCB e cria a Ação Libertadora Nacional (ALN), a
qual, sem meias medidas, anuncia no seu Manifesto que o seu caminho será o da
"violência, do radicalismo e do terrorismo" (Idem, p. 212, grifo meu), a seu
ver as únicas armas eficazes para se contrapor "à violência inominável da
ditadura". Era o governo Castello Branco e, convenhamos, a violência ainda não
era "inominável". A partir de dezembro de 1968, com o Ato institucional n. 5 e
o "martelo-pilão" do coronel Fiúza de Castro, será!
Enfim, essa não é uma história inteiramente maniqueísta opondo bandidos
fascistas de um lado e mocinhos democratas do outro. No Brasil houve, sim, pelo
menos como tentativa - canhestra, isolada, fadada ao fracasso, sem dúvida -,
uma guerra revolucionária. E a resposta do regime, que já era ilegítimo porque
fruto de um golpe, foi mergulhar de vez na ilegalidade com a brutalidade dos
torturadores. Não quero com isso afirmar que a ditadura militar esperou o
surgimento da luta armada para engolfar-se na violência. Num certo sentido, o
regime inaugurado em 1964 começou a torturar desde o dia seguinte à sua
vitória. Sobretudo no Rio de Janeiro e em Pernambuco, o espancamento de
prisioneiros - para só falar na tortura mais "benigna" - tornou-se uma prática
corrente. O então jornalista Márcio Moreira Alves escreveu um livro, que causou
furor, onde são denunciados esses primeiros episódios (Alves, 1966). Veiculados
por uma parte da imprensa liberal - sobretudo o Correio da Manhã, jornal que
havia aplaudido a derrubada de Goulart apenas dois meses antes -, chocaram a
opinião pública. O governo, como sempre acontece nessas ocasiões, negava os
fatos ou tentava minimizá-los, considerando-os "lamentáveis incidentes"
ocorridos nos primeiros dias da "revolução", mas já estancados. Entretanto,
novos "incidentes" não paravam de acontecer, a tal ponto que o então presidente
Castello Branco designou uma comissão chefiada pelo futuro presidente Ernesto
Geisel para investigar as denúncias. O relatório de Geisel, pelo menos o que
foi tornado público, foi decepcionante, mas, como observa o próprio Moreira
Alves, a sua missão pôs fim às torturas, ao menos momentaneamente. Logo elas
estariam de volta. Entre 1964 e dezembro de 1968, com efeito, ocorrerão sempre,
aqui e ali, novos "incidentes". Apesar de tudo, durante esse primeiro momento
do regime a tortura esteve longe de ser o que ela iria se tornar no segundo
período ditatorial, pois o aparelho repressivo instalado a partir de dezembro
de 1968, por sua organização, amplitude e poderes exorbitantes, não tem similar
na história brasileira.
Ano de 1968. O sopro libertário que sacudiu o mundo também passou pelo Brasil.
O movimento estudantil, represado desde 1964, fez uma reaparição estrondosa,
tanto mais que as organizações clandestinas estavam enraizadas no seu meio. As
discussões teóricas sobre as maneiras de enfrentar a ditadura ganharam as ruas
e duas versões do mesmo grito eram escutadas por ocasião das manifestações
contra o regime: "Só o povo organizado derruba a ditadura" - gritavam os que se
alinhavam às teses sempre precavidas do Partido Comunista Brasileiro; "Só o
povo armado derruba a ditadura" - gritavam os que se alinhavam às correntes
partidárias da luta armada (Ventura, 1988, pp. 61-62). A ditadura,
evidentemente - inclusive mediante ações terroristas de grupos paramilitares
como o famoso Comando de Caça aos Comunistas -, não estava nem ficou inerte, e
o ciclo da violência se embalou. Em resumo, da mesma maneira que em 1964 a
ruptura legal se tornou previsível, em 1968 o "fechamento" do regime era, com
toda evidência, desejado pelas forças extremistas em confronto - à direita e à
esquerda, é necessário dizer. No meio desta oposição, o princípio "quanto pior,
melhor" circulava com desenvoltura.
É aqui que as notações do senso comum são, também, parcialmente verdadeiras,
pois continuam na ordem do dia as graves violações de direitos humanos que o
regime militar inicialmente aceitou, praticamente institucionalizou e, depois,
cobriu - como continua acobertando até hoje e, assim, arcando com as
consequências. Apesar de haver explicações para isso - melhor dizendo, para as
condições que tornaram isso possível -, e neste texto não as escamoteei, nada
do que aconteceu era inevitável ou estava determinado por alguma lei de ferro
sociológica. Ações humanas são consequências de decisões, e situações análogas,
dependendo dos atores envolvidos, podem ter outros encaminhamentos. Cito, a
propósito, o que lembrou o redator do Nunca Mas argentino - provavelmente o
escritor Ernesto Sábato, que presidiu a Comissão que o elaborou: na Itália, na
ocasião do sequestro de Aldo Moro, um membro dos serviços de segurança propôs
ao general Della Chiesa torturar um preso que parecia saber muito, mas o
general lhe respondeu com palavras memoráveis: "A Itália pode permitir-se
perder Aldo Moro. Não, porém, implantar a tortura".17
Essa história, antiga de mais de trinta anos, precisa passar. Mas para isso
precisa ser passada a limpo. E parte importante dessa limpeza incumbe às Forças
Armadas brasileiras, por causa do problema dos desaparecidos. Elas continuam em
débito com o dever ético de tornar públicos os arquivos e informações que
detenham sobre o destino desses adversários mortos. Isso, sim, as reconciliaria
de vez com a Nação. Falei em dever ético, mas talvez seja mais forte falar no
simples dever de compaixão para com as mães, irmãos e filhos dos que
desaparecem na "noite e na névoa" sem deixar traço. Nesse sentido, a história
nunca passará enquanto uma mãe, como a de Fernando Santa Cruz, desaparecido em
1974, se perguntar todos os dias de sua vida como faz até hoje: "Onde está o
meu filho?".18
Notas
1 Ouvi-a não lembro mais de quem num programa de entrevistas na televisão
francesa nos anos de 1980. Trata-se de uma dessas frases que a gente ouve, ou
lê, não atina no momento com toda sua importância e não toma nota. Depois, ela
irrompe na memória e fica vagando sozinha, sem paternidade.
2 Sobre esse desaparecimento ver, entre outros, Mellor (1949), Vidal-Naquet
(1972) e Peters (1985).
3 Sobre esse caso, ver Lecherbonnier (1989, pp. 237-242).
4 A expressão é de Edgar Morin, e a ela retornarei adiante.
5 A esse respeito, ver Oliveira (2009).
6 A esse respeito, ver Pinheiro (1981).
7 Depoimento em D'Araújo et al. (1994, p. 73).
8 Depoimento em D'Araújo e Castro (1997, pp. 224-225).
9 As informações sobre esse projeto afinal abortado foram extraídas de
Figueiredo (2009).
10 Sobre o projeto "Brasil: nunca mais" e a produção do livro com o mesmo nome,
ver Weschler (1990).
11 Sobre o assunto, remeto à extensa literatura memorialística dos que pegaram
em armas contra o regime, da qual o livro paradigmático de ~~Gabeira, O que é
isso, companheiro?, é um bom exemplo.
12 Carlos Alberto Maciel Cardoso da ALN, Salatiel Teixeira Rolim do PCBR e
Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, de uma obscura RAN - Resistência Armada
Nacional (Lucas Figueiredo, 2009, pp. 112-114).
13 Inspirado nesse título, constituiu-se o projeto "Brasil: nunca mais".
14 Sobre o assunto, ver também Smith (2005, pp. 92-96).
15 A "questão" era o termo técnico que designava a tortura no Ancien Régime
francês. "Dar a questão" era submeter alguém à tortura.
16 Seria o caso de distinguir, entre várias outras interpretações, a de Michel
Foucault em Vigiar e punir, em que o autor sustenta a tese de que a
substituição das torturas e dos castigos físicos pela prisão não constitui
senão o subproduto da constituição de um novo tipo de sociedade, que ele chama
de "disciplinar". Sobre os impasses a que sua análise leva, permito-me remeter
ao meu Do nunca mais ao eterno retorno, já referido.
17 Apud Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (1984, p. 7).
18 Título de uma coletânea organizada por Chico de Assis e outros, Onde está
meu Filho?, 1985.