Individualismo e partidarismo em doze estados brasileiros
Introdução
Este texto explora a relação entre deputados e partidos tendo como referencial
empírico os representantes eleitos em 2006 para as Assembleias Legislativas em
doze estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de
Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Pará, Tocantins, Goiás e Mato
Grosso. A base de dados pertence ao projeto "Trajetórias, perfis e padrões de
interação de legisladores estaduais em doze unidades da Federação", conduzido
por pesquisadores do Centro de Estudos Legislativos do DCP/UFMG.1
O ponto de partida para a análise é a opinião dos legisladores entrevistados. O
objetivo do texto é explicar a variação encontrada quando se analisa o perfil
partidário dos deputados. Evidentemente, as afirmações que aqui serão feitas
são válidas apenas para o universo pesquisado. A primeira hipótese a ser
verificada é a de que os deputados têm perfil mais nitidamente partidário nos
estados onde o sistema partidário se encontra mais institucionalizado. Tal
hipótese parte da noção de que no Brasil deve-se levar a sério a existência de
uma dimensão de caráter horizontal (Mair e Bardi, 2009), referida à organização
federativa, ao se analisar o sistema partidário. Os 27 subsistemas partidários
brasileiros além de não serem "cópias" do sistema federal, apresentam grande
variação, tanto no que se refere a quais são os partidos relevantes, como no
que tange ao padrão de interação estabelecido (quando existe) entre eles.
A segunda linha de explicação remete às características dos deputados eleitos.
A partir dos dados disponíveis no questionário foram testadas as hipóteses de
que os deputados apresentam perfil mais partidário quando: a) mais tempo
estiverem filiados a seus partidos; b) forem eleitos por partidos situados à
esquerda do espectro partidário; c) se posicionarem de forma progressista em
relação a temas como aborto, união civil de homossexuais, descriminalização de
drogas, pena de morte e proibição do uso de armas; d) apresentarem menor
tendência a um mandato de tipo particularista; e) declararem filiação religiosa
menos conservadora; f) não pertencerem a famílias com tradição política;
g) possuírem maior experiência legislativa; h) apresentarem menor renda e se
dedicarem exclusivamente à atividade legislativa.
O artigo está organizado da seguinte forma. Na próxima seção, depois de uma
breve contextualização da relação entre deputados e partidos no Brasil, é
apresentada uma medida que procura classificar os deputados de acordo com seu
perfil partidário, o "índice de partidarismo". Explica-se como se chegou a tal
índice e qual sua variação. A terceira parte do artigo é dedicada aos sistemas
partidários nos estados estudados. A partir de um conjunto de indicadores
chega-se a um índice que, assim se espera, permite classificar os doze
subsistemas partidários de acordo com uma das dimensões da institucionalização
- a estabilidade da competição eleitoral. Na quarta seção são apresentadas as
hipóteses que buscam vincular determinadas características dos deputados à sua
posição no índice de partidarismo. A quinta apresenta o modelo de regressão com
o conjunto das variáveis independentes indicadas e discute os resultados.2
Partidos e deputados
A relação entre os políticos e os partidos brasileiros sempre foi motivo de
controvérsia. Para uma parcela da literatura internacional (Mainwaring, 1991,
1993; Sartori, 1996; Cavarozzi e Casullo, 2003; Ames, 2003) o Brasil certamente
poderia ser caracterizado com um país de políticos "sem partido". Por outro
lado, a literatura nacional, e em especial aquela que tem se dedicado à área de
estudos legislativos a partir dos trabalhos de Figueiredo e Limongi (1999),
aponta para um comportamento disciplinado dos deputados no interior do processo
legislativo.
Na verdade, no Brasil tanto é possível encontrar trajetórias políticas nas
quais as diversas legendas disponíveis no mercado eleitoral são ou foram
utilizadas ao sabor da conjuntura, como também sobram exemplos de lideranças
que construíram sua carreira por dentro de um mesmo partido. E é justamente
esta variação que aqui se pretende explicar para o conjunto de estados
selecionados.
As razões pelas quais políticos "sem partido" são facilmente identificáveis
entre nós podem ser apontadas sem maiores problemas. O país atravessou o
chamado "século de Michels", a época de ouro das organizações partidárias, sem
experimentar nada que se assemelhasse ao que Bernard Manin (1995), em sua
tipologia dos governos representativos, chamou de "democracia de partido". Este
tipo de governo só foi possível nos países onde os partidos chegaram a
desempenhar papel relevante na mobilização e na incorporação dos indivíduos à
condição de cidadania e onde, na esteira de tal processo, criaram extensas
redes de apoio e fortes laços de identidade entre o eleitorado. A história
brasileira, pelo contrário, registra poucos momentos em que os partidos tenham
sido protagonistas de escolhas cruciais - a começar pelo fato, evidente, de que
desde meados do século XIX até os anos de 1980 o país experimentou tantas
formações partidárias quantas foram as mudanças de regime político.
Pode-se argumentar, e é verdade, que o atual sistema partidário terá tempo pela
frente e que a sequência de eleições e, em especial, a dinâmica das disputas
presidenciais vêm permitindo que o sistema adquira estabilidade e consolide uma
estrutura de competição moderada (Melo, 2007). É certo também que os partidos
controlam recursos importantes no cenário eleitoral, como o tempo de TV e o
Fundo Partidário (Miranda, 2008; Campos, 2009), além de, como têm mostrado
diversos autores (Figueiredo e Limongi, 1999 e 2002; Amorim Neto, 2000; Santos
2003; Inácio 2006) estruturam o jogo político em um nicho crucial: o Congresso
Nacional.
Mas isso não anula o fato de que o "tempo" do atual sistema transcorrerá em um
contexto em que os processos referidos - de mobilização e incorporação política
nas democracias - já foram realizados e onde um novo fator, a mídia, torna
possível o acesso dos políticos aos eleitores sem que estes tenham que
necessariamente investir na construção de um partido ou de uma imagem
partidária. Mais ainda, ao que tudo indica a competição política no país
continuará se desenvolvendo no interior de uma estrutura de incentivos -
materializada no sistema de lista aberta - que torna a competição eleitoral uma
disputa entre indivíduos e estimula a priorização de estratégias que favorecem
a criação de laços entre os candidatos e os eleitores, bem como a afirmação de
atributos pessoais em relação aos do partido. Isso significa que embora possam
ser computados ganhos no que se refere à estabilidade, o atual sistema
partidário continuará operando em um contexto onde é muito pouco provável que
uma parcela expressiva dos eleitores passe a se identificar de forma mais
consistente com os partidos e a utilizá-los como referência básica para suas
escolhas eleitorais. Em poucas palavras, o espaço para a construção de
carreiras políticas marcadamente individualistas não é algo que vá diminuir com
o tempo. Pelo contrário, tais carreiras continuarão a conviver com aquelas em
que o partido é a referência indiscutível.
No presente estudo, para se chegar a uma medida da maior ou menor inclinação
partidária dos deputados foram utilizadas quatro perguntas do questionário
aplicado nas doze assembleias. As questões foram as seguintes:
* Q.16 - Quanto à lista de candidatos para deputados e vereadores, qual o
(a) sr(a) acredita ser o tipo mais adequado para o Brasil? 1. Lista
aberta; 2. Lista fechada; 3. Outro tipo de lista. Qual?
* Q.30 - Na última eleição, qual foi o fator mais importante para conseguir
apoio político-eleitoral de prefeitos e vereadores? E em segundo lugar?
1. Suas relações pessoais ou familiares com prefeitos e/ou vereadores. 2.
Suas relações partidárias. 3. A intermediação de lideranças locais. 4. A
ocupação prévia do cargo de prefeito em um município importante. 5. A
realização de obras na região, em outras ocasiões. 6. O seu apoio à
campanha deles, quando eles foram candidatos.
* Q.61 - Quando há um conflito entre os interesses dos eleitores de sua
região e as posições de seu partido, como o(a) Sr.(a) costuma votar? 1.
Sempre com o partido; 2. Sempre de acordo com os interesses dos eleitores
de sua região.
* Q.63 - Quando um deputado, eleito por determinado partido, decide se
desvincular deste partido, o que o(a) sr(a) acha que o deputado deve
fazer? 1. Conservar sua cadeira e se integrar a outra bancada; 2.
Renunciar à sua cadeira para que outro membro do partido assuma.
As quatro questões foram tratadas como variáveis dummy, sendo que o valor (0)
significava uma posição de caráter mais individualista e o valor (1), uma
posição de caráter partidário. Na pergunta 16 foi necessário classificar as
respostas dos deputados que assinalaram "outro tipo de lista". Neste caso, os
deputados foram convidados a explicitar sua opção. Quando isso apontou no
sentido de uma lista pré-ordenada e flexível ou de uma lista fechada no
contexto de um sistema eleitoral de tipo alemão, a resposta foi classificada
como indicando comportamento mais partidário (1). No caso da questão de número
30 não existia uma contraposição entre as alternativas propostas aos deputados,
mas foi possível destacar aqueles que assinalaram "as relações partidárias" em
primeiro ou segundo lugar; as demais respostas foram agrupadas como (0).
O índice foi construído somando as respostas dadas (0 ou 1) por cada deputado.
No entanto foi preciso lidar com o fato de que cerca de oitenta deputados
declararam não ter recebido apoio de prefeitos ou vereadores em sua eleição (Q.
30). Optou-se por fazer uma ponderação, generalizando o procedimento de modo a
valer para todas as questões. Em outras palavras, foram considerados todos os
casos em que os deputados responderam pelo menos três das quatro questões. A
soma obtida com as respostas foi dividida pelo total de questões respondidas.
Dessa forma, chegou-se a sete valores: 0,0; 0,25; 0,33; 0,50; 0,67; 0,75 e 1,0
(0,25 correspondendo a um ponto em quatro questões; 0,33 correspondendo a um
ponto em três e assim sucessivamente). Posteriormente os valores foram
reagrupados da seguinte maneira: 0,0 = 0; 0,25 e 0,33 = 1; 0,5 e 0,67= 2; 0,75
e 1,00 = 3.
Ao fim e ao cabo, foi possível chegar a um índice de partidarismo com variação
de 0 (perfil menos partidário) a 3 (perfil mais partidário). A Tabela_1 mostra
a distribuição do índice em termos percentuais nos estados analisados, bem como
o valor médio alcançado em cada um deles.
A variação do índice e o contraste entre os extremos da Tabela_1 são
expressivos. No Rio Grande do Sul, 30,4% dos entrevistados revelaram baixo
perfil partidário - posições 0 e 1. Em Santa Catarina foram 33,3% e em São
Paulo 48,7%. Já nos estados do Rio de Janeiro, Goiás, Tocantins e do Mato
Grosso as posições 0 e 1 foram ocupadas por 64,2%, 71,0%, 70,6% e 68,4% dos
legisladores respectivamente.
A estabilidade da competição política nos estados
A discussão sobre a "consolidação estrutural" dos sistemas partidários remonta
a Sartori. O conceito, para o autor, atenta para o "impacto imobilizador das
estruturas" (1976, p. 294). De maneira simplificada, um sistema estruturado
constitui-se quando o eleitor, ao votar, orienta-se por um vínculo de lealdade
e por uma imagem abstrata que faz dos partidos. O sistema passa a ser
percebido, então, como "um sistema natural de canalização da sociedade
política" (Sartori, 1996, p. 51).
Não parece haver dúvidas quanto ao fato de que sistemas partidários
"consolidados" tendem a gerar melhores resultados do que aqueles que não
atingem tal condição. O jogo político torna-se mais estável, menos permeável ao
surgimento de outsiders e mais inteligível para o eleitor, ampliando, em
decorrência, as chances de que ele possa exercer algum controle sobre os
representantes eleitos.3
O problema passa a ser como mensurar o grau de consolidação ou
institucionalização de um sistema partidário. Sartori não se detém neste ponto,
limitando-se a dizer que "os partidos de massas são um bom indicador de um
sistema de partidos estruturado" (1976, p. 295).4 Ao fazer essa opção, Sartori
"condena" os sistemas partidários das novas democracias a um estado de "não
consolidação". Essa questão tem sido lembrada e discutida em trabalhos mais
recentes(Mainwaring e Scully, 1995; Mainwaring e Torcal, 2005 e Mainwaring e
Zoco, 2007), que procuram desenvolver um referencial analítico para o estudo
dos sistemas partidários nas democracias da "terceira onda". A ideia básica é
de que seria possível trabalhar o conceito de institucionalização como um
contínuo.5 Na formulação inicial do problema, Mainwaring e Scully optaram por
trabalhar com quatro dimensões da institucionalização. Já no artigo de 2005,
Mainwaring e Torcal limitam-se a trabalhar com duas delas: a estabilidade na
competição eleitoral (medida por meio da volatilidade) e a profundidade das
raízes partidárias na sociedade.6
A noção de institucionalização, por outro lado, ajuda a entender a dinâmica dos
sistemas partidários nas novas democracias, com a ressalva de que não se deve
pressupor um processo de caráter teleológico - cuja meta seria "alcançar" o
modelo europeu - e muito menos irreversível, como o mostra a experiência
recente da Venezuela.7 De modo mais específico, aqui interessa abordar um
aspecto da institucionalização dos sistemas partidários: sua capacidade de
desenvolver um padrão estável de competição política.
Visto sob este ângulo o sistema partidário brasileiro tem apresentado uma
evolução positiva. Ainda que a fragmentação mantenha-se alta e o nível de
identificação partidária, baixo, não se registram mais partidos que desaparecem
da noite para o dia depois de terem sido usados pelos políticos. As quatro
maiores legendas nacionais - PT, PSDB, PMDB e DEM - controlam desde 1994 no
mínimo 60% da Câmara e 70% do Senado. Nas eleições presidenciais, também desde
1994, observa-se um padrão de disputa bipartidária, e no Congresso os partidos
que formam o "núcleo duro" dos dois blocos em disputa não compartilham as
mesmas coalizões (Melo, 2007).8
Mas o quadro muda quando o foco se desloca para os estados. Países
federalistas, em especial aqueles cujas unidades subnacionais são dotadas de
elevado nível de autonomia, costumam apresentar dinâmicas políticas
regionalmente diferenciadas, com impacto sobre a competição nacional. Nestes
casos, a eleição regional, ainda que vinculada à disputa nacional, possui
importância em si mesma, seja para o eleitor, que pode escolher candidatos de
diferentes partidos nos dois níveis; seja para os partidos, que podem
estabelecer coligações distintas; seja para os políticos individualmente, que
têm sua carreira assentada em vínculos de ordem local.
No caso brasileiro, tal tendência foi acentuada pelo fato de que a matriz
originária do atual sistema partidário - o bipartidarismo que emerge das urnas
em 1982 - viu-se completamente modificada nos anos seguintes, ao contrário do
que aconteceu com o sistema inaugurado em 1945. Naquele período ocorreram
mudanças na correlação de forças entre os três grandes partidos, mas não se
verificou a emergência de legendas desafiantes. Atualmente, a quebra da matriz
foi dramaticamente ilustrada pela implosão do PMDB na Constituinte (Melo,
2004), em um processo que abriu espaço a uma caótica reacomodação das elites
regionais e contribuiu para uma expressiva diferenciação no interior do sistema
partidário nacional.9 Como resultado, os sistemas partidários estaduais
passaram por processos distintos a depender da força local dos grandes partidos
nacionais e do padrão de interação estabelecido entre os competidores.
Se para o período democrático iniciado em 1945 fazia sentido analisar tais
subsistemas, como o demonstrou Lima Jr. (1983), hoje isso é ainda mais claro e
uma série de autores têm se dedicado a esta tarefa. Ferreira, Batista e Stabile
(2008) analisaram a oferta partidária nos estados brasileiros tendo em conta a
idade dos partidos, a votação recebida nos diversos níveis e alguns elementos
dos sistemas estaduais. Rennó, Peres e Ricci (2008) procuraram explicar a
variação encontrada nos índices de volatilidade para as eleições da Câmara dos
Deputados nos estados. Epstein (2009) argumentou ser possível distinguir quatro
diferentes padrões de competição entre os estados brasileiros (fragmentado,
instável competitivo, estável competitivo e hegemônico) e apresentou como
variável explicativa mais importante o grau em que os partidos, nos estados,
aderem a estratégias clientelísticas na busca de vínculos com o eleitor. Por
fim, Bohn e Paiva (2009) analisaram a tendência apresentada pelos índices de
volatilidade nos estados considerando-se todos os tipos de pleito.
Para os objetivos deste texto interessa distinguir os doze estados analisados
no que se refere ao grau de estabilidade/instabilidade da competição eleitoral,
uma vez que se supõe haver alguma relação entre esta variável e o perfil mais
ou menos partidário revelado pelos deputados nas entrevistas realizadas. Nos
estados onde os partidos estruturam de forma mais clara a competição, gerando
ganhos de estabilidade, sua importância será mais destacada, se não para a
escolha do eleitor (isso é algo que aqui não poderá ser verificado), certamente
para a constituição das carreiras políticas. Não se pretende neste estudo
estabelecer, tal como faz Epstein (2009), diferentes padrões de competição, mas
apenas localizar os estados em um contínuo referente ao quesito estabilidade.10
Por outro lado, acredita-se que o grau de estabilidade da competição eleitoral,
embora represente um aspecto crucial da institucionalização ou "consolidação
estrutural" dos sistemas partidários, não necessariamente esgota a discussão a
esse respeito.
Para classificar os sistemas partidários em função do grau de estabilidade na
competição eleitoral foram definidos cinco indicadores. Tradicionalmente
utilizado na discussão sobre institucionalização, o índice de volatilidade
responde pelos três primeiros, com base nas eleições para as Assembleias
Legislativas, a Câmara dos Deputados e os governos estaduais entre 1982 e 2006.
Como já ressaltado pela literatura, observa-se grande variação entre as
unidades da federação. Para as três medidas, o valor encontrado para o estado
com os menores índices, no caso Santa Catarina, é cerca da metade daquele
verificado nos estados onde o sistema partidário se mostra mais volátil - Mato
Grosso nas eleições para Assembleias e governos e Tocantins para a Câmara dos
Deputados. Na Tabela_2 são apresentados os valores médios para o período.
O quarto indicador é o percentual de deputados eleitos para a Câmara que mudou
de partido entre 1982 e 2006. Foram considerados apenas os titulares. A
suposição é a de que uma alta taxa de deputados migrantes aumenta a
instabilidade dos resultados eleitorais, uma vez que o deputado que troca de
partido leva consigo parcela de seu eleitorado. Não é por outra razão que, como
mostraram Melo (2004) e Rennó, Peres e Ricci (2009), a incidência das migrações
encontra-se associada ao índice de volatilidade nos estados. Neste caso, a
variação é ainda mais expressiva do que para os índices de volatilidade, como a
observação da tabela evidencia.
A diferença em termos percentuais entre a votação, no primeiro turno, do
governo eleito e de seu partido para a Assembleia Legislativa fornece o quinto
indicador. O suposto é de que nos estados onde tais votações se encontram mais
próximas os partidos são referenciais mais fortes no momento da escolha
eleitoral. Os valores apresentados referem-se à média para o período
considerado. Novamente a diferença é significativa: a distância média entre as
votações para o governador e seu partido é de 15,7% em São Paulo e de 36,85% no
Mato Grosso.
Como se pode perceber pela Tabela_2, os indicadores estão fortemente
correlacionados. Para qualquer par de indicadores a relação, medida pelo
coeficiente de Pearson, é de no mínimo 0,606, significativo a 0,01. O passo
seguinte foi estabelecer um índice que permitisse a comparação entre os estados
no modelo a ser utilizado. Para tanto, o procedimento foi simples: os valores
obtidos em cada célula foram normalizados e somados, resultando em um índice
com variação de 0 a 5. Dessa forma, quanto mais elevados os valores obtidos
pelo estado nos indicadores utilizados, mais próximo de 5 ele estará situado, o
que significa que menos estável terá sido a competição eleitoral entre os anos
de 1982 e 2006. O resultado expresso na última coluna da Tabela_2 remete,
portanto, a um índice de instabilidade da competição eleitoral. Em um extremo
da tabela encontram-se os estados onde a competição eleitoral apresenta maior
estabilidade: Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Por outro lado, no
Mato Grosso, Tocantins e Rio de Janeiro o cenário revela-se mais volátil.
Quem são os deputados partidários?
Nesta seção serão apresentadas as hipóteses formuladas com o objetivo de
discutir a relação entre determinadas características individuais dos
legisladores entrevistados e seu grau de partidarismo.
A primeira hipótese refere-se ao tempo de filiação. Em trabalho sobre as
migrações partidárias no Brasil, mostrei (Melo, 2004) que deputados com mais de
oito anos de filiação a uma legenda possuíam quatro vezes menos chance de mudar
de partido do que aqueles filiados a menos de quatro anos. O argumento aqui
segue a mesma direção: maior tempo de permanência do deputado em um partido
indica a existência de incentivos, coletivos ou seletivos (Panebianco, 1988),
preciosos para a carreira política. A hipótese, portanto, é de que deputados
com maior tempo de filiação apresentem perfil mais partidário. Os dados sobre
filiação foram obtidos diretamente com os deputados. Dos 513 deputados
entrevistados, 22 (4,3%) haviam se filiado a seu partido em 2007 - ano que foi
realizada a pesquisa; outros 148 (28,8%) filiaram-se entre 2003 e 2006; 93
(18,1%) filiaram-se entre 1999 e 2002; 47 (9,2%), entre 1995 e 1998, enquanto
189 (36,8%) ingressaram em seu partido antes de 1995.11
A segunda hipótese refere-se à ideologia. A hipótese é de que deputados eleitos
por partidos de esquerda apresentem perfil mais partidário. Seguindo meu
argumento (Melo, 2004), duas razões podem ser apontadas para isso. De um lado,
é possível caracterizar os partidos de esquerda como organizações dotadas de
orientação mais programática, em contraposição ao caráter mais nitidamente
eleitoral dos partidos situados à direita do espectro político.12 O maior peso
conferido a questões programáticas e ideológicas explicaria a existência de
vínculos mais robustos entre tais partidos e seus representantes. Nos termos de
Panebianco (1982), em partidos com essas características os incentivos de tipo
coletivo mantêm sua importância, ao contrário do que ocorre em partidos
"puramente" eleitorais, em que os incentivos seletivos são largamente
dominantes, quando não únicos.
Uma segunda explicação abre espaço para um cálculo de ordem mais pragmática por
parte dos deputados: a possibilidade de que os membros dos partidos de esquerda
se beneficiem de estratégias eleitorais coletivas desenvolvidas por suas
organizações. No PT, o mais notório dos casos, a ênfase conferida à legenda
sempre reduziu os custos de campanha e possibilitou a eleição de deputados com
votação mais baixa do que a necessária nos demais partidos de porte médio e
grande. Em menor grau, o raciocínio vale para as seções do PDT no Rio de
Janeiro e no Rio Grande do Sul. No PC do B, a opção pelo lançamento de apenas
dois ou três candidatos em cada estado, geralmente em coligação com o PT, faz
com que os escolhidos - e quase sempre são os mesmos, dado que a definição da
lista é uma atribuição do comitê dirigente no estado - possuam melhores
perspectivas de sucesso eleitoral que em qualquer outra legenda. Os deputados
eleitos pela esquerda também podem contar com outro importante recurso
eleitoral: os laços com os militantes oriundos dos movimentos sociais. Pode-se
dizer, portanto, que para os políticos de esquerda a relação entre sucesso
eleitoral e estrutura partidária é mais clara do que no caso dos que se
perfilam ao centro e à direita.
Para operacionalizar o teste da hipótese os partidos foram classificados em um
contínuo esquerda-direita com base em uma média obtida a partir de três
questões contidas no questionário aplicado aos deputados. Tomando como base uma
escala de 1 a 10, em que 1 representa a posição mais à esquerda e 10 a posição
mais à direita, foi solicitado aos deputados que classificassem um conjunto de
partidos que não o seu, que se autoclassificassem e que classificassem seu
próprio partido13. Seguindo Castro, Nunes e Anastásia (2009), que trabalharam
com os mesmos dados, foram considerados de esquerda os partidos cuja média
obtida ficou entre 0 e 4 (PCdoB, PSOL, PT, PDT e PSB). Foram classificados como
de centro aqueles situados entre 4,1 e 6,0 (PMDB, PSDB, PPS, PV, PSC, PTdoB,
PHS, PSL, PMN, PRB e PSDC). À direita foram posicionados os que se situaram
acima de 6,0 (PTB, PR, DEM, PP, PTN e PAN). Ao final o conjunto dos deputados
eleitos por partidos classificados à esquerda abrangeu 27,7% do universo
pesquisado, os eleitos pelo centro, 45,2%, e aqueles cujo partido situava-se à
direita, 26,7%.
A terceira hipótese aventada é de que deputados com tendência a exercer o
mandato sob uma ótica mais universalista, em contraposição àqueles de
orientação mais particularista, tendem a apresentar perfil mais partidário. Na
literatura especializada é comum encontrar a suposição de que o particularismo
tende a prevalecer em contextos onde predomina o voto personalizado (Kitschelt,
2000), processo que poderia ser mitigado com a presença mais destacada dos
partidos (Shugart, 2001). Ou seja, deputados que constroem seu mandato
prioritariamente com base no atendimento de demandas específicas tendem a se
apoiar mais em relações de caráter individual, dispensando, ou minimizando a
importância da mediação partidária. De acordo com Linz (2002), aqueles que
representam "interesses especiais" entram, com frequência, em conflito com seus
líderes, mais preocupados com interesses de caráter universal.
Para a medida do grau de particularismo dos deputados foi adotado o índice
utilizado por Castro, Nunes e Anastásia. Trabalhando com o mesmo questionário
utilizado para este artigo, os autores chegaram a um índice somatório criado a
partir das seguintes questões: (a) afirmação do deputado de que a função a que
dá mais importância é "propor emendas ao orçamento estadual que beneficiem a
sua região"; (b) frequência com que os deputados afirmam ter realizado, na
atual legislatura, a atividade de "atender ou encaminhar pleitos de seus
eleitores"; (c) frequência com que os deputados afirmam ter realizado, na atual
legislatura, a atividade de "tratar, junto à burocracia, das demandas de
prefeitos de sua região"; (d) frequência com que o deputado utiliza "visitas às
suas bases eleitorais" como meio para informar seus eleitores sobre sua atuação
parlamentar; (e) importância que o deputado dá a "conseguir recursos para a sua
base eleitoral" na reeleição de um candidato à Assembléia Legislativa.14 O
índice construído variou de 2,67 a 20 pontos, com média de 14,77 e desvio
padrão de 3,38 (Castro, Nunes e Anastásia, 2009, p. 978).
A quarta hipótese formulada foi a de que deputados mais progressistas tenderiam
a apresentar perfil mais partidário, o que resulta, simplesmente, de uma
derivação da antiga tese da sociologia política, segundo a qual contextos mais
modernos associam-se à presença de partidos políticos, enquanto contextos mais
tradicionais vinculam-se a relações políticas de tipo personalista (Lipset e
Rokan, 1967).
No questionário utilizado na pesquisa, os deputados foram convidados a se
posicionar contra ou a favor de alguns temas polêmicos. Foram considerados
progressistas os que se manifestaram contra a pena de morte, a favor da
descriminalização do uso de drogas, da união civil de pessoas do mesmo sexo, do
aborto como direito das mulheres e da proibição da venda de armas de fogo. Com
base nestas questões foi possível chegar a um índice de progressismo com
variação de 0 a 5. Apenas 3,5% dos deputados foram classificados na posição
mais conservadora (0). Na posição (1) ficaram 18,9%, na (2) 27,3%, na (3)
25,7%, na (4) 16,6% e na posição mais progressista 8,0% dos entrevistados.
A quinta hipótese defende que deputados vinculados a religiões mais
conservadoras apresentarão perfil menos partidário. A intenção inicial era a de
estabelecer um contraponto entre os deputados evangélicos e os demais.15
Segundo alguns autores (Pierucci, 1989; Prandi, 1992; Freston, 1993), é
possível afirmar que os evangélicos possuem um perfil mais conservador que
estaria associado, de acordo com Prandi (1992), a uma pregação - dirigida aos
eleitores - segundo a qual é preciso se manter longe do terreno da política e
de tudo o que ela representa e à percepção de que o que vale é a defesa dos
interesses e dos valores defendidos pela Igreja (o que muitas vezes assume a
forma de uma "candidatura oficial"). Nesse contexto, faz pouco sentido esperar
que tais deputados se sintam vinculados aos partidos pelos quais foram eleitos,
o que é perfeitamente coerente quando se observa a trajetória dos deputados
evangélicos na Câmara dos Deputados. Como mostra Fernandes (2004), tais
deputados distribuem-se pelas mais diversas legendas ao centro e à direita e
trocam de partido com muita frequência.
No entanto, o pequeno número de deputados que declarou pertencer a igrejas
evangélicas impossibilitou que se pudesse utilizar esse grupo como referência
na discussão. A alternativa, pois, foi recorrer ao "outro lado" do espectro,
uma vez que o questionário permitia distinguir os católicos próximos à teologia
da libertação dos católicos carismáticos ou que se declararam conservadores. Um
total de 146 entrevistados declarou-se católico progressista (28,5% do
universo), o que permitiu utilizar este grupo como referência, contrapondo-o ao
grupo composto pelos demais deputados católicos e pelos evangélicos.
Por fim, foi possível formular outras três hipóteses, segundo as quais
deputados com perfil mais individualista tenderiam a: (1) pertencer a famílias
com tradição política; (2) não possuir experiência legislativa; (3) apresentar
maior nível de renda e não se dedicar exclusivamente à atividade legislativa. A
primeira hipótese fundamenta-se na ideia de que no Brasil a existência de uma
tradição política que passa de pai para filho ajusta-se melhor à visão de que
os partidos são um instrumento a ser utilizado de acordo com a conveniência.
Para operacionalizá-la foi utilizada a questão sobre a presença de familiares
na política e agrupadas as respostas que apontavam a presença de pai/mãe de
forma isolada ou associada a tio/avô. A segunda hipótese baseia-se na ideia de
que o cenário legislativo brasileiro é distinto do cenário eleitoral no sentido
de que, no primeiro, os partidos contam de forma mais efetiva e sem o seu
concurso a busca dos objetivos dos deputados tende a se frustrar (Figueiredo e
Limongi, 1999). A pergunta utilizada permitia separar os deputados de primeiro
mandato dos demais. Para a última hipótese recorreu-se, novamente, aos estudos
clássicos sobre os partidos que sustentam que os vínculos entre estes e seus
membros tendem a ser mais fortes quanto menor a autonomia econômica dos
segundos. Ainda que aqui não esteja se tratando de cidadãos "comuns" e sim de
parte da elite brasileira, a intenção era verificar se as distinções existentes
neste nível poderiam contribuir na explicação da variação no grau de
partidarismo. Foram destacados do conjunto dos deputados aqueles que, ao mesmo
tempo, ocuparam as duas maiores faixas de renda e declararam se dedicar a
outras atividades além da legislativa, num total de 137 entrevistados (26,7% do
universo).
Testando as hipóteses
Para o teste das hipóteses utilizou-se um modelo de regressão logística
multinomial. Diferente da regressão logística, esse modelo é recomendado quando
a variável dependente, no caso o índice de partidarismo, não se restringe a
duas categorias. Tampouco seria adequado o uso de uma regressão linear, visto
que não existe um ordenamento natural entre as categorias da variável. O modelo
multinomial permite perceber como as categorias se comportam sob a influência
dos fatores escolhidos como preditores.
No modelo apresentado a seguir, nem todas as variáveis independentes foram
incluídas. As variáveis tradição familiar e experiência legislativa não
mostraram correlação significativa com o índice de partidarismo. As hipóteses
correspondentes foram, portanto, refutadas. A variável renda apresentou
correlação significativa e no sentido esperado quando submetida a testes
simples de correlação. Mas, uma vez introduzida no modelo de regressão a
significância, desapareceu por completo.
Também não foi incluída no modelo final a variável religião. Ela apresentou
correlação significativa com o índice de partidarismo - deputados que se
declaram evangélicos, católicos conservadores ou carismáticos tendem a situar-
se nas categorias 0 e 1 do índice de partidarismo, enquanto os católicos
progressistas são encontrados com maior frequência nas categorias 2 e 3. Quando
introduzida no modelo, o desempenho da variável é igualmente relevante. No
entanto, o número de deputados sem religião ou cuja opção religiosa não podia
ser facilmente classificada fez com que a quantidade de casos perdidos saltasse
de 22 para 83. Por conta disso, optou-se por retirar a variável do modelo.
Dessa forma, o modelo final contou com cinco variáveis independentes: grau de
estabilidade da competição eleitoral estadual, tempo de filiação, ideologia,
particularismo e progressismo. Todas elas foram tratadas como dummies. No caso
da competição eleitoral optou-se por separar os estados mais estáveis - Santa
Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo (Tabela_2) - dos demais, dando-lhes o
valor (1).16 Quanto ao tempo de filiação, os deputados foram divididos em dois
grupos: os com filiação entre 2007 e 1995 (0) e aqueles com filiação anterior a
este ultimo ano (1). Para o caso da ideologia, os deputados filiados a partidos
de centro e direita foram classificados como (0) e os de esquerda como (1). No
que se refere ao particularismo, os deputados situados acima da média (14,67)
obtida no índice de Castro, Nunes e Anastasia (2009) assumiram o valor (0). No
caso do índice de progressismo, optou-se por agregar os deputados inicialmente
classificados em 0, 1 e 2, contrapondo-os ao grupo dos classificados em (3),
(4) e (5). Os mais progressistas receberam o valor (1). Assim, espera-se que os
resultados sejam positivos para todas as variáveis - deputados de perfil mais
partidário terão mais chance de serem encontrados nos sistemas de maior
estabilidade eleitoral e entre aqueles deputados com maior tempo de filiação,
mais universalistas, eleitos por partidos de esquerda e de perfil mais
progressista.
A Tabela_3 permite confirmar as previsões. O modelo mostra que a variável tempo
de filiação é a que apresenta melhor desempenho, mantendo valores
significativos e no sentido esperado para as categorias (3), (2) e (1), quando
comparadas à categoria de referência (0). Deputados de perfil mais partidário,
categoria (3), possuem 15,6 vezes mais chance de estarem entre aqueles que
possuem maior tempo de filiação (anterior a 1995) do que os deputados da
categoria de referência, os de perfil menos partidário. Quando examinamos os
deputados de categoria (2) a chance é 7,9 vezes maior, valor que cai para 3,1
quando a comparação é feita entre os deputados das categorias (1) e (0).18
A variável estabilidade eleitoral apresenta valores significativos e no sentido
esperado para as categorias (3) e (2). Deputados mais partidários apresentam
2,6 vezes mais chance de serem encontrados nos sistemas partidários em que a
competição eleitoral atingiu maior grau de estabilidade (SC, RS e SP) do que os
deputados da categoria (0). Para os da categoria (2) a chance é um pouco menor:
2,0. Quando comparados os deputados de tipo (1) e (0), a diferença deixa de ser
significativa.
Também a variável particularismo apresenta valores significativos e positivos
para as duas mais altas categorias do índice de partidarismo. No entanto, o
resultado é menos coerente do que o encontrado para a variável anterior, já que
a chance de que deputados de tipo (2) sejam também mais universalistas - quando
comparados aos de tipo (0) - é praticamente a mesma que a encontrada quando são
analisados os deputados de tipo (3) - em torno de 2,0. Ademais, pode-se
observar que os valores encontrados para a categoria (2) são pouco mais
significativos que aqueles observados para a categoria (3).
As variáveis ideologia e progressismo só apresentam resultado significativo
quando são comparadas as categorias (3) e (0) do índice de partidarismo.
Deputados de perfil mais partidário possuem 5,4 vezes mais chances de pertencer
a partidos de esquerda e 2,8 vezes mais de estarem entre aqueles que professam
valores mais progressistas.19 Quando se analisa os deputados da categoria (2),
a variável ideologia ainda mantém-se significativa a 0,1, enquanto o
progressismo deixa de possuir qualquer relação com a variável dependente.
Conclusão
No Brasil convivem deputados com trajetória claramente partidária e outros para
os quais o partido é um instrumento a ser utilizado de acordo com a
circunstância. Este texto procurou explorar esta diferenciação e, dentro de
seus limites, explicá-la.
Como ponto de partida foi utilizado um questionário aplicado a deputados
eleitos em 2006 em assembleias de doze estados brasileiros. Com base nas
respostas obtidas a algumas das questões foi elaborado um índice de
partidarismo.
Com o objetivo de explicar a variação observada no índice, um conjunto de
hipóteses foi formulado e cinco delas puderam ser corroboradas. Pelos testes
realizados, pode-se dizer que existe uma relação de reforço mútuo entre o tempo
de filiação e a importância que o deputado confere ao partido. Da mesma forma,
é possível afirmar que os deputados estaduais tendem a apresentar um perfil
mais partidário nos estados com maior estabilidade na competição eleitoral.
Trata-se de uma dimensão crucial do grau de institucionalização dos sistemas
partidários. Em outras palavras, ali onde a interação entre os partidos
apresenta padrão mais definido e um papel de maior relevo na competição
política, pode-se dizer que os deputados lhe atribuem maior importância.
De forma um pouco menos consistente do que para a variável anterior, deputados
que apresentam um mandato mais universalista tendem a apresentar um perfil mais
partidário. O mesmo pode ser dito dos deputados eleitos por partidos de
esquerda, mas neste caso a relação mostra-se mais frágil - o que pode indicar,
voltando aos sistemas partidários, que o desempenho destes últimos no modelo,
aqui medido pela estabilidade da competição eleitoral, não parece depender da
presença de partidos de esquerda. Por fim, deputados que expressaram opiniões
mais progressistas sobre temas polêmicos (contra a pena de morte, a favor da
descriminalização do uso de drogas, da união civil de pessoas do mesmo sexo, do
aborto como direito das mulheres e da proibição da venda de armas de fogo)
também se revelaram menos individualistas e mais partidários.
Os achados deste texto confirmam algumas hipóteses de caráter mais geral
presentes na literatura dentro de limites evidentes. Em primeiro lugar, como já
ressaltado, a pesquisa se refere apenas a alguns estados e não podem ser
generalizadas ao conjunto dos deputados no país. Em segundo, o estudo abrange
apenas uma legislatura e, nesse sentido, deve ser visto como uma análise
exploratória. Os estudos sobre os legislativos subnacionais no Brasil estão
apenas engatinhando, e este caso não representa uma exceção. Certamente
conclusões mais robustas sobre o tema aqui tratado dependem da existência de
séries históricas, algo que, evidentemente, ainda não possuímos.
Notas
1 Agradeço aos demais coordenadores do projeto, as professoras Fátima
Anastasia, Magna Inácio e Mônica Mata Machado de Castro pela utilização dos
dados. A pesquisa entrevistou 513 de um total de 624 deputados eleitos em 2006
para as assembleias dos referidos estados. O trabalho de campo foi realizado
entre outubro de 2007 e março de 2008. Envolveram-se nas entrevistas os
seguintes pesquisadores, estudantes da graduação em Ciências Sociais ou da pós-
graduação em Ciência Política na UFMG: Alessandra Costa, Breno Cypriano, Carlos
Augusto Mello Machado, Catherine Kelly Ornelas, Cláudio Lobenwein Resende,
Daniela Paiva de Almeida Pacheco, Deivison Souza Cruz, Diogo César Pereira,
Felipe Nunes dos Santos, Geralda Luiza de Miranda, Helga do Nascimento de
Almeira, Ivânia Moraes, Juliana Jardim Pereira, Lucas Rodrigues Cunha, Luciana
da C. Farias Santana, Marina Brito Pinheiro, Marta Mendes da Rocha, Maurício de
Moura Marques Jr, Paulo Magalhães Araújo, Poliana Régia da Silva, Raquel Novais
Reher, Renato Francisquini, Roberto Luiz Goulart Alves, Ronaldo Teodoro, Sandro
Amadeu Cerveira e Thiago Rodrigues Silame. A pesquisa contou com financiamento
da Fapemig e do CNPq. Beneficiou-se, ainda, de uma cooperação internacional com
a Universidade de Salamanca (Espanha) financiada pela Capes.
2 São necessários ainda mais alguns agradecimentos. O primeiro é dirigido aos
dois pareceristas anônimos pelas sugestões apresentadas. O segundo, a Ernesto
Amaral, colega do DCP/UFMG. Sem a sua ajuda o tratamento dos dados aqui
efetuado não teria sido possível. É evidente que os problemas que ainda assim
persistirem são de minha inteira responsabilidade. O terceiro, aos bolsistas de
iniciação científica Leôncio Caetano de Farias, Ana Clara Fernandes Cavalcanti
e Matheus Almeida, que auxiliaram na sistematização dos dados referentes aos
sistemas partidários estaduais.
3 Evidentemente, há que se lidar com o problema da mudança. Ainda que Sartori
não dê maior importância ao ponto, sistemas "consolidados" devem também
apresentar capacidade de se adaptar a mudanças no ambiente externo, sob o risco
de quebra (Cavarozzi e Casullo, 2003; Levitsky, 2005). A referência remete a um
dos critérios definidos por Huntington (1975) ao discutir a
institucionalização: a disjuntiva adaptabilidade/rigidez. Para o autor quanto
mais rígido, menos institucionalizado é o sistema. O próprio Sartori, depois de
apontar a proximidade entre os dois conceitos - consolidação estrutural e
institucionalização -, ressalta a diferença a esse respeito, mas não a discute,
limitando-se a dizer que seu conceito é "mais simples e menos ambicioso" que o
de Huntington. Para os objetivos deste texto, na medida em que interessa aqui o
requisito da estabilidade, os dois conceitos serão tratados do mesmo modo, como
faz a literatura recente, ou seja, de forma intercambiável.
4 Tal formulação, constante no clássico Partidos e sistemas partidários, é
menos abrangente do que a utilizada em Engenharia constitucional: afinal, nos
Estados Unidos a existência de um "sistema natural de canalização" prescindiu
da emergência de partidos de massa.
5 Discute-se bastante a utilização ou não da noção de contínuos na análise de
sistemas. O próprio Sartori (1976) chama a atenção para alguns problemas na
aplicação de tal ferramenta. Foge aos objetivos deste texto discutir essa
questão, mas cabe ressaltar que a alternativa sartoriana - a rígida distinção
entre sistemas consolidados e não consolidados - também não consegue resolver
de forma satisfatória o problema da mudança e da passagem de um estado a outro.
6 Além destas, o trabalho inicial propunha que se levasse em conta a
legitimidade conferida pelos atores políticos aos partidos e a prevalência das
organizações partidárias sobre os interesses dos líderes.
7 Neste país o sistema partidário foi destruído poucos anos depois de ser
apontado como altamente institucionalizado. Isso motivou Mainwaring e Torçal
(2005) a reconhecerem de forma explícita aos problemas aqui discutidos.
Novamente, é possível o retorno à disjuntiva adaptabilidade/rigidez, dando
razão a Huntington "contra" Sartori - a débâcle venezuelana é um claro exemplo
de um sistema cujos partidos se tornaram rígidos por demais, incapazes de
responder às mudanças de caráter exógeno em curso no país desde os anos de 1980
(Anastásia, Melo e Santos, 2004).
8 PT, PSB e PCdoB, de um lado, e PSDB e DEM, de outro, estabelecem blocos
distintos no Congresso, enquanto PMDB, PTB e PP oscilam entre os dois.
9 Um sistema partidário não pode ser confundido com um ajuntamento de partidos.
Para que se possa falar de um sistema partidário é preciso que exista um
conjunto de interações resultantes da competição entre os seus membros
(Sartori, 1976). Em tal situação, os partidos não são o sistema e não podem
mover-se à vontade porque se encontram constrangidos por suas interações com os
demais competidores (Mair e Bardi, 2008). Nesse sentido, para o caso
brasileiro, seria mais apropriado falar em sistema partidário para o Rio Grande
do Sul, Santa Catarina ou São Paulo, do que para Roraima, Rondônia ou Alagoas,
estados onde mais da metade dos deputados eleitos para a Câmara entre 1982 e
2006 mudou de partido e a volatilidade média ultrapassou a assombrosa marca de
45 pontos.
10 O desafio de se chegar a padrões de competição para os estados brasileiros é
tão estimulante quanto complexo. Basta verificar como um dos padrões definidos
por Epstein, com base nos dados de 1994 a 2002, deixou de existir após os
resultados das eleições de 2006 e 2010. Segundo o autor, Bahia e Ceará seriam
os mais claros exemplos de sistemas hegemônicos, nos quais um partido ficaria
"com a parte do leão". As vitórias do PT e PSB trataram de modificar
drasticamente a situação.
11 Apenas 14 deputados não responderam à questão.
12 A este respeito ver Gunther e Diamond (2003). Na tipologia proposta pelos
autores, mesmo entre os partidos eleitoralistas, seria possível distinguir
entre os de tipo catch all, os de tipo programático e os personalistas. Os
segundos guardariam diversas semelhanças com os partidos de massa "clássicos".
Wolinetz (2002), por sua vez, propõe uma série de critérios para distinguir
entre partidos de tipo policy seeker, office seeker e vote seeker.
13 Tal procedimento tem sido utilizado pela equipe de pesquisadores
responsáveis pela condução do projeto "Elites Parlamentares da América Latina"
(PELA). A diferença aqui se encontra no aproveitamento da questão em que os
deputados classificam os outros partidos que não o seu. No PELA, a posição
ideológica dos partidos é obtida com base nas duas outras perguntas do survey
(para o Projeto Elites, ver Alcántara, 2006). A mudança justifica-se porque no
Brasil há tendência dos deputados pertencentes aos partidos conservadores de se
posicionar ao centro, tendência "corrigida" pela referida questão. Melo e Nunes
(2009) utilizaram as mesmas perguntas em uma comparação entre os deputados
federais brasileiros e os chilenos.
14 Na primeira questão foram atribuídos quatro pontos ao deputado se ele
afirmou dar importância "em primeiro lugar" a essa função, dois pontos se
afirmou "em segundo lugar" e zero se não citou essa função entre as duas mais
importantes. Para a segunda e a terceira questões, utilizou-se a seguinte
escala: muitas vezes, algumas vezes, poucas vezes ou nunca, e os números de
zero a quatro foram atribuídos aos deputados de acordo com o grau crescente em
sua resposta sobre a frequência das atividades. Na quarta questão os valores de
zero a quatro foram atribuídos de acordo com a ordenação, feita pelos
deputados, de um conjunto de cinco itens alternativos. Por fim, na última
questão os pontos de zero a quatro foram atribuídos aos deputados de acordo com
uma escala de resposta que variava de "nunca" a "frequentemente".
15 O total de 44 deputados declararam não possuir religião.
16 Na Tabela 2 chegou-se a um índice de instabilidade eleitoral. Aqui no
modelo, como a expectativa era de uma relação positiva entre o índice de
partidarismo e a estabilidade eleitoral - deputados mais partidários
apresentando maior chance de serem encontrados nos estados onde a competição
houvesse se mostrado mais estável - optou-se por conferir o valor (0) aos
estados mais instáveis.
17 O modelo de regressão adotado não permite que o coeficiente de determinação,
R2, seja calculado da mesma forma como em uma regressão de tipo linear. Um dos
substitutos possíveis é o índice de Cox and Snell que, no caso em questão,
atinge o valor de 0,346 - o valor 1 significaria que 100% da variação do
fenômeno analisado seria explicada pelas variáveis independentes.
18 Os resultados são praticamente os mesmos quando se substitui a dummy tempo
de filiação por uma variável com cinco categorias - 2007, 2003-2006, 2002-1999,
1995-1998, antes de 1995.
19 A substituição da variável ideologia por outra, na qual os deputados do PT
são destacados dos demais, produz resultados semelhantes.