Efeitos genotóxicos dos pesticidas
INTRODUÇÃO
A persistência no ambiente e o facto da grande maioria dos pesticidas serem
pouco específicos e tóxicos para os processos biológicos comuns a muitas
espécies (apenas alguns são específicos para os processos metabólicos da
espécie que devem eliminar) pode levar ao aparecimento de uma série de efeitos
indesejados no ambiente e na saúde humana decorrentes da sua utilização
(Keifer, 2000).
A população humana pode estar exposta a estes compostos de diferentes formas:
envenenamentos acidentais ou tentativas de suicídio, exposição ocupacional e
exposição associada à ingestão de produtos edíveis (água e alimentos). As
populações mais expostas a estas substâncias são reconhecidamente aquelas que
lidam diariamente com elas na sua actividade profissional (na produção ou na
preparação e aplicação destes compostos) já que isto implica uma exposição
frequente a estes compostos.
As intoxicações agudas são provavelmente um dos efeitos mais conhecidos dos
pesticidas: a Organização Mundial de Saúde estima que por ano ocorram 1 a 5
milhões de casos de envenenamento por pesticidas (muitos dos quais poderão ser
voluntários) (WHO, 1990). Por outro lado, surgem evidências de outros efeitos
na saúde humana, tais como doenças dermatológicas, neurológicas, reprodutivas,
dano genético e até o aumento da incidência de cancro (Sanborn, 2004). Estes
efeitos são normalmente observados em agricultores que constituem uma população
continuamente exposta a estes compostos, embora a níveis mais baixos.
Só com este conhecimento podem surgir estratégias que mediante selecção,
análise e aplicação sejam capazes de reduzir os riscos decorrentes da
exposição.
PESTICIDAS
Os pesticidas (também designados produtos fitofarmacêuticos) incluem uma grande
variedade de substâncias activas muito diferentes na sua composição e nas suas
propriedades. Estes compostos podem ser naturais ou sintéticos e são utilizados
para prevenir, destruir ou repelir qualquer organismo inimigo das culturas
(Cecchine et al., 2000). Designam-se também por pesticidas, os produtos que
condicionam a produção vegetal, denominados, reguladores de crescimento. Estes
compostos são largamente utilizados na agricultura para protecção das culturas
e também em saúde pública para controlar a transmissão de doenças por vectores
e hospedeiros intermédios.
Nas últimas décadas, a agricultura tradicional aderiu ao sistema de monocultura
que favorece o aparecimento de pragas, doenças e infestantes. Este problema
leva muitas vezes à utilização abusiva e inapropriada de pesticidas. Em
Portugal, foi registada em 2005 uma diminuição de 3,5% no volume de vendas
destes compostos relativamente ao ano anterior (Vieira, 2006). Ainda assim,
Portugal continua a ser um dos países da União Europeia em que estas
substâncias são mais utilizadas (3.74Kg/ha e 2.10Kg/ha, respectivamente).
Toxicocinética dos pesticidas
A toxicocinética dos xenobióticos (compostos químicos estranhos ao organismo)
inclui a absorção, distribuição, armazenamento, biotransformação e eliminação
(Hughes, 1996).
A absorção depende das propriedades físico-químicas do agente tóxico, da dose,
duração e via de exposição. A pele, o tracto respiratório e tracto
gastrointestinal constituem as principais vias de exposição e absorção. Alguns
autores sugerem que a pele é a principal via de entrada dos pesticidas (Aragon,
2005). Ainda assim, a via respiratória não deve ser ignorada quando o indivíduo
está exposto a compostos com alta pressão de vapor ou realiza as suas
actividades em ambiente confinado. O tracto gastrointestinal é importante se
estiver em causa a ingestão de água ou alimentos contaminados, além dos casos
de ingestão voluntária (suicídios) ou involuntária (homicídios).
Uma vez na corrente sanguínea, o trajecto do composto depende não só das suas
propriedades químicas mas também da concentração desse mesmo composto no sangue
e nos tecidos (NRC, 2004).
Os organismos dispõem de enzimas capazes de metabolizar alguns xenobióticos
participando activamente na destoxificação destes compostos. A inexistência de
processos enzimáticos capazes de transformar os anéis aromáticos e remover os
átomos de cloro dos organoclorados leva a que a metabolização destes pesticidas
seja extremamente lenta. Além disto, estes compostos são lipofilicos pelo que
se acumulam no tecido adiposo onde permanecem estáveis até que pequenas
quantidades sejam excretadas e as concentrações no sangue sejam compensadas.
A biotransformação dos compostos organofosforados inclui um grande número de
reacções metabólicas que envolvem o sistema do citocromo P450. A dessulfuração
dos ésteres dos organofosforados resulta na formação da configuração oxão, o
que acarreta um aumento significativo da toxicidade do composto, uma vez que
esta forma é responsável pela inibição da acetilcolinesterase. Na fase II de
metabolização ocorrem reacções de glucuronidação e sulfonação dos ésteres
previamente hidrolisados. Os carbamatos são metabolizados de forma semelhante.
Alguma evidência científica sugere que os piretróides são rapidamente
destoxificados através da actividade de hidrolases e monoxigenases (Ecobichon,
2001). A exposição múltipla a pesticidas pode modificar as vias de
metabolização e potenciar os efeitos dos compostos.
Embora os pesticidas possam ser eliminados do corpo pelas fezes, ar exalado,
leite materno, suor e saliva, a urina é a mais importante via de excreção quer
dos compostos iniciais quer dos seus metabolitos (Stacey, 2004).
DANO GENÉTICO
A duração de cada uma das fases que incluem o mecanismo de toxicocinética
determina o tempo que os compostos têm para exercer o seu efeito e para
possivelmente danificar o tecido alvo: toxicodinâmica (mecanismo de interacção
entre os agentes químicos ou os seus produtos com o organismo) (Hughes, 1996).
Para além de danificar os órgãos alvo, os pesticidas podem interagir com
moléculas fundamentais, tais como o ADN, ARN e proteínas.
Os agentes químicos podem danificar as células através de diferentes
mecanismos. Com base nestes mecanismos, os compostos podem ser classificados de
mutagénicos, genotóxicos ou citotóxicos (não são mutuamente exclusivos).
Mutagenicidade encerra alterações estruturais de um gene que podem ser mutações
pontuais (alterações nas bases da molécula de ADN, duplicações, inserções,
inversões e translocações) ou delecções.
Mesmo sem exposição a agentes químicos, as alterações da molécula de ADN são
eventos frequentes pelo que as células dispõem de diversos mecanismos de
reparação capazes de restaurar a molécula à sua estrutura inicial. O mecanismo
de excisão de bases, excisão de nucleótidos, reparação de quebras duplas e a
reparação mismatch constituem os processos básicos de reparação do ADN. As
fases fundamentais dos sistemas de reparação incluem o reconhecimento, excisão
do dano, síntese de ADN e ligação. Em último caso, e se não for possível
reparar o dano, as células podem iniciar o processo de apoptose (Preston e
Hoffman, 2001).
O potencial genotóxico de um composto é um dos mais importantes factores de
risco para o aparecimento de efeitos a longo prazo como cancro ou efeitos a
nível reprodutivo. São compostos genotóxicos aqueles que directamente ou
indirectamente são capazes de danificar o ADN nuclear. A probabilidade deste
dano genético originar um efeito real na saúde do indivíduo depende da natureza
do dano, da capacidade da célula para reparar ou amplificar esse dano, da
oportunidade que a célula pode ter ou não de expressar essa alteração e ainda
da capacidade do organismo de reconhecer e suprimir a multiplicação de células
aberrantes (Silbergeld, 2001).
Dependendo das células afectadas podem surgir diferentes efeitos. Uma alteração
genética numa célula somática pode culminar, por exemplo, no aparecimento de
cancro e envelhecimento prematuro. Alterações em células germinativas afectam,
apenas, indivíduos da geração seguinte.
O processo carcinogénico é composto por diversas etapas: a exposição a um
carcinogéneo, iniciação (alteração genética numa célula que será a célula
inicial), promoção (resulta na formação de uma pré-neoplasia), conversão e
progressão (activação de proto-oncogenes e inativação do supressor tumoral p53)
(Links et al., 1995). Alterações em alguns destes genes críticos podem provocar
uma maior susceptibilidade ao desenvolvimento de processos carcinogénicos. Há
também substâncias naturais ou sintéticas como os anti-oxidantes e processos de
reparação do ADN que desempenham uma função protectora no organismo.
Muitos pesticidas já foram testados relativamente ao seu potencial mutagénico,
concretamente a testes de mutações genéticas e alterações cromossomais. Os
dados experimentais revelaram que muitos destes compostos possuem propriedades
mutagénicas (Sanborn et al., 2004). Assim, diferentes organizações, como a
Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC ' International
Agency for Cancer Research) e a Agência de Protecção Ambiental Norte Americana
(US EPA ' United States Environmental Protection Agency) já classificaram
muitos compostos activos de produtos fitofarmacêuticos de carcinogénicos e/ou
mutagénicos para os humanos (IARC, 1991).
Vários estudos (Jaga e Dharmani, 2005) apresentam uma associação entre a
exposição a pesticidas e o aparecimento de tumores, especialmente quando estes
estudos dizem respeito à exposição ocupacional. Estes resultados corroboram a
necessidade da redução da utilização de pesticidas principalmente na
agricultura e outras actividades profissionais (Sanborn et al., 2004).
Monitorização biológica e testes citogenéticos
Os estudos clássicos de monitorização humana consistem na monitorização
ambiental em que são recolhidas amostras de ar para posterior identificação e
quantificação de compostos tóxicos, permitindo conhecer o nível de poluente no
ar inalado.
Por outro lado, na monitorização biológica, a própria substância química, os
seus metabolitos ou outros parâmetros bioquímicos susceptíveis de se alterarem
por acção do tóxico são analisados em fluidos ou tecidos corporais. O seu
doseamento permite conhecer a exposição do indivíduo ao agente tóxico, sendo
designados por indicadores biológicos.
Os indicadores biológicos são habitualmente diferenciados em três grupos:
indicadores de exposição (indicam a existência de exposição a um dado agente;
podem tratar-se de quantificações directas dos agentes tóxicos ou dos seus
metabolitos nos fluidos corporais ou excreções), indicadores de efeito (dizem
respeito a parâmetros biológicos, medidos no organismo, que reflectem a
interacção da substância química com os receptores biológicos) e indicadores de
susceptibilidade (variações genéticas responsáveis por modificações na
susceptibilidade dos indivíduos a compostos tóxicos).
A monitorização biológica apresenta vantagens óbvias relativamente à
monitorização ambiental, já que considera todas as vias de entrada possíveis no
organismo. Por outro lado, prevê variações individuais no que diz respeito à
absorção, ao metabolismo, à excreção e à distribuição do agente xenobiótico
(Van Delft et al., 1998).
Permite ainda identificar e até certo ponto quantificar, o risco de exposição a
factores ambientais e tem sido por isto, uma ferramenta de grande interesse na
avaliação da exposição a carcinogéneos (Bonassi e Au, 2002).
O estudo de diversos indicadores biológicos contribui simultaneamente não só
para o conhecimento da extensão do efeito do xenobiótico no organismo como
também para a selecção adequada do biomarcador que deve ser utilizado para uma
monitorização eficiente da exposição humana a agentes químicos.
Teste do micronúcleo
O teste do micronúcleo consiste na observação de células em interfase onde são
detectados micronúcleos resultantes de danos genéticos induzidos por agentes
citotóxicos. Os micronúcleos surgem nas células quando durante a anafase algum
cromossoma ou fragmento acêntrico de cromossoma sofre um atraso enquanto os
fragmentos com centrómero se dirigem para os pólos ' na origem dos
micronúcleos, podem estar portanto, agentes aneugénicos ou clastogénicos. Estes
fragmentos não são incluídos nos núcleos das células filhas originando assim a
formação de um micronúcleo, sendo este morfologicamente igual ao núcleo
principal mas de tamanho inferior o que justifica a sua designação (Fenech,
2000).
Aberrações cromossómicas
As aberrações cromossómicas são alterações na estrutura ou número dos
cromossomas que podem ocorrer espontaneamente ou como resultado de tratamento/
radiação química. Estas alterações que incluem cromossomas dicêntricos, GAPs,
quebras de cromatídeos, anéis e figuras tetrarradiais são observadas em células
em metafase (Farmer e Emeny, 2006). Alguns estudos evidenciam que as aberrações
cromossómicas em linfócitos de sangue periférico são preditivas de cancro.
Troca entre cromatídeos irmãos
As trocas entre cromatídeos irmãos são induzidas por mutagéneos e/ou
carcinogéneos e, por isso, este é um teste útil para monitorizar a exposição a
este tipo de compostos. As trocas são observadas em preparações com cromossomas
em metafase. As trocas entre cromatídeos irmãos são translocações recíprocas
entre as duas cadeias de ADN e julga-se que na sua origem estão erros ocorridos
durante o processo de replicação do ADN de uma cromatídeo já danificada (Farmer
e Emeny, 2006). Este processo de permuta é considerado indicador de ocorrência
de possíveis lesões e reparação da molécula de ADN, pois quanto maior o número
de lesões, maior a possibilidade de erro na ligação posterior das cadeias. Este
ensaio deve, contudo, ser considerado apenas indicativo, uma vez que a troca
entre cromatídeos irmãos não resulta necessariamente numa mutação (Silva et
al., 2003).
Teste do Cometa
Uma outra técnica que permite detectar danos no ADN resultantes da exposição a
genotóxicos é o teste do Cometa. Trata-se de uma técnica rápida, simples e
sensível. Sucintamente, consiste na lise de células que foram previamente
colocadas em agarose numa lâmina. Na versão alcalina do método a electroforese
é realizada a pH alcalino (> 13) o que permite a detecção de quebras simples e
lesões alcali-lábeis no ADN de células individuais. Como a maioria dos agentes
genotóxicos induz estes dois tipos de danos com maior frequência do que quebras
duplas, esta técnica possibilita uma maior sensibilidade na detecção dos danos
no ADN das células (Tice, 1995).
Após electroforese, neutralização e coloração, as lâminas são observadas ao
microscópio de fluorescência e as células com danos no seu ADN apresentam a
forma de cometas com núcleos intensamente brilhantes e caudas. O comprimento da
cauda e a intensidade do brilho dependem da quantidade de dano. As células que
apresentam apenas uma cabeça brilhante sem cauda representam células com ADN
não danificado (Faust et al., 2004).
PESTICIDAS E DANO GENÉTICO
Tanto a comunidade científica como a população em geral têm vindo a mostrar a
sua preocupação em relação aos possíveis efeitos negativos da utilização de
pesticidas. Os alimentos, água e ar contaminados constituem as principais
fontes de exposição de pesticidas para o público em geral. Mais ainda, a
contaminação pode ser superior em áreas tratadas com estas substâncias (sejam
áreas agrícolas ou edifícios).
A exposição ocupacional a pesticidas inclui o processo de produção bem como a
sua utilização corrente no controlo de pestes (seja na agricultura ou noutras
situações). Devido aos níveis e à frequência de exposição, os indivíduos
ocupacionalmente expostos a estas substâncias constituem um grupo de risco. Por
esta razão, esta é a população adequada para estudar e observar todos os
potenciais efeitos dos pesticidas na saúde humana.
Os estudos desenvolvidos nos últimos anos em populações expostas tentaram
identificar os factores que influenciam o dano genético e qual o indicador
biológico mais útil na biomonitorização humana a pesticidas.
Embora tenham sido reportadas conclusões contraditórias, a maior parte dos
estudos encontra diferenças ao nível do dano genético entre populações expostas
a pesticidas e populações controlo. Por exemplo, Bolognesi et al. (2002)
observou diferenças significativas na frequência de micronúcleos, (Kaioumova e
Khabutdinova, 1998) na frequência de aberrações cromossómicas e Garaj-Vrhovac
(2002) nos parâmetros do teste do cometa. Estas alterações permitem concluir
que a exposição a pesticidas pode de facto interferir na saúde humana sendo
capaz de induzir alterações ao nível celular.
A razão pela qual vão sendo obtidos resultados contraditórios em estudos
independentes não está completamente esclarecida. Alguns autores acreditam que
os factores de exposição estão na base destas diferenças enquanto outros
sugerem que a exposição a pesticidas pode induzir uma resposta adaptativa
(Pastor et al., 2002b). Esta resposta poderá envolver um aumento do evento de
apoptose ou atraso na divisão nuclear de forma a permitir a reparação do ADN
danificado (Kirsh-Volders e Fenech, 2001). Qualquer um destes fenómenos resulta
numa observação de falsos negativos em testes citogenéticos.
Factores técnicos, variação interlaboratorial, interindividual e
intraindividual ao longo do tempo, características demográficas, hábitos
tabágicos e dieta são todas variáveis importantes nos níveis de dano genético
observados quer em populações controlo, quer em populações expostas (Fenech,
1998). Outros factores (relacionados com a exposição a pesticidas) afectam o
dano observado apenas nas populações expostas. Estes incluem as condições
ambientais, a utilização de equipamento de protecção individual, as tarefas
realizadas e o conhecimento dos riscos associados a cada uma das tarefas entre
outros factores.
Para além disto, as diferenças observadas entre populações controlo e
populações expostas podem ainda estar relacionadas com o desenho do estudo,
nomeadamente com as características das populações. Em estudos caso-controlo é
normal que os dois subgrupos (população controlo e exposta) residam na mesma
área geográfica. No entanto, no caso do estudo dos efeitos dos pesticidas esta
metodologia pode apresentar desvantagens: os pesticidas são compostos, na sua
maioria, persistentes com potencial para afectar os diferentes ecossistemas na
área de estudo (Fishel et al., 1991).
Assim, pelo facto destes compostos afectarem não só as populações
ocupacionalmente expostas mas também potencialmente as que vivem na mesma
região, os resultados obtidos poderão levar a conclusões inexactas
relativamente ao potencial genotóxico destes compostos (Sanborn et al., 2004).
Joksic et al. (1997) observaram frequências significativamente mais elevadas de
micronúcleos em indivíduos controlo de uma área de vinicultura relativamente a
um segundo grupo controlo de uma área mais afastada em períodos de pós-
tratamento de pesticidas.
Variação intra-individual
Grande parte dos estudos reporta resultados a uma amostra individual colhida
uma única vez. No caso do estudo dos efeitos dos pesticidas, esta pode ser uma
questão relevante uma vez que a frequência com que os agricultores lidam com
estes compostos varia ao longo do ano. Alguns autores (Joksic et al., 1997,
Garaj-Vrhovac e Zeljezic, 2001, Zeljezic e Garaj-Vrhovac, 2001, Pastor et al.,
2002a, Liu et al., 2006) colheram amostras em diferentes épocas de trabalho
(fase de pré-tratamento e de pós-tratamento em indivíduos que aplicavam
pesticidas; no caso de indivíduos que trabalhavam na produção de pesticidas
foram colhidas amostras oito meses depois da exposição e depois de oito meses
de não-exposição) e todos obtiveram níveis de dano mais elevados, em alguns
casos significativos, nos testes de micronúcleo, aberrações cromossómicas e
Comet assay nos períodos de maior exposição.
Variação inter-individual
A variação inter-individual pode ser devida a características individuais tais
como polimorfismos genéticos. Outros factores como os níveis hormonais, peso e
gordura corporal também podem ter repercussões nos níveis de ADN observado.
Há vários anos que tem sido descrita uma tendência para os trabalhadores
exibirem taxas de morte mais baixas do que a população em geral. Isto tem sido
designado como a síndrome do trabalhador saudável. As variações inter-
individuais tais como os polimorfismos são provavelmente a melhor explicação
para este efeito. Au et al. (1999) obteve resultados muito interessantes depois
de comparar as frequências dos polimorfismos genéticos de agricultores e de
indivíduos controlo. As formas desfavoráveis das enzimas CYP2E1, GSTM1, GSTT1 e
PON1 apresentavam frequências abaixo do esperado entre os agricultores. Os
autores sugeriram que indivíduos com as formas genéticas desfavoráveis poderão
mudar de emprego assim que possível dada a sua susceptibilidade aos efeitos dos
pesticidas. No entanto, estudos que incluam um maior número de indivíduos são
obrigatórios para poder tirar conclusões acerca desta questão.
A influência dos polimorfismos genéticos nos níveis de dano genético dos
indivíduos expostos a pesticidas não está totalmente esclarecida. De facto,
alguns estudos nesta matéria mostram que serão importantes não só os
polimorfismos das enzimas associadas ao metabolismo dos pesticidas como também
das enzimas envolvidas no processo de reparação do ADN.
Características demográficas
Fenech (1998) descreveu um aumento significativo das frequências de
micronúcleos em indivíduos saudáveis, não fumadores com a idade. O aumento da
instabilidade cromossómica com a idade é um fenómeno na literatura (Bolognesi
et al., 1999). A diminuição da capacidade de reparação do ADN e o aumento de
espécies reactivas de oxigénio estão na base desta instabilidade cromossómica.
Este aumento observado em termos de dano genético pode ser detectado não só
através do teste do micronúcleo mas também noutros biomarcadores, por exemplo,
através do teste do cometa (Ramsey et al., 1995).
No caso do teste do micronúcleo, o sexo dos indivíduos é outra das variáveis
que pode influenciar significativamente o dano genético observado. Diferentes
autores mostraram que o aumento do número de micronúcleos com a idade se deve a
um fenómeno consistente de perda dos cromossomas sexuais (Norppa e M-Falck,
2003). Bonassi et al. (1995) estudou a influência do sexo numa população
constituída por 2131 indivíduos e constatou que a frequência de micronúcleos
era 20-30% superior nas mulheres quando comparadas com as frequências nos
homens.
Hábitos tabágicos
Os hábitos tabágicos são outra das variáveis que pode ser responsável pela
alteração dos níveis de dano genético observados nos indivíduos. Os cigarros
apresentam na sua composição uma diversidade de compostos químicos, alguns dos
quais classificados como carcinogéneos com capacidade de alterar a estrutura do
ADN.
Um estudo de revisão acerca do dano genético causado pelo consumo de tabaco
mostra um aumento de dano genético em fumadores (embora não significativo)
(Hoffmann et al., 2005). O potencial genotóxico foi confirmado em diversos
estudos (Calvert et al., 1998, El-Khatib e Hammam, 2003, Bhalli et al., 2006).
Vários autores preferem excluir esta variável dos seus estudos (quer controlos
quer expostos) sendo as populações compostas apenas por indivíduos não-
fumadores (Joksic et al., 1997, Davies et al., 1998, Munnia et al., 1999,
Gómez-Arroyo et al., 2000, Piperakis et al., 2003).
Produtos químicos utilizados
A utilização abusiva de pesticidas pode ter sérias consequências na saúde
pública associadas à ingestão de edíveis contaminados.
Habitualmente, nas suas actividades, os agricultores estão expostos a um grande
número de compostos muito diferentes na sua composição, facto observável na
maior parte dos estudos desenvolvidos nesta matéria; a exposição ocupacional a
apenas um composto não é comum na agricultura.
Os pesticidas, além da substância activa, apresentam na sua composição outros
compostos. Estes podem ser inertes ou adjuvantes; alguns são também tóxicos
para os humanos e portanto devem ser incluídos na análise de risco (Cecchine et
al., 2000).
No contexto ocupacional é importante considerar todas as substâncias a que os
trabalhadores estão expostos diariamente. Nesta perspectiva, pode dizer-se que
os estudos in vivo são bastante mais úteis na identificação dos efeitos destas
substâncias do que os estudos in vitro que habitualmente consideram unicamente
a substância activa.
Além dos produtos químicos incluídos na formulação comercial dos pesticidas, a
sua forma (pós molháveis, liquido ou pó) poderá também influenciar
significativamente os níveis de exposição, uma vez que umas serão mais
rapidamente absorvidas do que outras,
Alguns autores tentaram estabelecer uma relação entre os compostos utilizados,
o número de tratamentos efectuados por ano e a área tratada com os níveis de
dano genético observado, mas os resultados foram inconsistentes. Enquanto
alguns não obtiveram uma associação entre estas variáveis e o dano
citogenético, outros observaram uma associação (Lebailly et al., 1998, Garry et
al., 2001, Shaham et al., 2001, Bolognesi et al., 2004).
Bolognesi et al. (2004) observaram frequências mais elevadas de micronúcleos
associados à utilização mais frequente de pesticidas e ao uso de compostos de
maior toxicidade. Pastor et al.(2001) encontraram ligeira associação entre as
frequências deste mesmo biomarcador e o número de horas de trabalho.
Práticas de trabalho
Outros factores, além da toxicidade dos compostos, podem influenciar o risco de
exposição. Os modelos de avaliação de risco geralmente consideram factores como
a altura da cultura e a sua densidade, as tarefas desempenhadas pelos
indivíduos, as técnicas de aplicação, o ambiente de trabalho e até a formação
dos trabalhadores.
Neste tipo de estudos de dano genético associados à exposição de determinados
compostos, é difícil estabelecer esta ligação uma vez que as populações
estudadas incluem um número relativamente baixo de indivíduos perdendo-se todo
o significado estatístico se estas populações forem adicionalmente subdivididas
de acordo com todas estas variáveis.
A aplicação de pesticidas acima do nível da cabeça favorece a exposição e
absorção dérmica e respiratória (Carbonell et al., 1995). Simultaneamente,
culturas densas facilitam o contacto dérmico e portanto a absorção dos
compostos.
O tempo dedicado a cada uma das diferentes tarefas associadas ao trabalho
agrícola, tais como, preparação, aplicação e manutenção da cultura podem também
influenciar a exposição. A aplicação é considerada a actividade de maior risco,
seguida de manutenção e preparação.
Se as aplicações são efectuadas manualmente ou em tractor, além do tipo de
maquinaria utilizada, podem também constituir importantes indicadores de
exposição. Os atomizadores produzem partículas de diâmetro inferior favorecendo
a inalação. Os sistemas mais seguros de aplicação são aqueles controlados por
computador que diminuem significativamente a exposição humana a estes
compostos.
O ambiente de trabalho é outro factor muito importante a considerar no risco
associado à exposição a pesticidas. Dois estudos independentes (Bolognesi et
al., 2002, Costa et al., 2006) encontraram danos significativamente mais
levados em trabalhadores de estufas, comparados com os que desenvolvem as suas
actividades ao ar livre; as estufas são locais fechados, geralmente com valores
de temperatura e humidade mais elevados, o que favorece a inalação de
pesticidas.
Por último, a formação dos trabalhadores deverá também ser considerada.
Aplicadores com conhecimentos adequados dos riscos associados à exposição a
pesticidas poderão apresentar práticas de trabalho ajustadas diminuindo os
riscos associados (Weinger e Lyons, 1992).
Utilização de equipamento de protecção individual
Dependendo dos compostos utilizados, todas as vias de exposição poderão ser
importantes. No contexto ocupacional, a pele é a principal via de exposição a
pesticidas (Aragon, 2005).
Nestas situações, a exposição pode diminuir significativamente através da
utilização de equipamento de protecção individual. A caracterização das tarefas
é essencial na identificação do equipamento de protecção individual mais
adequado na protecção do trabalhador. Por exemplo, as luvas são muito
importantes, se a aplicação for efectuada a baixa pressão, enquanto noutras
situações (aplicação a altas pressões ou de compostos em pó) a utilização de
máscara adequada poderá ser mais relevante. Idealmente, os trabalhadores
deveriam utilizar todo o equipamento de protecção individual disponível para
minimizar a exposição.
Alguns estudos (Shaham et al., 2001, Bolognesi et al., 2002, Ündegër e Basaran,
2002, Bolognesi et al., 2004, Costa et al., 2006) observaram frequências de
dano mais elevadas em trabalhadores que afirmavam não utilizar equipamento de
protecção individual durante as suas actividades laborais.
Tempo de exposição
Certos autores acreditam que os efeitos genotóxico dos pesticidas subsistem ao
longo do tempo e portanto os efeitos observados são cumulativos (Carbonell et
al., 1993).
Alguns estudos mostram, de facto, um aumento no dano genético de trabalhadores
com histórias mais longas de exposição a estes compostos (Joksic et al., 1997,
Antonucci e Cólus, 2000, Padmavathi et al., 2000, Shaham et al., 2001,
Bolognesiet al.,2002, El-Khatibe Hammam, 2003, Grover et al., 2003,Bolognesi et
al., 2004, Bhalli et al., 2006, Sailaja et al., 2006).
Ao mesmo tempo, os dados obtidos por Garaj-Vrhovac et al. (2001) indicam que
após um período de oito meses sem exposição a pesticidas o dano era
significamente mais baixo. Carbonell et al., 1995 mostraram que um período de
seis meses é suficiente para reduzir os níveis de aberrações cromossómicas para
os níveis de controlo.
CONCLUSÕES
Os pesticidas continuam a constituir o recurso mais eficaz para a eliminação de
espécies indesejadas e para a garantia da obtenção de lucros numa actividade
que tem vindo a passar por algumas dificuldades nas últimas décadas (diminuição
da área agrícola e o aumento do número de catástrofes naturais que limitam a
taxa de produção).
Os dados apresentados neste artigo mostram alguns dos possíveis efeitos da
exposição a pesticidas. Além de outros efeitos na saúde humana, os pesticidas
são capazes de danificar o ADN e, possivelmente, desencadear o desenvolvimento
de cancro. As condições em que ocorre a exposição são determinantes no risco
observado e devem ser devidamente examinadas de forma a controlar a exposição.
Para compreender os efeitos destes compostos no genoma bem como as
consequências desta interacção torna-se necessário estabelecer desenhos de
estudo que permitam a comparação de resultados obtidos em diferentes condições
de trabalho. No entanto, a questão da exposição múltipla observada na maior
parte dos casos é de facto um factor de confundimento difícil de eliminar.
A publicação dos diversos estudos acerca desta matéria possibilita a
identificação das variáveis de exposição relevantes que, por sua vez, permitem
o desenvolvimento de modelos de análise de risco adequados. Estes modelos após
validação permitiriam a intervenção em situações em fases iniciais de risco,
prevenindo os efeitos associados à exposição a pesticidas.
Simultaneamente, o aumento da produção e utilização destas substâncias em
países em desenvolvimento, a falta de enquadramento legal, o elevado número
destes compostos presentes no mercado e a ausência de formação dos agricultores
obrigam à introdução de medidas adequadas de gestão destes produtos, de forma a
diminuir o risco associado, não só para o ambiente mas também para a saúde
humana.