Concentração de As, Cu, Hg e Zn em solos e produtos agrícolas (Brassica
oleracea L., Lycopersicon esculentum Mill e Zea mays L.) numa área industrial
no NW de Portugal
Introdução
Localizado no litoral norte de Portugal, Distrito de Aveiro, o Complexo Químico
de Estarreja (CQE) é um dos mais importantes centros da indústria química
portuguesa em actividade, desde a II Guerra Mundial. Em termos de implicações
ambientais, o principal problema está relacionado com processos de fabrico
utilizados no passado, de onde se destaca a produção de ácido sulfúrico a
partir da ustulação de pirites da faixa piritosa alentejana, ou a produção de
cloro e soda caustica recorrendo ao processo de eletrólise usando células com
cátodo de mercúrio.
O CQE é atualmente composto por várias unidades industriais: o grupo CUF,
englobando as unidades fabris da ex-Quimigal e da ex-Uniteca; APQ (participação
da CUF e da Kemira Ibérica); Air Liquide (ex-Oxinorte), Cires, Dow (ex-Isopor).
Apesar das preocupações ambientais atuais serem bastante diferentes, uma vez
que as várias unidades industriais sofreram sucessivas transformações
tecnológicas tendo em atenção a qualidade do meio envolvente, as de maior
impacto ambiental mantém-se em atividade desde a década de 50. Ao longo de
anos, os resíduos sólidos foram acumulados em vários parques e alguns efluentes
líquidos circularam durante muito tempo, sem tratamento adequado, por valas de
drenagem que atravessam terrenos de cultivo. No perímetro do CQE, alguns
trabalhos (WS Atkins, 1997 e Costa e Jesus-Rydin, 2001) referiram a existência
150 000 t de resíduos de pirite, 60 000 t de resíduos contendo Hg e 300 000 t
de hidróxido de cálcio.
São várias as referências à contaminação, em Estarreja, diretamente relacionada
com o CQE, entre as quais as mais antigas indicam concentração elevada de
mercúrio em sedimentos (Hall et al., 1985; Hall et al., 1987; Lucas et al.,
1986; Pereira e Duarte, 1994, 1997). Outros trabalhos, envolvendo o ar, solos,
sedimentos de valas, águas subterrâneas e vegetação, também se revelaram de
extrema importância para a caracterização ambiental que hoje se conhece (ex.
Pio e Analecto, 1988; Barradas, 1992; Leitão et al., 1994; Inácio et al. 1998,
2010; Cachada et al., 2007).
Apesar da industrialização verificada nas últimas décadas, este concelho, com
uma densidade populacional de 261 habitantes/km2 manteve como actividades
importantes para a sua economia local a agricultura e a pastorícia, que em
tempos de crise económica, como o que atualmente se vive, poderão vir a
intensificar-se.
Da contaminação destes solos agrícolas podem ocorrer várias consequências,
entre as quais a absorção pelas plantas de poluentes até níveis que possam vir
a ser prejudiciais para a saúde humana ou animal, através do seu consumo. A
comunidade local cultiva ao longo do ano, nas suas hortas e quintais, vários
produtos agrícolas que são usados frequentemente na sua dieta alimentar, como é
o caso da alface, couve, batata, cenoura e tomate, entre outros, ou para
servirem de alimento para os animais domésticos, como por exemplo o milho em
grão, que por vezes é também usado para o fabrico de pão. Apesar de serem já
vários os estudos que envolvem poluentes em solos da área envolvente ao
Complexo Químico de Estarreja (CQE), é pouco conhecida a sua transferência para
os produtos agrícolas consumidos/usados pela comunidade local.
Por tal motivo, neste estudo determinou-se a concentração de As, Hg, Cu e Zn em
solos e na parte comestível da couve (Brassica oleracea L.), do tomate
(Lycopersicon esculentum Mill) e do milho (Zea mays L.), recolhidos em hortas
particulares existentes nas proximidades do CQE, para avaliar se poderão
constituir, para a comunidade local, uma fonte de transferência e um meio de
exposição a elementos potencialmente perigosos.
Materiais e Métodos
A campanha de amostragem decorreu em Setembro de 2011, tendo sido colhidas 26
amostras de solos, em hortas particulares (Fig._1), até à profundidade máxima
de 15 cm. Os produtos agrícolas foram recolhidos nos mesmos locais e sempre que
estavam disponíveis. Para solos e vegetais, recolheu-se uma amostra compósita
representativa do local de amostragem (pelo menos 5 a 10 pontos/exemplares por
local).
As amostras de solo foram secas a 40ºC e peneirados a <2 mm, e seguidamente
submetidas a uma decomposição ácida com HCl-HNO3 para determinação dos teores
totais (para simplificação serão referidos ao longo deste texto apenas como
totais). As amostras foram também submetidas a uma extracção química com
acetato de amónio 1 M para determinação da fração disponível. Na fração terra
fina das amostras de solos determinou-se, numa suspensão solo/ água na
proporção de 1:2,5 (p/v), o pH e estimou-se, por incineração (perda ao rubro) a
430º C, durante 16 horas, o teor de matéria orgânica (MO).
As amostras dos produtos agrícolas foram cuidadosamente lavadas com água
(inicialmente da rede pública e depois destilada) para remoção de partículas de
solos ou resultantes de deposição atmosférica e secas (40ºC). As amostras foram
posteriormente moídas e submetidas a decomposição ácida com HNO3 e água-régia.
A análise química multielementar (36 elementos químicos) das amostras de solo e
vegetais foi realizada por ICP/ES-MS em laboratório certificado (ACME
laboratory, Vancouver, Canada) A qualidade analítica foi investigada recorrendo
à análise de duplicados (de amostragem e análise) e a um padrão internacional.
Os valores obtidos foram considerados satisfatórios para os elementos em
análise (As, Hg, Cu e Zn).
Resultados e Discussão
Na área em estudo, os solos mais representados correspondem a Podzóis seguidos
de Cambissolos (FAO, 2006). Informações sobre a geologia, geomorfologia e
pedologia da zona em estudo encontram-se publicadas em Inácio (1993). Nos
locais amostrados, os solos eram ácidos a neutros (pH entre 4,3 e 7,2) e
apresentavam teor de matéria orgânica entre 2,3 e 8,1% (mediana de 3,6%).
Os resultados (mínimo, máximo e mediana) das concentrações em As, Cu, Hg e Zn,
para os solos amostrados, são sumariamente expressos no Quadro_1.
Neste quadro, apresentam-se igualmente outros dados com o objectivo de comparar
os resultados obtidos no âmbito do presente trabalho. Indicam-se valores das
concentrações dos elementos em estudo para solos da Europa (Salminen, 2005) e
de Portugal, tanto valores de referência (Inácio et al., 2008) como específicos
para Podzóis (Inácio Ferreira, 2004), obtidos em função dos teores de matéria
orgânica e percentagem de argila características deste tipo de solo (4,8% e
6,4%, respectivamente). Na ausência de legislação portuguesa para avaliação de
locais contaminados, recorreu-se aos valores de intervenção para solos
agrícolas no Canadá (CCME, 2011). Na avaliação das concentrações na fração
disponível recorreu-se à lei de proteção do solo da Alemanha, relativa à
transferência do poluente do solo para a planta cultivada em áreas agrícolas,
tendo por base a análise do solo no extracto obtido com acetato de amónio
(BBODSCHV, 1999).
Na Figura_2 apresentam-se as concentrações totais de As, Hg e Cu detectadas nas
amostras de solo, com indicação dos locais de amostragem onde são ultrapassados
os limites estabelecidos na legislação canadiana, para solos agrícolas. Em
nenhum local se excedeu o limite para o Zn. Na Figura_3, apresentam-se os «box-
plots» das concentrações de As, Hg, Cu e Zn nos três produtos agrícolas
estudados.
Arsénio
No solo, em condições normais, o As aparece naturalmente em baixas
concentrações. Para a globalidade dos solos mundiais o teor médio é de 6,83 mg
kg-1; todavia, por Grupo de Solos, os Podzóis apresentam a média mais baixa
(4,4 mg kg-1) e uma variação entre 1 e 27 mg kg-1 (Kabata-Pendias, 2011). O
valor de referência calculado para Pódzois Portugueses é de 7 mg kg-1 (Inácio
Ferreira, 2004). No presente trabalho, verifica-se que 88% dos solos amostrados
apresentam teores superiores a este valor. Considerando o limite de 12 mg kg-
1,referido na legislação canadiana (CCME, 2011), como o valor de intervenção
para qualquer uso do solo, cerca de 46% dos locais amostrados apresentam
concentrações superiores (Fig._2). Quanto aos valores propostos na legislação
holandesa, que para qualquer uso do solo propõe um valor de intervenção
superior, 76 mg kg-1, 15% dos solos agrícolas amostrados em Estarreja
apresentam, também, concentrações que ultrapassam aquele limite.
Em termos de teores disponíveis, e tendo por base a legislação alemã para a
proteção do solo (BBODSCHV, 1999), que indica o teor de 0,4 mg kg-1apenas 15%
dos solos agrícolas estudados apresentam concentrações de As inferiores a este
valor. Merecem particular atenção os pontos de amostragem 7 e 18 (Fig._1),
cujas concentrações de As na fracção disponível (56 mg kg-1e 15 mg kg-1,
respectivamente) são superiores ao máximo estabelecido para teor total em solos
agrícolas pela legislação do Canadá (CCME, 2011). Estatísticamente, verificou-
se, também, a existência de uma forte correlação entre os teores totais e os
disponíveis (r=0,99, coeficiente de correlação de Pearson, p<0,001).
As elevadas concentrações de As presentes nestes solos agrícolas causam alguma
preocupação, principalmente porque as formas disponíveis podem migrar para as
águas subterrâneas, sere absorvidas pela vegetação e, eventualmente, entrar na
cadeia alimentar. O facto de os solos da região serem Podzóis, solos com baixa
percentagem de argila e de matéria orgânica e, consequentemente, baixa
capacidade de adsorção, indica que a fitotoxicidade ao As é mais provável de
ocorrer neste tipo de solos do que em solos de textura fina. Estes resultados
apontam para a necessidade de serem efetuados estudos mais detalhados para
avaliação do risco químico e ponderar-se a necessidade de algumas medidas de
intervenção.
Na vegetação terrestre, os teores em As são normalmente baixos (< 1 mg kg-
1 peso seco), excepto em algumas espécies que crescem em solos com historial
mineiro ou industrial. Para as culturas em estudo, Kabata Pendias, 2011 refere
como normais as seguintes concentrações, que no presente estudo tomamos como
referência: 0,02 a 0,07 mg kg-1na couve (folhas); 0,009 a 0,12 mg kg-1no tomate
(fruto) e 1,85 mg kg-1para o milho (grão). Madeira et al., 2012 referem também
concentrações inferiores a 0,1 mg kg-1em tomate (fruto) desenvolvido em
terrenos não contaminados. A concentração em As determinada nos produtos
agrícolas do presente trabalho varia nas folhas de couve entre < 0,1 e 3,5 mg
kg-1, no tomate-fruto entre < 0,1 e 0,4 mg kg-1e no milho-grão entre < 0,1 e
0,4 mg kg-1, com valores de mediana de 0,2 mg kg-1na couve e tomate, e de 0,1
mg kg-1no milho (Fig._2). Os teores de As mais elevados foram detectados nas
folhas de couve colhidas nos locais de amostragem 7 (1,1 mg kg-1) e 5 (3,5 mg
kg-1) onde se detectaram, também, concentrações elevadas do elemento na fracção
disponível. Pela análise da Figura_1, pode-se observar que aqueles dois locais
se situam nas proximidades da vala de S. Filipe, uma zona de intensa atividade
agrícola. As correlações obtidas entre os teores no solo (total ou disponível)
e nos diferentes produtos agrícolas não são contudo significativas, com
exceção, ainda que baixa (r = 0,4, significativo p< 0,05) da correlação entre
os teores totais no solo e nas folhas de couve. Qualquer destes produtos
agrícolas, com excepção das folhas de couve colhidas no local 5, poderia
servir, por exemplo, para alimentar animais, dado que apresentam teor de As
inferior ao indicado como limite máximo tolerável de substâncias indesejáveis
nos alimentos para animais, estabelecidas em diretivas da EU para este elemento
(2 mg kg-1peso seco; DL 236/2009).
Mercúrio
Em solos, os teores em Hg são baixos; a mediana das concentrações para a Europa
é de 0,037 mg kg-1e para Portugal Continental é de 0,050 mg kg-1, concentrações
bastante inferiores aos valores encontrados no presente trabalho (mediana de
0,15 mg kg-1). A legislação Canadiana refere como valor de intervenção 6,6 mg
kg-1, indicando que 11,5 % dos solos amostrados se apresentam com teor superior
aquele valor (Fig._2). Outras legislações referem que, para solos agrícolas, as
concentrações em Hg não devem exceder os 2 mg kg-1(ex. DL 276/2009;
transposição da Diretiva nº86/278/CEE).
Na fração disponível, os teores de Hg são baixos. Cerca de 77% das amostras de
solos apresentam teor inferior ao limite de deteção do método analítico (0,005
mg kg-1). Contudo, será de registar que o solo amostrado no local 7 (Fig._1)
apresenta o teor mais elevado na fração total (13,65 mg kg-1) e na fração
disponível (0,049 mg kg-1), pelo que será um local que no futuro deverá ser
alvo de investigação em termos de implicações ambientais, saúde humana e
animal.
Em relação aos produtos agrícolas, as concentrações mais elevadas foram
encontradas nas folhas de couve (de 0,008 a 0,080 mg kg-1). Estes valores são
superiores aos referidos por Gibicar et al., 2009, para a cultura desenvolvida
em solos de uma zona de referência (média na couve de 0,012 mg kg-1) ou em
solos localizados próximo de uma fábrica de cloro e soda caustica (média na
couve de 0,024 mg kg-1), em tudo semelhante à que funcionou em Estarreja.
Merecem também especial atenção os locais de amostragem 2 e 8 onde se
detectaram, respectivamente, teores de Hg de 0,075 e 0,080 mg kg-1em folhas de
couve, sendo este último local o que se encontra mais afastado do CQE, mas
próximo do Esteiro de Estarreja. Aqueles teores não reflectem o facto de nestes
locais o Hg na fração disponível ser inferior a 0,005 mg kg-1e de haver
tendência para o elemento se acumular nas raízes das plantas, funcionando como
barreira ao seu transporte para a parte aérea (Gracey e Stewart, 1974). No que
respeita aos outros produtos estudados, as concentrações obtidas situam-se nos
intervalos de variação referidos por Gibicar et al., 2009 para o tomate-fruto
(média de 0,004 mg kg-1) o mesmo acontecendo com os grãos de milho (< 0,073 mg
kg-1; Kabatas Pendias, 2011). Também não se verificou qualquer correlação
significativa entre o teor total de Hg determinado no solo e nos produtos
agrícolas estudados. Tal como para o As, nestes produtos agrícolas não é
excedido o limite máximo tolerável de Hg (0,1 mg kg-1) estabelecido para
substâncias indesejáveis na alimentação animal (DL 236/2009).
Cobre
O cobre é um dos sete micronutrientes essenciais para o crescimento e
desenvolvimento da vegetação, podendo ocorrer toxicidade em solos ácidos devido
à sua maior disponibilidade nestas condições.
A concentração média de Cu total nos diferentes grupos de solos mundiais situa-
se entre 14 e 109 mg kg-1, valores que contrastam com os níveis extremamente
elevados que podem ocorrer em solos contaminados (Kabata Pendias, 2011). Para
os Pódzois do nosso país o valor de referência calculado é de 22,5 mg kg-1
(Inácio Ferreira, 2004).
Nos solos em estudo, apenas 15,4% apresentam teor total superior ao permitido
na legislação do Canadá para solos agrícolas (63 mg kg-1, Fig._3).
Em relação ao teor na fração disponível verifica-se que cerca de 40% dos solos
apresentam concentrações superiores ao permitido na legislação alemã (1 mg kg-
1). Todavia, as concentrações na fração disponível são baixas, não
representando mais que 8% do teor total, mas encontrando-se estes
significativamente correlacionados (r = 0,95, p<0,001).
Concentrações em Cu variando entre 5 e 20 mg/kg são consideradas como
toleráveis, para diversas culturas (Kabata Pendias, 2011). Em nenhum dos
produtos agrícolas analisados se detectaram concentrações superiores ao valor
máximo deste intervalo. Kabata Pendias (2011) refere, como normais,
concentrações entre 3 e 4 mg kg-1em couve, e entre 6 e 9 mg kg-1em tomate.
Observou-se que 54% e 77% das couves e tomates analisados apresentam
concentrações superiores às concentrações máximas referidas como normais.
Nos produtos agrícolas, e contrariamente ao que acontece com os restantes
elementos químicos estudados, registou-se uma maior concentração de Cu no
tomate (fruto: 7,4 a 18,2 mg kg-1), seguida da couve (folha: 2,2 a 7,5 mg kg-1)
e do milho (grão: 2 a 4,4 mg kg-1) (Fig._2). Em zonas industriais, uma maior
acumulação de Cu no tomate (fruto) face às couves (folhas) é também referido
por Ahmad e Goni, 2010. As maiores concentrações encontraram-se nas amostras do
tomate (fruto: 18,2 e 17,5 mg kg-1) colhidas nos locais 9 e 11 e nas amostras
de folhas de couve (7,5 e 7,2 mg kg-1) colhidas nos locais 15 e 8. Apenas os
teores na fração disponível apresentaram correlação com os teores obtidos nas
folhas de couve (r = 0,4, p<0,05), não existindo qualquer outra correlação
significativa entre o teor total ou disponível e os encontrados nestes produtos
agrícolas.
Zinco
O zinco é, tal como o cobre, um micronutriente muito importante para o saudável
desenvolvimento da vegetação, do ser humano e animais. Contudo, as
concentrações no ambiente (solos, águas, vegetação, etc.) devem situar-se
dentro de um intervalo de concentrações especifico.
A concentração em Zn (mediana de 67 mg kg-1) nos solos estudados não é
significativamente diferente das obtidas para os solos da Europa (mediana de 48
mg kg-1) ou de Portugal Continental (mediana de 55 mg kg-1), mas é bastante
superior às referidas para os Podzóis nacionais (mediana de 28 mg kg-1). Nenhum
dos solos amostrados apresenta concentrações superiores ao valor de intervenção
estabelecido na legislação Canadiana (200 mg kg-1). Todavia, todos os solos
estudados apresentam, na fracção disponível, teores superiores aos
estabelecidos na legislação alemã (2 mg kg-1), uma vez que os teores variam
entre 4 e 53,6 mg kg-1, podendo as percentagens de extração ser consideradas
elevadas (máximo de 32%; mediana de 21%). Os solos amostrados nos locais 7, 8 e
12 apresentam teores em Zn, na fracção disponível, superiores a 40 mg kg-1.
Estatísticamente, obteve-se uma correlação significativa entre o teor total de
Zn nos solos e o disponível (r = 0,94, p <0,01).
Em termos de hortícolas, foram as folhas de couve que acumularam mais Zn (Fig.
2) com teores que variaram entre 12,8 e 746 mg kg-1(mediana de 50,7 mg kg-1).
Na maioria dos locais amostrados os teores na couve-folha situam-se no
intervalo considerado como tolerável para as culturas (50 a 100 mg kg-1, Kabata
Pendias, 2011) e apenas 20% apresenta concentração superior ao considerado
excessivo ou tóxico (100 a 400 mg kg-1, Kabata Pendias, 2011). De salientar que
nas folhas de couve amostradas no local 4 (746 mg kg-1) a concentração quase
duplica o máximo da considerada como tóxica. O pH do solo (4,3) e a e fracção
de Zn disponível (29,5% do total) naquele local poderão contribuir para uma
maior absorção do Zn por parte da cultura e a sua tranferência para a parte
aérea. Entre o pH dos solos e os teores de Zn na folhas da couve verificou-se
uma correlação significativa (r= -0,61, p <0,05). Nas folhas de couve
recolhidas nos locais 3, 5 e 8 detectaram-se teores que variaram entre os 122 e
183 mg kg-1,e que excedem também o limite tolerável para as culturas. Estes
resultados são, igualmente, superiores aos referidos para esta cultura em zonas
industriais (Ahmad e Goni, 2010) ou mineiras (Gonzalez-Fernandez, et al.,
2011).
Os teores em Zn no tomate-fruto variaram entre 17,4 e 81,9 mg kg-1e, apesar de
menores que os detectados nas folhas de couve, são mais elevados que os
referidos para outras zonas industriais. De assinalar, igualmente, os locais de
amostragem 3 e 4 que apresentam, respectivamente, concentrações de 81,9 e 65,3
mg kg-1. No grão de milho as concentrações variaram entre 31 e 57 mg kg-1
(mediana de 43 mg kg-1) tendo a maior concentração sido registada no local de
amostragem 13. Não se verificou correlação significativa entre as concentrações
obtidas em qualquer um dos produtos agrícolas em estudo e os teores (totais ou
disponíveis) no solo.
NoQuadro_2 apresenta-se, com base nos resultados apresentados anteriormente, um
resumo dos locais de amostragem que merecem uma avaliação mais aprofundada no
futuro e o motivo de tal escolha. Esse estudo deverá incluir a análise de
outros prâmetros físico-químicos no solo e a água utilizada na rega, assim como
estender-se a outros produtos agrícolas e, eventualmente, outros poluentes.
Comparando os dados do Quadro_2 com a localização apresentada na Figura_1,
verifica-se que os locais mais problemáticos se situam próximo de valas de
drenagem (atualmente canalizadas), mas que, no passado, transportaram efluentes
de algumas industrias presentes no CQE.
Conclusões
Os solos agrícolas amostrados consideram-se em alguns locais contaminados, dado
que os teores de As, Hg e Cu ultrapassam os valores estabelecidos na legislação
canadiana para este uso. Esses locais encontram-se principalmente localizados
nas proximidades de valas de drenagem de efluentes do CQE utilizadas, no
passado e durante várias décadas, para descarga de efluentes sem tratamento
prévio e a céu aberto, sendo o caso mais significativo a Vala de S. Filipe.
A fracção disponível apresenta em vários solos concentrações elevadas; todavia
a razão entre os teores disponíveis e totais é geralmente baixa, exceto para o
Zn (máximo de 32% do total). Em geral, o teor disponível dos vários elementos
em estudo nos solos correlaciona-se significativamente com o teor total, mas
não se encontram directamente relacionados com a concentração detectada nas
folhas (couve), fruto (tomate) e grão (milho) dos produtos agrícolas
amostrados.
Para os 3 produtos agrícolas estudados e em vários locais de amostragem, as
folhas de couve concentram mais As, Hg e Zn enquanto que o tomate-fruto
concentra mais o Cu. Na couve, as concentrações mais elevadas daqueles
elementos poderão levantar preocupações em termos de consumo humano. Os grãos
de milho mostraram-se seguros relativamente ao As e Hg para a alimentação
animal, uma vez que apresentaram sempre concentrações menores que as
estabelecidas em diretivas da EU, referente a substâncias indesejáveis nestes
alimentos.
No futuro, este estudo deve ser continuado, devendo ser incluídas a análise de
outros parâmetros físico-químicos do solo e a água utilizada na rega, assim
como outros produtos agrícolas diretamente utilizados pela comunidade local na
sua alimentação, por forma a compreender a transferência de poluentes no
sistema solo-planta e avaliar se as concentrações nas partes comestíveis podem
representar algum risco para a saúde humana.