Monda mecânica de flores com equipamento electro'flor em pessegueiros da
cultivar 'Rich Lady'
Introdução
A área de pessegueiros na região Centro é de 2373ha, representando 64% da
superfície de pessegueiro nacional que é de 3716ha (INE, 2011). Na Beira
Interior a área de pessegueiro é de 1590ha, o que, analisado conjuntamente com
a área de cerejeira, faz da Beira Interior a principal região produtora de
prunóideas de Portugal, considerando a área de cerejeira, pessegueiro, ameixa e
alperce. A produção de pêssegos baseia-se em explorações de média dimensão, com
7,2ha de área de pessegueiro/agricultor e 1,6ha por parcela (Simões et al.,
2008), e com um escalonamento da colheita resultantes das elevada diversidade
de cultivares dentro de cada exploração e/ou parcela. Esta diversidade requer,
frequentemente, a execução de intervenções culturais de modo seletivo de acordo
com cada cultivar.
Os pessegueiros apresentam frequentemente uma floração abundante podendo variar
de 20 a 50 flores por ramo. Se as condições climáticas forem favoráveis ao
vingamento é necessário proceder a um ajustamento da carga das árvores através
da monda de frutos. A monda mais eficaz e seletiva é a monda manual mas, ela é
muito onerosa e morosa. Na monda química, diversas substâncias têm sido
testadas para a realização desta operação sendo relatados resultados positivos
(Bal e Sandhawalia, 2010) e negativos, por excesso de monda (Ambrozic et al.,
2010). Na monda mecânica, acoplado ao trator, o equipamento Darwin String
Thinner, produzido por uma empresa alemã, tem estado a ser testado (Johnson et
al., 2010), mas foi desenvolvido para pomares de grandes áreas. Devido à
pequena dimensão das parcelas da região da Beira Interior, que compreendem
diversas cultivares é desejável um equipamento mais versátil que permita uma
adaptação rápida à diferença entre cultivares e mesmo entre plantas da mesma
cultivar.
Este trabalho teve como objetivo avaliar a eficácia do equipamento electro'flor
na produção e qualidade dos frutos da cultivar ''Rich Lady''.
Material e métodos
O presente trabalho baseia-se num ensaio instalado num pomar de pessegueiros no
ciclo vegetativo de 2011 com continuação no ciclo 2012. O pomar em estudo
localiza-se na região de Castelo Branco, Escola Superior Agrária de Castelo
Branco ' Portugal, e que, tendo sido instalado em 2001, se encontra no 11.º
ciclo vegetativo. O compasso do pomar é de 3,5 x 4,5 m, que corresponde a uma
densidade de 635 plantas/ha e as plantas são conduzidas em vaso. O solo é de
textura ligeira, com teor de matéria orgânica 0,8 a 1,2% na camada 0-20 cm e
0,5 a 1% na camada 20-50 cm. O pH varia ente 6 e 6,8.
O ensaio foi instalado na cultivar 'Rich Lady' enxertada em Montclar,
compreendendo duas modalidades, respetivamente, modalidade 1-com monda de
flores com equipamento electro'flor, equipamento elétrico que realiza o
desbaste de flores e é produzido pela INFACO e, neste ensaio, foi cedido pela
empresa Lisagri, e uma modalidade 0-testemunha sem qualquer intervenção de
monda de frutos, sendo cada modalidade constituída por 4 árvores. A melhor
operacionalidade do equipamento electro'flor foi conseguida com 10 fios com
cerca de 15 cm de comprimento (Figura_1). A monda de flores foi realizada no
dia 7 de Março de 2012, em plena floração da cultivar, circundando cada árvore,
procurando que as palhetas do equipamento percorressem todos ramos com maior
incidência naqueles que apresentavam maior densidade de flores (Figura_2). Após
a monda de flores, em início de Abril, após a queda das pétalas, no início do
estado fenológico J (frutos em desenvolvimento), quando já eram visíveis os
frutos vingados, foram marcados 4 ramos por árvore, correspondendo a diferentes
cargas de fruto/ramo.
Definiram-se 4 níveis de carga por ramo, nomeadamente:
Nível 1 ' entre 20 a 30 cm de ramo/fruto;
Nível 2 ' 13 a 19 cm de ramo/fruto;
Nível 3 ' 9 a 12 cm de ramo/fruto, e
Nível 4 ' menos de 9 cm de ramo/fruto.
Todos os frutos existentes em cada ramo marcado foram medidos semanalmente na
secção equatorial permitindo acompanhar a sua evolução e, portanto o valor de
cada carga resulta do acompanhamento de diversos frutos.
A colheita foi escalonada, realizando-se um total de 3 colheitas,
respetivamente a 29-Jun-2012, 4-Jul-2012 e 10-Jul-2012. Após a colheita os
frutos foram pesados, tendo sido avaliada a produção total, produção
comercializável, refugo e distribuição da produção pelas classes de calibre C
(56-61mm), B (61-67mm), A (67-73mm), AA (73-80mm) e AAA +AAAA (> 80mm).
A avaliação da qualidade dos frutos foi feita com base numa amostra de 14
frutos por árvore, sendo sete frutos do calibre 67-73 referentes à 1ª colheita
(29-Jun-2012) e sete do calibre 61-67 referentes à 2ª colheita (04-Jul-2012),
num total de 112 frutos. Deste modo a avaliação da qualidade dos frutos
realiza-se nos dois calibres mais representativos. Para o conjunto dos 14
frutos determinou-se o peso de cada fruto, a coloração, através de colorímetro
Minolta utilizando o sistema CIE L*a*b*, a dureza, com o auxílio de um
penetrómetro de bancada tipo Penefel, o teor de sólidos solúveis (TSS) com
utilização de refratómetro digital e a acidez por titulação com NaOH 0,1N.
Resultados
A monda de flores com electro'flor é um método relativamente simples e pouco
moroso, revelando-se bastante versátil podendo ser utilizado quer em árvores
com forma de condução em volume quer em superfície, para além de se poder
utilizar tempos distintos em árvores distintas. Contudo, o efeito alcançado
será sempre dependente do operador, para além de outros fatores transversais a
qualquer ciclo vegetativo (Crisosto et al., 1997).
Produção
A produção total foi de 14,5 t/ha na modalidade com monda de flores e de 18,5
t/ha na modalidade sem monda (Quadro_1). A produção foi mais baixa
relativamente a produções alcançadas em anos anteriores, nomeadamente 27 t/ha
em 2006 e 24,7 t/ha em 2007 (Simões, 2008). Quando comparadas entre si não há
diferenças significativas entre as modalidades em estudo, quer no que respeita
à produção total quer à produção comercial. Contudo, apesar dos resultados
bastante próximos entre as duas modalidades verifica-se um efeito positivo na
diminuição da quantidade de frutos do calibre mais baixo (56-61), observando-
se, na modalidade sem monda, uma quantidade significativamente mais elevada de
frutos do calibre C, 2180 kg/ha, comparativamente à modalidade com monda de
flores, que regista 567 kg/ha.
A produção de frutos de calibre A e A+ foi de 55% na modalidade com monda de
flores e de 38,3% na modalidade sem monda (Quadro_2). Em termos de peso,
observou-se maior produção de frutos de calibre A e A+ na modalidade com monda,
7946 kg/ha relativamente à modalidade sem monda, 7744 kg/ ha. Este resultado
pode traduzir-se em significativo resultado económico uma vez que muito
comércio a retalho em Portugal não aceita a comercialização de calibres
inferior a A, ou, aceita em pequena proporção. Tal como refere Layne e Bassi
(2008), o máximo lucro não ocorre com o máximo de produção comercializável uma
vez que os calibres superiores são mais valorizados. Um efeito positivo no
aumento do peso médio do fruto foi também obtido, num dos ciclos vegetativos
por Torregrosa et al. (2011), relativamente a outros métodos de monda de
frutos, embora os resultados não fossem consistentes nos dois anos do ensaio.
Tratando-se de uma produção escalonada verifica-se que a proporção de frutos
colhidos nas diferentes colheitas relativamente a cada modalidade nem sempre é
semelhante. Neste ensaio verificou-se um ligeiro atraso na maturação dos frutos
da modalidade sem monda relativamente à modalidade com monda (Quadro_3). Com
efeito verifica-se que na modalidade sem monda apenas se colheu 13,8% da
produção na 1ª colheita enquanto na modalidade com monda se retirou 38,3% da
produção logo na 1ª colheita.
Qualidade dos frutos
No que respeita à qualidade dos frutos verificou-se que o calibre predominante
na 1ª colheita foi o calibre 67-73 e na 2ª colheita foi o calibre 61-67. O peso
médio dos frutos por classe de calibre foi de 164 g/ fruto para a classe de
calibre 67-73 e de 140 g/fruto para a classe de calibre 61-67 (Quadro_4), não
se tendo observado diferenças significativas por modalidade para o peso/fruto e
classe de calibre.
O parâmetro mais importante na determinação da data de colheita é a dureza dos
frutos pois dela depende a longevidade dos frutos e ainda a facilidade do
manuseamento subsequente (Kader, 2002). Neste ensaio os frutos apresentaram uma
dureza à colheita de 5,3 kg/0,5cm2, com igual valor entre modalidades (Quadro
5), o que indica que a colheita foi efetuada de modo correto com os frutos no
mesmo estado de maturação. O valor de dureza de 4,5 a 6 kg/0,5cm2 permite
facilidade de manuseamento e, simultaneamente uma favorável evolução dos frutos
para a maturação gustativa.
Tendo em consideração que a dureza dos frutos é semelhante entre modalidades e
portanto os frutos foram colhidos no mesmo estado de maturação observa-se que
houve um efeito significativo da monda no TSS sendo de 13,0% para a modalidade
sem monda e de 14,1% para a modalidade com monda, ambos superiores a 12,7%,
referentes à média de diversas cultivares de pêssego na região da Beira
Interior em 2009 (Simões et al., 2010). Este resultado deve também ser
correlacionado com a produção obtida, que foi menor na modalidade com monda.
Semelhante relação inversa entre a produção e o TSS dos frutos é referida por
Crisosto et al.(1997) para a cultivar O'Henry e para a nectarina May Glo. Ainda
relativamente ao TSS verifica-se um valor bastante elevado para ambas as
modalidades que, segundo Crisosto e Crisosto (2005), se traduz em elevada
aceitação por parte dos consumidores.
Para além do TSS observou-se também um efeito significativo da monda na cor dos
frutos, nomeadamente no parâmetro b respetivamente 21,26 para a modalidade sem
monda e 19,42 pra a modalidade com monda e do parâmetro H, respetivamente 35,65
e 34,03 para a modalidade 0 e 1. Estes resultados mostram que os frutos da
modalidade com monda apresentaram os frutos com uma tonalidade menos amarela
relativamente aos frutos sem monda, o que indica um estado mais avançado de
maturação uma vez que este parâmetro diminui junto à colheita e após colheita
(dados não apresentados).
A acidez foi de 8,5 e 9,0 g de ác. málico/L, valor da mesma ordem de grandeza
do obtido em 2006, 8,6 g de ác. málico/L, para a mesma cultivar (Simões, 2008).
Evolução do diâmetro dos frutos
A monitorização do aumento do calibre dos frutos nos ramos marcados permitiu
observar um aumento do calibre médio dos frutos na modalidade com monda de
flores, observando-se diferenças significativas entre modalidades a partir de
11 de Maio de 2012 (Figura_3).
A observação da evolução do diâmetro dos frutos de acordo com a carga dos ramos
(Quadro_6), permite verificar que o nível de carga 1, com um fruto por cada 20
a 30 cm de ramo, não apresenta uma evolução significativamente diferente do
nível de carga 2, com um fruto por cada 12 a 20 cm de ramo ou com o nível de
carga 3, correspondente a um fruto por cada 9 a 12 cm de ramo. O nível de carga
4, em que os frutos dispõem apenas de 4 a 9 cm de ramo, já apresenta um
crescimento menor dos frutos e significativamente menor que as restantes
modalidades de nível de carga por ramo. Assim, observou-se um crescimento dos
frutos semelhante quer cada fruto disponho de 20 a 30 cm de ramo quer 9 a 12 cm
de ramo. Uma densidade de frutos elevada, na ordem de 5 a 9 cm de ramo por
fruto, resultou numa diminuição significativa do calibre dos frutos desde
finais de Maio acentuando-se as diferenças no final do ciclo de crescimento dos
frutos. Este resultado poderá permitir avaliar de modo mais objetivo e
quantificável da necessidade de monda de frutos através da amostragem e
observação da carga dos ramos.
A monda de flores sendo realizada na fase zero do desenvolvimento dos frutos
permitiu um efeito muito positivo no aumento do calibre dos frutos mas também
reduziu a produção o que não é um efeito positivo.
Conclusões
Embora os resultados apresentados digam apenas respeito a um a ciclo vegetativo
e a uma cultivar, podemos dizer que a monda de flores com electro'flor resultou
em menor produção mas, simultaneamente, resultou em maior percentagem de frutos
nas classes de calibre A e A+, bem como maior teor de sólidos solúveis e menor
valor dos parâmetros b e H.
A monitorização do diâmetro dos frutos de acordo com a carga de frutos por ramo
indicou que não houve diferenças significativas do calibre dos frutos quando
cada fruto dispunha de 20 a 30 cm de ramo, ou de 9 a 12 cm de ramo.
A utilização deste equipamento é fácil e versátil mas os resultados estão
dependentes do operador sendo mais favorável a monda de flores quando o ramo se
encontra numa orientação mais vertical.
Agradecimentos
Agradece-se à empresa Lisagri que cedeu o equipamento para a realização deste
trabalho.