Tratamentos para quebra de dormência em Brachiaria brizantha
Introdução
O Brasil é o maior produtor, consumidor e exportador mundial de sementes de
Brachiariaspp.. Nas duas últimas décadas, foi notável o aumento da área de
pastagens formadas com gramíneas do género Brachiaria, acompanhado de um
aumento proporcional na produção e comercialização das suas sementes. Diversos
agentes interagem nesse processo de produção, que representa uma faturação
anual de milhões de dólares e a manutenção de milhares de empregos. Apesar da
importância económica e social, a viabilidade das sementes produzidas pelas
espécies deste género é variável e os investimentos em pesquisa nesta área são
escassos (Dias e Alves, 2008).
Constata-se também que as pastagens brasileiras apresentam um alto grau de
degradação, podendo chegar a 80%. Isso deve-se a vários fatores, inclusivé a
baixa taxa de germinação das sementes das espécies forrageiras instaladas, que
mesmo apresentando condições ambientais favoráveis são classificadas como
dormentes (Lacerda et al., 2010).
Entre as diferentes espécies forrageiras cultivadas no Brasil, a que se destaca
é a espécie Brachiaria brizantha(Hochst. ex A. Rich) Stapf, que é a mais
cultivada no país e com maior volume de sementes destinadas a exportação. As
sementes de B. brizanthatêm como característica a dificuldade de germinar em
laboratório e no campo, devido à ocorrência de dormência inata ou natural (Lago
e Martins, 1998), apresentando, entre outros fatores, heterogeneidade de
maturação. Estes fatores dificultam o estabelecimento e uniformidade das
populações o que, concomitantemente, contribui para o aparecimento de
infestantes nas pastagens, principalmente no estágio inicial de formação.
A dormência de sementes define-se por um fenómeno em que, as sementes viáveis
não germinam mesmo em condições ambientais favoráveis e fornecendo um tempo
para sua dispersão natural (Taiz e Zeiger, 2004). Em gramíneas forrageiras
tropicais, a dormência pode estar associada a causas fisiológicas presentes em
cariopses recém-colhidas, que passaram por algum problema durante o
armazenamento, ou a barreiras à entrada de oxigénio nos tegumentos (Whiteman e
Mendra, 1982). Estudos desenvolvidos por Ohlson et al. (2008) com várias
amostras de sementes de B. brizanthadas cvs. Marandu', MG4 e MG-5 demonstraram
deficiências na qualidade física e fisiológica de sementes comercializadas no
estado do Paraná.
A quebra da dormência por métodos químicos, quer para uso laboratorial quer
industrial, tem sido investigada, designadamente a utilização de nitrato de
potássio (KNO3) e ácido sulfúrico (H2SO4) (Ellis et al., 1985; Brasil, 1992).
Os métodos por tratamento térmico, além de quebrarem a dormência, também são
considerados eficientes na erradicação de patógenos do material vegetal, com
implicações na redução de pesticidas e a diminuição da entrada de novas
espécies de patogéneos em áreas isentas (Smiderle e Gianluppi, 2009).
O presente trabalho teve como objetivo avaliar diferentes métodos de quebra de
dormência em sementes de B. brizanthanas cultivares Marandu', MG5' e Piatã'
por meio de escarificação por H2SO4, KNO3 e tratamento térmico.
Material e Métodos
O estudo foi desenvolvido de março a abril de 2011, na Universidade Estadual de
Mato Grosso do Sul (UEMS), Unidade Universitária de Aquidauana (UUA),
localizada a uma altitude de 174 m, longitude de 55o 67' W e latitude de 20o
45' S. O clima da região, de acordo com a classificação de Köppen é Aw,
definido como clima tropical sub-úmido e com temperatura média anual de 26 oC,
com precipitação média de 1400 mm, com estação chuvosa no verão e seca no
inverno. O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado com
cinco repetições em esquema fatorial 4x3, sendo 4 tratamentos - ácido
sulfúrico, água quente (60 oC), nitrato de potássio e testemunha - e 3
cultivares (Marandu', MG5' e Piatã'). Esses processos foram realizados nos
Laboratórios de Química e Entomologia da UUA/UEMS. A metodologia foi proposta
segundo MAPA - Regras para Análise de Sementes (Brasil, 2009) com os seguintes
procedimentos:
a) Ácido sulfúrico (H2SO4): As sementes de cada cultivar foram imersas em
H2SO4concentrado (98%, 36N) durante 15 minutos e, em seguida, lavadas em água
corrente durante 5 minutos e secas à sombra;
b) Tratamento térmico: As sementes de cada cultivar foram imersas em Béquers de
50 mL em água aquecida a 60o C, durante 5 minutos;
c) Nitrato de potássio (KNO3): Sementes puras foram imersas durante 5 minutos
em Béquers de 20 mL em uma solução de 0,2% de KNO3;
d) Testemunha: Foram utilizadas sementes puras, sem qualquer acondicionamento.
O substrato de germinação foi umedecido com água. Em seguida as sementes foram
colocadas em placas de Petri, sobre 2 folhas de papel filtro, umedecidas com
água destilada, com exceção do tratamento de KNO3 com a solução preparada. Logo
após, as placas de Petri foram colocadas em câmara de germinação (BOD), para
ocorrer o processo germinativo, permanecendo no seu interior por 16-h de luz a
35 oC e por 8-h a 20 oC, durante 21 dias. Diariamente, quando necessário, os
papéis eram umedecidos com água destilada, conforme Gaspar-Oliveira et al.
(2007).
Aos 7, 14 e 21 dias foram feitas às avaliações das plântulas normais e
anormais. Após o teste de germinação as sementes firmes ou dormentes foram
separadas e contadas, e no final foram eliminadas.
Foi utilizado um delineamento inteiramente casualizado em esquema fatorial com
cinco repetições, contendo cinquenta sementes para cada tratamento, totalizando
1250 sementes e os resultados foram expressos, posteriormente, em percentagem
final de germinação (Brasil, 1992). Efetuou-se análise de variância (ANOVA),
sendo os dados transformados em e para os parâmetros que apresentaram
significância (p<0,01), foi aplicado teste de comparação de médias de Duncan, a
5 % de probabilidade.
Resultados e Discussão
No Quadro_1 apresentam-se a taxa de germinação média por cultivar e pré-
tratamento das sementes. Constata-se que as percentagens de germinação foram
elevadas em todas as cvs de B. brizanthasujeitas a pré-tratamento,
comparativamente à testemunha.
Não houve interação significativa entre as cultivares de B. Brizantha versus os
tratamentos para quebra de dormência avaliados, por isso apresentam-se os
valores médios globais por cultivar e pré-tratamento (Quadro_2 e Quadro_3). A
cv. Piatã' apresentou valores significativamente superiores à cv. Marandu' e
cv. MG5' (Quadro_2). Um fator relevante, de acordo com Garcia e Cicero (1992)
é a espécie e/ou cultivar envolvida, pois suas características morfológicas
interferem na quebra da dormência. Entretanto, na literatura são escassos os
dados de comparação entre cultivares de B. brizantha, uma vez que a maioria dos
trabalhos avalia a quebra de dormência de uma cultivar isoladamente. Assim, os
dados deste estudo permitem informar o produtor que a utilização de sementes da
cv. Piatã' proporcionará maior germinação em relação às demais cultivares
avaliadas.
Entre os métodos de quebra de dormência, houve diferenças significativas
(p<0,05) entre pré-tratamentos (Quadro_3), observando-se os maiores valores no
tratamento com H2SO4, quando comparado ao KNO3, e tratamento térmico e a
testemunha, que não diferem entre si. Martins e Silva (2003) trabalhando com
diferentes tratamentos térmicos e químicos em sementes de Brachiaria
brizanthacv. Marandu' obtiveram como resposta que a imersão das sementes em
H2SO4 possibilitou um aumento significativo na germinação, corroborando com os
resultados do presente trabalho. O mesmo resultado foi observado por Gaspar-
Oliveira et al. (2007) que observaram quebra dormência nas sementes da cv.
Marandu' por escarificação com H2SO4, com uma taxa de germinação superior, e
em menos tempo, à do tratamento com KNO3. Munhoz et al. (2011), trabalhando com
a B. brizanthacv. MG5', também verificaram que a germinação das sementes
aumentou significativamente com o pré-tratamento por H2SO4, confirmando os
dados obtidos no presente trabalho.
Martins e Silva (2003) ao comparar o efeito de pré-tratamentos térmicos e
químicos em sementes de Brachiaria brizanthacv. Marandu', também observaram
uma maior germinação das sementes com a aplicação de H2SO4, comparativamente à
testemunha. Todavia, Pires (1992) sugere que para B. brizantha, não é indicado
o tratamento de H2SO4 para sementes de baixo vigor ou armazenadas por um
período superior a seis meses. Previero et al. (1998) puderam confirmar que a
escarificação com este ácido prejudicou a quebra da dormência das sementes,
discordando desta pesquisa.
A legislação brasileira (Brasil, 1992) admite o uso de H2SO4, sendo o
tratamento realizado durante 10 minutos em sementes de Brachiariaem caso de
dormência. Contudo, vários autores (Jark Filho, 1976); Atalla e Torsello, 1979;
Goedert, 1985; Macedo et al,1994), trabalhando com escarificação de sementes
deBrachiaria humidicola(Rendle) Schweick, verificaram um efeito negativo na
germinação das se-mentes com o uso de ácido sulfúrico concentrado. De acordo
com Garcia e Cicero (1992), quando se utiliza H2SO4 na quebra de dormência de
sementes de Brachiaria brizantha cv. Marandu' podem obter-se resultados
contraditórios, podendo favorecer ou prejudicar a germinação. Lacerda et al.
(2010), avaliando a quebra da dormência de sementes de Brachiaria brizanthacv.
Marandu', verificaram que o tratamento mais efetivo na quebra da dormência foi
o pré-tratamento com água quente, independentemente do tempo de imersão, onde
foi constatada uma maior percentagem de germinação, enquanto que o pré-
tratamento com H2SO4 não diferiu da testemunha. Assim, o estado do
conhecimento, em sementes de gramíneas forrageiras tropicais, não oferece
segurança para orientar, de modo conclusivo, definições de procedimentos
capazes de impedir a expressão da dormência no estabelecimento de pastagens.
Pesquisas futuras envolvendo a utilização de diversos tratamentos para a quebra
da dormência de espécies e cultivares do gênero Brachiaria, podem contribuir
para alicerçar a formulação de alternativas tecnológicas que aliem, em sua
aplicação, eficiência operacional e segurança ambiental.
Conclusões
Brachiaria brizanthacv.Piatã' apresentou maior percentagem de germinação em
relação às cultivares Marandu' e MG5'. O tratamento com H2SO4 para quebra de
dormência apresentou melhores resultados, quando comparado ao tratamento com
KNO3 e ao tratamento térmico.