Pastagens permanentes em zonas de montanha: caracterização, gestão e
conservação
Introdução
As pastagens mediterrânicas naturais e seminaturais constituem um recurso muito
importante nos sistemas tradicionais de uso do solo integrando o conjunto de
ecossistemas mais protegidos na Europa (EC, 2007). São reconhecidas como
habitats chave para manter a biodiversidade nas paisagens agrícolas (Pykälä,
2000) e como sendo dependentes dos sistemas tradicionais de uso do solo
(Gustavsson et al., 2007) bem como a sua multifuncionalidade ecológica e
socioeconómica (Zimkova et al., 2007).
Na Beira Alta, de relevo acidentado e com importantes zonas montanhosas, como a
serra da Estrela, estas pastagens são de enorme valor ambiental, ecológico e
paisagístico. Nestas zonas montanhosas, desenvolvem-se muitas formações
herbáceas, associadas ou submetidas em maior ou menor grau ao pastoreio. Estas
constituem muitas vezes lameiros de regadio, lameiros de secadal, cervunais,
arrelvados vivazes e prados-juncais (neste caso, em zonas de vale ou de menor
altitude). No caso dos lameiros é notável a sua função reguladora no ciclo da
água e de nutrientes, na formação e retenção do solo, entre outras funções no
ecossistema, sendo-lhes reconhecido o seu interesse ecológico e
conservacionista.
Os lameiros, os cervunais, bem como outras formações herbáceas, no contexto
europeu, têm enquadramento em habitats da Diretiva 92/43/CEE (Diretiva Habitats
conforme Council Directive 92/43/EEC, EC 2007) transposta para a legislação
interna pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, tendo em consideração a interpretação
proposta pela Comissão Europeia, EC (2007).
Assim, os lameiros estão contemplados no habitat 6510, designado Prados de
feno de baixa altitude (Alopecurus pratensis L., Sanguisorba officinalisL.) e
no habitat prioritário 6220 Subestepes anuais de Thero-Brachypodietea,subtipo
4 (arrelvados vivazes silicícolas de gramíneas altas), incluindo-se aqui os
lameiros de secadal. Neste subtipo, para além dos lameiros de secadal, estão
também incluídos arrelvados dominados por Arrhenatherum elatius(L.) P. Beauv.
ex J. et K. Presl subsp. baeticumRomero Zarco e/ou Celtica gigantea(Link) F. M.
Vázquez & Barkworth (=Stipa gigantea Link) sendo estes últimos também uma
fonte importante de alimento dos efetivos pecuários nas zonas montanhosas da
Beira Alta.
Por sua vez, os cervunais têm também enquadramento na referida Diretiva,
estando contemplados no habitat prioritário 6230, designado por Formações
herbáceas de Nardus, ricas em espécies, em substratos siliciosos das zonas
montanas (e das zonas submontanas da Europa continental) .
Os prados de montanha, conjuntamente com matos (giestais, codeçais, etc.) e
baldios, são um importante recurso forrageiro na actividade pecuária, ao mesmo
tempo que desempenham funções específicas no ecossistema, desde a manutenção da
biodiversidade, valor paisagístico, proteção do solo e dos recursos hídricos e
minimização do risco de incêndios.
No caso concreto dos lameiros está-lhes associado um sistema de rega centenário
que permite a escorrência de um fino lençol de água que estará na origem da
designação prados de lima, largamente utilizada. Este sistema de rega
minimiza o risco de geada no inverno, através da regulação térmica que
proporciona, permitindo o desenvolvimento da vegetação numa altura em que este
estaria muito limitado pela temperatura. Este facto é referido por diversos
autores (Gonçalves, 1985; Pôças et al., 2007).
Os lameiros constituem prados seminaturais permanentes, centenários, muito
característicos dos agro-sistemas da paisagem da Beira Alta, geralmente sobre
solos profundos, férteis e bem drenados. Contudo têm vindo a estar sujeitos
gradualmente ao abandono por parte das populações rurais das regiões
montanhosas, devido ao êxodo rural e ao envelhecimento populacional.
A Alta Idade Média é conhecida como o período em que os lameiros terão surgido
nas zonas montanhosas (Moreira et al., 2001) os quais constituíam pastagens
comunitárias em conformidade com a organização comunitária da época. Apesar da
sua origem centenária, em Portugal, o seu melhoramento através de sementeiras
terá sido desenvolvido consistentemente apenas a partir de 1965 (Salgueiro,
2008).
Dado o interesse económico, ecológico e conservacionista das formações
herbáceas e pastagens permanentes, foi efetuada uma revisão bibliográfica em
resposta aos seguintes objetivos: 1) identificação dos vários tipos de
formações herbáceas que se desenvolvem em pastagens permanentes de montanha e
que ocorrem na Beira Alta, concretamente, no distrito da Guarda;2)
caracterização das principais associações vegetais e habitats da Diretiva
Habitats que lhes estão associadas; 3) identificação dos diferentes tipos de
gestão a que estão sujeitas e 4) avaliação da sua importância na conservação da
biodiversidade.
Área de estudo
A área de estudo (Figura_1) abrange todo o Distrito da Guarda (concelhos de
Aguiar da Beira, Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo,
Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Meda; Pinhel, Sabugal, Seia e
Vila Nova de Foz Côa). Faz fronteira com Espanha na parte este do seu limite.
Os concelhos abrangidos estão incluídos na zona Centro-Ibérica, predominando os
substratos de granito e os metassedimentos do complexo Xisto-Grauváquico do
Paleozóico (Ribeiro et al., 1979). É de referir que o Maciço Ibérico ou
Hespérico foi pela primeira vez caracterizado por Lotze (1945), com posteriores
acréscimos de Julivert et al. (1972) e Ribeiro et al. (1979).
A base cartográfica disponível em Corine Land Cover(2006) (Caetano et al.,
2009) foi adaptada de forma a obter uma caracterização dos principais usos do
solo na área de estudo, sintetizada na Figura_2. Constatamos, assim, que
predominam as designadas áreas de sequeiro com vegetação herbácea em mosaico
com os sistemas agro-florestais, matos ou vegetação esclerófila, florestas de
resinosas (nomeadamente de pinheiro-bravo, Pinus pinasterAiton) e,
pontualmente, com florestas de folhosas (geralmente de Quercus roburL. ou
Quercus pyrenaicaWilld.). Destacam-se também as áreas de pomares, vinhas ou
outras culturas agrícolas que predominam principalmente nos concelhos do norte
do distrito da Guarda.
Grande parte de Portugal faz parte da Região Mediterrânica, de clima
mediterrânico, em que as precipitações estão concentradas no inverno e são
insuficientes para compensar a evapotranspiração que ocorre no verão, levando
ao esgotamento das reservas hídricas do solo (González e Prieto, 1994). Em
resposta a estas condições climáticas, desenvolve-se vegetação
predominantemente perenifólia e esclerófila, muito característica da Região
Mediterrânica.
Segundo a única cartografia biogeográfica de Portugal continental existente, de
Costa et al. (1998) e à mais recente atualização à escala Ibérica efetuada por
Rivas-Martínez (2007) e Rivas-Martínez et al. (2011), definiu-se o
enquadramento biogeográfico da área de estudo, estando esta incluída na Região
Mediterrânica, sub-região Mediterrânica Ocidental, província Mediterrânica
Ibérica Ocidental e subprovíncias Carpetano-Leonesa e Luso-Estremadurense. Na
primeira subprovíncia, a área de estudo é abrangida pelo sector Lusitano
Duriense (Lusitano-Duriense) e subsector Ribaduriense (Ribaduriense), no qual
se inclui o distrito Terraquentino (da Terra Quente) e o distrito Baixoduriense
(Baixo Douro). É abrangida ainda pelo sector Salmantino e pelo sector
Estrelense. No primeiro inclui-se o subsector Sursalmantino onde se insere o
distrito Batueco-Malcatenho. No segundo inclui-se o distrito Guardense (Guarda)
e o distrito Altoestrellense. Na subprovíncia Luso-Estremadurense, a área de
estudo abrange parcialmente o sector Beirense, o subsector Norbeirense e,
dentro destes, abrange os distritos Altibeirense e Beirense Litoral.
A área de estudo encontra-se num bioclima mediterrânico pluviestacional-
oceânico com um período de seca bem marcado. A subprovíncia Carpetano-Leonesa
abrange maioritariamente território mesomediterrânico superior (o somatório da
temperatura das máximas do mês mais frio e das mínimas do mês mais frio e a
média das temperaturas médias mensais varia entre 22ºC e 28,5ºC) até
orotemperado superior com ombrotipos sub-húmido superior ao ultra-hiperhúmido
superior, segundo os mapas bioclimáticos de Monteiro-Henriques (2010; 2012).
Estas áreas caracterizam-se por um relevo muito acidentado em que, além do
complexo xisto-grauváquico, predominam substratos siliciosos derivados de
granitos, por vezes em extensas áreas de afloramentos rochosos.
Por sua vez, os termotipos e ombrotipos da parte incluída na subprovíncia Luso-
Estremadurense definem-se como mesomediterrânico inferior e sub-húmido
inferior, respetivamente, segundo os mapas acima referidos. A subprovíncia
Luso-Estremadurense é uma das mais extensas da Península Ibérica ocupando
grande parte do centro e sul de Portugal continental, no entanto a área de
estudo apenas abrange o distrito Altibeirense, o qual constitui um dos limites
norte desta subprovíncia.
A subprovíncia Carpetano-Leonesa abrange a maior parte do distrito da Guarda,
distinguindo-se ainda os distritos Terraquentino (apenas residualmente) e
Baixoduriense do sector Ribaduriense, o distrito Batueco-Malcatenho do
subsector Sursalmantino e ainda os distritos Guardense e Altoestrelense do
sector Estrelense. Da subprovíncia Luso-Estremadurense há correspondência
territorial com os distritos Altibeirensee Beirense Litoral.
Destas unidades biogeográficas, as que incluem maior extensão da área de estudo
são o distrito Baixoduriense, que inclui grande parte da bacia do rio Douro, o
distrito Guardense e o distrito Altibeirense. Contudo, pequenas áreas do
território estão ainda incluídas no distrito Batueco-Malcatenho (neste caso, o
concelho do Sabugal), no distrito Altoestrelense (concelhos de Seia e
Manteigas) e residualmente no distrito Terraquentino.
A pesquisa bibliográfica sobre as pastagens permanentes de altitude que ocorrem
na área de estudo foi efetuada principalmente com base nas publicações de Costa
et al. (1998; 2012), Meireles (2010), Pereira e Sousa (2005), Pôças et al.
(2006), Ribeiro (2013) e Teles (1970). Foi adoptada a nomenclatura
sintaxonómica de Costa et al. (2012).
Tipos de pastagens permanentes de zonas montanhosas
Os principais tipos de formações herbáceas que ocorrem em zonas de pastagens
permanentes de zonas montanhosas incluem os lameiros, os cervunais, prados-
juncais e arrelvados vivazes constituindo um importante recurso nos sistemas
tradicionais de uso do solo, nomeadamente no pastoreio. Os lameiros, também
designados de prados de lima são pastagens permanentes semi-naturais comuns nas
regiões montanhosas do norte e centro do país. Os cervunais, por sua vez,
ocorrem em zonas de maior altitude e de grande oligotrofia e são geralmente
pastoreados mas não submetidos a corte.
No que diz respeito aos lameiros, Pôças et al. (2006) caracterizam vários
tipos, por um lado, em função das disponibilidades hídricas, por outro lado, em
função do regime de aproveitamento. Assim, de acordo com o primeiro critério,
distingue os lameiros de regadio(ao longo de cursos de água permanentes), os
lameiros de regadio imperfeito (junto de cursos de água não permanentes ou de
reduzido caudal) e os lameiros de sequeiro ou secadal (adjacentes a cursos de
água temporários). Estes últimos nunca dispõem de água de rega e localizam-se
em geral nas zonas aplanadas com maior altitude.
Considerando o segundo critério, aqueles autores referem: os lameiros de pasto
(destinados a pastoreio do gado); os lameiros de erva (lameiros de regadio) e
os lameiros de feno (submetidos a corte e pastoreio). Quanto à forma como é
utilizada a forragem (Pires et al., 1994; Moreira et al., 2001), os lameiros
são designados lameiros de pasto, quando a sua produção é utilizada
exclusivamente por pastoreio, lameiros de erva, se são aproveitados
exclusivamente por corte sendo a erva consumida de imediato pelos animais e
lameiros de feno se são utilizados por pastoreio até determinada data e depois
reservados para que a erva cresça e possa ser cortada para feno no início do
verão, feno que será reservado para consumo durante o inverno seguinte.
Pereira e Sousa (2005) referem que os lameiros de pasto ocupam zonas
planálticas, que não são regados, são menos produtivos mas sustentam o efetivo
pecuário durante a primavera e o início do verão enquanto os lameiros de feno
estão protegidos para a produção de feno. Refere ainda que os lameiros de feno,
geralmente são regados pelo menos durante alguma parte do ano, são mais
produtivos, constituídos por espécies mais nutritivas, e aproveitados num
regime misto, em que são pastados, com exclusão de pastoreio na primavera para
produção de feno e respetivo corte no início do verão. Por sua vez, distingue
ainda os lameiros de corte, como sendo os mais produtivos, regados durante todo
o ano, mais fertilizados e submetidos apenas a corte, durante o verão.
Caracterização fitossociológica e habitats de pastagens permanentes de altitude
Considerando as unidades biogeográficas anteriormente referidas e a informação
constante em Costa et al. (1998; 2012), Meireles (2010), Ribeiro (2013), as
zonas de pastagens permanentes de altitude da área de estudo desenvolvem-se nos
territórios climatófilos dos carvalhais-negrais de Holco mollis-Quercetum
pyrenaicae, de Genisto falcatae-Quercetum pyrenaicae, de Querco pyrenaicae-
Fraxinetum angustifoliae,dos sobreirais de Sanguisorbo hybridae-Quercetum
suberis (no Distrito Altibeirense) e de Physospermo cornubiensis-Quercetum
suberis (no Distrito Baixoduriense), e ainda de azinhais de Genisto hystricis-
Quercetum rotundifoliae quercetosum rotundifoliae.No estrato serial arbustivo
médio-baixo abundam principalmente os giestais de Lavandulo sampaioanae-
Cytisetum multiflorae (subserial dos carvalhais-negrais e sobreirais) e Cytiso
multiflori-Retametum sphaerocarpae (subserial do azinhal).
Nas clareiras destes mosaicos de bosques, giestais e outros matos do estrato
médio-baixo ocorrem as clareiras herbáceas que são aproveitadas como zonas de
pastagens naturais ou semi-naturais permanentes. Apresenta-se uma síntese do
enquadramento fitossociológico dos prados, juncais e arrelvados dominantes na
área de estudo, e respetiva integração em habitats da Diretiva 92/43/CE no
Quadro_1.
Foi estabelecida a correspondência das formações herbáceas da área de estudo
com quatro habitats da Diretiva 92/43/CEE: 6510 - Prados de feno de baixa
altitude (Alopecurus pratensis, Sanguisorba officinalis); 6410 - Pradarias com
Molinia em solos calcários, turfosos e argilo-limosos (Molinion caeruleae),
subtipo 2 - Juncais de Juncus acutiflorus Ehrh. Ex Hoffm, Juncus
conglomeratusL. e/ou Juncus effususL.; 6220 (prioritário) - Subestepes de
gramíneas e anuais da Thero-Brachypodietea, subtipo 4 (arrelvados vivazes
silicícolas de gramíneas altas); 6230* Formações herbáceas de Nardus, ricas em
espécies, em substratos siliciosos das zonas montanas (e das zonas submontanas
da Europa continental). Indicam-se ainda os táxones bioindicadores de cada
habitat, segundo ICNF (2006a, b, c, d, e), bem como a sua designação, no Quadro
2. De seguida apresenta-se uma síntese das características de cada habitat
considerado.
Habitat 6510 - Prados de feno de baixa altitude (Alopecurus pratensis,
Sanguisorba officinalis)
Estes prados de feno, constituídos por ervas altas, estão associados a solos
profundos e bem drenados. A sua manutenção promove a infiltração de água no
solo, a regulação dos níveis de nutrientes, a descontinuidade do mosaico
florestal e, consequentemente, a prevenção de fogos florestais, entre outros.
Incluem-se neste habitat, os prados da aliança Arrhenatherion, geralmente
dominados por Arrhenatherum elatiussubsp. bulbosum, Agrostis castellanaBoiss.
& Reuter ou Festuca rothmaleri(Ltard.) Markgr.-Dannenb. (ICNF, 2006a).
Ocorrem no domínio climácico de carvalhais e sobreirais (neste caso com com
compensação edáfica). Contactam com outros prados da aliança Cynosurion ou
juncais da Juncion acutiflori e em situações mais xéricas com arrelvados da
aliança Agrostion castellanae. Em situações de maior altitude contactam com os
cervunais de Nardus strictaL. (habitat 6230).
Habitat 6410 - Pradarias com Molinia em solos calcários, turfosos e argilo-
limosos (Molinion caeruleae), subtipo 2 - Juncais de Juncus acutiflorus, Juncus
conglomeratus e/ou Juncus effusus
Este habitat inclui os prados-juncais e juncais, geralmente cespitosos,
dominados por Juncus effusus e/ou Juncus acutiflorus que se desenvolvem em
solos profundos e ácidos que conservam a humidade durante todo o ano ou quase.
Encontram-se geralmente adjacentes a linhas de água, ocupando o território de
bosques ripícolas, como amiais e salgueirais e ainda de bosques edáfo-
higrófilos como os freixiais.
Estes prados-juncais e juncais desenvolvem-se amplamente nos andares
mesotemperado, supratemperado e supramediterrânico, tornando-se mais escassos
no andar mesomediterrânico, geralmente não são fertilizados e têm reduzido
valor alimentar para o gado (ICNF, 2006b).
Habitat 6220 (prioritário) - Subestepes de gramíneas e anuais da Thero-
Brachypodietea, subtipo 4 (arrelvados vivazes silicícolas de gramíneas altas)
Este habitat ocupa solos profundos, oligotróficos, geralmente bem drenados e
inclui comunidades dominadas por Agrostis castellana frequentes nos designados
lameiros de secadal (ICNB, 2006). Neste habitat incluem-se os arrelvados
vivazes, geralmente dominados por gramíneas heliófilas (ICNF, 2006c) como os
táxones Arrhenatherum elatiussubsp. baeticum, Agrostis castellanae Celtica
gigantea. Inclui, ainda, arrelvados dominados por Festuca elegansBoiss..
Este habitat ocupa solos profundos, oligotróficos, frequentemente bem drenados.
A amplitude bioclimática em que ocorrem é grande: desde o termo- ao
supramediterrânico, com ombroclima seco a hiper-húmido. Constituem um refúgio
de biodiversidade, incluindo na sua composição florística algumas espécies de
elevado interesse conservacionista, como Armeria pinifolia(Brot.) Hoffmans.
& Link e Phalacrocarpon oppositifolium(Brot.) Willk.
6230* Formações herbáceas de Nardus, ricas em espécies, em substratos
siliciosos das zonas montanas (e das zonas submontanas da Europa continental)
Este habitat é constituído por comunidades herbáceas perenes muito densas e
cespitosas onde existe uma clara dominância do cervum (Nardus stricta),
acompanhado de espécies, com as mesmas características, associadas à classe
Nardetea.
Os cervunais são muito importantes para a conservação dos valores florísticos e
faunísticos de uma área, servindo de refúgio para inúmeras espécies. Intervêm
de forma determinante na regulação do ciclo da água, promovendo os processos de
infiltração de água no solo e seu fornecimento. São uma inestimável fonte
alimentar para o gado quer bovino, quer ovino e a sua manutenção está
claramente dependente da manutenção da pastorícia.
Em solos permanentemente inundados, encharcados ou muito húmidos durante todo o
ano desenvolvem-se os prados-juncais de Hypericum undulati-Juncetum acutiflori
ou de Peucedano-Juncetum acutiflori. Em solos encharcados mas que secam no
verão, estes prados-juncais dão lugar a outros da associação Descampsio
hispanicae-Juncetum effusi. Em solos siliciosos secos mas com alguma
compensação edáfica na primavera, desenvolvem-se os arrelvados de Gaudinio
fragilis-Agrostietum castellanae. Em situação de maior secura e com
afloramentos rochosos, desenvolvem-se os arrelvados de Arrhenatherum baetici-
Stipetum giganteae, geralmente dominados pela Celtica gigantea e com grande
valor alimentar para o gado, na Beira Alta, em solos menos férteis.
Gestão das zonas pastagens de montanha e conservação da diversidade florística
O tipo de gestão a que as formações herbáceas de zonas de montanha estão
sujeitas (Quadro_3) geralmente corte e/ou pastoreio, influencia a sua
composição e diversidade florística. Os impactos positivos do pastoreio na
diversidade florística são reconhecidos por diversos autores (Kumm, 2003;
Pikälä, 2000; White et al., 2000). Alguns autores estabelecem mesmo uma ligação
específica entre o pastoreio e as percentagens de gramíneas e leguminosas, por
exemplo, Pires et al.(1990) relacionam a diminuição de leguminosas face às
gramíneas em função da diminuição da intensidade do pastoreio. Ribeiro (2013),
num estudo desenvolvido no interior do país, identifica uma redução
significativa de leguminosas em parcelas abandonadas. Por sua vez, a data do
corte influencia a qualidade nutricional do feno que é maior quando o corte é
efetuado na fase do espigamento das gramíneas (Moreira et al.,2001). Conclusões
semelhantes já tinham sido efetuadas por Klapp (1971) quando constatou que o
pastoreio por ovinos até Março leva a um atraso de uma semana no corte do
prado, levando também posteriormente a um enriquecimento em proteínas.
Moreira et al.(2001) observaram uma diminuição da fertilidade do solo com o
aumento da altitude, explicada pela menor mineralização da matéria orgânica,
facto este que parece interferir com a redução de espécies leguminosas, uma vez
que, estas necessitam de solos férteis e temperaturas mais elevadas do que as
gramíneas.
Porque continuam atuais, transcrevemos seguidamente as palavras de Espírito
Santo D. e Aguiar C. (2008) proferidas na XXIX Reunião de Primavera da S.P.P.F
O abandono agrícola e pastoril é, no presente, a maior ameaça à conservação da
flora pratense endémica ou finícola porque estas plantas são facilmente
excluídas pelos arbustos e árvores das etapas sucessionais estruturalmente mais
complexas.
Conclusões
A biodiversidade das zonas de pastagens permanentes de altitude constitui um
recurso muito importante nos sistemas tradicionais de uso do solo revelando-se
como um dos ecossistemas mais protegidos na Europa. Muitos destes ecossistemas
estão dependentes de sistemas agrícolas tradicionais de uso do solo. A
composição, a funcionalidade e os serviços prestados pelas pastagens podem ser
fortemente afetados quando estas estão sujeitas a elevadas pressões antrópicas
e também quando são abandonadas.
Dado o seu valor ecológico e económico é importante garantir a gestão,
manutenção e melhoramento destes ecossistemas de forma a promover o incremento
da sua biodiversidade. A cooperação interdisciplinar torna-se um processo chave
na preservação sustentada dos recursos atualmente disponíveis.
As pastagens de montanha têm, na Beira Alta, uma vasta tradição de uso,
constituindo um dos recursos mais importantes na região. Reconheceram-se quatro
habitats associados aos ecossistemas de pastagens permanentes de montanha, dois
dos quais têm interesse prioritário para conservação no contexto Europeu.