Inoculação de fungo micorrízico e utilização de substratos comerciais para
produção de plântulas de mamoeiro (Carica papaya L.)
Introdução
A produção de mamão ocupa um lugar de destaque na fruticultura mundial, sendo o
Brasil o maior produtor de mamão do mundo, com uma produção anual de 1650000 t/
ano, situando-se entre os principais países exportadores, principalmente para o
mercado europeu. A espécie Carica papayaL. (mamoeiro) é a mais cultivada em
todo mundo (Embrapa, 2014).
Pela demanda exigida no mercado frutícola internacional, são fundamentais
cultivos que condicionem elevada produção de frutos, sem deixar de lado a
qualidade dos mesmos. Para tanto, uma gestão adequada durante todo o ciclo da
cultura é necessária. Um dos pontos determinantes para o sucesso de um cultivo
é a produção e utilização de plântulas vigorosas que permitam a formação de
plantas com alto padrão comercial, ou seja, mamoeiros que produzam por mais
tempo possível uma boa quantidade de frutos, e que estes sejam de boa
qualidade.
A tecnologia de produção de plântulas frutícolas relaciona-se diretamente a
investimentos de alto custo, incluindo infraestrutura, sementes de boa
qualidade e condições ambientais controladas. Neste contexto, o substrato entra
como insumo básico servindo de suporte físico para as plantas jovens e
disponibilizando recursos, como água e nutrientes (Farias et al., 2012).
Para a formação das plântulas de mamoeiro vários substratos são sugeridos,
dentre os quais podemos citar o esterco junto ao solo, húmus, casca de arroz,
palha de café, além dos já conhecidos substratos comerciais, sempre tendo em
consideração a qualidade destes, ou seja, que apresentem, entre outras
características, riqueza em nutrientes essenciais, boa capacidade de troca
catiónica, ausência de agentes patogénicos, pH próximo da neutralidade, baixa
salinidade (condutividade elétrica), e ainda características físicas (textura e
estrutura) que permitam a retenção de água, o arejamento e agregação do sistema
radicular, assim como o seu crescimento (Silva et al., 2001; Mendonça et al.,
2003; Lima et al., 2006). Para efetivar tais características, atualmente vêm
sendo incorporados junto ao substrato, esporos de fungos micorrízicos, que
posteriormente se associam simbioticamente às finas raízes de plantas
superiores, com ocorrência de benefícios mútuos (Vilella e Valarine, 2009). Os
benefícios já comprovados que a micorrização promove são o maior
desenvolvimento das plantas após o transplante, maior resistência ao estresse
hídrico e proteção da planta ao ataque de agentes patogénicos que afectam o
sistema radicular (Trindade et al., 2000).
Assim, este trabalho teve por objetivo estudar o crescimento de plântulas de
mamoeiro sob diferentes substratos comerciais utilizando sementes inoculadas
com fungos micorrízicos arbusculares, e a fim de elaborar indicações de gestão
para efetivar a produção de plântulas.
Material e Métodos
Os ensaios foram conduzidos em viveiro, coberto com tela de 50% de sombra,
localizado no Departamento de Ciências Vegetais da Universidade Federal Rural
do Semiárido (UFERSA), Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil (5º11´31S e
37º20´40W, altitude média de 18 m), entre os meses de abril a maio de 2011.
As sementes de mamão foram extraídas de frutos maduros do pomar experimental da
empresa WG Fruticultura, localizada na cidade de Baraúnas RN. Tais frutos
eram provenientes de mamoeiros do acesso CMF-L54 (Grupo Solo), desenvolvido
pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, Cruz das Almas - BA.
Após a extração das sementes, as mesmas foram lavadas em água corrente e depois
colocadas para secar à sombra durante 48-h. Em seguida, as sementes foram
inoculadas com o fungo micorrízico arbuscular Glomus fasciculatumGerd. &
Trappe, proveniente do produto comercial Endomic®, que contém, em média, 20
esporos por grama do inóculo compos-to por argila. Este produto foi misturado
com um fertilizante orgânico à base de esterco de morcego, de nome comercial
Fertplant® - Guano de morcego, para dar consistência pastosa e suporte
nutricional para o desenvolvimento dos fungos. Os tratamentos diferenciaram-se
pelas dosagens do fungo. Adicionaram-se as sementes à pasta (fungo +
fertilizante orgânico) nas doses de 1,0 g (em 0,5 mL do fertilizante orgânico
de esterco de morcego) e 2,0 g (em 1,0 mL do fertilizante orgânico de esterco
de morcego) para cada 10,0 g de sementes, além do tratamento sem inóculo e sem
fertilizante orgânico (testemunha). As sementes inoculadas permaneceram por 24-
h em temperatura ambiente para fixação da pasta.
Seguidamente, as sementes foram colocadas em tabuleiros de poliestireno de 128
células contendo quatro substratos comerciais (nomes não divulgados) que
continham na sua composição os seguintes materiais: SC 1: fertilizante mineral,
óxido de cálcio, carvão vegetal, casca de Pinuse turfa; SC 2: esterco bovino e
bagaço de carnaúba (Copernicia prunifera(Miller) H. E. Moore); SC 3:
superfosfato simples, nitrato de potássio, turfa, vermiculite e casca de Pinus;
SC 4: esterco bovino e esterco de galinha. A análise química detalhada dos
substratos está referida no Quadro_1.
Com 30 dias após a sementeira, foram realizadas as contagens do número de
folhas, as medições do diâmetro do colo e comprimento da parte aérea e raiz e a
pesagem da matéria seca da parte aérea e raiz das plântulas, além da junção
parte aérea + raiz para compor o comprimento total e massa seca total. As
medições de comprimento foram realizadas com o auxílio de uma régua escolar
graduada em 30 centímetros e para o diâmetro do colo utilizou-se um paquímetro
digital. A matéria seca da parte aérea e raiz foram determinadas colocando cada
parte em sacos de papel tipo Krafte levadas à estufa com circulação forçada de
ar a 65 °C até atingir peso constante, com posterior pesagem em balança
analítica com precisão de 0,001 g.
Com os dados do peso da matéria seca da parte aérea determinou-se a eficiência
micorrízica (EM) para as doses de 1,0 e 2,0 g do fungo em todos os substratos
comerciais testados. A EM foi calculada pela fórmula proposta por Trindade et
al. (2001), como segue, EM = ((PAPI ' PAPNI)*100) / PAPI, sendo PAPI a parte
aérea da planta inoculada, e PAPNI a parte aérea da planta não inoculada.
O ensaio foi realizado sob esquema fatorial 3 x 4 (3 doses do fungo e 4
substratos comerciais) com delineamento inteiramente casualizado e 5
repetições, sendo a parcela constituída de 16 plantas. Os dados foram
submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey a
5% de probabilidade de erro.
Resultados e Discussão
Todas as variáveis estudadas apresentaram interação não significativa (p<0,05)
(Quadro_2), sendo possível apenas o estudo dos fatores isolados, que pelo teste
F, em sua maioria, foram altamente significativos (p<0,01).
Com relação aos substratos, o SC 1 foi o que apresentou os resultados menos
satisfatórios. Em todas as variáveis, com exceção do comprimento da raiz, este
substrato diferiu significativamente dos demais pelo teste de Tukey (p<0,05).
Analisando quimicamente o substrato SC 1 (Quadro_1) pode-se notar que o mesmo
apresentou a mais alta quantidade de sódio (9,69 g kg-1), o que poderá ter
contribuído para o resultado encontrado. É sabido que altas concentrações de
Na+no solo afetam negativamente a absorção de alguns nutrientes, como Ca2+ e K+
(Larcher, 2000), além do fato de causar toxicidade iónica quando absorvido e
acumulado nas células (Taiz e Zeiger, 2009). Um fato curioso foi que o
substrato SC 1 proporcionou a mais alta eficiência micorrízica quando em
comparação com os demais substratos, 33% para a dose de 2,0 g (Figura_1),
todavia esta maior EM não foi suficiente para superar a qualidade superior dos
demais substratos.
Seguindo o ranking dos substratos que propiciaram menor crescimento para as
plantas, o SC 2 e o SC 4 dividem a segunda colocação. O uso destes dois
substratos proporcionou respostas semelhantes para o crescimento das plântulas
(Quadro_3). Esta similaridade pode ser explicada pelas informações extraídas do
Quadro_1. Pode-se notar que o substrato SC 2 apresentou maiores quantidades de
macronutrientes em relação ao SC 4, com exceção do potássio (K). Isto,
teoricamente, poderia ser uma vantagem em termos nutricionais para o SC 2, que
apresentou, neste caso, CTC (pH 7,0) da ordem de 5,82 cmolc dm-3e saturação por
base de 72,53%, enquanto para o SC 4 esses valores são da ordem de 4,77 cmolc
dm-3e 68,15%, respetivamente. Em contrapartida, o SC 4 apresentou maior
quantidade de matéria orgânica (MO) em sua composição quando comparado ao SC 2,
o que pode ter contribuído para o equilíbrio de respostas entre os dois
substratos. Apesar dos menores valores de macronutrientes encontrados em SC 4,
o maior conteúdo de MO neste pode ter-lhe atribuído melhorias físicas e/ou
biológicas. Malavolta et al.(2002) descrevem que a MO funciona como fonte de
energia para microrganismos úteis, melhora a estrutura, o arejamento e a
capacidade de reter humidade. Há também o fato de que com o passar dos 30 dias
a MO pode ter sofrido processos como a mineralização primária, libertando
alguns elementos e, como consequência, elevando a capacidade de troca catiónica
do SC 4.
Ainda interpretando os resultados do Quadro_3, verifica-se que o substrato
comercial aqui designado por SC 3, foi o que proporcionou melhores resultados
para as variáveis de crescimento das plântulas de mamoeiro, mesmo este
apresentando as menores percentagens de EM (Figura_1). É possível observar que
este substrato apresentou as maiores quantidades de MO e de Ca2+ comparando-
o com os demais substratos (Quadro_1), sendo a CTC (pH 7,0) a mais alta entre
os quatro, na ordem de 7,59 cmolc dm-3. A maior quantidade de Ca2+certamente
garantiu um crescimento inicial adequado, já que este elemento é o principal
responsável pela rigidez das paredes celulares, conferindo às plântulas tecidos
mais resistentes (Taiz e Zeiger, 2009). Além do alto conteúdo de MO no
substrato SC 3, a presença de vermiculite neste deve ter ajudado a propiciar um
meio físico bastante vantajoso para o crescimento das plântulas, tendo em vista
que apenas este substrato continha tal material em sua composição, dentre os
quatro estudados. A vermiculite é um material inerte, de alta capacidade para
retenção de água, baixa densidade, constituído de camadas justapostas de
tetraedro de sílica e octaedro de ferro e magnésio, e é usualmente utilizada na
produção de plântulas de diferentes espécies por ser de fácil obtenção e viável
economicamente (Martins et al., 2012; Caldeira et al., 2013). Costa et al.
(2009) ao estudar substratos para a produção de plântulas de mamoeiro concluiu
que os que apresentavam vermiculite em sua composição garantiram maiores
conteúdos de biomassa para as plântulas. De modo geral, a inoculação dos
esporos de fungos foi eficiente para promover um maior crescimento e acumulação
de biomassa nas plântulas de mamoeiro, principalmente em relação ao sistema
radicular, já que não houve uma resposta diferenciada para a parte aérea das
plântulas (Quadro_4). A dose de 1,0 g não foi suficiente para revelar tal
benefício, já que não diferiu das plantas controle. Já a dose de 2,0 g
proporcionou um acréscimo de 14 a 36% nos resultados em comparação à
testemunha. Nota-se pela Figura_1 que, independentemente do substrato, a
eficiência micorrízica para a dose de 2,0 g foi maior do que para a dose de 1,0
g. Lessa et al.(2013), para dois outros acessos de mamoeiros (CMF-L52 e CMF-
L53), obtiveram também melhores resultados nas suas variáveis ao utilizarem a
dose de 2,0 g para cada 10,0 g de sementes, reforçando a eficácia do método.
Trindade et al.(2000) também encontraram benefício da atividade micorrízica na
produção de plântulas de mamoeiro quando até 30% do substrato era composto de
esterco. Diversas outras fruteiras, como mangabeira (Costa et al., 2005),
pessegueiro (Nunes et al., 2008), meloeiro (Silva Júnior et al., 2010),
gravioleira (Samarão et al., 2011), aceroleira (Balota et al., 2011) e
jenipapeiro (Soares et al., 2012) obtiveram igualmente um desempenho superior
quando em associação micorrízica.
É importante ressaltar que nestes trabalhos, citados acima, a inoculação dos
fungos micorrízicos foi realizada no substrato utilizado, diferentemente deste
trabalho, onde a inoculação ocorreu na própria semente, para que as mesmas
ficassem revestidas por uma camada pastosa contendo os fungos. Esta segunda
forma de inoculação ainda não está consolidada metodologicamente até ao
momento, e pelos dados aqui apresentados podemos afirmar que este novo método
acarreta benefícios para o desenvolvimento das plântulas de mamoeiro (Quadro
4). Esta informação remete-nos à indagação de qual dos métodos seria mais
aconselhável, o que deixa uma lacuna no conteúdo científico sobre os FMAs,
assim novos estudos podem ser realizados com o intuito de descobrir as
diferenças entres os dois métodos, conhecendo variáveis como eficiência de
colonização e economia do uso de esporos por unidade de solo ou quantidade de
semente.
Conclusões
O substrato comercial que apresenta na sua composição superfosfato simples,
nitrato de potássio, turfa, vermiculite e casca de Pinus, é o mais indicado
para a produção de plântulas de mamoeiro do aces-so CMF-L54 (Grupo Solo).
O crescimento e acumulação de biomassa das plântulas de mamoeiro ocorrem de
maneira mais eficiente quando há inoculação em sementes do fungo micorrízico
arbuscular Glomus fasciculatum na dose de 2,0 g do fungo para cada 10,0 g de
semente.