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EuPTCVAg0871-018X2014000300003

EuPTCVAg0871-018X2014000300003

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0871-018X
ano2014
Issue0003
Article number00003

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Inoculação de fungo micorrízico e utilização de substratos comerciais para produção de plântulas de mamoeiro (Carica papaya L.)

Introdução A produção de mamão ocupa um lugar de destaque na fruticultura mundial, sendo o Brasil o maior produtor de mamão do mundo, com uma produção anual de 1650000 t/ ano, situando-se entre os principais países exportadores, principalmente para o mercado europeu. A espécie Carica papayaL. (mamoeiro) é a mais cultivada em todo mundo (Embrapa, 2014).

Pela demanda exigida no mercado frutícola internacional, são fundamentais cultivos que condicionem elevada produção de frutos, sem deixar de lado a qualidade dos mesmos. Para tanto, uma gestão adequada durante todo o ciclo da cultura é necessária. Um dos pontos determinantes para o sucesso de um cultivo é a produção e utilização de plântulas vigorosas que permitam a formação de plantas com alto padrão comercial, ou seja, mamoeiros que produzam por mais tempo possível uma boa quantidade de frutos, e que estes sejam de boa qualidade.

A tecnologia de produção de plântulas frutícolas relaciona-se diretamente a investimentos de alto custo, incluindo infraestrutura, sementes de boa qualidade e condições ambientais controladas. Neste contexto, o substrato entra como insumo básico servindo de suporte físico para as plantas jovens e disponibilizando recursos, como água e nutrientes (Farias et al., 2012).

Para a formação das plântulas de mamoeiro vários substratos são sugeridos, dentre os quais podemos citar o esterco junto ao solo, húmus, casca de arroz, palha de café, além dos conhecidos substratos comerciais, sempre tendo em consideração a qualidade destes, ou seja, que apresentem, entre outras características, riqueza em nutrientes essenciais, boa capacidade de troca catiónica, ausência de agentes patogénicos, pH próximo da neutralidade, baixa salinidade (condutividade elétrica), e ainda características físicas (textura e estrutura) que permitam a retenção de água, o arejamento e agregação do sistema radicular, assim como o seu crescimento (Silva et al., 2001; Mendonça et al., 2003; Lima et al., 2006). Para efetivar tais características, atualmente vêm sendo incorporados junto ao substrato, esporos de fungos micorrízicos, que posteriormente se associam simbioticamente às finas raízes de plantas superiores, com ocorrência de benefícios mútuos (Vilella e Valarine, 2009). Os benefícios comprovados que a micorrização promove são o maior desenvolvimento das plantas após o transplante, maior resistência ao estresse hídrico e proteção da planta ao ataque de agentes patogénicos que afectam o sistema radicular (Trindade et al., 2000).

Assim, este trabalho teve por objetivo estudar o crescimento de plântulas de mamoeiro sob diferentes substratos comerciais utilizando sementes inoculadas com fungos micorrízicos arbusculares, e a fim de elaborar indicações de gestão para efetivar a produção de plântulas.

Material e Métodos Os ensaios foram conduzidos em viveiro, coberto com tela de 50% de sombra, localizado no Departamento de Ciências Vegetais da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil (5º11´31S e 37º20´40W, altitude média de 18 m), entre os meses de abril a maio de 2011.

As sementes de mamão foram extraídas de frutos maduros do pomar experimental da empresa WG Fruticultura, localizada na cidade de Baraúnas RN. Tais frutos eram provenientes de mamoeiros do acesso CMF-L54 (Grupo Solo), desenvolvido pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, Cruz das Almas - BA.

Após a extração das sementes, as mesmas foram lavadas em água corrente e depois colocadas para secar à sombra durante 48-h. Em seguida, as sementes foram inoculadas com o fungo micorrízico arbuscular Glomus fasciculatumGerd. & Trappe, proveniente do produto comercial Endomic®, que contém, em média, 20 esporos por grama do inóculo compos-to por argila. Este produto foi misturado com um fertilizante orgânico à base de esterco de morcego, de nome comercial Fertplant® - Guano de morcego, para dar consistência pastosa e suporte nutricional para o desenvolvimento dos fungos. Os tratamentos diferenciaram-se pelas dosagens do fungo. Adicionaram-se as sementes à pasta (fungo + fertilizante orgânico) nas doses de 1,0 g (em 0,5 mL do fertilizante orgânico de esterco de morcego) e 2,0 g (em 1,0 mL do fertilizante orgânico de esterco de morcego) para cada 10,0 g de sementes, além do tratamento sem inóculo e sem fertilizante orgânico (testemunha). As sementes inoculadas permaneceram por 24- h em temperatura ambiente para fixação da pasta.

Seguidamente, as sementes foram colocadas em tabuleiros de poliestireno de 128 células contendo quatro substratos comerciais (nomes não divulgados) que continham na sua composição os seguintes materiais: SC 1: fertilizante mineral, óxido de cálcio, carvão vegetal, casca de Pinuse turfa; SC 2: esterco bovino e bagaço de carnaúba (Copernicia prunifera(Miller) H. E. Moore); SC 3: superfosfato simples, nitrato de potássio, turfa, vermiculite e casca de Pinus; SC 4: esterco bovino e esterco de galinha. A análise química detalhada dos substratos está referida no Quadro_1.

Com 30 dias após a sementeira, foram realizadas as contagens do número de folhas, as medições do diâmetro do colo e comprimento da parte aérea e raiz e a pesagem da matéria seca da parte aérea e raiz das plântulas, além da junção parte aérea + raiz para compor o comprimento total e massa seca total. As medições de comprimento foram realizadas com o auxílio de uma régua escolar graduada em 30 centímetros e para o diâmetro do colo utilizou-se um paquímetro digital. A matéria seca da parte aérea e raiz foram determinadas colocando cada parte em sacos de papel tipo Krafte levadas à estufa com circulação forçada de ar a 65 °C até atingir peso constante, com posterior pesagem em balança analítica com precisão de 0,001 g.

Com os dados do peso da matéria seca da parte aérea determinou-se a eficiência micorrízica (EM) para as doses de 1,0 e 2,0 g do fungo em todos os substratos comerciais testados. A EM foi calculada pela fórmula proposta por Trindade et al. (2001), como segue, EM = ((PAPI ' PAPNI)*100) / PAPI, sendo PAPI a parte aérea da planta inoculada, e PAPNI a parte aérea da planta não inoculada.

O ensaio foi realizado sob esquema fatorial 3 x 4 (3 doses do fungo e 4 substratos comerciais) com delineamento inteiramente casualizado e 5 repetições, sendo a parcela constituída de 16 plantas. Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade de erro.

Resultados e Discussão Todas as variáveis estudadas apresentaram interação não significativa (p<0,05) (Quadro_2), sendo possível apenas o estudo dos fatores isolados, que pelo teste F, em sua maioria, foram altamente significativos (p<0,01).

Com relação aos substratos, o SC 1 foi o que apresentou os resultados menos satisfatórios. Em todas as variáveis, com exceção do comprimento da raiz, este substrato diferiu significativamente dos demais pelo teste de Tukey (p<0,05).

Analisando quimicamente o substrato SC 1 (Quadro_1) pode-se notar que o mesmo apresentou a mais alta quantidade de sódio (9,69 g kg-1), o que poderá ter contribuído para o resultado encontrado. É sabido que altas concentrações de Na+no solo afetam negativamente a absorção de alguns nutrientes, como Ca2+ e K+ (Larcher, 2000), além do fato de causar toxicidade iónica quando absorvido e acumulado nas células (Taiz e Zeiger, 2009). Um fato curioso foi que o substrato SC 1 proporcionou a mais alta eficiência micorrízica quando em comparação com os demais substratos, 33% para a dose de 2,0 g (Figura_1), todavia esta maior EM não foi suficiente para superar a qualidade superior dos demais substratos.

Seguindo o ranking dos substratos que propiciaram menor crescimento para as plantas, o SC 2 e o SC 4 dividem a segunda colocação. O uso destes dois substratos proporcionou respostas semelhantes para o crescimento das plântulas (Quadro_3). Esta similaridade pode ser explicada pelas informações extraídas do Quadro_1. Pode-se notar que o substrato SC 2 apresentou maiores quantidades de macronutrientes em relação ao SC 4, com exceção do potássio (K). Isto, teoricamente, poderia ser uma vantagem em termos nutricionais para o SC 2, que apresentou, neste caso, CTC (pH 7,0) da ordem de 5,82 cmolc dm-3e saturação por base de 72,53%, enquanto para o SC 4 esses valores são da ordem de 4,77 cmolc dm-3e 68,15%, respetivamente. Em contrapartida, o SC 4 apresentou maior quantidade de matéria orgânica (MO) em sua composição quando comparado ao SC 2, o que pode ter contribuído para o equilíbrio de respostas entre os dois substratos. Apesar dos menores valores de macronutrientes encontrados em SC 4, o maior conteúdo de MO neste pode ter-lhe atribuído melhorias físicas e/ou biológicas. Malavolta et al.(2002) descrevem que a MO funciona como fonte de energia para microrganismos úteis, melhora a estrutura, o arejamento e a capacidade de reter humidade. também o fato de que com o passar dos 30 dias a MO pode ter sofrido processos como a mineralização primária, libertando alguns elementos e, como consequência, elevando a capacidade de troca catiónica do SC 4.

Ainda interpretando os resultados do Quadro_3, verifica-se que o substrato comercial aqui designado por SC 3, foi o que proporcionou melhores resultados para as variáveis de crescimento das plântulas de mamoeiro, mesmo este apresentando as menores percentagens de EM (Figura_1). É possível observar que este substrato apresentou as maiores quantidades de MO e de Ca2+ comparando- o com os demais substratos (Quadro_1), sendo a CTC (pH 7,0) a mais alta entre os quatro, na ordem de 7,59 cmolc dm-3. A maior quantidade de Ca2+certamente garantiu um crescimento inicial adequado, que este elemento é o principal responsável pela rigidez das paredes celulares, conferindo às plântulas tecidos mais resistentes (Taiz e Zeiger, 2009). Além do alto conteúdo de MO no substrato SC 3, a presença de vermiculite neste deve ter ajudado a propiciar um meio físico bastante vantajoso para o crescimento das plântulas, tendo em vista que apenas este substrato continha tal material em sua composição, dentre os quatro estudados. A vermiculite é um material inerte, de alta capacidade para retenção de água, baixa densidade, constituído de camadas justapostas de tetraedro de sílica e octaedro de ferro e magnésio, e é usualmente utilizada na produção de plântulas de diferentes espécies por ser de fácil obtenção e viável economicamente (Martins et al., 2012; Caldeira et al., 2013). Costa et al.

(2009) ao estudar substratos para a produção de plântulas de mamoeiro concluiu que os que apresentavam vermiculite em sua composição garantiram maiores conteúdos de biomassa para as plântulas. De modo geral, a inoculação dos esporos de fungos foi eficiente para promover um maior crescimento e acumulação de biomassa nas plântulas de mamoeiro, principalmente em relação ao sistema radicular, que não houve uma resposta diferenciada para a parte aérea das plântulas (Quadro_4). A dose de 1,0 g não foi suficiente para revelar tal benefício, que não diferiu das plantas controle. a dose de 2,0 g proporcionou um acréscimo de 14 a 36% nos resultados em comparação à testemunha. Nota-se pela Figura_1 que, independentemente do substrato, a eficiência micorrízica para a dose de 2,0 g foi maior do que para a dose de 1,0 g. Lessa et al.(2013), para dois outros acessos de mamoeiros (CMF-L52 e CMF- L53), obtiveram também melhores resultados nas suas variáveis ao utilizarem a dose de 2,0 g para cada 10,0 g de sementes, reforçando a eficácia do método.

Trindade et al.(2000) também encontraram benefício da atividade micorrízica na produção de plântulas de mamoeiro quando até 30% do substrato era composto de esterco. Diversas outras fruteiras, como mangabeira (Costa et al., 2005), pessegueiro (Nunes et al., 2008), meloeiro (Silva Júnior et al., 2010), gravioleira (Samarão et al., 2011), aceroleira (Balota et al., 2011) e jenipapeiro (Soares et al., 2012) obtiveram igualmente um desempenho superior quando em associação micorrízica.

É importante ressaltar que nestes trabalhos, citados acima, a inoculação dos fungos micorrízicos foi realizada no substrato utilizado, diferentemente deste trabalho, onde a inoculação ocorreu na própria semente, para que as mesmas ficassem revestidas por uma camada pastosa contendo os fungos. Esta segunda forma de inoculação ainda não está consolidada metodologicamente até ao momento, e pelos dados aqui apresentados podemos afirmar que este novo método acarreta benefícios para o desenvolvimento das plântulas de mamoeiro (Quadro 4). Esta informação remete-nos à indagação de qual dos métodos seria mais aconselhável, o que deixa uma lacuna no conteúdo científico sobre os FMAs, assim novos estudos podem ser realizados com o intuito de descobrir as diferenças entres os dois métodos, conhecendo variáveis como eficiência de colonização e economia do uso de esporos por unidade de solo ou quantidade de semente.

Conclusões O substrato comercial que apresenta na sua composição superfosfato simples, nitrato de potássio, turfa, vermiculite e casca de Pinus, é o mais indicado para a produção de plântulas de mamoeiro do aces-so CMF-L54 (Grupo Solo).

O crescimento e acumulação de biomassa das plântulas de mamoeiro ocorrem de maneira mais eficiente quando inoculação em sementes do fungo micorrízico arbuscular Glomus fasciculatum na dose de 2,0 g do fungo para cada 10,0 g de semente.


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