Estado de saúde e estilos de vida dos idosos portugueses: O que mudou em 7
anos?
INTRODUÇÃO
Portugal tem assistido ao progressivo envelhecimento da sua população, como
consequência da redução da taxa de natalidade e do aumento da esperança média
de vida. Segundo os resultados do Censos realizado no nosso país, em 2011, a
população com 65 anos ou mais representava 19,1%, contrastando com os 14,9%
correspondentes à população com menos de 15 anos.1 Saliente-se que a proporção
de idosos no nosso país era de 17,0% em 2005 e de apenas 8,0% em 1960.2
A longevidade é frequentemente acompanhada de morbilidade, originando maior
consumo de cuidados de saúde.3 é, por isso, urgente a procura de novas
estratégias de prevenção, tratamento e reabilitação das doenças crónicas, assim
como para os cuidados assistenciais. O objetivo final é proporcionar um
envelhecimento com a máxima qualidade de vida possível, com base num sistema
sustentável.4,5 No seu discurso na II Assembleia Mundial das Nações Unidas
subordinado ao tema de envelhecimento, o então Secretário-geral afirmou A
expansão do envelhecer não é um problema. É sim uma das maiores conquistas da
Humanidade. O que é necessário é traçarem-se políticas ajustadas para
envelhecer são, autónomo, ativo e plenamente integrado (2002).6
De acordo com as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que coloca
o envelhecimento no centro das políticas de promoção da Saúde Pública, e dado
que os estilos de vida influenciam grandemente a forma como se envelhece, têm
sido formuladas intervenções comunitárias que visam a obtenção de ganhos em
saúde, nomeadamente, anos de vida com autonomia e independência. É neste
contexto que surge em Portugal, em 2004, o Programa Nacional para a Saúde das
Pessoas Idosas (PNSPI), emitido pela Direcção Geral de Saúde, que visa a
promoção do envelhecimento ativo e saudável, bem como a criação de respostas
adequadas às novas necessidades da população idosa.7
Os Inquéritos Nacionais de Saúde (INS) fornecem informação interessante para
avaliar o impacto do programa. Os últimos dois inquéritos realizados em
Portugal, em 1998/99 e em 2005/06, seguiram metodologias comparáveis e têm a
particularidade de um deles ter sido realizado antes e o outro depois do
lançamento do PNSPI. O objetivo deste estudo foi comparar indicadores do estado
de saúde e estilos de vida, avaliados de igual forma nos dois inquéritos, em
idosos, no sentido de compreender quais as principais alterações ocorridas, de
modo a delinear melhor futuras intervenções de promoção de saúde.
MÉTODOS
Este estudo baseou-se em dados recolhidos nos últimos dois INS, realizados em
1998/1999 e em 2005/2006. Até à data, realizaram-se quatro inquéritos desta
natureza no nosso país mas, devido à heterogeneidade nos processos de
amostragem e colheita de informação, a comparação é inviável. Foi utilizada
somente informação referente a Portugal Continental. O INS de 1998/99 incluiu
21.808 unidades de alojamento, distribuídas pelas cinco regiões a nível NUTS
II* em que se encontra dividido o país. Nos alojamentos selecionados foram
inquiridos 48.606 indivíduos. Por sua vez, o INS de 2005/06 realizou-se entre
fevereiro/2005 e fevereiro/2006, tendo-se entrevistado 41.193 pessoas.8,9
Foi possível comparar as seguintes variáveis nos dois períodos: auto-perceção
do estado de saúde, composição corporal avaliada através do índice de massa
corporal (IMC), prevalência de diabetes mellitus (DM) e hipertensão arterial
(HT) (estes três últimos parâmetros baseados em informação autodeclarada),
número de consultas realizadas nos três meses anteriores à entrevista,
proporção de idosos que consultaram, no último ano, um estomatologista,
dentista, higienista ou outro técnico de saúde oral, frequência de lavagem dos
dentes, proporção de fumadores atuais (fumar, pelo menos, 1 cigarro por dia) e
de bebedores de bebidas alcoólicas (ter bebido, pelo menos, 1 bebida alcoólica
por dia, na semana anterior à entrevista), número de refeições diárias e
frequência de ingestão de alimentos fora das refeições.
As variáveis foram analisadas para a faixa etária correspondente aos idosos
(idade =65 anos), bem como para três subgrupos etários (65-74 anos, 7584 anos e
=85 anos).
Os resultados apresentados expressam a proporção de indivíduos com determinada
característica, relativamente à estimativa do total de idosos, em cada período.
RESULTADOS
A população estimada,em1998/99,erade9.693.475 habitantes e, em 2005/06,
10.062.959 habitantes, tendo-se verificado um ligeiro aumento da proporção de
idosos neste intervalo (16,1% vs. 17,3%). Analisando-se a distribuição pelos
subgrupos etários estudados, observa-se que a classe que mais contribuiu para
este aumento foi a dos 75 aos 84 anos; salienta-se igualmente a manutenção de
uma maior proporção de mulheres (o dobro) na classe etária = 85 anos (Tabela
1).
Relativamente à auto-perceção do estado de saúde, verificou-se um aumento de
10,6% para 13,8% na proporção de idosos que consideravam que o seu estado de
saúde era bom ou muito bom, contrastando com uma diminuição de 46,7% para 41,6%
na proporção de idosos que consideravam ter um estado de saúde mau ou muito
mau. De salientar que no primeiro INS considerado se observou que, quanto mais
velhos eram os indivíduos, pior estado de saúde reportavam, mas que tal não
aconteceu no INS mais recente. Nos indivíduos com =85 anos, observou-se uma
quase duplicação da proporção de idosos que considerava ter uma saúde boa ou
muito boa (7,0% vs. 13,2%), bem como uma diminuição de 11%, em termos
absolutos, na proporção de idosos que considerava que a sua saúde era má ou
muito má (51,4% vs. 40,4%).
Cuidados de saúde e morbilidade
No que concerne à utilização dos cuidados de saúde, assistiu-se a uma ligeira
diminuição da proporção de idosos que realizou =3 consultas no trimestre prévio
à entrevista (29,4% vs. 25,2%), sendo esta redução constante nos diferentes
subgrupos etários. No que respeita a consultas de saúde oral, somente 29,7% dos
idosos as tinham realizado no último ano, considerando a avaliação de 1998/
1999. Esta proporção aumentou para 34,1% em 2005/2006. Relativamente ao
principal comportamento preventivo das doenças dentárias ' a lavagem dos
dentes, observou-se um ligeiro acréscimo da proporção de idosos que referiu
nunca lavar os dentes (19,0% vs. 21,4%), sendo este mais acentuado nos idosos
com =85 anos (44,4% vs. 52,7%). No outro extremo, assistiu-se a um aumento na
proporção de idosos que referiu lavar os dentes =2 vezes por dia (32,8% vs.
37,5%), tendência não verificada no subgrupo de idosos mais velhos.
Em termos de doenças crónicas, verificou-se um aumento absoluto de 10% na
prevalência de HT e de 3% na de DM, sendo estes aumentos transversais a todos
os subgrupos etários (Tabela_2). Relativamente à composição corporal, a
prevalência de desnutrição manteve-se, salientando-se, somente, um aumento de
0,6% entre os idosos mais velhos, mas a prevalência de obesidade aumentou 4%
(Tabela_2).
Estilos de vida
Globalmenteobservou-seumadiminuiçãode1%na proporção absoluta de fumadores,
diminuição manifestada especialmente entre idosos do sexo masculino.
Relativamente ao consumo de álcool constata-se um ligeiro aumento na proporção
de consumidores de bebidas alcoólicas, constatação verificada em todos os
subgrupos etários e em ambos os sexos, em particular nos homens dos dois
subgrupos etários mais velhos. Saliente-se, contudo, que o consumo diário de
bebidas alcoólica será muito mais prevalente entre os homens, do que entre as
mulheres (54,1% vs. 17,4% em 1998/99 e 56,8% vs. 19,0% em 2005/06). A maioria
dos idosos referiu fazer três refeições por dia, em ambos os períodos, tendo-se
observado um acréscimo de cerca de 35% nos idosos que referiam comer = 2 vezes
fora das refeições principais em todos os subgrupos etários com exceção dos
idosos com =85 anos que registaram uma ligeira diminuição neste parâmetro
(Tabela_3).
DISCUSSÃO
Apesar de a comparação ter sido realizada num período de apenas sete anos,
constataram-se diferenças relevantes, em termos de morbilidade e estilos de
vida, na população idosa portuguesa.
Portugal, à semelhança de outros países desenvolvidos, assiste a um crescente
aumento da esperança de vida, que muito tem beneficiado do desenvolvimento
tecnológico e científico na medicina, bem como de novos modelos de prestação
dos cuidados assistenciais, resultando de uma maior consciencialização da
população e procura desses cuidados (10,11). No PNSPI pode ler-se Envelhecer
com saúde, autonomia e independência, o mais tempo possível, constitui assim,
hoje, um desafio à responsabilidade individual e coletiva, com tradução
significativa no desenvolvimento económico dos países.7
Ao longo destes sete anos, observou-se uma melhoria na auto-perceção do estado
de saúde, em especial nos idosos mais velhos. No entanto, cerca de 40% dos
idosos continua a considerar a sua saúde como má ou muito má, o que indicia que
ainda muito haverá a fazer para melhorar a qualidade de vida dos idosos
portugueses. Provavelmente, a solução passará por iniciativas eficazes de
promoção de saúde que evitem ou retardem o aparecimento dedoençascrónicas,3bem
como garantam um adequado acompanhamento dos idosos que já possuam algumas
patologias, evitando o seu agravamento e o aparecimento de patologias
associadas.
Paralelamente assistiu-se a uma diminuição da proporção de idosos que
realizaram =3 consultas no trimestre prévio à entrevista. Um dos fatores que
pode ter contribuído para este decréscimo é a alteração do processo de
renovação da medicação crónica, que não implica atualmente a realização de uma
consulta, sendo o pedido gerido pelo secretariado da unidade de cuidados de
saúde.11
As doenças orais, apesar de muito prevalentes em Portugal,12continuam a ser uma
das fragilidades do Sistema Nacional de Saúde, que não consegue fornecer uma
resposta satisfatória às necessidades. A versão inicial do Programa Nacional de
Saúde Oral era completamente orientada para a prevenção e tratamento dos
problemas orais na infância e adolescência.13Cientes da prevalência destas
doenças entre os idosos e da impossibilidade de muitos recorrerem a serviços
privados de medicina dentária, em 2008, o programa foi atualizado, contemplando
a emissão de cheques-dentista para os idosos mais carenciados.14No entanto,
esse período temporal extravasa o período agora estudado, sendo previsível que
num próximo INS o panorama da saúde oral entre idosos tenha melhorado. Todavia,
apesar de constituir um aumento modesto, o facto de haver um maior número de
idosos a recorrer à consulta com profissionais de saúde oral pode indiciar uma
maior consciencialização para esta necessidade. relativamente à lavagem dos
dentes, é expectável que o cenário melhore ao longo do tempo, uma vez que as
camadas mais jovens da população têm sido sensibilizadas para a importância
desta medida de higiene.
Em 2005/06, mais de 50% dos idosos referiam ser hipertensos, situação grave se
se considerar todos os desfechos associados à HT.15Observando a tendência desde
1998/99, verifica-se que, em apenas 7 anos, ocorreu um aumento de 10% na
prevalência da doença. Naturalmente que sendo dados autodeclarados, este
cenário pode não corresponder a um aumento real do número de casos, mas também
a um maior conhecimento de que se tem a patologia. Este é um aspeto positivo,
uma vez que a doença sendo conhecida, pode ser controlada, não deixando de ser
preocupante a sua prevalência. O aspeto do controlo da HT entre os idosos
constitui também um desafio. Segundo Espiga de Macedo et al.,15estima-se que,
em 58% de idosos portugueses com hipertensão arterial e idade superior a 64
anos submetidos a terapêutica anti-hipertensora, apenas 20,8% apresentem
valores tensionais controlados, pelo que a prevalência de hipertensos
controlados entre os tratados é extremamente reduzida.
Quanto à DM, também se observou um aumento importante da sua prevalência,
embora menos expressivo do que o observado na HT. Ocorreu um aumento da
prevalência de obesidade, que é um dos fatores de risco para ambas as
patologias anteriormente referidas, além de comprometer seriamente a qualidade
de vida das pessoas. A obesidade revela ser, de facto, um problema entre os
idosos portugueses, uma vez que a sua prevalência é cerca de 5% superior à
prevalência encontrada na população adulta,16sendo ainda expectável uma
subestimativa desta prevalência pelo facto de se basear em informações auto-
declaradas. No entanto, parece ser um problema mais frequente entre os idosos
mais jovens. O IMC nem sempre é uma medida fidedigna de gordura corporal,
particularmente nos casos em que existe perda acentuada de massa muscular. Por
essa razão, autores como lipschitz17propõem pontos de corte para IMC entre
idosos distintos dos sugeridos pela OMS. Na presente análise apenas tínhamos
disponível a categorização do IMC segundo a classificação da OMS. Urge,
portanto, a necessidade de se promoverem estilos de vida mais ativos e a
prática de uma alimentação saudável, que certamente contribuirão para a
prevenção de várias doenças, nomeadamente, as cardiovasculares.3,18
A definição de refeição é algo complexo e mesmo a ingestão fora das refeições
pode ser uma refeição. Esta ambiguidade na forma como a pergunta é formulada
coloca reservas na avaliação da evolução do comportamento. Os dados apontam
para um aumento do número de refeições diárias. Mais de 90% da população
menciona fazer três refeições diárias, mas apenas 20% realiza refeições
intermédias, o que poderá significar que grande parte dos idosos mantém longos
períodos de jejum.
No que se refere às bebidas alcoólicas, verificou-se que cerca de um terço dos
idosos as ingeriam diariamente, aumentando ligeiramente no período estudado.
Não foi, contudo, possível descriminar qual o tipo de bebida alcoólica
ingerida. No entanto, o consumo de bebidas alcoólicas de forma moderada e
integrado numa alimentação saudável não apresenta qualquer inconveniente, desde
que não haja contraindicação.19,20
A natureza da informação utilizada é uma limitação deste estudo. Apesar das
vantagens inquestionáveis dos INS quanto ao número de pessoas estudadas e ao
manancial de informações disponível, colocam-se alguns problemas, nomeadamente,
a formulação das perguntas e o nível de desagregação da informação.
Relativamente à recolha de informação relativa a morbilidade ou antropometria,
o facto de serem utilizados dados auto-reportados constitui, também, uma
limitação.21É ainda permitido que não seja o próprio a responder a algumas
questões, o que pode criar alguma heterogeneidade na qualidade da informação.
Finalmente, este estudo retrata somente os idosos não institucionalizados.
Esta análise permitiu aferir que a auto-perceção do estado de saúde dos idosos
portugueses melhorou ao longo do período estudado. Mostrou que o subgrupo
etário mais propício a flutuações foi o dos idosos com =85 anos, possivelmente
explicadas pela maior vulnerabilidade económica, social e fisiológica.22Não
obstante, a prevalência das doenças crónicas avaliadas, HT, DM e obesidade,
também aumentou no período estudado.