Biópsia pleural cega no diagnóstico de tuberculose pleural
CARTA AO EDITOR
Biópsia pleural cega no diagnóstico de tuberculose pleural
João Filipe Cruz1, Artur Vale2, Aurora Carvalho3,4, Raquel Duarte3,4,5,6
1 Serviço de Pneumologia, Hospital de Braga
2 Serviço de Pneumologia, Centro Hospitalar Trás-Os-Montes e Alto Douro
3 Centro de Diagnóstico Pneumológico de Vila Nova de Gaia
4 Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho
5 Departamento de Epidemiologia Clínica, Medicina Preventiva e Saúde Pública,
Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
6 Instituto de Saúde Pública Da Universidade do Porto
Correspondência
Caro editor,
O diagnóstico definitivo de tuberculose pleural (TP) depende da demonstração do
bacilo Mycobacterium tuberculosisem amostras de expetoração, líquido pleural ou
biópsia pleural (BP).1No entanto, a TP é muitas vezes um diagnóstico não
confirmado, baseado em critérios bioquímicos ou histológicos.1,2
O objetivo deste estudo foi analisar a contribuição da BP cega no diagnóstico
de TP. Doentes submetidos a BP cega no Hospital de Braga, entre 2006 e 2011,
foram identificados a partir de uma base de dados de registos de biópsias
pleurais. Características do líquido pleural e resultados das BP foram
analisados retrospetivamente através da revisão de processos clínicos. Doentes
com derrame pleural exsudativo submetidos a BP cega foram incluídos no estudo.
Casos com análise bioquímica, citológica ou microbiológica incompleta do
líquido pleural foram excluídos. Culturas da BP não foram incluídas na análise
por dados insuficientes. A presença de adenosina desaminase (ADA) >70 U/L e
ratio linfócitos/neutrófilos >0,75 foi usado como critério bioquímico para o
diagnóstico de TP e a presença de granulomas na BP como critério histológico. A
confirmação do diagnóstico de TP foi considerado por isolamento de
Mycobacterium tuberculosis em culturas de líquido pleural ou amostras
respiratórias.
Foram realizadas um total de 272 BP em 240 doentes, com idade média de 67 anos,
65% do sexo masculino. Sessenta e nove casos foram excluídos. O diagnóstico de
TP foi estabelecido em 39/203 casos (19.2%). Vinte e dois casos preenchiam os
critérios bioquímicos para TP e, destes, somente um teve outro diagnóstico: um
caso de linfoma. Nos restantes 181 casos sem critérios bioquímicos, o
diagnóstico de TP foi estabelecido em 18 doentes. A BP cega identificou
granulomas em 23 casos, todos com diagnóstico confirmado de TP. A
sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo e negativo dos
critérios bioquímicos para o diagnóstico de TP foi, respectivamente, 53.8%,
99.4%, 95.5% e 90.1% e a combinação da BP cega com os critérios bioquímicos
foi, respectivamente, 76.9%, 99.4%, 96.7% e 94.8%.
Nesta amostra, a realização da BP cega associada à análise do líquido pleural
obteve uma boa rentabilidade diagnóstica, sendo que a adição da BP à análise do
líquido pleural aumentou a sensibilidade e o valor preditivo negativo. Num
estudo prospetivo e diretamente comparativo entre diferentes métodos de
diagnóstico, Diacon et al3demonstrou que a combinação da ADA no líquido
pleural, percentagem de linfócitos e BP cega tem uma elevada rentabilidade no
diagnóstico de TP, com especificidade similar e ainda melhor sensibilidade do
que neste estudo, embora tenham usado um diferente valor de ADA (>50 U/L).
Em conclusão, embora os resultados deste estudo sejam similares a outros
previamente descritos, continuam a suportar a realização da BP cega na
avaliação inicial de derrames pleurais exsudativos devido à sua elevada
rentabilidade diagnóstica usando uma técnica minimamente invasiva.