Síndrome do bebé abanado: experiência de 10 anos de um Serviço de Cuidados
Intensivos Pediátricos
INTRODUÇÃO
O síndrome do bebé abanado é uma das causas de lesão não acidental mais difícil
de diagnosticar, ocorrendo 15 a 30 casos/100.000 lactentes/ano(1). Caracteriza-
se por uma constelação de lesões infligidas por movimentos de aceleração-
desaceleração repetidos com ou sem impacto(2). A idade média de apresentação é
aos 4,6 meses, mas o diagnóstico pode ser feito até aos três anos de idade(3).
Os lactentes têm uma maior suscetibilidade a lesões por eventos de
desaceleração por um conjunto de características próprias como a musculatura
cervical fraca e imatura, a base craniana achatada, o crânio fino, a cabeça
relativamente grande, pesada e instável, o cérebro relativamente mole e com
grande conteúdo de água, a relação cérebro/crânio aumentada com consequente
perda de espaço intracraniano para a expansão cerebral. A ausência de história
de trauma tem um elevado valor preditivo, sendo necessário um elevado grau de
suspeição(4). Toda a lesão inexplicada e implausível deve levantar uma forte
suspeição de lesão não acidental. O responsável é mais frequentemente o pai,
seguido do padrasto, da mãe e finalmente da ama e ocorre em todos os estratos
sociais(5). Em 91% dos casos a sintomatologia (convulsões, dificuldade
respiratória, apneia, paragem cardiorespiratória) inicia-se logo após o
episódio traumático(4).
O padrão típico é a presença de hemorragia subdural difusa, hemorragias
retinianas extensas e lesão cerebral difusa(6). O Síndrome do Bebé Abanado tem
uma mortalidade que ronda os 30%(1).
Até 70% dos doentes têm complicações a longo prazo (neurológicas,
comportamentais e/ou cognitivas) que podem ser silenciosas até cinco anos após
o episódio de abuso(3).
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo retrospetivo através da consulta dos processos clínicos dos doentes
internados no SCIP do Hospital de São João com o diagnóstico de Síndrome de
Bebé Abanado de 1 de Janeiro de 1999 a 31 de Dezembro de 2009. Foram analisados
a idade, o género, a existência de história de traumatismo, a apresentação
clínica, os dados da tomografia axial computorizada cerebral, a presença de
hemorragia retiniana, a necessidade de ventilação mecânica, o uso de
inotrópicos, o tempo de internamento, as sequelas e o tempo de seguimento. Para
análise dos dados foi utilizado o programa Microsoft Excel® 2007 (Microsoft
Corporation).
RESULTADOS
Foram internados no Serviço de Cuidados Intensivos Pediátricos do Hospital de
São João oito crianças num período de 10 anos com o diagnóstico de Síndrome do
Bebé Abanado, correspondendo a 0,3% das admissões. A mediana de idades foi de
4,1 meses (1,5-6 meses) e cinco doentes (62,5 %) eram do sexo masculino.
Apenas um caso tinha uma história de traumatismo (queda da cama). Dois
lactentes estavam ao cuidado de uma ama, estando os restantes ao cuidado de um
dos pais. O motivo mais frequente de recurso aos cuidados de saúde foi um
episódio convulsivo com paragem respiratória/cardiorrespiratória (50%), seguido
de paragem cardiorrespiratória isolada (37,5%) e de hipotonia (12,5%).
Identificaram-se hemorragias retinianas bilaterais em seis dos doentes (75%).
Em todos os casos o TC mostrou hematomas subdurais e em três (37,5%) dos casos
sugestivos de cronicidade (Figura_1).
Constatou-se a presença de fraturas cranianas em dois doentes. Nenhum doente
apresentou fraturas extra-cranianas.
Sete doentes (87,5%) necessitaram de ventilação mecânica e cinco (62,5%)
necessitaram de suporte inotrópico. A mediana do tempo de internamento no SCIP
foi de 4,5 dias (1-11 dias), tendo sido a mediana do tempo de internamento
hospitalar total de 34 dias (1-60 dias). Todos os lactentes mantiveram
seguimento após o evento na nossa instituição ou no hospital da área de
residência.
Constatou-se que dois doentes não apresentaram sequelas a longo prazo. Três
casos apresentaram epilepsia de novo e défices na acuidade visual ou auditiva,
num caso houve hemiparesia transitória e noutro perda das aquisições prévias
com um atraso moderado a severo do desenvolvimento psicomotor. Ocorreu um
óbito. Dois lactentes foram retirados aos pais (um ficou a cuidado dos tios e o
outro ao cuidado de uma instituição).
DISCUSSÃO
Neste período de 10 anos registaram-se 0,8 casos/ano de doentes com síndrome de
bebé abanado com necessidade de internamento no SCIP, o que correspondeu a 0,3%
das admissões.
Apesar do reduzido número de doentes, a idade média de apresentação foi
semelhante à descrita na literatura. As lesões foram infligidas por familiares
ou por cuidadores habituais dos lactentes, despoletando um quadro clínico de
início abrupto e grave. A suspeição foi levantada pela presença de lesões
inexplicadas (sem história de trauma) ou implausíveis (lesões de maior
gravidade do que o expectável para o trauma descrito). A presença de hematomas
subdurais com diferentes tempos de evolução em três lactentes mostra que este
tipo de abuso não se resume muitas vezes a um ato isolado, mas a um abuso
perpetuado no tempo, pelo que devemos estar alerta para apresentações clínicas
menos exuberantes e para outras manifestações de abuso (fraturas extra-
cranianas, hematomas ). Apesar de um elevado número de casos ter necessitado de
suporte ventilatório (87,5%) e inotrópico (62,5%) o tempo médio de internamento
no SCIP não foi muito longo (5,25 dias) ao contrário do tempo de internamento
hospitalar total médio que foi consideravelmente mais longo, refletindo as
dificuldades que muitas vezes existem na orientação social destas situações. É
muito importante a abordagem multidisciplinar. Todos os doentes apresentaram
hemorragias subdurais. Porém, 25% dos casos não tinham hemorragias retinianas,
o que é compatível com a demonstração destas em 50-100% dos casos1. Apesar de
alguns doentes não terem o seguimento mínimo de cinco anos, foram constatadas
sequelas a longo prazo em cinco doentes (62,5%), tendo sido, por isso, a
morbilidade semelhante à descrita na literatura (62-96%). A mortalidade foi de
12,5%, sendo inferior à descrita (30%)1.
CONCLUSÕES
O Síndrome do Bebé Abanado resulta numa alta morbilidade e mortalidade, e é
necessário um elevado grau de suspeição, principalmente num lactente com lesões
severas e sem história de trauma. É essencial uma abordagem multidisciplinar,
com envolvimento da rede de suporte social e de proteção do menor.
A apresentação e as sequelas do Síndrome do Bebé Abanado podem ser muito
severas, pelo que devem ser desenvolvidos esforços de prevenção primária
dirigidos à população em geral, com educação dos pais quanto aos perigos de
abanar violentamente o lactente e providenciando estratégias para lidar com o
choro persistente.