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ARTIGO RECOMENDADO / RECOMMENDED ARTICLEStock A, Chin L, Babl FE, Bevan CA, Donath S, Jordan B. Arch Dis Child 2013;98:
36-40.
ABSTRACT
OBJECTIVE: To determine the prevalence of postnatal depression (PND) in mothers
of young infants presenting to the emergency department (ED).
DESIGN, SETTING AND PARTICIPANTS: Prospective observational study of the
prevalence of PND in mothers of infants aged 14 days to 6 months presenting
with non-timecritical conditions to the ED of a large tertiary paediatric
hospital.
MAIN OUTCOME MEASURES: We assessed PND by applying a self-administered
validated screening tool, the Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS).
Mothers of patients were approached before clinician consultation when a social
worker was available on site. EPDS scores of 13 and above were considered
positive'. Univariate analysis was used to determine associations with
demographic, maternal and child factors.
RESULTS: 236 mothers were approached; 200 consented to participate in the
study. Thirty-two mothers screened positively, with a prevalence rate of 16%
(95% CI 11.2% to 21.8%). A positive screen was most strongly associated with
history of depression (relative risk (RR) 4.8, 95% CI 2.3 to 10.1). Other
associations were with single-parent status (RR 2.5, 95% CI 1.1 to 5.4),
Indigenous status (4.4, 95% CI 1.8 to 10.4) and crying baby' as the presenting
problem (RR 2.9, 95% CI 1.4 to 6.2). Fifty-three per cent of mothers had not
completed a PND screen before coming to the ED.
CONCLUSIONS: Mothers of young infants coming to the ED regardless of infant's
presenting complaint have a high prevalence of PND determined using the EPDS.
Many mothers were not screened for PND before coming to the ED. Clinical staff
need to be aware of the condition, incorporate appropriate questioning into the
consultation, and refer mothers to support services if necessary.
COMENTÁRIOS
A seguir ao parto, muitas mulheres, cerca de 50%, experimentam perturbações do
humor; no entanto, a maioria desenvolve sintomas ligeiros que se resolvem
espontaneamente, correspondendo ao conhecido baby blues.A depressão pós-parto
ocorre em 10%, e a maior parte instala-se nos três meses a seguir ao parto,
quando aquela perturbação do estado de humor se agrava e persiste no tempo,
afetando o funcionamento da mãe. Pode surgir até ao fim do primeiro ano após o
nascimento do bebé.
A depressão pós-natal é reconhecida como um fator de risco para uma perturbação
do desenvolvimento do bebé, da relação mãe-criança e da qualidade da vida
familiar. Está comprovado que o desenvolvimento cognitivo é afetado
negativamente, especialmente em bebés do sexo masculino e em famílias de baixo
nível socioeconómico; aos 18 meses de idade os bebés têm mais padrões de
vinculação insegura e os rapazes têm um nível elevado de problemas de
comportamento aos cinco anos de idade(1). Os problemas de comportamento e de
auto-controlo são problemas que podem persistir nas crianças, mesmo depois de a
mãe melhorar do seu estado depressivo.
Embora a prevalência deste quadro apresente números variados nos diversos
estudos, é considerado atualmente, como atingindo valores de 10 a 15%, em
países ocidentais desenvolvidos(2).
Pode acompanhar-se de sintomas psicóticos, tornando-se obrigatório o
internamento da mãe, idealmente com o bebé, se existirem recursos apropriados
no settingterapêutico institucional.
Num artigo de revisão(3), consideravam-se com fatores de risco para o
desenvolvimento da depressão pós-parto:
a depressão durante a gravidez
a ansiedade durante a gravidez
a ocorrência de acontecimentos de vida de stress durante a gravidez ou no
puerpério
pouco apoio social
história prévia de depressão
O seu rastreio tem sido defendido em muitos países, como é o exemplo das
guidelinesinglesas da National Institute for Health and Clinical Excellence
(NICE)(4), que recomenda que sejam colocadas às mães, em todas as consultas
pós-natais, as seguintes questões:
Durante o último mês, tem-se sentido muitas vezes em baixo, deprimida ou
desesperada?
Durante o último mês, tem sentido muitas vezes pouco interesse ou prazer em
fazer as coisas?
O despiste pode também ser realizado através de questionários, sendo o mais
utilizado a Escala de Depressão Pós-parto de Edinburgh (EPDS), de Cox et al(5),
em 1987, e que se encontra validada para a população portuguesa(6); é um
questionário de auto-resposta, constituído por 10 itens, e de fácil aplicação.
Como se sabe que as mães deprimidas faltam mais às consultas pós-natais
programadas, e este rastreio não é sistemático, os autores deste artigo
estudaram a ocorrência de depressão pós-parto em mulheres australianas que
recorriam a serviços de urgência pediátricos, como um possível momento em que
este rastreio pode ser realizado. Conseguiram aplicar o EPDS a 200 mulheres,
que se dirigiram ao serviço de urgência de um hospital pediátrico terciário com
os seus bebés, com idades entre os 14 dias a seis meses, e que apresentavam
problemas de saúde sem gravidade.
Verificaram que a prevalência de depressão pós-parto nesta população era de 16
%, concluindo ser um valor importante da presença deste quadro nas mães, e que
mais de metade não tinha feito um rastreio prévio. Este valor era independente
do tipo de queixas que motivavam a ida ao hospital. Tinham maior risco as
mulheres com história de depressão, estado monoparental, indígenas e os bebés
apresentarem choro excessivo como problema principal.
Os autores salientam que os serviços de urgência pediátricos podem, deste modo,
constituir uma boa oportunidade para fazer a identificação da depressão pós-
parto e referenciar as mulheres afetadas para serviços de apoio.