Síncope em idade pediátrica: avaliação e estratificação de risco
EDITORIAL
Síncope em idade pediátrica: avaliação e estratificação de risco
Silvia AlvaresI
IServiço de Cardiologia Pediátrica, CHPorto. 4099-001 Porto, Portugal. E-mail:
silvia.c.alvares@gmail.com
A síncope define-se como a perda transitória de consciência e tónus postural,
devido a hipoperfusão cerebral. Caracteriza-se por início abrupto, curta
duração e recuperação espontânea, podendo ser precedida ou não de sintomas
prodrómicos. Quando os sintomas prodrómicos surgem isolados, não seguidos de
síncope, o quadro designa-se de pré-síncope.
É uma queixa frequente na população pediátrica (estima-se que cerca de 15% das
crianças e adolescentes, entre os 8 e 18 anos, tenham uma síncope), e predomina
no sexo feminino. A etiologia é habitualmente benigna. No entanto, se a síncope
é recorren- te, é uma fonte de ansiedade para o doente e família, com
repercussões na sua qualidade de vida. Sendo um sintoma presente em várias
situações clinicas, constitui um problema da prática clínica pediátrica diária,
tanto mais que numa pequena percentagem de doentes está associada a risco de
morte súbita. Calcula-se que cerca de 25%das vítimas de morte súbita entre os
15 e 25 anos tinham apresentado inicialmente episódio de síncope ou pré-
síncope.
A síncope é consequência de uma hipoperfusão cerebral transitória secundária a
uma diminuição da pressão arterial sistémica. A pressão arterial depende do
débito cardíaco e das resistências vasculares periféricas, pelo que a síncope
pode surgir pela diminuição de qualquer um destes factores ou de ambos. A
definição adotada pela Sociedade Europeia de Cardiologia comporta em si o
contexto fisopatológico distinguindo-se de outras situações que cursam com
perda de consciência mas cujo mecanismo fisiopatológico é diferente,
nomeadamente convulsões, doenças metabólicas ou distúrbios psiquiátricos.
A síncope pode ser reflexa(ou neuromediada), sendo a vasovagal a mais comum,
por hipotensão ortostática(rara na criança) e cardíaca, por arritmia ou
cardiopatia estrutural (Figura_1).
Neste contexto de dificuldade de interpretação clinica reveste-se de particular
importância uma anamnese cuidada, com a descrição detalhada dos episódios, a
história familiar, um exame físico pormenorizado e a execução de meios
auxiliares de diagnóstico de primeira linha, nomeadamente o electrocardiograma
de 12 derivações, que permitam orientar uma estratificação de risco e uma
investigação adequada.
A síncope vasovagal é a situação mais frequente, habitualmente associada a
pródromos. Pode ser recorrente, despoletada por posicionamento ortostático
prolongado, calor, rotação da cabeça, após sensação estranha, associada a
náuseas ou vómitos, a refeições ou após exercício.
Alguns aspetos da história clinica podem sugerir causa cardíaca, nomeadamente:
1. história familiar de morte súbita abaixo dos 30 anos ou de doença
cardíaca;
2. suspeita de doença cardíaca, ou doença cardíaca conhecida;
3. factores desencadeantes: ruído, medo, stress excessivo;
4. síncope durante o exercício, incluindo natação;
5. síncope sem pródromos, em supino ou a dormir, ou precedida de dor
torácica ou palpitações.
Têm sido elaborados vários algoritmos para a estratificação de risco
cardiovascular, no sentido de distinguir a síncope reflexa, benigna, de outras
causas. Na população pediátrica, Tretter e colaboradores identificaram quatro
parâmetros que permitiram distinguir síncope vasovagal de síncope cardíaca,
nomeadamente a síncope em esforço, uma história familiar positiva, um exame
físico cardiovascular anormal ou electrocardiográfica anormal. A presença de um
destes fatores apresentava uma sensibilidade de 100% e especificidade de 60% na
deteção de doença cardíaca.
Em doentes selecionados a investigação adicional pode prosseguir para a
realização de ecocardiograma, o teste de Tilt, a monitorização
electrocardiográfica de curto termo (telemetria ou Holter), ou a utilização de
registadores de eventos implantáveis.
O tratamento deve ser específico para o tipo de síncope, no sentido da redução
da recidiva e, sobretudo, de evitar a morte súbita. O tratamento da síncope
reflexa assenta na educação do doente e ensino de medidas de prevenção e
tranquilização da criança ou adolescente e família. O prognóstico é excelente,
sendo a sobrevida comparável à dos doentes sem síncope. O tratamento da síncope
cardíaca é dirigido à doença de base.
Em conclusão, a síncope é um problema comum, sendo o diagnóstico etiológico
importante para permitir um tratamento adequado e estabelecer o prognóstico. A
síncope vasovagal é a mais frequente e de bom prognóstico, ao contrário da
síncope cardíaca. Na abordagem diagnóstica do doente com perda de consciência é
fundamental colocar as seguintes questões: a perda de consciência resulta de
síncope ou não? A avaliação clínica permite o diagnóstico? Estão presentes
factores na anamnese, exame físico e ECG a favor de causa cardíaca que impõem
uma referência a Cardiologia Pediátrica?
Apesar dos avanços na abordagem diagnóstica e investigação, a síncope é um
desafio na prática clinica diária, salientando-se que a história clínica
continua a ser o principal elemento diagnóstico e de estratificação de risco.