Família em Cuidados de Saúde Primários: caracterização das atitudes dos
enfermeiros
Introdução
A importância da família nos cuidados de saúde tem sido evidenciada, não só no
desenvolvimento da literatura de enfermagem, como também no estabelecimento de
políticas de saúde. Em Portugal, é hoje clara a relevância da família nos
cuidados, destacando-se: a reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CSP),
iniciada em 2005 com a estratégia de reconfiguração dos centros de saúde (CS) e
a implementação das unidades de saúde familiar (USF), onde o enfermeiro é
considerado um elemento central das equipas multiprofissionais; os Padrões de
Qualidade dos Cuidados de Enfermagem, onde é definido o exercício profissional
do enfermeiro, na relação interpessoal com a pessoa, ou com um grupo de pessoas
(família ou comunidades) (Ordem dos Enfermeiros, 2001) e o Regulamento das
Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde
Familiar que designa que os enfermeiros de família prestam cuidados de
enfermagem, com ênfase nas respostas da família a problemas de saúde reais e
potenciais. (Regulamento n.º 126/2011).
O interesse pela saúde familiar, nomeadamente pela metodologia de ação do
enfermeiro de família nos CSP, conduziu à realização de uma revisão da
literatura, concluindo-se uma escassez de estudos quer a nível nacional, quer a
nível internacional. Esta constatação levou-nos à seguinte questão: como é que
os enfermeiros que trabalham em CSP constroem e produzem os cuidados às
famílias? Iniciámos o estudo pela caraterização das atitudes dos enfermeiros
face à família nos CSP, para posteriormente analisarmos o processo de
construção e produção de cuidados às famílias. Neste artigo divulgamos os
resultados parciais do estudo, orientado pelo objetivo geral - caraterizar as
atitudes dos enfermeiros que trabalham em CSP na Administração Regional de
Saúde (ARS) do Centro, relativamente à importância de envolver a família nos
cuidados de enfermagem.
Enquadramento/Fundamentação Teórica
Portugal tem sido pioneiro em muitas reformas nos CSP, nomeadamente ao ter
considerado estes cuidados como a principal "porta de entrada" no
sistema de saúde e consagrado o conceito de CS como elemento de base para a
proteção e fomento da saúde nas comunidades. Este facto ocorreu em 1971, e só
dois anos mais tarde, surge a orientação internacional da Organização Mundial
de Saúde (OMS) para o desenvolvimento dos CSP como cuidados de primeira linha a
serem prestados nos contextos onde as pessoas vivem, próximos das suas
residências ou locais de trabalho.
A introdução destes conceitos, bem como a criação da Lei Orgânica do Ministério
da Saúde, em 1971, que destaca o enquadramento social das atividades da saúde e
da assistência à família, enquanto instituição básica do desenvolvimento
integral do homem e a primeira responsável pelo bem-estar dos seus membros, foi
considerada a primeira reforma dos CSP em Portugal.
Sete anos após a criação desta lei, no ano 1978, realiza-se a Primeira
Conferência Internacional sobre CSP em Alma-Ata, tendo daí resultado a visão
dos CSP, como assistência essencial, colocada ao alcance de todos os indivíduos
e famílias da comunidade.
Em 1983, surge outro marco importante na organização dos CSP em Portugal: a
criação dos CS de segunda geração, definidos como unidades prestadoras de
cuidados primários dirigidos ao indivíduo, família e comunidade, onde é
privilegiada a personalização da relação entre os profissionais de saúde e os
utentes.
Em Portugal, apesar de não ter sido posta em prática, foi prevista outra
restruturação dos CSP em 1999, com a criação dos CS denominados de terceira
geração e a integração do conceito de USF. Um ano após a publicação desta
legislação, realizou-se em Munique a Segunda Conferência Ministerial de
Enfermagem da OMS-Região Europeia, onde se perspetivou o enfermeiro como pivot
central do desenvolvimento e coordenação das intervenções na comunidade, sendo
a família o núcleo central da sua intervenção (World Health Organization,
2000).
Nas políticas de Saúde Para Todos No Século XXI (OMS, 2003, p. 23) é também
evidenciado o papel do enfermeiro de família, nomeadamente, na Meta 15, onde é
defendida a necessidade de um setor da saúde mais integrado, com enfase mais
forte nos CSP, designando-se o enfermeiro de saúde familiar, o profissional de
saúde responsável por proporcionar a um número limitado de famílias ( ) um
amplo leque de aconselhamento sobre estilo de vida, apoio familiar e cuidados
domiciliários.
A mais recente reforma dos CSP em Portugal, iniciada em 2005, volta a dar
enfase às USF e às equipas multiprofissionais de saúde, com a reconfiguração
dos CS e implementação das USF. Nestas unidades, foi instituído o perfil
profissional do enfermeiro de família, como elemento facilitador para
desenvolver o modelo de trabalho em equipa, assumindo-se a necessidade de
clarificação do papel profissional aos utentes e a outros parceiros
profissionais, devendo aproveitar-se a proximidade das famílias no acesso aos
cuidados para evidenciar ( ) não só a oferta de cuidados terapêuticos mas
também de cuidados de bem-estar, de aconselhamento e de capacitação para a
tomada de decisões e para o autocuidado, ao longo de todo o ciclo de vida
(Neves, 2012, p.133).
Para além das políticas nacionais para organização dos CSP, onde é realçada a
importância da família nos cuidados, os Planos Nacionais de Saúde (PNS): 2004-
2010 e 2012-2016 salientam também a abordagem centrada na família e no ciclo de
vida, por permitirem uma perceção mais integrada dos problemas de saúde. O
último documento mencionado salienta, ainda, a importância do enfermeiro de
família, propondo que entre este e o cidadão se promova a confiança numa
relação que difunda a proximidade e continuidade de cuidados personalizados,
sendo um dos principais gestores da sua situação de saúde e responsáveis pela
mobilidade entre os vários serviços de saúde.
As diretrizes descritas em relação aos CSP, quer no que respeita à organização
dos serviços, quer à orientação dos cuidados, demonstram a importância das
práticas clínicas de enfermagem centradas na família e na relação que cada
enfermeiro estabelece com a mesma no processo de cuidados.
A este respeito, Benzein et al. (2008) apresentam a perspetiva de Söderström et
al. que defendem que, se os enfermeiros acreditam que a família e o
relacionamento com ela é importante para a qualidade dos cuidados, estes serão
mais propensos a iniciar interações com as famílias.
Para analisarmos as atitudes dos enfermeiros face à família, atendemos ao
conceito de atitude de Eagly e Chaiken definida como um conjunto de visões
mentais e de avaliações relativamente a uma ideia, objeto ou uma pessoa,
constituindo uma combinação de crenças, sentimentos ou avaliações (Gleitman,
Fridlund e Reiseberg, 2011).
Vários autores defendem que para estudar as atitudes, é necessário ter em conta
a sua estrutura. Rosemberg e Hovland (Ajzen, 1989) sugerem uma visão tri-
composta em que a atitude pode assumir as seguintes variáveis: Variáveis
independentes e mensuráveis, que são os estímulos - indivíduos, situações,
grupos sociais e outros objetos da atitude; Variáveis intervenientes - o afeto,
a cognição e o comportamento; Variáveis dependentes mensuráveis, que
constituem: as respostas do sistema nervoso simpático e a descrição verbal dos
afetos (ligada ao afeto); as respostas percetuais e a descrição verbal das
crenças (ligadas à cognição); as ações abertas e descrições verbais relativas a
comportamentos (ligadas ao comportamento).
Da revisão da literatura efetuada, em relação às atitudes dos enfermeiros face
às famílias nos CSP, foram encontrados três estudos. O primeiro consiste num
estudo Sueco, de Benzein et al. (2008), que valida a escala Families'
Importance in Nursing Care'Nurses' Attitudes (FINC-NA), numa amostra de 634
enfermeiros selecionados aleatoriamente de CSP e de cuidados de saúde
diferenciados. O segundo, efetuado em Portugal, numa amostra de 136 enfermeiros
da ARS do Norte, por um grupo de investigadores (Oliveira et al., 2009 e
Oliveira et al., 2011), descreve os processos de tradução, validação e
adaptação transcultural dessa mesma escala, que avalia as atitudes dos
enfermeiros acerca da importância de envolver a família nos cuidados de
enfermagem, denominando-a: A importância das famílias nos cuidados de
enfermagem ' atitudes dos enfermeiros (IFCE-AE). O terceiro, realizado por
Freitas (2009), a 372 enfermeiros dos centros de saúde da Região Autónoma dos
Açores, teve como objetivo conhecer a perceção dos enfermeiros sobre a
enfermagem com famílias.
Dado o presente quadro de desenvolvimento da temática da saúde familiar, a
importância do enfermeiro nas atuais equipas de saúde e a relevância das
atitudes dos enfermeiros face à família, para a qualidade dos cuidados,
entendemos pertinente o desenvolvimento deste estudo.
Metodologia
Realizámos um estudo quantitativo, do tipo descritivo e correlacional, tendo
como população todos os enfermeiros que trabalham em CSP na ARS do Centro.
Tivemos como critérios de inclusão na amostra os enfermeiros da população alvo,
que se disponibilizassem para participar no estudo e que tivessem funções
diretas com os utentes e famílias, excluindo-se, assim, todos os que não
estivessem envolvidos diretamente nas práticas de cuidados e cujas funções
fossem apenas na área da gestão. Com estes critérios obtivemos uma amostra de
871 enfermeiros, de uma população de cerca de 1800 enfermeiros.
O objetivo geral deste estudo foi caraterizar as atitudes dos enfermeiros que
trabalham em CSP na ARS do Centro, relativamente à importância de envolver a
família nos cuidados de enfermagem. E, como objetivos específicos: analisar a
relação das atitudes identificadas com as habilitações académicas e
profissionais, a formação em enfermagem de família, o tempo de experiência
profissional, a unidade funcional de saúde onde trabalham e a metodologia de
trabalho que utilizavam.
Como instrumento de colheita de dados, aplicámos um questionário composto por
duas partes: a primeira, com questões de caracterização sociodemográfica e
profissional, nomeadamente, a idade, sexo, tempo de serviço, grau académico,
categoria profissional, tipo de formação em enfermagem de família, unidade onde
trabalham e metodologia de trabalho que orienta a sua prática; e a segunda
parte, constituída pela escala: A Importância das Famílias nos Cuidados de
Enfermagem ' Atitudes dos Enfermeiros (IFCE-AE), validada para a população
portuguesa por Oliveira et al. (2009) e Oliveira et al., (2011).
O enunciado desta escala apresenta como conceito de família: "membros de
família, amigos, vizinhos ou outros significantes" ou seja, todos os
elementos que as famílias consideram significativos, para além dos membros da
família consanguíneos ou legalmente instituídos. Os itens da escala são
classificados em cognitivos (eu penso), afetivos (eu sinto) e comportamentais
(eu faço no meu trabalho), propondo-se estes a avaliar as dimensões Família:
parceiro dialogante e recurso de coping, com 12 itens; Família: recurso nos
cuidados de enfermagem, com 10 itens e Família: fardo, com 4 itens. Cada item é
respondido através de uma escala de concordância, tipo Likert, com quatro
opções compreendidas entre, discordo completamente (1) e concordo completamente
(4). No total da escala os scores podem variar entre 26 e 104, sendo que,
quanto maior for o score obtido nas duas primeiras dimensões (Família: parceiro
dialogante e recurso de coping e Família: recurso nos cuidados de enfermagem) e
menor for o score obtido na terceira dimensão (Família: fardo) mais importância
atribuem os enfermeiros à família nos cuidados, ou seja, mais atitudes de
suporte revelam. (Oliveira et al., 2009 e Oliveira et al., 2011).
No referido processo de validação e resultante da determinação da consistência
interna, do total dos itens da escala, obteve-se um valor de a=0,87, revelador
de uma boa consistência interna (Oliveira et al., 2009 e Oliveira et al.,
2011).
Previamente à aplicação deste instrumento, desenvolvemos um conjunto sequencial
de procedimentos éticos e formais, nomeadamente: a solicitação de autorização
para utilização da escala aos autores; o pedido de autorização para a
realização do estudo ao presidente da comissão de ética da ARS do Centro; o
pedido de aplicação do instrumento de colheita de dados aos presidentes dos
conselhos executivos dos agrupamentos de centros de saúde e aos presidentes dos
conselhos de administração das unidades locais de saúde, da região centro; a
solicitação aos enfermeiros que compõem os conselhos clínicos das unidades
referidas e, posteriormente, aos enfermeiros chefes ou responsáveis dos centros
de saúde ou/e das unidades funcionais de saúde, para colaboração junto dos
restantes enfermeiros na aplicação do questionário.
Para o tratamento dos dados, utilizámos estatística descritiva e inferencial
recorrendo ao programa informático IBM SPSS Statistics 18. Aplicado o teste
Kolmogorov-Smirnov e, não tendo sido verificada distribuição normal em nenhuma
das dimensões da escala [Dimensão Família: parceiro dialogante e recurso de
coping (Z= 0.112, p <0.001); Dimensão Família: recurso nos cuidados de
enfermagem (Z= 0.089, p <0.001) e na dimensão Família: fardo (Z= 0.138, p
<0.001)], optou-se pela aplicação de testes não paramétricos.
Resultados
Quanto às características sociodemográficas, os enfermeiros inquiridos foram
maioritariamente do sexo feminino (88.5%), sendo a média de idade 40.59 anos,
com desvio padrão 8.63 anos. O tempo médio de exercício profissional situou-se
em 16.37 anos, com desvio padrão de 8.42 anos e o tempo de exercício
profissional em CSP apresentou uma média de 12.16 anos, com desvio padrão de
7.93 anos. Dos enfermeiros inquiridos, 90.9% possuía licenciatura em enfermagem
e 27.8 % cursos de pós-licenciatura ou de especialidade em enfermagem. A
maioria (69.6%) não possuía formação em enfermagem de família. O método de
trabalho mais frequente era o de enfermeiro de família (55.0%). No que concerne
ao tipo de unidade funcional, verificámos que 69.2% dos enfermeiros
desempenhava funções em UCSP, 18.3% trabalhava em USF, 5.6% em outras unidades,
3.7%, em unidades de cuidados na comunidade (UCC) e 3.2% em unidades de saúde
pública (USP).
Relativamente às atitudes, e pela análise da tabela_1, podemos constatar que na
dimensão Família: parceiro dialogante e recurso de coping os resultados
variaram entre 30.60 e 100.00 pontos, sendo a média 73.33 pontos com desvio
padrão 11.97 pontos. Metade dos inquiridos posicionou-se em resultados
superiores a 72.22 pontos e 25.0% em resultados acima de 83.33 pontos. Na
dimensão Família: recurso nos cuidados de enfermagem, os resultados situaram-se
entre 36.70 e 100.00 pontos, sendo a média 76.48 pontos com desvio padrão 12.61
pontos. Constatamos, ainda, que 50.0% dos enfermeiros obteve resultados de pelo
menos 76.67 pontos e 25.0% superiores a 86.67 pontos. Por último, na dimensão
Família: fardo, observamos resultados compreendidos entre 0.00 e 66.70 pontos.
O valor médio foi de 21.60 pontos, com desvio padrão de 15.19 pontos. Nesta
dimensão, 50.0% dos enfermeiros obteve resultados inferiores a 25.00 pontos e
25.0% apresentou valores inferiores a 8.33 pontos.
Aplicámos o teste Kruskal-Wallis para proceder ao calculo da relação da atitude
dos enfermeiros em função das habilitações académicas que possuíam, cujos
resultados se encontram na (tabela_2). Apenas na dimensão Família: fardo se
encontrou diferença estatisticamente significativa (p=0.018), revelando que
quanto mais habilitações académicas possuem, maior importância atribuem à
família, ou seja, mais atitudes de suporte apresentam nos cuidados de
enfermagem. Estas evidências são demonstradas em função de serem os enfermeiros
com o grau de mestre que apresentam uma menor média nesta dimensão (15.89
pontos).
Os resultados apresentados na (tabela_3), referentes à aplicação do teste U de
Mann-Whitney que permitiu relacionar as atitudes dos enfermeiros em função de
possuírem, ou não, formação especializada em enfermagem, mostram a existência
de diferenças estatisticamente significativas em todas as dimensões. Estas
evidências indicam que os enfermeiros especialistas apresentam atitudes de
maior suporte, ou seja, atribuem maior importância às famílias nos cuidados de
enfermagem [Família: parceiro dialogante e recurso de coping (76.71 pontos),
Família: recursos nos cuidados de enfermagem (78.88 pontos) e Família: fardo
(18.53 pontos)].
A aplicação do teste U de Mann-Whitney permitiu-nos relacionar as atitudes dos
enfermeiros em função do facto de possuírem formação em enfermagem de família.
Analisando os resultados da (tabela_4), constatámos a existência de diferenças
estatisticamente significativas nas dimensões Família: parceiro dialogante e
recurso de coping (p=0.012) e Família: fardo (p=0.002), mostrando que os
enfermeiros com formação em enfermagem de família evidenciam atitudes de maior
suporte relativamente à importância das famílias nos cuidados de enfermagem
[Família: parceiro dialogante e recurso de coping (75.03 pontos) e Família:
fardo (19.17 pontos)].
Procedemos ao estudo da relação entre a importância das famílias nos cuidados
de enfermagem e a idade, tempo de exercício profissional e tempo de exercício
em CSP, através da aplicação do coeficiente de correlação de Spearman e do
respetivo teste de significância. Os resultados da (tabela_5) mostram que todas
as correlações são fracas e estatisticamente não significativas. As correlações
positivas da dimensão Família: parceiro dialogante e recurso de coping com a
idade (rs= 0.07; p=0.033) e com o tempo de exercício profissional (rs= 0.09;
p=0.009) indicam que os enfermeiros mais velhos e com maior tempo de exercício
profissional tendem a evidenciar atitudes de maior suporte, ou seja, tendem a
atribuir maior importância às famílias nos cuidados de enfermagem.
Através da aplicação do teste Kruskal-Wallis, relacionámos as atitudes dos
enfermeiros com o tipo de unidade funcional em que exerciam funções. Os
resultados observados na (tabela_6) revelam que os enfermeiros que trabalhavam
em UCSP apresentam, nas medidas de tendência central, valores mais baixos nas
dimensões Família: parceiro dialogante e recurso de coping (72.64 pontos) e
Família: recurso nos cuidados de enfermagem (75.76 pontos) e valor mais elevado
na dimensão Família: fardo (22.75 pontos), o que significa que estes evidenciam
atitudes de menor suporte face à importância das famílias nos cuidados de
enfermagem.
Os resultados da (tabela_7) demonstram que existem diferenças estatisticamente
significativas em todas as dimensões da escala IFCE-AE, quando relacionadas com
o método de trabalho, evidenciando-se que os enfermeiros que desenvolvem a sua
atividade de acordo com o método funcional são os que demonstram atitudes de
menor suporte face à importância das famílias nos cuidados de enfermagem
[Família: parceiro dialogante e recurso de coping (70.60 pontos), Família:
recurso nos cuidados de enfermagem (74.28 pontos) e na dimensão Família: fardo
(25.22 pontos)].
Discussão
Os enfermeiros que participaram neste estudo evidenciaram atribuir bastante
importância às famílias nos cuidados de enfermagem, ou seja, apresentaram
atitudes de suporte face à família. O mesmo questionário foi aplicado a 136
enfermeiros que trabalham em CSP na ARS do Norte, tendo-se verificado que
também estes apresentam uma idêntica atitude de suporte em relação às famílias
(Oliveira et al., 2009 e Oliveira et al., 2011). Estes resultados vão ao
encontro de todas as orientações nacionais e internacionais para o envolvimento
da família nos cuidados de enfermagem e da assunção pelos enfermeiros do
compromisso e obrigação ética e moral de incluir as famílias nos cuidados
(Wright e Leahey, 2009).
Os enfermeiros que possuem maiores habilitações académicas (grau de mestre)
atribuem maior importância à família nos cuidados. Resultados semelhantes foram
encontrados no estudo de Freitas (2009), apontando para a existência de uma
diferença significativa nos enfermeiros com licenciatura e mestrado, em relação
aos enfermeiros com bacharelato, atribuindo, os primeiros, maior importância à
família. Contudo, por verificamos apenas a existência de diferença
estatisticamente significativa na dimensão Família: fardo, esta ocorrência pode
evidenciar o facto de muitos enfermeiros realizarem o segundo ciclo de estudos
fora da área da enfermagem, o que os leva a não interiorizarem a Família como
parceiro dialogante e recurso de coping e a Família como recurso nos cuidados
de enfermagem. Esta constatação revela, ainda, a importância e a necessidade
emergente da implementação de cursos de pós-graduação na área da enfermagem de
família.
Já os enfermeiros inquiridos que possuem cursos de pós-licenciatura ou formação
especializada em enfermagem revelam atribuir maior importância às famílias, com
existência de diferenças estatisticamente significativas em todas as dimensões.
Estes resultados, também encontrados por Freitas (2009), podem estar
relacionados com a inclusão de conteúdos sobre a família nos programas dos
cursos de pós-licenciatura ou especialização em enfermagem.
À semelhança das evidências científicas resultantes da investigação de Oliveira
et al. (2009) e Oliveira et al. (2011), também neste estudo se constatou que os
enfermeiros que possuem formação em enfermagem de família atribuem maior
importância às famílias nos cuidados. No entanto, por no presente estudo se ter
verificado a existência de diferenças estatisticamente significativas nas
dimensões Família: parceiro dialogante e recurso de coping e Família: fardo, e
de idêntica relação não se ter verificado na dimensão Família: recurso nos
cuidados de enfermagem, tal resultado poderá estar relacionado com o facto dos
enfermeiros com formação em enfermagem de família lhe atribuírem importância,
mas não a integrarem no processo de cuidados. Esta constatação vai ao encontro
dos resultados de alguns estudos (Vaughan-Cole, 1998; Segaric e Hali, 2005;
Wright e Leahey, 2009), em que a perceção que os enfermeiros possuem não é a
que orienta as práticas, podendo esta relacionar-se com constrangimentos do
contexto dos cuidados, com crenças integrantes da própria atitude e/ou com a
falta de clareza nos conceitos: "família"; "contexto
familiar"; "família como objeto de cuidados"; "família
como contexto". Para nós, esta constatação pode ainda estar relacionada
com a falta de clareza no conceito de "enfermeiro de família",
enquanto método de organização dos cuidados e modelo de orientação das
práticas.
Quanto ao facto de os enfermeiros mais velhos e com maior tempo de exercício
profissional evidenciarem atitudes de maior suporte face à importância das
famílias nos cuidados de enfermagem [o que foi também concluído no estudo de
Benzein et al. (2008)], este resultado poderá ser justificado pelo facto de os
enfermeiros com menor tempo de exercício profissional, centrarem a sua
atividade nos utentes e não nas famílias. Tal facto vai ao encontro da
perspetiva de que a enfermeira perita, com mais tempo de exercício
profissional, ( ) toma em linha de conta tanto as necessidades dos membros da
família, como as dos doentes ( ) sabe quando permitir aos membros da família
terem um maior papel, e quando os deve substituir. Enquanto os enfermeiros
iniciados, os iniciados avançados e mesmo os competentes (há menos de três anos
no mesmo serviço) não são suficientemente experientes para reconhecer uma
situação no seu todo ou identificar os aspetos mais importantes (Benner, 2001,
p.13). Por outro lado, o facto de terem uma menor experiência profissional pode
condicionar a perspetiva da valorização dos resultados em saúde, quando a
família é tomada como alvo dos cuidados.
Relativamente aos inquiridos que trabalham em UCSP terem evidenciado atitudes
de menor suporte face à importância das famílias nos cuidados de enfermagem,
este resultado poderá ter estado relacionado com a recente criação destas
unidades (simultaneamente à colheita de dados), que trouxeram novas formas de
organização dos cuidados e, consequentemente, exigiram adaptações dos
profissionais, sem ter existido uma preparação prévia. Por outro lado, pode
também relacionar-se com as evidências do estudo de Teixeira (2012), iniciado
em 2005, cujos resultados apontaram para um efeito discriminatório entre os
profissionais que trabalham em USF e CS, o que na atualidade assume a
correspondência verificada entre USF/UCSP.
Quanto ao facto de os enfermeiros que trabalham segundo o método funcional
apresentarem atitudes de menor suporte em relação à família, esta constatação
pode, por um lado, estar relacionada com o próprio conceito de método
funcional, onde a importância metodológica está centrada nos procedimentos e
técnicas e não na pessoa e/ou família e, por outro, com o facto dos enfermeiros
que trabalham pelo método funcional não terem igual oportunidade de conhecerem
as famílias, como os que trabalham pelo método de enfermeiro de família. A
metodologia de orientação dos cuidados pelo método funcional integra-se na
visão do modelo biomédico e não na conceção das práticas orientadas para as
respostas humanas aos processos de vida. O modelo biomédico dirige os
profissionais de saúde para assumir as funções de avaliador e controlador das
intervenções terapêuticas e, quando essa posição é adotada por profissionais de
saúde, entra em desacordo com as condições necessárias para uma participação
mais ativa da família nos cuidados (Bruce et al., 2002). Esta configuração é
também evidenciada no estudo de Oliveira e Marcon (2007) sobre o trabalho da
enfermagem brasileira com famílias, sendo reconhecido que, embora o foco
pretendido seja a família, na prática, as atividades têm tendência a centrar-se
na vertente assistencial e muito direcionadas para o elemento da família que
apresenta um problema de saúde, o que reforça a necessidade de discussão
crítica e reflexiva que conduza a uma prática mais avançada, que considere
tanto as necessidades e o estado de saúde dos indivíduos que compõem a família,
como o seu funcionamento, a sua estrutura e as suas funções a partir de modelos
de avaliação e intervenção familiar de que são exemplo o modelo de avaliação e
intervenção de Calgary (Wright e Leahey, 2009) e o modelo dinâmico de avaliação
e intervenção familiar (Figueiredo, 2012).
Também o facto da maioria dos enfermeiros inquiridos trabalhar segundo o método
de enfermeiro de família e não serem estes que evidenciam atitudes de maior
suporte em relação à importância das famílias nos cuidados, pode estar
relacionado com a indefinição das orientações sobre a metodologia de ação.
Conclusão
Os resultados deste estudo permitem-nos concluir que os enfermeiros que
trabalham em CSP, na ARS do Centro, possuem atitudes de suporte face à
importância da família nos cuidados o que constitui um critério importante para
a qualidade dos cuidados.
Evidenciou-se também que os enfermeiros inquiridos, que apresentam atitudes de
maior suporte são os que possuem maiores habilitações académicas e
profissionais, os que possuem formação específica em enfermagem de família, os
que têm mais tempo de experiência profissional e os que não têm como método de
organização dos cuidados, o método funcional ou à tarefa.
Não sendo excluída a possibilidade de existirem outros fatores contextuais que
devem ser estudados em profundidade, utilizando outras metodologias, para
compreender como se constroem as práticas de enfermagem centradas na família e
quais os fatores determinantes para o seu desenvolvimento; atrevemo-nos a
afirmar que urge a necessidade de adequar as variáveis que evidenciaram
diferenças estatisticamente significativas com as práticas em uso nos CSP.
Tendo-se verificado a formação pós graduada e a formação específica em
enfermagem de família como fatores facilitadores de atitudes de maior suporte
para com a família, sublinha-se a necessidade de implementação de cursos de
especialidade em enfermagem de saúde familiar, conforme Regulamento n.º 126/
2011 que define o perfil das competências específicas do enfermeiro
especialista em enfermagem em saúde familiar e a criação de orientações
específicas para o desenvolvimento e produção das práticas clínicas nos CSP.
O tipo de unidade funcional onde os enfermeiros trabalham parece condicionar as
atitudes destes para com as famílias, pelo que seria importante realizar outro
estudo que contemplasse apenas enfermeiros que trabalham em UCSP e em USF.
Também o método de organização dos cuidados de enfermagem no trabalho com
famílias deve ser orientador da avaliação e intervenção da família, em que os
principais requisitos são o atendimento da família como alvo e não como
contexto onde o indivíduo se insere.
Como limitações encontradas no estudo, salientamos o facto da colheita de dados
ter sido realizada num período de transição na reorganização dos CSP com a
recente reforma, que implicou entre outras, a formação de novas equipas de
saúde e novas metodologias de trabalho, o que pode ter influenciado os
resultados do estudo. Por outro lado, há a salientar que apesar, da referência
ao enfermeiro de família constar em algumas orientações nacionais, só estão
legisladas as competências do enfermeiro especialista em saúde familiar (sem
que ainda tenha existido qualquer curso especifico nesse sentido) e só mais
recentemente (a 1 de agosto de 2012) foi nomeado, por Despacho, um grupo de
trabalho para preparação da legislação sobre a metodologia de ação do
enfermeiro de família.