Saúde mental em cuidadores informais de idosos dependentes pós-acidente
vascular cerebral
Introdução
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) constitui um desafio pelo impacto social e
pelas repercussões na vida das pessoas e suas famílias. Torna-se, assim,
fundamental estudar a saúde mental do cuidador da pessoa pós-AVC.
A pertinência do seu estudo justifica-se porque as famílias provedoras de
cuidados confrontam-se com novos desafios e com novas solicitações, para as
quais nem sempre têm as respostas mais ajustadas às expectativas dos vários
atores envolvidos, implicando um ajustamento às novas exigências e a edificação
de soluções que permita fazer face a situações de grande vulnerabilidade
(Pimentel, 2008, p. 1) . Justifica-se ainda porque as doenças
cerebrovasculares são a primeira causa de morte em Portugal e uma importante
fonte de incapacidade em face das sequelas dos seus portadores. Por outro lado,
a tendência para altas cada vez mais precoces pressiona a família a prestar
cuidados para os quais, muitas vezes, não está ou não se sente preparada com
consequente sobrecarga física, psicológica e financeira, contexto que coloca em
risco a saúde mental destas pessoas enquanto cuidadores informais.
Considerando a família uma unidade sistémica com funções sociais e um espaço
privilegiado de suporte à vida e à saúde mental dos seus membros, foi objetivo
do estudo determinar as variáveis preditoras da saúde mental do cuidador
informal de idosos dependentes pós-acidente vascular cerebral.
Enquadramento/Fundamentação teórica
O cuidado informal sobrevém da prestação de cuidados a pessoas dependentes por
parte da família, amigos, vizinhos ou outros grupos de pessoas, não remunerados
economicamente pelos cuidados que prestam, assumindo assim o papel de cuidador
informal. Este torna-se o profissional oculto de cuidados a idosos dependentes,
experienciando consequências que se repercutem quer na sua qualidade de vida,
quer na do idoso (Cruz, et al., 2010). Assim, o processo de adaptação
psicológica da família ao idoso dependente é complexo e gera sofrimento
psicológico aos cuidadores. Estudos apontam que as etapas do cuidar, a
progressão da incapacidade, a instalação súbita ou gradual da dependência, o
prognóstico da doença do idoso e os recursos de que dispõe o cuidador para
desenvolver as suas tarefas, oneram a sua resistência física e psicológica
(Perracini e Neri, 2002 cit in Camargo, 2010).
Neste âmbito, a saúde mental considerada como a capacidade do ser humano se
situar fluentemente em três vertentes, na relação consigo próprio, na relação
com os outros e na relação com a vida... trata-se de um sentimento de bem-estar
centrado numa harmonia interior. O bem-estar emerge como expressão da harmonia
do funcionamento do sujeito Milheiro (2001, p. 301) cit in Fragoeiro (2008).
Cuidar do outro dependente constitui uma ameaça ao funcionamento harmonioso do
cuidador, podendo sobrevir a doença mental (saúde mental negativa). Esta
envolve um continuum que se estende das mais severas desordens mentais até uma
variedade de sintomas de diferente intensidade e duração, resultando numa
multiplicidade de consequências. Lahtinen, Lehtinen, Riikonen e Ahonen (1999)
cit in Fragoeiro (2008) referem que para a saúde mental concorrem fatores e
experiências individuais, interações sociais, estruturas e recursos da
sociedade e valores culturais, e é experimentada como parte da vida quotidiana
normal. Os problemas da saúde mental estão correlacionados com o stress pessoal
e podem apresentar-se temporariamente como falta de motivação, dificuldades de
concentração e aborrecimento (Fragoeiro, 2008).
Deste modo cuidar de um indivíduo idoso, dependente, portador de uma doença
crónica, pode representar uma ameaça constante.
O stress emocional, gerado pelo papel de cuidador informal, é acrescido pelas
dificuldades em controlar o próprio tempo, as relações afetivas, as angústias,
os medos, as tristezas, as múltiplas responsabilidades, assim como pela pressão
da dependência do familiar. Este stress emocional pode resultar em
ressentimentos, amargura e até raiva pelas constantes responsabilidades e
privações, podendo ainda existir o desejo secreto de se desfazer da carga,
enviando o doente para alguma instituição, ou até desejar a sua morte (Marques,
2007).
Daí a importância, reconhecida atualmente, do papel desempenhado pelos
cuidadores informais a familiares dependentes, tendo em conta os aspetos
demográficos e socioeconómicos relacionados com a situação, bem como com a
natureza complexa dos cuidados e das interações que se gerem entre os
intervenientes neste tipo de contexto (Marques, 2007).
Assim, o estudo das variáveis preditoras da saúde mental do cuidador informal
revela-se pertinente e atual para que os enfermeiros possam traçar um melhor
plano de intervenção face ao cuidador. Desta forma, produzir-se-á informação de
suporte à promoção da saúde e à qualidade de vida das famílias exercendo uma
prática profissional centrada na família.
Metodologia
Investigar sobre a saúde mental do cuidador informal do idoso em situação de
dependência pós-acidente vascular cerebral assume-se como uma estratégia
promotora de reconhecimento duma problemática clínica e social, na medida em
que a sobrecarga a que se sujeita o cuidador tem implicações na sua saúde
mental e dinâmica sócio familiar.
Considerando ainda que o estado de saúde mental é dinâmico e que para ele
concorrem fatores variados como a predisposição individual, o stress e a
personalidade e que a literatura científica documenta a interligação efetiva
entre os mesmos, formulámos a seguinte questão de investigação: Em que medida a
vulnerabilidade ao stress, as características da personalidade e a sobrecarga
predizem a saúde mental do cuidador informal?
Os procedimentos metodológicos procuraram dar suporte a uma abordagem
quantitativa, descritiva e correlacional sendo os dados colhidos segundo um
corte transversal. Para o estudo, recorremos a uma técnica de amostragem não-
probabilística em rede ou bola-de-neve (Polit e Beck, 2011), pelo que
solicitámos aos primeiros elementos da amostra que indicassem outras pessoas
que atendessem aos critérios de elegibilidade. A amostra teve por base os
cuidadores informais, residentes na Sub-Região Dão Lafões integrada na Unidade
Territorial Estatística de Portugal - NUTS III, num total de 636 participantes.
Para minimizar divergências interpretativas, procedemos à definição dos
seguintes critérios de inclusão na amostra: ser cuidador principal há mais de 6
meses, coabitar com o idoso dependente vítima de AVC e não possuir diagnóstico
prévio de doença mental.
A colheita de dados foi efetuada entre setembro de 2008 e junho de 2009. O
protocolo de pesquisa permitiu colher informações relevantes para a
caracterização dos cuidadores informais no que concerne a dados pessoais,
sociais-familiares e psicológicos, e permitiu, ainda, avaliar a capacidade
funcional do idoso dependente. A participação dos cuidadores foi voluntária
sendo os instrumentos de colheita de dados preenchidos pelos próprios
participantes, com assistência dos investigadores sempre que para o efeito
foram solicitados. Foram tidos em consideração os princípios éticos nos quais
se baseiam os padrões de conduta ética em investigação designadamente princípio
do respeito pela dignidade humana e princípios de justiça e beneficência.
Garantiu-se o anonimato e confidencialidade na publicitação dos resultados.
Socorremo-nos de instrumentos de medida validados designadamente, Índice de
Katz (Duarte, Larangeira e Lebrão, 2007); Escala de Rastreio em Saúde Mental -
ER80 (Pio-Abreu e Vaz Pato, 1981); Questionário de Avaliação da Sobrecarga do
Cuidador Informal- QASCI (Martins, Pais Ribeiro e Garrett, 2003); Inventário de
Personalidade -E.P.I. (Vaz-Serra, Ponciano e Freitas, 1980); A Escala de
Vulnerabilidade ao Stress ' 23 QVS, Vaz-Serra (2000).
O Índice de Independência nas Atividades de Vida Diária (AVDs) ' Index of ADL '
foi desenvolvido por Sidney Katz (Duarte, Larangeira e Lebrão, 2007). A sua
classificação resulta do somatório do número de funções nas quais o indivíduo
avaliado é dependente. A classificação em 0, 1, 2, 3, 4, 5 ou 6 reflete o
número de áreas de dependência de forma resumida e possui três categorias de
classificação: independente, parcialmente dependente ou totalmente dependente.
Ou seja, uma pontuação 6 indica que o idoso é independente, possui habilidade
para desempenhar tarefas quotidianas. Uma pontuação 4 indica uma dependência
parcial, podendo o idoso requerer ou não auxílio. Uma pontuação igual ou
inferior a 2 implica a necessidade de assistência, indicando uma dependência
importante.
A Escala de Rastreio em Saúde Mental de Pio-Abreu e Vaz Pato (1981) tem sido
utilizada para rastreio e deteção de casos em epidemiologia psiquiátrica
adaptada às condições culturais da população portuguesa. É constituída por 16
itens e cotada inversamente significando que quanto menor a cotação melhor a
saúde mental. Quanto aos valores de consistência interna no presente estudo, os
coeficientes de alfa de Cronbach variaram entre 0.493 (itens 11) e 0.643 (item
5). O alfa de Cronbach para a totalidade dos itens apresenta o valor fraco de
0.561. Calculado o índice de fiabilidade pelo método das metades, verificamos
que o valor é igualmente fraco para a primeira e segunda metade do Índice de
Split-half (0.322 e 0.432 respetivamente).
O Questionário de Avaliação da Sobrecarga do Cuidador Informal (QASCI) foi
desenvolvido por Martins, Ribeiro e Garret (2003). Com 32 itens, avaliados por
uma escala ordinal de frequência que varia de 1 a 5 e sete dimensões:
Implicações na Vida Pessoal do Cuidador Informal (11 itens [5 a 15]);
Satisfação com o Papel Familiar (5 itens [28 a 32]); Reações às Exigências (5
itens [18 a 22]); Sobrecarga Emocional (4 itens [1 a 4]); Suporte Familiar (2
itens [26 e 27]); Sobrecarga Financeira (2 itens [16 e 17]) e Perceção dos
Mecanismos de Eficácia e de Controlo (3 itens [23 a 25]). Suporte Familiar,
conjuntamente com Satisfação com o Papel Familiar e Perceção dos Mecanismos de
Eficácia e de Controlo constituem forças positivas na dinâmica em estudo.
Contudo, as pontuações foram invertidas para que os valores mais altos
correspondessem a situações com maior peso ou sobrecarga (Marques, 2007).
Na utilização do QASCI, seguiram-se as indicações dos seus autores,
designadamente os itens relativos às dimensões Mecanismos de Eficácia e
Controlo, Suporte Familiar e Satisfação com o Papel e com o Familiar que foram
invertidos para que a pontuações mais altas correspondessem a situações de
maior sobrecarga e stress. Para que as pontuações finais de cada subescala
apresentassem valores homogéneos e comparáveis, os itens de cada dimensão foram
somados; e a este valor foi subtraído o valor mínimo possível na subescala.
Este valor foi dividido pela diferença entre o valor máximo e mínimo possível
na subescala; finalmente para que a leitura fosse efetuada em percentagem,
multiplicou-se o resultado por 100.
Σ - pontuação_mínima_de_cada_subescala_ X 100
Mx ' Mn
O Eysenck Personality Inventory (E.P.I.) é um Inventário de Personalidade
criado por Eysenck e Eysenck (1964) com o objetivo de medir as dimensões da
personalidade Neuroticismo-Estabilidade Emocional e Extroversão-Introversão.
Utilizámos a versão portuguesa do E.P.I aferida por Vaz-Serra, Ponciano e
Freitas (1980).
Considera-se que um introvertido é um indivíduo voltado para o mundo interior
e subjetivo, enquanto o extrovertido se encontra atento ao mundo exterior e
objetivo (Vaz-Serra, Ponciano e Freitas 1980, p. 127). O E.P.I. integra uma
escala de mentira que serve para excluir os indivíduos que desejam dar
respostas socialmente desejáveis.
O inventário inclui 57 questões, sendo que 9 correspondem à escala de mentira,
e as restantes às duas dimensões referidas. Cada uma das questões admite como
resposta sim ou não. A pontuação total para a dimensão neuroticismo/
estabilidade emocional (N) é cotada de 0 a 24. A extroversão/introversão (E) é
também cotada de 0 a 24 e a mentira (L) é cotada de 0 a 9. Quanto à
consistência interna, os coeficientes de alfa de Cronbach variam de 0,780 a
0,755. O alfa de Cronbach para a totalidade dos itens apresenta o valor
razoável de 0,769.
A Escala de Vulnerabilidade ao Stress ' 23 QVS, elaborada por Vaz-Serra em 1985
(Vaz-Serra, 2000), é constituída por 23 questões. Cada pergunta tem 5
possibilidades de resposta (concordo em absoluto, concordo bastante, não
concordo nem discordo, discordo bastante e discordo em absoluto). Foi criada a
partir do estudo de uma amostra de 368 elementos da população em geral.
A correlação par/ímpar foi de 732 e o coeficiente Spearman-Brown de 845,
reveladores de uma boa consistência interna. O coeficiente de Cronbach para
todos os itens apresentou um valor de 824. Este valor baixou sempre quando da
escala, foram excluídos alguns dos itens selecionados, evidenciando este facto
a importância que cada um deles tem como elemento contributivo para uma boa
homogeneidade. Uma análise fatorial de componentes principais seguidas de
rotação de varimax extraiu sete fatores ortogonais que explicam 57.5% da
variância total. A composição de cada fator parece traduzir o seguinte
significado: fator 1 ' Perfeccionismo e intolerância à frustração que
corresponde aos itens 5,10,16,18,19,23; fator 2 ' Inibição e dependência
funcional que corresponde aos itens 1,2,9,12,22; fator 3 ' Carência de apoio
social que corresponde aos itens 3,6; fator 4 ' Condições de vida adversas que
corresponde aos itens 4,21; fator 5 ' Dramatização da existência que
corresponde aos itens 5, 8, 20; fator 6 ' Subjugação que corresponde aos itens
11,13,14,15; fator 7 ' De privação de afeto e rejeição que corresponde aos
itens 7,13,17. O valor atribuído às diferentes classes de resposta varia entre
0 e 4.A pontuação mais elevada corresponde aos aspetos mais negativos da
descrição do indivíduo. A fim de se evitar tendências de resposta, algumas
questões foram construídas de forma a representarem aspetos positivos e outros
negativos. Aos itens 1, 3, 4, 6, 7, 8 e 20 correspondem as seguintes
pontuações: Concordo em absoluto è →0; Concordo bastante è →1; Não concordo nem
discordo è →2; Discordo bastante è →3; Discordo em absoluto è →4. Aos itens 2,
5, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22 e 23 correspondem as
seguintes pontuações: Concordo em absoluto è →4; Concordo bastante è →3; Não
concordo nem discordo è →2; Discordo bastante è →1; Discordo em absoluto è →0.
A soma das pontuações atribuídas a cada uma das perguntas indica o resultado
final, sendo a pontuação máxima 92 e o mínimo 0. A cotação final da escala diz-
nos que à medida que aumenta a pontuação aumenta a vulnerabilidade ao stress,
um valor de 43, obtido no preenchimento da 23 QVS, constitui um ponto de corte
acima do qual uma pessoa se revela vulnerável ao stress (Vaz-Serra, 2000, p.
306).
Por último e no referente à análise dos dados, recorremos à estatística
descritiva e analítica. Em relação à primeira, determinámos frequências
absolutas e percentuais, medidas de tendência central ou de localização como
médias e medidas de variabilidade ou dispersão como desvio padrão, para além de
medidas de assimetria e achatamento, de acordo com as características das
variáveis em estudo. Na análise estatística utilizámos os seguintes valores de
significância: p < 0.05 * - diferença estatística significativa; p < 0 .01** -
diferença estatística bastante significativa; p < 0.001 *** - diferença
estatística altamente significativa p ≥ 0.05 n.s. ' diferença estatística não
significativa.
No que respeita à estatística inferencial, fizemos uso da estatística
paramétrica; e para estudo de proporções, de estatística não-paramétrica,
destacando-se o Teste U-Mann Whitney (UMW), o Teste de Kruskal-Wallis,
Regressão Linear, Matrizes de Correlação de Pearson (r) e o Teste de Qui
Quadrado (X2).
O tratamento estatístico foi processado através do programa SPSS 15.0
(Statistical Package for the Social Sciences) versão 17.0 (2006) para Windows.
Resultados
As estatísticas relativas à idade revelam que os cuidadores informais
apresentavam a idade mínima de 17 anos e a máxima de 85 anos, sendo a média das
idades 50,19 anos (Dp=14.30).
A maioria dos cuidadores informais é casada (74,7%) e residente na zona rural
(73,9%).
A maioria dos cuidadores são os filhos(as) ou genros/noras (47,6%), seguidos do
marido/esposa com 26,6%, sendo o(a) sobrinho(a) o grau de parentesco com menor
representatividade (4,7%). Entre os homens cuidadores, o grau de parentesco
mais frequente foi o de marido, 42,7%; por sua vez no sexo feminino, o filho(a)
ou genro/nora encontra-se mais representado (50,7%) sendo as diferenças
estatísticas significativas para o grau de parentesco (χ2=19.866, p=0.000).
O perfil sociodemográfico médio dos idosos dependentes mostra ser: indivíduo do
sexo masculino (52,4%), com cerca de 75 anos, gravemente dependente (67.8%),
sendo a dependência mais frequente a de ordem física (46,7%). A idade das
mulheres e homens dependentes oscilou entre os 60 anos e 99 anos, com uma média
de 75.07 anos, sendo que a média de idade das mulheres cuidadas é mais elevada
(X=76,37) do que a dos homens (X=73,88). O grupo etário mais representativo é o
dos 76-83 anos, com 26,2% nos homens e 28,5% nas mulheres. Todavia é também
expressivo o grupo etário dos 60-69 anos (25,0%) o que se torna preocupante sob
ponto de vista de saúde pública.
O perfil psicológico do cuidador informal, mostrou estar vulnerável ao stress
(55,0%), (Quadro_1).
Analisando os valores das dimensões da personalidade dos cuidadores informais,
constatamos que predominou como característica de personalidade o traço de
neuroticismo. Os valores variam entre um mínimo de 2 e um máximo de 19, com um
valor médio de 11.16 (Dp=2.60), valor este superior ao da população portuguesa
(Quadro_2).
Em termos médios, o cuidador informal relata grande sobrecarga nas vertentes
financeiras (X=72,17), perceção dos mecanismos de eficácia e controlo (X=68.36)
e no suporte familiar (X=60,12). Por sua vez, os cuidadores apresentam menor
sobrecarga nas reações e exigências (X=34,71), na satisfação com o seu papel e
com o familiar (X=43,47), e nas implicações na vida pessoal (X=45,80) (Quadro
3).
Saúde Mental/Sexo, Idade e Sobrecarga
A pontuação relativa à saúde mental dos cuidadores informais variou entre o
mínimo de 0 e o máximo de 14, com um valor médio de 3.64 (Dp=3.56) e uma
dispersão elevada em torno da média (Quadro_4).
O agrupamento dos cuidadores informais em função do estado de saúde mental
revela que apresentam boa saúde mental 58,0%, fraca 36,8% e razoável 5,2%.
Os cuidadores do sexo masculino pontuaram com melhor saúde mental do que os do
sexo feminino (U de Mann Witheney: U=22037.0; Z=-3,207; p=0,001).
A idade associou-se com a saúde mental (r=0,109; p=0,006), ou seja, a maior
idade corresponde pior saúde mental. O estudo da variabilidade da saúde mental,
em função do grupo etário revela que esta tende a diminuir com a idade,
reforçando a inferência anterior (H=9.089; p=0.028).
Relativamente à relação da sobrecarga com a saúde mental dos cuidadores,
constatámos que as associações apresentam sentido positivo nas subescalas
Implicações na Vida Pessoal, Satisfação com o papel familiar, Reações e
Exigências e na Sobrecarga Emocional relativa ao doente, ou seja, quando
aumenta a sobrecarga do cuidador nestas subescalas, a saúde mental dos
cuidadores informais é pior. A relação é de sentido inverso nas restantes
subescalas: a uma menor sobrecarga do cuidador informal nas subescalas Suporte
Familiar, Sobrecarga Financeira e na Perceção dos Mecanismos de Eficácia e
Controlo corresponde melhor saúde mental. As correlações entre a saúde mental e
as sete subescalas da sobrecarga do cuidador informal revelaram-se altamente
significativas (p<0,001). Pelo valor de r 2 observamos que as Implicações na
vida pessoal do Cuidador Informal, a Satisfação com o papel familiar, as
Reações e Exigências, a Sobrecarga Emocional relativa ao doente, o Suporte
Familiar, a Sobrecarga Financeira e ainda a Perceção dos Mecanismos de Eficácia
e Controlo explicam 27,9%, 21,9%, 14,4%, 2,0%, 4,3%, 1,7% e 2,3% da
variabilidade da saúde mental de que auferem os cuidadores (Quadro_5).
Analisada a predição da saúde mental dos cuidadores informais, através da
regressão linear múltipla pelo método stepwise, aceita-se que os três termos de
predição que entraram no modelo são preditores da saúde mental, explicando
37,7% da sua variabilidade (Quadro_6).
A análise comparativa dos coeficientes beta sugere que a vulnerabilidade ao
stress tem maior peso na predição da saúde mental (0,377), seguido pela
variável implicações na vida pessoal (0,310) e pelo neuroticismo (-0,089),
variando na razão direta nos dois primeiros fatores e na razão inversa com o
neuroticismo. Deste modo, considera-se que quanto maior a vulnerabilidade ao
stress e as implicações na vida pessoal pior a saúde mental, e quanto mais
acentuado o traço do neuroticismo melhor a saúde mental.
Discussão
No novo paradigma social, os cuidadores informais afiguram-se como uma nobreza
expressiva para a sociedade, porém os custos associados a este papel predispõem
os cuidadores, como referenciam os teóricos e a investigação, a situação de
crise, expressando sintomas de fadiga, stress, depressão, denotando
frequentemente frágil saúde mental. Se a saúde mental surge com frequência como
componente a incluir na abordagem no funcionamento mental do cuidador, o
impacto que o stress, a personalidade e a sobrecarga do cuidador, bem como o
grau de dependência do idoso detêm na mesma, merece uma reflexão cuidadosa.
O cuidador informal revela ser um participante do sexo feminino (83,8%), com
cerca de 50 anos, casada (74,7%), com o grau de parentesco de filha ou nora
(47,6%), sem atividade laboral (55,7%), residentes na zona rural (73,9%). Estas
características do cuidador informal estão firmadas em referências culturais do
cuidador familiar português e não difere muito do perfil dos cuidadores de
outros países. Destaca-se o cuidador do sexo feminino com cerca de 50 anos.
Este dado foi apurado noutros estudos (Pimenta et al., 2009; Cardoso et al.,
2012), que ressaltam o papel da mulher como cuidadora na cultura de expressão
portuguesa bem como noutras culturas. É importante conhecê-la no seu papel de
cuidadora, pois é ela que está em contacto mais próximo com o idoso e é o elo
mais forte na equipa de saúde. Sendo a relação de parentesco mais frequente é
de filhos (as) ou marido/esposa do idoso, ela é idêntica aos resultados
apresentados por Sequeira (2010).
Quanto às características sociodemográficas do idoso dependente, constata-se
serem idênticas às do estudo de Silva (2011) que refere sensivelmente a mesma
idade 74 / 75 anos.
A ocorrência da doença de um familiar gera um impacto significativo no cuidador
desde logo porque o tempo de tratamento de um AVC é algo indeterminado em face
das sequelas com que cursa.
A maioria dos cuidadores informais (55,0%) apresenta-se vulnerável ao stress.
Estes resultados consensuais com outros estudos que relatam como os cuidadores
informais estão submetidos a stress psicológico, físico, emocional e financeiro
(Fernandes, 2009). Outros estudos que reportam o cuidado como fonte estressora
capaz de gerar grande sobrecarga ao cuidador (Cardoso et al., 2012).
Importa ainda sublinhar que as características da personalidade têm efeito no
estado de ânimo dos cuidadores e que o neuroticismo prediz a perceção das
estratégias de distress e de coping dos cuidadores (Ferrario et al., 2003, cit
in Bidarra, 2010). Neste estudo, o traço de neuroticismo constituiu a
característica predominante relativa à personalidade dos cuidadores (X=11,16) e
quanto mais acentuado o traço do neuroticismo melhor a sua saúde mental. Este
resultado poder-se-á explicar com recurso ao pressuposto de que a personalidade
é um fator decisivo que influencia as estratégias de coping dos cuidadores e
ajuda a compreender porque os cuidadores respondem distintamente em situações
similares. Reforça ainda a importância de incluir a personalidade como um
recurso individual do cuidador nos modelos conceptuais e de investigação no
caregiving. Na prática clínica, a avaliação das características da
personalidade deve ser tomada em conta no planeamento de programas de
intervenção, dado que o caregiving é um processo marcado pelas características
dos cuidadores e doentes (Silva, 2012).
No que concerne à influência da sobrecarga na saúde mental dos cuidadores, as
associações apresentam sentido positivo nas subescalas Implicações na vida
pessoal, Satisfação com o papel familiar, Reações e exigências e na Sobrecarga
emocional relativa ao doente, ou seja, quando aumenta a sobrecarga do cuidador
nestas subescalas, a saúde mental dos cuidadores informais é pior. A relação é
de sentido inverso nas restantes subescalas, onde a uma menor sobrecarga do
cuidador informal nas subescalas Suporte familiar, Sobrecarga financeira e na
Perceção dos mecanismos de eficácia e controlo corresponde melhor saúde mental.
A sobrecarga do cuidador informal demonstrou ser uma temática atual e de grande
relevância para o desenvolvimento de novas práticas de assistência na área da
saúde mental do cuidador, pois a perspetiva de sobrecarga do cuidador, que tem
dominado a literatura, indicia a prestação de cuidados informais como um
potencial gerador de condições patológicas (Silva, 2011).
A carência de estudos sobre a sobrecarga do cuidador evidencia a necessidade de
desenvolvimento de mais pesquisas sobre a temática, de forma a contribuir para
o desenvolvimento de uma melhor assistência ao cuidador, seja ela formal ou
informal (Cardoso et al., 2012).
Avaliar os diferentes níveis de incapacidade do idoso torna-se um objetivo
básico para o planeamento adequado dos cuidados de saúde porque interferem com
o quotidiano do doente e do cuidador, porquanto aprender a cuidar de um membro
familiar vítima de AVC é imensamente complexo e exigente.
Os cuidadores com melhor saúde mental são os que cuidam de pessoa portadora de
AVC menos dependente. Similarmente França (2010) apurou que os cuidadores que
têm a cargo pessoas mais dependentes apresentam o agravamento do estado de
saúde mental.
Quanto à idade dos cuidadores informais, verificou-se que os cuidadores mais
velhos apresentam pior saúde mental o que está de acordo com o estudo de Silva
(2011), uma vez que, a presença de psicopatologia é mais evidente com o avançar
da idade.
Neste estudo as variáveis Vulnerabilidade ao stress, Implicações na vida
pessoal e Neuroticismo predizem a saúde mental dos cuidadores informais.
Também Camargo (2010) descreve a árdua e extenuante tarefa do cuidador, com
sobrecarga de atividades no quotidiano que o leva, em muitas circunstâncias, ao
estado de esgotamento emocional, isolamento social e situações de intensos
conflitos, em face da complexidade vivenciada no domicílio, ao cuidar do idoso
dependente.
Conclusão
Os resultados estatísticos, fundamentados em cálculos probabilísticos, não
permitem apresentar um perfil radical dos cuidadores informais, mas somente
inferir tendências (de maior probabilidade). Assim, os cuidadores informais com
pior saúde mental assumem como características predominantes ser do sexo
feminino, de maior idade, com predomínio de neuroticismo, vulnerável ao stress,
com maior sobrecarga nas subescalas Implicações na vida pessoal, Satisfação com
o papel familiar, Reações a exigências, Sobrecarga emocional e maior grau de
dependência cognitiva e emocional no idoso cuidado. Salienta-se que as
variáveis Vulnerabilidade ao stress, Implicações na vida pessoal e Neuroticismo
se revelaram preditoras da saúde mental dos cuidadores informais, sugerindo que
os profissionais de saúde as devem incluir no planeamento das ações de saúde
que lhe são dirigidas.
Em face dos resultados obtidos neste estudo e traduzindo as evidências que as
variáveis psicológicas predizem a saúde mental dos cuidadores informais, impõe-
se considerá-las quando se conceptualizam boas práticas de enfermagem para o
seu atendimento e se selecionam estratégias atenuantes do impacto do stress e
da sobrecarga. Os resultados sugerem que urge questionar que tipo de
intervenção podem e devem os enfermeiros fazer para ajudar a família nas
mudanças em momentos de crise, para proporcionar um ambiente de bem-estar
familiar, mesmo com manifestas dificuldades (Araújo, Paúl e Martins, 2008, p.
44).
Como contribuição do estudo, salienta-se o conhecimento produzido sobre o
funcionamento mental dos cuidadores informais, influindo para que a interação
entre o cuidador e o idoso dependente alvo dos seus cuidados seja autopoética e
biopsicossocialmente ajustada, em todas as vertentes da sua vivência
quotidiana.