Simulação de Alta-Fidelidade no Curso de Enfermagem: ganhos percebidos pelos
estudantes
Introdução
A Enfermagem possui um longo historial de uso da simulação como estratégia de
ensino/aprendizagem importante na aquisição de competências e preparação dos
estudantes para a prática profissional (Sanford, 2010). Contudo, com a evolução
da ciência e da própria tecnologia, outros meios têm sido desenvolvidos no
intuito de responderem às exigências crescentes da sociedade atual, tanto no
domínio da inovação dos processos de ensino, como das necessidades de
incremento às competências exigidas aos estudantes, o que resulta numa
crescente pressão nas escolas de enfermagem e nos seus docentes, no sentido de
desenvolverem profissionais mais e melhor preparados (Leigh, 2008).
Hoje, desejamos colocar o estudante no centro da aprendizagem, levando os
métodos tradicionais de ensino a serem considerados menos adequados (Hawkins,
Todd, & Manz, 2008).
No domínio da saúde em geral e da Enfermagem em particular, a utilização da
Simulação de Alta-Fidelidade (SAF) tem aumentado exponencialmente. Várias
escolas de Enfermagem incorporam este novo método de ensino, gradualmente, como
parte integrante dos seus currículos formativos.
A simulação é uma tentativa de imitar as particularidades de uma determinada
situação clínica, ambicionando uma melhor compreensão e gestão dessa situação
em contexto real. É uma técnica que recorre a um ambiente artificial, recriando
uma situação real com o propósito de praticar, aprender, avaliar, testar ou
desenvolver a compreensão dos sistemas ou ações humanas, proporcionando a de
alta-fidelidade, um elevado grau de interatividade e realismo para o estudante.
Ao ser usada no ensino, aumenta e promove o desenvolvimento de aprendizagens
significativas e pode atingir o seu expoente máximo, se os participantes a
encararem como legítima, autêntica e realista (Leigh, 2008).
A SAF tem demonstrado eficácia na educação cognitiva e comportamental, e com
esta estratégia de ensino os estudantes revelam elevados níveis de autoestima e
autoconfiança no desenvolvimento dos procedimentos, aumento da interiorização
da informação e maior satisfação com o processo de aprendizagem (Hoadley,
2009).
Vários autores referem que a SAF permite aos estudantes vivenciarem a prática
do cuidar, sem terem ainda sido expostos a um ambiente clínico, assim como
cuidar de doentes em situações de risco de vida, prevenindo dessa forma a
ocorrência de erros no futuro (Leigh, 2008).
Os resultados obtidos com a investigação na área da SAF, no ensino de
Enfermagem, são limitados (Sanford, 2010). Existem muitas questões sem resposta
nesse domínio, assim como urge a necessidade de diversificar as abordagens
metodológicas da SAF, quanto à sua efetividade no processo de ensino/
aprendizagem em Enfermagem (Sanford, 2010; Hoadley, 2009).
Em virtude de se desconhecer a existência de um estudo neste âmbito que analise
a temática, o propósito desta revisão é identificar a melhor evidência
científica sobre os ganhos percebidos pelos estudantes de Enfermagem, em
relação à prática simulada com simuladores de alta-fidelidade.
Para a revisão foram utilizados os critérios PICO (Participantes, Intervenção,
Comparação, Outcomes), segundo Santos, Pimenta, e Nobre (2007), para
identificação e seleção dos artigos que possibilitassem sistematizar o
conhecimento, resultando a seguinte questão norteadora: Como é que os
estudantes de enfermagem percebem os ganhos obtidos pela prática simulada com a
utilização de simulação de alta-fidelidade?.
Método de Revisão Sistemática
Foram estabelecidos critérios de inclusão e exclusão para a pesquisa,
considerando-se a inclusão dos estudos: 1) realizados com estudantes do curso
de bacharelato ou de licenciatura em Enfermagem; 2) cujas intervenções tenham
sido com prática simulada com simuladores de alta-fidelidade; 3) que abordassem
os ganhos percebidos pelos estudantes em contexto de prática simulada; 4) com
abordagens qualitativas e/ou quantitativas, que contribuíssem para a
compreensão do fenómeno em estudo. Foram ainda incluídos estudos comparativos
da SAF com outras estratégias de ensino, desde que apresentassem de forma
objetiva os ganhos percebidos pelos estudantes.
Foram excluídos os estudos secundários, os não científicos, os que não se
apresentavam nos idiomas inglês, português, francês e espanhol e os que não
permitiam aceder ao texto integral.
Estratégias de pesquisa e identificação dos estudos
Foram utilizadas as bases de dados eletrónicas disponibilizadas pela EBSCOhost
(CINAHL Plus with Full Text; MEDLINE with Full Text; PMC; DARE; Cochrane
Central Register of Controlled Trials; Nursing & Allied Health Collection:
Comprehensive; British Nursing Index; MedicLatina; Elsevier ' Science Direct
(Freedom collection); Academic Search Complete e ERIC) e o Google académico,
nos idiomas português, inglês, francês e espanhol.
A pesquisa foi realizada entre 4 de dezembro de 2010 e 10 de fevereiro de 2011
sem quaisquer restrições quanto ao espaço temporal, ao tipo de apresentação ou
de publicação, com os descritores: simulation, nursing, students, perceptions e
education e as palavras-chave: high-fidelity e experiences. Na primeira
pesquisa efetuada, associaram-se através dos operadores booleanos os termos:
high-fidelity simulation AND nursing "AND students OR experiences OR
perceptions OR education, em texto integral (TX All Text), da qual resultaram
1119 artigos, publicados entre o ano 1999 e 2011.
De modo a analisar a evidência científica mais recente, restringindo-se o
espaço temporal entre 2005 e 2011, do qual emergiram 1086 artigos, o que denota
que a grande maioria da produção científica produzida nesta área é ainda muito
recente. Deste modo e com o propósito de incluir na pesquisa os relatórios
centrados no objeto de estudo, a expressão high-fidelity simulation surgiria no
título (TI Title) e as restantes no texto (TX All Text), no que resultou em 72
artigos. CINAHL Plus with Full Text ' 25 artigos; MEDLINE with Full Text ' 27
artigos; Nursing & Allied Health Collection: Comprehensive ' 9 artigos;
British Nursing Index ' 2 artigos e Academic Search Complete ' 9 artigos.
No Google académico foram encontrados 5 artigos que cumpriam os critérios de
inclusão estabelecidos, mas por se encontrarem duplicados, não foram
considerados, ficando só os artigos selecionados a partir da plataforma
EBSCOhost no idioma inglês, já que nos restantes idiomas não se obtiveram
quaisquer resultados.
Após a avaliação do título, foram selecionados 40 artigos para uma revisão
preliminar.
Para uma maior fidelidade no processo de seleção, a partir desta fase foi
envolvido outro revisor. De forma independente e após a leitura dos resumos,
foram selecionados 15 artigos para uma análise integral. As opiniões
divergentes entre os revisores foram discutidas até ter sido alcançado o
consenso.
Os motivos de exclusão dos estudos relacionaram-se com o facto de se
encontrarem em duplicado, por a amostra não representar estudantes de
enfermagem e por apresentarem objetivos divergentes da questão proposta.
Após a leitura na íntegra dos artigos selecionados, foram excluídos seis por
não analisarem como os estudantes perceberam os ganhos obtidos, ficando assim
nove artigos elegíveis para a análise nesta revisão (Figura_1). Nesta etapa não
existiram divergências entre os revisores.
Avaliação da qualidade metodológica dos estudos
Para uma maior fidelidade no processo de seleção, os revisores avaliaram
independentemente a qualidade metodológica de cada artigo tendo como base a
coerência e congruência metodológica dos estudos, a profundidade da análise, a
confiabilidade dos resultados e a relevância dos dados relativamente ao tema
estudado, baseados numa adaptação de um instrumento utilizado por Vilelas
(2009).
Apesar de serem utilizados instrumentos padrão para a avaliação metodológica
dos estudos publicados, não existe um consenso quanto à utilização de um
instrumento genérico adequado simultaneamente para diversos tipos de estudos,
pelo que o instrumento utilizado foi adaptado às caraterísticas dos estudos
desta revisão e desta forma a qualidade de cada artigo foi avaliada de acordo
com os seguintes critérios: clara definição do problema; relação objetivos do
artigo/Revisão Sistemática da Literatura (RSL); descrição da metodologia
(descreve os objetivos, especifica o tipo de estudo, define corretamente as
variáveis, define corretamente a amostra, especifica os instrumentos utilizados
e os itens indicados para avaliação estão nos resultados); possui metodologia
adequada; resultados encontrados são factíveis; resultados contribuem para a
prática de enfermagem.
Para a avaliação de cada artigo foi atribuída a pontuação 1 quando o item
estava presente e zero pontos quando duvidoso ou ausente. Com uma pontuação
máxima de 11 pontos e mínima de zero pontos, a qualidade metodológica de cada
artigo seria classificada de baixa (0 ' 3 pontos), moderada (4 ' 7 pontos) ou
alta (8 ' 11 pontos).
Extração de dados
Os 9 artigos selecionados foram sujeitos a uma análise descritiva pelos
revisores. Os dados foram retirados e transcritos numa tabela elaborada para o
efeito (Tabela_1), de modo a cumprir os objetivos desta revisão e a
caracterizar as investigações que estiveram na sua origem.
Síntese dos dados
Estudo de revisão sistemática da literatura com resumo narrativo (Joanna Briggs
Institute, 2011), realizado por dois revisores, em que o processo de síntese
dos resultados englobou a análise indutiva de cada estudo para extrair e
sintetizar os dados que respondessem à questão desta revisão e as principais
conclusões referidas pelos autores (Tabela_2).
Resultados
Depois de aplicados todos os processos de refinação dos resultados da pesquisa
(Figura_1) e feita uma análise de cada relatório, verificou-se que os 9 estudos
usaram amostras de conveniência com estudantes em diferentes anos do curso de
licenciatura/bacharelato em enfermagem. O tamanho das amostras estava
compreendido entre 24 e 68 participantes, com um valor médio de 48 e um total
de 432 estudantes de enfermagem participantes dos estudos. Três dos nove
estudos não forneceram informações sobre o género e a idade dos participantes,
no entanto, dos que facultaram esta informação, o número de participantes do
género feminino foi maior em todos os estudos, de 72,9% a 94,1%.
Dos nove estudos seleccionados, sete foram realizados nos Estados Unidos da
América, um no Canadá e um na Austrália.
Relativamente à metodologia, três são estudos descritivos quantitativos, dois
quase-experimentais com pré e pós-teste, um experimental, um qualitativo e dois
utilizam uma técnica mista.
A totalidade dos estudos utiliza simuladores de alta-fidelidade de forma
individual ou comparativa a outras estratégias de ensino (simuladores de baixa
e média fidelidade, método tradicional de ensino). Três dos estudos não referem
qual o modelo do simulador utilizado, um utilizou o PediaSIM, dois utilizaram o
VitalSim® e três o SimMan®. Um dos estudos utilizou também um ator num dos
cenários, comparando-o com outras estratégias de ensino.
Nos artigos analisados foram identificados os temas ou domínios centrais
manifestados após a prática simulada com manequins de alta-fidelidade e
analisada a hierarquia das evidências segundo Vilelas (2009), com os estudos a
situarem-se entre os níveis II e VI.
A avaliação da qualidade metodológica dos estudos, atribuída pelos revisores,
foi de alta, com um artigo a atingir 9 pontos, três artigos com 10 pontos e
cinco com a pontuação máxima. A correta definição das variáveis e da amostra
foram os itens menos pontuados.
Discussão
Os temas ou domínios centrais identificados após a prática simulada com
manequins de alta-fidelidade foram: Satisfação; Aprendizagem e sua motivação;
Realismo; Autoconfiança; Habilidades técnicas; Reflexão sobre a ação; e
Transferência de competências.
As principais limitações referenciadas prendiam-se com o tamanho da amostra e a
impossibilidade em generalizar os resultados e o facto de existirem vários
professores envolvidos nos estudos, o que poderia enviesar os resultados. Como
sugestões, os autores referem a necessidade em realizar os estudos noutros
níveis de ensino, com cenários diferentes e multicêntricos. Apesar destas
referências e tendo em consideração o cuidado nos processos metodológicos e nas
análises efetuadas, os estudos permitem a transferibilidade dos seus
resultados.
Satisfação
A satisfação com a prática laboratorial foi referida em cinco estudos e destes,
em três os estudantes manifestaram estar muito satisfeitos com a aprendizagem
usando a SAF, com scores médios entre 4,1 e 4,6 numa escala tipo Likert de
cinco pontos (Kuznar, 2007; Smith & Roehrs, 2009; Swenty & Eggleston,
2010). Apesar de alguns participantes referirem experiência prévia de ensino
clínico, o que poderia afetar a satisfação, apresentam um score de 4,5, o que é
estatisticamente insignificante, relativamente aos que não tinham experiência
prévia com score médio de 4,6 (Smith & Roehrs, 2009). Quando comparados os
níveis de satisfação entre a alta e a baixa fidelidade, Jeffries, Rew, e Cramer
(2002), com uma amostra de 70 estudantes de enfermagem, mostraram que os níveis
de satisfação foram significativamente maiores com os simuladores de alta-
fidelidade do que com os simuladores de baixa fidelidade (SBF). Achados
semelhantes foram apresentados no estudo multicêntrico de Jeffries e Rizzolo
(2006), com 403 alunos, no qual após aplicação de uma escala de satisfação de
aprendizagem, para compararem três metodologias de ensino (análise do estudo de
um caso em sala de aula, uso de SBF e uso de SAF), verificaram que os
estudantes manifestaram maior satisfação com a aprendizagem interativa do que
com as restantes.
Em práticas laboratoriais com cenários de pediatria, os estudantes também
manifestaram níveis de satisfação superiores, pelo uso do simulador de alta-
fidelidade PediaSIM®, com um score médio de 61,86, comparativamente ao score
médio de 55,33 obtido com o manequim estático de baixa fidelidade (Butler et
al., 2009). Estes resultados são corroborados pelo estudo de Baptista,
Coutinho, e Martins (2010a), onde numa amostra de 181 estudantes de enfermagem
e perante uma escala de satisfação construída para o efeito com 17 itens,
verificaram uma satisfação média de 85%, (DP = 7%), em que o valor mais baixo
foi de 64% e o mais elevado de 100%. Neste estudo, os estudantes relataram que
a relação dos cenários com a teoria (44,8%) e a qualidade dos simuladores
utilizados para a prática simulada (44,2%) foi o que mais os satisfez,
atribuindo o score máximo (10) nestes parâmetros.
A satisfação manifestada pelos estudantes está ainda relacionada com as
respostas objetivas às intervenções realizadas na SAF, uma vez que estes
manequins além de possibilitarem a percepção do processo e progresso de
aprendizagem, contribuem também para que os estudantes se tornem elementos mais
ativos na prática clínica, reconhecendo e atuando de forma adequada em
situações reais ou potenciais (Reilly & Spratt, 2007).
Aprendizagem e sua motivação
Os estudantes de enfermagem nesta faixa etária e com os estímulos
proporcionados pela sociedade estão muito recetivos às novas tecnologias em
geral e de ensino/aprendizagem em particular, e onde os tradicionais lápis e
caneta deixam de fazer sentido, uma vez que produzem poucos incentivos pelos
novos conhecimentos e os afastam de um modelo educacional no qual se pretende
ser mais construtivista.
Nesta revisão, os estudantes de seis estudos referem como motivo para a
aprendizagem, a interatividade proporcionada pelos manequins, com scoremédio de
4,22, e consideram que por participar nos cenários com SAF a sua aprendizagem
melhorou (scoremédio de 4,28).
No estudo realizado por Butler et al. (2009), entre dois grupos de estudantes
que participaram em cenários de alta e baixa fidelidade, verificaram uma
diferença significativa no total das médias da escala utilizada para avaliar as
práticas educacionais (SBF = 70,44; SAF = 77,27). Os participantes consideraram
a SAF como uma aprendizagem ativa, que contribui para o trabalho em equipa, é
diversificada e proporciona níveis elevados de expectativas futuras. No mesmo
estudo todos os estudantes (15), que participaram na SAF, atribuíram a
pontuação máxima (5 pontos) a este processo de aprendizagem ativa como sendo
mais produtiva enquanto 10 (63%), que participaram na SBF, consideraram o
método como mais produtivo para o seu processo de aprendizagem. Esta opinião é
reforçada no estudo de Swenty e Eggleston (2010) que revelou todos os cenários
realizados pelos alunos, como aprendizagem ativa com scoresmédios de 4,32 a
4,57. Deste modo, a prática simulada, além de reforçar os conhecimentos
teóricos adquiridos em sala de aula e de ser autêntica por refletir a
realidade, contribui para a participação do estudante na sua própria
aprendizagem, proporcionando maior consciência das suas reais capacidades,
possibilitando a percepção dos pontos positivos e negativos e contribui para
que o estudante verbalize: Eu sei ao invés de Eu penso (Baxter et al.,
2009).
A simulação, além de servir como integradora da aprendizagem, por reunir as
bases teóricas e as habilidades psicomotoras, contribuindo para um pensamento
crítico sobre as práticas (Lasater, 2005; Reilly & Spratt, 2007), também é
motivante, uma vez que possibilita aos estudantes encontrarem nos manequins o
que está descrito nos livros e o que é abordado em sala de aula.
Realismo
A aproximação das práticas simuladas com a realidade foi abordada em seis
artigos da revisão, com scores médios de 3,53 a 4,19 em que os estudantes
sentiram a prática laboratorial como uma experiência clínica real (Kuznar,
2007), o que é semelhante aos 13 (87%) participantes do grupo de SAF que
concordaram fortemente que a experiência simulada era realista, em comparação
aos 5 (31,3%) participantes do grupo de SBF (Butler et al., 2009).
A perceção dos níveis de realismo com a prática simulada pelos estudantes tem
sido abordada por vários autores e são elevados, de uma forma geral, no entanto
a simulação de alta-fidelidade é muito mais do que ter um simulador que reage
como uma pessoa, é necessário equipar o laboratório com um conjunto de
materiais e equipamentos capazes de recriar um ambiente semelhante ao da
prática clínica. Esta tentativa de aproximação ao real chega a provocar níveis
elevados de stress e de adrenalina, não deixando, mesmo assim, de ser positivo
para os estudantes, já que é uma representação do que lhes pode acontecer na
prática clínica (Reilly & Spratt, 2007). Num dos cenários realizados em que
o objetivo era o confronto com a morte de um doente, os estudantes apresentaram
scores entre 4,50 e 4,68 relativamente à importância atribuída à fidelidade da
simulação, apesar de não ser uma situação desejada e muitas vezes até evitada
pelos profissionais (Swenty & Eggleston, 2010).
Muito embora o cenário seja muito próximo do real, o estudante tem a
consciência de estar perante um boneco e não obstante todas as suas
potencialidades, os simuladores não têm comunicação não-verbal (sorriso, desvio
do olhar, postura), o que pode dificultar a aprendizagem de habilidades
interpessoais (Baxter et al., 2009), não apresentam alterações cutâneas, edemas
e é impossível avaliar os reflexos num exame neurológico (Lasater, 2005).
Autoconfiança
A sensação de segurança e o acreditar nas suas capacidades foram os aspectos
mais abordados nos artigos desta revisão. Todos os estudos referem que os
participantes apresentaram níveis elevados de autoconfiança, o que está de
acordo com os diversos autores que já analisaram este domínio (Smith &
Roehrs, 2009; Blum et al., 2010; Baptista, Coutinho, & Martins, 2010b;
Jeffries & Rizzolo, 2006).
Nos estudos analisados que utilizaram escalas tipo Likert, com valores situados
entre o nível 1 (nada confiante) e o nível 5 (extremamente confiante), os
estudantes apresentaram níveis de autoconfiança que variaram entre os scores
médios de 3,81 e 4,5.
Quando comparados os resultados antes e após as práticas simuladas, os níveis
de autoconfiança também evoluíram favoravelmente, como referem 27 alunos que
avaliaram a sua autoconfiança como "exemplar" no final do estudo,
em comparação a 16 na avaliação intercalar (Blum et al., 2010). No entanto,
quando comparado o pré e pós-teste perante práticas realizadas com VitalSim®,
doente real (ator) e aula tradicional, não houve diferença significativa entre
os três grupos, apesar de 1 mês após a prática, o grupo que utilizou o
VitalSim® apresentou níveis de autoconfiança significativamente maiores que os
restantes (Bye, 2008).
A experiência de SAF aumenta a confiança e a preparação dos seus participantes,
caso a situação vivenciada em laboratório ocorra em contexto real (Kuznar,
2007; Reilly & Spratt, 2007). Esta confiança resulta muito da forma como se
planeiam os cenários e quais os objetivos que se pretendem atingir com eles,
porque quando uma experiência de simulação não é bem planeada e/ou surgem
inesperadamente resultados negativos, a confiança na prestação de cuidados e o
ser enfermeiro podem estar afetados (Lasater, 2005).
O ambiente em que ocorre a prática simulada e o facto de o estudante ter a
consciência que está a trabalhar com um manequim são fatores que o deixam mais
tranquilo, já que pode errar sem medo, uma vez que o doente nunca morre
(Idem). Deste modo, pode treinar tantas vezes quantas as necessárias, até se
sentir confiante e conseguir chegar à excelência, o que não acontece na prática
clínica, porque nem sempre aproveita as oportunidades de aprendizagem por ter
medo de errar e/ou provocar danos ao doente (Reilly & Spratt, 2007).
Habilidades técnicas
A simulação ocupa uma grande parte da história do ensino de enfermagem,
enquanto importante estratégia de ensino/aprendizagem de habilidades técnicas,
tais como a administração de injetáveis, a realização de cuidados a feridas ou
a execução de diferentes cateterismos, entre outras. Todos estes e outros tipos
de prática simulada têm características comuns, uma vez que são situações
artificiais, em ambientes controlados, onde os estudantes podem desenvolver
competências para mais tarde prestarem cuidados mais seguros em ambiente
clínico (Sanford, 2010).
Estas habilidades foram referidas e analisadas somente por dois estudos, nos
quais os estudantes consideraram que a SAF melhorou as suas habilidades
técnicas, com score médio de 3,92 e que, ao praticarem com estes simuladores,
aumentaram a confiança nessas mesmas habilidades (score médio de 3,69) (Kuznar,
2007). Por outro lado, também consideraram que esta estratégia de ensino/
aprendizagem lhes proporciona habilidades adicionais que poderiam ser usadas na
prática clínica, incluindo a capacidade para trabalhar e estar inserido numa
equipa multidisciplinar (Baxter et al., 2009).
Reflexão sobre a Ação
A reflexão sobre as práticas e a constatação de como essa análise consciente
foi importante na aprendizagem dos estudantes, foi referenciado em três
estudos.
Os estudantes manifestaram que através da reflexão sobre a ação ficaram com a
noção de que realizaram algo positivo, estão mais conscientes das dificuldades
e limitações, sabem o que fizeram e como fizeram e quais as repercussões para o
doente das decisões adequadas ou inadequadas (Lasater, 2005; Reilly &
Spratt, 2007). Mesmo na função de observador das práticas dos colegas, a
reflexão continua a ser bastante valorizada e considerada pelos estudantes como
uma situação potencial de aprendizagem (Jeffries & Rizzolo, 2006).
Esta reflexão sobre a prática permite um aumento da confiança do estudante no
seu desempenho, melhora a sua capacidade para tomar atitudes corretas na
próxima vez, estimula a um pensamento crítico sobre o que é ser enfermeiro e
desenvolve as capacidades cognitivas a partir das experiências práticas.
Transferência de competências
Dos quatro estudos que fazem alusão à capacidade da SAF enquanto recriadora de
eventos de forma realista e de transferi-los para a prática clínica, três fazem
menção aos progressos no cuidar do doente e um aos cuidados de enfermagem em
geral.
Para Leigh (2008), o principal objetivo da SAF é o fomentar nos estudantes uma
ligação com a prática clínica a partir da simulação e assim, permitir aos
estudantes e professores a oportunidade de aprenderem através da transferência
do conhecimento para a prática.
Os estudantes referiram que conseguiram realizar uma melhor história clínica do
doente (score médio 3,72), que melhoraram a sua avaliação (score médio 4,16) e
que a SAF os auxiliou num cuidar mais efetivo, nomeadamente em situações de
urgência e emergência (score médio 4,03) (Kuznar, 2007). Outros referem que
cuidar do paciente tornou-se menos traumático porque já vivenciaram a mesma
situação em laboratório (Reilly & Spratt, 2007). Alguns estudantes
consideraram que apesar dos cenários serem muitas vezes exagerados, contribuiu
para pensar e antecipar o que poderia acontecer ao doente, bem como a
importância da inclusão da família na prática dos cuidados (Lasater, 2005).
Essa opinião é reforçada pela ênfase da saúde em prestar cuidados adequados e
seguros aos doentes e, neste domínio, os simuladores e as simulações permitem o
desenvolvimento das práticas dos profissionais num ambiente menos ameaçador,
contribuindo assim, para esse importante objetivo (Sanford, 2010).
A capacidade que a simulação de alta-fidelidade tem em reproduzir contextos
reais, bem como a possibilidade do registo áudio e vídeo das ações dos
estudantes naquele cenário para o debriefing final, pode aumentar a retenção de
conhecimentos e a sua transferência para a prática (Hoadley, 2009), o que
contribui para a construção de experiências prévias que poderão facilitar o
processo de transferência e o aperfeiçoamento da perícia clínica (Leigh, 2008).
Conclusão
Os estudantes manifestaram estar muito satisfeitos com a utilização da SAF, não
só por ser uma estratégia de ensino/aprendizagem recente, mas porque com ela
conseguem obter dados objetivos do seu desempenho. A SAF permite aumentar a
consciência das reais capacidades e a percepção dos pontos positivos e
negativos, contribuindo para que os estudantes deixem de ter uma atitude
passiva no seu processo de aprendizagem.
Os estudantes concordaram fortemente que a experiência clínica simulada era
realista e que provocava níveis de stress e ansiedade semelhantes aos
vivenciados na prática clínica, apesar de terem a consciência de estar perante
um boneco e que era difícil simular tudo o que poderia acontecer a um doente.
A autoconfiança foi a temática mais abordada nos artigos desta revisão, uma vez
que o estudante pode treinar tantas vezes quantas as necessárias até se sentir
confiante e sem medo de errar, o que não acontece com um doente real.
As habilidades técnicas foram as menos referenciadas nesta revisão, talvez por
se praticarem mais em manequins de baixa fidelidade, o que não era o objetivo
desta revisão, no entanto, os estudantes ao realizarem alguns procedimentos em
simuladores de alta-fidelidade, referem melhorias nesta dimensão.
A reflexão sobre a ação foi considerada como muito positiva porque lhes
permitiu ter a consciência das suas dificuldades e limitações.
A simulação de alta-fidelidade é um tema sobre o qual ainda é necessária a
produção de mais evidência científica. Traz resultados positivos para os
estudantes, formadores e sobretudo para os doentes que são o foco principal da
enfermagem.