Construção e Validação da Escala de Avaliação do Debriefing associado à
Simulação (EADaS)
Introdução
O debriefing é uma forma estruturada de conduzir os formandos na reflexão sobre
a ação, ajudando a consolidar saberes e a mudar comportamentos errados. Numa
simulação, o debriefing é parte fundamental. Dispor de uma ferramenta que
permita avaliar a qualidade do debriefing, na perspetiva do formando, é
importante para a investigação e melhoria contínua da qualidade, não existindo
nenhum instrumento em Língua Portuguesa. Assim, pareceu-nos útil e pertinente a
construção de um instrumento que permitisse tal avaliação, pelo que partimos
para o presente estudo com o objetivo de construir e validar uma escala de
avaliação do debriefing associado à simulação.
Enquadramento
O debriefing na simulação
Na formação dos enfermeiros, as metodologias ativas têm vindo a conquistar
terreno. Nelas destaca-se a simulação, um método interativo que permite, não
apenas a aprendizagem de habilidades, mas também de competências globais, como
a tomada de decisão em situações e ambientes complexos. Através de cenários
completos e complexos, em ambiente de simulação, os formandos consolidam os
saberes e desenvolvem todo um conjunto de competências que favorece o seu
desenvolvimento técnico, relacional e ético (Martins, 2009).
Trata-se de utilizar estratégias educativas que facilitam a aprendizagem a
partir de situações reais, potenciando o crescimento e confiança dos estudantes
(Rodrigues & Baia, 2012).
Um dos aspetos importantes na simulação é o realismo. Falamos hoje em simulação
de alta-fidelidade ou simulação realística quando associamos um simulador de
alta-fidelidade a espaços, materiais e equipamentos reais e tecnologia de som e
imagem que permitam o registo áudio e vídeo, e a sua posterior utilização para
discussão (Martins et al., 2012). Acrescentam os autores que, não bastam o
material e o equipamento, sendo indispensável um cenário bem delineado, com
objetivos pedagógicos bem definidos e uma equipa de trabalho, preparada e
motivada, terminando a experiência clínica simulada com uma discussão
(debriefing) em torno do desempenho dos formandos na resolução do cenário.
O debriefing é referido na literatura como o ponto crucial ou essencial para a
aprendizagem, o coração e a alma da simulação (Gaba, Howard, Fish, Smith, &
Sowb, 2001; Baldwin, 2007). É o processo pelo qual formadores e formandos
reexaminam a experiência clínica simulada, fomentando o desenvolvimento do
raciocínio e consolidação dos saberes, através de processos de aprendizagem
reflexiva. A orientação do formador neste processo e a sua centralidade nos
objetivos são os pontos centrais para o sucesso (Shinnick, Horwich, &
Steadman, 2011). O debriefing é ainda importante como ferramenta de ajuda aos
estudantes, melhorando o domínio afetivo da aprendizagem (Lasater, 2007).
Na simulação, a fase de debriefing é um processo intencional e importante,
projetado para coordenar, fortalecer e transferir aprendizagem de um exercício
de aprendizagem experiencial (Warrick, Hunsaker, Cook, & Altman, 1979). O
debriefing tem como objetivos centrais: identificar as diferentes perceções e
atitudes que ocorrem; relacionar o exercício com a teoria específica ou
conteúdos e competências técnicas; transmitir feedback acerca da natureza e da
prática durante o cenário; e estabelecer um clima que permita confiança e
conforto.
O debriefing pode acontecer pós-simulação ou na simulação, sendo os resultados,
para os estudantes, melhores no primeiro caso, pela eficácia na aprendizagem e
compreensão do global (Heukelom, Begaz, & Treat, 2010; Shinnick et al.,
2011).
Para além disso, muitos autores recomendam um estilo sem julgamento, não
ameaçador, que não se limite a um mero interrogatório (Dreifuerst, 2009).
O debriefing é um processo dinâmico que requer dos participantes e formadores
uma participação ativa, devendo ser planeado um período de tempo igual ou
superior ao tempo consumido na prática simulada (Gururaja, Yang, Paige, &
Chauvin, 2008).
Ainda assim, há pouca evidência de resultados associados à prática de
debriefing, seja por este não ter sido um foco de atenção dos investigadores,
seja pela inexistência de instrumentos que permitam a avaliação de tais
resultados. No nosso país, o tema é novo, não existindo nenhum instrumento de
avaliação.
Metodologia
Trata-se de um estudo de investigação metodológica.
Começámos por construir uma lista de frases (itens), em torno do conceito
central (debriefing), tendo por base a experiência dos investigadores e revisão
de literatura sobre a temática. Nesta revisão da literatura, foram centrais as
ideias expostas por Jeffries (2007); Kardong-Edgren, Starkweather, e Ward
(2008); Campbell e Daley (2009); Baldwin (2007); e Heukelom et al. (2010).
Deste processo resultou uma lista de 50 itens (13 formulados em sentido
inverso) que organizámos num formato que permite apenas uma alternativa de
resposta, onde o estudante tinha de se posicionar numa escala tipo Likert, de
cinco pontos, em que cada ponto representa o nível de concordância do
estudante: discordo completamente (1); discordo (2); nem concordo nem discordo
(3); concordo (4); e concordo completamente (5).
Procurando utilizar como critérios fundamentais a clareza, a compreensão
simples e a representatividade temática, dispusemos os itens num quadro que
designámos de Escala de Avaliação do Debriefing associado à Simulação (EADaS).
O quadro foi antecedido de um conjunto de instruções de preenchimento, com o
seguinte teor: no quadro seguinte são realizadas várias afirmações relativas à
discussão que fizemos após a prática simulada (debriefing). Para cada uma,
assinale a sua opinião. Não há respostas certas ou erradas. Responda por favor
de acordo com a sua verdadeira opinião.
No início do quadro, era ainda apresentada a expressão: no final do cenário, o
debriefing contribuiu para, na continuidade da qual deveria ser lido cada um
dos itens.
Validade de conteúdo
A lista de itens foi avaliada por um painel de peritos que procurou identificar
possíveis falhas quanto à clareza das afirmações, a sua representatividade para
o constructo e a validade de conteúdo de cada um dos itens, garantindo a
validade conceptual.
Do painel de peritos fizeram parte quatro investigadores da Unidade de
Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E), da Escola Superior
de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC). Dada a simplicidade e clareza do instrumento
na sua globalidade, não foi necessário introduzir nenhuma alteração.
Amostra
A escala foi aplicada a uma amostra acidental de 209 estudantes do 4º ano do
Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESEnfC, em abril de 2012.
A aplicação do questionário aconteceu após nove horas de práticas
laboratoriais, por simulação, no final da Unidade Curricular de Enfermagem em
Emergências.
Foram incluídos na amostra os participantes que corresponderam aos seguintes
critérios de inclusão no estudo (elegibilidade): frequentar a Unidade
Curricular de Enfermagem em Emergências; ter estado presente nas aulas da
Unidade Curricular de Enfermagem em Emergências onde foram desenvolvidos os
cenários e respetivos debriefings; e aceitar participar no estudo.
Responderam ao questionário 209 estudantes, dos quais 81,3% são mulheres e
18,7% homens, com uma média de idades de 22 anos.
As experiências clínicas simuladas
As aulas práticas aconteceram no Centro de Simulação, utilizando como
estratégia a resolução de cenários completos em ambiente realista, com
dificuldade crescente. Para a resolução dos cenários, os estudantes tiveram à
disposição material e equipamento realistas. Foram utilizados simuladores de
utentes de média fidelidade (Manequins de Suporte Avançado de Vida Megacod® -
adulto, com VitalSim®, da Laerdal®) e de alta-fidelidade (iStan® - adulto, da
Meti®).
Após a resolução de cada cenário, foi conduzido um debriefing estruturado,
sempre pelo segundo investigador, seguindo uma estrutura comum: (1) apreciação
geral da experiência clínica simulada; (2) balanço relativo às intervenções
corretamente desenvolvidas e reforço positivo; (3) balanço relativo às
intervenções incorretamente desenvolvidas (ou não desenvolvidas) e respetiva
justificação; e (4) pontos-chave relativos à experiência clínica simulada. Cada
cenário foi desenvolvido durante cerca de 15 minutos, seguido de outros 15
minutos para o debriefing.
Aspetos formais e éticos
O estudo insere-se no projeto A simulação no ensino de Enfermagem, inserido na
UICISA: E, autorizado pela Presidente da ESEnfC e com parecer positivo (P01-09/
2010) da Comissão de Ética da Unidade de Investigação supracitada.
A resposta ao questionário foi voluntária, anónima e confidencial. Foi
garantido ao estudante a inexistência de quaisquer contrapartidas pela
participação ou não participação no estudo, assim como a inexistência de
qualquer relação com a avaliação da Unidade Curricular.
Durante todo o processo foram tidos em conta e assegurados os direitos dos
participantes à privacidade, ao anonimato, à confidencialidade e à liberdade.
Resultados
Começámos por analisar a escala, no que se refere à sua confiabilidade global,
através da correlação de cada item com o total da escala, o seu efeito sobre o
valor de Alpha e as medidas descritivas de resumo.
Obtivemos uma elevada correlação de praticamente todos os itens com o total da
escala, o que demonstra o seu bom funcionamento como um todo e que contribui
para o elevado valor de Alpha (0,934). Os valores mais baixos de correlação de
um item com o global foram de 0,447 e de 0,505 para os itens 41 e 43,
respetivamente.
Os valores até aqui encontrados, permitiram-nos avançar para a análise da
estrutura da EADaS. Procedemos então à realização de análises fatoriais com
rotação ortogonal Varimax com normalização de Kaiser.
A medida de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) é de 0,887, o que significa que existe boa
adequação da amostra para análise. O valor do teste de esfericidade de Bartlett
foi de ?2 = 5203,963; ? = ,000, o que nos permitiu prosseguir com a análise
fatorial.
Numa primeira tentativa, definindo a extração de valores próprios maiores que
um, obtivemos uma solução com cinco fatores, explicando estes 50,391% da
variância. Mas olhando para esta solução, não lhe encontrámos significado
racional, para além de apresentar itens a saturar em dois fatores e outros com
cargas fatoriais muito baixas.
Procedemos então à análise do Scree Plot e a partir dela ensaiámos uma solução
com três fatores.
Na escolha da solução fatorial final e dos itens que a deveriam integrar,
procurámos respeitar os seguintes critérios: (1) a validade convergente do item
com o fator ' cada item deverá apresentar uma correlação (loading) com o fator
= ,30, e são considerados os fatores com comunalidade = ,50; (2) a validade
discriminante do item com o fator ' o item deverá estar relacionado apenas com
o fator hipotético, devendo obter-se diferença entre cada fator = ,30; e (3) a
solução final encontrada deverá justificar no mínimo 40% da variância total.
Estes três fatores (dimensões), com valores próprios maiores ou iguais a um,
explicam na totalidade 43,99% da variância total.
Feita a análise e extraídos os componentes, pretendeu-se saber que itens
constituiriam cada um dos fatores. Seguindo os critérios previamente
estabelecidos e as recomendações (Loewenthal, 2001) e sem esquecer o sentido e
coerência racional, eliminámos os itens 1, 6, 13, 21, 23, 40 e 42 por saturarem
com valores inferiores a 0,5. Eliminámos também os itens 3, 14, 19, 22, 27, 30,
31, 44 e 46, na medida em que a diferença dos valores de saturação entre dois
fatores é menor que 0,3.
Apesar dos itens 29, 35 e 38 violarem também o princípio da diferença mínima de
0,3 entre dois fatores, foram mantidos pela sua importância para o constructo
teórico.
No final, ficámos com os fatores conforme descrevemos a seguir:
1) O fator 1 explica 16,802% da variância e nele saturam os itens 25, 26, 29,
33, 34, 35, 37, 38, 39, 41, 45, 48 e 49. Estes itens estão todos relacionados
com o que concerne aos aspetos psicológicos e sociais inerentes à simulação,
pelo que designámos este fator de dimensão valor psicossocial;
2) O fator 2 explica 14,46% da variância e nele saturam os itens 2, 5, 7, 9,
10, 11, 15, 17 e 18. Estes itens estão sobretudo relacionados com a
consolidação de conhecimentos através da discussão, pelo que designámos este
fator de dimensão valor cognitivo;
3) O fator 3 explica 12,73% da variância e nele saturam os itens 4, 8, 12, 16,
20, 24, 28, 32, 36, 43, 47 e 50. São itens que dizem respeito aos sentimentos
ou às afeições. Esta dimensão acolhe os itens formulados em sentido inverso.
Designámos este fator de dimensão valor afetivo.
Conforme podemos verificar, esta divisão obtida pela análise fatorial propõe um
constructo com significado racional (Tabela_1). Todos os fatores apresentam
cargas fatoriais (factorial loadings) elevadas. Repetiu-se a análise fatorial,
agora apenas com os 34 itens, que renovou esta divisão, confirmando a sua
validade de constructo.
Fidelidade
Voltámos a realizar novo cálculo dos valores de Alpha de Cronbach, tendo obtido
valores muito bons para o global (0,899) e para cada uma das suas dimensões,
nomeadamente: 0,884 para a dimensão psicossocial (13 itens); 0,859 para a
dimensão cognitiva (nove itens); e 0,889 para a dimensão afetiva (12 itens).
Todos os itens se correlacionam com o global em valores superiores a 0,45.
Resultados
Para cada dimensão e global da escala foram somadas as pontuações dos
respetivos itens calculando-se o score médio.
Conforme podemos observar nas Tabelas 2, 3 e 4, que resumem a estatística
descritiva relativa a cada uma das dimensões da EADaS, verificaram-se
diferenças relevantes nos valores de tendência central e dispersão dos vários
itens.
Na dimensão valor psicossocial (Tabela_2), os itens 29, 37 e 38 são os que
apresentam valores médios mais elevados e o desvio padrão mais baixos, enquanto
os itens 26, 33 e 41 são os que apresentam os valores médios mais baixos com
desvio padrão mais elevado.
Em apenas três itens obteve-se avaliação mínima 1 (discordo completamente) e
nos restantes existiram respostas com avaliação mínima superior a 1 e máxima 5
(concordo completamente) em todos os itens.
Na dimensão valor afetivo (Tabela_3), todos os itens apresentam valores médios
superiores a 4 pontos. Os itens 24, 32 e 36 são os que registam valores médios
mais elevados e desvio padrão mais baixo, acontecendo o contrário com os itens
8, 16 e 43.
Nesta dimensão obteve-se avaliação mínima 1 (discordo completamente) em quatro
itens e nos restantes existiram respostas com avaliação mínima superior a 1 e
máxima de 5 (concordo completamente) em todos os itens.
Na dimensão valor cognitivo (Tabela_4), todos os itens apresentam valores
médios superiores a 4 pontos e mais de metade das respostas com a pontuação
máxima (concordo completamente). O item 9 é o que apresenta menor valor médio e
desvio padrão mais elevado, sendo os itens 2, 10 e 17 os que apresentam valores
médios mais elevados, com desvio padrão mais baixo. Em apenas um item se obteve
avaliação mínima 1 (discordo completamente) e nos restantes existiram respostas
com avaliação mínima superior a 1 e máxima 5 (concordo completamente) em todos
os itens.
Na Tabela_5, podemos observar alguns valores estatísticos descritivos relativos
à globalidade da EADaS e a cada uma das suas dimensões. A média dos itens para
a dimensão valor psicossocial é de 4,27 pontos, com um desvio padrão de 0,41
pontos, enquanto a dimensão valor afetivo apresenta uma média de itens
ligeiramente superior (4,62 pontos) e um desvio padrão de 0,46 pontos. Já a
dimensão valor cognitivo apresenta uma média dos itens de 4,56 pontos, com um
desvio padrão de 0,34 pontos. Globalmente, a média é de 4,48 pontos e o desvio
padrão de 0,30 pontos.
Analisámos a distribuição dos valores da EADaS no seu global e para cada uma
das dimensões, tendo para isso realizado o teste de Kolmogorov-Smirnov com
correção de Lilliefors. Os valores obtidos revelam que a distribuição não é
normal tanto para a dimensão cognitiva como para a dimensão afetiva (p < ,05),
pelo que nos testes seguintes foram utilizadas medidas não paramétricas.
Realizámos o teste U de Mann-Whitney, no sentido de avaliar se a EADaS estava a
distinguir o valor atribuído ao debriefing entre homens e mulheres, verificando
que as pequenas diferenças que existem não são estatisticamente significativas.
De seguida, realizámos um conjunto de testes de significância de correlação de
Spearman (Tabela_6), procurando relações entre as diferentes dimensões e o
global da EADaS. Encontrámos cada uma das dimensões fortemente correlacionadas
com o global, sendo essas correlações estatisticamente significativas. Existe
uma correlação forte entre a dimensão valor psicossocial e a dimensão valor
cognitivo e uma correlação fraca entre a dimensão valor afetivo e a dimensão
valor cognitivo, sendo ambas estatisticamente significativas. Entre a dimensão
valor afetivo e a de valor psicossocial a correlação é fraca e não
significativa.
Discussão
A avaliação dos resultados não pode deixar de ter em conta algumas limitações
do estudo, impondo-se prudência na sua interpretação e generalização. A
especificidade da amostra é uma das limitações. A inexistência de instrumentos
de avaliação de debriefing, se por um lado contribui para justificar a
pertinência da construção e validação da escala, vem por outro lado
impossibilitar o estudo da validade concorrente.
Já o percurso de desenvolvimento e validação da EADaS, parece-nos ser um ponto
forte que vem contribuir para a validação científica dos resultados que aqui
apresentamos, que são indicadores do potencial de utilização da escala em
investigações futuras.
O valor de Alpha de Cronbach da escala final, com 34 itens, foi de 0,899, o que
revela boa consistência interna. A análise fatorial, seguida de rotação varimax
extraiu três dimensões. A composição das dimensões sugere os significados:
valor psicossocial, valor cognitivo e valor afetivo.
A simulação tem sido utilizada para melhorar o desempenho dos estudantes nas
competências, alterar atitudes e aumentar o conhecimento (Jeffries &
Rizzolo, 2006; Lasater, 2007). O debriefing é um elemento essencial na
aprendizagem por simulação, proporcionando aprendizagens ativas, que permitem
aos estudantes vivenciar situações clínicas e fazer uso das habilidades
cognitivas, afetivas e psicomotoras (Childs & Sepples, 2006), o que vai ao
encontro dos nossos resultados.
Podendo variar as respostas com avaliação mínima (1) e avaliação máxima (5), os
estudantes consideram em percentagens elevadas que o debriefing contribuiu para
estruturar o pensamento (99,5%); identificar prioridades na atuação (99,1%);
identificar aspetos que devem melhorar em atuações futuras (99,1%); identificar
dificuldades na atuação (97,6%); aumentar o potencial de trabalho em equipa
(98,1%); reforçar a autonomia para atuar como futuros enfermeiros (96,6%),
corroborando com o que Hodges (2006) e Dieckmann, Manser, Wehner, e Marcus
(2007) referem. Estes autores defendem que o debriefing é importante para
maximizar a aprendizagem e facilitar a mudança tanto a nível individual como
sistemático. Em contrapartida, no nosso estudo, os estudantes referem que o
debriefing não foi uma perda de tempo e foi um momento em que se sentiram
respeitados, indo ao encontro do que Lasater (2007) refere, assim como Jeffries
e Rizzolo (2006), em que a participação ativa e a oportunidade de aplicar a
avaliação, observação e habilidades para resolver problemas, seguido por uma
experiência de reflexão, leva ao aumento da autoconfiança dos alunos.
Segundo Rodrigues e Baía (2012), A função do educador moderno implica cada vez
mais o desenvolvimento de competências para agir em mediação pedagógica,
orientando a ação em compromissos recíprocos e justos para ambas as partes (p.
201). Ao educador é solicitada a força e ética para ajudar os seus orientandos
a tornarem-se autores dos próprios percursos, a tomar decisões, resolver
problemas, enfrentar a dúvida e o risco, e sobretudo a serem proactivos na
busca das melhores experiências de desenvolvimento e aprendizagem.
O debriefing proporciona aos estudantes a oportunidade de refletirem sobre as
suas aprendizagens durante a prática simulada e de definirem como podem ter um
desempenho diferente numa situação similar. Por outro lado, o debriefing também
oferece aos estudantes uma realidade, uma forma de se verem através dos olhos
do docente e dos seus pares, em consonância com o descrito por Overstreet
(2009). Os nossos estudantes partilham destas mesmas ideias, visto que 98,1%
refere ter desenvolvido competências para a tomada de decisão acertada; 76,6%
refere que aumentou a autoconfiança; e 84,2% sentiu que o professor tem
interesse genuíno no seu desenvolvimento profissional.
Em termos gerais, têm sido vários os autores a afirmar os efeitos benéficos do
debriefing, tais como: Jeffries, 2007; Kardong-Edgren et al., 2008; Campbell e
Daley, 2009; Overstreet, 2009; Dreifuerst, 2009; entre outros. O presente
estudo vem confirmar estas conclusões e concretizar algumas áreas específicas
em que se comprova o impacto positivo do debriefing no estudante, conjugado com
a prática simulada.
Tal como analisado, o debriefing foi bem valorizado pelos estudantes,
verificando-se que a dimensão valor afetivo tem a média mais alta em relação às
outras, embora com a correlação mais baixa no seu geral, ainda que
estatisticamente significativa. Arriscamos assim dizer que o debriefing traduz
uma estratégia que proporciona aos estudantes uma relação afetiva entendida
pelos mesmos como forma de proteção.
Conclusão
O debriefing é uma parte fundamental do ensino por simulação. Utiliza a
reflexão estruturada como forma de consolidar os conhecimentos de forma
significativa para os estudantes, olhando o que se fez e procurando as
justificações e os mecanismos mentais associados à decisão. Este é um processo
central na formação de enfermeiros, pois não se pretendem profissionais que
apenas saibam fazer coisas, mas que saibam como, quando e porquê as fazer,
assim como opções para fazer de forma diferente, sempre que tal se mostre
necessário.
Não tendo encontrado na literatura nenhum instrumento que permitisse avaliar o
impacto do debriefing estruturado no estudante, associado à prática simulada,
entendendo que esse seria um aspeto central, propusemo-nos à concretização
desse objetivo: criar e validar um instrumento destinado a avaliar o impacto do
debriefing estruturado nos estudantes, associado à prática simulada.
Apesar das limitações, foi possível construir uma escala que permite avaliar o
impacto do debriefing estruturado nos estudantes associado a práticas
simuladas, apresentando esta escala boas propriedades psicométricas,
perspetivando assim o seu potencial de utilização em investigação científica.
O resultado final foi uma escala com 34 itens divididos por três dimensões: a
dimensão valor psicossocial, a dimensão valor cognitivo e a dimensão valor
afetivo. Estas três dimensões foram obtidas por análise fatorial. No seu
conjunto, a escala apresenta muito boas propriedades psicométricas com valores
de Alpha superiores a 0,80 no seu global e em cada uma das dimensões.
O nosso estudo vem demonstrar que a escala poderá afigurar-se como uma
ferramenta útil para avaliar o valor atribuído ao debriefing associado à
simulação em estudantes de Enfermagem, acreditando os autores que o seu valor
sairá reforçado em investigações futuras e contribuirá para a melhoria das
práticas dos enfermeiros e prestação de cuidados de Enfermagem de maior
qualidade.
Assim, sugerimos que sejam realizados mais estudos em Portugal sobre o
debriefing, que possam aplicar esta escala, e que sejam divulgados os
resultados aos docentes e outros profissionais de forma a poder ser uma mais-
valia na definição conjunta de estratégias pedagógicas a utilizar nas unidades
curriculares.