Consumo de álcool, tabaco e outras drogas entre adolescentes do ensino
fundamental de um município brasileiro
Introdução
Este estudo apresenta os resultados de uma pesquisa vinculada ao Projeto de
Extensão Protagonismo Juvenil como estratégia de Intervenção Familiar e
Comunitária no Residencial 2000, que teve apoio da Fundação de Ensino e
Pesquisa de Uberaba, Minas Gerais, Brasil (FUNEPU), na perspectiva de aproximar
as fronteiras da Universidade para a Educação e Investigação da Saúde em âmbito
escolar.
No decorrer das ações de Extensão, observaram-se inúmeras situações de risco
aos quais os adolescentes daquela comunidade estavam envolvidos, com o consumo
de drogas lícitas e ilícitas dentro e fora da escola. Para além disso,
situações adversas de relacionamento interpessoal e condições de vida dentro e
fora da sala de aula instigou os pesquisadores à seguinte indagação: Qual o
perfil de utilização de drogas lícitas e ilícitas entre os adolescentes do
ensino fundamental?
A adolescência, entendida como uma das fases mais importantes do
desenvolvimento humano, guarda consigo inúmeras situações em que o indivíduo se
abre a novas experiências em busca da sua identidade e expressão, além de
situações que lhes dêem a sensação de liberdade. É a fase de descoberta e
afirmação da sua identidade de género e outras funções como erotismo, prazer,
intimidade e reprodução, concomitantes a alterações biológicas, psicológicas e
sociais (Silveira, Reis, Santos, & Borges, 2011).
Por outro lado, as indústrias de substâncias psicoativas investem muito em
espaços de difusão da oferta e da sedução ao consumo dos seus produtos ' as
drogas lícitas ' como as bebidas alcóolicas e o cigarro, atraindo a atenção de
milhares de jovens em busca de prazer. Ainda, há que se considerar a inserção
em grande escala das drogas ilícitas no Brasil, estando mais disponível nas
comunidades carentes, de fácil acesso a grupos em situações de risco e
vulnerabilidade, como a população adolescente (Jesus, Lima, Martins, Matos,
& Souza, 2011).
Neste sentido, é fundamental a identificação e a quantificação destas situações
de risco, procurando explicitar ainda, os fatores determinantes ou associados a
estes comportamentos, para orientar ações interventivas nos campos da prevenção
e do tratamento dos problemas decorrentes do uso de substâncias psicoativas,
hoje ainda deficientes.
Objetivo
A presente investigação pretende identificar e analisar o consumo de álcool,
tabaco e drogas ilícitas entre adolescentes, relacionados com o sexo, série,
reprovação escolar e rendimento familiar de estudantes de 7ªs e 8ªs séries de
uma escola municipal de Uberaba, Minas Gerais, Brasil.
Enquadramento
A alta prevalência e as consequências associadas ao consumo de drogas lícitas e
ilícitas entre adolescentes têm estimulado a realização de diversos estudos em
todos os continentes povoados do planeta, apresentando elevada inserção do
álcool, do tabaco e de outras drogas entre a população jovem, como em estudos
realizados na Espanha (Inglés et al., 2007), no Japão (Suzuki, Kimura, Takeda,
& Matsushita, 2008), na África do Sul (Naude, Senekal, Laubscher, Carey,
& Fein, 2011) e na Austrália e Estados Unidos (Coomber, Toumbourou, Miller,
Staiger, Hemphill, & Catalano, 2012).
Nas últimas décadas, o fenómeno do uso de drogas alcançou extraordinária
importância pela sua difusão, pelo consumo em larga escala pelos jovens e por
suas consequências sociais e sanitárias, além do incremento da criminalidade e
violência. No contexto do imaginário adolescente, as drogas são mecanismos que
favorecem a socialização e o bem-estar, além de propiciar uma sensação de
liberdade e alívio das suas preocupações e medos. Em contrapartida, as
consequências cobram um preço alto, acarretando uma série de problemas físicos,
psicológicos e sociais, podendo acabar por consumir até mesmo a vida deste
adolescente (Jinez, Souza, & Pillón, 2009).
Assim como o uso de drogas ilícitas, o álcool também constitui uma das
principais causas desencadeadoras de situações de vulnerabilidade na
adolescência, e que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) trata da
substância psicoativa mais consumida no mundo e representa a principal droga de
escolha entre crianças e adolescentes. No Brasil, o álcool é a droga mais
utilizada pela população adulta e o seu consumo tem aumentado entre os jovens
nas últimas décadas, sobretudo entre aqueles com 12 a 15 anos de idade (Horta,
Horta, Pinheiro, Morales, & Strey, 2007).
O consumo de bebidas alcoólicas pode estar associado ao consumo de tabaco e ao
comportamento sexual de risco, condicionando situações de vulnerabilidade para
os adolescentes, que dificultam a atuação das entidades de proteção social,
quando o jovem não possui um suporte familiar adequado (Pedrosa, Camacho,
Passos, & Olveira, 2011; Silveira & Santos, 2012). Estudos recentes
apontam que não há diferenças entre o consumo destas substâncias entre géneros,
ou seja, há uma tendência de paridade entre o consumo de drogas entre meninos e
meninas, como no estudo que considerou 971 adolescentes entre 10 e 18 anos, dos
quais 55% eram do sexo masculino, 33,8% relataram ter feito uso de bebidas
alcoólicas no último mês, 13,5% de cigarro e 6,4% de drogas ilícitas
(Malbergier, Cardoso, Amaral, & Santos, 2012).
Afirma-se que residir com os pais, tendo apoio e supervisão dos mesmos e
compartilhando de momentos de lazer, refeições e convívio tem efeito protetor
nos hábitos de fumar, beber e usar drogas. Em pesquisa de proporção nacional,
com mais de 60 mil estudantes brasileiros, observou-se que os alunos que faltam
às aulas sem avisar os pais têm maior probablidade de fumar, beber e
experimentar drogas, cujo consumo tem sido associado à avaliação negativa da
relação familiar, à falta de suporte/monitoramento e ao uso de substâncias
pelos familiares destes adolescentes (Malta et al., 2011; Malbergier et al.,
2012).
A presente investigação foi estruturada a considerar as perspetivas já
apresentadas, somadas às características da realidade local, em que ocorrem
inúmeras situações de violência e vulnerabilidade social, estrutural e
psicológica no âmbito familiar. Destaca-se ainda carências estruturais no
âmbito educacional da referida comunidade, como a falta de um local para
convívio, de espaço para desportos e lazer, e por um quadro de professores
constantemente expostos a fatores stressantes, associados aos contextos sociais
e económicos (Silveira, et al., 2011).
Metodologia
Estudo prospetivo e exploratório de corte transversal, com amostragem de
conveniência, que incluiu todos os alunos das 7ªs e 8ªs séries de uma Escola
Pública Municipal, em Uberaba-MG. Dos 203 estudantes, 189 foram incluídos na
pesquisa, tendo devolvido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado
pelos seus responsáveis, uma vez que eram menores de 18 anos.
A colheita de dados ocorreu entre setembro de 2010 e março de 2011, recorrendo
a um questionário semiestruturado e autoaplicável sobre comportamentos em
saúde, previamente ajustado por um teste piloto numa escola diferente daquela
que foi objeto da pesquisa.
As variáveis de interesse foram: uso, frequência e idade de início quanto à
bebida alcoólica, tabaco e drogas ilícitas. Considerou-se como possíveis
variáveis explicativas a idade, sexo, série, reprovação escolar e rendimento
familiar.
Os dados foram analisados pelo programa Statistica 6.0. Primeiramente utilizou-
se a análise descritiva das quais as variáveis categóricas foram apuradas
quanto às frequências absolutas, percentuais e numéricas, a partir das medidas
de centralidade e dispersão. Para analisar as associações de interesse entre
variáveis categóricas foram utilizados o teste qui-quadrado e cálculo do Odds-
Ratio (OR). Quanto à comparação da idade de inicio do uso de drogas lícitas e
ilícitas foi utilizado ANOVA-F. Para todos os testes foi considerado nível de
significância de 5% (p<0,05) (Agresti, 2007; Govindarajuju, 2007).
A presente investigação foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres
Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e aprovada pelo protocolo
nº1764/2011, e contou ainda com anuência da direção da escola em que se
realizou o estudo.
Resultados
A amostra do estudo foi composta por 189 adolescentes sendo 100 (52,9%) do sexo
masculino e 89 (47,1%) do sexo feminino. Dentre os adolescentes do sexo
masculino 52 (52,0%) estavam na 7ª série, 31 (31%) já haviam sido reprovados,
40 (40,0%) com rendimento familiar abaixo de um salário mínimo e padrão médio
de idade de 14,3±1,2 anos, enquanto no sexo feminino 55 (61,8%) estavam na 8ª
série, 35 (39,3%) já haviam sido reprovados, 33 (37,1%) com rendimento familiar
abaixo de um salário mínimo e padrão médio de idade de 14,3±1,0 anos, como se
observa na Tabela_1.
O consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas em relação ao sexo, série,
reprovação escolar e rendimento familiar é apresentado na Tabela_2. Dos 115
respondentes sobre a utilização de bebidas alcoólicas, afirmaram ter consumido
bebidas alcoólicas: a) 66 (77,7%) dos 85 adolescentes do sexo masculino e 49
(63,6%) das 77 adolescentes do sexo feminino; b) 76 (80,9%) dos 94 adolescentes
na 8ª série e 39 (57,4%) dos 68 na 7ª série, sendo esta associação
significativa (p=0,0011) apresentando uma probablidade de consumo de álcool na
8ª série de 3,1 vezes a probablidade na 7ª série (OR=3,1); (c) 96 (84,2%) dos
114 adolescentes sem reprovação escolar e 19 (39,6%) com reprovação,
demonstrando uma associação significativa (p<0,0001) sendo a probablidade de
consumo de álcool nos adolescentes aprovados 8,1 vezes a probablidade nos
reprovados (OR=8,1) e (d) 21 (100%) dos adolescentes com rendimento familiar
igual ou superior a três salários minimos, 69 (78,4%) com um rendimento entre 1
e 2 salários mínimos e 25 (47,2%) com rendimento inferior a 1 salário,
demonstrando neste caso uma associação significativa (p<0,0001) sendo a
probablidade de consumo de bebidas alcoólicas maior naqueles com maior
rendimento familiar, como se observa na Tabela_2.
Em relação ao consumo de tabaco, associação signifi¬cativa foi encontrada
em relação à 8ª série (p=0,0004), que apresentou uma probablidade de consumo de
4,6 vezes a probablidade na 7ª série (OR=4,6) e predominio significativo
naqueles com menor rendimento familiar (p<0,0001), com razão de probablidade
71,3 vezes para um rendimento menor que um salário e 55 vezes para um a dois
salários em relação à proporção de consumo entre os adolescentes com rendimento
familiar acima de três salários mínimos. As prevalências foram similares para
ambos os sexos, uma vez que apesar da prevalência ser maior para o sexo
feminino, não se observou significância estatística.
Para o uso de drogas ilícitas, a significância estatística foi observada apenas
em relação ao rendimento familiar, em que 14 (66,7%) dos adolescentes com
rendimento familiar igual ou superior a três salários mínimos, tinha 4,6 vezes
de probablidade de utilização comparado com os adolescentes com rendimento
inferior a um salário mínimo (p=0, 0176).
Na Tabela_3, observa-se a distribuição das variáveis estudadas quanto à
frequência de consumo de álcool, cigarro e drogas. Houve predomínio da
frequência de consumo do álcool mais elevada (diária ou semanal) entre
adolescentes da 7ª série (p=0,0001; OR=8,3), sem reprovação escolar (p<0,0001;
OR=65,6) e com rendimento familiar de até um salário mínimo (p<0,0001;
OR=24,8). Por sua vez, foi significativa a maior frequência de consumo de
tabaco (diária ou semanal) encontrada somente nos adolescentes da 7ª série
(p=0,0107; OR=4,8). Houve maior frequência de uso de drogas ilícitas (diária ou
semanal) naqueles com rendimento familiar superior a 3 salários mínimos
(p=0,0267; OR=9,8).
De acordo com a Tabela_4, a variável média de idade de início de utilização das
substâncias estudadas, apresentou diferença significativa: dentre os 115 que
responderam ter consumido álcool observou-se: idade média de início
significativamente superior nos adolescentes da 8ª série (p<0,0001), sem
reprovação escolar (p<0,0001) e com rendimento familiar igual ou maior que 3 SM
em relação aqueles com rendimento familiar inferior a 1 SM (p=0,0003).
Discussão
De acordo com Silveira e Santos (2012), associa-se maior vulnerabilidade social
à baixa condição socioeconómica como observada nestes dados, enquanto fator que
pode contribuir para uma maior exposição a situações de risco, como abandono
escolar, gravidez na adolescência, violência, uso de álcool, tabaco e drogas.
Destaca-se que estão associados ao uso de bebidas alcoólicas o aumento da
violência intra e extra-familiar, a ocorrência de acidentes de trânsito, o
déficit e abandono escolar, comportamentos de risco como transmissão de DST,
agressões, depressões clínicas e gravidez não planejada. Em estudo qualitativo
realizado com adolescentes entre 12 e 20 anos, identificou-se déficit no
autocuidado dos adolescentes associado à maior exposição a situações de risco
de vida inerente ao consumo abusivo de álcool, que ocorria, predominantemente,
quando os jovens saíam em grupos de amigos (Silva, Padilha, & Santos,
2011). Neste sentido, sugere-se a realização de ações educativas em saúde que
despertem atitudes de autocuidado nos adolescentes a fim de mantê-los longe
destes riscos.
Em estudo que considerou dados de adolescentes residentes nas 27 capitais
brasileiras, foi observado que cerca de três quartos dos adolescentes de 13 a
15 anos já experimentaram álcool, cerca de um quarto bebeu regularmente nos
últimos 30 dias com episódios de embriaguez e 9% relatam ter tido problemas com
o álcool. Quanto às drogas, 8,7% relataram já ter experimentado estas
substâncias alguma vez na vida, sendo que a experiência com álcool e drogas
ocorreu precocemente (Malta et al., 2011).
Os resultados encontrados para o consumo de tabaco vão de encontro à literatura
que aponta um discreto predomínio entre as meninas (Horta et al., 2007;
Malbergier et al., 2012). Estudo realizado com uma população de adolescentes
entre 10 e 19 anos da região sul do Brasil, identificou que a prevalência de
tabagismo na amostra foi de 12,1%. Os fatores de risco para tabagismo, na
análise multivariada, por regressão logística, foram: maior idade, odds ratio
(OR) de 28,7, irmãos mais velhos fumem, OR de 2,4 três ou mais amigos que
fumem, OR de 17,5 e baixa escolaridade OR de 3,5 (Malcon, Menezes, &
Chatkin, 2003).
Sobre o consumo de substâncias psicoativas, bem como uma série de outros
comportamentos humanos, há que considerar algumas questões inerentes ao género,
entre outras variáveis. Considera-se que os respondentes de sexos
dife¬rentes estiveram expostos a diferentes situações familiares, sociais e
outras, que configuram distintos padrões de contacto com cada um dos grupos de
substâncias e isto pode estar relacionado com condições históricas e sociais,
determinadas pelo modo como se constroem os conceitos de masculino e feminino.
Além disso, cada vez mais o consumo de tais substâncias se equiparam entre
meninos e meninas, o que representa um agravamento na saúde pública (Malbergier
et al., 2012).
Para melhor aferir os indicadores do comportamento dos sujeitos em relação ao
álcool, as variáveis uso na vida e uso regular (beber pelo menos três dias na
semana) têm sido incorporadas nas pesquisas da área. Neste estudo, trabalhou-se
com a ocorrência de consumo no mês que antecedeu as entrevistas, cujos dados
corroboram com o estudo de Horta et al. (2007), que encontrou prevalência de
49% para o sexo masculino e 37,9% para o feminino. Outro estudo, que incluiu
499 adolescentes de Cuiabá (Brasil), encontrou dados distintos, em que as
meninas (52,4%) consomem mais bebidas alcóolicas que os meninos (45,2%);
contudo o início do consumo da bebidas alcoólicas e do tipo mais consumido
estão de acordo com estes dados (Jesus et al., 2011).
Estudo de revisão que avaliou a eficácia dos programas de intervenção para a
prevenção de substâncias psicoativas, dirigidos a adolescentes dos 10 aos 16
anos de idade em meio escolar, observou que, embora a base conceptual dos
programas seja relativamente uniforme, verifica-se uma grande variedade nas
intervenções e na sua implementação, contudo, a maioria dos programas são
eficazes no aumento dos conhecimentos acerca do consumo de álcool e alguns
desenvolvem atitudes e expectativas mais seguras acerca de sua utilização entre
jovens. (Barroso, Barbosa, & Mendes, 2006).
Podem ser elencados vários fatores que condicionam o consumo de álcool nesta
idade, dos quais se destacam: frágil contexto familiar e social ' a utilização
por pais ou familiares e baixo custo e fácil acesso ' influência dos media que
associa o álcool a situações de prazer e bem-estar e por uma larga inserção em
estabelecimentos comerciais, festas, casas noturnas, postos de gasolina e
quiosques perto da escola, fatores que podem contribuir para um estágio de
dependência na idade adulta (Vieira, Ribeiro, Romano, & Laranjeira, 2007).
Para o tabagismo na adolescência, a considerar os 76 participantes deste
estudo, os resultados permitem inferir que os adolescentes que frequentam a 7ª
série iniciam o consumo nesta época, a exemplo dos que estão no oitavo ano, que
experimentam o cigarro ao ingressar nesta série. Tais dados corroboram com os
resultados da literatura, que apontam a idade de início de consumo de tabaco
entre 13 e 15 anos e maior prevalência de uso na faixa dos 17 a 19 anos para
ambos os sexos (Malco et al.,2003).
A mesma relação que aponta a idade média significativamente superior nos
adolescentes da 8ª série observa-se para as drogas ilícitas. No estudo de Jesus
et al. (2011), considerando a utilização de drogas ilícitas entre adolescentes,
identificou que 10,5% dos meninos (Idade de início aos 15 anos) e 5,8% das
meninas (início aos 16 anos) consumiram drogas, dos quais, 28,9% já fizeram uso
de cocaína, bem como mais de uma droga, e 15,7% utilizaram maconha. A maioria
dos meninos (60,0%) e 33,3% das meninas consumiam droga ocasionalmente (p =
0,0162).
Entre as drogas utilizadas na análise deste estudo, observa-se distribuição
semelhante entre os sexos, em que o sexo feminino tem menor média de idade para
o início de consumo de álcool e drogas ilícitas, facto que pode representar um
contacto mais precoce do sexo feminino com estas substâncias ou pode começar a
ser percebido um movimento que levará ao estabelecimento de padrões de consumo
de drogas, em maiores proporções para o sexo feminino em gerações futuras.
Qualquer dos dois cenários, que parecem não ser eliminatórios entre si, implica
uma preocupação imediata do ponto de vista da saúde pública, mais
especificamente, do ponto de vista da saúde da mulher.
Ressalta-se a necessidade de suporte familiar e acompanhamento escolar adequado
destes jovens para eliminar as situações de vulnerabilidade a que estes jovens
estão expostos, em especial na comunidade que fora objeto desta investigação
(Cavalcante, Alves, & Barroso, 2008).
Um outro fator importante refere-se ao consumo de drogas entre os familiares,
que associado a outros fatores de risco (psicológicos e socioculturais) dos
adolescentes, como: situação socioeconómica da família, dificuldades no
envolvimento familiar (problemas de relacionamento, conflitos, ausência e falta
de apoio dos pais), violência doméstica, amigos que consomem droga, evasão,
insucesso e abandono escolar, falta de opções de lazer e recreio, ausência de
apoio social e religioso, entre outros, são fatores condicionantes ao maior
consumo de drogas pelos estudantes adolescentes, em diversos contextos
socioculturais, como destacado por vários autores (Inglés et al., 2007; Suzuki
et al., 2008; Jinez et al., 2009; Naude et al., 2011; Coomber et al., 2012).
Algumas iniciativas têm dado enfoque aos temas (uso de álcool, tabaco e drogas,
além de outras situações de risco) ao inserir estratégias de educação em saúde
na escola, voltadas para os adolescentes, como o projeto de extensão ligado à
esta pesquisa (Silveira et al., 2011).
A educação permanente de professores para o lidar com estes adolescentes também
está a ser consolidada como estratégia de prevenção destas condutas de risco,
sendo desenvolvidas especialmente pelo Enfermeiro profissional, que possui como
uma de suas principais atribuições a Educação em Saúde, direcionada para o
autocuidado (Silveira, Reis, Santos, Borges, & Fonseca, 2012).
Conclusão
Em resposta aos objetivos desta investigação, afirma-se que o uso de bebidas
alcoólicas e tabaco está direta e significativamente associado à 8ª série, à
não reprovação escolar ao maior rendimento familiar. Quanto ao consumo de
drogas a associação foi significativa apenas para o grupo de maior poder
económico. Resultados semelhantes foram obtidos nas associações das variáveis
em comparação à frequência e à idade de início do consumo de drogas, lícitas ou
ilícitas. Não foi observada diferença significativa do ponto de vista
estatístico para as variáveis de género, o que sugere um padrão de consumo
razoavelmente semelhante entre meninos e meninas para as classes de drogas
estudadas. Destaca-se a alta proporção de estudantes que não responderam as
questões específicas sobre consumo de drogas, facto que pode significar que os
resultados descritos estejam subestimados.
Os resultados deste estudo refletem a necessidade de estratégias de educação em
saúde, direcionadas para adolescentes, observando a inserção de metodologias
mais inclusivas, direcionadas e lúdicas, estimulando a reflexão crítica destes
alunos acerca das situações de risco e vulnerabilidades relacionadas ao seu
comportamento sexual, consumo de bebidas alcóolicas, tabaco e drogas ilícitas.
Cabe considerar que estes resultados referentes a vulnerabilidades fazem parte
de uma pesquisa que antecedeu a abordagem destas temáticas em oficinas de
prevenção, no desenvolvimento do projeto de Extensão citado anteriormente.
Há que se priorizar ainda a capacidade do docente que está em contacto com
estes alunos, fornecendo ao profissional de educação, ferramentas para a
abordagem destas questões, entre outras, apoiado pela equipa das unidades de
atenção primária à saúde de referência local.
Este estudo tem como limitações o facto de ter sido desenvolvido numa única
escola de uma cidade e estado brasileiro. Contudo os seus resultados podem
possibilitar inferências uma vez que a realidade local se aproxima ao cenário
encontrado em diversas regiões e capitais do país.
Ressalta-se por fim, ao considerar as carências sociais, económicas e culturais
da população estudada, a necessidade de maior articulação entre os setores de
Segurança, Seguridade Social, Educação e de Saúde, para trabalharem em conjunto
na redução dos riscos de vulnerabilidade inerentes à complexidade da temática
adolescente. Neste sentido, fica apresentado o papel da Universidade, que, ao
trabalhar a pesquisa, permite uma compreensão da realidade local o que pode
levar à proposta de estratégias de intervenção sob a forma de programa de
extensão universitária.