A ansiedade, depressao e stresse no pre-operatorio do doente cirurgico
Introdução
O ónus dos estados emocionais como a ansiedade, a depressão e o stresse na
pessoa que vai realizar uma cirurgia é indiscutível, uma vez que, se trata de
um acontecimento crítico, percecionado como uma realidade desconhecida e
assustadora.
Os efeitos excessivos e contínuos destes estados emocionais repercutem-se no
bem-estar físico e psicológico, na qualidade de vida e produtividade, podendo
evoluir para estados patológicos, e são influenciados pelas diferenças
individuais e de personalidade de cada pessoa, tais como: a idade, o estado
nutricional, as doenças ou incapacidades crónicas, o processo cirúrgico (local,
tipo e extensão da cirurgia), complicações pós-operatórias, as experiências
prévias de cirurgias, a eventual descoberta de doença oncológica (Hibbert,
2003; Barbosa & Rabomile, 2006). No doente cirúrgico este é um elemento
central.
Partindo dos pressupostos anteriores, importa identificar os níveis de
ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico e
analisar a sua associação com algumas variáveis sociodemográficas e clínicas.
Enquadramento
A cirurgia é um acontecimento crítico, uma realidade muitas vezes abruptamente
imposta, provocando alterações profundas na vida de cada um, e implicações no
bem-estar e na saúde, nos padrões fundamentais da vida a nível individual e
familiar produzindo mudanças de papéis, nas relações, nas identidades, nas
capacidades e nos padrões de comportamento. É percecionada como um
acontecimento stressante, ao qual é atribuído uma conotação negativa,
assustadora e ameaçadora da integridade física e mental (Ribeiro, 2010).
A componente psicológica inserida numa preparação pré-operatória eficaz, cujo
objetivo é minimizar os estados emocionais sentidos, ganha aqui um elevado
destaque no papel do enfermeiro, visto ser numa área de intervenção autónoma
(Barbosa & Radomile, 2006; Christóforo, Zagonel, & Carvalho, 2006),
permitindo o desenvolvimento, consolidação, crescimento, implementação de
intervenções e mudanças neste domínio de conhecimento. No entanto, o
investimento neste domínio na prática clinica ainda se revela escasso, quer
pela inexistência de uniformização de procedimentos e de protocolos de
preparação pré-operatória, quer pela complexidade da área/componente
psicológica, exigindo uma valorização e intervenção mais ativa da equipa de
Enfermagem. Afinal, é desta avaliação completa que resultarão os processos de
juízo indispensáveis à formulação dos diagnósticos de Enfermagem e decisões de
intervenção.
A avaliação pré-operatória ganha, neste contexto um revelo fundamental, devendo
começar pelo contato entre o enfermeiro/doente e, ser contínua ao longo de todo
o processo cirúrgico. Deve ser uma avaliação holística e que reflita as
necessidades fisiológicas, psicológicas, espirituais e sociais do doente, de
forma a uniformizar procedimentos ou a instituir protocolos de atuação.
A ansiedade, depressão e stresse são estados emocionais presentes no pré-
operatório do doente cirúrgico (Marcolino, Suzuki, Cunha, Gozzani, &
Mathias, 2007), exacerbadas por um conjunto de fatores como a mudança de papéis
familiares e socias, a incerteza do prognóstico, perda da independência, medos
em relação ao procedimento cirúrgico, incapacidades, exigindo a adaptação à
nova condição. Para minimizar estes estados emocionais e facilitar os processos
de transição, o enfermeiro deve empenhar-se na promoção, construção e
desenvolvimento do seu saber, alicerçado num corpo de conhecimentos e
competências técnicas, cientificas, humanas e relacionais individualizadas e
consolidadas na prática, desenvolver uma forte consciência ética, estabelecer
uma relação de ajuda e de empatia, identificar os potenciais problemas e
angústias, planear intervenções adequadas às necessidades e, promover
capacidade de reflexão, decisão e ação no processo de cuidar, visando a
satisfação das necessidades afetadas (Santos, 2010).
Renca, Gomes, Vasconcelos, e Correia (2010), defendem que as linhas
orientadoras para a intervenção neste domínio, centram-se no ensino, instrução
e treino como forma de o doente, família e conviventes significativos
colaborarem diretamente nos cuidados, e no apaziguar de intervenções menos
positivas, gerindo conflitos e sentimentos. Estas são ferramentas essenciais à
tomada de decisão, tendo em consideração as variáveis pessoais e contextuais
(Mendes, Bastos, & Paiva, 2010).
Questões de investigação e hipóteses
Foram formuladas duas questões de investigação: Quais os níveis de ansiedade,
de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico? Que fatores
influenciam os níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório
do doente cirúrgico?
Formulámos também um conjunto de hipóteses para conhecer as possíveis relações
e diferenças entre os níveis de ansiedade, de depressão e de stresse do doente
no pré-operatório cirúrgico com as variáveis sociodemográficas e clínicas, tais
como: existe diferença nos níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no
pré-operatório do doente cirúrgico em função do sexo; existe relação entre os
níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente
cirúrgico e a idade; existe diferença nos níveis de ansiedade, de depressão e
de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em função do estado civil;
existe diferença nos níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-
operatório do doente cirúrgico em função das habilitações literárias; existe
diferença nos níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório
do doente cirúrgico em função da profissão; existe diferença nos níveis de
ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em
função de ter ou não realizado cirurgias anteriores; existe diferença nos
níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente
cirúrgico em função do diagnóstico clínico; existe diferença nos níveis de
ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em
função do tipo de cirurgia a realizar; existe relação nos níveis de ansiedade,
de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico e o tempo de
internamento.
Metodologia
Trata-se de um estudo quantitativo, do tipo descritivo e correlacional.
A população deste estudo foi constituída pelos doentes internados no Serviço de
Cirurgia Geral do Centro Hospitalar de Coimbra.
A amostra é do tipo não probabilística acidental. Os doentes foram selecionados
através da consulta do mapa operatório e de acordo com os critérios de
inclusão: saber ler e escrever, ter mais de 18 anos, ter uma cirurgia
programada e critérios de exclusão: encontrar-se a tomar medicação ansiolítica
e antidepressiva. A colheita de dados foi realizada no período de janeiro a
março de 2011.
Os dados foram colhidos por questionário, constituído por três partes
distintas: caracterização sociodemográfica, caracterização das variáveis
clínicas e Escala de Ansiedade, Depressão e Stresse-21 (EADS-21).
As variáveis clinicas que foram consideradas relevantes para o estudo dizem
respeito à existência ou não de cirurgias anteriores, ao diagnóstico clínico
(sendo categorizada em patologia maligna e patologia benigna como causa para a
intervenção cirúrgica), ao tipo de cirurgia a realizar (categorizando em
cirurgia laparotómica e laparoscópica) e por último, ao tempo de internamento
(em dias, no pré-operatório).
A escala utilizada permite avaliar simultaneamente três estados emocionais
através da organização em subescalas respetivamente, a ansiedade, a depressão e
o stresse (Apóstolo, Mendes, & Azeredo, 2006). Cada subescala é constituída
por sete itens e cada item corresponde a uma frase afirmativa que remete para
sintomas emocionais negativos com quatro possibilidades de resposta numa escala
de autoresposta tipo Likert de 4 pontos de gravidade ou frequência. A EADS-21
tem três pontuações, cada uma correspondente a cada subescala, em que a mínima
é 0 e a máxima é 21. O resultado final é igual ao somatório dos valores dos
sete itens, considerando que quanto mais elevada for a pontuação mais negativos
são os estados emocionais experienciados durante os dias de internamento antes
da intervenção cirúrgica (Apóstolo, Mendes, & Rodrigues, 2007; Ribeiro,
Honrado, & Leal, 2004).
Foi obtida autorização formal do Presidente do Conselho de Administração do
Centro Hospitalar de Coimbra, EPE e obtido parecer positivo da Comissão de
Ética da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde - Enfermagem da Escola
Superior de Enfermagem de Coimbra. Foram salvaguardados todos os aspetos éticos
inerentes à investigação em seres humanos.
Resultados
A amostra é constituída por 100 doentes que cumpriram os critérios de inclusão.
A maioria (59%) são mulheres. A média de idades é de 48,41 anos com desvio
padrão de 16,09 anos. A mediana situa-se nos 50,5 anos e a classe prevalente é
a dos 50-70 anos com 22%. A maioria dos inquiridos (64%) é casada. No que
concerne às habilitações literárias, 39% possui o 1º ciclo de ensino básico. A
maioria (65%) está no grupo dos trabalhadores ativos.
No que diz respeito às cirurgias prévias, verificamos que 80% da amostra já
tinha realizado cirurgias anteriores. O principal motivo para a cirurgia foi a
patologia benigna (70%). O método cirúrgico mais frequente na amostra foi a
cirurgia laparotómica com 69% e 31% para a cirurgia laparoscópica. O tempo de
internamento no pré-operatório mais representativo do nosso estudo compreendeu-
se no intervalo de um a cinco dias, representando 86%.
Os dados colhidos através da escala EADS-21, mostram que as médias das
respostas tendem a aproximar-se do mínimo, o que indica que na amostra existem
baixos níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do
doente cirúrgico. Na dimensão stresse surgem valores ligeiramente mais
elevados, tanto nos valores médios como do segundo e terceiro quartil. Na
Tabela_1 apresentam-se estes resultados.
Para os testes de hipóteses recorremos a testes não paramétricos, visto as
variáveis centrais não cumprirem o pressuposto de normalidade da distribuição.
Através da análise concretizada não foram encontradas diferenças ou correlações
estatisticamente signifi-ca-tivas nos níveis de ansiedade, de depressão
e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em função do sexo, da idade,
do estado civil, da profissão, nem do fato de ter ou não realizado cirurgias
anteriores.
As diferenças encontradas nos níveis de depressão no pré-operatório do doente
cirúrgico em função das habilitações literárias são estatisticamente
significativas (Tabela_2).
Encontraram-se também diferenças estatisticamente significativas nos níveis de
ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em
função do diagnóstico clínico (Tabela_3).
Verificaram-se diferenças estatisticamente significa-tivas para a dimensão
stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em função do tipo de cirurgia
realizada, apresentando a cirurgia laparotómica valores médios superiores em
relação à cirurgia laparoscópica (Tabela_4).
Por último, quando correlacionámos os níveis de ansiedade, de depressão e de
stresse no pré-operatório do doente cirúrgico com o tempo de internamento em
dias, verificámos uma correlação fraca, positiva e estatisticamente
significativa apenas na dimensão depressão e tempo de internamento (Tabela_5).
Discussão
Os resultados do estudo mostram baixos níveis de ansiedade, de depressão e de
stresse no pré-operatório do doente cirúrgico. No cerne desta questão podem
estar alguns fatores que entendemos constituírem-se como possíveis causas para
os resultados encontrados e que elencamos de seguida: o tamanho da amostra; as
dificuldades por parte dos enfermeiros na identificação destes sintomas; o
facto de os doentes não conseguirem verbalizar o que sentem; as experiências
cirúrgicas prévias que facilitaram a adaptação à cirurgia; o motivo da
intervenção cirúrgica ser uma patologia benigna; o conctato com outras pessoas
a vivenciar situações clínicas semelhantes de forma positiva; uma preparação
pré-operatória que vai ao encontro das suas necessidades; a capacidade para a
aceitação do estado de saúde e a possível vinculação com os profissionais de
Enfermagem.
A crescente preocupação dos profissionais de saúde na realização da visita
anestésica e cirúrgica no pré-operatório, assim como, na implementação de um
programa psico-educativo individualizado (Mendes, Silva, Nunes, & Fonseca,
2005) podem também ser fundamentais e necessários para a promoção de ensinos
adequados e orientações, reduzindo os estados emocionais sentidos.
Da mesma forma, a informação que o doente é detentor no momento pré-operatório
possibilita a construção de atitudes positivas face à doença, às respostas
adequadas às situações, à participação efetiva na tomada de decisão e à
perspetiva futura (Martins & Nunes, 2009).
Segundo Santos, Santos, Melo, e Júnior (2009), são os sintomas psicológicos que
mais se manifestam no período pré-operatório, em detrimento dos sintomas
fisiológicos, sendo essencial detetar as áreas de vulnerabilidade do indivíduo,
auxiliando na implementação de intervenções direcionadas para a dimensão
psicológica, diminuindo a intensidade da sintomatologia.
Corroborando o mencionado anteriormente, Marcolino, Suzuki, Cunha, Gozzani, e
Mathias (2007), demonstra que 44,3% dos doentes apresentam ansiedade e 26,6%
depressão no período pré-operatório, após aplicação da escala EADS-21, num
estudo desenvolvido para investigar a presença de ansiedade e depressão no pré-
operatório, e afirma que a avaliação dos estados emocionais deve ser sempre
realizada independentemente de o doente apresentar ou não doença clínica e ou
cirúrgica grave, pois a frequência de doentes com ansiedade é relevante e
merece um cuidado diferenciado, que pode passar pelo uso de medicação
ansiolítica antes da intervenção. Apóstolo, Ventura, Caetano, e Costa (2008),
ao descrever os níveis de ansiedade, de depressão e de stresse utilizando a
versão portuguesa da Depression Anxiety and Stress Scale - DASS-21, aplicada a
192 doentes de um Centro de Saúde, demonstra que 50 a 62% dos indivíduos
apresentam um nível de stresse, de ansiedade e de depressão normal ou leve,
entre 16 a 21% moderado e entre 20 a 29% severo ou extremamente severo.
Pela nossa experiência profissional, no que diz respeito às variáveis
sociodemográficas, a nossa amostra espelha a população internada no Serviço de
Cirurgia Geral onde foi realizada a colheita de dados. Quando testadas as
hipóteses formuladas em função das variáveis sócio-demográficas, os resultados
do estudo, indicam que não existem diferenças estatisticamente significativas
nos níveis de ansiedade, depressão e stresse no pré-operatório do doente
cirúrgico, em função do sexo, da idade, do estado civil e da profissão. São,
portanto consistentes com os resultados de Marcolino et al. (2007), cujo
objetivo foi perceber o impacto das variáveis sociodemográficas género, idade,
estado civil e escolaridade com os níveis de ansiedade e de depressão,
demonstrando que não existem diferenças significativas com os níveis de
depressão e de ansiedade. Da mesma forma Santos et al. (2009), demonstraram que
a presença de stresse no pré-operatório cirúrgico não se correlaciona com a
idade, com o estado civil e com a existência de cirurgias anteriores. As
diferenças encontradas nos níveis de depressão no pré-operatório cirúrgico em
função das habilitações literárias podem ser justificadas pelo facto do grau de
instrução ser potenciador de uma maior procura de informação, maior compreensão
de todo o processo cirúrgico e, consequentemente, aumentar a propensão para
depressão.
No que diz respeito à variável clínica ter ou não realizado cirurgias
anteriores, as evidências do nosso estudo são contraditórias com a literatura.
Santos et al. (2009), identificaram presença de stresse no pré-operatório do
doente cirúrgico quando correlaci-onado com a existência de cirurgias
anteriores. Da mesma forma, Ribeiro (2010), defende que os doentes com
experiências de cirurgias anteriores apresentam mais ansiedade pré-operatória,
tal pode dever-se à não associação entre experiência e apredizagem,
contribuindo para estimar a cirurgia como uma situação perigosa, desconhecida e
fonte de ansiedade pré-operatória.
Apesar de, ser evidente na literatura a elevada prevalência e incidência da
patologia maligna com consequente aumento das taxas de mortalidade e
repercussão na saúde e qualidade de vida das pessoas, em detrimento de outras
doenças crónicas (Branco, 2005), os resultados da nossa amostra espelham uma
maior percentagem de patologia benigna. Esta divergência com a literatura pode
ser eventualmente compreendida pelo facto de serem cirurgias programadas e pelo
facto de poder existir uma maior prevalência de patologia benigna, no momento
da colheita de dados.
Quando testadas as diferenças nos níveis de ansiedade, de depressão e de
stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em função do diagnóstico clínico,
os resultados indicam que existem diferenças estatisticamente significativas.
Estes resultados são consistentes com os de Santos et al. (2009), que reforçam
a conceção de que a maioria dos doentes no período pré-operatório cirúrgico,
ainda que portadores de patologia benigna e submetidos a cirurgias menos
invasivas, apresentam níveis de ansiedade e de stresse, invocando uma panóplia
de repercussões emocionais.
Passos (2009), demonstra que os doentes com patologia maligna apresentam uma
larga propensão à depressão e ansiedade comparados com doentes com patologia
benigna, quando objetivou analisar as manifestações de ansiedade, de depressão
e de stresse em doentes oncológicos nas condições pré e pós operatórias.
Segundo Herman et al. (2009), o método cirúrgico de eleição na atualidade é a
laparoscopia, representando uma alternativa à técnica convencional. É uma
abordagem com benefícios sobre a laparotómica, como é exemplo a diminuição do
tempo de internamento. Porém, os resultados do nosso estudo revelam a tendência
inversa, ou seja, 69% foram intervencionados através de cirurgia laparotómica e
31% de cirurgia laparoscópica. Estes achados podem estar associados ao facto
de, no momento em que decorreu a colheita de dados, o tipo de patologia poder
carecer de uma intervenção desta natureza.
Encontraram-se diferenças estatisticamente signifi-ca-tivas nos níveis
de stresse no pré-operatório do doente cirúrgico em função do tipo de cirurgia
a realizar.
Segundo Christóforo, Zagonel, e Carvalho (2006), o processo cirúrgico acarreta
perturbações quer físicas, quer psicológicas, associadas a uma panóplia de
fatores dos quais se destaca a incerteza do tipo de procedimento invasivo
utilizado, podendo significar a vivência de uma situação crítica, além de uma
indefinição de eventos que poderão advir. Mesmo as cirurgias menos invasivas
podem provocar fortes repercussões emocionais e consequências nefastas (Mendes
et al., 2005). Sendo o stresse definido como uma reação psicofisiológica de
alta complexidade, denotando a necessidade do organismo em lidar com algo que
ameaça a homeostase e o equilíbrio interno do indivíduo (Serra, 2007), o tipo
de cirurgia pode desencadear um desenvolvimento deste estado emocional.
Quando correlacionámos os níveis de ansiedade, depressão e stresse no pré-
operatório do doente cirúrgico com o tempo de internamento em dias, observámos
a existência de uma correlação positiva, fraca, estatisticamente significativa
para a dimensão depressão. Ou seja, apesar da maioria dos inquiridos (86%) ter
permanecido um curto período de tempo no internamento antes da intervenção
cirúrgica (um a cinco dias), quanto maior o tempo de internamento, maiores os
níveis de depressão.
De acordo com Ribeiro (2010), apesar do internamento para cirurgias programadas
ser realizado cada vez mais próximo da cirurgia, 24 horas antes, assiste-se,
neste curto espaço de tempo, a necessidades de apoio emocional e de ensinos
pelos doentes.
Assim, sendo a depressão definida como um transtorno de humor que envolve um
grupo heterogéneo de sintomas tais como tristeza, infelicidade, desânimo,
irritabilidade, perda de interesse pela imagem corporal, diminuição da
capacidade cognitiva, diminuição da autoestima e autoconfiança, entre outros
(DSM-I V-TR, 2006), podemos predizer que o tempo de internamento, à espera de
um procedimento cirúrgico, mesmo que curto, pode ser potenciador do
aparecimento ou desenvolvimento destes sintomas, por todas as transformações
que este processo acarreta.
Conclusão
O período pré-operatório envolve uma grande sobrecarga emocional para o doente
e para os conviventes significativos, sendo por este motivo fundamental que a
preparação psicológica se inicie com o contato entre o enfermeiro/doente ainda
antes da intervenção cirúrgica. Assumindo a complexidade do fenómeno e de forma
a dar um contributo para uma melhor compreensão desta realidade, foi intenção
identificar os níveis de ansiedade, de depressão e de stresse no pré-operatório
do doente cirúrgico e conhecer as possíveis relações e diferenças com variáveis
sociodemográficas e clínicas.
Os resultados indicam que no período pré-operatório, o doente cirúrgico
manifesta baixos níveis de ansiedade, de depressão e de stresse. Verificaram-se
níveis de depressão estaticamente significativos no período pré-operatório em
função das habitações literárias e do tempo de internamento. Os níveis de
ansiedade, de depressão e de stresse são estatisticamente significativos em
relação à variável diagnóstico clínico, para as três dimensões da escala EADS-
21. O tipo de cirurgia condiciona os níveis de stresse no pré-operatório
cirúrgico.
Os resultados do estudo oferecem a possibilidade de refletir sobre as nossas
práticas e comportamentos como profissionais de saúde. Devem ser considerados
como um contributo para a compreensão do complexo fenómeno que diz respeito à
identificação de sintomas emocionais associados ao momento pré-operatório no
contexto cirúrgico e à valorização pelos profissionais de saúde, prevenindo a
evolução para situações patológicas.
Destes resultados surgem algumas sugestões: incrementar programas de formação
em serviço para o desenvolvimento de competências neste domínio; instituir uma
consulta pré-operatória, conjuntamente com a restante equipa multiprofissional,
inserindo uma entrevista com guião estruturado, onde através de posturas,
comportamentos e palavras, fosse possível conceptualizar estados emocionais de
ansiedade, de depressão e de stresse que possibilitem uma intervenção autónoma
e interdependente direcionada ao problema; e intervir de forma interdependente
na minimização do tempo de internamento.