Editorial
EDITORIAL
Editorial
Afaf I. Meleis*
*Professora de Enfermagem e Sociologia Escola de Enfermagem Universidade da
Pensilvânia
O Poder do conhecimento ' Capacitar os Enfermeiros
O conhecimento capacita os enfermeiros e, com esse poder, os enfermeiros
capacitam os doentes, as famílias e as comunidades para prevenirem doenças e
melhorarem o seu bem-estar. Nos últimos anos, tive o privilégio de me reunir
com muitos colegas de diferentes partes do mundo e, em virtude desses encontros
e diálogos, fiquei muito mais otimista em relação ao papel que os enfermeiros
conseguem e estão efetivamente a desempenhar ao nível da influência das
políticas de saúde. Este papel é reforçado pelo incrível poder do conhecimento
que estão a desenvolver. Os enfermeiros estão cada vez mais empenhados em
desenvolver conhecimento na área da enfermagem através de centros de
investigação, programas de investigação, teorias da prática, narrativas
vivenciais, estudos de caso, análises históricas, entre outros. Existem muitas
tendências positivas na formação de estudantes de enfermagem e no processo de
desenvolvimento do conhecimento, o que indica progressos no apoio ao
desenvolvimento de melhores práticas para a prestação de cuidados de qualidade
baseados em evidência. De seguida, apresento algumas das tendências que tenho
observado.
Um maior envolvimento de jovens estudantes de enfermagem durante as fases
iniciais dos seus percursos académicos Os Centros de Investigação abriram as
suas portas aos estudantes do 1º ciclo do ensino superior desde muito cedo,
oferecendo-lhes oportunidades para desenvolver o seu interesse pela pesquisa e
aprendizagem na área da investigação em enfermagem. Os jovens estudantes têm a
possibilidade de trabalhar com investigadores conceituados, aperfeiçoando
competências de raciocínio crítico e desenvolvendo o interesse em aprender mais
sobre os processos de pesquisa e investigação. Eles podem, assim, observar os
investigadores na prática, desde a identificação do problema à tradução dos
resultados da investigação.
Aumento da globalização Também pude constatar os efeitos da globalização. Para
além de observar alunos brasileiros a estudar em universidades portuguesas e
alunos australianos a estudar em universidades malaias, também verifiquei
intercâmbios regionais na Europa, Ásia e África, entre outros. Por outras
palavras, estão a ocorrer intercâmbios dentro dos continentes, mas também entre
continentes. Existem bastantes vantagens associadas aos intercâmbios regionais,
tais como pedagogias de ensino e aprendizagem menos dispendiosas e
culturalmente mais competentes. Existe um melhor entendimento dos problemas de
saúde a nível regional e uma maior confiança na implementação de estratégias
consistentes com as prioridades e as políticas de saúde da região. Para além
disso, verifiquei também que tirar partido dos intercâmbios regionais contribui
para uma maior compreensão das capacidades regionais e, nesse sentido, surgem
líderes regionais capazes de influenciar políticas e colaborações culturalmente
mais congruentes. Duas regiões com líderes que estão a influenciar mais do que
os respetivos países são a União Europeia e África. Os líderes emergentes em
Espanha são chamados a redesenhar políticas educativas para a Europa, enquanto
os líderes emergentes no Botsuana e na África do Sul são escolhidos para
falarem e agirem em nome de muitos dos países africanos. No passado, os
intercâmbios centravam-se mais na realização de programas de estudos em
universidades dos E.U.A., da Austrália ou do Reino Unido. Os estudantes
formados nestas instituições passavam por um enorme processo de recalibração
para utilizarem conhecimentos mais compatíveis com o respetivo contexto
cultural.
Inovações emergentes Em terceiro lugar, observei o surgimento de inovações ao
nível do ensino e da prática em enfermagem. Um exemplo claro é o recém-criado
programa doutoral na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra,
Portugal, sob a liderança da neurocientista Dra. Catarina Resende Oliveira.
Este programa pretende recrutar médicos, enfermeiros, dentistas, veterinários,
entre outros profissionais de saúde, com o objetivo de elaborar um tronco comum
e trabalhar com tutores interdisciplinares, bem como desenvolver um
conhecimento mais integrado para os sistemas de saúde. Tal como em qualquer
programa novo, também este é dinâmico e está em mudança, refletindo
uma abordagem mais inovadora e futurista a cuidados de saúde mais integrados e
baseados em equipas. À medida que este programa for amadurecendo, irá refletir
e operacionalizar algumas das recomendações do relatório do The Lancet Health
professionals for a new century: transforming education to strengthen health
systems in an interdependent world (Profissionais de saúde para um novo século:
transformar a educação para reforçar os sistemas de saúde num mundo
interdependente).1 Este é um programa inovador que muito provavelmente
impulsionará a criação de programas semelhantes noutras regiões do mundo.
Outro exemplo de inovação consiste na revista de investigação desenvolvida por
estudantes de doutoramento da Universidade de Alicante. Por um lado, as
revistas de investigação, como esta, são um sinal do progresso científico da
disciplina, por outro lado, a organização de uma revista de investigação por
parte de jovens estudantes investigadores é um exemplo notável do compromisso
inicial com a formação académica e um indicador de progresso de uma disciplina.
Existem muitos outros exemplos de boas práticas inovadoras desenvolvidas por
enfermeiros com vista ao avanço do conhecimento e à melhoria da prestação de
cuidados às comunidades. Convido os leitores a identificar algumas dessas
inovações e a partilhá-las nesta revista.
No sentido de valorizar estas tendências positivas e estimulantes e responder a
outras tendências mundiais partilhadas por todas as disciplinas, incluindo a
complexidade de questões de saúde, as alterações demográficas, as alterações na
colaboração nacional e regional, as revoluções do século XX em termos de
conhecimento ao nível dos cuidados de saúde, a crescente atenção dada aos
determinantes de saúde e de doença através da epigenética e a crescente
importância da identificação dos marcadores genéticos na individualização de
cuidados e na prestação de cuidados rigorosos de saúde, recomendo a utilização
dos 4 Cs: Colaboração, enquadramento concetual Coerente,
Conectividade e baseado na Comunidade.
Colaboração Permitam-me que aprofunde a questão da colaboração. Os programas de
investigação em enfermagem devem incluir investigadores multidisciplinares.
Isso exigirá também planos de estudos recetivos à inclusão de conteúdos
interdisciplinares. Os enfermeiros investigadores terão de compreender as
metodologias de investigação fundamental, bem como as estratégias das ciências
humanas. Por outro lado, os jovens académicos devem ser orientados por uma
equipa interdisciplinar e interprofissional de mentores.
Enquadramento Concetual Coerente Embora os enfermeiros académicos devam ser bem
versados nas ideias defendidas pela respetiva disciplina e uma voz em
investigação que reflita as prioridades da enfermagem, sempre que trabalharem
em equipas interdisciplinares, os membros devem esforçar-se por desenvolver
enquadramentos concetuais integrados que reflitam a saúde e o bem-estar dos
doentes, das famílias e das comunidades. Os princípios desses enquadramentos
concetuais devem refletir a nossa missão social, o contrato que estabelecemos
com as sociedades para prestarmos cuidados de qualidade que melhorem
o autocuidado, tratem os sintomas, evitem doenças e promovam o bem-estar. Este
contrato deve refletir a equidade na prestação dos cuidados, garantindo acesso
às populações mais vulneráveis e desenvolvendo o conhecimento para eliminar
disparidades na prestação de cuidados de saúde.
Conectividade Esse contrato com a sociedade deve também refletir uma formação
académica e uma investigação que abordem as prioridades sociais nos cuidados de
saúde. Cada investigador deve ser desafiado a demonstrar de que forma a sua
investigação contribui direta ou indiretamente para responder às prioridades
nacionais de saúde, às questões de saúde a nível regional e talvez até às
questões de saúde a nível mundial.
Baseado na Comunidade Com a crescente urbanização, o envelhecimento da
população, a diminuição de recursos para a área da saúde , o aumento de doenças
não transmissíveis e de doenças crónicas e as mudanças nos estilos de vida,
sendo que todos estes fatores requerem cuidados de saúde continuados,
especialmente em populações sociocultural e educacionalmente diferentes, os
académicos podem conceber a sua investigação de forma a integrar estratégias
baseadas na comunidade. Isso exigirá a criação de parcerias com as comunidades
e a investigação de questões relacionadas. Estas estratégias baseiam-se nas
competências de enfermagem ao nível dos cuidados domiciliários e comunitários.
Com os progressos realizados ao nível do ensino da enfermagem a nível mundial,
o compromisso com a academia em enfermagem e o espírito inovador que os
enfermeiros têm demonstrado e que que está a surgir mais recentemente na
abordagem às questões relacionadas com cuidados de saúde a nível mundial, os
enfermeiros estão na melhor posição possível para influenciar mudanças nos
cuidados de saúde. Os enfermeiros académicos produzem e utilizam o conhecimento
na prática baseada em evidência e na concretização de mudanças ao nível das
políticas. O conhecimento baseado em enquadramentos concetuais coerentes e
colaborativos, relacionado com as prioridades de saúde a nível nacional e
baseado na comunidade pode ser o recurso e o catalisador necessário para
melhorar o acesso equitativo a cuidados de saúde de qualidade. O conhecimento
capacita os enfermeiros e os doentes.
1 Bhutta ZA, Chen L, Cohen J, Crisp N, Evans T, Fineberg H, Frenk J, Garcia P,
Horton R, Ke Y, Kelley P, Kistnasamy B, Meleis A., Naylor D, Pablos-Mendez A,
Reddy S, Scrimshaw S, Sepulveda J, Serwadda D, Zurayk H. (2010, 51-60). Health
professionals for a new century: transforming education to strengthen health
systems in an interdependent world. The Lancet.