Caracterização dos pacientes atendidos com crise hipertensiva num hospital de
pronto socorro
Introdução
As doenças crónicas, no Brasil, têm alcançado elevados índices populacionais,
fazendo com que o país procure priorizar ações na sua prevenção e controle.
Incluída nesse grupo está a Hipertensão Arterial Sistémica (HAS), considerada
um sério problema de saúde pública, por acometer 20% da população adulta
mundial. A HAS é uma doença definida pela persistência de níveis tensionais
acima dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A
hipertensão eleva o risco de Acidente Vascular Encefálico (AVE), Doença
Arterial Coronariana (DAC), Insuficiência Cardíaca (IC), Insuficiência Renal
Crónica (IRC) e Doença Vascular Periférica (DVP) (Carnelosso, Barbosa, Sousa,
Monego, & Carvalho, 2004; Sociedade Brasileira de Hipertensão arterial,
2010).
A HAS é um importante Fator de Risco (FR) cardiovascular e torna-se mais
preocupante quando associada a outros FR como: obesidade, sedentarismo,
tabagismo, dieta inadequada, raça negra, idade avançada e baixo nível sócio-
económico. Esse grupo de sujeitos é responsável pela maior procura das
emergências e urgências hospitalares (Velasco, Neto, Martins, & Neto,
2014).
A urgência hipertensiva é uma elevação súbita da pressão arterial, com
condições clínicas estáveis, sem comprometimento de órgãos-alvo devendo ser
reduzida em 24 horas, muitas vezes com medicamentos via oral. Tal acometimento
caracteriza-se pelas condições em que há elevação crítica da pressão arterial
com quadro clínico grave, progressiva lesão de órgãos-alvo e risco eminente de
morte. Esta condição clínica necessita de uma redução imediata da pressão,
devendo ser tratada com agentes anti-hipertensivos parenterais (Velasco et al.,
2014).
O objetivo deste estudo foi identificar o perfil dos pacientes atendidos com
crise hipertensiva num Hospital de Pronto Socorro. Ao conhecer as
características dos pacientes hipertensos, pode-se melhor abordá-los no momento
da crise, bem como possibilitar o estabelecimento de ações efetivas de cuidado
junto à equipa de saúde (SBHA, 2010).
Enquadramento
A hipertensão geralmente integra um conjunto de fatores de risco cardiovascular
definidos operacionalmente como síndrome metabólica. Entre esses fatores de
risco, a hipertensão arterial é a primeira causa de mortalidade em âmbito
mundial e a terceira causa de incapacidade induzida por doença, após
desnutrição e doenças sexualmente transmissíveis (Zanchetti et al., 2014).
Diante disso, a Pressão Arterial (PA) é a força com a qual o coração bombeia o
sangue através dos vasos sanguíneos. É determinado pelo volume de sangue que
sai do coração (débito cardíaco) e a resistência periférica dos vasos no corpo
(SBHA, 2010).
A pressão sanguínea resulta do movimento de bombeamento do coração durante a
fase sistólica e diastólica. Durante a fase sistólica, a PA atinge o seu nível
máximo, para então, conforme a mecânica do coração cair até ao seu nível mínimo
na fase de relaxamento cardíaco, denominado fase diastólica.
A PA aumenta linearmente com a idade. Dessa forma, o risco para desenvolver
doenças cardiovasculares associada ao aumento da PA eleva-se à medida que a
idade avança. Estimativas globais sugerem pressões arteriais mais elevadas em
homens até os 50 anos e para mulheres a partir dos 60 anos, sendo maior a
prevalência em mulheres afro-descendentes em relação às mulheres brancas. A
população classificada como hipertensa apresenta fatores socioeconómicos mais
baixos. Dentre estas características estão os hábitos dietéticos não saudáveis,
ingestão de álcool em excesso, stresse psicossocial, má adesão ao tratamento e
nível educacional precário (SBHA, 2010).
A pressão arterial também está associada à prática de exercícios físicos, que
devem ser complementados pelos pacientes, promovem reduções de PA, estando
indicados para a prevenção e o tratamento da HAS. Para manter uma boa saúde
cardiovascular e qualidade de vida, todos os adultos devem realizar, pelo menos
cinco vezes por semana, 30 minutos de atividade física moderada de forma
contínua ou acumulada, desde que em condições de realizá-la. A recomendação é
de que inicialmente os indivíduos realizem atividades leves a moderadas.
Somente após estarem adaptados, caso julguem confortável e não haja nenhuma
contraindicação, é que devem passar às vigorosas (SBHA, 2010).
Os medicamentos para hipertensão são divididos em seis classes principais:
diuréticos, inibidores adrenérgicos, vasodilatadores diretos, inibidores da
Enzima Conversora da Angiotensina (ECA), bloqueadores dos canais de cálcio e
antagonistas do receptor AT2 da angiotensina II (AII). A combinação de fármacos
é frequentemente utilizada, já que a monoterapia inicial é eficaz em apenas 40
a 50% dos casos (SBHA, 2010).
O atendimento na emergência hipertensiva tem como objetivo reduzir os níveis
pressóricos cerca de 25% sobre o valor de chegada, no máximo em 1 ou 2h. A
gravidade das manifestações depende mais da velocidade que ocorreu o aumento da
pressão do que os níveis pressóricos atingidos. Assim, hipertensos crónicos
podem tolerar níveis mais elevados sem sintomatologia neurológica, enquanto um
paciente com hipertensão aguda pode apresentar encefalopatia hipertensiva grave
(SBHA, 2010).
Os medicamentos mais utilizados são: nitroprussiato de sódio em infusão
endovenosa contínua lenta; nitroglicerina endovenosa utilizado em pacientes com
angina associada e ainda pode ser inserida a furosemida endovenosa nos
pacientes congestos (Pedroso & Oliveira, 2008).
A monitorização hemodinâmica da PA e o estado cardiovascular do paciente
tornam-se necessários durante o tratamento das emergências e urgências. Uma
queda acentuada dos níveis pressóricos pode acontecer, o que exigiria uma ação
imediata para ajustar a PA a um nível aceitável sem deixar sequelas (SBHA,
2010).
O atendimento visa reduzir a pressão que está críticamente elevada, para um
nível seguro do ponto de vista hemodinâmico (não necessariamente ao normal);
assim, limitando a progressão da lesão aos órgãos-alvo. O ideal é reduzir a PA
com o mínimo de efeitos colaterais, preservando-se as funções renal, cerebral e
cardíaca.
A assistência de enfermagem para pacientes hipertensos visa o controle e
redução da PA nos níveis de atenção primária, secundária e terciária. A
enfermagem deve apoiar, educar e orientar o paciente, para que o mesmo
compreenda a importância de aderir ao tratamento, as alterações necessárias no
seu estilo de vida e realizar consultas regulares com os profissionais da saúde
para monitorar, identificar e tratar as complicações da doença. O papel do
profissional é enfatizar o conceito do controle dos níveis pressóricos,
educando o paciente e os seus familiares sobre o conhecimento da doença e os
efeitos adversos dos medicamentos.
Para uma adequada assistência pode ser utilizado o processo de enfermagem, que
possui cinco etapas: histórico, diagnósticos de enfermagem, planeamento,
implementação e avaliação da assistência, o qual é planeado para alcançar as
necessidades específicas do paciente, sendo direcionado de forma a que todas as
pessoas envolvidas no tratamento possam ter acesso ao plano de assistência. O
mesmo possui um enfoque holístico; ajuda a assegurar que intervenções sejam
elaboradas para o indivíduo e não para a doença; apressa os diagnósticos e o
tratamento dos problemas de saúde potenciais e vigentes, reduzindo a incidência
e a duração da hospitalização (Almeida, Lucena, Franzen, & Laurent, 2011).
Torna-se-se necessário uma capacitação permanente da equipa de enfermagem a fim
de qualificar as consultas realizadas, nas quais devem ser abordados os fatores
de risco, tratamento utilizado e as formas de tratamento não farmacológicas a
serem adotadas pelos pacientes, como por exemplo: mudança nos hábitos de vida,
prática de atividade física e mudança nos hábitos alimentares.
Questões de Investigação
Observa-se quotidianamente uma sobrelotação dos serviços de emergência
hospitalares, dentre elas o principal hospital de Pronto Socorro do estado do
Rio Grande do Sul. Porém, a demanda nem sempre corresponde a utentes com
necessidade imediata de intervenção e cuidado, pois população ainda desacredita
da atenção básica e sobrevaloriza a atenção hospitalar e neste caso o Pronto
Socorro. Essa tem sido uma realidade de muitos anos em que a população percebia
o Pronto Socorro como o local para atender todas as suas necessidades
relacionadas com a saúde. Realidade essa ainda muito arreigada aos porto
alegrenses, sendo este o motivo de muitos descontentamentos em relação ao
atendimento e ao protocolo de risco recentemente instituído para organizar o
atendimento. O modelo de atenção está de acordo com a classificação de risco e
com a filosofia da instituição, que é a de priorizar os pacientes vítimas de
politraumas. Para isso, a equipa de saúde necessita conhecer o perfil dos
pacientes atendidos para discutir e planear medidas que amenizem o caos que
identificamos no setor saúde, principalmente no atendimento dos pacientes
hipertensos.
Diante desta problemática, lança-se a seguinte questão norteadora deste estudo:
qual o perfil dos pacientes com crise hipertensiva atendidos no serviço de
urgência e emergência de um hospital de pronto socorro do município de Porto
Alegre/RS?
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de caráter quantitativo, descritivo com colheita de
dados secundários em boletim de atendimento e registo eletrónico, arquivados no
Serviço de Arquivo Médico e Estatístico (SAME). A pesquisa quantitativa envolve
a colheita sistemática de informações quantificáveis, mediante condições de
extremo controle, além da análise dessa informação com a utilização da
Estatística (Polit & Beck, 2011).
A população foi composta pelos registos dos pacientes atendidos no setor de
emergência do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, no período de janeiro
a maio de 2013. Foram considerados critérios de inclusão: os processos em que o
paciente apresentou o diagnóstico de crise hipertensiva no momento da consulta,
com idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos os procesos que não
apresentarem informações suficientes para a colheita de dados.
A média de atendimento nesta emergência é de aproximadamente 15.000
atendimentos realizados por mês. Para o estudo proposto, serão necessários, no
mínimo 385 processos, considerando uma margem de erro de aproximadamente cinco
pontos percentuais, um poder de 80% e nível de significância p< 0,05.
A colheita de dados foi realizada no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre
– RS, pelo autor através de dados secundários em boletins de atendimento da
emergência e cadastro eletrónico, realizado no período de 1 de novembro de 2013
a 30 de fevereiro de 2014, após parecer favorável do Comité de Ética em
Pesquisa da Instituição. Esses boletins são disponibilizados no Serviço de
Arquivo Médico Estatístico (SAME) do referido hospital. Foi utilizado um
instrumento de pesquisa obtendo-se as seguintes informações: Dados de
caracterização da amostra: sexo, data de nascimento, cor, procedência, data do
atendimento, escolaridade; Dados clínicos: nível de pressão arterial, sinais/
sintomas, fatores de risco cardiovascular e encaminhamento após o atendimento.
A amostra deste estudo foi composta por boletins de atendimento do período de
janeiro a maio de 2013. Optou-se por iniciar neste período tendo em vista a
implementação do protocolo de classificação de risco.
A análise de dados, objetiva identificar e obter informações acerca da
colheita, respeitando critérios referentes à clareza na análise, encadeamento
lógico de evidências, construção da explicação e comparação com a literatura
científica (Prodanov & Freitas, 2009).
Os dados colhidos foram organizados em planos no programa Excel®, e analisados
no programa SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences, SPSS Inc,
Chicago) versão 18.0. para windows.
Os dados foram analisados por meio de técnicas de estatística descritiva e
inferencial. As variáveis categóricas estão apresentadas em tabelas, com
frequências absolutas e relativas, as variáveis contínuas como medidas de
tendência central (média e mediana) e de dispersão (desvio padrão e intervalos
quartis).
Para comparar médias entre os grupos com distribuição simétrica, o teste t-
student foi utilizado. Na avaliação de proporções, o teste qui-quadrado de
Pearson complementado pela análise dos resíduos ajustados foi aplicado. O nível
de significância adotado foi de 5% (p≤0,05).
O presente estudo conforme Resolução 466/2012 (2012) foi primeiramente
submetido a aprovação pelo Comité de Ética e Pesquisa do Centro Universitário
Metodista IPA e posteriormente foi aprovado pelo Comité da Prefeitura de Porto
Alegre sob nº de protocolo: 16651813.9.0000.5308.
Resultados
Caracterização a da amostra de pesquisa
Em relação aos 557 (100%), evidenciou-se o maior contingente de sujeitos como
sendo da faixa etária entre 50 e 59 anos de idade (24,8%), seguidos da faixa
etária entre 40 e 49 anos (23,5%), o menor número de sujeitos correspondeu à
faixa etária descrita como maior de 80 anos, correspondendo a uma percentagem
de 2,95% dos sujeitos. Também foi possível identificar uma maior percentagem de
crise hipertensiva na população feminina (62,5%). Em relação à raça, prevaleceu
a branca como maioria exposta à crise hipertensiva em 75,9%, dos atendimentos,
seguidos da raça negra com 12,9% e raça parda com 10,6%. No que respeita aos
pacientes atendidos a maioria (81%) são moradores da cidade de Porto Alegre –
RS.
Em relação aos níveis pressóricos encontrados e observados neste estudo,
identifica-se maior prevalência de sujeitos com hipertensão estágio III (40%,
n=223), sendo que as mulheres (n=348) apresentam maiores percentuais em relação
aos homens (n=209). A média de pressão arterial sistólica foi maior em mulheres
(171,2± 24,0) em relação aos homens (169,7 + 22,3), porém não houve
significância estatística (p> 0,05), em relação aos dados encontrados na Tabela
2, o que pode ser confirmado a seguir:
Em contra partida, a associação entre grau da hipertensão e faixa etária aponta
que ao maior percentual dos sujeitos com idade inferior a 40 anos de idade
(44,6%) apresentavam estágio I de hipertensão, os da faixa etária entre 40 e 59
anos de idade estágio II (34,6%), e os com idade igual ou superior a 60 anos
estágio III (48,0%), evidenciando diferença estatística entre os grupos
avaliados (p<0,05) (Figura_1).
No Figura_2 encontram-se os sintomas relatados pelos pacientes atendidos no
Serviço de Emergência do Hospital de Pronto socorro de Porto Alegre e
registados nos boletins de atendimento. A cefaléia foi a queixa com maior
percentul o que correspondeu a 71,1% (n= 396) dos sujeitos pesquisados, seguida
de tontura com 28% (n= 156), dor precordial em 17,1% (n= 95) dos sujeitos, e o
menor percentual foi cefaléia na região occipital com 2,7%(n= 15).
Ainda foi possível identificar a realização do eletrocardiograma, um importante
exame para identificação de alterações eletrocardiográficas também relacionadas
com a elevação abrupta dos níveis pressóricos de encontro como o que é
preconizado para atendimento da crise hipertensiva, seguido da administração de
medicações analgésicas, tais como: Dipirona Sódica EV 15,8% (n= 88) e
Paracetamol VO em 9,7% (n= 54), Escopolamina em 3,8% (n= 21) e antiemética:
Metoclopramida em 10,8% (n= 60), também foi possível verificar a realização do
exame sanguíneo de dosagem de enzimas cardíacas realizado em 8,8% (n= 49) dos
sujeitos do estudo.
Discussão
O presente estudo permitiu evidenciar um crescente número de pacientes com
estágio I de hipertensão entre jovens, com taxa de prevalência maior entre as
mulheres menores de 40 anos de idade.
Este estudo apresentou limitações no que diz respeito aos registos incompletos
e inadequados identificados nos boletins de atendimento, além disso, a
caligrafia utilizada pelos profissionais dificultou o entendimentos em muitos
casos das informações.
Nesse sentido, é fundamental a necessidade premente da implantação do
prontuário eletrónico, a fim de unificar as informações dos pacientes
juntamente com a capacitação das equipas para o preenchimento correto das
informações dos pacientes, garantindo o direito dos cidadãos de ter o seu
prontuário com informações corretas e completas, bem como qualificar o
atendimento prestado à população geral.
Considera-se preocupante o fato de hipertensão estágio III não controlada estar
acometendo indivíduos maduros com idade entre 40 e 59 anos e igual ou superior
a 60 anos, ou seja, mesmo com as facilidades de disponibilização de
medicamentos pelo poder público, os pacientes continuam a manter elevados
níveis pressóricos, quais são então as possíveis causas? Será na adesão ao
tratamento? Na educação para a saúde e nas orientações da atenção básica? Será
na falta de cobertura do ESF? Serão os hábitos inadequados de vida que
prevalecem mesmo com a ingestão dos medicamentos anti-hipertensivos? Será a
falta de adesão da população aos grupos de hipertensos e atividades propostas
para prevenção de prejuízos à saúde? Tantas questões remetem-nos à necessidade
de avaliar a rigor os resultados desta pesquisa a fim de rever as causas deste
descontrole, ou melhor, traçar estratégias e rever as políticas públicas deste
grupo de pacientes a fim de identificar as intervenções necessárias para o
controle da pressão arterial da população estudada.
De acordo com a normativa nacional e orientação do Ministério da Saúde (MS) os
Serviços de Emergência devem nortear o atendimento de acordo com as Diretrizes
preconizadas pela Política Nacional de Atenção às Urgências e Emergências, e
neste contexto devem implementar protocolos de classificação de risco para tal.
Na Instituição pesquisada utiliza-se como protocolo de Classificação de Risco
Emergency Severity Index (ESI). Frente ao exposto foi possível evidenciar com
este estudo como vem sendo classificada a crise hipertensiva e atendidos os
pacientes no Serviço de Emergência desta Instituição.
Em relação à classificação de risco, ela é tarefa exclusiva do enfermeiro e
deve ser feita pelos enfermeiros capacitados e com habilidades para reconhecer
sinais e sintomas de gravidade, quando da chegada de um paciente em uma unidade
de urgência e emergência. Na literatura, há carência de estudos comparando a
classificação realizada pelo enfermeiro em relação às cores vermelha, amarela,
verde e azul. O que foi percebido neste estudo é que os enfermeiros
classificaram 53,5% dos pacientes na cor verde.
Em relação às queixas mais frequentes, entre as relatadas pelos pacientes,
estavam presentes a cefaléia, tontura, dor precordial, mal estar, náuseas,
epistaxe, vómitos e cefaléia em região occipital. Estes resultados são
similares aos estudos pesquisados (Barakat, 2001; Jacobs & Matos, 2005;
Silva, Silva, Heinisch,& Heinisch, 2007; Simons, 2008). Chama-nos a atenção
para o elevado número de sujeitos sem adesão ao tratamento, ou seja, 62 (11,1%)
neste estudo, considerando-se a falta de adesão ao tratamento como uma
comorbidade por se tratar a hipertensão de um sério problema de saúde pública e
a falta de adesão ao tratamento ser uma das razões da elevada taxa de
mortalidade.
O destino do paciente, após a consulta, foi a dispensa para a maioria, o que
aponta a uma inexistência de gravidade nos atendimentos, apesar da variação dos
parâmetros vitais observados, durante a avaliação de risco realizada pelo
enfermeiro, situação semelhante vista em estudos nacionais de grandes capitais
como São Paulo, Florianópolis e Salvador (Barakat, 2001; Jacobs & Matos,
2005; Silva et al., 2007).
Em relação aos exames complementares mais solicitados pela equipa médica, neste
estudo, exame laboratorial (sangue), raio x de tórax, tomografia de crânio e
eletrocardiograma também há abordagem de alguns deles em outros estudos
brasileiros, os quais destacam a importância das unidades básicas demonstrarem
ou apresentarem maior resolutividade para a demanda dos exames complementares
(urina, sangue e eletrocardiograma) serem absorvidos na atenção básica (Jacobs
& Matos, 2005; Furtado, Júnior,& Cavalcanti, 2004).
As condutas tomadas no atendimento dos pacientes que chegam com crise
hipertensiva vão de encontro do que preconiza a Sociedade Brasileira de
Cardiologia para tal. Após obtida a redução imediata da pressão arterial, deve-
se iniciar a terapia anti-hipertensiva de manutenção e interromper a medicação
parenteral. A hidralazina é contra indicada nos casos de síndromes isquémicas
miocárdicas agudas e de dissecção aguda de aorta por induzir ativação
simpática, com taquicardia e aumento da pressão de pulso. Em tais situações,
indica-se o uso de betabloqueadores e de nitroglicerina ou nitroprussiato de
sódio.
Em síntese, percebe-se que a população está em fase de compreensão do real foco
de atendimento do Hospital de Pronto Socorro, e ainda assim procura a
Instituição diante de um quadro de crise hipertensiva que pode ser considerado
um quadro grave com complicações muitas vezes irreversíveis, mas diante dos
factos, nota-se a necessidade premente de educar a população para a adesão ao
tratamento, bem como mudança nos hábitos de vida, além de avaliar os fatores de
risco modificáveis a fim de controlar os níveis pressóricos existentes. Logo,
entende-se que a população jovem está a ficar hipertensa ao passo que a
população idosa não está consciente da necessidade de aderir continuamente ao
tratamento, visto que, se trata de uma doença crónica e sem cura que sem
tratamento a longo prazo pode prejudicar outros sistemas do organismo
desencadeando desajustes e outras comorbidades.
Os resultados da pesquisa chamam a atenção para uma percentagem de (4,7%) de
jovens menores de 30 anos de idade atendidos com crise hipertensiva, este dado
pode estar relacionado a uma crescente elevação de hábitos alimentares
inadequados, obesidade e sedentarismo na população jovem, corroborando com o
estudo desenvolvido que demostram alguns registos que apontam jovens escolares
mais vulneráveis para modularem sentimentos e comportamentos a respeito do
próprio corpo durante essa fase, jovens de idade entre 10 e 19 anos podem
assumir hábitos alimentares inadequados, pois vêem-se pressionados por parentes
e amigos a investir na aparência e para isso assumem hábitos alimentares
inadequados (Furtado et al, 2004). Podemos inferir que o avanço da idade vem
muitas vezes acompanhado da prevalência de danos cardiovasculares e surgimento
de doenças associadas à tal complicação na população estudada.
Conclusão
Este estudo demonstrou os motivos pelos quais os pacientes apresentam níveis
pressóricos elevados, trazendo para discussão os subsídios necessários para
implementação de ações preventivas e educativas para a adesão ao tratamento.
Dessa forma, foi possível verificar que o maior contingente de sujeitos como
sendo da faixa etária entre 50 e 59 anos de idade 24,8%, do sexo feminino, raça
branca e moradores de Porto Alegre. A média de pressão arterial sistólica foi
maior em mulheres em relação aos homens, porém não houve diferença estatística
entre os grupos. A associação entre grau da hipertensão e faixa etária aponta
que ao maior percentual dos sujeitos com idade inferior a 40 anos de idade
apresentavam estágio I de hipertensão, os da faixa etária entre 40 e 59 anos
estágio II, e os com idade igual ou superior a 60 anos estágio III. Além disso,
a maior parte dos pacientes atendidos com crise hipertensiva foi classificada
como sendo verde, apresentavam diagnóstico prévio de HAS, e a principal queixa
foi cefaléia.
Observou-se que a maior parte dos pacientes foi encaminhada para UBS sem ser
medicado ou receber qualquer tipo de atendimento, o que poderia colocar a vida
do paciente em risco no trajeto do hospital até a UBS. Dentre os eventos que
poderiam colocar a vida em risco estão: síncopes, acidente vascular encefálico
isquémico, ou hemorrágico, rompimento de aneurismas, paragem
cardiorrespiratória, dentre outros. Os pacientes que foram atendidos
(medicados) receberam orientações e alta hospitalar, obtiveram o atendimento
preconizado pelo Ministério da Saúde – MS. Torna-se preocupante o facto de
alguns pacientes não terem aguardado para serem atendidos, este dado teria que
ser melhor analisado a fim de identificar a real causa da desistência e assim
qualificar o atendimento realizado.
Diante disto, torna-se importante implementar campanhas de prevenção, bem como
divulgação dos serviços disponíveis à comunidade no que se refere à informação,
como grupos de hipertensos, entre outras atividades como grupos de atividade
física, encontros com nutricionistas para elaboração de dietas saudáveis e
orientações para a saúde em geral com enfermeiros da atenção básica, pois se os
pacientes chegam ao Pronto Socorro com crise hipertensiva algum setor da saúde
pode estar a necesitar rever as suas estratégias de intervenção na atenção à
população hipertensa e neste caso a atenção primária em saúde.
Esta investigação tornou evidente a caracterização da população hipertensa em
estudo, o que possibilita às autoridades de saúde um diagnóstico da atual
realidade de atendimento no que se refere à hipertensão arterial, bem como os
motivos pelos quais ocorrem os prejuízos hipertensivos.
Este estudo retrata a problemática da hipertensão arterial confirmando o que
estudos previos acerca deste tema já comprovaram que a hipertensão arterial é
um problema de saúde pública, mas que pode ser controlado, porém necessita-se
de um programa abrangente e eficaz de maneira a identificar precocemente os
casos existentes chamando a atenção da população para a verificação periódica
da pressão arterial e a busca por atendimento diante das alterações, aderindo
de facto ao tratamento, bem como mudança nos hábitos de vida, prolongando o
tempo de vida, minimizando complicações secundárias e agregando qualidade de
vida diante do diagnóstico.