Cuidados de higiene - banho: significados e perspetivas dos enfermeiros
Introdução
Cuidar da higiene, define-se pela ação “executar: dar banho, mudar de roupa,
levantar da cama, associado a padrão cultural e nível socioeconómico.”
(Concelho Internacional de Enfermeiros, 2011, p. 96). O termo higiene abraça
distintas áreas que complementam e expandem o seu significado, tais como:
higiene coletiva, higiene mental, higiene profissional, higiene pública,
higiene social, higiene da habitação, higiene da alimentação, higiene corporal,
entre outros (Martins, 2009). No estudo desenvolvido, o termo higiene é
utilizado na área da higiene corporal, como um cuidado de Enfermagem – Cuidar
da Higiene/Cuidados de higiene.
Ao refletir sobre os cuidados de Enfermagem, em qualquer das suas diferentes
conceções, dirigimo-nos para o cuidado à pessoa de acordo com as suas
necessidades humanas fundamentais. Compreender tudo o que é indispensável à
vida da pessoa, procurando a sua suplementação, é o princípio base dos cuidados
de Enfermagem (Collière, 1989).
Tendo em conta que a dependência nos cuidados de higiene - banho surge
essencialmente associado à mobilidade alterada que a pessoa apresenta (Silva,
2006), o enfermeiro é considerado o profissional de saúde com competência para
a prestação do banho por este ser um cuidado considerado essencial ao ser
humano, um cuidado de manutenção da vida (Collière, 1989) e uma medida de
promoção e manutenção da saúde (Nightingale, 2005).
Ao longo do procedimento dos cuidados de higiene - banho, o caminho percorrido
entre enfermeiro/pessoa vai para além da técnica. Porém, apesar de este ter
sido objeto de estudos de investigação em diferentes tempos, exaltando-se como
fundamento da prática de Enfermagem, constata-se que a expansão do campo de
trabalho acarretou novos e atrativos interesses centrados na execução de
cuidados que requerem um maior grau de capacidade e julgamento (Castledine,
2003; Henderson, 2007). Este facto faz com que os cuidados de higiene - banho à
pessoa, de ação do enfermeiro, passem para plano secundário, delegado em
assistentes operacionais (Fonseca, Penaforte, & Martins, 2012; Mercadier,
2004).
É um facto que as perspetivas face aos cuidados de higiene - banho são
divergentes. Para uns, são tidos como um momento que oferece espaço de
continuidade, de ligação e com significado. Outros referem-nos como uma
execução repetitiva, obsessiva e precisa de atos, sem sentido, vazia de
significado simbólico, perdida nas rotinas e simplicidade (Penaforte, 2011).
Contudo, o facto de os enfermeiros dispensarem o tempo de dar ou acompanhar os
cuidados de higiene - banho da pessoa, onde podiam ouvir e observar, faz com
que tenham de encontrar durante o turno outras oportunidades de forma a
procurar avaliar com exatidão as necessidades que as pessoas apresentam
(Henderson, 2007; Sandelowski, 2002).
Objetivamos compreender o significado que os enfermeiros atribuem aos cuidados
de higiene - banho; identificar quais os focos de Enfermagem, relativos à
pessoa no seu todo, que os enfermeiros reconhecem aquando da prestação dos
cuidados de higiene - banho; e descrever o cuidado desenvolvido durante o
procedimento dos cuidados de higiene - banho.
Enquadramento
Numa análise da perspetiva histórica de Enfermagem, Nightingale (2005)
elucidava que a higiene pessoal era essência do cuidado à pessoa. Para além da
limpeza do corpo, proporcionava alívio e conforto, priorizando como princípio
na formação de Enfermagem a higiene diária do corpo e do ambiente.
Cuidar da higiene emerge como um cuidado autónomo e vital da disciplina de
Enfermagem (Downey & Lloyd, 2008). Representa-se por um conjunto de
práticas que visam a limpeza e cuidado ao corpo, contribuindo para o bem-estar
geral da pessoa, para o seu restabelecimento, para a sua segurança, conforto e
manutenção da autoestima (Potter & Perry, 2006).
Face às diferentes ações no cuidar da higiene, o banho surge como prática dos
cuidados de Enfermagem (Henderson, 2007). Deste modo, apresentamos o termo
composto: cuidados de higiene - banho especificando a ação intencional
executada pelo enfermeiro à pessoa.
Durante a licenciatura, o procedimento do banho é um dos temas que mais enfoque
tem no início da formação. Porém, o método pedagógico limita-se a ensinar e
aplicar a técnica, esquecendo todo o entrelaçar de cuidados presente no momento
(Collière, 2003).
Por exigir um contacto direto e próximo com a pessoa, os cuidados de higiene -
banho são um caminho para muitas outras atividades e respostas de Enfermagem,
que não só deixar a pessoa limpa. Proporcionam o desenvolvimento da relação e
interação enfermeiro/pessoa, gerando uma oportunidade de partilha de saberes
(Castledine, 2003; Martins, 2009), de preocupações face ao plano de cuidados
(Downey & Lloyd, 2008), de avaliação, ensino e observação da condição
física e psicológica da pessoa (Castledine, 2003; Corbin, 2008), de onde podem
gerar outros cuidados de Enfermagem essenciais de serem implementados.
Contudo, voltados para o contexto prático, constatamos permanecer o
entendimento dos cuidados de higiene - banho numa perspetiva de acessório, em
que se valoriza a tarefa (Martins, 2009; Silva, 2006). Apesar da complexidade e
dos conhecimentos científicos que os suportam, estes ainda são vistos como uma
tarefa simples, pouco significativa (Fawcett, 2003; Nóbrega & Silva, 2009).
Um momento por vezes considerado rotina, chegando a ser realizado sem o
envolvimento do enfermeiro (Nóbrega & Silva, 2009), onde se perde a
oportunidade de intervenção intencional de planear outros cuidados, ensinar e
conferir conforto e bem-estar à pessoa (Fonseca et al., 2012).
Da ligação entre as diferentes perspetivas existentes, face à falta de estudos
sobre o que os enfermeiros referem sobre esta temática, formularam-se as
seguintes questões de investigação.
Questões de Investigação
Qual o significado que os enfermeiros atribuem aos cuidados de higiene - banho?
Quais os focos de Enfermagem, para prestação de cuidados de Enfermagem à pessoa
no seu todo, considerados durante os cuidados de higiene - banho?
Como atuam os enfermeiros durante os cuidados de higiene - banho e que aspetos/
necessidades são privilegiados?
Metodologia
Face aos objetivos e questões de investigação partimos num estudo qualitativo,
de natureza descritiva – exploratória.
Conscientes que a prática dos cuidados de higiene - banho adquire um
significado contextual por unidades hospitalares, pois é nestas que a
intervenção mais vezes se realiza, primordialmente sendo dirigida por
enfermeiros, selecionamos os dois serviços de Medicina de uma Unidade
Hospitalar situada na região Norte do País, dado que pretendíamos observar os
participantes no desempenho das suas funções. Salienta-se a escolha destes
serviços por apresentarem grande incidência e prevalência de pessoas com
dependência para os cuidados de higiene –banho (Martins, 2009; Silva, 2006).
Através do método de amostragem não probabilístico, intencional, tendo o
tamanho da amostra sido definido de acordo com a qualidade dos dados recolhidos
e a sua saturação, foram selecionados 18 enfermeiros participantes. Constatou-
se, quanto ao género, que maioritariamente foram de sexo feminino (72,2%)
apresentando uma média de 11,5 anos de profissão, com um desvio padrão de 7,64,
e de 9,89 anos de trabalho no serviço alvo de estudo, com um desvio padrão de
5,56. Sobre a categoria profissional, seis eram enfermeiros especialistas, dois
enfermeiros especialistas e chefes de serviço e dez enfermeiros generalistas.
Quanto ao método de recolha de dados, optamos pelo recurso a dois diferentes
instrumentos: entrevista semi estruturada e observação não participante. A
possibilidade de poder recolher dados através de dois distintos instrumentos
permite complementar assim a observação da prática dos cuidados de higiene -
banho, com os dados que seriam referidos pelos participantes, o que permitiria
a posteriori, descrever e equiparar os resultados de acordo com diferentes
perspetivas.
Uma vez que objetivamos descrever como os enfermeiros atuam durante o
procedimento dos cuidados de higiene - banho, por exemplo se privilegiam o
momento para interagir e prestar atenção à pessoa, elaborámos um plano de
observação, tendo por base o procedimento descrito no “Manual de Normas de
Enfermagem - Procedimentos Técnicos” (Veiga et al., 2010), uma vez que este
manual é acreditado pela Administração Central do Sistema de Saúde e Ministério
da Saúde, proposto a ser implementado em todas as instituições hospitalares de
Portugal. O plano de observação adquiriu um formato de grelha fechada, dividida
em oito momentos cada um, com um espaço aberto para a anotação de factos que
fossem sendo observados.
O trabalho de observação foi sendo orientado à medida do desenvolver dos
resultados das observações realizadas, isto é, à medida que íamos conhecendo os
resultados dos dados recolhidos a nossa observação foi-se tornando mais eficaz.
Foram realizadas 16 observações. Marcámos o início da observação pelo momento
em que o enfermeiro se dirigia à unidade da pessoa com o propósito de lhe
prestar os cuidados de higiene – banho e o final pelo ato do enfermeiro arrumar
todo o material utilizado no procedimento com a intenção de sair da enfermaria.
Cada observação durou em média 20 minutos, sendo as notas de campo elaboradas
logo após o momento da observação.
Dada então a necessidade de obter um maior conjunto de informações face à
problemática em estudo, optámos também pela entrevista semi estruturada para
que, posteriormente, os discursos pudessem ser comparados com os comportamentos
que os participantes desenvolvessem durante os cuidados de higiene - banho. Foi
elaborado o guião de entrevista de acordo com os objetivos do estudo e as
questões de investigação previamente formuladas. A realização das entrevistas
decorreu durante o turno do enfermeiro, após a prestação dos cuidados de
higiene - banho, precisamente quando este concordasse e dispusesse de algum
tempo livre, para responder às questões. Foram realizadas 18 entrevistas, uma
vez que foram incluídos os enfermeiros-chefes de serviço, cujos pareceres
consideramos cruciais, embora não estejam presentes na prestação do cuidado
directo. O registo foi feito em gravação áudio, de forma a possibilitar a sua
análise, fiável e sustentada, dos conteúdos abordados.
Para a efetivação do estudo e salvaguarda das considerações ético-legais,
elaborámos um pedido de autorização ao Concelho de Administração e à Comissão
de Ética da unidade hospitalar, salvaguardando o consentimento informado dos
participantes.
No que concerne a análise dos dados, quer das observações, agrupados e
resumidos (identificados por O), quer os discursos das entrevistas transcritos
(identificados por E), primariamente efetuamos uma leitura geral do conjunto de
todos os achados. Esta leitura foi efetuada tendo por base a técnica de análise
de conteúdo, por operações de desmembramento das narrativas em categorias,
segundo reagrupamentos semelhantes, o que permitiu atribuir significado aos
conteúdos que constituíam as mesmas categorias, face ao fenómeno em estudo.
Atentas às categorias encontradas, de forma a reorganizá-las e reagrupá-las,
realizámos uma segunda leitura, isolada, questão a questão, linha a linha, das
notas de campo das observações e de todos os discursos das entrevistas,
levando-nos à construção de uma grelha de análise dos dados, reagrupados e
validados. Fizemos este reagrupamento tendo por base a hipótese de que uma
característica é tanto mais frequentemente citada quanto mais importante é para
os participantes do estudo (Bardin, 2008), sendo assim criadas categorias e
subcategorias, com vista a dar resposta às questões de investigação previamente
apresentadas.
Resultados
Da análise dos dados conquistados pelas entrevistas, obtivemos quatro distintas
categorias (Figura_1). A primeira categoria surge: O banho, um instrumento de
cuidados. Um cuidado base que adquire o significado de prestação do cuidado de
higiene como essencial à manutenção da higiene “O significado principal do
banho é manter a higiene corporal … de conferir os cuidados de higiene” (E17),
que proporciona ao enfermeiro uma oportunidade de avaliação “É um momento
importante para fazer a avaliação do doente, …” (E1) e intervenção na pessoa
“no banho é uma altura boa para a gente … fazer exercitar as partes menos
ativas do doente …” (E4), com um objetivo bem descrito de promoção do conforto
e relaxamento “proporcionam um conforto imenso ao doente, …” (E3) e um “…
momento também para os doentes relaxarem um bocadinho …” (E1).
Na categoria O banho, um tempo de relação, este adquire o significado de
oportunidade do enfermeiro ir ao encontro da pessoa, tecer laços de confiança e
de caminhar com ela no âmbito do seu projeto de cuidados, num espaço de
comunicação e presença “durante o banho o enfermeiro tem a oportunidade de
estabelecer comunicação com o doente …” (E17); “é aquele período em que estás
mais tempo com o paciente …” (E13).
Surge ainda a categoria O banho, um processo de organização de cuidados.
Fundamenta-se com o significado de veículo que permite a recolha de informação
e aplicação de conhecimento, com vista o diagnóstico “para mim o momento do
banho é dos momento mais importantes que eu considero para diagnosticar, …”
(E7), a execução de cuidados “o maior intervalo de tempo que passamos com o
doente e com o doente mais exposto para nossa implementação de intervenções.”
(E2) e avaliação das necessidades da pessoa de forma direcionada e organizada
“para avaliar a mobilidade, quais são os défices que o doente tem e que não
tem, …” (E14).
Questionamos quais os focos de Enfermagem, relativos à pessoa no seu todo,
considerados pelos enfermeiros durante o procedimento. Daqui surge a categoria
O banho, um momento de atenção às necessidades, onde os focos mais referidos
foram: pele; mobilidade; autocuidado de higiene; orientação; dor; ventilação
“Auto cuidado de higiene, estado de consciência, dor, mobilização … quase todos
…” (E0).
Através do método de observação, o cuidado desenvolvido no momento do banho,
obtivemos duas categorias (Figura_2). A primeira dirige-se para a dinâmica do
cuidado – Dinâmica do banho, calcarizada em três distintas fases: abordagem e
instrução do procedimento, o cuidado com o corpo e finalização do cuidado.
A abordagem e instrução do procedimento pode ser descrita de duas formas
distintas. Uma, onde os enfermeiros proporcionam um espaço de comunicação/
interação para o desenvolver do cuidado “Enfermeiro H. dirige-se ao pé da Dona
Carolina e diz: “Bom dia Dona Carolina, bem-disposta? Dormiu bem? Sente-se
bem?” Pergunta ainda: “Vamos dar uma refrescadela ao corpo sim? Pode ser?” A
pessoa respondeu que sim” (O2). Outra, onde os enfermeiros abordam a pessoa num
sentido imperativo de cuidar, não existindo tempo de instrução do procedimento,
sendo esta a forma mais observada. Simplesmente “veste o avental e com uma
bacia com água aproxima-se da Dona Gracinda e diz: “Bom Dia”. Baixa a cama e
diz ainda: “Vamos tomar banho! …” (O6).
Sobre o cuidado com o corpo, tal como descrito nos manuais, o enfermeiro,
executa o cuidado no banho de forma sequencial, despir a pessoa, lavar e secar
as diferentes partes do seu corpo, aplicar creme e pentear: “Começa por retirar
o pijama da pessoa … Cobrem o seu corpo com um lençol e iniciam o
procedimento.… Após a lavagem da face as enfermeiras iniciam a lavagem do corpo
por partes. …” (O2; O3; O4; O5; O7; O8; O9; O10; O11; O12; O13; O14; O15). O
cuidado com o corpo no banho resulta assim do reagrupar de um conjunto de
ações, justificadas quer pela aprendizagem académica do procedimento, quer
pelas formas instituídas nas organizações ou serviços hospitalares que o
enfermeiro desenvolve com a pessoa.
A finalização do cuidado, caracterizada por ações ritualizadas, como o levantar
das grades, o dar um jeito nos lençóis da cama, o arrumar do material e
organização do espaço da pessoa, também pode ser descrita de duas distintas
formas, ou seja, de uma forma mais ou menos afetuosa, demonstradora de atenção:
“Arruma o material, lava as mãos e diz: “Pronto Dona Carolina, já terminámos,
passo já de novo por aqui, está bem? …” (O2), ou os enfermeiros que: “Arruma o
material, afasta as cortinas e sai simplesmente de perto da Dona Maria sem se
despedir.” (O0).
Ainda na procura pelo cuidado desenvolvido no banho consideramos também a
categoria A pessoa no banho. Ficou percetível que ao longo do procedimento a
pessoa pode adquirir duas distintas posições, a de parte integrante do cuidado
ou a de recetora do mesmo.
À pessoa como parte integrante do cuidado damos ênfase à sua participação no
seu cuidado. Enaltece-se a sua parceria, a sua possibilidade de colaborar no
cuidado,“incentiva-a a colaborar no seu tempo: “Ora agora levante o braço
esquerdo, isso para lavar aqui debaixo do braço … agora o direito …” (O4).
Contudo, foram observadas atitudes como: “uma conversa paralela entre as
enfermeiras enquanto ambas aplicam creme no corpo da pessoa, esquecendo-a. Não
se observa qualquer interação entre enfermeira/pessoa …” (O1). Demonstra-se
aqui o distanciamento da pessoa face ao cuidado. A pessoa é vista como algo
passivo, mero recetor, sujeito às conversas laterais entre outros e não consigo
durante o banho, assumindo um significado face à pessoa que recebe o cuidado.
Discussão
Indo ao encontro da literatura, apurámos que os cuidados de higiene - banho
revelam-se como forma de manter a pessoa limpa, porém também proporcionam um
espaço de escuta ativa, comunicação, presença, partilha de saberes e interação
entre enfermeiro/pessoa, promovendo-lhe conforto e relaxamento. Corroboramos
que enquanto instrumento de cuidados, estes criam uma oportunidade de avaliação
e intervenção na pessoa, face às áreas de atenção (focos) que mais foram
referidas pelos enfermeiros como privilegiadas.
Descrevemos a dinâmica do banho em três etapas: início - Abordagem e instrução
do procedimento, desenvolvimento - O cuidado com o corpo, e encerramento -
Finalização do cuidado, tal como já Penaforte (2011) tinha concluído num dos
seus trabalhos. Um momento que a pessoa pode ser parte integrante do cuidado ou
um mero recetor do mesmo (categoria A pessoa no banho).
A pessoa como parte integrante do cuidado, para além da sua participação,
adquire um sentimento de pertença no mesmo. Os cuidados de higiene - banho têm
aqui o significado de tempo de presença do enfermeiro com a pessoa. Sendo o
momento dos cuidados de higiene - banho espaço de contacto entre enfermeiro/
pessoa (Collière, 1989; Henderson, 2007), permite-lhe aqui comunicar com a
mesma, onde através do observar, tocar, pode interpretar a condição do corpo,
as expressões físicas, verbais e comportamentais, podendo ajustar o cuidado,
pondo em prática as capacidades cognitivas e afetivas da mesma (Martins, 2009).
Porém, os cuidados ligados à satisfação das necessidades fundamentais são
muitas vezes classificados como demasiado simples, não carecendo de saberes,
como cuidados mecânicos e rotineiros, muitas vezes evitados pelos enfermeiros
(Nóbrega & Silva, 2009). Sabendo isto, e embora constatássemos que os
enfermeiros tinham presente o conjunto de cuidados que do momento dos cuidados
de higiene - banho se podem gerar, questionamo-nos o porquê de não ser
exequível como é descrito pela literatura.
Descobrimos, através dos relatos das entrevistas, que tal pode ser compreendido
face a um conjunto de fatores que interferem com o cuidado desenvolvido.
Descrevemos como Interferências no momento do banho, sendo elas: a visita
médica “Ao final de semana é mais calmo, não tem aquele pára/arranca dos
médicos, as alterações …” (E16);
por norma num dia da semana temos muitas mais coisas para fazer, temos as
alterações terapêuticas, e se pensarmos bem tudo junto vai-nos ocupar mais
tempo então a nossa tendência natural é tentarmos nos cuidados de higiene
“pouparmos” um bocadinho mais o tempo para podermos ter tempo para fazer as
outras coisas, … (E13), a complexidade das necessidades da pessoa …depende do
serviço, do número de doentes que o serviço tenha, da complexidade de cada um
muitas vezes, … há alturas em que o serviço está muito pesado, … temos doentes
muito dependentes e que requerem muito do tempo nosso e nem sempre podemos, …
(E10);
o rácio enfermeiro/pessoa “há alturas em que o serviço está mais sobrecarregado
com doentes dependentes, e nós em vez de termos de prestar dois ou três banhos
no leito temos de prestar quatro ou cinco ….” (E3) e os recursos materiais “nem
sempre temos toalhas muitas vezes temos de limpar com resguardos, nem sempre
temos almofadas, nem sempre temos camisas, …” (E12), o que faz com os
enfermeiros tenham de ser criativos, ter uma boa capacidade de gestão e
organização, sem deixar os cuidados ficarem perdidos.
Consideramos que estas interferências podem ser fatores que influenciam
negativamente a dinâmica desenvolvida nos cuidados de higiene - banho, podendo
levar a que o enfermeiro considere a pessoa como mera recetora do cuidado,
dando maior enfase à assistência ou à realização de procedimentos que exijam
maior complexidade técnica (Castledine, 2003; Fawcett, 2003),
Constatamos que os cuidados de higiene - banho, são vistos apenas como
acessórios enquanto técnica de cuidados, se o seu objetivo se centrar em tornar
a pessoa limpa. Contudo, serão vistos como essenciais se a partir deste cuidado
o enfermeiro visar contribuir o bem-estar da pessoa, tal como refere Castledine
(2003).
Os resultados permitem-nos refletir entre o que é dito pelos profissionais e o
que é feito pelos mesmos, sabendo que este paralelismo afeta a construção e
caracterização do cuidado por quem o recebe. Revela-nos que se torna crucial
aprender e reaprender o cuidado de Enfermagem enquanto é implementada a ação
dar banho pelo enfermeiro, tornando-a humanizada, cujo palco deste cuidado deve
ser ocupado pelo enfermeiro e pela pessoa, sendo executada como um veículo
promotor de saúde, desde a formação inicial e ao longo de todo o percurso do
enfermeiro, através de uma reatualização constante de conhecimentos e inter-
relação entre os mesmos.
Contudo, consciencializamos como limitação de estudo a existência de
subjetividade. Isto é, baseámo-nos apenas nas opiniões de um grupo de
enfermeiros, contudo este grupo observado pode ter sido condicionado por
fatores que, enquanto investigador, não conseguimos controlar, como a afluência
de pessoas internadas no serviço na época de recolha de dados ou os enfermeiros
escalados para os dias de trabalho de campo, dado que apenas selecionamos uma
pequena amostra de uma população. Associado a este fator, a falta de dados de
outros estudos, e escritos no âmbito da temática, limitou-nos no que diz
respeito à fundamentação, comparação de resultados e discussão dos mesmos.
Conclusão
Os cuidados de higiene - banho demonstram-se como uma oportunidade que permite
ao enfermeiro diagnosticar as necessidades que mais foram referidas pelos
enfermeiros de serem privilegiadas na sua atenção. Ao longo da dinâmica dos
cuidados de higiene - banho, a pessoa pode adquirir duas formas distintas de
fazer parte do mesmo: sendo parte integrante, participando ativamente no
cuidado, ou apenas como recetora deste. A pessoa como parte integrante, adquire
um sentimento de pertença no mesmo. Os cuidados de higiene - banho tem aqui o
significado de tempo de presença do enfermeiro com a pessoa, onde privilegia
desta oportunidade para comunicar num tempo individualizado com a mesma,
permitindo-lhe recolher informações que levam a que os cuidados de higiene -
banho sejam um veículo de instrumento de diversos cuidados. Face às
interferências referidas no momento dos cuidados de higiene - banho,
consideramos que estas podem ser fatores que influenciam negativamente a
dinâmica desenvolvida ao longo do procedimento, e que podem levar a que o
enfermeiro considere a pessoa como mera recetora do cuidado, face a um conjunto
de necessidades às quais ainda tem de dar resposta.
Face ao descrito, concluímos que os cuidados de higiene - banho são um veículo
para a prestação de múltiplos cuidados de Enfermagem, que enriquecem o
conhecimento do enfermeiro e o valoriza enquanto cuidador.
Dos dados expostos sobre a caracterização dos internamentos nas unidades
hospitalares, particularmente nos serviços de medicina, sabemos que o número de
pessoas dependentes para o cuidado aumenta. Assim, sendo o cuidado de higiene -
banho, uma necessidade humana fundamental, que deve ser suplementada aquando da
incapacidade da pessoa para o prestar, que cuidados de higiene - banho devem
oferecer? Devem ser apenas ação dos enfermeiros? Quais as razões que levam os
profissionais a delegarem este cuidado, sendo que o consideram um cuidado de
Enfermagem na sua execução?
Procuramos evitar que as unidades hospitalares sejam vistas como lugares frios,
desprovidos de calor humano. Deste modo, torna-se crucial repensar na prestação
dos cuidados de higiene - banho, conservando-se o cuidado direto à pessoa.
Neste sentido, este estudo dá ênfase à prática do cuidado de forma humanizada,
não apenas pela simples ação de bar banho pelo enfermeiro, mas dos múltiplos
cuidados que deste momento se podem gerar, no sentido de cuidar da pessoa de
forma individualizada face às suas necessidades. Será, assim, desejável que
outros estudos nesta área sejam desenvolvidos, desde a formação académica dos
cuidados de higiene - banho, às possíveis diferenças/vantagens na prestação dos
cuidados de higiene - banho apenas como ação a ser desenvolvida pelos
enfermeiros, bem como às questões éticas que se colocam aos enfermeiros pelo
confronto com o ver a pessoa nua exposta, na qual exige uma conduta ética e
profissional capaz.