Vivências da interrupção espontânea da gravidez em primigestas no primeiro
trimestre gestacional: um estudo fenomenológico
Introdução
A área da saúde materna e obstetrícia acolhe a vida e a alegria da família
apesar de se conhecerem situações de insucesso em contexto obstétrico. Uma
dessas situações é o aborto espontâneo que interrompe de forma inesperada o
curso da gravidez. A perda de uma gravidez desejada, principalmente se é a
primeira, implica várias perdas tais como a da maternidade, da autoestima, da
pessoa amada, do estatuto social e de um futuro antecipado imaginado (Leal,
2005; Soubieux, 2009). A mulher, após a Interrupção Espontânea da Gravidez
(IEG), vive momentos difíceis, de stresse e de grande fragilidade
psicoemocional (Kersting, Kroker, Schlicht, & Wagner, 2011; Rowlands &
Lee, 2009) que interessa conhecer para melhor cuidar.
Na sua prática profissional, os profissionais de saúde em geral, e em
particular os enfermeiros de saúde materna e obstetrícia, são muitas vezes
confrontados com esta situação. Trata-se de uma perda gestacional com
características especiais pelos sinais pouco evidentes de gravidez, dado o
curto tempo de gestação, e pela controvérsia ético-política que envolve o
estatuto legal do embrião. Nestas circunstâncias, os profissionais de saúde
podem sentir dificuldades nas intervenções ao nível do relacionamento e apoio à
mulher, ou ao casal, sendo levados a recorrer ao evitamento ou limitando o
contacto ao estritamente necessário em termos de cuidados técnicos. Qualquer
das opções não é minimamente satisfatória, profissional e pessoalmente.
Os trabalhos publicados em Portugal no âmbito do conhecimento das vivências das
mulheres que experimentam a IEG no primeiro trimestre de gestação são escassos.
A pertinência do tema é justificada pela necessidade de conhecer o significado
do fenómeno do ponto de vista de quem o está a viver pois, através do
conhecimento dessa realidade, pode-se melhorar a prática profissional em
obstetrícia cuidando da pessoa de forma individualizada e ajudando nesta
situação de vida.
Assim, foi delineado o seguinte objetivo para o estudo realizado: Compreender a
vivência da IEG no primeiro trimestre nas mulheres primigestas.
Enquadramento
Esperar um filho, especialmente o primeiro, é um dos acontecimentos mais
importantes da vida da mulher quando corresponde a uma gravidez desejada e ao
desejo de maternidade (Camarneiro & Justo, 2010; Camarneiro, 2011). Muito
antes da gravidez, a mulher interioriza o seu papel de mãe, sonha ter filhos.
Após a conceção, o vínculo inscrito no sonho da mãe passa a ser realidade,
entre a mãe e o feto, e intensifica-se (Camarneiro, 2011; Keating & Seabra,
1994).
Associada à gravidez está a expectativa do sucesso da mesma, com o nascimento
de um bebé imaginado ao longo da gestação. Mas nem sempre a gravidez se
desenrola como previamente antecipado e, por vezes, é interrompida. As
interrupções inesperadas da gravidez podem ser espontâneas ou médicas. As
interrupções voluntárias dependem da decisão da mulher, sem indicação médica.
Em todos os casos há expulsão do produto da conceção, ou seja, um aborto. Este
é definido como o fim da gravidez antes das 20 semanas de gestação. É a perda
mais comum e a sua prevalência é de 15 a 27% em mulheres entre os 25 e 29 anos,
aumentando para 75% em idade superior a 45 anos. O risco eleva-se nas mulheres
com aborto prévio (Kersting & Wagner, 2012).
As situações de perda em obstetrícia são designadas perdas precoces. Existem
três tipos de perdas precoces: perda gestacional precoce; perda gestacional
tardia (nado morto); e morte neonatal. Ao contrário daquilo que é o pensamento
comum, Weiss (1998) considera as perdas precoces como as mais dolorosas de
todas as perdas.
Assim, lidar com a perda por IEG torna-se particularmente complicado por se
tecer quase totalmente ao nível do imaginário, dada a ausência de evidências
físicas da existência do bebé (Rolim & Canavarro, 2001; Soubieux, 2009).
Uma interrupção da gravidez reveste-se de sentimentos negativos de frustração,
tristeza, desapontamento, raiva, culpabilização, ambivalência, ansiedade e
vergonha (Soubieux, 2009). Se estes perdurarem no tempo podem desencadear
crises de ansiedade ou perturbações depressivas (Kersting et al., 2011;
Rowlands & Lee, 2009). Além disso, a adaptação psicológica a uma nova
gravidez fica comprometida (Kersting et al., 2011).
Moulder (1994) considera que o sofrimento dos pais perante a perda da gravidez
depende da intensidade, consistência e valência da ligação afetiva que colocam
na gravidez, o que não tem relação direta com o tempo gestacional, com os
significados atribuídos à gravidez e à maternidade, com a culpabilidade sentida
(deficiência ou ações danosas) ou com o temor de complicações na futura
gravidez.
Após a perda do bebé desejado ocorre o luto, que será normal e adaptativo. O
processo normal de luto é um trabalho pessoal de adaptação à perda, uma
experiência profunda e dolorosa, que implica sofrimento mas também a capacidade
de encontrar esperança, conforto e alternativas significativas. É um processo
complexo, variável, não estático e, apesar de a sua progressão ser ordenada, as
respostas individuais não são imutáveis sendo moldado por valores culturais,
normas e costumes. O processo de luto de uma perda gestacional, embora tenha
uma estrutura sequencial semelhante ao processo de luto normal, apresenta
particularidades que o tornam único (Keating & Seabra, 1994; Cabral, 2005).
Questão de investigação
A questão de investigação que levou à realização deste estudo foi a seguinte:
Quais as vivências da mulher primigesta que sofre a perda de um filho por
aborto espontâneo no primeiro trimestre de gravidez?
Metodologia
Considerando o objeto de estudo, foi utilizada uma abordagem epistemológica
compreensiva qualitativa numa perspetiva fenomenológica.
Dado existirem diversos modos de prosseguir com uma investigação
fenomenológica, nesta foi seguida a proposta de Loureiro (2002; 2006) que tem
por base alguns trabalhos pioneiros por si citados, nomeadamente Giorgi,
Colaizzi e Van Kaam, e que procurou convergir num único modelo o essencial da
proposta de Husserl e alguns conceitos de outras abordagens fenomenológicas.
A amostra foi obtida de forma intencional e é constituída por seis
participantes que sofreram uma interrupção espontânea da gravidez durante o
primeiro trimestre e que foram acompanhadas no serviço de Obstetrícia e
Ginecologia do Hospital da Horta, na ilha do Faial. A este Hospital foi pedida,
e concedida, autorização para realizar o estudo. A seleção das participantes
seguiu os seguintes critérios de elegibilidade: ter tido um aborto espontâneo
há menos de seis meses; ser primigesta; não se coibir de falar sobre a sua
vivência da IEG; e ter boa expressão verbal.
As participantes foram contactadas previamente e foi obtido o consentimento
informado. Foi-lhes garantida a confidencialidade de toda a informação. Sendo o
anonimato impossível, a promessa de sigilo constituiu uma garantia tendo-se
substituído os nomes por um número de identificação.
A informação foi recolhida por entrevista não estruturada, encetada pelo
enunciado de uma questão aberta, sendo cada participante convidada a
desenvolver a sua ideia e a prosseguir a conversa em profundidade. O guião foi
validado entre os investigadores, servindo como guia orientador, com o
propósito de uniformizar todas as entrevistas efetuadas. Foi feito registo em
fita magnética e também a anotação de informações em papel. A entrevista
realizou-se no domicílio, espaço onde as participantes referiram sentir-se mais
confortáveis, conseguindo-se um clima propício à comunicação. Ao longo das
entrevistas foram utilizadas algumas interpelações não diretivas, tendo por
base o discurso da participante, de modo a permitir e garantir uma maior
fluidez na continuidade do discurso e pensamento. Cada entrevista terminou
quando as participantes consideraram ter esgotado a informação. A duração média
foi de 40 minutos cada. Os investigadores deram por terminada a recolha da
informação, realizada através das entrevistas, quando encontraram saturação no
conteúdo das entrevistas realizadas.
As entrevistas foram reproduzidas na íntegra, após audição repetida por dois
dos investigadores, precavendo prováveis erros de transcrição. Foi necessário
realizar novo contacto com duas participantes para clarificação de conteúdos.
Concluída a transcrição, procedeu-se à sua validação por um perito, professor e
investigador experiente.
O tratamento e análise da informação basearam-se no quadro de Loureiro (2002;
2006). Teve início com a leitura intuitiva e global da informação para a
apreensão da essência do fenómeno. Em seguida, fez-se a formação de um perfil
constitutivo com a criação de unidades naturais de significado, da atribuição
de significados através da interpretação e a formação de temas centrais. Na
construção dos temas centrais procurou-se a convergência ou divergência entre
as unidades de significado.
Para realizar a validação da organização dos achados em perfis constitutivos,
recorreu-se a um investigador com experiência em investigação fenomenológica,
que avaliou o processo desde a segmentação de texto à criação de uma estrutura.
A triangulação dos achados e dos investigadores foi realizada. Os
investigadores participaram no estudo do fenómeno e na análise dos achados com
igual contribuição, instaurando um consenso intersubjetivo entre os elementos
assegurando uma maior fidelidade dos achados. Quanto à transferibilidade, esta
foi garantida pela seleção intencional das participantes, procurando aquelas
que viveram o mesmo fenómeno e foram capazes de o comunicar. Relativamente à
confirmabilidade, todo o processo de investigação foi estruturado e documentado
de modo a permitir a um auditor avaliar todo o processo até à sua origem,
possibilitando-lhe verificar a informação em bruto (transcritos em verbatim),
analisar as anotações aquando da criação de unidades naturais de significado,
os significados formulados, os temas, o perfil constitutivo de cada tema e o
índice temático.
Resultados e Discussão
A essência do fenómeno vivido pelas mulheres na IEG, encontrada a partir da
interpretação compreensiva dos resultados, é o desfazer de um sonho. Denota uma
vivência repleta de falta de sentido (non sense) resultante da privação súbita
da gravidez e da maternidade desejada. Os discursos revelaram que as
participantes desejavam muito ser mães e perderam o objeto de amor, ao
contrário das expectativa criadas, “de repente correu tudo mal” (E4); “é como
se tivesse acontecido tudo ao contrário” (E1). Os enunciados tiveram por base a
impossibilidade de concretização do desejo causando uma sensação de vazio e de
oportunidade perdida, “o desejo de um filho que de um momento para o outro
deixa de existir“ (E2). “quando eu engravidei não pensei que isso podia
acontecer, ninguém pensa … achava que era raro” (E5). De facto, com o
desenvolvimento da obstetrícia e diminuição da mortalidade perinatal, a
confirmação da conceção tornou quase certa, para os pais, a presença de um
filho nos braços (Cabral, 2005). No entanto, os números divulgados
internacionalmente contam com uma percentagem elevada (cerca de 20%) de perdas
gestacionais (Kersting et al., 2011).
Nas palavras das participantes, a grande felicidade de se saberem grávidas
correspondia à concretização de um sonho, agora perdido abruptamente “É o
desfazer de um sonho” (E6). Kersting e Wagner (2012) afirmaram que os pais, em
geral, não têm tempo de antecipar ou preparar-se para a mudança provocada pelo
aborto espontâneo. Assim, lidar com a perda durante o processo gravídico torna-
se complexo e difícil porque provoca a emergência de angústias de morte num
momento de desejado encontro com uma nova vida (Soubieux, 2009). O desfazer
deste sonho só poderá ser reparado, segundo as participantes, quando
conseguirem ter o seu próprio filho “É uma coisa que eu acho que se eu não
tiver o meu próprio filho, acho que nunca vai passar. …” (E3). Muitas mulheres,
e os seus companheiros, desejam engravidar tão cedo quanto possível numa
tentativa conjugal de reparar a parentalidade anteriormente falhada (Soubieux,
2009).
A estrutura encontrada para explicar a essência do fenómeno - o desfazer de um
sonho, organizou-se em três temas centrais: Vivência de sentimentos negativos;
Vivência da elaboração interior; Vivência do desejo de garantia da maternidade.
Estes temas coexistem, embora a força com que se manifestam revele ser
diferente ao longo do tempo. Isto é, numa fase inicial, imediata à IEG, os
sentimentos negativos estão exacerbados dando lugar a uma elaboração interior
progressiva, cada vez mais organizada e, embora não se extingam, perdem a
intensidade. O desejo de garantia da maternidade é atualizado a cada momento e
torna-se mais preponderante à medida que o tempo passa estando subjacente o
refazer o sonho (Figura_1).
Vivência de sentimentos negativos
Os sentimentos negativos são vividos, pelas participantes, de forma
desorganizada e confusa, “é uma mistura de sentimentos, que a gente nem sabe às
vezes o que é que sente ao certo …” (E6). Revelam ambivalência revestida de
labilidade emocional, “é muito complicado de gerir as coisas porque tanto
estamos contentes como de repente estamos tristes …” (E4), e consideram a
situação difícil de explicar, “Este tipo de acontecimentos vai-nos buscar
sentimentos que nós nem imaginamos que temos …” (E1).
Associada à ambivalência está a experiência do desamparo que decorre do
inesperado, do imprevisível, “foi um choque enorme …” (E5), “uma deceção muito
grande …” (E5), “como se nos tivessem tirado o chão” (E3), ficando as mulheres
numa condição de grande desilusão.
O desamparo vivido desencadeou sofrimento/dor emocional que acompanha a mulher
a cada momento, “a dor em si não é só física, mas também é psicológica, aquela
que fica com a gente, que vai com a gente para casa …” (E6). Esta dor
manifesta-se em tudo o que lembra a maternidade e o objeto de amor perdido,
“temos de nos habituar à ideia que estamos grávidas e depois de um dia para o
outro sabemos que não é assim, que não estamos grávidas, quase que temos de
esquecer a ideia que estivemos grávidas …” (E4).
Bem patente nos discursos está a tristeza sentida perante a IGE, “Sentia-me
melancólica, chorava como … digo mesmo, como uma tola … (E6)”. A tristeza
mistura-se com outros sentimentos negativos, nomeadamente a revolta, “O
sentimento maior que eu senti, … tristeza, senti mesmo tristeza e revolta. …
Foram assim, esses dois sentimentos, de tristeza e revolta …” (E2).
Neste caso, vem à tona a inevitável questão do porquê do aborto. As
participantes perguntaram-se: “Porque é que isto aconteceu comigo?» (E1),
“Porquê eu?” (E4). E, no meio da revolta nem sempre expressa, compararam-se com
mulheres que não mostraram o desejo de maternidade, afirmando, “tanta gente tem
filhos que não os quer … e eu quero” (E5), “É uma raiva, um desespero,
impotência, frustração imensa …” (E3) e exteriorizando a frustração de lhes ter
acontecido a perda do bebé.
Na tentativa de justificar os sentimentos negativos expressos, as participantes
apontaram responsabilidades à forma como lhes foi dada a notícia, “É a única
coisa que me magoou imenso, foi a forma como o médico me disse! A enfermeira
ficou ali ao pé de mim e não disse nada, só me agarrou a mão” (E3). A
comunicação da morte e a informação adequada e repetida das suas causas são
fundamentais na fase de choque que pode ser profundamente alterada pela
inadequação do pessoal de saúde que tem uma atitude defensiva face aos pais
impedindo todo o processo (e.g., Canavarro, 2004; Cabral, 2005). Mas, como
referem Ferreira, Góis, Faria, e Correia (1990), tanto o choque como a
descrença e a recusa parecem ser uma tentativa compreensível para escapar a uma
notícia traumática, que foge às expectativas, subsistindo um período de crise
no qual existe o impacto e o aumento de tensão associado ao stresse.
Perante os factos, e indicando uma notória culpabilidade, a mulher fez uma
procura incessante de comportamentos que possam ter desencadeado a perda da
gravidez, “uma pessoa fica a pensar, será que foi alguma coisa que eu fiz …
será que foi por ter pegado numa pana de roupa? Ou por ter subido escadas? …”
(E3), “mas porque correu mal comigo... o que foi que eu fiz de mal?” (E5). Para
além destes enunciados de culpabilidade, a vivência revela-se igualmente na
alusão à intervenção divina e no presságio de punição e injustiça. Por exemplo,
referiram que durante o curto período de gravidez sonharam com sangue, facto
que consideraram um presságio do aborto, ou um antever do mesmo, “sonhei com
sangue, era um presságio do aborto” (E4).
A experiência de perda, independentemente dos fenómenos inconscientes que lhe
estejam adjacentes, envolve um processo de luto com sentimentos de angústia e
culpabilidade (Ferreira et al., 1990; Soubieux, 2009; Walsh & McGoldrick,
1998). Em geral, as mulheres tendem a culpabilizar-se de que a perda resultou
da sua deficiência ou de ações danosas. Além disso, a ansiedade e as distorções
das fantasias maternas são mecanismos saudáveis de ajustamento a um novo
equilíbrio psicológico, suscetíveis de contribuir para a reorganização da
mulher face ao novo papel. Ao questionarem a culpabilidade, as primigestas
estão a elaborar o luto. Progressivamente começam a ultrapassar o
acontecimento, confirmando a perceção de que o aborto dificilmente teria seria
evitado e que, muitas vezes, é de causa desconhecida, “Hoje eu já sei que não
fiz nada que tenha provocado isso.” (E3).
Através da interpretação das entrevistas, é de notar que as participantes que
mencionaram ter apresentado sinais físicos preditivos de aborto, anteriores ao
confronto com a perda real, como por exemplo dor física e metrorragias, foram
ponderando a possibilidade de inviabilidade da gravidez. Contudo, apesar dessa
fase preparatória, manifestaram igual dificuldade em aceitar esse desfecho
talvez por persistir a esperança de que a situação se revertesse, ”não queria
acreditar no que se estava a passar … Não queria aceitar” (E2). Contudo, aos
poucos foram fazendo um luto antecipatório, tornando menos intenso, mas
igualmente doloroso, o choque provocado pela notícia.
Sentimentos de inveja foram desencadeados no confronto com a maternidade de
outras mulheres, “eu não podia ver uma grávida, ou saber que, … que alguém
estava grávido, sentia-me triste. Sentia uma inveja, entre aspas, inveja no bom
sentido. …” (E2); “inveja que a gente encontra num carrinho de bebé, noutra
mulher, noutra situação que a gente gostava de estar e ainda não pode estar. …”
(E6). Faz parte do processo de luto de uma perda gestacional, de acordo com Kay
(1997, cit. in Cabral, 2005), a inveja e ciúmes dirigidos às mulheres grávidas
e mães, e o evitamento do contacto social ou pessoal com mulheres nessas
situações. Para estas mulheres, ouvir o choro de um bebé constituía uma
experiência lancinante “Um bebé a chorar … eu não queria estar ali!” (E1). A
este propósito, a experiência do internamento em espaço partilhado com outras
grávidas, puérperas e recém-nascido foi dramático, traumatizante e doloroso. A
dor física associada à dor emocional foi expressa devido à confrontação com o
berço vazio, desencadeada pelo contacto com as outras grávidas e puérperas.
Kersting e Wagner (2012) afirmaram que a perda perinatal tem um forte impacto
emocional nos progenitores e na família, com a presença de stresse pós-
traumático, stress e, depressão, ansiedade e perturbações do sono.
Subjacente a todas as vivências refletidas anteriormente subentende-se que
alguns dos sentimentos se irão desvanecer com o passar do tempo, no entanto, a
experiência do aborto nunca será esquecida. Libertar não é esquecer, pois a
perda da pessoa amada alguma vez será aceite (Cabral, 2005).
Vivência da elaboração interior
A elaboração interior associada à IEG é um aspeto fundamental para a saúde
mental e materna, segundo a interpretação dos relatos das participantes. Esta
elaboração interna organiza-se à volta de um conjunto de facilitadores como
sejam a atribuição de causalidade externa, a procura de aspetos positivos da
gravidez perdida, o apoio da rede informal e, por fim, a aceitação. São
organizadores que constituem atenuantes face aos sentimentos negativos
vivenciados acima analisados.
A atribuição de causalidade externa encontra-se, por exemplo, na menção à
Natureza como encarregada da interrupção da gravidez na altura certa, evitando
uma situação complicada mais tarde, “em vez de avançar com esta gravidez e ter
um filho deficiente, valeu mais a natureza tomar o seu rumo e rejeitar …” (E2).
Encontra-se, também, na menção ao acaso, justificado com a alusão à frequência
da IEG noutras mulheres, “muita gente já passou pela mesma situação que eu …”
(E3). A causalidade externa diminuiu a culpabilidade e ajudou a apaziguar a
dor.
A procura de aspetos positivos, com sentido para si própria, na gravidez
perdida foi também facilitadora da elaboração interior. As participantes
tomaram como positiva a possibilidade de terem engravidado, pela garantia da
fertilidade e do fim da angústia de uma possível esterilidade, “foi muito
doloroso, eu … por um lado fico feliz porque … pelo menos sei que consigo
engravidar … tinha medo de não ser capaz de engravidar. …” (E5). Consideraram
também positivo a IEG ter ocorrido numa fase precoce da gravidez, antes de
haver um maior vínculo ao bebé, “talvez fosse melhor assim, antes agora do que
mais à frente e depois sentir e ver já um bebé formado, ia ser mais difícil …”
(E2).
Não há dúvida que o vínculo entre a mãe e o filho intensifica com o decorrer da
gravidez, pois haverá uma maior vivência da mesma e do papel maternal
construído ao longo do tempo (Camarneiro, 2011).
O apoio da rede informal foi um facilitador sentido pelas participantes. A
possibilidade de saberem ter alguém próximo com quem contar foi referida como
uma grande ajuda. Não especificaram o tipo de ligação com essas pessoas mas
entendeu-se serem pessoas próximas e securizantes, “eles estavam lá e era
sempre um … , tipo um porto de abrigo” (E3). Mencionaram ser positivo poderem,
progressivamente, dialogar com alguém que tenha vivido uma experiência
semelhante, ajudando a perceber e a reatualizar o assunto, “eu senti muita
necessidade de falar … com amigos, pessoas que passaram pelo mesmo…ajudou-me
saber que acontece … não sou só eu … e perceber o que é que estava a acontecer
…” (E4). E, algumas mulheres, movidas pela compensação do diálogo, manifestaram
estar dispostas a conversar com outras que passem por um sofrimento idêntico,
de forma a ajudá-las a ultrapassar a perda. Por exemplo, como nas unidades de
significado seguintes, “sei que em relação ao aborto, se alguma mulher que
…quisesse vir falar comigo, estaria pronta a falar e dar a minha opinião e
tentar ajudá-la a ultrapassar, mas …falar disso … ainda durante os primeiros
meses era difícil …” (E6).
Nery, Monteiro, Luz, e Crizóstomo (2006) afirmam que, no geral, as mulheres
tornam-se mais sensíveis após um aborto, procurando falar sobre as suas emoções
com quem deseje participar nestes momentos de dor. Na referência à rede
informal, a mulher refere os apoios sentidos e aqueles que sente vontade de
oferecer. O seu marido ou companheiro não está incluído nessa rede,
provavelmente porque a mulher sente que ele faz parte do processo. O apoio
social, assim como boas relações conjugais, tem um papel muito importante no
ajustamento da mulher depois de uma perda gestacional (Kersting & Wagner,
2012).
A aceitação da perda, neste tema, ocorre quando as memórias dolorosas vão
diminuindo e dão lugar à esperança no futuro, “o tempo cura tudo ou pelo menos
alivia”, “só poderei ultrapassar o episódio quando conseguir ter o meu próprio
filho” (E2). Denota-se, em todas as entrevistas, de forma implícita ou
explícita, a referência à convicção de que o tempo é o melhor remédio ajudando
a aceitar o acontecimento que jamais será esquecido. Ao expressarem a sua
vivência relativamente ao passar do tempo, as participantes afirmaram a certeza
de que o aborto desencadeou sentimentos e emoções anteriormente desconhecidas
que provocaram uma transformação interior, mas não provocaram alterações
físicas, porque se consideram bem fisicamente, “sinto-me bem, faço a minha vida
normal, já ultrapassei, graças a Deus!” (E6).
Ao aceitar a IEG é-lhes possível falar abertamente sobre a situação encarando-
a de uma forma diferente, adquirindo autoconfiança. No entanto, quando param
para pensar, revivem o incidente e fazem uma idealização da gravidez e do bebé,
“via um bebé e sonhava que fosse meu, tinha a sensação que queria que fosse meu
…” (E6). A idealização constitui um obstáculo à aceitação. Uma perda
gestacional é a perda de um bebé no imaginário da sua mãe e apresenta
particularidades que o tornam único (Cabral, 2005; Keating & Seabra, 1994).
Com o passar do tempo, apesar da aceitação, a perda do bebé desejado vai
despertar na mulher uma sensação de vazio, desolação e dor quando há a
confrontação com a ausência do filho desejado. Citando Walsh e McGoldrick
(1998, pág. 32), “A perda não é simplesmente um evento discreto; ao contrário,
ela envolve um processo transacional ao longo do tempo …”.
A elaboração da perda na IEG torna-se particularmente complicada por se tecer
quase totalmente ao nível do imaginário, dada a ausência de evidências físicas
da existência do bebé. Além disso, “…a morte de um filho curto-circuita a
expectativa normal de o ver crescer e de o ver dar continuidade à linha
familiar, única forma de imortalidade do ser humano” (Keating & Seabra,
1994, p. 292). Em muitos destes casos, as mulheres apresentam risco de
perturbação psicológica subsequente à IEG pelo que deve ser feita a sua
monitorização em consultas de follow-up (Kersting & Wagner, 2012).
Vivência do desejo de garantia da maternidade
O desejo de engravidar, para garantir a maternidade e refazer o sonho,
permanece e é comum a todas as participantes. É, porém, manifesto o medo de
virem a passar pelo sofrimento anteriormente experienciado adiando essa
decisão, “a 2ª gravidez vai ser vivida com grande ansiedade, angústia e medo”
(E2).
Apesar disso, nada demove estas mulheres do desejo de engravidar. Com o
decorrer do tempo, uma segunda gravidez é encarada com otimismo surgindo a
esperança de um final feliz; “temos que ter fé, acreditar que vai tudo correr
bem” (E5). Segundo Nery et al. (2006), a mulher tem tendência a procurar apoio
na esperança de engravidar novamente, cuja gravidez será vista como uma solução
para ultrapassar o sofrimento. Vão, assim, tomando consciência progressiva das
etapas ultrapassadas e, aos poucos, preparam-se para a próxima gravidez. No
entanto, sabem que jamais será vivida com a alegria e inocência anterior, “Já
não é aquela alegria como às vezes as primeiras mães têm, a gente já tem mais …
um medo, uma precaução, uma sensação que pode acontecer novamente. Eu acho que
é mais isso.…” (E6).
Uma forma defensiva interessante de constatar é a alusão à sua boa condição
física que as faz sentir-se preparadas para voltar a engravidar “sinto que
estou como estava antes… tenho umas menstruações normais sinto-me bem faço a
minha vida normal.” (E1), mas a vivência de uma próxima gravidez será
influenciada pela crença, embora implícita, de que o seu insucesso pode
depender de determinado comportamento.
E, embora permaneça o medo de vir a passar pelo sofrimento experienciado,
adiando a decisão, a gravidez e a concretização da maternidade terão de ocorrer
para refazer o sonho perdido. As dúvidas e inquietudes ocorrem como defesa
contra um novo sofrimento em caso de perda e a nova gravidez é, muitas vezes,
mantida em segredo durante os primeiros meses, pois o casal perdeu a confiança
na sua capacidade de serem pais (Soubieux, 2009).
Apesar das divergências teóricas relativamente a uma gravidez subsequente a uma
situação de perda, as posições mais conciliadoras referem que, embora seja um
potencial obstáculo ao normal desenrolar do processo de luto, esta poderá ter
efeitos reparadores na mãe no que concerne à auto-desvalorização relativa à
capacidade maternal e à culpa persecutória (Cabral, 2005; Soubieux, 2009).
Conclusão
As perdas gestacionais são um problema de saúde pública e requerem uma especial
atenção por parte dos profissionais de saúde, na medida em que podem ser causa
de uma ampla gama de perturbações emocionais na mulher, no casal e na fratria.
Os enfermeiros e os enfermeiros especialistas em saúde materna e obstetrícia
estão na linha da frente dos cuidados a estas mulheres e podem monitorizar o
desenvolvimento do processo de luto associado à vivência da IEG.
A vivência da IEG depende, no entanto, das expectativas da mulher relativamente
à gravidez e à maternidade. Se essas expectativas são positivas, há o desfazer
de um sonho, caracterizado por um processo traumático ligado à privação do
objeto de amor que desencadeia vários sentimentos negativos, uma necessidade de
elaboração interna e a garantia da maternidade.
As IEG nem sempre são reconhecidas pela sociedade, família e amigos como um
acontecimento significativo na vida do casal por lhes ser difícil imaginar que
os pais já estão fortemente vinculados ao seu filho antes de nascer. Porém, as
manifestações de perda e luto após a IEG são consideradas uma afirmação do
vínculo da mulher ao seu bebé durante o período de gestação, devendo ser
promovido o respeito pelos sentimentos expressos pela mulher e seu marido/
companheiro.
Apesar de estes resultados não poderem ser generalizados a todas as mulheres
que vivenciam uma IEG, existe transferibilidade contextual o que permite que
sejam generalizados a contextos semelhantes.
A perda gestacional é um processo complexo e é necessária uma perspetiva
pluridisciplinar no atendimento à mulher e casal. Cuidar a mulher em luto por
interrupção espontânea da gravidez deve constituir um desafio em cuidados de
saúde.