Cuidar: da condição de existência humana ao cuidar integral profissionalizado
Introdução
O cuidar tem sido caracterizado como tema central na enfermagem. Os enfermeiros
encontram neste conceito, cuidar/cuidados, a definição do que fazem, e do
conhecimento que utilizam e criam enquanto disciplina.
Leininger (1978) diferencia cuidado, de cuidado profissional e de cuidado
profissional de enfermagem. Se assumirmos que o cuidado é o resultante de
cuidar, o esclarecimento deste conceito torna-se útil para a reflexão
epistemológica e para construção disciplinar. Sendo o cuidar uma ação e uma
atitude disponibilizada e utilizada pelos humanos, qual o sentido que lhe é
atribuído? Como se estruturou esse sentido? É recente ou funda-se nos
primórdios da humanidade? Sendo uma ação e atitude generalizadamente humana,
qual o significado da sua apropriação, como conceito central, por um grupo
profissional, e por uma disciplina do conhecimento (enfermeiros/enfermagem)?
Para o esclarecimento deste conjunto de interrogações partimos de textos da
antiguidade clássica, eventualmente dos primeiros textos onde expressamente
surge a noção de cuidar.
Encontramos na literatura três textos clássicos de grande interesse para a
compreensão do conceito cuidar, são eles: O Primeiro Alcibíades de Platão (428/
427-348/347 a.C.); o drama Filoctetes de Sófocles (497/496–406/405 a.C.); a
Fábula/Mito Cura de Higino (64–17 a.C.).
No primeiro texto, Platão, coloca em diálogo Sócrates (469/470–399 a.C.) e
Alcibíades (450-404 a.C.) para dissertar acerca do cuidado de si; no segundo,
Sófocles num drama sobre a desgraçada vida de Filotectes revela-nos a dimensão
ética do cuidar; no terceiro, Higino transmite-nos através de uma fábula/mito a
essência estruturante do cuidar para a dimensão humana.
Como objetivo desta reflexão teórica propomo-nos ir ao encontro do significado
profundo do cuidar e dos contributos que daí surjam para a construção
disciplinar. A reflexão teórica parte da identificação de textos primordiais
para a noção de cuidar, da sua leitura e análise reflexiva pessoal, tendo em
conta interpretações que filósofos e outros pensadores foram construindo sobre
os mesmos textos, encontrando sentidos e significados para o conceito cuidar em
confronto interpretativo com o pensamento de teóricos de enfermagem da
atualidade.
Desenvolvimento/Dissertação
O Primeiro Alcibíades, de Platão
No dizer de Foucault (1994) é em O Primeiro Alcibíades que se encontra a mais
remota elaboração filosófica do cuidado de si. Ainda suscita alguma dúvida a
atribuição da autoria deste texto a Platão. Sendo que a data da sua redação é
incerta, pelo que alguns consideram que o texto pode ser apócrifo.
No Primeiro Alcibíades, Platão, coloca em diálogo o jovem aristocrata
Alcibíades com Sócrates. Tem como ponto de partida a questão de saber como este
pode conquistar o poder de governar os demais (Dalbosco, 2006). “Sócrates faz
Alcebíades [Alcibíades] ver que sua formação ao governo de outras pessoas
dependeria de sua constante comparação com seus rivais, mas, além disso,
dependeria também, fundamentalmente, do modo como ele iria cuidar de si mesmo”
(Dalbosco, 2006, p. 33).
A forma do cuidado de si expressa em Alcibíades era determinada por estas
condições: “1 - aqueles que deveriam se ocupar de si mesmos eram jovens
destinados a exercer o poder; 2 - o objetivo era o bom exercício do poder; 3 -
a forma exclusiva onde ocupar-se de si é conhecer a si próprio” (Damasio, 2014,
p. 1).
Segundo Foucault (1994), conhecer-se a si mesmo está ligado ao cuidado de si, é
a necessidade de tomar conta de si que conduz ao conhece-te a ti próprio.
Estamos perante o cuidado de si como condição para o conhece-te a ti próprio,
ideia implícita em toda a cultura greco-romana e explicita após o Alcibíades.
Vejamos um excerto:
Sócrates – Então responde: o que significa a expressão Cuidar de si
mesmo? Pois pode muito bem dar-se que não estejamos cuidando de nós,
quando imaginamos fazê-lo. Quando é que o homem cuida de si, mesmo?
Ao cuidar de seus negócios, cuidará de si mesmo? (Platão, 2007, p.
273)
E ainda,
Sócrates – E então? Poderíamos conhecer a arte que nos deixa
melhores, se não soubéssemos o que somos?
Alcibíades – Impossível.
…
Sócrates – Quer seja coisa fácil, quer difícil, Alcibíades, o que é
certo é que, conhecendo-nos, ficaremos em condições de saber como
cuidar de nós mesmos, o que não poderemos saber se nos
desconhecermos. (Platão, 2007, p. 275)
Damasio (2014) refere que Foucault ao considerar a existência destes dois
preceitos realça que “em Alcebíades, no entanto, o gnôthi seauton [conhece-te a
ti mesmo] sempre teve uma espécie de subordinação ao epimeleia heautou [cuidar
de si], como uma maneira de aplicação concreta da regra geral de ocupar-se de
si-mesmo” (p. 1).
Na Grécia clássica [período de 500-338 a.C.] e, depois, na Grécia
helenística [338-146 a.C.], as máximas fundamentais da arte de viver,
que traduzem a grande regra da conduta tanto para a vida individual
quanto para a vida social dos gregos, prescreviam não apenas gnoti
sauton, o que significa conhece-te a ti mesmo, mas também
epimeleisthai sauton, isto é, tomar conta de si, cuidar de si, ter
cuidado consigo. (Rocha, 2011, p. 9)
Efetivamente é em Foucault (1994) que encontramos clarificado que para os
gregos, o cuidado de si configura uma das regras de conduta da vida social e
pessoal.
O cuidado de si é um conceito que vai evoluir ao longo dos séculos até aos dias
de hoje acompanhando o desenvolvimento das sociedades. Desde logo evolui da
Grécia Clássica para a Grécia do Império.
Esta ênfase no cuidado de si, predominante na era helenística, devia-
se ao fato de sua cultura cosmopolita ter modificado completamente o
modo de viver tradicional do cidadão e do povo grego em geral. A res
publica deixara de ser regida pelas Assembleias das Cidades e passara
a ser trabalhada pelos administradores do Império. Perdendo seu
estatuto de cidadão, o homem grego tornou-se um súbdito do Imperador,
e não encontrando mais, na Polis, a proteção que nela antes tinha,
ele foi coagido pela força dos acontecimentos a fechar-se em si
mesmo, a buscar no seu íntimo novas energias, novas metas morais
pelas quais viver. Assim, o homem descobriu-se como indivíduo, e, não
contando mais com a tutela das Cidades-Estado, teve que tomar, nas
suas mãos, as rédeas de seu próprio destino. (Rocha, 2011, p. 9-10)
Na Grécia, na passagem das Cidades-Estado para o Império, transforma-se o
conceito ocupar-se de si, universalizando-se. O cuidar de si deixa de ser
apenas uma obrigação ligada à educação, sobretudo das elites citadinas, para se
transformar naquilo que todos se devem ocupar ao longo da vida (Foucault,
1994).
Quando o essencial deixa de estar naturalmente assegurado pela cidade-estado e
o enfoque para a sobrevivência é conduzido ao plano individual, o cuidado de si
adquire outra dimensão.
“O cuidado de si só é questionado ou valorizado e percebido como essencial para
o ser humano, a partir do momento que as pessoas tomam consciência do seu
direito de viver e do estilo de vida que têm.” (Carraro & Radunz, 2003
citado por Silva et al., 2009, p. 5). “O cuidado de si tornou-se um verdadeiro
fenómeno cultural como princípio de toda conduta racional,… Não se ignorando
que ele sofreu uma série de outras transformações no cristianismo primitivo,
medieval, no renascimento e no século XVII.” (Damasio, 2014, p. 1).
Castro, Viana, e Bara (2010) referem Foucault, segundo o qual “a razão mais
essencial pela qual o preceito cuidado de si foi sendo apagado da história do
pensamento ocidental se chamaria de momento cartesiano … nascimento da
racionalidade moderna no século XVII” (p. 1282). Esta racionalidade qualifica o
conhece-te a ti mesmo e desqualifica o cuidado de si.
A requalificação do cuidado de si vem a surgir posteriormente em A Comédia
Humana de Balzac (1830-1840), “trata-se de um trabalho que inclui todo o ser do
sujeito para tornar sua vida uma arte autofinalizada como na cultura de si do
período do helenismo …” (Castro et al., 2010, p. 1297).
O conceito de cuidado de si, sob o ponto de vista da disciplina de enfermagem,
torna-se aparentemente próximo do conceito de autocuidado, a este propósito
Silva et al. (2009) refere que o “autocuidado está centrado no paradigma da
totalidade, adota o pressuposto de que o ser humano é a somatória de suas
partes … já o cuidado de si está atrelado ao paradigma da simultaneidade … a
pessoa é um todo maior…” (p. 7). Assim, segundo estes autores, o autocuidado
liga-se ao paradigma da totalidade, onde a saúde adquiriu um aspeto objetivo,
totalizante, como resultado de soma de partes, por outro lado, o cuidado de si,
relaciona-se com o paradigma da simultaneidade que valoriza o subjetivo do ser
humano. Ambos de interesse para a perceção do cuidar nos cuidados de enfermagem
hoje.
Filoctetes, de Sófocles
Resumo do drama, no relato de Carvalho (2008):
Filoctetes participou na expedição dos Atridas contra Ílion ao
comando de sete naus. Não chegou às praias troianas: em Crise, junto
ao altar da divindade que dava nome à ilha, mordeu-o no pé uma
serpente. A ferida infetou de modo voraz e pestilento, tornando-
o imprestável para a missão; pus repugnante escorria dela, dores
intoleráveis provocavam gritos e gemidos que, de tão horríveis,
selvagens e agoirentos, perturbavam libações e sacrifícios. Ulisses
persuadiu os outros chefes a abandoná-lo na erma ilha de Lemnos; nove
anos volvidos, o adivinho troiano Heleno, capturado pelo Cefalénio,
predisse que Troia não cairia sem Filoctetes e o seu arco….
A tragédia de Sófocles parte do ponto em que Ulisses aporta a Lemnos,
acompanhado de Neoptólemo, com a missão de levar a arma e o herói.
Não podendo expor-se, por temer a vingança … [de Filoctetes], ciente
de que força e persuasão seriam inúteis, usa perversamente o jovem
[Neoptólemo], instruindo-o a enganar Filoctetes, ganhando-lhe a
confiança para que o seguisse, crente de que o resgatava de regresso
à pátria.
O filho de Aquiles [Neoptólemo], começa por recusar, em nome de
princípios morais, mas obedece. O estratagema de Ulisses resulta.
Filoctetes sofre um episódio doloroso violentíssimo e, antes de cair
no sono, consigna ao jovem o arco. Ao acordar, percebe-se de novo
traído e abandonado, inerme, à mercê das feras, sem poder prover à
subsistência. Neoptólemo, já tocado de admiração pela força
existencial do herói e de piedade pelos seus tormentos, revolve-se na
crise moral que o instiga a seguir os sãos princípios da sua
verdadeira natureza; tem um rebate de consciência, revela a verdade,
volta atrás e restitui o arco, contrastando Ulisses. Às ameaças deste
e aos argumentos benévolos do jovem, que lhe asseguram a cura e a
glória em Troia, Filoctetes resiste, recusando ajudar os responsáveis
pela sua miséria, e persuade Neoptólemo a regressarem a casa,
abandonando o exército Atrida ao fim desastroso.
Porque a ordem universal não pode ser distorcida e para que se cumpra
o obscuro plano que a rege, aparece Héracles, deus ex machina,
induzindo-os a navegar para Troia e a conquistá-la, garantindo a
reconciliação do herói consigo mesmo, com a história e com o divino.
(Carvalho, 2008, p. 156)
Estamos perante o abandono. Abandono de um ser em sofrimento, e de
aproveitamento da situação de desfavorecimento, mas também pelo rebate de
consciência que conduz à compaixão e ao cuidar.
Para Gemelli (2010), encontra-se em Filoctetes
intrincadas e tensas relações entre os personagens que precisam uns
dos outros não apenas para realizarem ou alcançarem seus objetivos,
mas até mesmo para se definirem.… Neoptólemo é o mais suscetível dos
três personagens dessa tragédia por sua condição ainda potencial … O
jovem nesta missão, encontra ou testemunha, pela primeira vez, toda a
grandiosidade e a baixeza que resulta das decisões dos homens.
(Gemelli, 2010, p. 32)
A partir da personagem paradigmática de Filoctetes, Carvalho (2008), propõem-se
avaliar
as dores que atravessam as nossas vidas [e que] têm feito especular
filosofia, literatura e arte”… “ninguém sofreu como ele, segundo o
coro de Sófocles («De nenhum outro mortal / eu, sei, nem de outiva,
nem por o ter visto, / de homem que tenha encontrado sorte mais
adversa do que este»), usarei as suas infinitas dores – tormento
físico, ultraje do banido, solidão do inválido, consumição do ódio,
desespero metafisico…. (Carvalho, 2008, p. 155)
A tragédia Filoctetes, de Sófocles, transporta-nos para a dimensão ética do
cuidar apelando “à compaixão para com o Homem, à escala singular” (Zagalo-
Cardoso & Silva, 2010, p. 84).
Estes autores interrogam-se:
Esta belíssima narrativa, já com dois mil e quinhentos anos, que
mensagem ética pode imprimir, na reflexão sobre a proteção das
pessoas ditas com “deficiência” física? Olhando para o exemplo de
Neoptólemo, deveríamos compadecer-nos de Filoctetes somente por causa
das suas chagas ou por ver nele outro rosto, um outro rosto humano,
que nos interpela a exigir de nós uma postura respeitosa para com
todos os humanos. (Zagalo-Cardoso & Silva, 2010, p. 86)
O questionamento vai mais longe, para Zagalo-Cardoso e Silva (2010),
pois sendo todos nós pessoas necessitadas e prestadoras de cuidados
não somos propriamente um estorvo para os outros como o herói grego
foi tratado pelos companheiros. Se pensarmos na falta de Cuidado,
numa perspetiva mais ampla, vamos encontrar essa atividade abominável
dentro das nossas próprias casas, uma vez que é, também, natural que
os idosos e os doentes se vejam acometidos de uma redução das suas
habilidades físicas e psicológicas para o desempenho das suas
atividades: não é por outro motivo se não a nossa falta de cuidados
que não raramente vemos estes ficarem esquecidos …. (Zagalo-Cardoso
& Silva, 2010, p. 86)
A dimensão ética está desde logo colada ao cuidar, quando se é impelido a
cuidar responde-se necessariamente a uma opção, encontra-se solução assertiva
ou não assertiva, uma resposta dilemática para um problema que nos confronta.
A Fábula/Mito Cura, de Higino
Borges-Duarte (2010) no texto A Fecundidade Ontológica da Noção de Cuidado. De
Heidegger a Maria de Lourdes Pintasilgo, recorda-nos que Heidegger reproduz no
parágrafo 42 de Ser e Tempo, a fábula/mito cuidar, recolhida por Hyginus
[Higino] na sua coletânea de Fabulae com o n.º 220. Reproduzindo-a no
essencial, desta forma:
Certo dia, ao atravessar um rio, o Cuidado (Cura) viu um terreno de
barro. Pensativo, tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma.
Enquanto refletia sobre o que tinha feito, apareceu Júpiter. Cuidado
pediu-lhe que lhe insuflasse espírito. Júpiter acedeu de bom grado.
Quando, porém Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado,
Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse imposto o seu nome.
Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam, surgiu a Terra (Tellus). Mas
quando também ela quis dar o seu nome à criatura, por ter sido feita
de barro, que era um pedaço do seu corpo, começou uma grande
discussão. De comum acordo, pediram a Saturno que fizesse de juiz. E
ele tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: Júpiter, porque lhe
deu o espírito, receberá de volta este espírito, por ocasião da morte
dessa criatura. A Terra, que lhe deu o corpo, receberá, também de
volta o seu corpo, quando a criatura morrer. Ao Cuidado, porém, que
moldou a criatura, ficará esta entregue durante a sua vida. E uma vez
que há entre vós acalorada discussão acerca do nome, decido eu que
esta criatura será chamada Homem (homo), isto é, feita de humus, que
significa terra fértil. (Borges-Duarte, 2010, p. 118-119)
Rocha (2011) chama a atenção que “o termo latino Cura, usado por Higino, tem
muitos significados, entre os quais o de tratamento das doenças… No contexto da
fábula, o termo Cura tanto pode ser traduzido por cuidado, quanto pelos termos
angústia, preocupação, inquietação e solicitude” (p. 4). Refere ainda (Rocha,
2011) que,
quando se tratou de dar um nome à figura modelada, não houve consenso
entre os seus personagens. Júpiter, o deus do céu e a deusa da terra,
Tellus, não chegando a um consenso sobre o nome da figura, apelaram
para Saturno, o deus do tempo, a fim que ele dirimisse a questão. E é
precisamente no veredicto pronunciado por Saturno [deus do tempo],
que se encontra o essencial da narrativa de Higino. (Rocha, 2011, p.
10)
Segundo Borges-Duarte (2010),
o essencial parece-me ser: a criação humana não é cunhada nem pelo
espírito, nem pelo corpo, que lhe são emprestados em vida, mas que
com a morte se dissolvem e retornam a quem lhos emprestou, mas por
aquilo que lhe deu forma – o Cuidado, que o transe e mantém em vida….
(Borges-Duarte, 2010, p. 120)
Acrescentando,
não é a distinção de alma e corpo e a sua união constitutiva o que
caracteriza ontologicamente o humano, mas o seu levar o ser no seu
ser, ocupando-se dele, de si, cuidando de e tendo cuidado,
desvelando-se por e no viver. É este cunho, eminentemente temporal,
que define formalmente o Dasein como ser o aí, designação
heideggeriana do humano na sua suprema dignidade. (Borges-Duarte,
2010, p. 120)
Em Silva et al. (2009) encontramos clarificação “a cura faz parte constitutiva,
mas quem vai decidir é o tempo, pois o homem não será nada se não for o tempo,
o mundo. O ser só existe enquanto ser-no-tempo” (p. 3). Enquanto ser vivido,
vivente ou com potencial para viver, não é espirito nem matéria, é projeto e/ou
concretização de vida.
Laviola (2013, p. 22) menciona que Heidegger, no Ser e Tempo, “a partir da
angústia, como abertura de possibilidades e com um encontrar-se a partir de si
mesmo… apresenta o ser Dasein como cuidado”. O homem é assim entendido “como um
poder ser no mundo. E isso o angustiará” (Laviola, 2013, p. 21).
O Dasein comporta três carateres fundamentais ontológicos intimamente unidos
entre si: A existencialidade – poder ser do ser ai – ligado à liberdade de
escolha; fatualidade – poder ser, um ser-adiantado em relação a si – em algum
lugar, a ser lançado no mundo; ser-do-decair, a fuga diante do estranhamente
dele mesmo, motivado pela angústia. E, é precisamente porque é um poder-ser,
seu modo de ser não é o de uma realidade objetivamente dada ou essencialmente
determinada.
Heidegger (2012) refere que “Segundo Scheler, a pessoa nunca deve ser pensada
como uma coisa ou como uma substância; ela é ao contrário, a unidade imediata
covivida do vivenciar – e não uma coisa somente pensada por trás e fora do
imediatamente vivido” (p. 155).
Acerca da importância essencial do cuidado em Heidegger, encontramos em Boff
(1999),
do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de
toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer
que ele se acha em toda atitude e situação de facto. Quer dizer, o
cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele
faça qualquer coisa. E, se fizer, ela sempre vem acompanhada de
cuidado e imbuída de cuidado. (Boff, 1999, p. 13)
O “conceito de cuidado remetido ao ser com os outros” onde a “sua compreensão
começa a partir da ocupação com utensílios e a seguir com a solicitude para com
os outros” (Almeida, 2008, p. 14).
Para Roselló (2009) “o cuidar, …, está na mesma génese do ser humano, pois é
Cuidado quem cria o homem e lhe protege. Precisamente por isso, a ação de
cuidar revela algo muito próprio da humanidade do homem, revela sua íntima
constituição.” (p. 118).
E ainda,
mediante a ação de cuidar, o ser humano se humaniza, ou seja, assume
plenamente sua humanidade e, além disso, assemelha-se enormemente a
seu criador, o que significa que a ação de cuidar enobrece o ser
humano, o eleva à categoria dos deuses, pois mediante ela imita seu
criador, o deus Cuidado. (Roselló, 2009, p. 118)
Também para Boff (1999) “no cuidado se encontra o ethos fundamental humano” (p.
1), para ele a ética mínima que salvaguarda a vida, as relações sociais e a
preservação da natureza funda-se precisamente na essência do ser humano como
cuidado. Ainda em Boff (1999) “o cuidado somente surge quando a existência de
alguém tem importância para mim e passo a dedicar-me a ele” (p.2), concluído
Silva, et al. (2009) “cuidar de alguém é ter estima e apreço pela pessoa,
querendo o seu bem-estar de forma integral.” (p. 2).
Roselló (2009), cita Pellegrino (1985) dizendo que o cuidado integral é uma
obrigação moral dos profissionais da saúde, englobando quatro sentidos:
compaixão; ajudar na autonomia; convidar a desejar-se ajudar; colocar alguém no
centro de ação. Atribuindo ao cuidado, como refere Silva et al. (2009)
“desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato; um modo de ser
mediante o qual a pessoa sai de si e centra-se no outro …”(p. 2).
Retomando uma perspetiva heideggeriana, num enquadramento psicanalista, aqui
com proveito para o enriquecimento concetual do cuidar, diz Rocha (2011)
“clinicar é dedicar-se ao cuidado dos clientes com preocupação, desvelo e
solicitude. Sendo assim, o desdobramento que Heidegger fez da Sorge (cuidado)
em Besorgen (ocupação) e Fürsorgen (preocupação e solicitude) abre perspetivas
novas …” (p .23).
Voltando a Boff (1999) “cuidar é mais do que um ato é uma atitude. Portanto,
abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma
atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento
afetivo com o outro” (p. 12).
Em Laviola (2013) “a solicitude do cuidado com o outro, ou seja, a preocupação-
com é um elemento constitutivo do homem. Faz parte de seu modo-de-ser. Quando
este se relaciona com os outros, a marca da preocupação, do cuidado evidencia-
se” (p. 26), e segundo esta autora, Heidegger, utiliza este mito “exatamente
para ilustrar que a solicitude é marca do homem no mundo. Ela seria um cuidado
integral, que abrange todas as dimensões do homem…” (p. 10).
De todo, cuidar, é muito mais do que prestar cuidados (fazer), para além da
ação dirigida, é disponibilidade, solicitude e compaixão. Como bem expressa
Hesbeen (2001), muitos profissionais da saúde
podem, quer por hábito, quer pontualmente, exercer a sua profissão
sem, por várias razões, cuidarem ou estarem verdadeiramente atentos à
singularidade da pessoa à qual se dirigem. Nesses casos, estão a
prestar cuidados mas não a cuidar. A ajuda que prestam – e que convém
não subestimar – é, à partida, limitada porque depende essencialmente
de atos ou tarefas dirigidas ao corpo da pessoa – o corpo objeto –,
mas não verdadeiramente à pessoa – corpo sujeito. (Hesbeen, 2001, p.
17)
De outra grandeza é o alargamento da consideração do cuidar, indo para além do
ato (prestar cuidados), para a atitude (desvelo, solicitude, disponibilidade,
compaixão – cuidar).
Esta reflexão poderá ajudar na abertura do conceito à significação acerca do
cuidar em enfermagem procurando a especificidade disciplinar. Queirós (2014)
constata num estudo sobre os conceitos disciplinares em uso por estudantes de
mestrado e de licenciatura em enfermagem que “o cuidar é o termo e conceito
mais utilizado com maior apropriação”. (p. 40).
Mas nem sempre se consegue perceber se existe por parte dos enfermeiros a
interiorização da riqueza conceptual e o sentido operativo que o termo cuidar
proporciona.
Conclusão
Seguindo a classificação dos cuidados de Leininger (1978), referida
anteriormente, o cuidar profissional de enfermagem, sendo mais do que prestar
cuidados, é mais do que o cuidado meramente profissional de pessoas ou de
coisas (cuidadores do cabelo, das unhas, dos sapatos, da roupa…). Nessa medida
embora aproximando-se da noção do cuidar universal não profissionalizado (por
exemplo o das nossas mães) profissionaliza-o, e dá-lhe no âmbito disciplinar de
enfermagem, um cunho e uma roupagem específica – a profissionalização da
atitude cuidativa (com desvelo, compaixão, solicitude…). Atitude cuidativa, que
tem por base e fundamento identitário, o cuidar inerentemente humano, condição
primeira de humanidade expresso e percebido desde Alcibíades; constitutivo e
fundador do ser humano como relata Higino; com inerente imperativo ético, bem
patente em Filoctetes.
O cuidar nos cuidados profissionais de enfermagem, diferencia-se de outros
cuidados também profissionais, que não de enfermagem, e dos cuidados informais,
já que considera para além da ação (prestação de cuidados), também a
solicitude, a compaixão, a disponibilidade, de forma dirigida, intencional,
organizada e integrada.
Assim percebemos o cuidar de enfermagem como um cuidar integral
profissionalizado.
O cuidar, de si e dos outros, autocuidado ou cuidado com os que nos rodeiam,
cola-se e é inerente à nossa condição de humanos. Este constantemente
questionado, sobretudo em forma de dilema ético, e revestido de várias nuances,
acompanhando o desenvolvimento civilizacional desde a antiguidade clássica, é
percebido hoje, como ação e atitude profissionalizada dando corpo à enfermagem.
O cuidar, condição de existência humana, é no âmbito da enfermagem, entendido
como um cuidar integral profissionalizado, maximizado, disponibilizado e quando
em ação é usuário e gerador de conhecimento próprio, que em simbiose com outros
saberes, sendo recriado e sistematizado, dá lugar ao conhecimento específico de
enfermagem.