Weber e o advento do novo
INTRODUÇÃO
Distinguir o velho do novo e mostrar como se transita de um para outro são,
sabidamente, desafios que sempre moveram o pensamento sociológico, mas, no caso
específico do pensamento weberiano, esses desafios adquiriram uma centralidade
sem paralelo. Com efeito, o antagonismo entre o velho e o novo é um tema tão
fundamental nos escritos de Weber que, sob a influência desses escritos, somos
tentados a percebê-lo até mesmo nas mais inusitadas situações da vida
cotidiana. Para me fazer entender, vou me permitir relatar dois episódios
pitorescos, ocorridos há quase vinte anos, em Amsterdã, onde tive a
oportunidade de morar quando jovem.
Certa vez, ao retornar de uma padaria, encontrei-me casualmente com a
proprietária - uma holandesa que contava em torno de 60 anos - do pequeno
edifício em que eu residia e pusemo-nos a conversar. Durante a conversa, uma
moedinha (que me havia sido dada como troco na padaria) escapou-me das mãos e
rolou pelo chão. Entretido que estava com o colóquio, não fiz menção de
recuperar a moeda, o que me valeu uma pronta repreensão: "Você é rico, mas não
jogue dinheiro fora", disse ela. Confesso que desconheço as razões que levaram-
na a me supor tão abastado. Seja como for, alguns meses mais tarde, por motivos
de que já não me lembro, essa senhora voltou a mencionar, mais uma vez sem a
menor cerimônia, minha suposta condição de "homem rico". Dessa vez, entretanto,
resolvi reagir. Perguntei-lhe, em tom de brincadeira, se não queria trocar
todos os bens que possuía por todos os que eu porventura possuísse. Ela então
retrucou que eu voltasse a fazer a mesma proposta quando tivesse 60 anos.
Ao leitor de Weber não escapará que esses casos encerram um nítido confronto
entre o velho e o novo. Assim, no que se refere ao primeiro episódio,
dificilmente há algo de novo em desdenhar uma moeda perdida. No entanto, o fato
de tal desdém se tornar objeto de uma repreensão moral como a que recebi é, na
perspectiva weberiana, uma inequívoca novidade. Semelhantemente, o curto e
bizarro diálogo que mantive com minha então senhoria, no segundo episódio,
encerra claramente um confronto entre uma velha e uma nova concepção de
enriquecimento. Desse modo, não há nenhuma novidade em conceber o
enriquecimento, à minha maneira, como um feliz resultado de algumas poucas
apostas bem-sucedidas, mas aprendemos com Weber que concebê-lo, de acordo com a
visão de minha ex-senhoria, como um subproduto de anos a fio de uma vida
regrada e dedicada ao trabalho é algo que indubitavelmente traz a marca do
novo.
Uma vez caracterizadas as concepções em confronto, uma nova tarefa se impõe:
explicar a transição de uma à outra. Em outras palavras, identificado o fosso
que separa minha perspectiva da de minha ex-senhoria, cumpre explicar o que
teria provocado seu aparecimento. Com a ajuda de Weber, diríamos que isso está
relacionado com o protestantismo em sua versão ascética, calvinista e,
sobretudo, com o sectarismo que se lhe tornou peculiar. Afinal, Weber jamais se
cansou de mencionar que a disciplina mental e moral demandada pelo sectarismo
protestante - o qual, diga-se de passagem, deitou raízes na Holanda de uma
forma como nada semelhante ocorreu no Brasil - é algo que jamais se viu em
parte alguma antes de seu advento. Para ser mais preciso, Weber acreditava que
o sectarismo protestante havia realizado um feito que nenhuma visão de mundo
anterior ao advento da Reforma, nem mesmo o humanismo peculiar ao Renascimento,
havia sido capaz de realizar: uma verdadeira "transformação da alma do homem"
(Weber, 2003:368). Nessa perspectiva, poder-se-ia dizer que o protestantismo
ascético forjou algo como um novo tipo de homem, do qual minha ex-senhoria
holandesa, na medida em que, diferentemente de mim, concebia o enriquecimento
como um subproduto de uma vida frugal e inteiramente dedicada ao trabalho,
seria um claro exemplo.
Há certamente quem conteste essa visão weberiana. O historiador Trevor-Roper,
por exemplo, argumenta que nada há de particularmente protestante ou calvinista
na disciplina mental e moral que Weber - corretamente, em sua opinião - atribui
ao homem moderno. Essa disciplina seria, sobretudo, uma herança do pensamento
de Erasmo, do qual Calvino teria se servido para pregar o retorno ao
cristianismo primitivo, o estudo da Bíblia, a santificação da vida leiga e,
sobretudo, a dedicação incondicional ao trabalho como forma superior de devoção
religiosa. Especialmente esse último item, que Weber supunha ser o próprio
cerne da "ética protestante", já era disseminado entre praticantes católicos
"erasmianos" antes mesmo da Reforma (Trevor-Roper, 2007:54 e ss). Nessa
perspectiva, diferentemente do que Weber supunha, o "novo homem" não teve de
esperar pelo protestantismo ascético para ser concebido.
Admitindo-se que Trevor-Roper tenha razão, permanece a ideia de que "o velho" e
"o novo" são claramente discerníveis e que a transição de um para outro requer
necessariamente algo como uma "transformação da alma do homem". Requer, em
outras palavras, uma ruptura espetacular com formas supostamente tradicionais
de mentalidade. Neste artigo, são discutidas as dificuldades inerentes a essa
ideia e a viabilidade de uma concepção de "novo homem" à margem dessas
dificuldades.
A RUPTURA COM O TRADICIONALISMO E O ADVENTO DE UM NOVO TIPO DE HOMEM
Weber, sabidamente, jamais usou uma expressão como "novo homem" (embora, por
outro lado, não se tenha furtado a usar expressões que denotem seu oposto, como
"homem tradicional" e "homem pré-capitalista"), mas está claro que é disso que
ele fala ao descrever, em termos típico-ideais, o modo como um hipotético
empreendedor do ramo da indústria têxtil "convulsionou subitamente" a "vida de
conforto e lazer" dos empreendedores de sua época (Weber, 1981:43 e ss)1.
Assim, conta-nos Weber, até meados do século XIX, os manufatureiros têxteis da
Europa continental tinham uma vida relativamente confortável: trabalhavam
apenas de cinco a seis horas por dia; seus ganhos eram moderados, mas o
suficiente para assegurar-lhes uma vida respeitável; a competição entre eles
não era acirrada, pois "havia um amplo acordo sobre as bases do negócio"; e
cada qual podia se permitir uma "longa visita diária à taberna, com abundância
de bebidas e um círculo aprazível de amigos". De repente, continua Weber, essa
"situação idílica" vem abaixo. Um jovem manufatureiro, avesso aos hábitos
tradicionais de seus contemporâneos, decide não esperar passivamente, como era
até então usual, que os camponeses lhe trouxessem a matéria-prima (geralmente o
linho) nem se sujeita, como era também habitual, ao esquema de venda por
encomenda. Renunciando ao conforto do lar, dirige-se pessoalmente ao campo e
"escolhe cuidadosamente tecelões para empregados, aumenta grandemente o rigor
de sua supervisão sobre seu trabalho e transforma-os, assim, de camponeses em
operários". Da mesma forma, em vez de produzir ao sabor das conveniências de um
grupo habitual de fregueses intermediários, empenha-se em chegar diretamente a
seus consumidores finais e, sobretudo, em ajustar a qualidade de seus produtos
às demandas específicas desses consumidores. Em conexão com tudo isso,
"introduz o princípio dos 'baixos preços' e de 'grande giro'", passando a ter
vantagens sobre os demais manufatureiros. Uma "amarga luta competitiva" então
se inicia, "fortunas respeitáveis são feitas e não emprestadas a juros, mas
reinvestidas no próprio negócio", e quem não se adapta a esse novo modo de vida
não tem também como conservar o anterior.
Com essa descrição típico-ideal, Weber vislumbra um cenário em que, pela
primeira vez, o empreendimento econômico requer um padrão de conduta
incompatível com "a velha atitude de lazer e conforto diante da vida"
encontrável em qualquer época e em qualquer lugar. Enquanto essa "velha
atitude" não foi espetacularmente rompida, tudo o que o empreendimento
econômico requeria era uma aptidão comercial. Agora, em radical contraste, o
que se requer do empreendedor é algo bem distinto, ou seja, "uma devoção total
ao negócio", que passou a ser visto como um fim em si mesmo em vez de um mero
meio de vida. Nos marcos desse raciocínio, a atividade comercial ou financeira,
assim como a produção fabril em pequena escala, nada requer do empreendedor
além do velho tino para os negócios. A atividade industrial em grande escala,
em contraste, requer (ou, para ser mais preciso, requeria em seus primórdios)
uma disciplina e uma capacidade de renúncia que somente o protestantismo em sua
versão ascética, não luterana, teria sido capaz de proporcionar.
Nessa perspectiva, há um mundo de diferença entre dizer que determinado
empreendedor tem uma aptidão especial para os negócios e dizer, desse mesmo
empreendedor, que ele é "totalmente devotado ao próprio negócio". Aptidão
comercial é algo que se tem ou não, independentemente do ambiente social em que
se é criado. Já devoção ao negócio, tal como a exibida por nosso hipotético
jovem empreendedor, pressupõe tanto uma personalidade quanto uma socialização
muito especiais. Afinal, se quem se dedica a seu negócio com tamanha abnegação
a ponto de "convulsionar" toda uma sedimentada "vida de conforto e de lazer"
não tivesse uma personalidade fora do comum, a pressão dos que se percebessem
prejudicados por seu modo de proceder acabaria por inviabilizar o novo padrão
de empreendedorismo que veio, de fato, a se estabelecer. Por outro lado, esse
novo padrão só pode ser criado por alguém que tenha recebido uma formação
deveras especial; por quem tenha sido socializado em um ambiente no qual se
aprende, desde tenra idade, que "tempo é dinheiro", que cada centavo gasto
inutilmente representa a perda de uma grande soma após algum tempo, que um
credor será complacente com o devedor se ouvir "o som de seu martelo às cinco
da manhã e outro às oito da noite", mas será implacável "se ouvir sua voz em
uma taberna", que "depois da industriosidade e da frugalidade nada contribui
mais para um jovem ser bem-sucedido do que a pontualidade e a justiça em todos
os seus negócios" e, mais importante do que tudo isso, que a infração a
qualquer uma dessas regras não representa meramente a perda de uma boa
oportunidade para enriquecer, mas constitui um repreensível descumprimento do
dever (Weber, 1981:29-31)2. Em face de tudo isso, nosso hipotético
manufatureiro inovador é sobretudo um homem que aprendeu a não retirar coisa
alguma de sua riqueza para si mesmo, "a não ser a sensação irracional de haver
'cumprido' devidamente sua tarefa"; e, exatamente por essa razão, esse homem,
esse novo homem "parece tão incompreensível e misterioso, tão sem valor e
desprezível ao homem pré-capitalista" (ibid.:46-47).
Tal antagonismo entre o "homem pré-capitalista" e o "empreendedor moderno", ou,
em termos mais gerais, entre o que quer que possa ser caracterizado como "o
velho" e o que quer que possa ser caracterizado como "o novo" é, conforme já
sugeri, um tema de inequívoca centralidade na obra de Weber. Assim, após
descrever em termos típico-ideais o desmoronamento da (velha) "situação
idílica" em que viviam os manufatureiros têxteis do século XIX, Weber faz
questão de enfatizar que a entrada em cena do "primeiro inovador" é geralmente
acompanhada de um "dilúvio de desconfiança, algumas vezes o ódio e, acima de
tudo, de indignação moral" (ibid.:45). Nessas circunstâncias, é somente em
razão de possuir um "caráter de força incomum" que o novo empreendedor pode
manter seu "autocontrole temperado" e se salvar de um "naufrágio tanto moral
quanto econômico" (ibid.). Em outra passagem de sua obra, Weber faz referência
a uma "típica antipatia da ética católica, seguida pela luterana, a toda
tendência capitalista", antipatia essa que, segundo ele, "repousa
essencialmente na repugnância da impessoalidade das relações peculiar à
economia capitalista" (Weber, 2003:357). O termo "repugnância" aparece mais uma
vez quando Weber descreve o modo como os empreendedores puritanos ingleses
(cujo padrão de conduta pode muito bem ter servido de modelo para nosso
hipotético manufatureiro inovador) repudiavam o tradicionalismo supostamente
peculiar ao empreendedorismo judaico. Assim, Weber nos faz saber que, "de um
modo característico, o judeu representava para o puritano inglês tudo o que lhe
era repugnante, em razão de se dedicar a ocupações irracionais e ilegais como
empréstimos para a guerra, arrendamento de impostos e ocupação de cargos
públicos nos moldes dos protegidos da corte" (ibid.:367).
A bem da verdade, nem o caráter tradicional que Weber tão enfaticamente imputa
à mentalidade luterana ao longo de toda a sua obra nem o escrúpulo
antitradicionalista que, na citação acima, bem como em outras passagens de sua
obra, imputa aos puritanos ingleses podem ser aceitos sem sérias reservas.
Visto que é justamente o ato de fazer imputações de tal natureza que lhe
permite postular o advento de um novo tipo de homem, é imperativo que nos
detenhamos nessas imputações. Consideremos cada uma separadamente.
A MENTALIDADE LUTERANA COMO FORMA DE TRADICIONALISMO A SER ROMPIDO
"Exagerar é minha profissão." Conta-nos Gabriel Cohn que foi essa a resposta
que Weber deu uma vez a um colega, a quem havia chocado com sua veemência em um
debate (Cohn, 1982:7). Weber, de fato, exagerava, mas, para além disso, valia-
se às vezes de exageros já disponíveis em sua Alemanha. Assim, o contraste
preto no branco que estabelece, em incontáveis momentos de sua obra, entre as
mentalidades luterana e calvinista, retratando a primeira como a própria
expressão da passividade e a segunda como a própria expressão da atividade, é
um bom exemplo de exagero cuja origem não são sua acuidade analítica nem seu
pendor por descrições típico-ideais, mas sim o empenho de certos teólogos
protestantes da primeira metade do século XIX em encontrar um meio de manter a
unidade da Igreja protestante a despeito da variedade de credos ou de
denominações existentes. Weber recebeu esse exagero pronto e acabado, já
despojado de sua história e dos interesses pragmáticos que lhe deram origem,
diretamente das mãos de um desses teólogos, a ser apresentado ao leitor já no
próximo parágrafo. Se, entretanto, conhecermos um pouco da história desse
exagero - isto é, do modo como se chegou a conceber as diferenças entre as
religiosidades luterana e calvinista em termos os mais antitéticos possíveis -,
veremos que é um produto típico do pensamento teológico protestante da primeira
metade do século XIX (digo primeira metade porque, já na segunda, Albrecht
Ritschl, o mais influente teólogo protestante de língua alemã de seu tempo,
havia vislumbrado uma maneira de conceber o luteranismo e o calvinismo em
termos não antitéticos), sem validade para outros períodos; e, por essa razão,
seu alcance heurístico é bem mais limitado do que os escritos de Weber nos
levariam a supor3. Passemos, então, à história do referido exagero.
Tudo se inicia com o empenho do teólogo suíço Matthias Schneckenburger (1804-
1848) em reunir as denominações protestantes de seu país, como já se fazia em
vários territórios alemães protestantes nas décadas de 1820 e 1830. Formado em
teologia em uma das mais importantes escolas luteranas da Alemanha, o Tübinger
Stift, na qual chegou a lecionar, e professor universitário em Berna, onde
galgara, com apenas 30 anos, uma invejável posição, a cátedra de "dogmática
comparada", Schneckenburger era, conforme se verá, particularmente talhado para
essa difícil missão. Digo "difícil" porque a iniciativa de reunir os credos
protestantes esbarrava muitas vezes em uma dura resistência. Assim, já em fins
do século XVIII, havia uma denominação chamada "novos luteranos" que repudiava,
por princípio, qualquer iniciativa dessa natureza. Tal denominação, embora não
fosse contemporânea de Schneckenburger, foi uma importante fonte de inspiração
para gerações posteriores de teólogos luteranos e de praticantes luteranos
leigos, para quem um trabalho como o de Schneckenburger poderia destruir as
verdades mais recônditas da tradição luterana. Schneckenburger tinha como certo
que, sem vencer a resistência desses grupos, desses herdeiros do "novo
luteranismo", qualquer iniciativa visando à reunião de credos estaria fadada ao
fracasso.
Posto o problema, Schneckenburger só vislumbrava uma solução: expor as
profundas diferenças doutrinais existentes entre os credos protestantes - uma
tarefa sob medida para ele próprio, um professor de "dogmática comparada". A
bem da verdade, as diferenças doutrinais, em si mesmas, não lhe importavam
muito, porque, de seu ponto de vista, as diferenças verdadeiramente importantes
eram as de natureza psicológica. Schneckenburger acreditava que doutrinas
diferentes encerravam "estados mentais", ou "estados de consciência religiosa",
específicos, os quais, por seu turno, se refletiam em práticas religiosas
distintas. Nessa perspectiva, o conhecimento das doutrinas teológicas, ou dos
dogmas peculiares a cada denominação, era importante tão somente como via de
acesso aos "estados de consciência religiosa" que supostamente lhes eram
subjacentes. Para os propósitos da presente discussão, é suficiente mencionar,
mesmo incorrendo em uma flagrante simplificação, que Schneckenburger distinguia
esses "estados" em duas categorias: os "passivos" e os "ativos". Uma vez
estabelecida essa distinção, a questão que se instalava era identificar o tipo
de "estado mental" que predominava em cada denominação. A resposta
Schneckenburger foi buscar no exame das doutrinas calvinista e luterana a
respeito dos temas que, segundo ele, eram os mais diretamente afeitos ao
cristianismo: conversão, santificação e salvação. Saibamos imediatamente sua
conclusão: no calvinismo, "os estados ativos prevalecem sobre os passivos"; no
luteranismo, a "consciência quiescente" predomina (Schneckenburger [1855] apud
Graf, 1993:38-39).
Foi então, dessa forma, que o luteranismo e o calvinismo passaram a ser
contrastados nos termos da antítese "passividade" versus "atividade". Weber
recolheu essa antítese diretamente dos escritos de Schneckenburger e a
incorporou sem reservas a seu próprio pensamento4. Assim, não foi uma
investigação histórica a respeito do modo como o luteranismo e o puritanismo
efetivamente vieram a se distinguir que o conduziu à conclusão de que havia um
antagonismo entre ambos. Suas fontes teológicas, notadamente Schneckenburger,
levaram-no a supor que esse antagonismo estava dado desde sempre, em razão das
profundas diferenças entre os ensinamentos doutrinários de Lutero e Calvino.
Com efeito, de acordo com a concepção de vocação de Lutero, "o indivíduo deve
fundamentalmente permanecer na profissão e na posição em que Deus originalmente
o colocou, e sua aspiração deve se manter dentro dos limites dessa sua condição
de vida" (Weber, 1981:57). Para Calvino, em contraste, sendo o indivíduo nada
mais do que uma espécie de administrador dos bens divinos na Terra, ele deve
fazer o que tiver a seu alcance para ampliar esses bens. Revelar-se, digamos
assim, um administrador bem-sucedido é o meio de se saber um eleito, ou
predestinado, à bem-aventurança. Nessa perspectiva, um indivíduo que se
satisfaz com sua posição estaria, na verdade, contrariando a vontade divina.
Essas diferenças, acreditava Weber, iriam se refletir necessariamente em
diferenças no modo de se conduzir na vida cotidiana. A conduta de seu
hipotético manufatureiro inovador, por exemplo, seria típica de quem absorveu a
concepção calvinista de vocação. Os demais manufatureiros hipotéticos,
acomodados que eram à "velha vida de conforto e lazer", exibiam um
comportamento típico de alguém que jamais a absorveu. Entre o primeiro e os
últimos haveria, assim, algo como um abismo, e os preceitos calvinistas
exemplificados pela pregação de Benjamin Franklin5 seriam como uma "plataforma
de lançamento" a partir da qual se daria o salto de uma das margens desse
abismo à outra. Nessa linha de raciocínio, nenhuma continuidade poderia ser
admitida entre as religiosidades luterana e calvinista.
Ocorre, entretanto, que a literatura especializada de nossos dias é um tanto
impiedosa com essa linha de raciocínio porque, ainda que se admita a existência
de um fosso entre o luteranismo e o calvinismo na Alemanha de Schneckenburger
(algo, em si mesmo, discutível) e, uma geração mais tarde, na Alemanha de
Weber, esse fosso, longe de ser um corolário das diferenças doutrinárias, foi o
resultado de um processo bastante gradual, que requereu um árduo trabalho de
doutrinação a várias gerações sucessivas. Afinal, se mesmo após a Guerra de
Trinta Anos, em plena década de 1650, mal existia uma fronteira confessional
entre o luteranismo e o calvinismo, o que dizer então de um fosso (ou mesmo um
abismo) entre ambos?
É verdade que posições dogmáticas separaram os luteranos e os calvinistas da
primeira geração, mas já não mais o fizeram a partir da segunda, que estava
prioritariamente interessada em reformar a própria conduta cotidiana. Conforme
assinala Hartmut Lehmann (1987), um destacado estudioso do assunto, para essa
geração, ou melhor, para toda uma geração de pregadores protestantes da virada
do século XVI para o XVII, a reforma da doutrina cristã, tal como realizada por
Lutero e Calvino, deveria ser seguida por uma segunda reforma, "a reforma da
vida", e nada servia melhor a esse propósito do que a produção em massa de
tratados devocionais, os quais eram escritos, impressos e vendidos não às
dúzias, mas às centenas e aos milhares. O ponto a ser destacado aqui é que,
para os autores desses tratados, os limites confessionais eram praticamente
irrelevantes, pois os calvinistas se valiam de escritos luteranos e vice-versa;
ambos, por seu turno, valiam-se de fontes católicas do medievo tardio e, "mais
significativamente, os autores ingleses eram frequentemente traduzidos para
outras línguas, sobretudo o alemão, com autores holandeses frequentemente
fazendo a mediação" (ibid.:314; tradução minha). Nessa perspectiva, "embora as
posições dogmáticas das Igrejas do século XVII fossem bem diferentes, o que
elas ensinavam no campo da ética do dia a dia era mais ou menos a mesma coisa:
conscienciosidade, seriedade moral, diligência" (ibid.:315; tradução minha).
Curiosamente, já na primeira metade do século XIX, vários dogmatistas
calvinistas contemporâneos de Schneckenburger sustentavam, em conformidade com
o que os especialistas asseveram em nossos dias, não haver nenhuma conexão
intrínseca entre o conteúdo de uma doutrina e a conduta moral do devoto. De
acordo com esses dogmatistas, a doutrina calvinista da predestinação, por
exemplo, era apenas uma concepção dogmática dos eruditos, abstrata demais para
exercer qualquer influência significativa sobre a conduta cotidiana (Graf,
1993:39). Weber conhecia o trabalho desses dogmatistas e se prontificou a
rebatê-los - em uma longuíssima e indispensável (para seu argumento geral) nota
de rodapé6. No entanto, em uma importante passagem de A Ética Protestante e o
Espírito do Capitalismo, Weber acaba por dar a mão à palmatória, ainda que
involuntariamente. Refiro-me a uma passagem na qual ele descreve o modo como os
alemães de seu tempo concebiam "o tipo ideal de empreendedor capitalista". Eles
o representavam como alguém que "evita a ostentação e as despesas
desnecessárias, assim como o gozo consciente de seu poder, e embaraçam-no os
sinais de reconhecimento social que recebe. Em outras palavras, seu modo de
vida distingue-se frequentemente [...] por uma certa tendência ascética, como
aparece de modo bastante claro na pregação de Franklin" (Weber, 1981:46-47).
Ao discutir a concepção luterana de vocação, o próprio Weber havia asseverado
que "Lutero teria, sem dúvida, repudiado violentamente qualquer parentesco com
uma mentalidade como a de Franklin" (id., ibid.:54). Se é assim, como poderia a
conduta do empreendedor capitalista típico de sua Alemanha luterana
"distinguir-se" justamente "por uma tendência ascética, tal como aparece de
modo bastante claro na pregação de Franklin"? Receio de que só há uma solução
para esse enigma: as diferenças doutrinárias não se refletiam em diferenças
significativas de mentalidade. Em resumo, entre as religiosidades luterana e
calvinista não havia necessariamente o abismo que Schneckenburger, sua
principal fonte teológica, levou-o a supor haver.
O ESTILO JUDAICO DE EMPREENDEDORISMO COMO FORMA DE TRADICIONALISMO A SER
ROMPIDO
Uma vez expostas as dificuldades envolvidas em conceber as mentalidades
luterana e calvinista como se estivessem necessariamente separadas por um
abismo, passo agora a discutir a pertinência da tese weberiana de que um abismo
da mesma natureza separa o empreendedorismo calvinista do judaico. Weber,
conforme vimos, postula a existência de tal abismo ao afirmar que "de um modo
característico, o judeu representava para o puritano inglês tudo o que lhe era
repugnante, em razão de se dedicar a [todo um conjunto de] ocupações
irracionais e ilegais" (2003:381; tradução minha). A lista de "ocupações
irracionais e ilegais", recapitulemos, é composta de itens da seguinte
natureza: empréstimo para a guerra, arrendamento de impostos e de cargos
públicos, e envolvimento em "contratos governamentais, monopólios estatais,
promoções especulativas, construção e projetos financeiros dos príncipes"
(Weber, 1981:213).
Infelizmente, dessa vez, Weber não citou suas fontes; portanto, ninguém pôde
reconstruir a história da ideia de que os puritanos ingleses repudiavam os
judeus em razão de estes últimos se envolverem em práticas como as listadas
acima. De qualquer forma, o que sabemos a respeito, seja da natureza do
empreendedorismo calvinista do século XVII, seja das razões de Cromwell para
readmitir a entrada dos judeus na Inglaterra, de onde haviam sido expulsos em
1290, leva-nos a duvidar seriamente desse antagonismo que Weber afirma haver
entre os estilos judaico e calvinista de empreendedorismo. Não obstante, ainda
que se admita a existência de tal antagonismo, não há indícios de que ele possa
ser um resultado necessário de diferenças entre as concepções religiosas
judaica e calvinista.
Iniciemos por um ponto incontroverso: Weber estava indubitavelmente correto ao
afirmar que os judeus eram dados a toda sorte de ocupações "irracionais e
ilegais". Contudo, o que dizer dos calvinistas? Em A Ética Protestante, Weber
os retrata como comprometidos com o "rijo legalismo" e a "ativa empresa dos
empreendedores capitalistas burgueses" (1981:98). Infelizmente, um quadro
magnífico do empreendedorismo calvinista do século XVII, tal como o nos
apresentado por Trevor-Roper (2007), mostra que, dessa vez, Weber errou o alvo
por uma boa distância. Sigamos, então, o roteiro de Trevor-Roper, que se inicia
pelos países escandinavos.
No fim da década de 1620 e no início da década de 1630, os maiores defensores
políticos da causa protestante eram os dois reis luteranos da Escandinávia -
Cristiano IV, da Dinamarca, e, após sua derrota, Gustavo Adolfo, da Suécia.
Ambos estavam empenhados em intervir na Europa e, para tanto, viram-se
obrigados a mobilizar recursos industriais e financeiros. Isso significava
recorrer a grandes capitalistas. Recorrer a quem, mais especificamente?
Deixemos que o próprio Trevor-Roper nos conte a história:
Cristiano IV voltou-se imediatamente para uma firma calvinista em
Amsterdam, dos irmãos De Willem. Jan de Willem, em Copenhague, era um
dos fundadores da Companhia Dinamarquesa das Índias Orientais. Seus
irmãos Paul e David estabeleceram-se em Amsterdam e, através do
mercado financeiro internacional, forneciam crédito para a compra de
armas. Quando os irmãos De Willem deixaram de trabalhar para ele,
Cristiano IV procurou outra família calvinista, de origem flamenga, a
família Marcelis, que já havia construído um império comercial no
norte. De início, tratava-se de um império cosmopolita. Procuraram
monopolizar o cobre sueco, negociavam o cobre norueguês do rei da
Dinamarca e trigo e armas do czar da Rússia. Mas no final apoiaram a
Dinamarca. Na década de 1640, os irmãos Gabriel e Celio Marcelis eram
conselheiros econômicos, fornecedores, financistas, negociantes de
munição e exportadores de munição do rei da Dinamarca. Antecipavam
dinheiro sobre as taxas de cobre. Criaram frotas. Em torno deles, a
aristocracia luterana nativa decaiu para simples proprietários de
terra e os negociantes nativos tornaram-se meros agentes das casas
comerciais calvinistas holandesas. Os calvinistas holandeses
tornaram-se, de fato, uma nova aristocracia capitalista na Dinamarca
luterana (ibid.:31-32).
Essa passagem deixa claro que, em matéria de devoção a "ocupações irracionais e
ilegais", nossos calvinistas do século XVII, sobretudo os irmãos Marcelis, nada
deixavam a desejar. Somente se impressiona com esses irmãos quem não foi ainda
apresentado a Louis de Geer, um calvinista de Liège, também estabelecido em
Amsterdã, a quem o rei da Suécia recorreu para enfrentar a Dinamarca. Se Weber
tivesse sido apresentado a calvinistas do calibre de De Geer, certamente teria
hesitado em se referir ao empreendedorismo calvinista como tipicamente "ativo"
e "capitalista burguês". Com efeito, nosso calvinista de Liège era a própria
personificação do tradicionalismo e do irracionalismo que Weber supunha típicos
de um empreendedor judeu. Assim, para início de conversa, "todas as indústrias
de cobre e de ferro na Suécia estavam em suas mãos, e com elas supria os
exércitos e frotas não apenas da Suécia, mas também da Holanda, França, Veneza,
Portugal, Inglaterra, Escócia, Rússia e os príncipes alemães" (ibid.:33). Nada
mal, não é verdade? Prossigamos: "Em 1645 reuniu, fretou e equipou uma esquadra
naval para servir à Suécia contra a frota que seu parente Gabriel Marcelis
tinha, do mesmo modo, criado para a Dinamarca. Em paga por seus empréstimos à
Coroa sueca, recebeu consignações de cobre, arrendamento de terras da Coroa,
taxas alfandegárias, privilégios, isenções, títulos de honra" (ibid.). A bem da
verdade, a lista das "ocupações irracionais e ilegais" atribuíveis a De Geer é
bem mais longa, mas não devemos negar espaço a outros calvinistas.
Os irmãos Abraham e Jacob Momma, por exemplo, abriram minas de ferro e cobre na
Lapônia e se tornaram financistas pessoais da rainha Cristina. Os irmãos
Spiering controlavam o mercado de trigo e arrendavam os impostos do Báltico. Se
nos voltarmos para os países católicos - França, Áustria e Espanha -, o quadro
é rigorosamente o mesmo. Cada um desses países tem empreendedores calvinistas à
altura de nosso Louis de Geer. Em todos eles, até mesmo na Espanha católica de
Filipe IV, eram os empreendedores calvinistas os mais importantes financistas,
monopolizadores, enfim, tudo aquilo que seus correligionários ingleses
repudiavam como uma peculiaridade judaica7.
Diante desse quadro, por que os puritanos ingleses seriam tão escrupulosos em
relação ao "irracionalismo" do empreendedorismo judaico? Não me parece muito
verossímil que quem tenha em suas hostes um Louis de Geer, um Hans de Witte, um
Barthélemy d'Herwarth8, entre muitos outros, possa se espantar com o modo de
atuar de um judeu. Assim, se, conforme Weber assevera, havia mesmo por parte
dos puritanos ingleses um repúdio aos judeus, a razão para esse repúdio não
podia ser o envolvimento desses últimos em "ocupações irracionais e ilegais",
pois, no que se refere a esse quesito, seus correligionários eram, pelo menos
no século XVII, imbatíveis. Retorno a esse ponto na próxima seção.
Por outro lado, a própria existência desse alegado repúdio é algo que merece
ser mais bem examinado. Como é sabido, foi justamente no esteio da chamada
revolução puritana que os judeus puderam retornar em massa à Inglaterra, de
onde haviam sido expulsos em 1290. Nota-se, nesse caso, que as "ocupações
irracionais" às quais os judeus se dedicavam, notadamente o monopólio do
comércio inter e transcontinental (o que incluía o comércio com o Brasil),
longe de terem sido um motivo de repúdio, foram, justamente, uma importante
razão para Cromwell querer tê-los em sua República. Cromwell considerava o
empreendedorismo judaico, a despeito de todo o seu "irracionalismo", ou,
talvez, exatamente por causa dele, de extrema importância para a continuidade
do sucesso comercial advindo do Ato de Navegação de 1651 - o qual, diga-se de
passagem, nada tem de "capitalista racional-burguês"9. Em face de tudo isso, há
algo de estranho em relação à alegada "repugnância" puritana ao estilo de
empreendedorismo praticado pelos judeus, pois isso jamais impediu aos puritanos
de contar com os frutos desse empreendedorismo.
Isso posto, vale acrescentar que, conforme mostra o trabalho do historiador
Ellis Rivkin a respeito do empreendedorismo marrano-judaico no século XVI,
havia, nessa época, um perfeito entrosamento entre os empreendedores marranos
radicados na Turquia - notadamente a figura legendária do Duque de Naxos, um
megaempreendedor judeu que foi, para Selim II, sultão do Império Otomano no
período 1566-1577, o que o já citado Louis de Geer viria posteriormente a ser
para o rei Gustavo Adolfo da Suécia - e os empreendedores calvinistas dos
Países Baixos. Antes de serem judeus ou calvinistas, eram todos eles
empreendedores, não havendo nenhum antagonismo entre suas respectivas
mentalidades ou modo de proceder10.
WEBER E A DEMANDA POR ANTAGONISMOS IRREMEDIÁVEIS E RUPTURAS ESPETACULARES
Uma vez estabelecido que nem as mentalidades luterana e calvinista nem os
estilos judaico e puritano de empreendedorismo estão necessariamente separados
por um abismo, cumpre mostrar que essa demanda de Weber por abismos, cuja
transposição requer algum salto espetacular (como o que Weber supunha ter sido
proporcionado pela doutrina calvinista da predestinação), não é um traço
incidental de seu pensamento. Receio de que haja uma maneira particularmente
privilegiada de fazê-lo: mostrar quanto o raciocínio sociológico weberiano se
assemelha ao raciocínio aristotélico a respeito das relações entre o repouso e
o movimento. Parece-me que, uma vez cientes dessa semelhança, podemos
compreender melhor a necessidade de purgar a discussão a respeito da emergência
do novo da demanda, peculiar ao pensamento weberiano, por antagonismos
irremediáveis e rupturas espetaculares.
Como é sabido, a física aristotélica postula a existência de um "estado
natural", o do repouso, do qual um dado corpo (seja uma mesa, uma cadeira, um
lápis ou o planeta Terra) só pode se afastar se for perturbado por alguma força
que lhe é estranha. Quando a perturbação cessa, o corpo volta a seu "estado
natural". Nessa perspectiva, o movimento é tão somente o resultado de uma
perturbação do repouso, requerendo, como tal, alguma explicação especial. O
repouso, em si mesmo, sendo o "estado natural", não requer explicação alguma.
Assim, que uma mesa permaneça em repouso não é algo que requeira explicação
especial. Se ela se desloca, aí, sim, uma explicação é requerida: alguém a
empurrou, por exemplo.
No pensamento de Weber, encontramos algo rigorosamente análogo tanto ao estado
de repouso quanto às forças que o perturbam a fim de produzir o movimento. O
análogo sociológico do repouso é aquilo que Weber chama, seguidamente, de
"tradicionalismo", essa "falta generalizada de capacidade e de disposição para
se afastar de caminhos batidos" (2003:355; tradução minha). Da mesma forma que
o repouso de Aristóteles, o tradicionalismo, esse apego generalizado a
"caminhos batidos", é algo do qual, na perspectiva weberiana, só se pode
afastar por meio de rupturas bruscas, ocasionadas pelo efeito perturbador de
algum agente externo, e a ele se retorna sempre que o efeito perturbador cessa
de operar. Assim, quando Weber faz menção à "velha atitude de conforto e lazer
para com a vida" dos primeiros empreendedores capitalistas, à "consciência
quiescente" dos luteranos11 e ao "irracionalismo" do empreendedorismo judaico,
não está fazendo outra coisa senão oferecer exemplos de "caminhos batidos" em
relação aos quais há uma "falta generalizada de capacidade e de disposição para
se afastar"12. Quando, por outro lado, faz menção ao "ascetismo intramundano"
peculiar ao empreendedor moderno, à concepção calvinista de vocação e ao
escrúpulo puritano em relação aos judeus, está, sobretudo, oferecendo exemplos
de forças que, por algum tempo, perturbaram ou se contrapuseram, com sucesso, à
"falta generalizada de capacidade e de disposição para se afastar",
respectivamente, da "velha atitude de conforto e lazer para com a vida", da
"consciência quiescente" e das "ocupações irracionais e ilegais" listadas
anteriormente.
Dessa forma, na sociologia da religião de Weber, o mundo é composto de corpos
em repouso, de um lado, e de forças que o perturbam (às vezes com duradouro
sucesso, às vezes nem tanto), de outro. Em um mundo composto dessa maneira, no
qual ou bem se está em repouso, ou bem se está perturbando esse repouso; ou bem
se é tradicional (o judaísmo, o catolicismo, o luteranismo), ou bem se está
inovando (o protestantismo ascético e o sectarismo que se lhe tornou peculiar),
o que mais, além de "antipatia", "desprezo", "repugnância", em resumo, um
irremediável antagonismo, pode haver entre quem está em lados (vistos como)
inequivocamente opostos, entre quem está aquém e quem está além de uma pretensa
ruptura espetacular? Que um suposto "homem tradicional" e um suposto "novo
homem" se hostilizem mutuamente se torna, então, algo tão natural quanto o é,
para Aristóteles, o fato de uma mesa permanecer em repouso a menos que seja
empurrada. Como Weber tinha isso como certo, pareceu-lhe tão natural constatar
que os puritanos repudiavam os judeus que, em vez de se perguntar pelas razões
sócio-históricas desse repúdio13, ele tomou como sua a explicação que os
próprios puritanos ofereciam para isso, acabando, assim, por encampar a imagem
complacente que eles tinham de si próprios (algo como "nós, diferentemente dos
judeus, não nos envolvemos com especulações, monopólios, guerras etc.").
Nos marcos desse raciocínio, qualquer investigação a respeito das razões para
uma constatada hostilidade entre judeus e puritanos, ou entre luteranos (ou
católicos) e calvinistas, torna-se, de saída, dispensável, porque já se
imagina, de antemão, que qualquer hostilidade que se venha a constatar é apenas
um caso especial de uma forma mais geral de hostilidade, ou seja, a que
necessariamente resulta da incompatibilidade entre o apego generalizado a
"caminhos batidos" e um esforço deliberado para se afastar desses caminhos -
para falar com Aristóteles, entre um corpo em seu estado natural, o repouso, e
uma força perturbadora potencialmente capaz de colocá-lo em movimento.
Na medida em que constitui uma mera expressão da "falta generalizada de
capacidade e de disposição" para mudar, um empreendedorismo tal como o
praticado pelos judeus não requer, na perspectiva weberiana, nenhuma
explicação. Seria algo como um corpo em seu estado natural, o repouso. Em claro
contraste, o empreendedorismo puritano seria como um corpo em movimento. Como o
movimento não é um estado natural, mas produzido e mantido por uma ou mais
forças perturbadoras, tratar-se-ia, então, de identificar essas forças. Foi o
que Weber se prontificou a fazer. Uma dessas forças é óbvia demais para merecer
qualquer comentário adicional. Refiro-me, evidentemente, à doutrina calvinista
de que o sucesso decorrente de uma vida dedicada ao trabalho é a "prova" da
predestinação à bem-aventurança. Se essa doutrina (ou, para ser mais preciso,
os prêmios psicológicos que supostamente dela advêm) é a força que pode afastar
o devoto de "caminhos batidos", como a passividade política luterana, de um
lado, e o "irracionalismo" judaico na condução dos assuntos econômicos, de
outro, outra força é necessária para que tal afastamento, uma vez ocorrido,
possa ser mantido através das gerações. Refiro-me, agora, ao caráter sectário
que o protestantismo ascético veio a assumir. Se não fosse pelas injunções
impostas pelas seitas protestantes14, acreditava Weber, a viabilidade de um
empreendedor moderno como nosso hipotético manufatureiro inovador estaria
seriamente comprometida. Era justamente à ausência dessas seitas em sua
Alemanha que Weber creditava a passividade política da burguesia alemã diante
do autoritarismo político-cultural do Império Guilhermino15.
Mas, o que há de tão especial em relação às seitas? A resposta é bem conhecida:
diferentemente de uma Igreja, que aceita seus membros sem nada procurar saber a
respeito de sua vida pregressa, as seitas condicionam a admissão "a uma estrita
investigação a respeito da conduta ética de quem se apresenta" (Weber, 2003:
366; tradução minha). Em decorrência, ser aceito por uma seita é como receber
um certificado de probidade. Nessa perspectiva, se nosso hipotético
manufatureiro inovador é o exemplo paradigmático do "novo homem", isso não se
deve fundamentalmente ao fato de ele ser o empreendedor inteiramente devotado
ao negócio que Weber descreveu, mas, sobretudo, ao fato de se tratar de alguém
cujo ascetismo, "ao mesmo tempo íntimo e voltado para o mundo"16, assegurar-
lhe-ia a admissão em qualquer seita protestante. Como na Alemanha de Weber
essas seitas já não existiam mais, sua referência empírica eram as seitas cujos
cultos teve a oportunidade de frequentar e cujos membros teve a oportunidade de
conhecer ao visitar os Estados Unidos em 1904. Ao mesmo tempo que o alegrava
constatar que, em várias cidades americanas, nem mesmo um banqueiro ou um
médico poderia "fixar residência ou estabelecer contatos importantes sem que
lhe perguntassem a que comunidade religiosa pertencia, e sem que suas chances
de sucesso dependessem da natureza de sua resposta" (id., ibid.), aterrorizava-
o - como ele próprio diria em carta endereçada ao teólogo Adolf von Harnack,
datada de 5 de fevereiro de 1906 - admitir que, em sua Alemanha, "o tempo das
seitas, ou de algo equivalente a elas, já [estivesse] definitivamente
acabado"17.
TRANSIÇÕES SEM RUPTURAS ESPETACULARES
Se, em 1904, Weber se alegrava ao saber que, em muitas cidades americanas, o
pertencimento a uma seita poderia ser decisivo para as chances de sucesso até
mesmo de um banqueiro ou de um médico, houve quem, cerca de duzentos e trinta
anos antes, para ser mais preciso, em 1670, se rejubilasse exatamente pelo
motivo oposto, isto é, por se saber natural de uma cidade em que nenhuma
importância se dava ao fato de alguém pertencer ou não a alguma seita. Refiro-
me a ninguém menos que Espinosa e sua próspera e palpitante Amsterdã. Nas
últimas páginas de seu Tratado Teológico-Político, Espinosa conclui um
argumento a respeito da liberdade de opinião nos seguintes termos:
Basta ver como a cidade de Amsterdam, com o seu extraordinário
desenvolvimento e a admiração que se lhe consagram todas as nações,
está colhendo os frutos dessa liberdade! De fato, nesta fluorescente
república e nobilíssima cidade, todos os homens, seja qual for a sua
nação ou a sua seita, convivem na mais perfeita harmonia e não fazem
perguntas antes de confiar seus bens a um concidadão, exceto se ele é
rico ou pobre e se costuma agir de boa ou de má-fé. Quanto ao resto,
a que religião ou seita pertence, isso não lhes interessa, visto não
contar rigorosamente nada, perante o juiz, para se ganhar ou perder
uma causa. E não existe absolutamente nenhuma seita, por mais odiada
que seja, cujos membros (desde que não prejudiquem ninguém, deem a
cada um o que lhes é devido e vivam honestamente) não sejam
protegidos pela autoridade dos magistrados e pela guarda (2003:308;
ênfases minhas)18.
O contagiante entusiasmo com que Espinosa descreve a liberdade religiosa que
impera em sua Amsterdã é bem característico de quem se vê diante de algo
inequivocamente novo19. Com sua ajuda, poderíamos conceber "o novo" como
residindo não somente, como quer Weber, no controle social que as seitas
protestantes, ou algo que se lhes pudesse equivaler, puderam um dia exercer
sobre seus membros para selecionar atributos como autocontrole, frugalidade e
industriosidade - sem os quais, acreditava Weber, "o capitalismo de hoje, mesmo
na América, não seria o que é" (1974:355) -, mas também na tolerância exibida
pelo amsterdamês do fim do século XVII, ela própria condicionada à existência
de uma autoridade constituída (a "autoridade dos magistrados").
Weber, entretanto, não pôde admitir essa possibilidade. Em sua sociologia da
religião, conforme vimos, o novo é algo que se produz, ou a que se tem acesso,
somente por meio de uma força que perturbe algum análogo sociológico do corpo
em repouso. Nessa perspectiva, só seria possível atribuir o caráter de novidade
a alguma coisa se fosse possível apontar o análogo sociológico tanto do repouso
quanto da força que o perturbou para propiciar o surgimento dessa coisa. Se,
por exemplo, Weber pôde atribuir o caráter de novidade aos atributos listados
anteriormente (autocontrole, frugalidade e industriosidade), foi somente
porque, em primeiro lugar, lhe foi possível apontar os análogos sociológicos
tanto do corpo em repouso quanto da força que o perturbou para propiciar o
surgimento desses atributos. Tais análogos seriam, respectivamente, a "velha
atitude de conforto e lazer diante da vida" e a doutrinação calvinista, tal
como exemplificada pela pregação de Benjamin Franklin. Para atribuir à
tolerância um caráter de novidade, Weber teria de, da mesma forma que no caso
anterior, ser capaz de apontar tanto o "corpo" que teria sido "perturbado"
quanto a "força" que teria provocado a "perturbação" para conduzir a seu
advento. Como não lhe foi possível, dessa vez, apontar nem uma coisa nem outra,
e como não é possível, nos marcos de sua sociologia da religião, atribuir o
caráter de novidade a coisa alguma a menos que se identifiquem esses dois
elementos, ele jamais poderia ver a tolerância como uma novidade. De fato, não
viu. Em uma nota de rodapé extremamente longa de A Ética Protestante, Weber faz
questão de asseverar que "a tolerância religiosa não é peculiar aos tempos
modernos, nem ao Ocidente"20. Não obstante, nessa mesma nota, Weber assevera
que "o primeiro a destacar-se em defesa da tolerância absoluta, e da separação
entre a Igreja e o Estado, quase uma geração antes dos Batistas, e quase duas
antes de Roger Williams, foi John Browne" (1981:187). Ao fazê-lo, Weber quis
chamar a atenção para o fato de que o sectarismo protestante é a via de acesso
por excelência a uma tolerância genuinamente religiosa - cuja mais alta
expressão teria sido o pensamento teológico de um Roger Williams21.
Com efeito, Weber vislumbra três tipos de tolerância: 1) de natureza econômica,
na qual se admite a devoção a outras religiões como meio de obter vantagens
financeiras; 2) de natureza política, na qual se admite a devoção a outras
religiões como uma forma de obter aliados estratégicos em circunstâncias
determinadas; 3) de natureza propriamente religiosa, ou "tolerância absoluta",
na qual se admite a devoção a qualquer religião com base no pressuposto de que
é da vontade de Deus que se o faça. Para Weber, o sectarismo constituiria, por
assim dizer, o terreno propício para a germinação da aludida tolerância
genuinamente religiosa. O trecho abaixo mostra isso com clareza:
A seita pura deve advogar a "tolerância" e a "separação entre a
Igreja e o Estado" por várias razões: porque ela não é uma
instituição redentora universal para a repressão dos pecados nem pode
suportar o controle e a regulamentação política ou hierocrática;
porque nenhum poder oficial - seja de que classe for - está
autorizado a dispensar bens de salvação ao indivíduo, de sorte que
todo o emprego do poder político em coisas religiosas é considerado
insensato, ou melhor, demoníaco; porque as seitas simplesmente não se
interessam por quem não faz parte dela; porque, considerando tudo
isso em conjunto, a seita mesma - se não quiser renunciar ao íntimo
sentido religioso de sua ação - não pode ser mais do que uma
associação livre de pessoas especificamente qualificadas do ponto de
vista religioso. Portanto, as seitas consequentes têm sempre
representado esse ponto de vista e são as mais enérgicas defensoras
da "liberdade de consciência" (Weber, 1968:1208; tradução minha)22.
Mesmo admitindo que as "seitas consequentes" têm sido "as mais enérgicas
defensoras da 'liberdade de consciência'", permanece sem resposta a questão de
que importância elas (por mais "consequentes" que possam ter sido) efetivamente
tiveram para o desenvolvimento da tolerância genuinamente religiosa. Afinal,
ainda que se admita que a história da tolerância religiosa se tenha iniciado
com as pregações do obscuro John Browne23, essa história não se encerra com as
pregações de Roger Williams. Um capítulo fundamental do desenvolvimento
posterior dessa história é, sabidamente, o aparecimento do clássico tratado de
Locke a respeito da tolerância, em 1689, e não há indícios de que o sectarismo
protestante tenha tido alguma importância significativa para o desenvolvimento
da perspectiva de Locke sobre a tolerância24. Se pouca ou nenhuma importância
teve para o pensamento de Locke, menos ainda o teve para o pensamento de um
Espinosa25, que representou um passo à frente em relação ao primeiro: enquanto
Locke defendia a ideia de uma "soberania dual", isto é, um Estado e uma Igreja
igualmente soberanos, Espinosa "chegou a uma concepção mais profunda da
tolerância ao subordinar a Igreja ao Estado. Dessa forma, transformou o Estado
na única autoridade legítima entre os homens"26. Por outro lado, se voltarmos
nossa atenção para a Europa Ibérica, veremos que ali se desenvolveu uma
tradição de tolerância genuinamente religiosa inteiramente à margem de qualquer
forma de sectarismo ou congregacionalismo. É melhor passarmos a palavra a um
estudioso do assunto:
[No século XVII] havia na Espanha e em Portugal uma velha tradição de
tolerância que tinha raízes tanto em controvérsias teológicas medievais, a
respeito da lei natural e da possibilidade de salvação universal através da
graça divina, quanto em um tipo de sabedoria prática camponesa segundo a qual
levar a vida de acordo com os mandamentos de Deus era suficiente para assegurar
a salvação. Esta sabedoria prática se exprimia em máximas como "melhor um bom
mouro que um mau cristão" ou "cada um pode se salvar na sua própria lei". Estas
ideias latitudinárias seriam exemplos do que a Inquisição chamava de
"proposições", isto é, concepções que conflitavam diretamente com o dogma pós-
tridentino tal como ela os representava e defendia. Essas "proposições"
incluíam um amplo espectro de crenças desviantes: a negação do paraíso, inferno
e purgatório, a dúvida em relação à virgindade de Maria ou da eficácia dos
santos, a crença de que não havia pecado no sexo pré-marital e, mesmo, a
própria negação da existência de Deus. Dentre essas ideias, havia também a
crença de que a salvação era acessível a todos os que levassem uma vida de bem,
independentemente de sua religião. Embora estas ideias relativistas pudessem
ser encontradas entre judeus e muçulmanos convertidos, elas não eram de forma
alguma associadas somente a eles (Schwartz, 2003:35).
Diante disso, claro está que há vias não sectárias de acesso à "tolerância
absoluta" e, mais importante, essas vias, ao contrário do que a passagem de
Weber anteriormente reproduzida sugere, não são mais estreitas do que as
sectárias. Talvez sejam até mais largas27. A Europa Ibérica, por exemplo, não
precisou esperar por "seitas consequentes" para desenvolver sua própria
tradição genuinamente religiosa de tolerância. Foi contra o pano de fundo dessa
tradição, diga-se de passagem, que a figura legendária do padre Antônio Vieira
pôde emergir. Quando, em nossos dias, o tomamos como o exemplo paradigmático da
tolerância no Brasil seiscentista, não nos ocorre que a tolerância que
apregoava pudesse ser "na verdade, mais limitada e mais 'instrumental' que a de
alguns de seus contemporâneos e predecessores" (id., ibid.:34)28.
Isso posto, gostaria de sugerir que, para além dos três tipos de tolerância
vislumbrados por Weber - econômica, política e genuinamente religiosa (ou
"absoluta") -, há um quarto tipo que não ocorreu a ele justamente por se tratar
de um claro exemplo de novidade sem nenhuma relação com a disciplina mental e
moral demandada pelo sectarismo protestante. Em outras palavras, sem relação
alguma com a "transformação da alma do homem" decorrente do advento da demanda
por tal disciplina. Refiro-me ao que poderia ser chamado de a tolerância pela
tolerância, ou a tolerância como um fim em si mesmo. Esse tipo de tolerância,
entretanto, não é análogo à concepção protestante do trabalho como um fim em si
mesmo porque, diferentemente desta última, em nada depende de "sensações
irracionais"29, ou, em termos mais genéricos, de estados mentais determinados.
Assim, lembro-me de que, ainda adolescente, na escola secundária, certo
estudante, tendo se aborrecido com um colega negro, não hesitou em afrontar-
lhe, em altos brados, com impropérios racistas. Na época, nem sequer ocorreu a
alguém que um ato como aquele pudesse ser passível de severa punição. De fato,
não o era. Em nossos dias, não é preciso dizer o que aconteceria a um colegial
que procedesse dessa maneira. Hoje é sabido que severas punições disciplinares
são impostas a colegiais adolescentes por atos racistas incomparavelmente mais
"brandos" do que aquele que, no início dos anos de 1970, tive a infelicidade de
testemunhar. Receio de que fosse desse tipo de tolerância, isto é, de uma
tolerância imposta, antes que autoimposta, ou melhor, autoimposta como o
resultado de ter sido previamente imposta (algo análogo ao uso obrigatório do
cinto de segurança no Brasil), que Espinosa falava ao se mostrar tão embevecido
por sua Amsterdã30.
CONCLUSÃO
Iniciei este artigo mencionando que o pensamento sociológico weberiano é, mais
do que qualquer outro, movido pelos desafios de distinguir o velho do novo e de
explicar a transição de um para outro. Ao longo do texto, procurei mostrar que
Weber enfrentou esses desafios postulando, ainda que involuntariamente, a
existência de análogos sociológicos do repouso, de um lado, e de forças que o
perturbam a fim de produzir o movimento, de outro. O análogo sociológico por
excelência do repouso é aquilo que Weber chamou de "tradicionalismo", o qual
pode se manifestar das mais variadas formas. Examinei duas delas: a mentalidade
"quiescente" luterana e o estilo "irracional" do empreendimento judaico. A
força que, na perspectiva weberiana, perturba essas formas de tradicionalismo
para produzir quer uma mentalidade ativa, quer um estilo racional de
empreendimento é, em última análise, a doutrina calvinista da predestinação.
Nos marcos do pensamento weberiano, esta última funciona como uma espécie de
"plataforma de lançamento" a partir da qual se "salta" da "passividade" para a
"atividade", do "irracionalismo" para o "racionalismo", enfim, do "velho" para
o "novo". Isso posto, argumentei que essa linha de raciocínio levou Weber a
enxergar fossos não existentes (entre as mentalidades luterana e calvinista,
por exemplo) e a deixar de enxergar fossos existentes (entre a tolerância
peculiar aos nossos dias e a de períodos precedentes, por exemplo).
Feita essa recapitulação, cabe agora mencionar que não surpreende que a
perspectiva de Weber se tenha enredado em tais dificuldades. Afinal, em vez de
primeiro identificar um possível "fosso" para, depois, investigar como ele veio
a se formar e como pôde (ou não) ser transposto, se por meio de um salto
espetacular ou se de uma forma que não envolve rupturas bruscas, Weber, em
primeiro lugar, postula a existência de algo que funcione como uma plataforma
de lançamento (por exemplo, a doutrina calvinista da predestinação e a
concepção de vocação que lhe é subjacente) para, então, postular a ocorrência
do salto que se deu a partir dela e, só então, a existência do fosso cuja
transposição necessariamente a requereu. Daí ter postulado, equivocadamente, a
existência de um fosso entre as mentalidades luterana e calvinista, de um lado,
e entre os estilos judaico e puritano de empreendedorismo, de outro. Quando,
por outro lado, não lhe é possível postular de antemão a existência de algo que
funcione como a referida plataforma de lançamento, Weber conclui que não há
fosso algum a ser transposto e, portanto, que nada de novo se produziu. Daí sua
dificuldade em conceder um caráter de novidade à tolerância moderna ou em
vislumbrar uma tolerância genuinamente religiosa inteiramente à margem da
"transformação da alma do homem" efetuada pelo sectarismo protestante31. No que
se refere a esse ponto, receio de que o exercício tão caracteristicamente
weberiano de analisar, em termos típico-ideais, os traços peculiares a um
determinado fenômeno (seja o sectarismo ou o que quer que se lhe possa
equivaler funcionalmente) que o predispõem a viabilizar algum outro fenômeno (a
tolerância religiosa, por exemplo) nem sempre se revela metodologicamente
frutífero. No caso em discussão, receio de que suas considerações a respeito
das características de uma seita "pura" e do modo como essas características
predispõem, em termos típico-ideais, um membro de uma seita a tornar-se um
"ferrenho defensor" da liberdade de consciência sejam de todo inúteis quando se
trata de compreender o modo como tradições de tolerância religiosa efetivamente
se desenvolvem e, mais do que isso, como, em nossos próprios dias, a tolerância
veio a se converter em um fim em si mesmo.
NOTAS
1. As citações nos próximos parágrafos cuja fonte não é mencionada foram
extraídas da p. 43.
2. Desnecessário lembrar que Weber se valeu da pregação de Benjamin Franklin,
tal como aparece em seu livro Advice to a Young Tradesman, de 1748, para
extrair a máxima "tempo é dinheiro" e todas as demais listadas anteriormente.
Vale também lembrar que a base da noção de que enriquecer é um dever moral é a
doutrina calvinista de que o homem trabalha para a glória de Deus, e não em
benefício próprio.
3. Ver Graf (1993), especialmente as pp. 40 e 41.
4. Na quinta nota de rodapé do cap. 4 de Weber (1981), podemos ler: "Sobre as
diferenças doutrinárias [entre o luteranismo e o calvinismo], o que
apresentamos se deve às leituras de Schneckenburger".
5. Ver nota de rodapé 4 e o texto correspondente.
6. Nota de rodapé 37 do cap. 4 (Weber, 1981).
7. Cabe ainda citar Hans de Witte, calvinista da Antuérpia, "o maior
industrial, o maior financista, o súdito mais rico da Boêmia, o banqueiro do
imperador, da imperatriz, do generalíssimo, da nobreza, do clero, dos próprios
jesuítas" (Trevor-Roper, 2007:37).
8. Trata-se de um calvinista que dominou a história econômica francesa de 1639
a 1654. "Com sua habilidade financeira", conta-nos Trevor-Roper, "manteve o
exército da Alsácia leal à França e financiou a política alemã de Mazarino"
(2007:34-35).
9. Ver Abrahams (1901:12).
10. Ver, a esse respeito, Rivkin (1967).
11. Na verdade, a expressão "consciência quiescente" é de Schneckenburger, e
não de Weber. Como, entretanto, Weber subscreve a posição de Schneckenburger
sem qualquer restrição, não constitui uma violência atribuir-lhe o uso de tal
expressão.
12. A bem da verdade, há muito mais exemplos. Devo, entretanto, destacar um: o
que o próprio Weber chama de o "dualismo universalmente original entre as
atitudes morais interna e externa" (2003:359-360), o qual, em sua perspectiva,
teria sido espetacularmente rompido pelo trabalho missionário de Paulo. Para
uma discussão a respeito da pertinência dessa tese, ver Freitas (2007).
13. Ver, por exemplo, o capítulo dedicado ao antissemitismo inglês em Poliakov
(1979:178). O autor esclarece que a resistência aos judeus na época de Cromwell
vinha justamente dos mercadores tradicionais que com eles competiam, e não de
supostos empreendedores "capitalistas burgueses". Ver também Poliakov (1971),
especialmente as pp. 36 e 37.
14. A bem da verdade, não era necessário que fosse uma seita protestante. É
melhor passar a palavra diretamente a Weber: "Hoje, o tipo de congregação a que
alguém pertence é irrelevante. Não importa que se seja maçom, cientista
cristão, adventista, quacre, ou qualquer outra coisa. O decisivo é que se seja
admitido como membro através de 'votação', depois de um exame e uma comprovação
ética no sentido das virtudes que estão a prêmio para o ascetismo, ao mesmo
tempo íntimo e voltado para o mundo, do protestantismo, e, daí, para a tradição
puritana antiga" (1974:352-353; ênfases no original).
15. Ver Graf (1993:29), especialmente a nota 11.
16. Ver citação da nota 13 deste texto.
17. Graf (1993:29) reproduz trechos inteiros dessa importantíssima carta na
nota de rodapé 11 de seu trabalho.
18. Ver especialmente o capítulo XX, parágrafo 246. Ver também Rivkin (1996:
272).
19. Essa liberdade religiosa a que Espinosa se refere era recente em Amsterdã,
conforme se pode depreender da seguinte passagem de Wilke (2009:119-120): "As
autoridades municipais de Amsterdã lembraram aos imigrantes, a partir de 1598,
que o culto calvinista era o único permitido na cidade. Em 1603, os primeiros
rumores sobre uma organização judaica privada ocasionaram uma investigação
criminal; e, em 1612, o conselho municipal ameaçou mandar destruir um edifício
em construção, destinado a servir de sinagoga". Nada disso impediu, entretanto,
os judeus portugueses de se dotarem de instituições religiosas e comprarem seu
próprio cemitério (1614), fundar uma escola (1616), depois uma academia
talmúdica (1637) e, em 1639, unificarem-se sob o nome Talmud Torah (Estudo da
Lei), à semelhança da sinagoga hispano-portuguesa de Veneza (ibid.:120-121).
20. Ver a nota de rodapé 110 do capítulo 4 de Weber (1981:187).
21. Roger Williams é, na opinião de alguns estudiosos, o principal expoente da
tradição puritana de tolerância que se desenvolveu na Inglaterra seiscentista.
Notabilizou-se por provocar, em 1644, um "terremoto" no interior da ortodoxia
puritana ao apregoar, em seu livro The Bloudy Tenent of Persecution, que,
"desde a chegada de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a vontade e um mandamento de
Deus que as mais pagãs, judaicas, turcas e anticristãs consciências e formas de
adoração sejam permitidas a todos os homens e a todas as nações e países" (apud
Coffey, 1998:965; tradução minha).
22. Dizem que é mais fácil ver um cisco nos olhos alheios do que nos próprios.
Weber viu um cisco nos olhos de seu contemporâneo Ritschl, a quem me referi na
segunda seção, e deixou de ver um idêntico em seu próprio. Recordemos que
Ritschl, em contraposição a Schneckenburger, concebia um potencial inovador na
religião luterana. Ciente de que essa crítica a Schneckenburger atingia seu
próprio pensamento, Weber contra-atacou argumentando que a visão de Ritschl era
determinada por "seus próprios juízos de valor", pois retratava um luteranismo
como, segundo o próprio Ritschl, "deveria ser, e não como foi" (Weber, 1981:
165, nota 5 do cap. 4). Ora, não estaria Weber, na citação acima, agindo da
mesma maneira? Não estaria idealizando as seitas da mesma forma que, segundo
ele próprio, Ritschl teria idealizado o luteranismo? Em conexão com isso,
convenhamos que não combina muito com Weber valer-se de uma expressão como
"seitas consequentes". Claro está que, vez por outra, Weber esquece seus
escrúpulos em relação a juízos de valor - o que não é, diga-se de passagem,
necessariamente, uma deficiência.
23. Digo "obscuro" porque jamais vi outra referência a ele a não ser a de
Weber. Coffey (1998:964) credita a formação da tradição puritana de tolerância
ao trabalho de Thomas Helwys, que, em 1612, fundou a primeira Igreja Batista da
Inglaterra.
24. Ver Coffey (1998:984, nota 112).
25. Para uma discussão a respeito das influências sobre a concepção de
tolerância de Espinosa, ver Shell (1991:306-335, especialmente as pp. 323 e ss)
e Feld (1989).
26. Ver a introdução de Patrick Romanell ao clássico tratado de Locke (1977:9).
Um argumento na mesma direção é apresentado por Israel (2000).
27. Pode-se objetar que Weber se limitou a sugerir que há "afinidades eletivas"
entre o sectarismo e a tolerância genuinamente religiosa, não sendo, nesse
caso, a ocorrência do sectarismo uma condição necessária nem suficiente para a
existência da tolerância. A essa objeção gostaria de retorquir que o ato de
postular "afinidades eletivas" é um procedimento metodológico inócuo se não nos
permite concluir que há, se não uma relação de causalidade, pelo menos alguma
tendência à covariação entre os fenômenos ditos "eletivamente afins". Se não
for possível, a partir das considerações de Weber a respeito das afinidades
existentes entre o sectarismo (ou congregacionalismo) e a tolerância, afirmar
que o sectarismo constitui uma via "mais larga" de acesso à tolerância do que
as formas não sectárias de religiosidade, então as referidas considerações se
tornam inócuas, uma vez que não nos permitem extrair nenhuma implicação.
28. De acordo com Schwartz, havia em Portugal e no mundo luso-hispânico em
geral uma tradição de tolerância ou de relativismo religioso que ia além dos
limites das próprias concepções de Vieira e que, embora limitada e oprimida
pelas políticas do Estado e da Igreja, continuou a existir (2003:34).
29. Recordemo-nos de que a marca, por assim dizer, do "novo homem" de Weber é
justamente a "sensação irracional" de haver cumprido devidamente suas tarefas
do dia a dia. Na verdade, nada impede que o homem tolerante traga consigo esta
marca: que ele tolere simplesmente porque se deve tolerar, mas, na concepção de
Espinosa, essa não é uma condição necessária nem suficiente para seu advento.
Para Espinosa, o fundamental é a existência de algo como a "autoridade dos
magistrados", capaz de proteger até os membros das "seitas mais odiadas".
30. Salvo engano, tanto na concepção de Roger Williams quanto na de Locke, a
tolerância era, em larga medida, um atributo autoimposto. O indivíduo tinha de
se convencer de que a tolerância era a melhor maneira de servir a Deus. No
pensamento de Espinosa, isso não é necessário porque a tolerância é imposta
pela autoridade dos magistrados.
31. Ver a nota 27.