Habitus, reflexividade e realismo
O papel do hábito - a ação habitual, rotinizada ou costumeira - possui uma
trajetória extremamente longa na teoria social. Os teóricos possuem uma dívida
com Charles Camic (1986) por ter ele demonstrado que os "hábitos" desempenharam
um papel maior nas teorizações clássicas do que é geralmente reconhecido. Sua
definição também é agradavelmente direta e ecumênica: "O termo 'hábito'
geralmente denomina uma disposição mais ou menos auto-realizadora ou uma
tendência a engajar-se em uma forma de ação previamente adotada ou adquirida"
(1986:1044). Contudo, é difícil concordar com suas afirmações ousadas de que "a
sociologia contemporânea praticamente dispensou o conceito" (1986:1040); de que
"não há necessidade de seguir adiante no tempo com essa investigação" (1986:
1076) - referindo-se a além das primeiras décadas do século XX - ou aceitar que
o fim do hábito na teoria social resultou de uma bem-sucedida apropriação por
parte da psicologia behaviorista, apoiada pela substituição, por Talcott
Parsons, da habituação pela regulação normativa. Mais difícil ainda de aceitar
é o ponto de vista de Camic acerca da reflexividade como usurpadora da ação
habitual: "O modelo reflexivo já passou a parecer tão obviamente adequado que
aqueles que o utilizam raramente se preocupam em fornecer uma defesa razoável,
ou mesmo uma justificação explícita, da prática de uniformemente projetar a
conduta humana de acordo com esse único molde" (1986:1041). No que segue, quero
questionar a morte do hábito; pretendo ainda sugerir que há muitas razões para
se atentar para a reflexividade atualmente; por fim, buscarei desafiar a noção
de que hábito e reflexividade configuraram uma relação de soma zero ao longo
dos últimos cem anos de teorização.
Quando escrevia, em 1986, era compreensível que Camic ainda não pudesse
detectar a nascente revitalização do pragmatismo, porém era menos admissível
que não tivesse se dado conta de que a reformulação do habitus operada por
Bourdieu já começava a se tornar o que Scott Lash chamou de "o único jogo
cultural na praça" (há uma única referência no artigo de Camic à Reprodução
(1970)). Além disso, havia bons motivos, que foram reforçados ao longo das duas
últimas décadas do século XX, para que se atentasse à ação reflexiva. Contudo,
os que aqui apresentarei não são idênticos àqueles que Alexander, já intuindo
algo, expôs em 1982 (1982:67ss). Finalmente, a atitude predominante na teoria
social está longe de ser um endosso de um molde único da ação reflexiva, mas,
em vez disso, o que vemos são esforços bastante distintos no sentido de
hibridizar hábito e reflexividade.
Há, entretanto, um quebra cabeças envolvendo certas convergências teóricas que
pavimentaram o caminho para a popularidade desses esforços atuais de
hibridização. Por um lado, os pragmatistas modernos têm se tornado muito mais
preocupados não com a rotina, mas, como no título de seu livro mais
emblemático, com A Criatividade da Ação (Joas [1992] 1996). Inversamente,
vários adeptos do realismo crítico, formados na base do "modelo
transformacional da ação social" (Bhaskar [1979] 1989) e outros pela "abordagem
morfogenética" (Archer 1979, 1988, 1995), estão hoje entre os principais
defensores das noções de ação rotineira, hábitos e habitus. Em outras palavras,
pragmatistas e realistas aparecem "nos lados errados" na discussão acerca da
reflexividade - com os pragmatistas cada vez mais propensos a enfatizar a
contribuição da ação inovadora, ao passo que certos realistas são firmes
defensores das disposições habituais.
Esta sobreposição carece de uma explicação. Temos a impressão de que os dois
lados buscam fortalecer seus flancos mais vulneráveis numa época de rápidas
mudanças. Os pragmatistas estadunidenses clássicos sempre mantiveram que a
reflexividade (exercida por meio da conversação interna) surgia no momento em
que a ação habitual era bloqueada por circunstâncias problemáticas. Poder-se-ia
argumentar que a globalização cria muito mais problemas refratários a respostas
rotineiras tradicionais e, portanto, gera um aumento de deliberações
reflexivas. Contudo, isso seria perfeito demais, pois Joas enfatiza a
criatividade situada de toda ação (em oposição a orientações de ação
propositada, normativa ou racional-instrumental) sem incrementar o papel da
reflexividade, já que supõe que a criatividade - cuja falta de definição nos
instiga - não envolve premeditação.
Inversamente, o realismo crítico entrou em cena oferecendo uma ontologia de
profundidade (Bhaskar [1979] 1989), mas tem enfrentado duas críticas
recorrentes. Por um lado, a acusação de reificação tem sido constante, levando
alguns a enfatizar apenas a análise sincrônica. Isso fica claríssimo no
trabalho de Manicas, que, apesar de incluir realismo no título de seu último
livro, A Realist Philosophy of Social Science, concentra-se exclusivamente na
dimensão sincrônica, tratando a distribuição diacrônica da estruturação dos
papéis, regras e recursos, e interesses como "questões a serem trabalhadas"
(Manicas 2006:75ss). Indagações sobre como tal estruturação adquiriu essa
conformação e não outra permanecem sem resposta. Por outro lado, apesar da
insistência do realismo na dependência da ação e na relacionalidade, de modo
geral os realistas enxergam as relações sociais como fundadas em interesses
objetivos compartilhados e nos seus efeitos associados sobre a motivação da
ação. Em suma, o flanco mais vulnerável do realismo resume-se à ausência de uma
teoria robusta e relacional da integração social. Parece que a invocação, de
resto intrigante, do hábito, feita por tantos realistas, constitui uma
tentativa de preencher esse vazio.
O que estes desenvolvimentos buscam satisfazer são as objeções basicamente
razoáveis - embora muitas vezes exageradamente unilaterais - no sentido de
apontar que as influências da ordem social sobre a agência não devem ser
localizadas nem inteiramente no interior dos agentes nem inteiramente fora
deles. O primeiro tem causado certo incômodo para o pragmatismo; o segundo para
o realismo. Apesar da alta proporção de socialidade internalizada, sobretudo no
pragmatismo de Mead, o próprio fato de que os agentes enfrentam obstáculos
externos que frustram suas rotinas habituais e excedem seus repertórios
habituais significa que nem todas as influências sociais podem ser subcutâneas
- o que deixaria o "eu" espontâneo permanentemente desempregado. O constante
jogo, no pragmatismo contemporâneo, entre problemas situados e criatividade
situada nivela e distribui a carga de trabalho entre o "eu" (sempre muito mais
um realizador de tarefas do que um passional id freudiano) e o Outro
Generalizado, equilibrando o social interno e social externo.
Por sua vez, o realismo nunca localizou a socialidade inteiramente fora da
agência; se tivesse feito isso, suas referências frequentes à mistificação
ideológica e, de fato, às falácias epistêmicas, seriam incompreensíveis.
Aqueles que já tentaram fazer a crítica de que o realismo filia-se ao
individualismo monádico num mundo social totalmente exterior (Dépelteau, 2008;
King, 1999, 2007) têm dificuldade para explicar a importância que o realismo
sempre atribuiu à crítica explanatória e ideológica (Bhaskar, 1989:60-71;
Collier, 1994:101-104, 170-190). No entanto, a recente incorporação do hábito e
do habitus presumivelmente dá conta deste tipo de crítica ao permitir que uma
dose maior do social seja injetada sob a pele do agente.
A minha própria versão da teoria social realista - a abordagem morfogenética -
não é muito receptiva ao atual entusiasmo em relação à ação habitual por parte
dos realistas por duas razões. As duas dizem respeito àquilo que a abordagem
morfogenética é e faz: (i) trata-se de uma moldura explanatória utilizada para
examinar o jogo entre estrutura e agência e seus resultados e (ii) trata-se de
uma caixa de ferramentas para o desenvolvimento de histórias analíticas da
emergência de determinadas formações sociais, estruturas institucionais e
formas organizacionais. Em outras palavras, a abordagem morfogenética é, ao
mesmo tempo, um programa explicativo (o complemento metodológico do realismo
crítico) e uma forma de dar conta das trajetórias e dinâmicas das formações
sociais.
Morfogênese refere-se "àqueles processos que tendem a elaborar ou modificar a
forma, estrutura ou estado de um dado sistema" (Buckley, 1967:58), ao passo que
a morfostase refere-se a processos no interior de um sistema complexo que
tendem a preservá-lo sem mudanças. Como uma moldura explicativa, a abordagem
morfogenética endossa uma ontologia estratificada para estruturas (Archer,
1995), culturas (Archer, 1988) e agentes (Archer, 2000), dado que todas possuem
propriedades e poderes emergentes e irredutíveis - e explica todo resultado
social como o produto de suas relações. Os resultados, que podem ser amplamente
reprodutivos ou largamente transformativos, dependem do entrelaçamento da
estrutura, da cultura e da agência, mas sem considerá-las inseparáveis, como na
"conflação central" (Archer, 1995:93-134) de Giddens, Bourdieu e Beck, que
resulta num amálgama que impede o exame de sua interação. Tampouco se trata de
codeterminismo, o que sugeriria uma abordagem dualística - no sentido de
literalmente possuir duas abordagens (Dépelteau, 2008)1; a morfogênese não é
senão um dualismo analítico. Fundamentalmente, o que se perde com tal
codeterminismo é, inter alia, a dupla morfogênese na qual os próprios atores
mudam no processo em que tentam ativamente transformar a ordem social. Isto
pode ser visto como uma das principais formas não meadianas pelas quais o
social é interiorizado.
Meu objetivo genérico consiste em dar conta das formas de interação que geram a
morfogênese, num extremo e a morfostase, no outro, seja no nível micro, meso ou
macrossocial. Para discutir o impacto dessa abordagem realista para a relação
entre hábito e reflexividade, será necessário recorrer a ela como,
simultaneamente, uma moldura explicativa e uma história analítica da
emergência. A discussão de ambos os aspectos requer uma breve inspeção do ciclo
morfogenético básico. A partir daí, primeiro situarei a importância diferencial
do hábito sobre o continuum morfostático-morfogenético, que é também a
trajetória histórica do mundo desenvolvido. Segundo, efetuarei críticas à
natureza ahistórica do debate hábito/ação habitual, o que me permitirá também
situar a importância da reflexividade no panorama histórico da transformação
estrutural e agêntica (i.e. a dupla morfogênese e suas consequências epocais).
A RELEVÂNCIA DO CONTINUUM MORFOSTÁTICO-MORFOGENÉTICO
Todas as propriedades estruturais encontradas em qualquer sociedade são
continuamente dependentes da atividade. Não obstante, é possível separar
estrutura e agência por meio do dualismo analítico e examinar suas relações de
forma a dar conta da estruturação e reestruturação da ordem social.
Fundamentalmente, isso é possível por duas razões. Em primeiro lugar, estrutura
e agência são tipos diferentes de entidades emergentes, embora limitações de
espaço me impeçam de entrar aqui no debate sobre a emergência. As diferenças
relativas às suas propriedades e poderes evidenciam essa característica, apesar
do fato de que são cruciais para a formação, continuação e desenvolvimento uma
da outra. Como sucintamente colocado por Bhaksar, "As pessoas e a sociedade
[...] não constituem dois momentos do mesmo processo. Antes, referem-se a
coisas radicalmente diferentes (1989:76). Logo, um sistema educacional pode ser
centralizado, mas uma pessoa não, e os seres humanos são emocionais, o que não
se aplica às estruturas. Em segundo lugar, e fundamental para a viabilidade
desta metodologia explicativa, estrutura e agência operam diacronicamente ao
longo de diferentes extensões de tempo por que: (i) a estrutura necessariamente
pré-data a(s) ação(ões) que a(s) transforma(m) e (ii) a elaboração estrutural
necessariamente pós-data essas ações, como representado na Figura_1. A
possibilidade de empregar o dualismo analítico repousa justamente sobre isso.

Importância plena é acordada à escala temporal pela qual estrutura e agência
emergem, se entrelaçam e se redefinem, pois é este o substrato fundamental do
formato explicativo empregado na empreitada de dar conta de qualquer mudança
social substantiva. Tendo em vista que todas as linhas na Figura_1 são de fato
contínuas, o delineamento de qualquer ciclo depende do problema posto. A
projeção de todas as linhas para frente e para trás traça conexões com ciclos
anteriores e posteriores do processo de estruturação e reestruturação
histórica, permitindo destrinchar e explicar os processos envolvidos na
estruturação e nas formas específicas de reestruturação que ocorrem ao longo do
tempo. Igualmente, isso nos permite compreender mudanças agênticas, que ocorrem
por meio da dupla morfogênese e das mudanças crucias que esta gera na
relacionalidade (Donati 2008, 2009).
Por fim, contrariamente a algumas declarações já feitas (por exemplo, Elder-
Vass 2007), trata-se de uma explicação diacrônica e sincrônica. Nada social é
auto-sustentado: uma miríade de fazeres agênticos (incluindo o refletir, o
acreditar e o imaginar) e as próprias relações sociais (a relacionalidade
coesiva e conflitual dos grupos) tornam real qualquer entidade social situada
em nível mais elevado e podem torná-la relativamente duradoura. Em outras
palavras, por mais longa que tenha sido a existência de algo como o
centralizado sistema educacional francês, cada momento de centralização, de sua
concepção até hoje, dependeu de fazeres e intenções agênticos (individuais e
coletivos). Contudo, isso não é equivalente à noção de Giddens de que todo
fazer por parte de todos de algum modo contribui para a manutenção do todo
(Giddens 1979:77-78). Ao contrário, alguns atores e ações são irrelevantes para
a sustentação da centralização, alguns são mais importantes que outros, e
fazeres adicionais neutralizam uns aos outros de tal maneira que o status quo
continua pro tem. O objetivo da abordagem morfogenética é precisamente
especificar o "quem é quem" e o "quem faz o quê" na transformação social.
Quando um ciclo morfogenético é completado, introduzindo uma elaboração
estrutural, não somente a estrutura é transformada, mas também a agência, como
parte e parcela do mesmo processo - dupla morfogênese (Archer 1995:247-93). À
medida que reformula relações estruturais em qualquer T4 dado, a agência está
indubitavelmente se reformulando em termos relacionais: de dominação e
subordinação, de integração, organização, combinação, e de articulação; em
termos dos interesses de uns, mas não de, outros agentes; em termos do que já
foi normalizado e é percebido como um dado; em termos dos novos papéis e
posições ocupadas por uns e não por outros; e em termos das situações inéditas
em que todos agentes se encontram no momento, restringindo os projetos de
alguns e possibilitando os projetos de outros, mas que têm importância para
todos.
Para compreender plenamente o papel desempenhado tanto pelo hábito como pela
reflexividade, é necessário olhar mais de perto para as interconexões entre as
relações resumidas pelo diagrama básico (Figura_1). Em qualquer ciclo, trata-se
de esclarecer {relação a}, isto é, de que modo os condicionamentos estruturais/
culturais efetivamente influenciam a interação sociocultural. Sem tal
esclarecimento, o termo "condicionamento" meramente exclui qualquer forma de
determinismo, porém não arbitra entre duas respostas possíveis: as influências
condicionais são exercidas sobretudo por meio da socialização (de hábito e
repertórios de ação rotineira a ele associados) ou por meio do exercício da
reflexividade, acarretando deliberação quanto ao curso adequado de ação num
dado contexto social.
Quando pela primeira vez aplicou o realismo crítico à ordem social, Bhaskar
deixou claro que na {relação a} "o poder causal das formas sociais é mediado
pela agência social" (1989:26). Ao passo que tal precaução (louvavelmente)
impede acusações de reificação de propriedades estruturais e culturais
emergentes ou de suas influências hidráulicas sobre membros da sociedade ao
insistir em sua "atividade-dependência", ela nada nos diz a respeito do
processo de mediação em si. Logo, não há escolha entre as duas respostas
possíveis supracitadas: socialização não-reflexiva versus deliberação
reflexiva. Isto pode explicar por que teorias sociais realistas livremente
optam seja pelo hábito, seja pela reflexividade para operar como o mecanismo
mediador chave, como argumentarei adiante.
Para prover diretrizes para a decisão, em vez de se deixar de lado a questão do
que constitui o condicionamento, será necessário esclarecer {relação b}, qual
seja, que tipos de interação social se seguem à morfostase versus morfogênese
estrutural/cultural. Isto é crucial, pois T4 passa a ser o novo T1 do próximo
ciclo de <condicionamento ? interação ? elaboração>, o fim de um ciclo sendo o
começo do seguinte. Em outras palavras, trata-se de um ponto decisivo para
sabermos se a influência condicionante exercida na próxima geração de agentes
(que podem ou não ser as mesmas pessoas), mais adiante na linha do tempo, é
semelhante àquela no T1 inicial, como seria de se esperar quando o resultado
foi a morfostase, ou ao contrário, quando a seqüência termina com a
morfogênese.
Um debate atemporal, espacialmente indeterminado e socialmente não especificado
acerca do processo de mediação é fútil, isto é, busca apenas averiguar quantos
concordam com a moção universal de que "o hábito é mais importante que a
reflexividade" ou vice versa. Claro, a maioria, corretamente, responderia "às
vezes um, outras vezes o outro". Com bastante propriedade, estão escondendo
suas apostas até ser possível especificar o "quando", o "onde" e o "em que
condições". Tentativas de causar um curto circuito nessa especificação,
realizando um casamento às pressas entre hábito e reflexividade e chamando a
cria destes de "hibridização", nada alcançam em termos de utilidade teórica.
Obviamente, os defensores deste híbrido costumam ser um pouco mais sofisticados
do que isso. Em contraposição a isto, os defensores da ação habitual quase que
uniformemente atribuem uma importância elevada e universal ao pré-reflexivo
(anos, práticas, experiências, socialidade e socialização) na formação de
hábitos. Os defensores da reflexividade, por seu turno, conferem a mesma
importância elevada e universal à habilidade individual de escrutinar,
monitorar e modificar hábitos adquiridos por meio da conversação interna.
Trata-se, de igual modo, de generalizações, e demandam a mesma especificação
que o curto e grosso "às vezes um, às vezes outro".
Buscarei argumentar que se colocarmos a {relação a}, relativa a como as pessoas
são socialmente condicionadas, junto com a {relação b}, significando a
possibilidade de reproduzir ou modificar circunstâncias iniciais, torna-se
possível avançar algumas proposições específicas quanto à importância relativa
do hábito e da reflexividade em relação ao tempo, lugar e condições. Parte da
utilidade das três proposições levantadas é que elas nos possibilitam
identificar a partir de que tipo particular de configuração social aqueles que
defendem a universalidade da ação habitual estão super-generalizando sua
importância; o mesmo vale para os protagonistas universais da reflexividade.
Uma contribuição teórica mais útil que ambas estas seria oferecer um
diagnóstico específico do lugar do hábito e da reflexividade no passado,
presente e futuro.
Geralmente, a influência condicionante do contexto estrutural/cultural na
{relação a} funciona moldando as situações - da acessibilidade a recursos à
prevalência de crenças2 ‹ nas quais os agentes se encontram, de tal modo que
alguns cursos de ação estariam impedidos e desencorajados, ao passo que outros
seriam facilitados e encorajados. O uso destes termos denota efeitos objetivos
sobre a subjetividade, como argumentado por Porpora (1989): "entre os poderes
causais depositados nas posições sociais encontram-se os interesses . . .
Atores são motivados a agir segundo seus interesses" (Porpora 1989:208). No
entanto, se restrições e incentivos são tomados como ilustrativos do
condicionamento contextual, então será preciso reconhecer que este é apenas o
primeiro capítulo da história, a parte que explica como propriedades
estruturais e culturais afetam os agentes. Isso porque não há restrições e
incentivos per se, isto é, enquanto entidades. Tais são os poderes causais
potenciais das propriedades sociais emergentes, porém um constrangimento
precisa de algo para constranger e um incentivo, de algo passível de ser
incentivado. Em outras palavras, para que qualquer coisa possa exercer o poder
contingente de um constrangimento ou de um incentivo, ela precisa figurar em
uma relação de tal modo que obstrua ou facilite a consecução de uma empreitada
agêntica específica, conforme subjetivamente definida. O nome genérico dada
para tal empreitada é "projetos" - qualquer fim, por mais rudimentar que seja,
que possa ser intencionalmente nutrido por seres humanos. Em suma, a ativação
de constrangimentos e incentivos objetivos depende de sua recepção individual
ou coletiva.
Três condições são necessárias para que as influências condicionantes das
propriedades estruturais e culturais possam exercer seus poderes na forma de
constrangimentos ou incentivos. Em primeiro lugar, tais poderes dependem da
existência de projetos humanos; se, per impossible, não houvesse tais projetos,
não haveria, por conseguinte, constrangimentos ou incentivos. Em segundo lugar,
para operar, seja como uma influência constrangedora, seja de incentivo, deve
haver uma relação de congruência ou incongruência, respectivamente, com os
projetos agênticos particulares. Em terceiro lugar, os agentes precisam reagir
a essas influências que, sendo mais condicionais que determinísticas, estão
sujeitas a deliberações de natureza reflexiva com relação à natureza da
resposta, e seus poderes pessoais incluem as habilidades de resisti-las ou
driblá-las.
Todavia, essa breve discussão da {relação a} permanece indeterminada no que
tange àquilo que os membros da sociedade (e em que proporção) concretamente
farão. Nos meus dois últimos livros (Archer 2003, 2007) argumentei que isso
dependerá do modo de reflexividade - a ser abordado adiante - empregado por
diferentes agentes, ao mesmo tempo em que defendo que o modo dominante
praticado é dependente do contexto (2007:317-325). A fórmula geral [contextos
sociais + preocupações pessoais] atrela importância igual a ambos os elementos
na explicação da extensão da reflexividade e sua modalidade predominante.
Assim, para fazer a presente discussão avançar no sentido de esclarecer quando
o hábito prevalece sobre a reflexividade, ou vice-versa, é necessário fazer a
conexão entre {relação a} e {relação b} para introduzir a sequência histórica
geral do(s) ciclo(s) morfogenéticos e morfostáticos.
Em termos gerais, há uma trajetória histórica que vai das formações sociais
morfostáticas (regidas fundamentalmente por feedbacks negativos) às
morfogenéticas (em que o feedback positivo começa a predominar) e que explicam
a importância variável que o hábito tem exercido na sociedade. Em outras
palavras, o hábito, de fato, possui um lugar particular na história - ele
pertence à morfostase. Sem dúvida, a ação habitual pode ser prolongada (junto a
grandes porções da população) onde quer que os circuitos de feedback circulem
simultaneamente, o que é a própria durée da modernidade. Mas seus dias estão
contados quando a morfogênese começa a ocorrer plenamente, já que é nesse
momento que o "imperativo reflexivo" (Archer, no prelo) torna-se inevitável,
até para a realização de preocupações tradicionais. Invocar a "hibridização"
equivale simplesmente a rotular essa complexidade, em vez de tentar compreender
e explicar o que está acontecendo, ou pelo menos será este o meu argumento.
Em outras palavras, quero responder ao chamado não atendido que Vygotsky fez
por uma história da reflexividade em 1934 (Vygotsky 1964:153), em vez de tratá-
la como uma potencialidade humana, mas cuja prática permanece historicamente
indeterminada. O objetivo aqui coincide, em linhas gerais, com a injunção feita
por Emirbayer e Mische no sentido de "olhar para as orientações agênticas
apoiadas por períodos de estabilidade e mudança' (Emirbayer e Mische 1998:1006-
07), ao tentar compreender os tipos de projetos nutridos pelos agentes.
Contudo, ainda que esta injunção demonstre que o presente argumento apela para
uma tradição mais ampla que o realismo, este pode ir além do apelo empiricista
à distinção de Swidler (1986) entre tempos sedimentados e não sedimentados.
Isso pode ser alcançado distinguindo-se entre os contextos moldados para
qualquer dado grupo de agentes, a {relação a} referindo-se a uma continuidade
contextual, a uma descontinuidade contextual ou a uma incongruidade contextual.
Tal tarefa acarreta situar estes três tipos de contextos herdados (e não por
obra ou escolha de agentes contemporâneos) na escala morfostática-morfogenética
e demonstrar que eles ocupam pedaços distintos do panorama histórico que se
estende da sociedade mais antiga até o presente {relação b}. Variações em
termos de tipos contextuais também podem ser diferenciadas para diferentes
segmentos da população e para setores distintos da sociedade em questão, sendo
que nenhuma delas está necessariamente em compasso sincrônico com a outra ou
com a macrotrajetória da sociedade.
MORFOSTASE-MORFOGÊNESE E CONTINUIDADE, DESCONTINUIDADE E INCONGRUIDADE
CONTEXTUAL
A partir do resumo da discussão ora apresentado, podemos avançar três
proposições, sendo que cada uma será examinada a seguir.
A Hegemonia do Hábito Depende da Morfostase Societal
Aqui, "hábito" é empregado de modo a abarcar termos cognatos (habitus,
comportamento usual, ação habitual e rotinizada). Hábito denota o que William
James designou de "seqüências de comportamento que se tornaram virtualmente
automáticas" (1890:107) ou o que Giddens descreveu como ações que são
"relativamente não motivadas" (1979:218). Charles Camic prestou um precioso
serviço ao garimpar os trabalhos de Durkheim e Weber para oferecer uma idéia
geral das partes respectivas atribuídas ao hábito e à ação habitual. Contudo,
Camic estava tão preocupado em demonstrar que o hábito permanecia uma questão
central para ambos os teóricos citados que ele não logrou plenamente apreciar a
conexão forjada por cada um entre sociedades antigas (ou civilizações antigas)
e sua continuidade contextual, a qual promoveu a hegemonia da ação tradicional
- em suma, as caracterizações durkheimiana e weberiana da morfostase e suas
conseqüências. Sabemos, todavia, que o homem preocupado da Terceira República e
o delegado para a Conferência de Versalhes sentiam-se igualmente desconcertados
pela transição para a modernidade e a descontinuidade, diferenciação e
diversificação das orientações mentais e operações institucionais que ela
representava - todas as quais são manifestações engajadas pela morfogênese .
Em outras palavras e de acordo com suas próprias descrições, ambas as figuras
seminais pareciam estar agudamente conscientes do papel crucial desempenhado
pela continuidade contextual, que nada mais é que a maneira pela qual os
contextos de ação são moldados para os membros de configurações estrutural e
culturalmente morfostáticas da ordem social. Deste modo, Camic relata que, para
Durkheim, "povos primitivos [...] vivem em grande medida sob a 'força do
hábito' e sob o 'jugo do hábito '[...] pois que 'quando as coisas continuam
acontecendo do mesmo jeito, basta(m) o(s) hábito(s) para a conduta' e o
comportamento moral é facilmente transformado "em hábito mecanicamente levado a
cabo'" (Camic 1986:1051) - o que foi o caso até a Idade Média. A própria
afirmação bastante sumária de Durkheim é classicamente pragmática, a saber,
onde "houver um equilíbrio entre nossas disposições e o ambiente ao nosso
entorno", a ação contornará a deliberação reflexiva, sendo que a "consciência e
a reflexão" despertam apenas "quando o hábito é interrompido, quando um
processo de não adaptação ocorre" ([1913-1914] 1983:79-80).
Daí que Camic chega à conclusão que para Durkheim "a ação humana, seja
individual ou coletiva, oscila entre dois pólos, o da consciência ou reflexão
de um lado, e o do hábito pelo outro, sendo que este último é o mais forte"
(1986:1052). No entanto, as referências que dão validade a esse juízo foram em
boa parte extraídas da obra de Durkheim acerca da educação moral, ética cívica
e pedagogia futura. Não devemos nos esquecer de que estes escritos compunham o
receituário reformista e curativo para a modernidade, cujo objetivo era
restaurar a integração social ao nível em que se encontrava no status quo ante.
O juízo não faz parte da descrição da modernidade e sim do receituário
durkheimiano para o status quo post. Além disso, Camic reconhece a crença de
Durkheim de que "sob as condições dinâmicas da idade moderna, qualquer
moralidade viável acarreta também contínua reflexão por parte das camadas
superiores da ordem social" (1986:1054).
Sem nutrir o mesmo sonho comtiano, em que sociólogos virariam guias para a
sociedade, Weber simplesmente descreve a ligadura vinculando sociedades e
civilizações antigas ao tradicionalismo e o hábito: "quanto mais retrocedemos
na história . . . [percebemos que] a ação social é determinada dentro de uma
esfera cada vez mais compreensiva exclusivamente pela disposição
(Eingenstellheit) orientada ao puramente tradicional" ([1922] 1978:321). A
continuidade contextual é apresentada como a condição necessária para esse "mar
de tradicionalismo," com a vida camponesa girando em torno das estações. Camic
não chega a destacar a significância da morfostase (e sua transformação), já
que ele passa inteiramente ao largo dos estudos de Weber sobre as religiões
mundanas baseando-se na justificativa de que a emergência do racionalismo e do
capitalismo Ocidental já nos é "suficientemente familiar para podermos colocá-
los de lado" (1986:1063). Ao fazer isso, perde-se a importância que Weber
atribuiu à continuidade contextual, surgida do padrão de reforço mútuo entre
morfostase estrutural e cultural. Perde-se igualmente o ponto feito pelo estudo
comparado das religiões mundanas, em que a ausência destas condições era
precisamente o que para Weber continha a explicação das origens da
racionalidade do Judaísmo antigo (cujo protótipo nas teodicéias do infortúnio
foi atribuído às descontinuidades contextuais produzidas por ciclos de
conquista e de exílio). Três mil anos depois - um descaminho nunca totalmente
examinado - Weber retraçou a trajetória do espírito do capitalismo e aqui
localizou as suas origens, que superaram a "incapacidade e indisposição geral
para romper com caminhos habituais" ([1923] 1927:355).
Contudo, Weber advertia os cidadãos da modernidade a se manterem "constantes no
emprego de corretivos contra o hábito impensado" (Levine 1981:20). Em outras
palavras, Weber não enxergava seus quatro tipos de ação como em série, cada um
baseado numa orientação, e cada um consecutivamente cedendo lugar para o outro
à medida que as circunstâncias mudassem. Ao invés disso, as racionalidades
tradicional (habitual) e instrumental eram tipos extremos, nem mutuamente
exclusivos nem excludentes da Wertrationalitåt ou do tipo carismático. Todavia,
a Zweckrationalitåt tornou-se paulatinamente mais dominante no processo lento,
parcial e diferencial que foi o progresso da modernidade. O que Weber reprova
dentro da modernidade é uma relação estritamente de soma zero entre a ação
habitual e as deliberações reflexivas acarretadas pela Zweckrationalitåt. Não
há, portanto, justificativa para a amalgamação das duas em teorias da
hibridização desenvolvidas para a sociedade globalizada um século depois. De
igual modo, capta-se bem como o ponteiro desloca-se da ação predominantemente
habitual para a ação predominantemente reflexiva, quando a morfostase
lentamente pende na direção da morfogênese à medida que a diferenciação
estrutural e cultural engajam-se durante a modernidade.
Portanto, estou argumentando que a continuidade de sociedades morfostáticas
(geradoras de continuidade contextual) foi sublinhada por um baixo nível de
diferenciação ideacional - sendo que as duas se reforçam mutuamente. Assim, a
elite estrutural ficou atrelada à única forma de discurso cultural corrente,
dada a ausência de uma fonte alternativa de ideias; de modo semelhante, a elite
cultural estava imbricada na malha de papéis de liderança existentes, dada a
ausência de qualquer outra forma de diferenciação social. A morfostase
cultural, por meio da reprodução estável de ideias entre uma população
unificada, gerou um ambiente ideacional altamente propenso à manutenção
estrutural. De igual modo, a morfostase estrutural, por meio da perpetuação da
subordinação e, logo, do controle da diferenciação, deu uma importante
contribuição para a manutenção cultural. Quando o contexto se mantém contínuo
ao longo de várias gerações, então enormes proporções da vida cotidiana ficam
sob a tutela da ação de rotina, e lá permanecem. Indução, iniciação e imitação
bastam para a transmissão desse repertório e para a condução da maioria das
atividades repetitivas. Os mecanismos gerativos da continuidade estão
ilustrados na Figura_2.
[/img/revistas/dados/v54n1/05f02.jpg]
No entanto, a reflexividade humana não esteve de todo ausente e de fato não o
poderia, tendo em vista sua indispensabilidade social em três sentidos: um
"senso do self" é necessário para a apropriação correta dos direitos e deveres
por parte daqueles a quem eles foram designados, o automonitoramento da
performance é necessariamente uma tarefa reflexiva, e a reflexividade é crucial
para superar o hiato entre expectativas formais e eventualidades concretas no
sistema social aberto. No entanto, o que a reflexividade não faz e não é capaz
de fazer em sociedades tradicionais é possibilitar a seus membros uma nova
visão do self ou do social porque eles não possuem os recursos ideacionais e
organizacionais para tal. Eis porque o uso do termo "sociedades tradicionais" é
justificado. Isto porque a coexistência da morfostase cultural e estrutural
gerou um alto e duradouro grau de "continuidade contextual" cotidiana para as
populações em questão: situações repetitivas, expectativas estáveis e relações
duradouras - e, junto com tudo isso, a ação habitual.
A paridade de importância entre hábito e reflexividade coincide com formações
sociais que são simultaneamente morfostáticas e morfogenéticas (i.e. aquelas
próximas ao ponto intermediário do continuum)
Entende-se aqui "paridade" como um termo sumário que cobre diferentes segmentos
da população, ao invés de indicar uma "hibridização" para todos. A
"Hibridização" é geralmente esposada por aqueles que enfatizam a durabilidade
do período pré-reflexivo e a internalização de suas influências - vindas de
entes mais próximos ou do contexto social mais amplo. Os protagonistas da
hibridização são distintivos na medida em que retiram dos sujeitos o poder de
sobrepujar a socialização das fases iniciais da vida por meio da reflexividade
(ou na medida em que a restringem à modificação de disposições socializadas),
derrogando assim poderes pessoais e concedendo primazia à ordem social. É
importante ressaltar que estes teóricos mostram-se pouco inclinados para
debater diferenças entre aqueles envolvidos mais de perto em setores sociais
morfogenéticos, se comparados com aqueles que permanecem inseridos em áreas
(rurais), instituições (agricultura) e campos ideacionais (folclore)
morfostáticos.
Há duas maneiras fundamentais segundo as quais a relação entre hábitos e
reflexividade pode ser conceituada: uma enxerga as duas pelo prisma da tensão,
produzindo batalhas intrapessoais; ao passo que a outra enxerga a ação
inovadora, reflexiva como baseada em disposições habituais. A primeira
concepção é antipática à hibridização; a segunda a assume. Aquela é acolhedora
quanto aos compromissos propositados pessoais, ao passo que esta lhe é hostil.
Uma pode acentuar a descontinuidade contextual macroscópica como uma espora
para a reflexividade; a outra enfatiza minúsculas continuidades cotidianas no
nível micro.
A primeira concepção é tributária de Peirce e pode ser comprimida nos seguintes
cinco pontos (Calapietro 1989; Davis 1972; Archer 2003: 64-78). Primeiro,
Peirce é um defensor dos "poderes pessoais", principalmente aqueles oriundos de
nossas naturezas morais, os quais devem resultar no automonitoramento das ações
e não na replicação das mesmas: "Você está bem consciente de que o exercício do
controle sobre seus hábitos é, se não a mais importante tarefa na vida, algo
bem próximo disso" (citado em Davis 1972:111) Segundo, a autotransformação
ocorre por meio da "conversação interna" reflexiva em que as pessoas buscam se
conformar às suas preocupações, ideais ou compromissos últimos, aos quais se
chega de forma intrapessoal, "cuidando delas como se fossem flores no meu
jardim" (Peirce 1965:192). Terceiro, isto envolve uma luta por parte do "eu"
comprometido e inovador para superar a inércia do "eu" (ou self crítico)
habitualizado, tal como vislumbrado por Peirce em sua famosa analogia judicial
em que o Advogado da Mudança leva adiante e defende o seu caso a contrapelo das
profundas disposições desenvolvidas biograficamente. Quarto, a imaginação
possui um papel principal na realização de nossos compromissos por meio do
"poder da meditação preparatória" (1965:189), pois tais "contemplações" são
provocadas não apenas por obstáculos que impedem a consecução rotineira de
cursos de ação: "As pessoas que constroem castelos no ar em certa medida não
realizam muita coisa, é verdade, mas todo homem que realiza grandes feitos é
dado a construir elaborados castelos no ar" (1965: 189). Quinto, quanto mais
variação social e variedade cultural disponível sobre os quais se pode ponderar
reflexivamente - o que Colapietro chama de "butim" (booty) (1989:115-16),3
maior será o estímulo para engajamentos inovadores: "o que mais influencia os
homens no sentido do autogoverno é o profundo desgosto por um tipo de vida e
uma admiração tenra por outro" (Colapietro 1989:111).
Essa compreensão peirciana, à qual tentei, sem sucesso, fazer jus, dá espaço
tanto para poderes pessoais irredutíveis como para propriedades e poderes
sociais distintos, compatibilizando-se, assim, com a ontologia estratificada do
realismo. De modo inverso, aqueles que acreditam ser a ação inovadora ou
criativa dependente do hábito possuem uma ontologia social plana composta por
uma miríade de situações ocorrentes (diferentemente do próprio Mead).
Simultaneamente, estes esposam um conceito da pessoa muito mais permeável
socialmente, daí portanto a valorização do pré-reflexivo (ver Crossley 2001),
sendo que o trabalho Creativiy of Action de Joas ([1992] 1996) constitui a
expressão quintessencial dessa visão. Este perspicaz estudo já foi destacado
por suas maiores afinidades com Dewey e Mead e sua "curiosa relutância em
assimilar as idéias de C.S. Peirce" (Kilpinene 1998:41). De fato, a obra não
esposa nenhum dos cinco pontos acima. Mais uma vez, condensarei acentuando três
questões.
Primeiro, Joas toma a criatividade como algo que depende do pré-reflexivo na
medida em que ela é provocada por "situações que clamam por soluções, e não
como a produção sem restrições de algo novo, sem nenhum pano de fundo
constitutivo composto por hábitos irrefletidos" (1996:129). Ademais, "até mesmo
fatos de extrema criatividade supõem a preexistência de uma camada rochosa
subjacente de ações de rotina e condições externas que são simplesmente tomadas
como pressuposto" (1996:197). Isto prenuncia como as propriedades e poderes
tanto sociais como pessoais são minimizados. Portanto, na oposição de Joas à
tirania da ação propositada (seja ela normativa ou racional), ele posiciona-se
contra a pressuposição de objetivos prévios à ação e à "autonomia básica do
ator na definição de objetivos" (Burger 2007:109): "a definição de objetivos
não ocorre em virtude de um ato do intelecto anterior à ação concreta, mas, ao
contrário, é o resultado de uma reflexão sobre as aspirações e tendências que
são pré-reflexivas e que sempre já estiveram operantes" (1996:158). Segundo,
esta é a chave de braço fundamental que limita os poderes pessoais de
autocomprometimento. Ela é intensificada porque a "situação interativa é o
elemento constitutivo dos objetivos e das ações. Ela não estabelece limites
meramente quanto ao que pode acontecer, ela influencia de modo constante e
direto o que efetivamente acontece (Mouzelis 1998:492). Portanto, em
dissonância com Peirce, o processo autotélico não é examinado. Terceiro, visto
que o livro e o argumento permanecem no nível situacional, não se admite que
deslocamentos macroscópicos e, particularmente, as descontinuidades contextuais
que se intensificam com a modernidade possam ter qualquer impacto nesse fluxo
contextual perfeitamente contínuo (Gross, 1999:341-342; Burger, 1998:109;
Mouzelis, 1998:495).
Todos os pais fundadores, cada um a seu modo, enfatizaram que a transição para
a modernidade constituiu um enorme crescimento de "descontinuidade contextual",
manifestada primeiramente por seus propulsores iniciais. Se a transformação-
chave foi conceitualizada em termos da transição da organização social
segmentada para uma cooperativa, do feudalismo para o capitalismo ou, ainda, da
pré-Reforma para a pós-Reforma, o denominador comum foi a "descontinuidade
contextual", representada por novas formas de diferenciação, dissimilaridade,
alienação, anomia e incerteza. De igual modo, aqueles traços que tinham sido
característicos da "continuidade contextual" tradicional - similaridade,
familiaridade e solidariedade - foram apresentadas como sendo progressivamente
(se não irreversivelmente) minados. Como argumentei em outro trabalho (Archer
2007:317-30, no prelo), os lentos e diferenciais impactos causados pela
urbanização, industrialização e participação serviram de grandes gatilhos para
expandir a reflexividade destes grupos na vanguarda da mudança, e daqueles cujo
apoio foi solicitado e mobilizado, até mesmo se a própria lentidão da
modernidade permitisse alguma continuidade contextual e rotinização ser
restabelecida para alguns grupos, como, por exemplo, as comunidades
trabalhadoras urbanas.
Com efeito, a lentidão do processo de modernização e seus impactos diferenciais
(sobre o urbano e o rural, os atores políticos e a população, países avançados
e menos avançados) tiveram como significado uma "descontinuidade contextual" e
"continuidade contextual" que coexistiram intimamente para diferentes segmentos
de qualquer população específica, em qualquer tempo particular. Todavia, o fato
de que o pluralismo ideacional proliferou e recrutou um maior apoio (setorial)
também barrou o restabelecimento da morfostase cultural à moda antiga. Não foi
possível recuperar a reprodução de um repertório abreviado e sistematizado de
idéias tradicionais face aos agrupamentos socioculturais setorializados. De
modo semelhante, a interação entre uma variedade crescente de grupos de
interesse associados às novas instituições diferenciantes - cada qual se
tornando articulado em sua própria defesa e capaz de detectar o autointeresse
nas reivindicações em busca de legitimidade de outros - foi suficiente para
evitar qualquer retorno à morfostase estrutural passivamente aceita.
Incrementos de Reflexividade Dependem da Morfogênese
Mudanças bruscas tornam diretrizes habituais para a ação menos relevantes ou
verdadeiramente traiçoeiras. A partir da década de 1980, a sinergia entre
produção multinacional e tecnologia da informação resultou numa escala inédita
de morfogênese, cujo mecanismo generativo consiste na variedade que gera mais
variedade. Concomitantemente, a lógica de oportunidade situacional começou a
emergir tanto em nível empresarial como individual pela primeira vez na
história humana, em dissonância com a "lógica de competição situacional" de
soma zero da modernidade. É o que Thévenot denomina de "imperativo da inovação"
(2006, 2008:14) e que constitui a condição para o "imperativo reflexivo."
Por um lado, o exercício da reflexividade pessoal para fazer escolhas em terras
incógnitas significa que as diretrizes anteriores, inseridas na "continuidade
contextual", estão rapidamente desaparecendo à medida que vão se tornando cada
vez mais traiçoeiras. Por outro, as recompensas do trabalho e do emprego
começam a fluir para aqueles que detectam, manipulam e encontram conexões entre
fragmentos de conhecimentos até então não relacionados; fragmentos cuja
complementaridade contingente pode ser explorada para obter vantagens. Os
"vencedores" são "vencedores" porque conseguem adequar suas habilidades ao
conjunto de oportunidades em veloz transformação ou constroem suas próprias
oportunidades graças à capacidade de inovar de acordo com a contingência. Tudo
isso favorece o "imperativo reflexivo" já que as velhas diretrizes de rotinas
não se aplicam mais e as novas não podem ser forjadas porque (até mesmo) a
nascente morfogênese (Figura_3) é hostil à rotinização.
[/img/revistas/dados/v54n1/05f03.jpg]
Cada vez mais, os agentes navegam de acordo com o compasso de suas próprias
preocupações pessoais. Essa crescente dependência de poderes pessoais - sejam
eles empregados individual ou coletivamente - tem como contrapartida o declínio
do outro generalizado e da socialização como um processo quase unilateral (como
discutirei adiante). Tem-se como corolário que algumas das mais conhecidas
teorias dos anos 1990 são conceitualmente incapazes de lidar com as
consequências da morfogênese liberta de qualquer amarra. Por exemplo, quando
pragmatistas insistem na ausência da "ação premeditada", logicamente exclui-se
"compromissos pessoais prévios" que funcionam como instrumentos de navegação:
se aspirações fossem verdadeiramente pré-reflexivas e "sempre já operantes",
haveria um desencaixe em relação a novas oportunidades. De modo semelhante, se
aqueles que reconhecem a "individualização" simultaneamente derrogassem poderes
agênticos, tal como na tese da "modernização reflexiva" (Beck et alii 1994;
para uma crítica, ver Archer 2007:29-37), estariam também afirmando que "o
indivíduo autofocado está longe de uma posição em que tomará decisões
inevitáveis de modo racional e responsável, isto é, referidas às suas possíveis
consequências (Beck e Beck-Gernsheim 2002:48). Ele ou ela já tiveram seus
compassos pessoais confiscados por um fiat teórico.
No lugar disso, argumento que uma dependência ampliada da reflexividade para
realizar e monitorar compromissos agênticos e uma relacionalidade seletiva
correspondente (sendo que as duas se reforçam mutuamente) gera uma agência de
engajamento reflexivo e avaliativo (Thévenot 2006, 2008). Esta sociologia do
engajamento, compartilhada pela "virada pragmática" francesa e pela minha
própria posição (Maccarini 2008; Archer, no prelo), embora longe de idênticas,
enfatiza a crescente dependência que os agentes passam a ter de seus poderes
pessoais - sejam eles empregados individual ou coletivamente. Temos como
contrapartida um reconhecido declínio do outro generalizado e da socialização
como um processo quase unilateral. Um engajamento avaliativo vis-à-vis o mundo,
como antítese do "sujeito self-despairing" e do "utopismo de Habermas"
(Maccarini e Prandini 2010), encontra afinidades nas obras de Charles Taylor
(1989:27-43) e Harry Frankfurt - isto é, na teorização da "importância daquilo
com o que nos importamos" (Frankfurt 1988: 80-94).
No lugar das diretrizes habituais, os sujeitos tornam-se cada vez mais
dependentes das preocupações pessoais, as únicas guias da ação. A deliberação
reflexiva é cada vez mais inescapável para se adotar um curso de ação capaz de
realização: auto-interrogação, automonitoramento e auto-revisão passam a ser
necessários tendo em vista que cada um é alçado à condição de seu próprio guia.
É POSSÍVEL CONDUZIR REALISMO E HÁBITO NUMA RÉDEA DUPLA?
Há três razões porque realistas críticos, em princípio, não têm bons motivos
para serem firmes defensores da "ação rotineira". Primeiro, tendo em vista que
a vida social em um sistema aberto está sempre à mercê das contingências, tem-
se que logo, por definição, as respostas dadas por sujeitos não podem ser
plenamente "rotinizadas". Segundo, a coexistência e a interação entre
mecanismos gerativos plurais freqüentemente moldam as situações empíricas
encontradas por sujeitos de modos imprevisíveis, desse modo exigindo respostas
criativas. Terceiro, a ontologia social estratificada do realismo inclui um
estrato de propriedades e poderes pessoais emergentes que incluem a capacidade
humana da ação inovadora.
Portanto, é inesperado deparar com Dave Elder-Vass (2007), Steve Fleetwood
(2008) e Andrew Sayer (2005, 2009) elaborando defesas independentes da "ação
rotineira" e buscando acomodá-la à reflexividade. Os três autores tendem a
enfatizar o "condicionamento social" sobre os graus de liberdade dos sujeitos
para produzir respostas não determinadas e heterogêneas (não respostas
plenamente "voluntaristas", o que ninguém está defendendo) por meio de suas
práticas reflexivas. A reflexividade foi invocada pela primeira vez numa
tentativa de redefinir a vaga explicação realista para o concreto funcionamento
do processo de "condicionamento social" (Archer 2003, 2007), sugerindo que as
deliberações reflexivas constituem mecanismos mediadores. O que é contraposto
pelos atores mencionados é a importância equivalente de um processo alternativo
de mediação4, a saber, "habituação" - daí o interesse por Bourdieu. Porém, como
realistas críticos adotam um modelo transformacional ou morfogenético da ação
social envolvendo a mudança, a inovação e a criatividade, esta vertente tem
como objetivo conciliar o habitus e a reflexividade.
Portanto, a independência plena da subjetividade pessoal em relação à
objetividade social não é a questão que nos divide. Sayer nunca atribuiu esta
presunção em relação aos meus argumentos e Fleetwood (2008:195) cita uma
passagem em que explicitamente afasto essa possibilidade: "Sem anular a
privacidade de nossas vidas interiores, nossa socialidade está lá, dentro
delas, porque elas estão lá, dentro de nós. Logo, a conversação interna não
pode ser retratada como a atividade completamente independente de uma mônada
independente, que apenas torna-se consciente de seu contexto social externo da
mesma forma como observa o tempo lá fora" (Archer 2000:117). Mas, é importante
ressaltar, a passagem continua assim: "Inversamente, a conversação interna pode
com demasiada rapidez ser colonizada pelo social, de tal forma que seu poderes
causais são expropriados das pessoas e retribuídas à sociedades". Em outras
palavras, o papel que atribuí à reflexividade procura atingir um equilíbrio
entre interpretar tudo o que seres humanos são como uma dádiva da sociedade
(Harré 1983:20)5 e a mônada da modernidade, que permanece intocada pelo
ambiente social, como no caso do homo economicus e seus pares.
A única maneira de explicar com alguma precisão o que as pessoas fazem, em vez
de recorrer a correlações entre pertencimento grupal e padrões de ação, cujo
poder de explicação, via de regra, deixa a desejar, será atingir o equilibro
certo entre poderes emergentes pessoais, culturais e estruturais. Para dar
conta tanto da variabilidade como da regularidade nos cursos de ação tomados
por aqueles situados em posições similares, é preciso reconhecer nossa
singularidade como pessoas, sem negar que nossa socialidade seja essencial para
que sejamos reconhecíveis como pessoas humanas.
TRÊS TENTATIVAS DE COMBINAR HABITUS E REFLEXIVIDADE
Combinação Empírica
Há uma diferença considerável na quantidade de ajustamento teórico que os
realistas defensores de uma combinação de habitus e reflexidade consideram
necessária para que os dois conceitos trabalhem em conjunto. Num extremo,
Fleetwood (2008) e Sayer (2009) defendem amplamente uma combinação empírica
envolvendo aportes teóricos bem modestos da parte do pensamento de Bourdieu e
do meu. Por um lado, ambos os autores querem ser mais generosos no
reconhecimento das influências duradouras da socialização: ela irá restringir o
campo de visão em relação aos tipos de trabalho pretendidos por pessoas de
classes mais baixas ou do gênero feminino (Fleetwood 2008); quando novas
oportunidades ocupacionais se apresentarem para jovens adultos - trabalhos que
não existiam na geração dos pais -, aqueles de situação mais privilegiada
exibirão "precisamente o mesmo senso de segurança, empreendedorismo e
merecimento que marcam o habitus da classe média" (Sayer 2009:123). Portanto,
ambos afirmam que a socialização familiar continua basicamente igual à do
século XX.
Trata-se de uma questão empírica que pode ser respondida diferentemente para
grupos particulares em determinados lugares. No entanto, há evidência (a ser
discutida adiante) de que a socialização não pode ser tratada como uma
constante e que, especialmente para aqueles que agora chegam na idade adulta,
esse processo possui pouca semelhança com as práticas vigentes ao longo do
século passado. Em outras palavras, Bourdieu pode ter tido mais ou menos razão,
na prática, considerando o período ao qual o grosso de seu trabalho se refere
(mais para perto do ponto intermediário do continuum morfostático-
morfogenético). A questão que ainda pode ser debatida é se o habitus
socializado continua a gerar um bom encaixe entre disposicionalidade e
posicionalidade durante as últimas duas décadas. Ao contrário, pode-se
argumentar que os jovens do novo milênio não são mais as pessoas
bourdieusianas, porque elas não vivem mais no mundo de Bourdieu.
Tanto Sayer como Fleetwood atribuem um papel maior à reflexividade que Bourdieu
porque eles aceitam que as pessoas realizam escolhas e o fazem cada vez mais na
medida em que a ordem social se torna mais morfogenética. Embora a injeção de
deliberações reflexivas pudesse ter a vantagem de libertar o pensamento de
Bourdieu das acusações de determinismo (Alexander 1994), não é claro se ele a
aceitaria. A despeito de suas "concessões tardias", ele persistiu na manutenção
de que as escolhas que fazemos foram orquestradas na terra escondida do
habitus: "trata-se de uma cláusula condicional crucial - o próprio habitus
determina esta opção. Podemos sempre dizer que os indivíduos fazem escolhas,
desde que não esqueçamos que eles não escolhem os princípios [sic] destas
escolhas" (Wacquant 1989:45).
A justificativa empírica de Fleetwood e Sayer para combinar habitus e
reflexividade recai sobre o prolongamento de grandes extensões de ação
rotineira, mesmo enquanto a morfogênese opera. Assim, para Fleetwood:
Disso não se pode seguir à conclusão que um sistema aberto
morfogenético careça de modelos rotinizados ou padrões estabelecidos
e/ou mude com demasiada velocidade para que regras institucionais se
solidifiquem e formem hábitos com algum grau de sucesso. [...] As
intenções de alguns agentes são não deliberativas, e a melhor
explicação que temos para tais intenções é que elas estão ancoradas
no hábito. (2008:198)
De modo semelhante, Sayer sustenta que o "habitus continua a pairar como um
grande vulto até mesmo em meio à descontinuidade contextual" (2009:122), o que
ele afirma para contrapor-se ao meu argumento acerca da progressiva
desrotinização da vida, que consigna o habitus a sociedades mais estáveis que
as nossas, sociedades que manifestam a "continuidade contextual" necessária
para sua aquisição. Ele continua:
Contudo, a maioria das crianças ainda possui continuidade o
suficiente em suas relações e experiências para que elas possam ser
ajustadas - o lar familiar, a rotina maçante da escola, os lembretes
diários quanto à sua classe social e posição na hierarquia de
gêneros. Enquanto existe provavelmente um aumento na descontinuidade
contextual, continua havendo bastante estabilidade, e elas
dificilmente se tornariam atores sociais competentes se não
desenvolvessem uma sensibilidade para jogos familiares. (2009:122)
Portanto, tanto Fleetwood como Sayer optam por uma fórmula empírica patrim et
patrim, a qual aceita que há mudança o suficiente de modo a tornar a
deliberação reflexiva algo inescapável, mas suficientemente contínua para a
formação de respostas rotinizadas que permanecem realistas e reproduzíveis em
grandes extensões da vida. Asserções empíricas só podem ser resolvidas
empiricamente. No meu estudo longitudinal sobre alunos de graduação (Archer, no
prelo), um graduando, ao se deparar com dados sobre crianças criadas por quatro
ou seis pais (graças a novos casamentos), respondeu, "Bem, são todos de classe
média, não são?", o que coloca um ponto de interrogação sobre o porquê da
similaridade de posições de classe ser considerada automaticamente mais
determinante que diferenças de língua nativa, país de origem, religião e
política no processo de socialização.
Hibridizando Habitus e Reflexividade
"Hibridização" (Adams 2006) acarreta mais que o pressuposto empírico básico
segundo o qual, em algumas situações, o habitus governa a ação de modo quase
inconsciente, ao passo que em outras se recorre à reflexividade autoconsciente.
Ela envolve também uma ginástica conceitual ao afirmar a noção de um "habitus
reflexivo", de modo a avançar na análise disposicional de Bourdieu, apesar das
transformações posicionais da contemporaneidade. No híbrido de Sweetman, tais
mudanças societárias são sinônimas daquelas delineadas na teoria da
"modernização reflexiva" (Beck et alii 1994) e seu objetivo consiste em
conectá-las à prática expandida da reflexividade - que passa ela mesma a ser
caracterizada como um novo habitus:
Estamos sugerindo aqui que, nas condições da modernidade (tardia,
alta ou reflexiva), crises endêmicas [...] levam a uma interrupção de
posicionamentos sociais, a uma disjunção mais ou menos constante
entre habitus e campo. Nesse contexto, a reflexividade deixa de
refletir a ausência temporária de um encaixe entre habitus e campo,
mas ela mesma se torna habitual e desse modo é incorporada ao habitus
na forma do habitus flexível ou reflexivo. (2003:538, ênfase da
autora).6
O conceito-compromisso de um "habitus reflexivo" elide dois conceitos que
Bourdieu consistentemente distinguia: as disposições semiconscientes
constitutivas do habitus e a reflexividade como a autoconsciência destas.
Ademais, o que acontece quando chamamos isto de "habitus"? Literalmente,
afirmamos que as pessoas agora possuem uma disposição para serem reflexivas no
que concerne às suas circunstâncias e, talvez, para estarem preparadas para a
mudança no lugar da estabilidade. Assim sendo, "estar preparado" deve ser
empregado transitivamente; pode-se estar preparado para algo determinado, caso
contrário esse habitus híbrido não pode fornecer diretrizes disposicionais para
a ação. Sem estas, o conceito se reduz à afirmação de que a maioria das pessoas
esperam ter que pensar sobre o que fazer quando se deparam com situações
inéditas. Isto é verdade, porém é difícil ver como chamar essa expectativa de
"habitus" explica qualquer coisa tanto sobre os processos deliberativos quanto
sobre o que as pessoas fazem. De fato, tendo em vista que, para Bourdieu, o
habitus sublinhava a pré-adaptação das pessoas às circunstâncias e a natureza
semiconsciente, quase automática, de suas operações - todas elas aceitas por
Sweetman - é difícil pensar em qualquer conceito menos apropriado para
caracterizar deliberações conscientes sobre escolhas inéditas.
Sweetman sustenta que "certas formas de habitus podem ser inerentemente
reflexivas, e que o habitus reflexivo ou flexível pode ser tanto cada vez mais
comum como mais significativo em virtude de vários deslocamentos sociais e
culturais" (2003:529). Qual o sentido aqui de "inerentemente", tendo em vista
que Bourdieu considerava, de modo consistente, a formação de qualquer habitus o
resultado da socialização? Que tipo de socialização pode oferecer preparação
para o imprevisível e o inédito? Isto pode parecer uma contradição entre
termos; a alternativa acaba sendo cair no vazio - em algo parecido com o lema
dos escoteiros: "Esteja preparado".
Há apenas duas maneiras de sair desse impasse. Um destes caminhos é trilhado
por Mouzelis, que, em coerência com Bourdieu, tenta fornecer uma resposta nos
termos de uma socialização que poderia resultar do desenvolvimento de:
uma disposição reflexiva não adquirida via situações de crise, mas
via uma socialização focada na importância de uma "vida interior" ou
na necessidade "de criar objetivos próprios". Por exemplo, a criação
numa comunidade religiosa que enfatiza a meditação e a contemplação
interna pode resultar em membros de uma comunidade adquirindo um tipo
de habitus reflexivo que não está relacionado a contradições entre
disposições e posições. (2009:135)
Embora tais experiências possam concretamente promover a "meta-reflexividade"
(refletir sobre suas próprias reflexões), o modo de vida que incentiva a
reflexividade "apofática" em contraposição à reflexividade "catafática"
(Mouzelis 2010) não parece estar disseminado em comunidades religiosas
Ocidentais ou Orientais e tampouco parece constituir um modelo para a
socialização secular contemporânea fora delas.
O outro caminho acarreta no abandono de qualquer pretensão de que tal "habitus
reflexivo" seja adquirido pela socialização e, no lugar disso, aceita-se que
ela é derivada das próprias experiências de vida individuais. Considera-se que
as mudanças constitutivas da "modernização reflexiva" "contribuem para uma
reflexividade contínua e difusa que torna-se ela mesma habitual, por mais que
esta noção possa parecer paradoxal à primeira vista" (Sweetman 2003:538). Mas o
que acrescentamos ao chamar a reflexividade de "habitual" depois que observamos
que ela é "contínua e difusa", tendo em vista que não pode ser o motor da ação
habitual (algo com o que o autor concorda)? Quando o conceito é esvaziado de
toda conexão com os cursos de ação, o paradoxo cede lugar à contradição. Por
exemplo, Ostrow escreve que "não há um caminho claro que leva das disposições
até a conduta. O que existe é um campo protensional, ou perspectiva, que
contextualiza todas situações, estabelecendo enquadramento pré-objetivo para a
prática, sem qualquer regra ou código expresso que automaticamente e
mecanicamente nos 'diga' o que fazer" (2000:318); qual perspectiva poderia
possivelmente contextualizar todas as situações, especialmente aquelas que são
imprevisíveis e não intencionais? O fatalismo, sozinho, se encaixa bem nesta
descrição. Contudo, ele nos oferece apenas atores passivos que já abdicaram do
governo de suas vidas e, ademais, é tão incompatível com a noção de Beck de
"fazer a própria vida" numa ordem social desestruturada, quanto com a minha
própria versão de "fazer o seu próprio caminho pelo mundo" em meio à
restruturação morfogenética.
Reconciliação Ontológica e Teórica
A reconciliação proposta por Elder-Vass acarreta uma revisão teórica mais
profunda com o objetivo de tornar habitus e reflexividade compatíveis (ver
Dalton 2004 para uma revisão que favorece inteiramente o habitus). Tal
reconciliação envolve as seguintes etapas: (i) que a concepção de Bourdieu da
ordem social, em geral, e poderes de agência, em particular, sejam desacoplados
do "conflacionismo central"7 e sejam relacionados a uma ontologia emergentista;
(ii) que a influência acordada à reflexividade seja limitada ao confiná-la às
modificações do habitus operada por sujeitos. Assim, Elder-Vass enxerga os
principais "ajustes" ontológicos recaindo sobre o trabalho de Bourdieu e os
principais "ajustes" teóricos sobre o meu trabalho. Se aceitarmos ambos, ele
então poderá avançar em (iii) sua asserção chave de que a maioria de nossa
ações são co-determinadas tanto pelo nosso habitus como por nossas deliberações
reflexivas, com base numa "teoria emergentista da ação" (2007:335).
Em resposta a (i), é argumentado que trata-se de uma interpretação equivocada
do pensamento de Bourdieu; quanto a (ii), que assenta-se sobre uma confusão
bastante comum entre os tipos de conhecimento necessários para jogar jogos com
habilidade nas três ordens da realidade natural - a natural, a prática e a
social; e quanto a (iii), que esta não justifica com êxito a reconciliação ora
proposta. Certamente, o autor pode querer aduzir esta reconciliação na condição
de uma teoria própria, a ser julgada de acordo com os seus méritos, e não como
a prole de um casamento às pressas.
Habitus, emergência e reflexividade - uma convivência possível? Elder-Vass
parece estar correto em sustentar que, se estrutura, cultura e agência são
vistos como sendo mutuamente constitutivos, haveria uma incompatibilidade com a
reflexividade, pois deliberações reflexivas dependem de uma clara distinção
entre objeto e sujeito. A reflexividade é impedida pela "conflação central", em
que as propriedades e poderes respectivos de estruturas e agentes são elididas.
Como argumentado por Mouzelis:
apenas quando a distinção objetivo-subjetivo é mantida é possível
lidar de modo teoricamente congruente com casos em que atores
situados se distanciam de estruturas sociais relativamente externas a
eles para avaliar, mais ou menos racionalmente, os graus de restrição
e capacitação que tais estruturas oferecem, os prós e os contras, as
chances de sucesso ou fracasso de diferentes estratégias etc. (2009:
138).
Elder-Vass concorda e, como um defensor já estabelecido das propriedades
emergentes (2005), protesta que a frase de Bourdieu "a internalização da
externalidade", que o conduz à descrição de "estruturas estruturadas
predispostas a funcionarem como estruturas estruturantes" (1990a:53), constitui
um "erro ontológico", na medida em que "não logra distinguir entre uma
estrutura social e as suas conseqüências para nossos estados mentais" (2007:
334). Assim, torna-se crucial distanciar Bourdieu e o habitus da "conflação
central", se quisermos acomodar a reflexividade. A questão é se o pensamento de
Bourdieu é capaz de resistir à "adaptação" para uma ontologia emergentista.
Mais especificamente, cabe perguntar se a sua teorização em The Logic of
Practice pode ser adaptada. Trata-se de um texto em que pouco se menciona a
reflexividade, mas é, ao mesmo tempo, o texto do qual Elder-Vass mais depende.
Ainda que ele esteja certo ao dizer que Bourdieu não parecia exercitar com
muito vigor debates ontológicos, isto não significa que o pensador francês não
tivesse compromissos ontológicos.
Compromissos ontológicos contêm juízos quanto aos elementos constitutivos (e
não constitutivos) da realidade social e logo orientam os tipos de conceitos
que podem ser adequadamente aceitos. Determinados conceitos restam impedidos de
aparecer em explicações, assim como ateus não podem atribuir o seu bem-estar à
providência divina. Nenhuma explicação é aceitável para um teórico se ela
contiver termos cujos referentes erroneamente reconstroem a realidade social
tal como ele a enxerga (Archer 1998). Os compromissos ontológicos de Bourdieu
são tão fortes em The Logic of Practice que, em razão de seu forçoso
elisionismo, fecham as portas para a emergência - deixando o conceito e a
prática da reflexividade do lado de fora.
A mais forte convicção ontológica de Bourdieu é expressa vigorosamente na
primeira frase de seu livro: "De todas as oposições que artificialmente dividem
as ciências sociais, a mais fundamental, a mais nociva, é a que foi
estabelecida entre subjetivismo e objetivismo" (1990a:25). Num extremo, a
fenomenologia subjetivista do cotidiano não pode ir além da descrição da
experiência vivida e exclui o questionamento quanto às condições objetivas de
sua possibilidade. Em suma, esta não pode penetrar a "cumplicidade ontológica"
(Bourdieu e Wacquant 1992:20) entre o habitus e o habitat e transitar da
epistemologia leiga para o "mundo que a determina". Noutro extremo, quando
cientistas sociais do mundo acadêmico pretendem alcançar a objetividade,
necessariamente ocorre a oclusão da natureza perspectiva de sua epistemologia,
colocando os seus relatos "objetivos" entre aspas (Bourdieu 1990a: 28).
Como não há nenhuma "visão a partir de lugar nenhum" (Nagel 1986), o máximo que
pode ser logrado é algo semelhante à "fusão de horizontes" gadameriana (Gadamer
1975:364). Para observadores acadêmicos: "Há apenas um olhar perspectivo,
apenas um 'saber' perspectivo; e quanto maior o número de olhares, olhares
diferentes, que utilizamos para observar uma coisa, mais completo será o nosso
'conceito' dessa coisa, a nossa 'objetividade' (Bourdieu 1990a: 28). Não há
qualquer critério na mesma linha da "racionalidade do juízo" dos realistas
críticos para modificar nossa inarredável "relatividade epistemológica". A
mesma barreira epistemológica evita que sujeitos leigos sejam ou se tornem
"puros observadores", capazes de receber ou relatar "notícias sem qualquer
verniz" acerca dos contextos sociais objetivos em que habitam: "O 'sujeito'
originado no mundo dos objetos não emerge como uma subjetividade confrontando
uma objetividade: o universo objetivo é composto por objetos que são produtos
de operações objetifica estruturadas de acordo com as mesmas estruturas que o
habitus lhes aplica" (Bourdieu 1990a: 76-77). Consequentemente, ontologia e
epistemologia estão inextricavelmente imbricadas, tanto para o investigador
como o para o participante, tornando, desse modo, subjetivismo e objetivismo
inseparáveis - a principal característica da conflação central (Archer, 1995:
93-122), que é fundamentalmente hostil ao "emergentismo" estrutural e cultural
com o qual Elder-Vass operaria uma "reconciliação".
Além da insistência na inseparabilidade e seu correlato, o objetivo de se
transcender a divisão objetivo-subjetivo, há ainda a centralidade da prática,
compartilhada com Giddens. Mas quando nos voltamos para a prática, ela é
igualmente inóspita à visão de sujeitos leigos que agem orientados por razões,
as quais são também as causas de suas ações.
Para Bourdieu, a lógica da prática "zomba da lógica lógica" já que esta lógica
"vaga" (fuzzy) (1990a:86-87) "compreende apenas com o objetivo de agir"(1990a:
91). Isto significa responder às demandas práticas in situ, e tais respostas
não podem ser traduzidas para os "universos de discurso" acadêmicos. Assim,
Elder-Vass parece interpretar equivocadamente a afirmação de Bourdieu de que "
[S]e alguém não logra reconhecer qualquer forma de ação que não seja a ação
racional ou a reação mecânica, é impossível entender a lógica de todas as ações
que são razoáveis sem ser o produto de um desenho racional, muito menos do
cálculo racional" (1990a:50). Isto é interpretado de modo a "confirmar [...]
que ele [Bourdieu] aceita que algumas ações são de fato o produto desígnio
racional" (2007:335). Bourdieu não apenas afirma, acima, o oposto disso
(forçosamente indicado pela palavra "sem"), mas o que é "razoável" está
inscrito no senso prático (le sens pratique) e expresso na ação, e não nas
"razões" pessoais passíveis de serem articuladas. A inserção contextual é a
única coisa que faz sentido para o sujeito em suas ações: "[A]gentes podem
adequadamente dominar o modus operandi que possibilita a geração de práticas
rituais corretamente formadas apenas fazendo-o funcionar de modo prático numa
situação real, em relação a funções práticas" (1990a: 90). Logo, le sens
pratique é o que Bourdieu opõe como razoável em oposição aos planos pessoais
(ou à racionalidade instrumental).
Todavia, le sens pratique "exclui a atenção a si mesmo" (1990a:92); o sujeito
está focado na questão de "saber como", e não "saber que" - ou por quê. Daí
segue que o sujeito é incapaz de fazer uso da reflexividade: "Simplesmente
porque ele é questionado e se questiona acerca das razões e da raison d'être de
sua prática, ele não pode comunicar o ponto essencial, que é que a verdadeira
natureza da prática é a exclusão essa questão" (1990a: 91). A resposta está
entranhada de modo demasiado profundo na gênese prática e histórica tanto da
prática como da lógica da prática para que o sujeito seja capaz de desentranhá-
la. Consequentemente, e no presente, tais sujeitos não "reagem às 'condições
objetivas' mas sim a essas condições tais como apreendidas através de esquemas
socialmente constituídos que organizam a sua percepção" (1990a:97). De várias
maneiras, Bourdieu nunca deixou de ser um antropólogo e o sens pratique é um
primo não longínquo dos Azande (Evans Pritchard 1937:195), tão imbricados nos
fios que tecem a malha de sua própria cultura coerente a ponto de serem
incapazes de questionar o seu próprio pensamento e de adquirir a distância
necessária para ser reflexivo em relação às suas próprias ações.
Seriam nossas ações codeterminadas pelo habitus e pela reflexividade? Quando
Elder-Vass se detém sobre a "reconciliação" teórica das duas visões acerca da
relação entre poderes causais humanos e a ação, é a vez da abordagem
morfogenética realizar uma acomodação. De fato, esta tentativa é tão resistente
aos "ajustes" teóricos quanto Bourdieu seria a qualquer revisão ontológica.
Embora Elder-Vass concorde que "nós indivíduos humanos tenhamos, como afirmado
por Archer, poderes emergentes próprios" (2007:35), apenas metade da história é
contada por ele no que tange à reflexividade. A reconciliação das duas
perspectivas está fundada na própria teoria de Elder-Vass segundo a qual
"muitas e talvez a maioria de nossas ações são codeterminadas por ambos - nosso
habitus e nossas determinações reflexivas" (2007:335).
A razão para resistir à "codeterminação" encontra-se na premissa que subjaz à
"teoria da ação humana" de Elder-Vass, isto é, tem a ver com "as raízes
emergentes do nosso poder de agir" (2007:336). Esta premissa chave afirma que a
"ação" e a "ação social" são homogêneas. Colin Campbell (1996) documentou como
os dois conceitos foram efetivamente elididos em textos sociológicos e, desse
modo, indevidamente sustentaram o imperialismo social. A mesma premissa é
importada diretamente de Bourdieu, para quem o "sentido do jogo" ("feel for the
game"), incorporado no habitus, é aplicado de modo indistinto em todas as três
ordens da realidade humana. No entanto, obliteram-se assim as distinções
ontológicas cruciais, discutidas extensivamente em Being Human (Archer 2000),
que fundamentam os diferentes tipos de conhecimento que sujeitos humanos podem
desenvolver em cada ordem. Bourdieu atropelou tais distinções, à la Mead, em
sua asserção "colonizadora" de que: "[E]ntre a criança e o mundo, existe a
intervenção do grupo" (1990a:76). Automaticamente, isto faz com que toda ação
seja ação social, e confere ao habitus hegemonia epistemológica em cada ordem
da realidade. Inversamente, sustentar-se-á que nossas relações diversas com as
três ordens dão origem a formas distintas e heterogêneas de conhecimento, que
acarretam graus bastante diferentes de reflexividade.
Ao colocar sob escrutínio a afirmação chave de Elder-Vass de que "a maioria de
nossas ações são codeterminadas por habitus e reflexividade" nos deparamos com
uma falácia sociológica. Codeterminação significa que a influência de dois
fatores sobre um determinado resultado pode ir desde uma contribuição na
proporção de 50% para cada, até uma contribuição na proporção 99%/1% por um ou
outro fator. O meu argumento é que as contribuições proporcionais de habitus e
reflexividade variam sistematicamente de acordo com a ordem da realidade em
questão e que são menos determinantes para a ordem social. Caso eu esteja
correta, isto torna a "reconciliação" formalmente possível, embora vazia na
prática.
A seguinte figura simples representa a defesa de Elder-Vass do papel do habitus
na "codeterminação" da ação. Ela também serve para mostrar que dois temas estão
envolvidos.
[/img/revistas/dados/v54n1/05s01.jpg]
Em primeiro lugar, seriam as experiências os fundamentos das disposições
humanas? Trata-se de um ponto crucial, pois, a não ser que o deslocamento de
(2) para (3) possa ser sustentado, a relevância do deslocamento de (1) para (2)
cai por terra, juntamente com a promulgada influência da socialização. Em
segundo lugar, poderia a socialização justificadamente ser vista como um termo
sumário determinando as experiências de grupos, e mais especificamente, de
classes sociais? Trata-se de uma questão independente da primeira e que será
examinada na próxima subseção.
A linha geral do meu argumento é que os tipos de conhecimento adquiridos pela
experiência das três ordens da realidade não são de naturezas homogêneas e que
emergem de diferentes relações entre o sujeito e cada ordem, que sui generis
permitem ou requerem graus variáveis de reflexividade dos sujeitos. A
codeterminação é assim uma questão que varia em termos de contribuições
proporcionais feitas pelas disposições e pela reflexividade para as ações
baseadas nos três tipos de conhecimento. Ao passo que Bourdieu aplicava habitus
indistintamente a todas as ordens, sustentarei que adquirir um "sentido do
jogo" é uma metáfora que não funciona bem para toda a realidade natural.
A Figura_4 resume o argumento proposto em Being Human (2000).
[/img/revistas/dados/v54n1/05f04.jpg]
Na natureza, o requisito relacional para "experiência ¡Æ disposição" (digamos,
nadar) é simplesmente a coordenação de um corpo com um ambiente (aquático, no
caso da flutuação). A habilidade emergente (o nado) depende da relação entre
nossas potencialidades/vulnerabilidades fisiológicas e o feedback positivo/
negativo recebido da água. Genericamente, nossa reflexividade é irrelevante
para a nossa "flutuabilidade", senão bebês com apenas alguns meses de vida não
poderiam ser lançados em piscinas. Certamente, alguns podem querer argumentar
que eles já possuem um habitus incorporado depois de nove meses de experiência
num ambiente amniótico bem aquático.
Então, escolhamos outro exemplo. Em duas ocasiões, Elder-Vass usa a atividade
de caminhar para exemplificar o conhecimento incorporado, empregado como uma
segunda natureza em atividades mundanas como entrar na cozinha. Certo, mas por
que temos que introduzir um habitus em relação ao ato de andar? Arrisco dizer
que nenhum de nós fomos explicitamente ensinados a inclinar o peso do corpo
para frente quando subimos uma ladeira e a fazer o contrário, quando descemos -
simplesmente descobrimos que essa era a maneira mais fácil de fazer isso. Em
outras palavras, a reflexividade não possui participação na aquisição de
disposições através do aprendizado por tentativa e erro, e tampouco a
socialização faz isso. Ademais, é impossível reflexivamente esquecer o
conhecimento incorporado, tal como saber nadar; a única coisa que nós podemos
fazer é nos recusarmos a nadar. Certamente, podemos ficar enferrujados, mas
isso tem mais a ver com a perda do tônus muscular do que com a perda da
habilidade, algo que foge ao nosso controle. No que concerne à codeterminação,
as habilidades representadas pelo conhecimento incorporado são 100% graças à
experiência; a reflexividade não faz parte do script na ordem natural.
Certamente, esta afirmação analítica raramente é manifestada empiricamente -
isto é, uma ordem em que os sujeitos estão "sozinhos com a natureza" -, mas um
instrutor vagarosamente esvaziando bóias não ensina, na verdade, ninguém a
flutuar. Daí a ironia de que justamente onde a "experiência→disposições"
funciona melhor, isso nada tem a ver com a socialização.
Na ordem prática, habilidades tácitas emergem das capacidades e resistências
apresentadas pelos objetos e também das assimilações e acomodações feitas pelo
sujeito em relação a estes. Atividades como jogar tênis de modo competente,
tocar um instrumento musical, datilografar ou conduzir um veículo dependem
todas de um aprendizado (catching on) e, em níveis mais avançados (como na
improvisação do jazz ou na manobra de um ônibus articulado), da aquisição de um
verdadeiro "sentido do jogo". Este é, sem dúvida, o território de Bourdieu, mas
a afirmação seguinte mostra-o rejeitando completamente a fórmula da
codeterminação ao discutir "hexis" ou habilidades corporais como disposições
permanentes: "Os princípios incorporados dessa maneira são situados além do
alcance da consciência e, portanto, não podem ser atingidos pela transformação
deliberada e voluntária" (Bourdieu [1980] 1990a:93-94). No que se refere ao
conhecimento prático, respaldo plenamente Elder-Vass, porque para adquirir a
virtuosidade como um tenista ou pianista é preciso ter comprometimento,
justamente para que se possa criar "transformação deliberada", o que por sua
vez acarreta preocupações individuais e deliberações reflexivas quanto à
prioridade acordada a um esporte ou à música na constelação de habilidades
definidoras da identidade pessoal.
Sustentar que pessoas, em qualquer nível de competência, podem escolher
aperfeiçoar determinada habilidade parece indiscutível. Por essa razão, Andrew
Sayer, por exemplo, assente que jogar tênis consiste, em boa parte, em se
acostumar a devolver saques, cuja velocidade excede o tempo levado para tomar
decisões. Todavia, ele comenta "Com efeito, ela não pode fazer uma revisão e um
plano a cada vez que bate um backhand, mas ela pode em outro momento treinar
esse golpe se achar que está executando-o erradamente" (2009:121). De igual
modo, Elder-Vass utiliza exemplos de "hexis" frequentemente citados por
Bourdieu: como moldamos nossas bocas para falar ou então como adotamos
determinada postura em pé (em várias situações) é algo gerado pelo habitus, e
não pela deliberação. Talvez. Porém, isso não exclui a "transformação
voluntária". Muitas pessoas (antigamente) faziam aulas de elocução ou então
mudam (hoje) seus sotaques de forma autoconsciente.
Elder-Vass conclui que o habitus de Bourdieu "deve ser modificado para mostrar
como nós, na condição de seres reflexivos, somos às vezes capazes de
criticamente avaliar e, portanto, modificar nossas disposições à luz da nossa
experiência, nossas capacidades de raciocínio e nossos compromissos
valorativos" (2007:345). Nesse caso, ele sustenta seu argumento em favor da
codeterminação da ação na ordem prática. No entanto, a codeterminação não se
manteve na primeira das duas ordens da realidade natural que acabamos de
abordar, pareceu apropriada na segunda e, como demonstrarei, varia
dramaticamente dentro da ordem social. Assim sendo, a codeterminação não chega
nem perto de se aproximar de uma determinação equivalente ao longo do espectro
da realidade natural.
A socilialização gera experiências compartilhadas dentro das classes sociais?
Adquirir "um sentido do jogo" foi utilizado literalmente em relação à ordem
prática, mas torna-se uma metáfora quando aplicada à ordem social discursiva. A
validade desse princípio depende do estado historicamente cambiante do mundo
social. No entanto, me parece que Bourdieu quase fundiu o "senso do jogo" a uma
"forma de vida" wittgensteiniana pelo modo com que sua abordagem antropológica
permeou sua análise de configurações sociais posteriores. Afinal, no Esboço de
uma teoria da prática (1972), em que o conceito de le sens pratique foi
originalmente formulado, tal conceituação encontrava-se intimamente entrelaçada
com etnologias detalhadas dos Kabiles. A validade da projeção da metáfora para
a modernidade, estendendo-se para a alta modernidade, e talvez para além dela,
é o que está realmente em jogo aqui.
É bastante comum observar teóricos sociais (Calhoun 1993:82) notando que a
operacionalidade do habitus de Bourdieu depende tanto da estabilidade social
como de um alto grau de integração social, atuando para reproduzir uma
continuidade ao longo do tempo. Não repetirei aqui as críticas já feitas por
mim nessas linhas (Archer 2007:38-48), senão com o intuito de extrair conexões
precisas que Bourdieu estipula entre classe, experiências e disposições, todas
dependentes da estabilidade social das quais também depende o argumento de
Elder-Vass. Em primeiro lugar, o "habitus de classe" caracteriza "práticas de
classe" porque todos membros de uma classe compartilham "histórias idênticas":
"As práticas dos membros de um mesmo grupo ou, numa sociedade diferenciada, da
mesma classe, são sempre mais bem harmonizadas que os agentes reconhecem ou
desejam [...] O habitus é exatamente esta lei imanente, lex insita, inscrita
nos corpos por históricas idênticas" (1990a:59)
Em segundo lugar, tais biografias de classe homogêneas são constituídas por uma
comunalidade de experiências, as quais são, por sua vez, constitutivas das
disposições coletivas compartilhadas.
O habitus, um produto da história, produz práticas individuais e
coletivas - mais história - de acordo com os esquemas gerados pela
história. Ele assegura a presença ativa de experiências passadas, que
depositadas em cada organismo na forma de esquemas de percepção,
pensamento e ação, tendem a garantir a "correção" das práticas e sua
constância ao longo do tempo. Este sistema de disposições - um
presente do pretérito que tende a se perpetuar no futuro pela
reativação em práticas similarmente estruturadas [...] é o princípio
da continuidade e da regularidade que o objetivismo enxerga em
práticas sociais sem dar conta de explicá-lo satisfatoriamente.
(1990a:54)
Por último, há a própria admissão da parte de Bourdieu de que tal "continuidade
e regularidade", que foi vista acima como o resultado do habitus, também é a
precondição de sua operação. Isto porque tais práticas de reprodução funcionam
"apenas na medida em que as estruturas dentro das quais elas operam são
idênticas ou homólogas às estruturas das quais são produto" (1990a:61, ênfases
da autora).
Com efeito, Elder-Vass não compra a história da caracterização do mundo
ocidental pela reprodução tranquila da "continuidade contextual". Ao contrário,
ele aceita a variabilidade histórica e acentua que, quanto maior a sua
magnitude, maior a reflexividade que entra em cena - "mais obviamente quando o
conjunto de disposições existentes não fornece uma orientação decisiva" e
também "em situações que não são congruentes com nossas experiências prévias.
Por exemplo, quando adotamos um novo papel, podemos ter que pensar
cuidadosamente sobre como desempenhá-lo"(2007:341, 342). Ele até mesmo sustenta
(com Lahire (2002)) que "tais situações são radicalmente mais freqüentes do que
Bourdieu parece acreditar e, assim, somos constantemente solicitados por
situações que nos instam à revisão reflexiva"(2007:341). É exatamente isso que
permite um lugar para a reflexividade. Todavia, para que ainda haja um lugar
para o habitus, Elder Vass tem que sustentar (assim como Sayer e Fleetwood) que
um grau suficiente de estabilidade permanece apesar da descontinuidade
contextual.
De fato, estes são os termos da proposta de "reconciliação". Uma vez aceita a
manutenção de sua relevância, "então o relato de Archer sobre desenvolvimento
da identidade pessoal e da identidade social pode ser visto como com um
argumento sobre até que ponto podemos modificar nosso habitus" (2007:344,
ênfase da autora). Ainda assim, não podemos aceitar tal afirmação, exatamente
na medida em que ela está fundamentada na ainda atual durabilidade do habitus
como um guia para a ação. O que está sendo combatido é o argumento de que o
habitus tem continuada relevância na situação inteiramente inédita de
incongruidade contextual em que vivemos hoje, a qual se manifesta em razão da
intensificação da morfogênese. Cada vez mais, o ambiente familiar e as práticas
de socialização são incapazes de fornecer aos integrantes jovens de qualquer
classe as diretrizes para a ação, muito menos as diretrizes que poderiam de
algum modo assegurar a reprodução de posições sociais.
O impacto da incongruidade contextual na socialização será discutido na seção
final, mas para fechar o debate com Elder-Vass citarei o tipo de argumento que
me leva a rejeitar a sua proposta de reconciliação: "a identidade pessoal, que
parece ser um co-requisito para a deliberação reflexiva, 'chega apenas com a
maturidade e não é alcançada por todos'. Logo, a qualquer momento dado, algumas
pessoas ainda não terão se tornado reflexivas, e outras nunca o farão -
deixando-as, ao que parece, sob o domínio do seu habitus" (2007:335). Colocando
de lado a questão de saber se algumas pessoas "nunca o farão" (o que eu de fato
defendo mesmo na ausência de evidência necessária), o único caso de "quase não-
reflexividade" apresentado em (2003) foi o de Jason. Todos os dados na trilogia
sobre a reflexividade foram derivados de extensas entrevistas com sujeitos a
respeito de suas preocupações pessoais em relação às suas circunstâncias
sociais, e vice-versa. Na preparação do primeiro volume, dedicado inteiramente
à exploração do tema, entrevistei Jason durante três horas; ele permanece como
o mais tocante de todos entrevistados. Este jovem de 17 anos, que se enxergava
mais como um objeto passivo do que sujeito ativo, estava sob o domínio do
álcool e das drogas, morando na rua desde os 13 anos. Mas ele não estava sob o
domínio do habitus. Expulso de casa pelos pais, ele havia tentado conseguir
permissão para viver tanto com o pai como com a mãe em seus endereços
separados, mas não teve autorização. Longe de ter um habitus para o qual
recorrer, ele tentou apagar o passado numa bruma de entorpecentes. Quatro anos
depois, ele conseguiu se livrar das drogas, com grande determinação e ajuda de
um programa de apoio a jovens moradores de rua. Por meio de sua limitada
reflexividade, ele foi atrás de um emprego caracterizado pela extrema
rotinização no setor de vendas - talvez desejando recuperar uma estabilidade
nunca antes tida. Será que a co-determinação iluminaria esse dilema humano com
o lembrete de que, apesar de tudo, ele era capaz de andar e falar?
NÃO SE FAZ MAIS SOCIALIZAÇÃO COMO ANTIGAMENTE8
Sayer e Elder-Vass não negam que, em comparação com a ação rotineira, a
transformação social transforma simultaneamente a relevância da deliberação
reflexiva. Um esboço bastante breve dessas transformações, enfatizando os
contextos em constante mudança em que os jovens cresceram e assumiram papéis
ocupacionais, é dado em Making Our Way Through the World (Archer 2007:317-24).
Isto foi resumido previamente como os deslocamentos históricos macroscópicos
que partiram da "continuidade contextual", dominante em sociedades
tradicionais, passaram pela intensificação da descontinuidade contextual, se
espraiando gradualmente junto com a modernidade, até chegar ao advento da
incongruidade contextual nas últimas duas décadas do século XX. Esta sequência
foi internamente relacionada a um aumento no escopo e na amplitude da
reflexividade, por causa do número crescente de situações inéditas encontradas
na ordem social, onde sujeitos não podiam depender da ação de rotina como guias
para a ação apropriada.
De modo correspondente, e especialmente ao longo do último quarto de século, a
socialização tem sido cada vez menos capaz de preparar para as oportunidades
ocupacionais e de estilo de vida que não existiram para a geração dos pais:
para habilidades sociais que não poderiam se tornar incorporadas (operações de
bolsas de valores ou programação de software) ou que demandam contínua
atualização, disponibilidade para re-alocar, re-treinar e re-avaliar modi
vivendi cambiantes. Este novo contexto ultrapassa "a capacidade gerativa
estritamente limitada" do habitus, que é remota em relação à "criação de
novidades imprevisíveis", posto que restrita à "livre produção de todos
pensamentos, percepções e ações inerentes às condições particulares de sua
produção - e apenas estas" (Bourdieu [1980] 1990a:55, ênfases da autora).
Por que, exatamente, teria isso representado uma incongruidade contextual para
os jovens? A principal razão é que o histórico familiar não constituía mais um
corpus de capital cultural cujo valor durável poderia ser transmitido às
crianças, diferentemente da transmissão cultural tout simple. A cultura paterna
e materna está rapidamente deixando de ser um bem capital, negociável no
mercado de trabalho e valendo como um elemento significante no patrimônio da
prole. Les Héritiers estão ficando mais pobres por razões que vão além dos
impostos sobre a herança. A cultura continua sendo o principal quinhão da
herança, mas está rapidamente se tornando um "bem interno" (internal good)
(MacIntyre 1981; Sayer 2005:111-126) - valorizado de acordo com as estimativas
feitas pelos próprios detentores, tal como a prataria da família - ao contrário
de um "bem externo", que é valorizado no mercado aberto.
Consequentemente, as estratégias usadas para assegurar a transmissão
intergeracional de capital cultural começaram a perder força, em parte porque
estas foram consideravelmente desvalorizadas e, em outra parte, porque o rápido
decréscimo da calculabilidade das trajetórias fez das velhas formas de ação
vantajosa algo menos aplicável. Aqueles pais e mães de classe média e alta que
se mantiveram atrelados à rotina passada, que serviu bem aos seus pais, da
"compra de vantagens" por meio do acesso a um sistema educacional privado,
começaram a se confrontar com seus próprios filhos, os quais sentiam que
estavam andando com uma melancia pendurada no pescoço. Confrontando a
incongruidade entre seu histórico (o background) e seu presente (o foreground),
um número cada vez maior de egressos das public schools britânicas9 começaram a
tentar ocultar o sotaque distinto, a abusar do particípio passado, a fingir que
nunca foram apresentados ao latim, a referir-se à escola através de sua
localização geográfica - todos estes emblemas de embaraço refletindo o
reconhecimento subjetivo de incongruidade contextual em que se encontravam.
É claro, objetar-se-á que tal educação ainda garantia acesso privilegiado às
universidades mais antigas, mas alguns dos mais atinados egressos das public
schools não possuíam nenhum desejo de freqüentá-las. De igual modo, protestar-
se-á que seus egressos terão acesso privilegiado às carreiras no funcionalismo
público, na diplomacia e nas profissões tradicionais. Contudo, isto é
facilmente comparável ao fato de que, no final do século XX, alguns daqueles
privilegiados começaram a dar menos valor a essas vagas. Os mais espertos logo
aprenderam a lição: o mercado de ações queria a mentalidade do vendedor de
feira ou de rua, e um número cada vez maior passou a preferir trabalhar para o
setor sem fins lucrativos. Com efeito, a posse do capital cultural à antiga
tornou-se uma desvantagem vis-à-vis as novas aberturas e oportunidades, ainda
que se continue valorizando residualmente os espaços ocupacionais mais
tradicionais.
De modo bem distinto, os pais da classe trabalhadora se viram numa posição em
que, literalmente, não possuíam nada com valor de mercado para poder reproduzir
entre os seus filhos. Com o veloz declínio do setor manufatureiro e com o
desemprego tornando-se algo frequente, a prévia habilidade de recomendar
salários altos e de falar em nome de seus filhos também desapareceu. Com a
informatização do trabalho secretarial, de recepção e do trabalho no comércio,
mães descobriram que suas filhas já eram mais habilidosas que elas mesmas na
frente de um computador. Com trabalhos cada vez mais redundantes, empregos
improvisados e visitas frequentes às agências de emprego, há cada vez menos
resquícios da cultura da classe trabalhadora a serem reproduzidos -
principalmente o velho apelo do aspecto convival de um grupo duradouro de
colegas de trabalho - e incentivos decrescentes para reproduzir práticas de
emprego entre pais e prole. Estes, de todo modo, hoje estão em sua maioria "na
faculdade" durante períodos variáveis, mas o suficiente para que alguns comecem
achar que cursos como tecnologia da informação e design apresentam uma
excelente oportunidade. Enquanto isso, muitos destes pais se recolhem a uma
atitude de boa-vontade em relação ao futuro de seus filhos, mas sem insistir em
qualquer direção específica - o que é geralmente expresso como: "Nós os
apoiaremos, independentemente do caminho que desejarem seguir" - portanto,
transferindo o ônus da decisão para a geração seguinte e logo reconhecendo a
inutilidade de seu próprio habitus.
A velha homologia entre disposições socializadas para aceitar posições, que os
jovens então estavam aptos a ocupar e predispostos a reproduzir, está chegando
ao seu fim. Como a própria noção de capital cultural transferível torna-se cada
vez mais tênue, simultaneamente aquelas intricadas manobras, tão bem descritas
por Bourdieu, usadas para substituir diferentes tipos de capital, tornam-se
antiquadas. Um ano sabático entre a faculdade e a entrada no mercado de
trabalho, um passaporte bem rodado e o término do ensino superior no azul
certamente são financeiramente vantajosos, mas permanecem econômicos, porque o
que a prole deriva dessas práticas permanece uma prerrogativa reflexiva.
Capital social é algo mais duradouro, mas opera transmitindo uma confiança e
estabilidade, como notado por Sayer (2009:120, 122), na busca da lógica
situacional da oportunidade. Entretanto, como esta busca ocorre é uma tarefa a
ser planejada, acompanhada e freqüentemente revisada ou corrigida pelos
próprios jovens por meio de deliberações reflexivas próprias, ligadas às suas
preocupações pessoais. Ademais, a unidade familiar de socialização cada vez
mais fracassa normativamente como um transmissor de valores que sustenta as
preocupações adotadas e esposadas pelos filhos. Hoje, um número cada vez maior
de famílias transmitem mensagens ambíguas, incongruentes entre si, e portanto
fazem com que seus filhos tenham que se confrontar com um problema adicional, a
saber, encarar normativamente essa mélange para poder avaliá-la e arbitrá-la
antes de cristalizar suas preocupações pessoais.
Lancemos brevemente um olhar sobre um exemplo bastante comum em que pais, na
realidade, intensificam a incongruidade contextual da filha porque suas
tentativas de socialização tiveram por intenção aproveitar as vantagens de
novas oportunidades, seguindo cursos de ação típicos do segundo milênio. Como
um estudante asiático dotado de um histórico profissional que está buscando seu
primeiro diploma na Inglaterra, Han-Wing filtra a socialização familiar através
de suas próprias preocupações pessoais e do que considera ser congruente com
eles no novo contexto Ocidental em que está inserida. Inversamente, seus pais
tentam tratá-la como um dos héritiers de Bourdieu, como uma recipiente do
capital cultural e financeiro, empregado transacionalmente para assegurar um
resultado posicional desejado - a filha que retornará ao lar como uma advogada
qualificada.
Han-Wing se sente encurralada entre expectativas dos pais e seu próprio desejo
de explorar a sua liberdade: "Eu sou de uma família muito conservadora [...]
então eles não gostam de me ver saindo muito. Então, quando cheguei aqui, com a
liberdade, com a recém-descoberta liberdade, esse tipo de coisa - aí eu ficava
com a consciência pesada - eu pensava assim, 'ah eles não me querem que eu faça
isso ou aquilo - mas eu faço assim mesmo". Ela pode ser desobediente estando a
7.000 quilômetros de distância, mas, quando visita a família, acha irritante
ter que relatar seus movimentos e chegar cedo em casa. Ela pode mentir à
distância, mas não em casa:
Meus pais têm uma influência importante na minha vida [...] mas eu
não acredito em muitas coisas que eles dizem, como religião. Eles
realmente querem que eu vá para a igreja e tudo mais, mas eu não
acredito na religião, então isso é uma coisa. Minha mãe me liga e
fala assim, 'Você foi à igreja hoje?' e eu minto, o que é horrível,
mas toda vez que vou a igreja eu me sinto sufocada porque eu não
acredito nela.
Ir estudar na Inglaterra tinha como principal objetivo tornar-se advogada,
assim como os seus dois irmãos. Han-Wing ainda tão tem idéia de que carreira
deseja seguir, mas sente que a lista apresentada por seus pais continha poucas
opções: "Porque lá, em [X], nós temos esse costume de comparar filhos - 'Ah,
meu filho é médico', 'Bem, minha filha é advogada', esse tipo de conversa. Aqui
é diferente, você ainda ouve isso mas é diferente [...] Lá é assim 'Ah, sua
filha é uma secretária', não é muito bom [...] Se eu quisesse ser uma
organizadora de casamentos, eles provavelmente falariam assim: "O quê? Nós
investimos demais para você virar uma organizadora de casamentos!' Eles não
ficariam muito contentes. Eu sinto que já os decepcionei em casa com tantas
coisas". Todavia, apesar desses lamentos interpessoais, Han-Wing rejeita a
socialização que, para ela, envolve "nos tratar como objetos sociais". Mesmo
sem saber o que quer fazer, ela sente que tem o direito de ser livre para
perseguir oportunidades mais amplas que a medicina ou o direito, e isso
acarretará o afastamento de casa, muito provavelmente rumando para a América.
Tal tentativa de reprodução social efetivamente gerou incongruidade contextual
para Han-Wing; as tentativas dos pais de imbuí-la tiveram o efeito oposto - e
os pais podem acabar perdendo a filha.
CONCLUSÃO: VIRANDO A MESA
Há um paradoxo no que diz respeito à reprodução à moda antiga que pode ser
descrito como "dando duro para não sair do lugar". Aproximadamente um quarto da
população geral que entrevistei e um sexto dos estudantes entrevistados (ambas
as amostras registradas entre 2004 e 2006) de fato abraçam o seu contexto
natal: disposicionalmente, eles estão em harmonia com este e, posicionalmente,
desejam continuar nele ou então retornar a ele. Todavia, hoje a ação rotineira
deixou de ser a base sobre a qual os sujeitos podem alcançar a continuidade
contextual que eles buscam. Ao contrário, a maioria precisa exercer a
reflexividade para produzir esse resultado, que não é uma posição deficitária
ou uma posição de segurança. A motivação dessa geração deriva da necessidade de
encontrar uma satisfação no contexto natal; seu meio de realizar a continuidade
contextual gira em torno da capacidade de identificar uma posição sustentável
dentro dos limites de seus históricos - e a modalidade empregada para unir
ambas coisas é a "reflexividade comunicativa". Trata-se da deliberação
reflexiva exercida como "pensamento e diálogo" com interlocutores que também
são "similares e familiares" e nos quais se pode depositar confiança para
locupletar e confirmar as incipientes conversações internas do sujeito. Trata-
se de apenas um dos quatro modos de reflexividade regularmente detectados e que
opera através de um modo de vida compartilhado que reforça o convencionalismo
normativo entre os seus praticantes (Archer 2003:167-209).
Reflexivos comunicativos são oriundos de históricos estáveis e geolocais, onde
relações interpessoais são calorosas, convivais e duradouras, com redes de
amizades que incluem amigos com que os sujeitos compartilharam os dias de
infância e de escola. O contexto natal não é semelhante ao contexto dos
autônomos e meta-reflexivos, cujos históricos familiares geralmente são
marcados pela descontinuidade microcontextual, causados pela adoção, divórcio,
mobilidade geográfica, colégio interno, desarmonia interpessoal, etc. Tal
descontinuidade os privou de interlocutores constantes e confiáveis, deixando-
os sem nenhuma opção senão os próprios recursos mentais, e geralmente fizeram
pouco para a perpetuar o contexto natal, em comparação com as oportunidades
alternativas que eles pessoalmente confrontaram.
Poderiam ou deveriam estes elementos ser chamados de "disposições"? Por um
lado, a resposta é afirmativa no que tange às diferentes opções acerca da ordem
social: a proteção e o prolongamento da continuidade contextual versus a
aceitação da descontinuidade de preocupações pessoais que a aumentam. Estas
formas muito distintas de orientação social estão, de fato, localizadas no
interior dos sujeitos e os predispõem na direção de trajetórias sociais
igualmente distintas. Por outro lado, a resposta é negativa se por
"disposições" nos referimos aos cursos de ação que presumivelmente levam a
estes fins de modo pré-reflexivo, já que em nenhum dos casos a ação rotinizada
basta. Em outras palavras, independentemente de serem ou não as influências de
contextos natais - sua continuidade, descontinuidade ou incongruidade - vistas
como influências disposicionais que dão conta do modo como a reflexividade é
praticada por diferentes proporções da população a qualquer dado momento e em
diferentes momentos históricos - nenhuma modalidade poderá servir agora como um
habitus.
Ambos os pontos podem ser bem ilustrados em referência aos reflexivos
comunicativos. Nesse sentido, Fleetwood não entende bem o ponto sendo feito por
e a respeito de uma respondente chamada Angie (Archer 2003:170-76), que seguiu
os passos da mãe, da tia e de vários amigos da família na carreira de
secretária. Ele argumentou que "[t]ornar-se uma soldadora nunca entrou na tela
do radar de Angie como um alvo possível de uma deliberação subseqüente" por
causa do "peso morto de rotinas definidas pelo gênero" (Fleetwood, 2008:199).
Isto acarreta o deslocamento da autoridade interpretativa da primeira para a
terceira pessoa, algo que Bourdieu consistentemente adotava como procedimento.
Mas também, ao tentar defender sua conclusão acerca da ação rotineira
determinada de acordo com o gênero, ele não se dá conta de que Angie tampouco
se acomodou com um trabalho de vendedora, recepcionista ou recrutamento, para
escolher apenas algumas alternativas "limpas" e acessíveis. Para não se
distanciar da continuidade contextual, ela buscou fazer algo que demandava
muito mais do que a reprodução da posição social da mãe, ela queria uma exata
replicação do seu papel ocupacional e círculo social. É essa a medida do
convencionalismo normativo induzido pela reflexividade normativa.
Inversamente, um estudo subseqüente (Archer, 2007) mostrou o quão não rotineira
era a manutenção dessa continuidade. Promoção no trabalho, migração ocupacional
e até mesmo a hora extra eram percebidos como ameaças a um modus vivendi
estabelecido e valorizado. Ao recusar tais formas de avanço profissional,
reflexivos comunicativos foram agentes ativos no monitoramento e manutenção da
própria imobilidade social (2007:158-91), fazendo sacrifícios objetivos para
proteger a sua principal preocupação, invariavelmente o bem-estar da família.
No entanto, três razões tornam a manutenção da reflexividade comunicativa árdua
e apontam para a sua provável diminuição no próximo milênio. Em primeiro lugar,
os custos aumentam drasticamente se oportunidades são rejeitadas enquanto
outros saem na frente aproveitando-as. Em segundo lugar, "permanecer como
somos" é uma possibilidade cada vez mais remota: novas habilidades precisam ser
adquiridas, novas tecnologias dominadas para dar continuidade ao dia a dia e
novas experiências enfrentadas, já que não podem ser evitadas. Em terceiro
lugar, a razão mais importante: haverá um número reduzido de "similares e
familiares" disponíveis como potenciais interlocutores duradouros, pois colegas
de turma, de trabalho e vizinhos terão abraçado algum elemento de suas novas
oportunidades ou terão sido forçados a embarcar em alguma novidade. A
reflexividade comunicativa continua sendo possível, porém seu custo (em várias
moedas) subiu e requer um esforço ainda maior para ser mantida. Acima de tudo,
o que passa a valer é a escolha ativa e a engenhosidade pessoal, o que guarda
pouca semelhança com a ação rotineira.
Se este diagnóstico estiver correto, ele levará também à conclusão acerca do
habitus de Bourdieu e da reconciliação entre este e a reflexividade proposta
por Elder-Vass. O habitus de Bourdieu, envolvendo orientações sociais
(disposições) assim como os suportes pré-reflexivos para ação de rotina (também
disposições), efetivamente parece presumir a reflexividade comunicativa. Tendo
em vista que esta modalidade significa a conversa assim como o pensamento, é
relativamente fácil negligenciar este elemento reflexivo. Se este for o caso,
coloca-se um prazo de validade na teoria de Bourdieu (apesar de sua referência
a "invariáveis trans-históricas" (Wacquant, 1989:36) simplesmente porque os
tempos mudaram. Ademais, mudaram também os históricos natais, as práticas de
socialização e, principalmente, as orientações sociais da maioria e a natureza
deliberativa dos cursos de ação tomados por ela. Em outras palavras, a
reflexividade comunicativa floresce com mais facilidade e mais adequadamente
quando similaridades são distribuídas de modo contínuo em toda a população - ou
em classes estáveis em seu interior - e situações similares são confrontadas
consistentemente. Esta similaridade (durkheimiana), um componente integral da
continuidade contextual, confirma novamente a posição oposta das respostas
convencionais a estas e, por sua vez, promove a reprodução social. A utilidade
desse termo portmanteau se esgota na medida em que as condições objetivas para
a reflexividade comunicativa passam por transformações radicais - como é o caso
agora.
NOTAS
1. Deixando de lado a o espírito méchant presente nesse trabalho, em que o
autor chega a reproduzir citações de forma infiel e a tortuosamente distorcer
meus argumentos, Dépelteau é insuficientemente versado seja no realismo que ele
ataca, seja na sociologia relacional por ele defendida. Ele não percebe que, no
realismo social, todas as propriedades emergentes são relacionais, que elas
podem existir sem serem exercidas e que podem ser exercidas mas não realizadas,
configurando assim uma posição ontológica e não epistemológica, como afirmado.
A sociologia relacional tem sorte ainda pior nas mãos de Dépelteau, sendo
atribuída a Emirbayer (1997), o que demonstra desconhecimento do florescimento
da escola italiana (seu locus classsicus sendo a Introduzione allá sociologia
relazionale de Donati (1985) e elaborações posteriores, a mais recente em
2009), que, incidentemente, esposam o realismo crítico. Em vez disso, a
sociologia relacional é reduzida à repetição do termo "transações", como se
nenhum outro conceito fosse necessário - com exceção de "hábitos".
2. Formulei a transmissão de propriedades sociais para agentes da seguinte
forma em Realist Social Theory e cito uma passagem deste livro para reiterar
meu endosso da formulação: "Dada sua pré-existência, os emergentes sociais e
culturais moldam o ambiente social a ser habitado. Esses resultados de ações
passadas são depositados na forma de situações atuais. Eles dão conta daquilo
que existe (estrutural e culturalmente) para ser distribuído e também da forma
destas distribuições; dão conta da natureza da gama de papéis disponíveis; da
proporção de posições disponíveis em determinado momento e as vantagens/
desvantagens a elas associadas; da configuração institucional presente e das
propriedades emergentes de segunda ordem de complementaridade e
compatibilidade, isto é, se as operações institucionais são, respectivamente,
obstrutivas ou auxiliares umas às outras. Dessa forma, as situações tornam-se
objetivamente definidas para seus ocupantes ou incumbentes subsequentes"
(Archer 1995:201).
3. Em relação a Peirce, Colapietro sustenta que "Quando adentro o mundo
interior, levo comigo o butim dos meus feitos no mundo exterior, coisas como
minha língua nativa, qualquer outra língua que saiba, um número incontável de
formas visuais, sistemas numéricos e assim por diante. Quanto mais butim levo
para aquele esconderijo secreto, mais espaçoso se torna o esconderijo [...] o
domínio da interioridade não é fixado por limites próprios; o poder e a riqueza
dos sinais que tomo emprestado de outros e crio para mim mesmo determinas as
dimensões da minha interioridade" (1989:115-16).
4. Manicas é critico da necessidade de qualquer forma de mediação entre
estrutura e agência e pergunta: "Por que postular a existência da estrutura ou
da cultura como causalmente relevante se, para serem causalmente efetivos,
estes precisam ser mediados para atores sociais?" (2006:72). Tendo em vista o
caráter retórico da pergunta, pressupõe-se que ela seja irrespondível. No
entanto, estrutura e cultura só podem ser consideradas causalmente irrelevantes
se o objeto da mediação fosse, de fato, inventado naquele lugar e instante por
atores cujos próprios poderes pessoais fossem inteiramente responsáveis por
ele. Esta moratória imposta à mediação parece tão insustentável quanto as
idéias de que os fios que trazem eletricidade para minha casa são inteiramente
responsáveis pelo funcionamento dos meus eletrodomésticos e que a existência da
uma rede nacional e de geradores elétricos são causalmente irrelevantes.
5. "Uma pessoa não é um objeto natural, mas um artefato cultural" (Harré 1983:
20).
6. Essa passagem continua assim: "Na medida em que o habitus 'não reflexivo' de
Bourdieu depende de condições relativamente estáveis e de 'experiências
duradouras da posição social', logo se pode dizer que sua análise pode ser
aplicada a modernidades mais simples ou modernas, em que a estabilidade
comparativa de identidades sociais permitiam uma relação contínua, coerente e
relativamente segura entre habitus e campo" (Sweetman, 2003:538).
7. O termo introduzido para caracterizar teorias em que estrutura e agência são
tratados como inseparáveis pois mutuamente constitutivos (ver Archer, 1988:72-
100; 1995:93-162).
8. Todas as afirmações empíricas nesta seção são baseadas no meu estudo
longitudinal de três anos, utilizando entrevistas aprofundadas de jovens,
analisadas no livro The Reflexive Impertative (no prelo).
9. N.T. - As public schools britânicas são, apesar do nome, privadas.