Governo Collor: o reformismo liberal e a nova orientação da política externa
brasileira
A liberalização econômica ocorrida na América Latina a partir dos anos 1980 e,
especialmente, na década de 1990, foi entendida como um processo de expansão do
capitalismo a partir de seu núcleo em direção à periferia do sistema. Depois da
queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, tornou-se predominante
a interpretação de que tais alterações atingiriam aos poucos todas as
sociedades e as fariam convergir para um mesmo padrão de organização econômica,
pautado pelo mercado. Reeditava-se com isso, de outra forma, a perspectiva da
"modernização", dominante nos anos 1950. As pressões das grandes transnacionais
e das "reformas liberais" tenderiam a incorporar todos os países a um mesmo
padrão institucional, fazendo com que passassem de não integrados para
"superficialmente integrados" e, depois, para "profundamente integrados"
(Haggard, 1995; Omahe, 1991). Em relação à América Latina esta interpretação
ganhou até uma versão entusiástica: diversos países latino-americanos estariam
passando, na expressão de Sebastian Edwards, "from dispair to hope", na medida
em que abandonavam os modelos de substituição de importações e os ensaios
heterodoxos de gestão econômica em favor de uma orientação mais amigável em
relação ao mercado e de políticas econômicas ortodoxas (Edwards, 1994).
Esta interpretação do processo de liberalização foi combatida por um conjunto
de autores que questionaram de várias maneiras a perspectiva da "convergência"
procurando demonstrar que, apesar da onda liberalizante, se manteriam
diferenças importantes na organização das empresas e do mercado de trabalho, na
relação entre Estado e mercado, no plano cultural e assim por diante (Berger e
Dore, 1996). Esta literatura crítica em relação ao mainstreamensinou muito
sobre a dinâmica diferenciada do capitalismo mundial e fez recuar, na medida em
que se passava do século XX para o XXI, a nova teoria da modernização. O avanço
econômico da periferia asiática, especialmente da China, onde o peso da
intervenção estatal é enorme, contribuiu muito para isso.
A literatura de ciências sociais sobre a liberalização econômica no Brasil não
teve evolução similar. Apar das reconstruções do processo de liberalização como
processo progressivo, interrompido de quando em quando por obstáculos
políticos1, as versões críticas tendem a vê-lo de forma similar, embora com
sinais avaliativos diversos. Na versão crítica, o reformismo liberal tem sido
sistematicamente identificado com o neoliberalismo e este com a acentuação dos
males do capitalismo na periferia, o baixo crescimento, a exclusão social, a
desorganização política das classes subalternas e assim por diante (Boito Jr. ,
1999; Filgueras, 2000). Embora esta literatura de oposição faça reconstruções
pertinentes de algumas dimensões do processo de liberalização, ela uniformiza
demais o processo e perde de vista certas especificidades que diferenciam o
Brasil, de forma marcante, de outras sociedades latino-americanas de grande
porte, como a Argentina e o México.
As interpretações parecem-me particularmente simplistas em relação ao governo
Collor (1990-1992), identificado, usualmente, como o marco zero do processo de
liberalização no Brasil. Provavelmente a rejeição política e moral que acabou
resultando no impeachmentdo presidente tenha contribuído para esta avaliação
unilateral daquele governo. De qualquer modo, os equívocos interpretativos não
apenas prejudicam nossa compreensão do passado; também dificultam nosso
entendimento do presente, das diferenças que temos em relação a outros países,
particularmente os latino-americanos, e das pretensões internacionais do
Brasil.
Este artigo pretende contribuir para alterar a interpretação predominante em
relação ao reformismo liberal do governo Collor, mostrando que ele não se
confundia com o neoliberalismo e sublinhando as conexões entre sua face
doméstica e sua face internacional.
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Ao assumir a Presidência da República em 15 de março de 1990, Fernando Collor
recebeu do presidente anterior, José Sarney, um poder alicerçado em um Estado
extremamente fraco, seja em relação aos poderes baseados no mercado seja em
relação aos centros de poder político mundial. Em sua face externa, o Estado
brasileiro mantinha relações conflagradas com os principais centros de poder
político do mundo capitalista, em função da moratória da dívida externa
brasileira, da política protecionista em relação ao mercado doméstico e do
Brasil ter uma política externa refratária aos regimes internacionais caros ao
"Ocidente". Estava o Brasil também à margem dos fluxos de capital externo,
principalmente os financeiros. Em sua face interna, o Estado carregava uma
dívida interna considerável, mostrava-se incapaz de assegurar o valor da moeda
(o país estava no limite da hiperinflação, com os preços elevando-se cerca de
80% ao mês) e perdera também capacidade de impulsionar o desenvolvimento, por
causa das dificuldades fiscais e porque o setor público empresarial se tornara
pouco eficiente.
Além de fragilizado em relação ao mercado e seus agentes, o Estado não dispunha
desde 1983-1984 de objetivos consensuais para a ação providos pelas elites
políticas e econômicas brasileiras. Com efeito, no momento da eleição de
Fernando Collor, o Brasil ainda experimentava acrise de hegemonia desencadeada
no começo da década. A face positiva da crise foi um processo de democratização
vigoroso que culminou, do ponto de vista normativo, na aprovação de uma nova
Constituição em 1988. E, embora esta carta constitucional tivesse dado ao país
uma norma política reguladora, ainda era muito grande a incerteza política
sobre os rumos a seguir. Os diversos atores políticos - partidos e outros
atores coletivos - que disputavam a direção do Estado orientavam-se não apenas
por diferentes interesses, mas também por distintas utopias econômicas e
políticas. As utopias políticas incluíam a democracia participativa, o
presidencialismo plebiscitário e o parlamentarismo (Lamounier, 1990). As
utopias econômicas incluíam a reafirmação e racionalização do estatismo
desenvolvimentista, em uma versão distributiva, o neoliberalismo e o projeto de
"integração competitiva", sendo este último usualmente desconsiderado pela
literatura. A omissão deste ideário/utopia contribui para a visão simplista e
tendente ao maniqueísmo que marca as interpretações sobre as políticas de
liberalização do governo Collor e dos que o sucederam.
Nas eleições presidenciais de 1989 tais utopias estiveram em jogo, embora
mescladas por apelos eleitorais que as obscureceram diante da maioria da
população. A vitória de Fernando Collor, em dezembro daquele ano, pareceu
definir, entre as alternativas, aquela que a sociedade brasileira trilharia
dali em diante. O resultado eleitoral gerou a expectativa de que seriam
revertidas pelo novo governo as condições negativas herdadas dos anos 1980
conforme um ideário liberalizante (indefinido entre as utopias neoliberal e de
"integração competitiva") e pela afirmação do presidencialismo plebiscitário.
Esta reversão, de fato, foi a principal tarefa a que se propôs o jovem
presidente da República: estabilizar a moeda - antes de tudo - e promover
reformas liberalizantes, "integrando o Brasil no Primeiro Mundo", foram os
alvos principais do governo Collor.
Tratava-se de uma tarefa de grande magnitude, que exigia alta dose de poder
político para ser realizada. Sua imagem pessoal, a legitimidade eleitoral da
eleição em dois turnos e as normas constitucionais inerentes à Presidência da
Republica davam a Collor um handicapmuito favorável para a tarefa. Com efeito,
o prestígio pessoal de Collor e a legitimidade da eleição direta acentuaramo
considerável poder normativo da Presidência da República no sistema político
instituído pela Constituição de 1988.
No entanto, o modo como construiu sua candidatura e desenvolveu a campanha
eleitoral - com base em uma "empresa político-eleitoral" e não em uma coalizão
político-partidária (Sallum Jr. , Graeff e Lima, 1990) - não lhe dava bons
alicerces para governar. É claro que Fernando Collor contava com a simpatia e o
apoio do empresariado, sintonizado com seu liberalismo professo, mas isso não
lhe supria a falta de apoio parlamentar organizado. Esta carência demandava do
presidente eleito boa dose de arte política para converter as vantagens que
tinha em poder político efetivo, de governo, para aprovar as reformas a que se
propunha e, com isso, realizar a tarefa almejada. Não precisava de "arte
política" em abstrato mas uma que fosse "ajustada às circunstâncias": tratava-
se de exercer poder com base em um Estado fragilizado e dentro de regras e
segundo valores políticos produzidos no Brasil pelo forte movimento de
democratização política dos anos 1980 e pelo recente, mas ainda frágil,
movimento de liberalização econômica.
Como se sabe, o governo Collor não teve pleno sucesso em realizar seus
objetivos. O governo mesmo foi interrompido por uma crise política - da qual
não trataremos aqui - que redundou no impeachmentdo presidente da República.
Este final prematuro não significa, porém, que tenha fracassado completamente,
que não tenha avançado na realização de alguns de seus objetivos. Ou que não
tenha dado contribuição relevante para a superação da crise de Estado em que
surgiu.
Foi em sua política de "integração ao Primeiro Mundo" que ocorreram os avanços
mais decisivos, embora muito menores do que os pretendidos. É dela que tratarei
aqui, da reorientação econômica e externa do Estado que o governo Collor
promoveu e deixou legados duradouros no Brasil contemporâneo. Deixarei de lado
algumas iniciativas reformistas que não foram implementadas por falta de
condições políticas e/ou por inépcia, como a reforma da administração pública.
Com efeito, as políticas de orientação liberal aqui examinadas só dependiam do
exercício do Poder Executivo ou contavam com amplo apoio político dos partidos
conservadores e de centro ou, então, foram aprovadas no período inicial de
governo em que o Poder Executivo teve proeminência decisiva sobre o Congresso
Nacional.
IDEÁRIOS DA LIBERALIZAÇÃO
O governo Fernando Collor gerou um conjunto de reformas econômicas
liberalizantes que fixaram balizas importantes para superação da crise de
hegemonia iniciada em 1983-84. Tais reformas fizeram contra ponto ao padrão
existente de desenvolvimento e não tiveram uma, como sublinha a maior parte da
literatura, mas dupla inspiração: o receituário neoliberal e o projeto de
"integração competitiva".
Há que sublinhar que o padrão de relação Estado/mercado vigente, ainda que
deteriorado, encontrou defensores nas múltiplas agências econômicas do Estado e
nos segmentos empresariais mais dependentes da proteção estatal. Assim, o velho
desenvolvimentismo resistiu ao reformismo liberal, mas de forma localizada e
fragmentada. O nacional-desenvolvimentismo não encontrou, porém, defensores no
plano político. As forças políticas de esquerda (PT, PC do B, PCB etc. ) e uma
parte da centro-esquerda nacionalista (existente no PMDB e PDT) propugnavam não
a sua continuidade mas sua renovaçãocom inflexão àesquerda. Do que se tratava?
Pelo que se depreende da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, esta
inflexão significava, por um lado, a "desprivatização do Estado", com o
rompimento das articulações "espúrias" entre empresas estatais e empresas
privadas; e, de outro, a reorientação das políticas de Estado para a
distribuição da renda. Tratava-se de um ideário, uma utopia, a que se pode
denominar "desenvolvimentismo estatista e distributivo".
A este ideário contrapunham-se os projetos liberalizantes. O ideário
neoliberal, como se sabe, ganhou relevância no fim dos anos 1970 em função das
dificuldades de superar a recessão e a inflação daquela década com os
instrumentos "keynesianos" de gestão macroeconômica, instrumentos antes
predominantes especialmente na Europa. Os governos da primeira-ministra
Margareth Thatcher na Inglaterra e, depois, do presidente Ronald Reagan nos EUA
adotaram uma gestão econômica de orientação monetarista, priorizando o combate
à inflação em relação à preservação do emprego e dos rendimentos do trabalho,
abandonando as diretrizes keynesianas. Aos poucos a política monetarista foi
associada a outras propostas, como as da desregulação dos mercados, da redução
dos gastos sociais e do intervencionismo do Estado, do equilíbrio das finanças
públicas, do livre fluxo de capitais e de mercadorias, compondo - ou melhor,
dando força política - ao neoliberalismo, doutrina existente, mas de pouca
expressão, desde o após Segunda Guerra Mundial. Este neoliberalismo renovado
disseminou-se pelo mundo "ocidental" sob o impulso dos governos inglês e norte-
americano e das agências econômicas multilaterais como o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial. O reformismo neoliberal adotava (e adota) uma
perspectiva puramente mercantil, que tinha em vista a produtividade e a
rentabilidade do capital, tendo como horizonte uma economia globalizada.
O projeto de "integração competitiva" nasceu como reação à crise do Estado
nacional-desenvolvimentista que, estrangulado pela dívida externa e por
desequilíbrios fiscais, perdeu condições na década de 1980 de impulsionar o
desenvolvimento brasileiro, fosse diretamente fosse por meio de suas empresas2.
A ideia central contida no projeto de "integração competitiva"era de transferir
para a iniciativa privada o centro motor do desenvolvimento brasileiro,
reduzindo as funções empresariais do Estado e "abrindo" a economia brasileira
para o Exterior. Não se propugnava, porém, um "ajuste" passivo aos dinamismos
do capitalismo mundial; propunha-se, ao contrário, uma
reestruturaçãodosistemaprodutivobrasileiro em vista de tornar a indústria
brasileira competitiva no plano internacional. Daí a ênfase dos formuladores e
difusores do projeto de "integração competitiva" na formulação e execução de
políticasindustriaisque estimulassem o empresariado privado a agirnesta
direção. Nisso elesedistinguia e se contrapunha ao ideário neoliberal.
O ideário da "integração competitiva" diferenciava-se do neoliberalismo também
por ser, ao contrário dele, uma forma de nacionalismo não defensivo, mas de
afirmação nacional no plano internacional. Como consequência, esta vertente
liberal almeja um Estado "forte", com capacidade de comando sobre as atividades
econômicas que se desenvolvem no seu território. Esta perspectiva esteve em
sintonia intelectual com a reavaliação crítica do desenvolvimento industrial
latino americano que começara a ser feita no âmbito da Comissão Econômica para
a América Latina (CEPAL) desde o início dos anos 1980 (Fajnzylber, 1983).
Segundo esta reavaliação, o próprio padrão latino-americano de industrialização
tornara-se insustentável em função, de um lado, de seu caráter imitativo,
incapaz de gerar inovações tecnológicas e, de outro, em função de seu caráter
autárquico, à margem da extraordinária onda de inovações técnicas e de gestão
que marcaram a "terceira revolução industrial". A despeito dessas críticas ao
padrão latino-americano de industrialização serem bastante similares às
veiculadas pelos neoliberais, reitero mais uma vez que, no plano propositivo (e
mesmo no que se refere à maior ou menor animosidade em relação ao nacional-
desenvolvimentismo), os dois ideários eram bem distintos ainda que o debate
político-intelectual posterior tenha obscurecido tais diferenças.
Quais eram os portadores destes ideários? O estatismo distributivista teve como
portadores nos anos 1980 os partidos de esquerda e parte do PMDB e, a partir do
final da década, ele foi preservado como ideário só pela esquerda. Apesar da
derrota de 1989, os partidos de esquerda o mantiveram como diretriz política
que serviu, junto com o velho nacional-desenvolvimentismo protecionista, como
casamata ideológica de resistência partidária, empresarial e da tecnoburocracia
estatal ao reformismo liberal.
A grande imprensa e as elites empresariais adotaram na segunda metade dos anos
1980 uma perspectiva cada vez mais liberal, embora algo imprecisa, cujo núcleo
era o combate ao estatismo. Denunciava-se o intervencionismo estatal nas
relações mercantis, especialmente o controle de preços, e o desequilíbrio das
finanças públicas, identificado como fonte primeira da inflação. No limite,
especialmente entre os economistas, este liberalismo ganhava uma articulação
mais definida e consistente, na forma de neoliberalismo.
No mesmo período, segunda metade dos anos 1980, ganhou força entre dirigentes e
técnicos de alto nível das empresas estatais, especialmente do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma perspectiva liberalizante,
mas alternativa ao neoliberalismo, o ideário da "integração competitiva". No
fim da década de 1980 ela se difundiu entre as elites empresariais, mas de
forma limitada, servindo de plataforma político-intelectual para a organização,
por uma fração da grande indústria paulista, do Instituto de Estudos do
Desenvolvimento Industrial (IEDI).
Embora no governo Collor tenham tido curso principalmente políticas orientadas
pelo ideário da "integração competitiva", parte importante das ações do Estado
seguiram outra orientação, sendo algumas delas marcadas pela truculência
(reforma administrativa) e/ou pela busca de efeitos midiáticos (a venda de
"mansões", "carros oficiais" e outras "mordomias"). Ademais, mesmo iniciativas
estatais claramente orientadas para a reorganização industrial do país tiveram,
por vezes, sua execução tão afetada pelas dificuldades macroeconômicas e pela
política de estabilização que elas acabaram se aproximando do figurino
neoliberal. Por outro lado, algumas iniciativas que poderiam ser vinculadas
mais claramente ao ideário neoliberal foram bloqueadas pelo Congresso.
De todo modo, ainda que não se possa examinar aqui as fontes intelectuais e
políticas de cada iniciativa reformista, cabe sublinhar a presença dos dois
ideários mencionados como fontes inspiradoras do reformismo liberal do governo
Collor, ao menos para evitar a tendência muito usual de 'enquadrá-lo' um rótulo
único, "neoliberal", o que pode facilitar a polarização política, mas
simplifica e torna equivocada a reconstrução histórico-sociológica.
A NOVA ESTRATÉGIA BRASILEIRA DE INSERÇÃO INTERNACIONAL
As iniciativas liberalizantes ocorreram em vários domínios, tanto na relação do
Estado com o sistema internacional como no plano doméstico. No plano externo
houve uma reorientação estratégica muito importante e duradoura, conservando-se
em linhas gerais até o presente.
Recorde-se que o Brasil mantinha "tradicionalmente" relações externas
politicamente distantes e, ultimamente, bastante conturbadas com a liderança do
mundo Ocidental desenvolvido. Além da interrupção dos fluxos voluntários de
capitais para o Brasil, decorrente da "crise da dívida", o governo Sarney
recorrera por duas vezes à interrupção dos pagamentos devidos aos credores
externos para evitar o esgotamento das reservas cambiais. O Brasil estava,
pois, em moratória quando Collor tomou posse. Acrescente-se a isso a falta
geral de sintonia entre a "onda liberalizante" que se expandia mundialmente sob
a liderança política dos EUA e a política do governo brasileiro de defesa do
mercado interno e da indústria nacional. Ainda que nos últimos dois anos do
governo Sarney tivesse havido iniciativas de "racionalização" das barreiras
tarifárias - que podem ser tomadas como antecedentes das mudanças ocorridas
depois -, a economia brasileira era ainda muito fechada em relação ao Exterior.
Com efeito, não haviam desaparecido a barreira não tarifária e a superproteção
tarifária para a indústria nacional. Ademais, permaneciam os contenciosos com o
governo norteamericano em relação à ausência de proteção no Brasil para as
patentes industriais e quanto à reserva de mercado para a informática.
Este descompasso entre transformações internacionais e situação interna tornou-
se tanto mais notável porque, ao final de 1989, fora derrubado o Muro de
Berlim, que dividia a parte ocidental de Berlim da oriental, sinalizando a
derrota do socialismo soviético. Na época, esta derrota parecia tornar
"inevitável" a unificação econômica mundial, em moldes capitalistas e sob
instituições econômicas liberais. No plano específico das ideias, o "Ocidente"
também avançava no sentido de universalizar a perspectiva neoliberal. Naquele
mesmo ano de 1989, um seminário acadêmico internacional, reunindo economistas
especialistas em América Latina na capital dos EUA, definiu o "Consenso de
Washington", conjunto de recomendações de política econômica, formuladas de uma
perspectiva neoliberal, a serem adotadas pelos governos latino-americanos
"responsáveis"3. O "Consenso de Washington" ganhou grande relevância em função
dos movimentos e partidos "de esquerda" terem feito dele um ícone da "imposição
das políticas neoliberais" pelos países centrais e organismos econômicos
multilaterais.
Além das divergências pontuais, durante a Guerra Fria, a política externa
brasileira seguira-grosso modo -a estratégia de manter a "autonomia pela
distância", o que significara manter-se vinculada ao "Ocidente", mas com certo
afastamento em relação ao seu país líder, os EUA, e não aceitar quaisquer
regimes internacionais que pudessem congelar a hierarquia de poder existente no
plano mundial e/ou restringir a liberdade de intervenção do Estado sobre a
economia e a vida social (Fonseca Jr. , 1998). Obviamente, essa orientação
internacional reforçava o protecionismo do Estado-varguista em relação à
economia nacional.
Embora a política externa brasileira tenha manifestado sinais de mudança que
acompanharam a inflexão liberalizante da segunda metade da década de 19804, foi
a desagregação do socialismo de Estado que, destruindo os alicerces da Guerra
Fria e a polarização Leste-Oeste, produziu impactos decisivos na política
internacional e, consequentemente, obrigou a uma redefinição do posicionamento
do Brasil no mundo.
Com efeito, a ruptura do paradigma ordenador da política internacional
produzirá mudanças profundas na percepção que as elites brasileiras tinham das
relações internacionais e das possibilidades de atuação do Brasil neste âmbito.
Tais mudanças foram assimiladas pelo governo Collor que as traduziu em uma nova
política de inserção internacional do Brasil. Com efeito, pelo menos desde 1990
passou a predominar, na cúpula do Ministério das Relações Exteriores e, de
forma geral, na elite do corpo diplomático brasileiro, a percepção de que as
novas circunstâncias internacionais não eram tanto uma ameaça como uma
oportunidade para o Brasil; e que a nova situação de poder internacional não
seria necessariamente unipolar, podendo surgir novas polarizações (Neves,
1993). Em função disso, mostraram-se favoráveis a que o país, ao invés de
encolher-se, autarquicamente, dentro de suas fronteiras, se integrasse
ativamente no plano internacional e participasse da construção da nova ordem
internacional então em gestação, tentando projetar os valores e interesses do
Brasil nas suas instituições e órgãos reguladores. Mais, a alta hierarquia do
Itamaraty via este projeto de inserção externa como parte da estratégia
brasileira de "integração competitiva"ao Primeiro Mundo, estratégia que teria
nas "reformas"asua dimensão interna (Azambuja, 1990; Lafer, 1993).
Dessa perspectiva, as novas circunstâncias internacionais - de polaridades
indefinidas - teriam aberto espaço para a participação na ordem mundial de
potências médias, pouco relevantes do ponto de vista militar, mas com outros
"ativos" importantes na política internacional (Lafer e Fonseca Jr. , 1997) 5.
Havia que apresentar o Brasil ao concerto mundial das nações como um país
grande, com uma economia dinâmica, democrático e pacífico, sem inimigos nas
suas fronteiras, capaz de absorver sem conflitos populações cultural e
etnicamente distintas, com capacidade de negociação e assim por diante
(Abnedur, 1997). Isso significava redefinir o nacionalismo de tipo defensivo
que marcara a inserção internacional do país no período da Guerra-Fria. A nova
postura do Itamaraty estava embebida também de nacionalismo, mas ele era
afirmativo das reais ou supostas virtudes brasileiras, um nacionalismo que
levava à participação, à competição, ao esforço para que o país se tornasse um
globalplayer, que pudesse participar de várias formas da construção e da gestão
de uma nova ordem internacional.
Embora essa reorientação tenha envolvido controvérsias internas quanto à
interpretação da situação internacional e, ainda que as táticas adotadas em
várias situações tenham sido por vezes hesitantes e de sinais contrários6, aos
poucos a nova orientação foi se firmando7.
Em termos concretos, a diplomacia brasileira movimentou-se em dois sentidos. De
um lado, tentou reduzir ou eliminar os contenciosos com os poderes centrais -
dívida externa, patentes farmacêuticas e energia nuclear - e, de outro,
procurou ampliar o âmbito de ação da diplomacia brasileira pela participação
destacada na discussão dos chamados "novos temas" da política externa - como
meio ambiente e direitos humanos - e pelo reforço da posição econômica e
política brasileira com a construção de um bloco regional com seus vizinhos do
Cone Sul da América do Sul.
Houve progressos substanciais nos dois sentidos mencionados. Avançou-se
bastante, embora não o suficiente, na renegociação da dívida externa. Isso
ocorreu, saliente-se, não apenas em função do empenho do governo brasileiro,
mas também das mudanças favoráveis ocorridas nas condições internacionais de
financiamento. Com efeito, estas mudanças facilitaram a rearticulação externa.
Especialmente o Plano Brady de renegociação da dívida externa, envolvendo
descontos para as dívidas vencidas, abriu novo horizonte para os governos
latinoamericanos (Cline, 1989). De início, o governo Collor não adotou o mesmo
caminho de outros países latino-americanos e envolveu-se, no período em que
Zélia Cardoso de Mello dirigiu o Ministério da Economia, em duras disputas com
os credores externos. A equipe de Zélia tentou postergar o fim da moratória
herdada do período Sarney e enfraquecer a posição dos bancos privados
estrangeiros na negociação da dívida externa, isolando-os dos governos e
instituições financeiras multilaterais. Não teve sucesso8. A partir de abril de
1991, a estratégia brasileira de renegociação mudou, já sob a orientação do
novo ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, tornando-se mais ajustada
aos padrões definidos pelos credores externos. Dentro dos novos padrões, parte
da dívida externa foi renegociada com o FMI e com o Clube de Paris, no começo
de 1992, restando finalizar a negociação com os credores privados, o que só
ocorreu depois do término do governo Collor. Algo similar ocorreu com as
patentes farmacêuticas e a propriedade industrial em geral. Com base na
promessa de envio de um projeto de Código de Propriedade Industrial até março
de 1991, o governo norte-americano suspendeu em julho de 1990 as sanções
comerciais que decretara contra o Brasil em função da falta de respeito às
patentes. Um novo Código de Propriedade Intelectual, porém, só foi aprovado em
1995.
Procurou-se eliminar também o "contencioso nuclear" do Brasil com as grandes
potências, adotando-se inicialmente uma via intermediária entre a recusa e a
aceitação do tratado de não-proliferação nuclear (TNP) 9. Isto foi feito por
gestos, como o do fechamento do local de testes nucleares na Serra do Cachimbo,
e pela assinatura de alguns compromissos básicos. Tais documentos envolveram
uma redefinição das relações do Brasil com a Argentina e destes com as
potências nucleares. Os acordos foram facilitados pelo enfraquecimento
econômico de ambos os países, duramente atingidos pelas consequências da crise
da dívida externa, e pela reorientação política em relação ao mundo
desenvolvido decorrente das eleições de Carlos Menem e Fernando Collor.
Argentina e Brasil deixaram de ter como objetivo a produção autônomade energia
nuclear para fixarem-se apenas em garantir o acessoatais tecnologias e a seu
uso pacífico10. Isso permitiu a assinatura, em novembro de 1990, da Declaração
sobre Política Nuclear Comum Brasileiro-Argentina, pelos presidentes Collor e
Menem, pela qual se estabeleceu o Sistema Comum de Contabilidade e Controle
(SCCC) de aplicação a todas as atividades nucleares dos dois países e se
previram negociações com a AIEA para um acordo conjunto de salvaguardas baseado
no SCCC. Com isso se reconhecia que, caso não fosse assegurada a transparência
nos programas nucleares dos dois países, aumentariam as restrições
internacionais para acesso à tecnologia sensível.
Na sequência, os dois países procuram garantir o acesso às tecnologias
sensíveis e a continuidade das pesquisas nucleares que realizavam para fins
pacíficos ( o que incluía a realizada pela Marinha sobre propulsão nuclear para
submarinos), assinando vários tratados em que mantêm sua posição tradicional
contrária à assinatura do Tratado de Não-Proliferação (TNT), embora aderindo
indiretamente a seus termos. Em 1991 foram assinados, em Guadalajara, o Acordo
Brasil-Argentina para o Uso Exclusivamente Pacífico da Energia Nuclear e, em
Viena, o Acordo Quatripartite entre Brasil, Argentina, Agência Brasileiro-
Argentina de Contabilidade e Controle (ABACC) e a Agência Internacional de
Energia Atômica. No acordo de Guadalajara reafirma-se o propósito
exclusivamente pacífico do uso de todo o material e de todas as instalações
nuclearessob jurisdição de cada país, resguardando inclusive as pesquisas
nucleares que a Marinha brasileira fazia sobre propulsão de submarinos, e
também se inclui o compromisso de não-realização de explosões nucleares, ainda
que para fins pacíficos. O Acordo Quatripartite, por sua vez, permitiu o
controle de todas as atividades nucleares desenvolvidas nos dois países por uma
agência de controle de ambos e pela AIEA.
Por último, Brasil e Argentina resolveram ratificar o Tratado de Tlatelolco
(1967), que comprometia todos os países da América Latina com a não-
proliferação, por meio de emenda apresentada em 1992 por alguns países latino-
americanos, inclusive o Brasil, sobre as responsabilidades da Organização para
a Proscrição de Armas Nucleares na América Latina (OPANAL). Este conjunto de
iniciativas na área nuclear firmou internacionalmente a imagem do Brasil como
país pacífico e, em termos específicos, facilitou bastante o acesso às
"tecnologias sensíveis" para empresas e projetos brasileiros.
Como tais movimentos mostram, o reposicionamento do Brasil em relação às
grandes potências e aos regimes internacionais envolveu também uma redefinição
da posição brasileira em relação à Argentina, e vice-versa. Com efeito, neste
realinhamento estratégico a Argentina deixa de ser tomada como adversária
potencial; passa à condição de possível aliada e associada. Isso teve
implicações militares: não só pelos acordos mencionados a propósito da energia
nuclear; também pelo reposicionamento das tropas brasileiras, que foram
transferidas do sul do país, fronteira com a Argentina, para outras regiões
distantes de lá.
Eliminando, parcial ou totalmente, este conjunto de contenciosos
internacionais, a diplomacia brasileira pôde avançar de forma mais enfática na
busca de maior participação na construção/gestão da nova ordem internacional.
Destaca-se aqui uma iniciativa: o Brasil foi sede11, em junho de 1992, da
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, reunião
que gerou um conjunto de documentos que "definem um quadro jurídico para a
cooperação internacional de importância fundamental"12. Nesta conferência, a
Rio-92, erigiu-se o desenvolvimentosustentávelcomo paradigma para a busca do
crescimento econômico, o que fixava a preservação ambiental como limite à
exploração econômica da natureza. Com esta e outras iniciativas o Itamaraty
buscou participar dos chamados novostemasda agenda internacional, colocando o
Brasil na vanguarda do processo de construção de regimes internacionais. No
caso específico da proteção ambiental, o governo brasileiro afirmou-se,
adicionalmente, como ator responsável em relação a seus próprios recursos
naturais, a Amazônia antes de tudo.
Não há dúvida, porém, de que o elemento-chave da redefinição da estratégia
brasileira em relação aos países vizinhos foi o Brasil ter criado com eles uma
União Aduaneira. Já em 1990, Brasil e a Argentina assinaram a Ata de Buenos
Aires, pela qual se comprometem a construir uma união alfandegária em pouco
tempo. Em 1991, o Brasil e a Argentina, acompanhados do Uruguai e Paraguai,
constituíram o MERCOSUL como espaço econômico regional a ser convertido em
União Aduaneira no final de 1994. Este compromisso foi mesmo uma mudança
extraordinária na estratégia brasileira, um marco do novo nacionalismo
afirmativo. Ao assinar este acordo, o Brasil deu passo decisivo para ampliar
seu espaço privilegiado de expansão econômica e reforçar sua posição no plano
internacional. Selou-se aí um compromisso que transformava o principal
adversário regional do Brasil, a Argentina, em país associado no plano
econômico com possibilidade de converter-se em associado político. Reforçava-se
o "nacional" pela aliança regional tendo em vista não só a ampliação"além
fronteiras"do espaço econômico "interno" mas também a participação mais ampla
do país no cenário internacional. Mas, note-se, pretendia-se ampliar o espaço
econômico brasileiro não só para as empresas nacionais; o espaço econômico mais
amplo visava atrair para cá as empresas multinacionais e abocanhar com isso uma
porção relativa maior do sistema produtivo mundial.
Ademais, adotando a nova estratégia de inserção externa, o Brasil redefiniu-se
como pretendente a participante ativo (com o máximo de proeminência possível a
uma "potência média") na construção e gestão da nova ordem internacional, o que
incluía seu contexto geopolítico latino-americano - neste caso em competição
com a tradicional liderança política norte-americana na região.
O REFORMISMO ECONÔMICO LIBERAL
No plano doméstico, os elementos-chave das reformas liberalizantes
desencadeadas pelo governo Collor foram a nova política industrial e de
comércio exterior, a liberalização dos fluxos financeiros com o Exterior e a
política de privatização.
A nova política industrial e de comércio exterior envolveu, em primeiro lugar,
o fim das restrições não tarifárias para as importações e exportações e, em
segundo lugar, a Política Industrial e de Comércio Exterior (PICE), lançada em
julho de 1990 e consolidada com o Programa Brasileiro de Qualidade e
Produtividade (PBQP), lançado em novembro de 1990, e o Programa de
Competitividade Industrial (PCI), editado em fevereiro de 199113.
No que se refere às restrições não tarifárias, as mudanças foram drásticas.
Collor eliminou todo o poder discricionário do governo para autorizar
exportações e licenciar importações; pôs fim à lista de cerca de 1500 produtos
que eram de importação proibida para reservar o mercado à produção nacional; e
acabou todas as isenções e reduções de tarifas de importações - cuja concessão
era objeto central dos grupos empresariais de pressão-à exceção das existentes
para a Zona Franca de Manaus e algumas poucas mais. Paralelamente, foram
fechadas a CACEX e a CPA, órgãos que cuidavam de todos as restrições e
incentivos eliminados, e suas funções - diminuídas e transformadas - foram
transferidas ao Departamento de Comércio Exterior, subordinado ao Ministério da
Economia. Com isso, transformava-se radicalmente a política de comércio
exterior de "substituição de importações" do Estado Varguista; não se gerava
uma nova política, mas se dava o primeiro passo para isso.
A eliminação das restrições não tarifárias teve seu complemento na Política
Industrial e de Comércio Exterior (PICE) lançada em junho de 1990. Esta
política não só tinha como referência o projeto de "integração competitiva"
lançado pelo BNDES em meados da década de 1980, mas foi formulada na Secretaria
de Comércio e Indústriado Ministério da Economia por uma equipe cujos quadros
principais provinham daquele Banco e orientavam-se por aquela perspectiva14.
Tratava-sede reforma liberalizante mas, como se viu anteriormente, de forma
alguma neoliberal, a começar por ser uma política industrial - prática
condenada pelo fundamentalismo de mercado - destinada a retomar a
industrialização em moldes novos, que superassem o já anacrônico modelo de
substituição de importações e a estagnação industrial da década anterior.
Esta estagnação produzira um enorme descompasso com a indústria dos países
centrais tanto em relação a oritmo de crescimento como aos seus respectivos
padrões tecnológicos e organizacionais. A indústria de transformação brasileira
cresceu apenas 0, 2% ao ano entre 1980 e 1990 - bem menos do que os Estados
Unidos, para não falar do Leste da Ásia - e a maioria dos setores industriais
brasileiros encontrava-se ao final do período "patentemente defasada frente ao
estado das artes vigente no plano mundial. Só alguns ramos, produtores de
commodities- como celulose, minério de ferro, suco de laranja e alguns outros -
mantinham-se atualizados. A indústria automobilística, muito particularmente,
havia se retardado notoriamente a partir da segunda metade da década" (Castro,
1999: 63).
Era em função dessa situação negativa que o governo se propunha a alterar a
inserção internacional da economia e reordenar internamente o espaço ocupado
pelo Estado e pelas empresas privadas, restringindo ao mínimo a face
empresarial daquele e amplificando o papel da iniciativa privada, nacional e
estrangeira, e sua capacidade de competição no plano internacional.
Em estudo acurado desse programa governamental, Fábio Erber descreveu-o como
"uma 'pinça', combinando elementos de pressão sobre as empresas (chamados de
'políticas de competição') e de estímulo (as medidas de 'competitividade') "
(Erber, 1991). A política de competição incluía, de um lado, a eliminação de
controles estatais sobre as empresas e um programa de privatização e, de outro,
um programa de redução progressiva das tarifas de importação em quatro etapas
anuais, começando em 1991 e encerrando-se em 199415, de outro. Sublinhe-se que
o programa original era, de fato, cauteloso: o ritmo de redução das tarifas não
era uniforme, intensificando-se nas duas últimas etapas; e o grau maior de
proteção era reservado aos setores intensivos em tecnologia (informática,
química fina e máquinas-ferramenta com controle numérico). Quanto ao programa
de "competitividade", ele incluía medidas nos planos estrutural, setorial e
empresarial que estimulavam o investimento e a incorporação/adaptação de
tecnologia. Como mostrou Erber, a política industrial e de comércio exterior
era uma pinça de hastes desbalanceadas: uma política decidida de competição -
tanto as privatizações das estatais não protegidas pela Constituição como a
abertura comercial - implementada na cadência definida pelo Executivo e não
dependente de recursos orçamentários; e uma política de competitividade sendo
implementada de forma muito parcial e vagarosamente, dependendo de aprovação
legislativa e de existência de recursos. Embora se possa argumentar - como fez
Erber - que havia um desequilíbrio inerenteao próprio programa de
reestruturação econômica - tendendo a ser desigual o ritmo de implementação das
duas hastes da pinça na maioria das situações -, o que parece ter impedido o
florescimento das melhores possibilidades do programa de renovação industrial
foi ele ser sido implementado junto com uma política mal sucedida de
estabilização, durante uma recessão industrial profunda e em meio à
instabilidade política crescente16. A recessão e a incerteza quanto ao futuro
amorteceram os estímulos à competitividade embutidos na própria abertura
comercial que, além de pressionar a indústria com similares importados a preços
menores, permitiria em circunstâncias não recessivas a renovação da indústria
com máquinas e equipamentos importados a preços mais baixos. Além disso, o
fracasso da política heterodoxa de estabilização e os maus resultados da
política ortodoxa que a seguiu estimularam a equipe econômica a usar a
competição externa como meio auxiliar de controle de preços. Com efeito, em
fevereiro de 1992, o ministro da Economia determinou a antecipação em seis
meses do cronograma previsto de redução de tarifas alfandegárias17. Por fim, as
dificuldades políticas do Executivo no Congresso tornaram muito difícil a
aprovação de diplomas legais de interesse da Presidência, atrasando ou
inviabilizando a implementação das iniciativas relativas à competitividade que
em grande parte dependiam do Legislativo.
A redução das barreiras à importação de mercadorias foi acompanhada de uma
gradual liberalização dos fluxos financeiros entre o Brasil e o Exterior. Este
movimento seguiu à liberalização ocorrida na maioria dos países latino-
americanos, embora no caso brasileiro ele tenha sido particularmente cauteloso.
Recorde-se que no Brasil operavam dois mercados cambiais, o oficial, onde o
governo tinha o monopólio das trocas, seja como comprador seja como vendedor, e
o mercado "paralelo" onde se realizavam as operações não autorizadas. O governo
pretendia com isso controlar os movimentos de capitais e a taxa de câmbio. A
escassez de divisas e as moratórias dos anos 1980 mostram que não teve muito
sucesso. Nesta área, como na da liberalização comercial, as mudanças começaram
no final do governo Sarney (dezembro de 1988). Instituiu-se neste período um
Mercado de Câmbio Flutuante, em que o governo não operava, para abrigar pelo
menos algumas operações de troca de moedas realizadas no "mercado paralelo".
Com o governo Collor foi-se além. Por um lado, para atender principalmente aos
fluxos de comércio exterior criou-se um Mercado de Câmbio Livre (de "dólar
comercial"), no qual o governo mantinha o monopólio, mas deixou de ter a
obrigação de atender todas as demandas de moeda estrangeira e, ao mesmo tempo,
a obrigação de comprar as "sobras" de mercado. Por outro, foram feitas várias
alterações no Mercado Flutuante para incluir aí uma grande variedade de
transações com moedas estrangeiras (além das operações vinculadas ao turismo,
heranças, transferências de patrimônio, transferências ao exterior de serviços
prestados, pagamento ao exterior de despesas feitas com cartão de crédito etc.
). Em 1991 abriu-se a possibilidade de investidores institucionais estrangeiros
investirem no mercado acionário brasileiro e negociar no exterior títulos
emitidos no Brasil. Esta abertura em relação ao investidores estrangeiros e, de
forma geral, em relação aos movimentos de capitais com o Exterior culminou com
a Carta Circular 2. 259 do BC, de fevereiro de 1992, que criou no regulamento
de câmbio um subtítulo específico para as contas que instituições de
financeiras mantinham no Brasil (contas CC5). Ali ficou clara a
conversibilidade de toda a moeda nacional depositada em contas CC5 de
titularidade de bancos não residentes, seja qual for a origem. Quer dizer, os
residentes no Brasil passaram a poder fazer depósitos em moeda nacional nessas
contas, e o titular, um banco estrangeiro, poderia transformar esses depósitos
em disponibilidades em dólares no exterior, passando pelo "mercado de câmbio
flutuante". Estes depósitos independiam de se comprovar que o dinheiro tinha
antes ingressado no país.
Todas estas alterações destinavam-se a facilitar aentradadecapitaisestrangeiros
no Brasil, inclusive peloaumentodasgarantiasdesaídadecapitaisse os seus
proprietários assim o desejassem18. Estas iniciativas de "abertura financeira",
combinadas aos progressos na renegociação da dívida externa nos termos do Plano
Brady (o acordo com o FMI data de janeiro de 1992), permitiram que o Brasil
captasse parte do fluxo de capitais provenientes dos países centrais que
voltaram a se aplicar na América Latina, depois de dez anos de retraimento
(Naím, 1995). Com efeito, as reservas líquidas do Brasil em moeda estrangeira
passaram de cerca de 9, 5 bilhões de dólares entre 1988 e 1991 para
aproximadamente 23, 7 bilhões em 1992 e 32 bilhões em 1993.
Ao contrário da abertura do comércio exterior, a política de privatizações do
governo Collor não pode ser especificamente vinculada ao projeto de "integração
competitiva". Isso é tanto mais surpreendente porque a Comissão de
Privatizações que dirigiu o processo era sediada no BNDES e tinha como
presidente o dirigente máximo do banco onde se formulara nos anos 1980 a
política de "integração competitiva"19. É verdade que, de forma similar ao
programa heterodoxo inicial de estabilização, ela implicava sua versão inicial
em "punição" ao "capital financeiro", pois obrigava as instituições financeiras
a comprar "certificados de privatização", a serem usados como "moedas" nos
leilões de venda das estatais. No entanto, as dificuldades de executar o
programa de estabilização e a própria política de privatização levaram à
redefinição das regras iniciais, o que reduziu o ônus previsto para as
instituições financeiras e diminuiu, de forma drástica, o montante arrecadado
com a venda de tais certificados. Além disso, procurou-se facilitar as vendas
das empresas privatizáveis - quer dizer, das estatais que não contavam com
proteção constitucional - autorizando-se o uso nos leilões de vários tipos de
"moedas podres", títulos diversos da dívida pública com valor efetivo muito
inferior ao valor de face20. Com isso, ao contrário do que se previa
inicialmente, a privatização das empresas estatais no governo Collor acabou
favorecendo os detentores de haveres financeiros, pois estes acabaram se
"valorizando" ao serem convertidos em ativos produtivos.
Do ângulo do governo, o Estado "livrava-se", pela privatização, dos ônus de
empresas deficitárias ou sem capacidade própria para se expandir, sem que a
economia nacional as perdesse como unidades produtivas. De um lado, o resultado
dos leilões permitia reduzir as dívidas do governo e, de outro, alienava para o
capital privado, que se supunha ter melhores condições de gestão eficiente e de
expansão, um patrimônio oneroso para as finanças públicas e sem capacidade de
autorreprodução e expansão. Foi, pois, uma perspectiva fiscalista - considerada
essencial para a estabilização - e genericamente privatista que orientou o
processo de privatização. As privatizações não foram vinculadas a quaisquer
projetos estatais de reestruturação produtiva dos setores ou complexos
produtivos a que pertenciam as empresas estatais privatizadas21. Daí estar o
programa mais próximo da orientação neoliberal do que do ideário da "integração
competitiva".
De qualquer maneira, o programa de privatizações no governo Collor teve
resultados líquidos que impressionam, ainda que uma parte das ações adquiridas
tenham permanecido sob o controle direto ou indireto do Estado (empresas
estatais e fundos de pensão de seus empregados). Abateu-se dívida pública e,
embora uma parte deste abatimento tenha sido "inflado", porque eram recebidas
"moedas podres" dos compradores, resta pouca dúvida de que pelo menos algumas
das estatais vendidas puderam, sob controle privado, recuperar-se e ampliar
suas operações, enriquecendo ao invés de onerar o erário público. Foi o caso da
Usiminas, da Aços Finos Piratini, da Siderúrgica Tubarão entre outros.
Suporte Social ao Reformismo Liberal
Que sustentação político-social tinham as reformas liberalizantes do governo
Collor? É certo que as próprias ideias apresentadas por Collor ao longo da
campanha eleitoral estavam em sintonia com a "inflexão liberal" que ocorrera
entre as elites empresariais, na grande imprensa e na tecnoburocracia estatal
principalmente a partir do fracasso do Plano Cruzado (1986) de estabilização.
Mas sintonia com propostas não implica necessariamente apoio à sua
implementação.
No caso em questão, contudo, pode-se dizer que, tanto as mudanças na política
externa, especialmente a construção do MERCOSUL, como as políticas de
liberalização econômica (abertura comercial e financeira e privatizações, por
exemplo), contaram com suporte empresarial bastante grande. Chegou-se até, com
boas razões, a descrever tal apoio como a formação de uma coalizão empresarial
em torno de Collor e em favor das reformas liberalizantes (Kingstone, 1999,
cap. 5). A coalizão sociopolítica liberalizante era, porém, mais ampla. Incluía
tanto a maioria do empresariado -suas associações e a grande imprensa-como
também parte da classe média ilustrada e segmentos do movimento sindical. O
empresariado, embora se dividisse até o primeiro turno das eleições de 1989
entre vários candidatos "liberalizantes" (Collor, Mario Covas, Afif e outros),
no segundo turno inclinou-se majoritariamente para Collor e forneceu copioso
financiamento para sua campanha. E não apenas porque temia Lula e o Partido dos
Trabalhadores, mas também porque as propostas de Collor, a despeito dos seus
ataques às "elites" e à FIESP, sintonizavam em geral com a perspectiva
empresarial. Assim, a vitória de Collor reforçou, pela conquista do poder
político, a coalizão doméstica liberalizante. Esta tinha também presença
política entre os partidos de centro-direita, que se tinham congregado no
"Centrão" durante a Assembleia Constituinte, e os de centro-esquerda, embora
tais partidos tenham apoiado Lula no 2º turno das eleições de 1989. Depois das
eleições, aquela parte do PSDB e do PMDB que havia experimentado, junto com o
empresariado, uma "inflexão liberal", apoiou parte das iniciativas
liberalizantes de Collor. No entanto, estas correntes liberalizantes de centro
tenderam a se alinhar com os partidos de esquerda quando entenderam que estavam
em jogo questões relativas à democratização da sociedade brasileira22.
Com efeito, passado o susto e a irritação causados pelas iniciativas
estabilizadoras do início do mandato (retenção de ativos financeiros,
congelamento etc. ) e, à medida que os resultados da política econômica
pareciam positivos ou, pelo menos, promissores, o empresariado e seus órgãos de
representação passaram a apoiar claramente o governo Collor. Quer dizer,
deixaram de manifestar as restrições que tinham acompanhado o seu assentimento
e, mesmo adesão, ao programa inicial de privatização, de liberalização do
comercio exterior e de reforma administrativa.
As diretrizes da nova política industrial e de comércio exterior e a assinatura
do compromisso de construir o MERCOSUL como União Aduaneira coincidiram com as
propostas dos grandes industriais reunidos no IEDI23 e com as orientações das
associações empresariais setoriais24. Com efeito, desde os anos finais da
década de 1980, estas associações vinham se afastando da contínua busca de
favores do Estado (até porque a crise do setor público reduziu drasticamente
tal possibilidade), ainda que continuassem a pressionar o governo para que
fossem preservadas e ampliadas as linhas setoriais de crédito do BNDES. Elas
procuravam, ao invés de lutar favores, contribuir para a competitividade de
seus associados, por meio de feiras de tecnologia, cursos de atualização
tecnológica, informações estatísticas e contatos internacionais (Kingstone,
1999, cap. 4). Mais que isso, a abertura comercial ao Exterior contou com o
assentimento não só das entidades empresariais como também de grande parte do
empresariado, como mostrou pesquisa coordenada por Gesner de Oliveira em 1990/
1991 (Oliveira, 1993: 166-167). Segundo a pesquisa, 90% consideravam a
liberalização comercial correta, embora 52% a entendessem mal feita. Para 75% a
redução de tarifas não comprometeria ou apenas um pouco os respectivos setores;
72% encorajariam os investimentos; 37% declararam estarem suas empresas já
"ajustadas", 5, 4% disseram precisar de um ano para que isso ocorresse e 29%,
de até três anos -quer dizer, até ofim do programa de abertura, cerca de 81%
das empresas esperavam estar "ajustadas" à nova situação. Talvez o ápice da
adesão empresarial a Collor tenha sido marcado pela entusiástica acolhida que
deram a seu discurso cerca de dois mil empresários reunidos no dia 30 de agosto
de 1990 para a entrega dos prêmios dos "Maiores e Melhores" da revista Exame.
Entretanto, a simpatia com que o empresariado acompanhava a política econômica
de Collor foi se convertendo, a partir dos últimos meses de 1990, em apreensão
e distanciamento na medida em que se aprofundava a recessão, que a inflação
intensificava seu ritmo ascendente e que a equipe econômica parecia se armar
para novos experimentos heterodoxos. Com o Plano Collor II, lançado em 31 de
janeiro de 1991, os temores se confirmaram e acentuou-se o distanciamento - e a
oposição cada vez maior - do empresariado em relação à política econômica.
Dizia-se que o governo Collor era politicamente esquizofrênico, o mais liberal
e o mais intervencionista da história brasileira. Com a mudança de equipe
econômica, em maio de 1991, desencadeada pela substituição de Zélia Cardoso de
Mello por Marcílio Marques Moreira no comando do Ministério da Economia, houve
certo alívio na tensão entre governo e empresariado. É que a alteração na
equipe tornava improvável a adoção de novas medidas heterodoxas, além do que o
novo ministro prometeu acabar com os controles administrativos de preços. No
entanto, o rigor da ortodoxia fiscal e monetária implementada pela equipe
montada pelo novo ministro da Economia acabou convertendo o empresariado em
parte - muito moderada - da crescente oposição ao governo Collor. Mesmosua
antestão festejada política de liberalização do comércio exterior passou ser
alvo de críticas; pelo menos no que se referia ao ritmo acelerado com que vinha
sendo executada.
Em suma, as restrições do empresariado em relação ao governo Collor
concentraram-se no intervencionismo heterodoxo de sua primeira equipe econômica
e nas políticas monetária e fiscal rígidas e recessivas que foram desenvolvidas
ao longo de todo o governo, fosse na época em que Zélia Cardoso de Mello
comandava a política econômica, fosse no período em que ela se tornou
responsabilidade de Marcílio Marques Moreira. Desta maneira, o empresariado
manteve durante todo o governo Collor uma relação ambivalente com suas
políticas, de apoio às iniciativas liberalizantes e de restrição ao caráter
intervencionista e/ou recessivo da política macroeconômica. As grandes empresas
de comunicação de massa seguiram de forma geral a mesma orientação, embora com
diferenças de ênfase.
As organizações sindicais de trabalhadores não aderiram com o entusiasmo do
empresariado ao programa de reformas liberais, mas se conformaram
pragmaticamente com ele. E não me refiro aqui apenas ao "sindicalismo de
resultados", organizado na Força Sindical, central operária constituída em 1991
sob liderança de Luiz Antônio Medeiros, afinado com o liberalismo econômico e
ligado ao governo Collor. Refiro-me à Central Única dos Trabalhadores (CUT),
coluna vertebral do "novo sindicalismo", ligada ao PT e a outros partidos de
esquerda. Embora colocada na defensiva pela recessão desencadeada pelo Plano
Collor I, a CUT lutou fortemente para defender o valor dos salários e fez
oposição à política macroeconômica e - sem muita efetividade - às
privatizações; aceitou pragmaticamente, porém, as reformas liberais em curso.
Armando Boito Jr. observa-de uma perspectiva crítica de esquerda - que a CUT
trocou um sindicalismo de combate, o dos anos 1980, por um sindicalismo
propositivoa partir do governo Collor, um sindicalismo que aceitava a realidade
do capitalismo e pretendia apenas reformá-lo (Boito Jr. , 1999, cap. IV). Na
Plenária de Belo Horizonte (agosto/setembro de 1990), Jair Meneghelli,
presidente da Central, apresentou a nova linha: "É preciso deixar de dizer
apenas nãoe começar a dizer sim, apresentando propostas alternativas". Isso se
materializou na proposta de "livre negociação salarial" com negociações por
setores e por empresas e na decisão do IV Congresso Nacional da CUT (CONCUT),
realizado em 1991, de apresentar "propostas de políticas de abrangência
nacional", como a política econômica, industrial, habitacional, de saúde,
educação, previdência etc. . Ainda que de uma perspectiva socialista se possa
criticar este tipo de sindicalismo propositivo, do ângulo das relações de poder
social vigentes no Brasil ele era muito inovador pois trocava uma retórica,
socialista, de viabilidade discutível, pela afirmação substancialmente "social-
democrata" do direito e da capacidade de o operariado contribuir para moldar a
sociedade capitalista brasileira - e não apenas de obter "resultados" em
discussões pontuais sindicato/empresas. Sublinho que esta afirmação política
tinha afinidade com os valores, de ampliação e universalização da cidadania,
plasmados na Constituição de 1988.
Em função dessas considerações, a CUT manteve uma posição ambígua em relação às
várias propostas de realização de pacto social feitas pelo governo Collor. Dado
que tais convites eram, de fato, maneiras de obter consentimento de
trabalhadores e empresários para propostas do Executivo, compreende-se bem que
não era mesmo possível dizer simcomo a Central se propunha. No entanto, a
partir de 1991 o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e depois a própria
CUT começaram a participar ativamente das câmaras setoriais criadas pelo
Programa de Política Industrial e Comércio Exterior para definir políticas que
permitissem reestruturar vários setores industriais recuperando a sua produção
e elevando sua competitividade. Estas experiências de tipo social-democrata
tiveram resultados variáveis, sendo a Câmara Setorial mais bem sucedida a da
Indústria Automobilística (Arbix, 1997). O importante é que nestas câmaras
articularam-se reformismo liberal - orientado para a "integração competitiva" -
e aprofundamento da democracia pela ascensão do operariado organizado ao plano
das decisões de Estado, ainda que limitadas à esfera socioeconômica. As
transformações político-ideológicas da CUT seguiram um curso reformista
culminando em 1994 com a adesão ao projeto que estou denominando de "inserção
competitiva" (Boito Jr., 1999: 190-191) 25.
Ainda que os atores-chave, no plano sociopolítico, apoiassem pelo menos uma
parte das reformas liberalizantes implementadas pelo governo Collor, a
instabilidade e o quadro recessivo do período reduziram severamente o impacto
da abertura comercial sobre a indústria. Esta "modernizou-se" mais por mudanças
organizacionais (downsizing) e pelo efeito das exigências da demanda (Ferraz,
Kupper, e Haguenauer, 1997). Só mais tarde - depois do governo Collor - a
abertura comercial e financeira produziria efeitos estruturais importantes no
sistema produtivo brasileiro.
CONCLUSÕES
A reconstrução parcial da política brasileira de liberalização, particularmente
daquela encetada durante o governo Collor, permitiu mostrar que as reformas
liberais foram orientadas por duas diretrizes diferentes e não por uma apenas,
como querem tanto partidários quanto críticos do neoliberalismo. Uma destas
diretrizes, a de "integração competitiva", orientou de forma marcante a
reorientação estratégica da política externa brasileira e também a reforma da
política de comércio exterior, embora esta última sofresse grande impacto
negativo da política de estabilização monetária.
A desorganização de vários ramos da administração do Estado, decorrente de uma
reforma administrativa mal concebida e executada, e a privatização de parte das
empresas do Estado, não devem ser tomadas como indicadores de uma estratégia
consistente de promoção do Estado mínimo. Esta estratégia não existiu. Nem pode
ser depreendida do reformismo liberal do governo Collor. O neoliberalismo
influenciou apenas algumas das políticas reformistas, como a de privatização, e
bloqueou uma atuação mais proeminente do BNDES na reestruturação produtiva que
promoveria a competitividade da indústria brasileira.
O reformismo liberal que predominou no governo Collor - orientando tanto sua
política externa como sua política de comércio exterior - não resultou em ou
visou uma demissão da nação e do Estado em favor do mercado; tinha em vista, ao
invés, a afirmação nacional pela elevação da capacidade de competição do país,
seja na construção e gestão da nova ordem política internacional seja na
economia de mercado que se expandia no plano mundial. A argumentação
desenvolvida sublinhou, além disso, que o suporte social para a "integração
competitiva" não se limitou ao empresariado mas incluiu também o sindicalismo
operário de esquerda. Mais ainda, ela sugere que as câmaras setoriais, parte do
processo de reestruturação produtiva, foram núcleos que articularam,
embrionariamente, reformismo liberal e política social-democrata.
Esta apresentação, mesmo incompleta, de ideários e políticas que marcaram o
período Collor, reconstituiu de forma mais complexa - espero - o processo de
liberalização ocorrido no Brasil. Procurou enraizar ideários e políticas social
e historicamente, mas o fez, bem o sei, esquematicamente. Seguramente isso
exige trabalho complementar. A maior complexidade do quadro apresentado
favorece também a comparação do caso brasileiro com outros processos de
liberalização ocorridos na América Latina. Por último, vale sublinhar que as
diversas políticas de liberalização tiveram destinos diversos - mantiveram-se e
se renovaram, perderam provisoriamente relevância e depois foram retomadas ou
simplesmente foram abandonadas. Com efeito, o processo de liberalização começou
e continuou sendo complexo e disputado. É o que, em suma, este artigo pretendeu
enfatizar.
NOTAS
1. Isso vale também pode para o trabalho de Kingstone (1999) - o mais completo,
que eu saiba, sobre as relações entre o empresariado industrial e a política de
liberalização econômica.
2. A exposição mais completa do ideário, de seu surgimento e evolução dentro do
BNDES e impacto imediato encontra-se em Mourão (1994).
3. A expressão "Consenso de Washington" é de John Williamson. Ele redigiu o
texto-síntese do seminário realizado em Washington nos dias 6 e 7 de novembro
de 1989 (Williamson, 1990).
4. Na gestão Abreu Sodré, com Paulo de Tarso Flecha de Lima na Secretaria Geral
do Itamaraty, no período final do governo Sarney, houve o empenho em elaborar
uma "agenda positiva" com os EUA (Moreira, 2001: 218-222).
5. A definição do Brasil como potência média, tornada dominante no Itamaraty,
encontrou resistência entre os diplomatas simpáticos ao nacional-
desenvolvimentismo: definir o país como potência média era a política do
"Brasil pequeno" (Batista, 1993).
6. Ver, por exemplo, a crítica do embaixador Paulo Nogueira Batista à atuação
brasileira - segundo ele, demasiado "pró-americana" - nas negociações finais da
Rodada do Uruguai (Batista, 1993) e as reticências do embaixador brasileiro em
Washington, Marcílio Marques Moreira, à posição de não-participação do Brasil
na guerra contra o Iraque, desencadeada com autorização do ONU e sob a
liderança dos EUA (Moreira, 2001).
7. Mesmo assim, só mais tarde, depois do fim do governo Collor, a reorientação
da política exterior brasileira se consolidou plenamente (Vigevani, Oliveira e
Cintra, 2003).
8. Já em agosto de 1990 Tomas Brady, secretário do Tesouro dos EUA, e Michel
Camdessus, diretor-gerente do FMI, tornaram perfeitamente claro que as
propostas do Brasil eram inaceitáveis.
9. Os parágrafos seguintes apoiam-se em Vargas (1997).
10. Segundo o então secretário-geral do Itamaraty: "O Brasil deverá empenhar-se
crescentemente no sentido de tornar abertos os canais de acesso do país às
tecnologias avançadas, através de propostas para tratamento multilateral mais
transparente e de medidas de 'confidence building' do que são exemplo: os
entendimentos na área nuclear entre Brasil e Argentina" (Azambuja, 1991: 35).
11. A oferta inicial de o Brasil servir como sede da Conferência foi feita
ainda no governo Sarney, mas a definição foi assegurada e implementada no
período Collor.
12. Trata-se da Declaração do Rio, da Agenda 21, da Declaração sobre Florestas,
a Convenção sobre o Clima e a Convenção sobre a Biodiversidade (Lafer, 1993).
13. Foi lançado também, em setembro de 1990, um programa intermediário
definindo a política de "competitividade", o Programa de Apoio à Capacitação
Tecnológica (PACT), com previsão de investimentos de US$ 5 milhões em ciência e
tecnologia até 1994.
14. O chefe do Departamento de Planejamento do BNDES, Luiz Paulo Velloso Lucas,
tornou-se secretário de Indústria e Comércio do Ministério da Economia e teve
para auxiliá-lo técnicos do Banco e da Petrobras.
15. A tarifa média passaria de 35% em 1990 para 20% em 1994 e a dispersão entre
elas seria reduzida, variando em 1994 entre zero e 40%.
16. A hiperinflação foi bloqueada, mas não a inflação elevada; a recessão
industrial foi profunda, -12%, entre 1990 e 1992 (IBGE), embora tenha sido
compensada nos dois anos subsequentes.
17. A redução tarifária prevista para janeiro de 1993 foi antecipada para
outubro de 1992 e a de 1994 para julho de 1993.
18. Sobre a "abertura financeira" em seu conjunto, consultar Franco e Pinho
Neto (2004) e Lann (2007).
19. Eduardo Modiano foi, no governo Collor, presidente do BNDES e da Comissão
de Privatizações.
20. Sobre o programa e o processo de privatizações no governo Collor, consultar
Prado (1993).
21. O que não implica que os empresários não tenham obedecido a estratégias
empresariais e que estas não tenham moldado a forma da privatização de certos
setores. É o que parece ter ocorrido em relação ao setor petroquímico.
22. A propósito da dupla vinculação dos partidos de centro à liberalização
econômica e à democratização,, consultar Sallum Jr. e Casarões (2011).
23. Coincidiram até porque, como se viu, o IEDI formou-se sob o impulso do
projeto de "integração competitiva" formulado no BNDES.
24. As associações empresariais são entidades formadas autonomamente por
empresários de determinado setor ou setores próximos de âmbito nacional. São
paralelas às organizações corporativas ligadas ao Estado, mas podem recobrir
sindicatos setoriais. Associações importantes deste tipo são, entre outras, a
ABINEE, da indústria de produtos elétricos e eletrônicos, a ABIMAQ, das
empresas produtores de máquinas e equipamentos, e a ANFAVEA, de fabricantes de
veículo.
25. Boito Jr. remete com razão a perspectiva da CUT à ideologia
neodesenvolvimentista ou neoestruturalista da CEPAL. Como indiquei
anteriormemte as concepções neoestruturalistas estiveram na base da guinada em
favor da reação ao neoliberalismo que resultou no projeto de "inserção
competitiva", nascido nos anos 1980.