A Construção de Identidades Muçulmanas: Um Enfoque Comparativo entre Duas
Comunidades Paulistas
INTRODUÇÃO
A visão do Islã como uma religião essencialmente étnica seguida por imigrantes
e seus descendentes, juntamente com o fato de não constituir uma religião
proselitista em franca expansão no Brasil, explica a pequena quantidade de
trabalhos acadêmicos destinada ao seu estudo no país. No campo da religiosidade
nacional, o que impera são estudos sobre a religião majoritária, o catolicismo,
e sobre casos que vêm apresentando um imenso crescimento, como certas igrejas
neopentecostais, por exemplo. O estudo do Islã no Brasil, porém, constitui um
tema de análise valioso por várias razões: não se trata de uma religião
isolada, situada além do campo religioso brasileiro; ao contrário, pode não só
ajudar a compreender as religiões majoritárias localmente, servindo de
contraponto a elas, como bem lembra Montenegro_(2000), mas também ajudar a
compreender as disputas por clientela efetuadas no âmbito nacional, já que o
Islã não se encontra neutro neste ponto. Por fim, também é importante salientar
o fato de o Brasil abrigar uma das maiores comunidades islâmicas da América
Latina, responsável por produzir o material de divulgação da religião que é
distribuído por toda a parte sul do continente. A importância atribuída aos
estudos do Islã no mundo constitui outra razão para justificar este trabalho: o
interesse internacional no fenômeno das comunidades muçulmanas fora do chamado
"mundo islâmico" é algo que só faz crescer nos últimos anos.
É possível apontar produções referentes à época da chegada do Islã ao Brasil, o
período da escravidão, responsável pela vinda dos escravos malês, como o estudo
clássico de Reis_(2003). Nas produções acadêmicas a respeito da imigração
libanesa para o Brasil, os muçulmanos costumam ser apenas citados, não
apresentados como objeto central, uma vez que os cristãos foram o elemento
predominante neste processo imigratório (Truzzi,_1997). Osman_(1998), porém, em
sua dissertação sobre a história oral da imigração árabe para São Paulo,
procurou equilibrar o número de fontes muçulmanas e cristãs, enquanto Gattaz_
(2001) buscou preencher esta lacuna desenvolvendo sua tese sobre a imigração
libanesa para o Brasil com enfoque no período pós-1940, caracterizado pela
vinda de um maior número de muçulmanos libaneses para o país. Osman_(2007),
continuou contribuindo para o estudo dos muçulmanos introduzindo, desta vez, o
debate sobre o retorno dos imigrantes ao Líbano. As produções acadêmicas
visando o estudo das comunidades muçulmanas contemporâneas têm enfocado,
majoritariamente, a questão da construção de identidades. Montenegro_(2000)
pesquisou dois dilemas identitários presentes na comunidade sunita do Rio de
Janeiro: ser arabista ou postular a islamização e definir-se como funda-
mentalista ou não. Ramos_(2003) e Marques_(2000) focaram a conversão ao Islã,
processo que, ao fim, constitui um movimento de reelaboração da identidade. O
primeiro autor privilegiou o estudo dos homens convertidos ao Islã em São
Bernardo do Campo e a segunda, as mulheres convertidas em São Paulo. Ferreira_
(2001), tinha como foco central analisar as imagens fotográficas a partir de
três estatutos: as imagens produzidas pelos muçulmanos do Brás/Pari; pela
imprensa e as que ela mesma produziu neste período. Não teve, porém, a questão
da identidade como foco principal. Em seu doutorado (2007), procurou responder
à seguinte questão: "Qual o sentido de ser muçulmano?", mais uma vez amparada
pelo debate da antropologia da performance e sem ter a questão identitária como
cerne de seu trabalho, apesar de não ignorá-la.
Espinola_(2005), desenvolveu uma análise do uso do véu pelas mulheres
muçulmanas de Florianópolis, atentando para os significados culturais,
religiosos e morais que envolvem tal prática. Chagas_(2006) pesquisou a
construção da identidade muçulmana sunita do Rio de Janeiro através da
perspectiva das diferentes apropriações do conhecimento muçulmano e das
consequentes posições de poder que os membros assumem nesta comunidade. A
pesquisadora teve como orientador o antropólogo Paulo_Hilu_Pinto_(2012), que
desenvolveu, entre outros, estudos sobre ritual, etnicidade e identidades
religiosas entre muçulmanos em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
Vitória_Peres_de_Oliveira_e_Cecília_Mariz_(2006)contribuíram para a compreensão
da conversão ao Islã no Brasil. Guilhon_(2006) desenvolveu um estudo
etnocenológico sobre os derviches em sua tese de doutorado em artes cênicas.
Porém, assim como Ferreira_(2001; 2007), não teve como foco a questão da
construção de identidades. Hamid_(2007), por outro lado, reforça a ênfase dos
pesquisadores brasileiros nesta questão. Em sua dissertação de mestrado em
Antropologia, analisou a construção identitária de mulheres palestinas em
Brasília.
Procurei contribuir para este campo de pesquisa analisando na minha tese de
doutorado (2007) a construção de identidades muçulmanas em duas comunidades
paulistas. A coleta de dados empíricos deu-se através da técnica da observação
participante durante todo o ano de 2004, em Campinas, e no primeiro semestre de
2006, no Brás. No primeiro caso, participei das celebrações religiosas às
sextas-feiras, dos almoços dominicais organizados mensalmente no Centro
Islâmico e de encontros femininos aos sábados, para o aprendizado da língua
árabe. Estes últimos ocorreram apenas no momento final da pesquisa, promovidos
por imigrantes líbias presentes temporariamente no país para acompanhar seus
maridos, pesquisadores ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
No Brás, pude assistir às celebrações religiosas realizadas às sextas-feiras,
assim como as aulas de árabe e religião aos sábados, durante todo o semestre em
que realizei a pesquisa naquela localidade. Também participei de almoços
esporádicos na mesquita e de eventos específicos, como uma passeata na praça da
Sé em prol da paz no Líbano, em julho de 2006, e o "Primeiro Encontro da Mulher
Muçulmana nas Américas", realizado em Itapecerica da Serra, entre os dias 9 e
10 de outubro de 2004. A passeata foi organizada por diversos atores sociais,
entre eles lideranças e membros de mesquitas paulistas. Já o segundo evento foi
organizado pelo Centro de Divulgação do Islã para a América Latina (Cdial
Halal). Por fim, cito os almoços nas residências de famílias muçulmanas de
ambas as comunidades como mais uma oportunidade que tive para aprofundar meu
conhecimento sobre os adeptos da religião islâmica em São Paulo.
Voltando para a descrição dos meus objetivos de pesquisa, busquei apreender
como se dá o processo de construção de identidades muçulmanas frente: 1) à
negociação com a sociedade brasileira, caracterizada pela forte presença do
catolicismo, do crescimento do protestantismo, da cultura basicamente
ocidental, do estado secular, da dependência dos EUA e da tradição de acolher
os imigrantes e absorvê-los em um processo de abrasileiramento; 2) ao impacto
da globalização sobre este grupo minoritário, tanto no sentido de propagação de
estereótipos negativos a respeito do Islã e seus fiéis como consequência da
influência da mídia e academia orientalistas, quanto no sentido de
fortalecimento dos vínculos da diáspora com o restante do mundo muçulmano, e;
3) às negociações internas entre árabes e convertidos e entre homens e mulheres
pela definição do que é ser muçulmano e muçulmana no Brasil1 .Por fim, o estudo
comparativo de duas comunidades muçulmanas com perfis tão distintos quanto as
comunidades sunitas de Campinas e do Brás me permitiram analisar até que ponto
ocupações, etnias e distribuições espaciais diversas podem gerar práticas e
discursos islâmicos diferenciados, à luz dos campos previamente delimitados.
Na primeira etapa deste artigo faço, portanto, uma rápida explanação da
presença muçulmana no Brasil atendo-me a questões como composição étnico-
cultural, perfil econômico e ocupacional, além do processo de
institucionalização do Islã nas comunidades aqui enfocadas: a Liga da Juventude
Islâmica Beneficente do Brasil e o Centro Islâmico de Campinas. O segundo
tópico é destinado à apresentação do processo de construção da "identidade
muçulmana" daquelas comunidades frente ao campo religioso brasileiro
predominantemente católico, porém marcado pelo considerável crescimento do
protestantismo pentecostal nos últimos anos. O próximo tema a ser abordado é o
impacto da globalização na construção de identidades muçulmanas no contexto
minoritário brasileiro. Neste tópico, procuro destacar como o perfil
socioeconômico desenvolvido pelos muçulmanos no Brasil afeta não só a maneira
como veem a religião, como também o papel que desempenharão tanto na sociedade
hospedeira quanto na Ummah2. Por fim, abordo a negociação da identidade no
interior das comunidades, através da análise de conflitos étnicos e de gênero
pela definição do que é ser muçulmano e muçulmana no Brasil de hoje3.
MUÇULMANOS NO BRASIL: QUEM SÃO E COMO VIVEM?
Algumas lideranças muçulmanas brasileiras alegam que o Islã está presente no
país desde a época do descobrimento, numa possível estratégia visando criar um
lugar na história da "fundação" deste país e legitimar sua presença, que seria
tão antiga quanto a do Cristianismo no Brasil. De qualquer forma, foi a partir
do tráfico negreiro que um número mais elevado de muçulmanos definitivamente
começou a chegar ao país. Os malês, muçulmanos de origem iorubana,
majoritariamente nagôs, são os mais conhecidos deles. Em 1835, organizaram uma
revolta, baseada ideologicamente na religião islâmica, que tomou as ruas de
Salvador por horas, repercutindo até no exterior. Alguns dos escravos
participantes do levante foram extraditados, outros, condenados à prisão, às
chibatadas, ou, ainda, à pena de morte (Reis,_2003). O Islã passou a ser visto
como algo a ser temido e controlado e quase desapareceu do campo religioso
brasileiro. Uma nova fase da presença islâmica no país foi inaugurada com a
chegada dos imigrantes sírio-libaneses. Estes representam a grande maioria dos
muçulmanos no Brasil atualmente. É necessário esclarecer, no entanto, que a
imigração de indivíduos sírio-libaneses para o Brasil apresentou diversos
momentos, sendo o início marcado pela chegada quase exclusiva de elementos
cristãos (Truzzi,_1997).
O movimento imigratório em questão teve início em 1880, período em que a Grande
Síria4 encontrava-se dominada pelo Império Otomano. Com a decadência do Império
e a sucessiva soberania francesa, os muçulmanos passaram a sentir-se em
desvantagem devido ao tratamento preferencial que os cristãos começaram a
receber, engrossando as correntes de emigração do Líbano.
Ao contrário de italianos, portugueses, espanhóis e outros grupos europeus,
sírio-libaneses não contaram com o sistema de imigração subsidiada por não
encaixarem-se no padrão das políticas imigratórias que visavam o branqueamento
da população e também porque não se interessavam em se empregar como colonos. A
maior parte dos que aqui chegaram não possuía capital para investir. Desta
forma, a mascateação tornou-se a principal saída5. Conforme amealhavam algum
capital, procuravam abrir pequenas lojas e chamar amigos e parentes para
trabalhar consigo, vendendo suas mercadorias por consignação e dando início a
um processo de imigração em cadeia.
Quando os libaneses chegaram ao Brasil, a urbanização estava começando, o que
ajuda a explicar porque foram tão bem-sucedidos no setor comercial, muito mais
do que nos EUA, por exemplo (Truzzi,_1997). Libaneses e sírios, nesta ordem,
constituem os maiores grupos de muçulmanos no país. Os palestinos encontram-se
em terceiro lugar e vieram fundamentalmente após a criação do Estado de Israel.
Egípcios, marroquinos, sudaneses, nigerianos, sul-africanos e moçambicanos
representam outras nacionalidades de imigrantes que aqui se estabeleceram, em
número expressivamente mais reduzido. Não há dados confiáveis sobre o número de
muçulmanos no Brasil. Enquanto entidades nativas, como a Sociedade Beneficente
Muçulmana de São Paulo, apontam uma quantia de cerca de um milhão de fiéis, o
último censo indicou pouco mais de 27 mil muçulmanos no país. Acredito que
seria necessário relativizar ambos os dados, primeiro, porque os muçulmanos
costumam ser agrupados na categoria religiosa "outros" no recenseamento, e
segundo, porque há uma tendência dos grupos religiosos de mostrarem-se maiores
do que realmente são...
Os muçulmanos no Brasil concentram-se fundamentalmente nos estados de São
Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Apresentam nível educacional e rendimento
bastante acima da média da população brasileira, atuando, em sua maioria, no
setor terciário. Quase 40% dos muçulmanos são empregadores, contra apenas 4,3%
da população urbana. Consequentemente, há uma reduzida participação de
empregados no setor privado, 23,5%, contra 48,1%, enquanto a proporção de
trabalhadores autônomos se aproxima, 28,5%, contra 20%. Desta forma, é possível
afirmar que "o perfil majoritário do muçulmano ativo é o de um comerciante
independente ou patrão de uma empresa que emprega menos de 10 pessoas. Porém,
além deste arquétipo, o recenseamento de 1991 revela uma multiplicidade de
situações" (Waniez_e_Brustlein,_2001:163).
A LIGA DA JUVENTUDE ISLÂMICA BENEFICENTE DO BRASIL
A mesquita da Liga da Juventude Islâmica situa-se na divisa entre os bairros do
Brás e do Pari, na cidade de São Paulo, maior hospedeira de muçulmanos do
Brasil. Foi fundada para atender à necessidade de um local de orações para os
comerciantes de imigração recente que lá se estabeleceram. Cerca de 200
famílias compõem a comunidade, sendo a maioria delas oriunda da cidade libanesa
de Trípoli.
Os imigrantes muçulmanos da Liga seguiram os passos dos patrícios pioneiros,
dedicando-se ao comércio em um sistema de cooperação mútua onde os mais antigos
oferecem ajuda aos mais recentes, seja no ensino do idioma, no fornecimento de
mercadoria em consignação ou no emprego. A região de origem encaminhou os
muçulmanos para bairros ou cidades específicas no Brasil, e a socialização
oferecida aos recém-chegados fez com que se concentrassem em um mesmo ramo de
atuação. Desta forma, os imigrantes muçulmanos da Liga da Juventude
concentraram-se no comércio de jeans, assim como os assentados na cidade de São
Bernardo do Campo, por exemplo, se concentraram no comércio de móveis.
O processo de institucionalização do Islã presente naquela comunidade foi
possível, em sua maior parte, graças à colaboração dos seus próprios membros.
Em 1998, fizeram um projeto de construção de uma mesquita e procuraram ajuda
financeira entre "os árabes que estavam bem de vida no Brasil" e em países
árabes. Segundo um de seus fundadores, o dinheiro do exterior demorou tanto a
chegar que foi usado para a compra de "carpetes e o elevador, o qual não fazia
parte do projeto original, mas com a chegada do dinheiro resolvemos colocar".
"O dinheiro chegou só no final, quando praticamente tudojá estava pronto",
ressaltou ele, em uma clara tentativa de enfatizar a independência financeira
da comunidade em relação ao restante do mundo muçulmano. A mesquita encontra-se
em um prédio de três andares construído depois de seis anos de arrecadação
entre os membros da comunidade. Trata-se de um grande imóvel com ótima
infraestrutura para atender às atividades a que se propõe: um local de orações,
de confraternizações e de ensino da religião islâmica e da língua árabe. Com
perfil explicitamente proselitista, a mesquita oferece aulas e eventos
destinados não apenas aos imigrantes e seus descendentes como também aos
brasileiros das redondezas. Aulas de religião e língua árabe são oferecidas a
crianças, cônjuges brasileiros e curiosos em geral. Inclusive, aparelhos de
tradução simultânea foram comprados para permitir aos brasileiros a compreensão
dos sermões de sexta-feira em sua íntegra.
Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos cooperaram de alguma forma com
a construção desta e de outras mesquitas no Brasil. Estes países, juntamente
com o Egito, seriam os principais colaboradores internacionais do processo de
institucionalização do Islã no contexto local. Além da ajuda financeira para a
construção de mesquitas, financiam sheikhs para dar aula de árabe e religião no
Brasil e fornecem educação religiosa para líderes muçulmanos locais naqueles
países.
O CENTRO ISLÂMICO DE CAMPINAS
O Centro Islâmico de Campinas foi fundado em 1977, graças à iniciativa de seu
hoje presidente, Ismail Hatia. Sul-africano de origem indiana, chegou ao Brasil
em 1956 fugindo do apartheid, estabelecendo-se como empresário do ramo de
ensino de idiomas no ano de 1960. Partiu para a África do Sul na década de 1970
com o intuito de levantar capital para a implantação do Centro Islâmico, e
conseguiu arrecadar 25 mil dólares entre os membros da comunidade islâmica de
origem indiana daquele país, a comunidade muçulmana indiana mais influente fora
da Índia, segundo ele. Com o dinheiro, comprou um grande terreno no Parque São
Quirino e deu início à construção da Mesquita, que pôde contar, posteriormente,
com a ajuda de muçulmanos residentes na cidade de Campinas e região (Sorocaba,
Piracicaba, Sumaré, Pedreira, Americana e Hortolândia), entre eles, pessoas de
nacionalidade libanesa, sul-africana, indiana, palestina, egípcia etc.
A comunidade muçulmana de Campinas constitui uma exceção, entre outros motivos,
pela maior heterogeneidade com relação aos demais centros islâmicos paulistas.
Tal fato explica-se pela presença da Unicamp, segundo Mohamed Habib, líder da
comunidade da região campineira. Egípcios deixaram seu país devido à
perseguição política do ditador Nasser, alguns se tornando professores da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como o próprio Habib, hoje Pró-
Reitor de Assuntos Comunitários e Extensão. Os poucos líbios que foram para
Campinas o fizeram basicamente em virtude de cursos de pós-graduação ou para
exercer uma função docente, também naquela instituição de ensino. Outros
grupos, como os sul-africanos de origem indiana gujarati estão presentes. Estes
deixaram seu país fugindo do apartheid e aqui se estabeleceram trabalhando como
empresários, fundamentalmente no setor de ensino do idioma inglês. Moçambicanos
de origem indiana gujarati já chegaram a constituir maioria naquela comunidade,
porém, decepcionados com as crises econômicas brasileiras desistiram do sonho
de "fazer a América" e deixaram o país, em sua quase totalidade, na época do
governo Sarney. Por fim, resta citar que em número muito pequeno ainda
encontram-se, dentre aquele grupo, pessoas provenientes da Malásia e das
Guianas.
A heterogeneidade étnica presente em Campinas coloca o ideal da Ummahem
destaque, uma vez que se torna fator quase que exclusivo de formação de uma
identidade coletiva para os membros daquele grupo que, ao contrário dos
muçulmanos do Brás, vivem dispersos pela cidade e trabalham relativamente
independentes uns dos outros.
A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES MUÇULMANAS FRENTE AO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO
Durante minha pesquisa de campo, pude constatar relações do Islã com o
catolicismo, religião majoritária, e com o pentecostalismo, vertente religiosa
que mais acentua as relações de oposição e concorrência (Brandão, 1988). Como
lembra Edward_Said_(1981), a doutrina islâmica pode ser vista justificando
tanto a tolerância religiosa quanto o exclusivismo. A tolerância religiosa faz
parte do discurso oficial encontrado tanto no Centro Islâmico de Campinas
quanto na Liga da Juventude Islâmica, porém, nesta última, o Cristianismo
assume um papel muito maior de fornecedor de características diacríticas da
sociedade local para a comunidade imigrante.
O trecho de um sermão de sexta-feira realizado no Centro Islâmico de Campinas
sobre a unicidade divina revela a preocupação em mostrar que o Islã e os
muçulmanos são bem vistos pela Igreja Católica:
A Declaração "Nostra Aetate" sobre as relações da Igreja com as
Religiões Não Cristãs - Vaticano, 1966, aprovada por 2.221 votos,
mais de 96%, define a religião islâmica como: quanto aos muçulmanos,
a Igreja igualmente os vê com estima e carinho, porque adoram a um
único Deus vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, Criador
do céu e da terra, que falou aos homens. A seus semelhantes preceitos
esforçam-se por se submeter de toda a alma, como a Deus se submeteu
Abraão a quem a crença muçulmana se refere com agrado. Não reconhecem
Jesus como Deus: veneram-no, no entanto, como profeta. Honram Maria,
sua Mãe virginal e até a invocam às vezes com devoção. Aguardam, além
disso, o dia do Juízo, quando Deus há de retribuir a todos os homens
ressuscitados. Como consequência, valorizam a vida moral e honram a
Deus no mais alto grau pela oração, esmolas e jejum.
A tolerância do Islã, por sua vez, frente não só ao catolicismo como ao
Cristianismo em geral e ao Judaísmo, ou seja, às religiões dos chamados "Povos
do Livro" também é enfatizada em um sermão de Campinas: "Analisando o
parentesco resultante do casamento do muçulmano com uma judia ou uma cristã,
percebemos que pela natureza humana isto gera o apoio e a cooperação entre os
dois lados. Maravilhoso é o sentimento que nasce entre os filhos e seus tios
paternos e maternos. Isto é a tolerância, o pré-requisito da paz".
Aideia de que é dever do muçulmano crer nas religiões reveladas previamente
(Cristianismo e Judaísmo) e em seus profetas faz parte do discurso oficial da
Liga da Juventude Islâmica, presente nos sermões de sexta-feira, nas aulas de
religião ministradas aos sábados e no website da Liga: "O Islamismo reconhece
todas as religiões anteriores, Cristianismo, Judaísmo e (o muçulmano) tem que
reconhecer todos da cadeia dos profetas. São irmãos de uma fonte só, uma
mensagem só"6.
O respeito não apenas ao "profeta Jesus" como à Virgem Maria (mulher mais
citada no Alcorão, segundo o sheikh) é bastante salientado. Porém, as
diferenças entre as religiões são muito demarcadas, a começar pela
"confiabilidade" dos livros sagrados de ambas as religiões. Em um sermão, foi
dito que a Bíblia teria sido escrita 300 anos após a morte de Cristo, ao
contrário do Alcorão, que teria sido escrito enquanto o profeta Muhammad e seus
amigos ainda estavam vivos. Tal argumento é utilizado para justificar a
presença de erros na doutrina cristã. A veracidade da mensagem de Cristo não é
negada, tampouco a origem divina dos seus ensinamentos, mas põe-se em questão o
registro de sua mensagem, o qual teria sido responsável por diversos equívocos
na transmissão da doutrina de Jesus.
Os muçulmanos se definem na Liga como tolerantes por reconhecerem as demais
religiões, em contraposição aos judeus, "que não reconhecem Cristo", e aos
cristãos, "que não reconhecem o profeta Muhammad", nas palavras do professor da
turma iniciante daquela instituição. "O Islamismo não veio para anular as
outras religiões, veio para corrigi-las", completou o professor.
Foi possível constatar que as lideranças de ambas as mesquitas direcionam seu
diálogo fundamentalmente ao Cristianismo católico, detentor do maior capital
simbólico dentro do campo religioso brasileiro. Por outro lado, foi possível
notar uma forte presença de pentecostais (fundamentalmente da Assembleia de
Deus) nas aulas destinadas aos curiosos e convertidos, na Liga, aos sábados.
Ainda que várias das pessoas convertidas tenham realmente feito parte desta e
de outras igrejas pentecostais como a Igreja Universal do Reino de Deus antes
de filiarem-se efetivamente ao Islã, é notório que certo número destes
visitantes não parece ter a menor intenção de se converter. Apresentando-se
como cristãos interessados no diálogo entre as religiões e na oportunidade de
aprender a língua árabe de graça, sempre polemizam nas aulas de religião,
fazendo perguntas em sintonia com a cobertura da mídia a respeito do Islã e dos
muçulmanos, como por exemplo: "É verdade que quando um homem-bomba se mata ele
vai para céu e ganha 72 noivas virgens? E as mulheres, o que ganham?".
Os árabes parecem não perceber segundas intenções por parte destas pessoas, mas
convertidos percebem, talvez até por estarem mais acostumados com estratégias
de evangelização, inclusive por experiências prévias com religiões
pentecostais. Certos evangélicos podem estar frequentando as aulas visando a
impedir novas conversões ao Islã ou, quem sabe, aproveitar aquela oportunidade
como um treinamento para missões evangelizadoras no exterior, em países
majoritariamente muçulmanos.
Casos de discriminação e ataques verbais realizados por evangélicos contra
mulheres muçulmanas foram reportados à pesquisadora Vera_Marques_(2000), assim
como a mim, durante minha pesquisa de campo. Segundo uma informante de 21 anos,
convertida há dois, os muçulmanos são criticados por "não acreditarem em
Jesus". "Mas isto é um engano", disse ela, "porque acreditamos em Jesus! Como
profeta, não como filho de Deus". "Concluem que somos contra Jesus", afirmou
outra moça, 35 anos, convertida há oito.
No Centro Islâmico de Campinas não foi visto nada parecido no período em que
frequentei a mesquita, de janeiro de 2004 a janeiro de 2005. A ausência de
pentecostais naquela instituição religiosa talvez possa ser explicada pela
pequena visibilidade da comunidade muçulmana de Campinas, formada por um
pequeno número de pessoas vivendo dispersas pela cidade, com sede em um bairro
afastado do centro, com número muito baixo de convertidos, um percentual quase
nulo de mulheres usando o véu na esfera pública e a falta de infraestrutura
para atrair novos membros em maior quantidade, como estratégias de divulgação,
aulas de religião ou grandes eventos. O Centro Islâmico de Campinas vem
mantendo-se como um ponto de encontro para orações e socialização onde
praticamente todos se conhecem de longa data.
Apenas uma vez pude presenciar uma menção direta das lideranças árabes aos
evangélicos, e esta foi referente ao caso do "chute na santa" efetuado pelo
bispo Von Helder, da Igreja Universal, na década de 1990. Na aula inaugural de
religião para iniciantes, realizada na Liga em fevereiro de 2006, o presidente
da União Islâmica do Brasil e membro fundador da Liga da Juventude Islâmica
citou o caso:
Pegar o Profeta de mais de um bilhão de pessoas e fazer charges não é
errado? Isso é liberdade de expressão? O "padre" que chutou a santa
fugiu do Brasil porque a polícia não podia protegê-lo. Eu não rezo
para imagem, mas considero no mínimo uma baixaria o que fizeram com a
santa. Pisar na bandeira do Brasil é ofender a todos os brasileiros,
não é liberdade de expressão.
Utilizou a agressão ao símbolo católico, por um membro de outra religião, para
sensibilizar os presentes quanto à gravidade da ofensa contra o Islã cometida
por cartunistas dinamarqueses e para justificar a indignação dos muçulmanos.
Mais do que isso, foi interessante o reconhecimento, por parte dele, da imagem
da padroeira católica como símbolo deste país, reconhecimento da força do
catolicismo no Brasil. No mesmo dia, porém, enfatizou: "Quando o Islã reinou no
mundo, não roubou de ninguém. Inglaterra e França roubaram a África e o Oriente
Médio. Não porque os árabes são nobres, mas porque o Islã proíbe que se faça
isso. O Brasil é um país católico graças à tolerância do Islã, porque quando
(os árabes) dominaram Portugal, deram liberdade de crença aos cristãos".
O perfil da comunidade da Liga da Juventude Islâmica, um grupo numericamente
grande, concentrado no mesmo bairro, com alto capital econômico, composto por
imigrantes recentes liderados por jovens, produz um discurso mais "combativo" e
"demarcador de território" do que o encontrado em comunidades como a do Centro
Islâmico de Campinas, um grupo pequeno, disperso, pouco visível, concentrado no
setor educacional, com um capital econômico não tão alto e composto por
imigrantes na faixa dos 60, 70 anos e seus descendentes. Enquanto a comunidade
da Liga da Juventude procura apontar os erros presentes no Cristianismo e
atribuir a predominância deste no Brasil graças à tolerância dos árabes no
período de dominação da Península Ibérica, os líderes de Campinas preocupam-se
em mostrar que o Islã e os muçulmanos são apreciados pela Igreja Católica,
buscando aceitação por parte da sociedade hospedeira. O dinamismo dos jovens da
Liga, aliado à sua maior fonte de recursos, é empregado no objetivo explícito
de divulgar a palavra divina no país receptor, como nos mostra o trecho
extraído de um discurso do diretor da Liga: "Os árabes conseguiram fazer com
que em cada bar, em cada esquina, fossem vendidas esfirras, mas e a palavra de
Deus? Não passou nem da primeira esquina. Falhamos nisso e esta deve ser a
nossa contribuição aos brasileiros, levar a palavra de Deus até eles".
GLOBALIZAÇÃO, REDES ISLÂMICAS TRANSNACIONAIS E SUA INFLUÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DE
IDENTIDADES MUÇULMANAS NO BRASIL
O impacto da globalização no processo de construção identitária de imigrantes
muçulmanos pode ser visto de diversas maneiras. O interesse das superpotências
em terras majoritariamente muçulmanas, a questão Palestina, a reação de
movimentos de resistência ao imperialismo ocidental apoiados em leituras da
religião islâmica, assim como a vida das minorias muçulmanas na Europa e nos
EUA são exemplos de fatores que afetam a forma como os muçulmanos no Brasil
veem a religião e a si mesmos. Ao mesmo tempo que a globalização traz à tona o
Anti-Muslimism7 difundido pela mídia ocidental, ela reafirma os laços da
diáspora com os países de origem e o restante da comunidade muçulmana mundial.
Neste aspecto, é importante frisar que o perfil socioeconômico privilegiado
desenvolvido pelos muçulmanos no Brasil afeta não apenas a forma como veem sua
própria religiosidade, como também o papel que desempenham tanto na sociedade
hospedeira quanto na Ummah.
Considerações sobre o "Fundamentalismo Islâmico" e seu Impacto no Brasil
O Islã constitui a religião que mais vem crescendo no mundo, ao mesmo tempo em
que assume o papel de alvo de um processo de "demonização" de toda uma religião
e seu conjunto de fiéis. Este tópico é destinado ao esclarecimento da origem e
do significado de um dos termos mais associados, pela mídia, aos muçulmanos
atualmente, o fundamentalismo.
Segundo Armstrong, o termo fundamentalismo surgiu quando protestantes
americanos no início do século XX passaram a denominar-se "fundamentalistas"
para diferenciarem-se de outros protestantes mais liberais que distorceriam a
fé cristã. Sua intenção era "voltar às raízes e ressaltar o fundamental da
tradição cristã", isto é, "a interpretação literal das Escrituras e a aceitação
de certas doutrinas básicas" (2001:10).
A partir deste momento, a palavra fundamentalismo passou a ser usada para
designar movimentos reformadores de outras religiões, gerando uma série de
equívocos. Beinin_e_Stork_(1997) alegam que não faz sentido falar em
fundamentalismo islâmico, uma vez que, para seus fiéis, o Alcorão já é
considerado a palavra literal de Deus, conforme revelada ao seu profeta
Muhammad por intermédio do anjo Gabriel. Fundamentalismo também não é sinônimo
de terrorismo ou apregoação da violência, como mostra a mídia.
A maioria dos fundamentalistas não concorda com atos terroristas, embora
costume ser exclusivista e condenar quem não siga suas ideias (Armstrong,
2001). Da mesma forma, é necessário enfatizar que "a volta às escrituras" não
representa uma exclusividade do Islã, e está presente em todas as religiões
tradicionais. Os movimentos fundamentalistas seriam reações à cultura moderna,
marcada por medos, ansiedades e desejos comuns. Para Karen_Armstrong_(2001), o
fundamentalismo é uma reação à cultura científica e secular que nasceu no
Ocidente e depois se espalhou pelo mundo. Ele rejeita o racionalismo
científico, mas não tem como fugir dele. Geertz_(2004) acredita que a
secularização do pensamento é respondida através da ideologização da religião.
Para sobreviver no hostil mundo moderno, caracterizado pela força crescente do
poder científico, os escrituralistas (termo utilizado por Geertz para definir
aqueles que se voltam às escrituras), não só nos dois países (Indonésia e
Marrocos, objetos de pesquisa do autor), mas no movimento em geral, seguiram
duas estratégias:
(...) a separação absoluta entre questões religiosas e científicas e
a tentativa de mostrar que as escrituras, especialmente o Alcorão,
antecipam e estão plenamente de acordo com o espírito e com as
descobertas da ciência moderna. A primeira estratégia consiste na
negação de qualquer significação metafísica à ciência, na verdade à
razão secular em qualquer forma; sua competência está estritamente
confinada ao entendimento da natureza, considerada como um tipo de
sistema mundano e autocontido. A fé e a razão são separadas por uma
espécie de quarentena, para evitar que a primeira seja contaminada, e
a segunda, acorrentada. A outra estratégia consiste em interpretar a
ciência como não mais que uma explicitação daquilo que já estava
implicitamente presente na religião, uma extensão e especificação da
perspectiva religiosa, mais do que um modo autônomo de pensamento
(Geertz,_2004:112-113).
No Centro Islâmico de Campinas prevalece a segunda estratégia como mostra o
trecho retirado do livro Deus e seus Atributos, de autoria de Sayyed M. M. Lari
que me foi presenteado pelo presidente do Centro Islâmico:
Até ao passado recente, o Homem só tinha consciência da sua
existência através de seu corpo equilibrado e adequado, mas ignorava
os mecanismos misteriosos que regulavam a sua criação. Hoje, o Homem
possui informações surpreendentes e detalhadas sobre o interior do
seu próprio corpo, e aprendeu que dez milhões de bilhões de células
entram na composição dos seus diferentes membros e órgãos. A
majestade e a grandeza do Criador tornam-se, assim, ainda mais
perceptíveis que no passado. Será lógico sustentar que a crença em
Deus é própria das pessoas que não têm conhecimento a respeito da
Criação, e que um sábio que está ao corrente da causalidade natural e
da evolução em direção à perfeição, e que sabe que uma lei minuciosa
rege todas as etapas da existência, deve, pelo contrário, acreditar
que a origem das leis naturais não é senão a matéria inanimada? As
descobertas e as conclusões científicas poderiam levar a pensar que é
possível atribuir todos os poderes do Criador à matéria ignorante e
inconsciente? (1995:68-69).
A defesa da busca por conhecimento, não apenas religioso, mas em todas as
áreas, faz parte do discurso da comunidade de Campinas, como mostra o trecho
retirado de um sermão de sexta-feira:
Temos que nos qualificar em todas as áreas de conhecimento e de
atuação profissional. Não podemos ser todos teólogos, ou todos
médicos, ou todos engenheiros. Temos que diversificar a nossa
participação na sociedade buscando cada vez mais contribuir pelo bem
social geral. Assim eram as primeiras gerações de muçulmanos. E assim
eles formaram uma grande civilização que durou mais de 700 anos.
A contribuição da civilização islâmica ao desenvolvimento da ciência é lembrada
com orgulho em Campinas, assim como as universidades construídas por muçulmanos
na península ibérica, onde intelectuais europeus se formaram posteriormente.
Na Liga, também foi dedicado um sermão ao tema do dever da busca pelo
conhecimento, "mas o conhecimento verdadeiro, correto". "A diferença entre o
sábio e o ignorante", continuou o sheikh, "é a mesma diferença existente entre
o profeta e um homem qualquer". Recomendou que procurassem aprender com os
sábios, disse que deveriam procurar os sheikhs para aprender e tomar cuidado
com as fontes, já que "nem todo livro ou pessoa traz a informação correta". Em
entrevista concedida a mim, depois do gravador ser desligado, um dos fundadores
daquela instituição afirmou que Charles Darwin teria que provar que "todos os
homens vieram do macaco". Salientou que não acredita nisso e que se não está no
Livro (Alcorão), ou está errado, ou o livro foi traduzido errado. "Não está no
Alcorão, ou de acordo com este, não concordo nem acredito". O perfeccionismo
moral e religioso das lideranças daquela comunidade fez com que lá imperasse a
busca pelo isolamento de "uma fé islâmica purificada da contaminação com a vida
cotidiana".
Voltando ao debate do fundamentalismo islâmico, no sentido apregoado pela
mídia, defendo, assim como Beinin_e_Stork_(1997), o uso do conceito Political
Islam. Tal termo é mais adequado para designar os movimentos islamitas
desafiadores de regimes existentes e da ordem política que tem se dedicado a
servir aos interesses do Ocidente a partir da década de 1970, fundamentalmente.
O 11 de setembro representa um dos mais famosos atos do Political Islam,
constituindo um caso valioso de análise do impacto da globalização sobre grupos
religiosos muçulmanos ao redor do mundo, uma vez que tanto a ideologia política
americana, profundamente orientalista8, quanto os argumentos defensivos da
Ummah afetaram os muçulmanos. A desconstrução de uma imagem do Islã atrelada à
violência e ao terrorismo tem sido, com mais ênfase a partir de então, um
problema comum às comunidades muçulmanas ao redor do mundo, constituindo parte
efetiva de seu processo de construção identitária. No contexto local, isto pode
ser comprovado através da análise dos depoimentos de líderes muçulmanos na
mídia, através da literatura nativa criada justamente para este fim, além dos
resultados da minha pesquisa de campo em centros islâmicos do Estado de São
Paulo. Neste processo, sociedades hospedeiras desempenham um papel extremamente
importante, seja no fornecimento de características diacríticas disponíveis,
seja no direcionamento da autopercepção deste grupo, uma vez que as construções
identitárias espelham o modo como o grupo é percebido pelos outros (Montenegro,
2000). Desta forma, é possível compreender porque os muçulmanos, ao definir sua
religião e modo de vida, sempre tocam em determinados assuntos que,
"coincidentemente", são aqueles mais destacados pela mídia a respeito deles
próprios.
Além da associação entre religião e terrorismo, pode-se apontar assuntos como
poligamia e submissão feminina. Uma mulher respeitada e não oprimida é a imagem
que os muçulmanos no Brasil tentam associar ao Islã. Dizem que a mulher, no
Islã, é ainda mais respeitada que na cultura e nas sociedades brasileira e
ocidental, já que seria valorizada por seu caráter e virtude, e não pela
juventude e beleza. Tentam mostrar também que a poligamia é uma exceção, não a
regra, e justificada apenas em determinados casos. Alguns deles mostram-se
orgulhosos por esta flexibilidade da religião islâmica e a comparam com a
imposta monogamia ocidental. A última, segundo eles, apenas acobertaria
traições e falta de responsabilidade dos homens com relação aos possíveis
frutos de relacionamentos extraconjugais. O Islã, em contraste, garantiria a
provisão de apoio emocional e financeiro às demais esposas e filhos. Este tipo
de argumento foi ouvido por mim nas duas comunidades pesquisadas.
O simples fato de constituir uma minoria já acarreta algum tipo de sanção, uma
vez que toda sociedade impõe modos de ser, pensar e agir que, quando não são
seguidos, acarretam sanções que vão do riso à morte física, como nos mostra
Durkheim_(2004) através de seu conceito de fato social. Estas sanções podem ser
mais ou menos amenas dependendo de determinados fatores, como a posição
econômica e política que os membros destas minorias ocupam nos países que as
abrigam, assim como o tipo de Estado e cultura política presentes em cada um
destes países.
O caso brasileiro apresenta diversas peculiaridades no que toca à questão da
inserção da minoria muçulmana, em comparação às comunidades muçulmanas
presentes na Europa. O sucesso econômico destes imigrantes é uma das principais
diferenças, o que não assegura a esta comunidade, porém, condições ideais de
prática da sua religião, tampouco, imunidade aos estereótipos propagados pela
mídia brasileira, profundamente influenciada pela norte-americana. Como já
citado, racismo, xenofobia e estereótipos caracterizam a visão ocidental padrão
do Islã em um processo nomeado por Halliday (apud Shadid_e_Koningsveld,_2002)
anti-Muslimism. Há dois tipos de anti-Muslimism,segundo ele: o estratégico e o
populista. O primeiro nasceu nos EUA, relacionado e alimentado por assuntos
como suprimento de petróleo, bombas nucleares e terrorismo. Surgiu nos anos
1970 como produto da alta de preços do petróleo pela OPEC (Organization of the
Petroleum Exporting Countries), da Revolução Iraniana, do conflito relacionado
à embaixada americana em Teerã, dos atentados ao World Trade Center em 1993, do
11 de setembro e das consequentes análises tendenciosas da mídia. A versão
populista é mais comum na Europa e tem ligação com a presença muçulmana nas
sociedades ocidentais. Assuntos associados a esta versão são: assimilação,
integração, raça, uso do véu e competição por empregos. A globalização tem
trazido para o Brasil o anti-Muslimism de tipo estratégico, reforçado em
períodos de tensão como o 11 de setembro, fato condizente com a realidade de um
país dependente dos EUA e hospedeiro de uma comunidade imigrante muçulmana que
não constitui um problema de classe.
Os estereótipos propagados pela mídia são sentidos pela comunidade como um
todo, no entanto, a discriminação e o preconceito são vivenciados de forma
diferenciada, de acordo com classe, nacionalidade e gênero. Imigrantes do sexo
masculino pertencentes às classes média e alta costumam ter contato com o
preconceito de forma indireta, através da mídia. Logo que cheguei ao Centro
Islâmico em Campinas, por exemplo, fui recepcionada por um senhor egípcio que
prontamente me alertou: "Você vai ver, é tudo diferente do que as pessoas
dizem. Não somos nada disso, nem extremistas, nem terroristas. É tudo
diferente". Outro senhor me perguntou depois de algumas semanas se minha
família sabia que eu estava frequentando o Centro. Ao responder
afirmativamente, me indagou se não ficavam bravos comigo por estar indo lá.
Quando perguntei por que ficariam, respondeu: "Falam muito mal de nós, nos
classificam como se fôssemos todos terroristas". "Quem fala?", perguntei. "Os
jornais e a TV", me respondeu o empresário.
Mulheres são alvos mais corriqueiros devido ao fato do véu (quando usado)
exteriorizar a filiação religiosa. Como as muçulmanas de Campinas usam-no
apenas no momento da oração, não constituem um alvo fácil para a discriminação
religiosa. Este problema torna-se mais dramático no caso das mulheres
convertidas, presentes, em geral, nos grandes centros, como é o caso do bairro
do Brás. Ao contrário das árabes, que são vistas pelos brasileiros como
"vítimas", as convertidas são vistas como "traidoras do gênero". Como já
reportado por Ramos_(2003), e confirmado na minha pesquisa de doutorado, a
maior parte das ofensas às convertidas é proferida por mulheres, e não homens.
Também é comum serem hostilizadas por parentes e amigos que não entendem porque
decidiram atrelar-se a uma religião que "pregaria o terrorismo e a submissão
das mulheres", algumas chegando a ser expulsas de casa. O fato de pertencerem a
estratos socioeconômicos mais baixos também as torna mais vulneráveis ao
preconceito dos empregadores. Na Liga da Juventude Islâmica, porém, a rede de
solidariedade dos imigrantes pode ser estendida em certas ocasiões para abarcar
mulheres convertidas que perderam o emprego devido ao preconceito contra o véu.
Não é raro encontrar moças convertidas trabalhando para lojistas árabes.
Quanto às mulheres imigrantes daquela comunidade, pode-se dizer que se dedicam
em sua maioria, aos cuidados dos filhos e da casa. Além do mais, não costumam
utilizar transporte público, tendo acesso a veículos particulares, o que
diminui a probabilidade de sofrer agressões verbais de não muçulmanos. Por fim,
vivem no mesmo bairro, o que facilita em certa medida o seguimento dos costumes
em um contexto minoritário, além de contarem com uma escola islâmica - na
realidade, um colégio católico particular que, mediante pagamento adicional dos
imigrantes muçulmanos da região, aceitou oferecer aulas de árabe e religião
islâmica para seus descendentes.
Os estereótipos negativos difundidos pela mídia brasileira, profundamente
influenciada pela americana, afetam os muçulmanos da Liga da Juventude
Islâmica, mas sua situação econômica favorável ameniza, em certa medida, seus
efeitos. A globalização, porém, não traz apenas as consequências negativas do
anti-Muslimism, ela também permite o estreitamento dos laços da diáspora com o
país de origem e demais membros da Ummah, como será demonstrado na próxima
seção.
REDES ISLÂMICAS TRANSNACIONAIS
A Ummah pode ser vista como um ideal religioso ou uma comunidade imaginada, no
sentido empregado por Anderson (apud Allievi,_2003), da mesma forma que o
estado-nação ou uma comunidade étnica qualquer. Porém, ela existe de fato,
reforça Allievi_(2003): a solidariedade interna a eventos como os conflitos na
Chechênia ou na Bósnia são exemplos comprobatórios, para não mencionar a causa
Palestina. A mobilização de recursos, discursos e pessoas mostra a profundidade
destes vínculos, completa o autor.
A globalização possibilitou o estreitamento destes vínculos de forma nunca
vista anteriormente, contrapondo as teorias que viam neste fenômeno o gerador
de uma ocidentalização do resto do mundo, como mostra Stuart Hall: "Pode ser
tentador pensar na identidade na era da globalização como estando destinada a
acabar num lugar ou noutro: ou retornado às suas 'raízes', ou desaparecendo
através da assimilação e da homogeneização. Mas, esse pode ser um falso dilema"
(2005:86).
Os deslocamentos são mais contraditórios do que parecem, e apesar do Ocidente
alimentar em muitos aspectos a globalização, esta pode ser parte de "um lento e
desigual, mas continuado descentramento do Ocidente" (Hall,_2005:97). Allievi
chama a atenção para a mudança das relações entre centro e periferia causada
pela globalização, trazendo à tona um aspecto adicional: a capacidade das
periferias contatarem umas às outras, sem a necessidade da intermediação de um
centro. No caso do Islã europeu, há relações de centro-periferia representadas
pela ligação entre os antigos centros de poder colonizador e as ex-colônias.
Por outro lado, os vínculos dos imigrantes muçulmanos na Europa com o "mundo
islâmico" produzem conexões entre as periferias... Centros de produção de
conhecimento muçulmano, centros simbólicos de oração e o próprio Hajj9 criam
vínculos efetivos das minorias com o "mundo islâmico". Para finalizar, a
evolução tecnológica, com a internet assumindo um papel de destaque, aliada ao
barateamento das passagens, diminuiu as distâncias com o país de origem e o
resto da Ummah.
O primeiro vínculo transnacional onde se encontram os muçulmanos brasileiros
poderia ser apontado como aquele com o país de origem. O vínculo com o Líbano,
país de origem de cerca de 90% dos muçulmanos no Brasil, desempenha seu papel
na reprodução das comunidades muçulmanas no país, do ponto de vista cultural. É
comum a visita de parentes e familiares, assim como a ida dos filhos para lá,
seja para aprender a língua e os costumes com mais eficiência, seja como
estratégia explícita para se arranjar um casamento. Osman_(1998) mostra como o
casamento com um(a) muçulmano(a) vindo(a) do Brasil pode ser visto como uma
grande oportunidade pelos libaneses, devido à prosperidade conquistada pelos
imigrantes no país. Por outro lado, também é visto como uma boa oportunidade
pelas famílias residentes aqui, já que representaria a preservação da cultura
árabe muçulmana no seio da família imigrante.
No caso dos sul-africanos de origem indiana de Campinas, também pude presenciar
estratégias semelhantes, porém, sob diferentes justificativas. Enquanto na Liga
tentam encontrar um cônjuge adequado para filhos(as) enviando-os(as) para o
país de origem com a justificativa de passar um tempo com a família e conhecer
melhor a cultura e a língua dos pais, em Campinas, os muçulmanos sul-africanos
enviam seus filhos(as) para a terra natal com a justificativa de lá realizarem
uma pós-graduação. A "pós-graduação" pode render outros frutos, como o
casamento com um indivíduo pertencente ao mesmo grupo étnico e religioso. Os
diferentes perfis educacionais e ocupacionais das duas comunidades explicam
estas posturas diversas para resolver um mesmo problema: encontrar um cônjuge
adequado que possibilite a manutenção da identidade étnica e religiosa no
contexto minoritário.
O vínculo com o país de origem pode representar também ajuda financeira, no
caso da África do Sul. Como já dito, a construção da mesquita de Campinas teve
início com uma substanciosa doação da comunidade muçulmana indiana daquele
país. O fluxo de capital financeiro no que toca à relação entre Líbano e Brasil
caminha pela direção oposta, com um grande número de contribuições dos bem-
sucedidos imigrantes à terra natal.
A presença de uma comunidade flutuante formada por muçulmanos de passagem pelo
Brasil faz parte do cenário de ambas as mesquitas. Visitas a negócios ou
familiares, além dos próprios trabalhos missionários, trazem estas pessoas para
o Brasil. A visita de grupos religiosos como os tablighs em Campinas, ou
sheikhs e religiosos europeus na Liga faz parte da realidade transnacional
destas comunidades e foi presenciada por mim, no período em que realizei minha
pesquisa de campo. Por outro lado, lideranças religiosas brasileiras são
dirigidas a centros de formação como Al-Azhar no Egito e instituições sauditas.
Lideranças como o sheikh da Liga, por sua vez, fazem referências constantes à
Ummah e ao dever moral dos muçulmanos no Brasil de ajudar seus irmãos de fé em
apuros. Todos os sermões, sem exceção, presenciados por mim no ano de 2006
naquela comunidade, terminavam com um clamor pela proteção "daqueles que lutam
em Seu nome, na Palestina, na Chechênia e no Afeganistão".
No aniversário da Intifada, em fins de março de 2006, o sheikh proferiu um
discurso sobre o dever do muçulmano brasileiro para com os palestinos, fazendo
uma comparação com a solidariedade judaica para com os judeus de Israel ao
redor do mundo:
Judeus promovem expansão a cada 10 anos. O que os muçulmanos no
Brasil têm a ver com isso? Da mesma forma como os judeus se apoiam e
se preocupam com aquele que está longe, os muçulmanos também tem que
fazer o mesmo. O muçulmano que não se preocupa com o grupo não é nada
para os muçulmanos. Por isso, devemos nos preocupar com os palestinos
e os iraquianos. Os judeus em todo o mundo dedicam a féria do dia de
sábado do McDonald's aos judeus de Israel.
Em outro sermão que versava sobre riqueza, boas ações e merecimento, o sheikh
reforçou o dever de ajudar os muçulmanos na Palestina, no Iraque, Afeganistão e
Chechênia, e incentivou a destinação de parte do Zakat10 para os muçulmanos
destes países. Em Campinas, há um apoio moral e político à causa palestina. Ela
faz parte do discurso da comunidade, obviamente, mas não com uma frequência tão
grande quanto à encontrada na Liga.
No mês de setembro de 2004, durante um almoço dominical da comunidade, houve um
discurso proferido em função da visita do candidato do Partido dos
Trabalhadores (PT) ao cargo de prefeito de Campinas. Naquela ocasião, falaram
sobre o apoio à causa palestina pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e PT.
Lembraram de Jamil Murad, deputado de origem árabe, filiado ao PCdoB, que
sempre apoiou a causa palestina. "Tucanos nunca apoiaram", lembrou o líder da
comunidade. Emocionado, afirmou que nunca mais esconderá o que sente e por isso
precisava deixar bem claro que os tucanos nunca fizeram nada pela causa árabe
palestina, razão de estar apoiando abertamente o PT e o PCdoB naquela eleição.
A preocupação com a causa palestina é comum a ambas as comunidades, mas a forma
de exercer este apoio pode assumir feições diferenciadas, compatíveis com o
perfil socioeconômico desenvolvido por cada um destes grupos no país.
A peregrinação a Meca é mais um fator contribuinte para o caráter transnacional
da Ummah. Dever de todo muçulmano "que tem condições financeiras, de saúde e
segurança", o Hajj representa uma das maiores celebrações à Ummah, ocasião em
que fiéis de todo o mundo, "pessoas de todas as raças e países", oram juntas,
"de chineses a africanos". Vínculos transnacionais também são estabelecidos
através dos livros e materiais de divulgação da religião produzidos em diversos
centros religiosos ao redor do mundo, como Arábia Saudita, Egito e Paquistão,
selecionados e distribuídos no Brasil pelo CDIAL e encontrados tanto em
Campinas quanto no Brás.
Para finalizar, cito o estreitamento dos vínculos a partir da internet, não
apenas com os países de origem e as sociedades majoritariamente muçulmanas, mas
também com as minorias no Ocidente como mostra o trecho extraído de um discurso
da Liga: "Nossos irmãos muçulmanos nos EUA disseram em um (web) site que este
ano será o ano do Islã. Precisamos fazer de 2006 o ano em que levaremos
informação correta para os outros".
A NEGOCIAÇÃO DAS IDENTIDADES NO INTERIOR DAS COMUNIDADES MUÇULMANAS BRASILEIRAS
A construção de identidades muçulmanas ocorre ainda em outro nível: no interior
das comunidades muçulmanas brasileiras. As negociações internas a essas
comunidades constituem um importante fator de análise do processo de definição
do que é ser muçulmano ou muçulmana no Brasil. Aspectos étnicos, nacionais e de
gênero interferem neste processo de forma bastante visível.
A recente presença de brasileiros nas mesquitas, que até então eram compostas
fundamentalmente por um grupo étnico que sevêeé visto como árabe, tem sido
sentida por este último como uma ameaça à tentativa de preservação cultural do
grupo. Conflitos ideológicos, tensões e negociações têm feito parte da
realidade de várias destas instituições a partir de então, como já reportado
por Montenegro_(2000), Marques_(2000) e Ramos_(2003).
O Islã nasceu entre os árabes, e no Brasil é seguido fundamentalmente por
imigrantes e descendentes que se identificam com esta etnia, atrelando sua
origem étnica à tradição da religião. Neste contexto, "a identidade redesenhada
e aceita através do comprometimento ao Islã difere dos nascidos muçulmanos
árabes; o brasileiro será muçulmano, comprometido com a religião, porém será
sempre convertido" (Marques,_2001:162). O contato dos convertidos com a
"comunidade árabe" não é contínuo, nem íntimo, sendo permeado por conflitos, o
que também pode provocar uma assimilação deficitária do ethos religioso (Ramos,
2003:186).
Os brasileiros convertidos reconhecem sua "subordinação" atual a uma estrutura
religiosa marcada por aspectos culturais árabes bastante manifestos, mas não
perdem as esperanças de ver a religião islâmica assumir uma face mais
brasileira no país com o aumento do número de conversões. Atacam os árabes e
seus descendentes defendendo uma escolha identitária baseada na "islamização",
em contraposição ao que chamam de "arabismo", uma espécie de viés que
deturparia a verdadeira religião islâmica, tingindo-a com traços culturais que
os desfavorecem.
A teoria dos campos de Bourdieu (apud Ortiz,_1994) nos permite compreender com
mais propriedade o antiarabismo por parte dos detentores de menor capital
social dentro do campo religioso islâmico. Se pensarmos no capital social
dentro deste campo como a herança da tradição religiosa que remonta à fundação
da religião, teremos os árabes como dominantes e os convertidos, sejam eles,
brasileiros, indianos ou qualquer muçulmano não árabe, como dominados11.
As ações dentro do campo não são neutras e os agentes procuram sempre maximizar
seus "lucros". Dessa forma, suas ações, orientadas em função de sua posição no
grupo, pressupõem sempre uma gama de interesses. Ao dividir o campo social em
dominantes e dominados, Bourdieu torna necessário retomar a distinção weberiana
entre ortodoxia e heterodoxia.
As práticas dos atores pertencentes ao polo dominante atêm-se à ortodoxia, já
que pretendem conservar intocado o capital social que conseguiram acumular.
Neste aspecto, a valorização da tradição árabe desempenha seu papel de forma
marcante. Por outro lado, os dominados apegam-se às práticas heterodoxas que
visam desacreditar os detentores de um capital considerado legítimo. Procuram
manifestar seu inconformismo através de estratégias de subversão, confrontando-
se de maneira permanente com a ortodoxia. Tais estratégias, porém, não
contestam fundamentalmente os princípios que regem a estruturação do campo. Os
convertidos clamam uma superioridade moral sobre os árabes, porém, a partir de
um argumento retirado da própria religião islâmica, segundo o qual a fé seria o
único diferencial aceitável entre os homens.
A reação de antiarabismo apresentada pelos convertidos brasileiros na Liga pôde
ser vista de forma semelhante entre os imigrantes de origem indiana em
Campinas. Ouvi de diversos imigrantes e descendentes sul-africanos de origem
indiana o argumento de que os árabes fundaram a religião, mas os indianos são
os mais fiéis seguidores do Islã. A ideia da superioridade dos indianos perante
aos árabes no que toca ao seguimento correto da religião é um argumento que faz
parte do "senso comum" dos indianos muçulmanos mundo afora. Pode-se pensar nos
indianos muçulmanos como convertidos, partindo-se do estamento de Naipaul,
segundo o qual "todo muçulmano de origem não árabe é um convertido", devido às
desvantagens simbólicas e culturais advindas da ausência de um background
árabe. Mas ainda que haja disputas entre diferentes grupos étnico-nacionais
abarcados pelo Islã (árabes, brasileiros, indianos etc.), quando este é
atacado, é defendido por todos os outros, garantindo a existência do campo.
Além dos conflitos entre árabes e convertidos de ascendência não árabe
(brasileiros ou indianos) no interior das comunidades muçulmanas, foi possível
constatar disputas entre homens e mulheres pela definição de como devem agir e
pensar muçulmanos e muçulmanas no Brasil. A questão da relação entre gêneros
nas sociedades e comunidades muçulmanas é extremamente complexa e profundamente
marcada por batalhas ideológicas e políticas. Uma análise da construção da
identidade muçulmana feminina no Brasil, país dependente dos EUA e detentor da
maior comunidade muçulmana da América Latina, precisa estar atenta ao que se
encontra em jogo neste contexto. O Islã vem sendo alvo de um processo de
"demonização" de toda uma religião e seu conjunto de fiéis, onde uma das
principais estratégias empregadas visando a sua deslegitimação refere-se
justamente à imposição do rótulo de "opressor de mulheres".
As mulheres muçulmanas no país definem sua identidade em resposta à imagem
difundida pela mídia brasileira, extremamente influenciada pela mídia norte-
americana, ao mesmo tempo em que enfrentam o patriarcalismo12 no interior das
comunidades étnico-religiosas. A construção da identidade muçulmana destas
mulheres é, portanto, realizada em resposta à mídia e em negociação com a
parcela masculina de sua própria comunidade religiosa, defendendo perante esta
o direito a um maior poder e respeito a partir da própria religião e suas leis
ou, ainda, através de uma relativização da tradição. Por exemplo, a líder do
departamento feminino da Liga reafirmou a importância do estudo para as
mulheres apoiando-se no exemplo do profeta Muhammad: "se não fosse necessário
que as mulheres aprendessem, o profeta não teria ensinado suas esposas". Em
outra ocasião, contrapôs-se ao argumento de um sheikh estrangeiro que visitava
a comunidade, quando este afirmou que a oração feminina tem mais valor quando
feita em casa, em uma tentativa de evitar a ida das mulheres até a mesquita. A
jovem rebateu o argumento relativizando esta crença ao alegar que no Brasil é
vital que as mulheres frequentem a mesquita "como forma de conhecimento", já
que os muçulmanos representam uma minoria religiosa e, portanto, não há tantas
possibilidades de socialização na sua cultura.
O discurso oficial das jovens lideranças masculinas da Liga, no que se refere à
mulher muçulmana e à relação entre gêneros, é marcado pelo rigor e
perfeccionismo moral e religioso, com poucas e pequenas concessões ao contexto
local. Em Campinas, o discurso das lideranças masculinas já é mais flexível.
Enquanto na Liga os líderes alegam que a mulher tem o direito de estudar e
trabalhar, desde que isso não atrapalhe suas obrigações para com a casa e a
família, em Campinas, os líderes chamam atenção para o dever de homens e
mulheres buscarem o conhecimento. O diploma de ensino superior é um objetivo
comum para rapazes e moças daquela comunidade. Em Campinas, as mulheres casam-
se mais tarde e recebem um investimento maior em sua educação em comparação ao
que acontece na Liga. Porém, o papel de provedor da família ainda é visto por
elas como inerentemente masculino, mesmo quando poderiam desempenhar esta
tarefa como mulheres educadas e empregadas que são.
Por fim, convém citar a questão do hijab. Enquanto seu uso é fortemente
recomendado pelas lideranças da Liga, para demonstrar modéstia e preservar a
castidade, em Campinas ele é descrito como "meio de preservação da identidade
muçulmana em contextos de perseguição política", "forma de se adaptar ao
clima", no caso da Arábia Saudita, ou ainda, "roupa de oração", isto é,
vestimenta a ser utilizada para cobrir o corpo e o cabelo no momento da oração.
Os discursos das lideranças destas comunidades são bastante diferenciados.
Primeiro, pela não obrigatoriedade do véu em Campinas e o esforço de enfatizar
seu uso na Liga. Segundo, pelo "perfeccionismo religioso e moral" da Liga em
contraposição aos argumentos baseados em critérios culturais, políticos e até
mesmo climáticos em Campinas.
A prática cotidiana, porém, no que toca à vestimenta islâmica e aos papéis
sociais atribuídos às mulheres, mostra que, apesar do rigor eventual do
discurso das lideranças da Liga, há um processo de individualização da
religiosidade muçulmana, onde os fiéis negociam de forma relativamente autônoma
com a sociedade hospedeira a prática de certos aspectos comportamentais. Por
fim, é importante salientar que grau de instrução, grupo étnico, faixa etária e
classe social desempenham seu papel neste processo de construção identitária
trazendo nuances que podem aproximar ou afastar estas mulheres no que toca a
sua concepção de como deve pensar e agir uma mulher muçulmana no Brasil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao dedicar-me ao estudo da construção de identidades muçulmanas no Brasil, tive
como intuito demonstrar, desde o princípio, a diversidade de valores, crenças e
concepções abrangidas pelo termo "muçulmano". O Islã, apesar de apresentado
pela mídia e academia orientalistas como um bloco monolítico, constitui uma
religião tão diversa e complexa quanto o Cristianismo. Considero os casos
explorados neste artigo, a Liga da Juventude Islâmica e o Centro Islâmico de
Campinas, exemplos privilegiados de análise por construírem identidades
muçulmanas tão diversas em resposta ao contexto hospedeiro brasileiro. Vejo
seus diferentes perfis étnicos, ocupacionais, de liderança e distribuição
espacial como a chave para se compreender esta diversidade de interpretações
sobre o que é ser muçulmano(a) no Brasil de hoje.
Apesar da doutrina islâmica não pregar a discriminação de raça e/ou etnia, não
se pode negar a vantagem real que a origem árabe confere a um(a) muçulmano(a).
Como já mencionado, este grupo étnico possui um vínculo com a tradição de
fundação da religião que um muçulmano sem ascendência árabe jamais terá. A
visão do árabe como o idioma da revelação divina traz dificuldades práticas
bastante expressivas para o convertido, uma vez que a realização das orações e
a leitura do Alcorão devem ser feitas nesta língua. A reação ao arabismo
permeia o discurso dos convertidos, chegando a promover, inclusive, o
desligamento de alguns indivíduos de comunidades religiosas fundadas por
árabes, visando a criação de um lócus para a vivência de uma religiosidade mais
"islamizada" e menos sujeita a "influências culturais"13.
Quanto ao impacto do tipo de ocupação sobre a construção de identidades
muçulmanas nas duas comunidades, convém dizer que ele se dá não tanto devido à
influência do ethos desenvolvido em cada ambiente laboral14, mas,
principalmente, devido ao grau de contato com a sociedade hospedeira
possibilitado por cada tipo de atividade econômica. Segundo Roald (2001), as
interpretações de questões sociais a partir de fontes islâmicas são claramente
afetadas pela interação com as estruturas sociais ao redor, atentando para
alguns fatores como tempo de permanência no país hospedeiro, grau de contato
com a sociedade mais ampla, classe social, modelos educacionais e, por fim,
disposição pessoal.
Aquestão do contato é exemplificada por Roald através do caso dos subúrbios
suecos habitados, em sua maioria, por muçulmanos. Nestes locais, atitudes
tradicionalistas referentes às mulheres e à vida em família, por exemplo, são
reproduzidas a despeito do tempo de permanência no país e do novo contexto
cultural. A maior rigidez e "perfeccionismo moral" (usando as palavras de
Geertz) encontrados na comunidade da Liga da Juventude Islâmica (não apenas no
que toca à questão de gênero) podem ser pensados a partir das variáveis tempo
de permanência e contato com a sociedade mais ampla, acrescidas da questão das
lideranças.
A Liga é uma comunidade formada por imigrantes recentes, beirando à
homogeneidade étnica, concentrados em um único bairro e apresentando um contato
superficial com os brasileiros através do comércio. Já o Centro Islâmico de
Campinas tem seus membros vivendo dispersos pela cidade, trabalhando de forma
relativamente independente através do exercício de atividades educacionais,
ocupação que requer um longo e intenso contato com os brasileiros. A maior
flexibilidade do discurso dos muçulmanos campineiros explica-se, em parte, não
exatamente pelo seu maior capital cultural, mas, principalmente, pelo maior
contato com a sociedade mais ampla e seus valores de influência ocidental, como
a igualdade entre os gêneros.
A isto, alia-se o fato da mesquita de Campinas ter ficado um bom tempo sem
contar com um sheikh15 estrangeiro, o que ajudou a surgir, naquela comunidade,
uma visão religiosa mais flexível e menos conservadora por parte das
lideranças. Durante minha pesquisa de campo, percebi que o indivíduo mais
influente da comunidade de Campinas era um professor universitário de grande
prestígio acadêmico, porém sem formação teológica formal, um perfil de
liderança bastante diferente do encontrado na Liga, comunidade tradicionalmente
guiada por sheikhs estrangeiros formados em grandes centros teológicos como Al-
Azhar, no Egito, além da própria Arábia Saudita. Concluo este artigo, portanto,
chamando a atenção para o impacto que a formação destes líderes pode exercer
sobre a seleção e interpretação das fontes islâmicas, processo que, ao fim,
afeta a construção de identidades muçulmanas no Brasil.
*Contei com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (Capes) para a realização do meu doutorado em Ciências Sociais,
concluído em 2007 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sobre o qual
este artigo se baseia. A Capes também me possibilitou a realização de um
estágio de doutorado-sanduíche no International Institute for the Study of
Islamin the Modern World, em Leiden, Holanda.
1Agrego a estes fatores informações sobre as lideranças de cada comunidade, uma
vez que elas também contribuem para a conformação dos produtos identitários em
questão.
2Conceito nativo que designa a "comunidade islâmica mundial", isto é, o
conjunto de indivíduos que se consideram muçulmanos ao redor do mundo.
3É importante salientar que as esferas internacionais e locais não se encontram
disso ciadas de forma alguma, assim como questões de classe, gênero, etnia...
Fiz tais divisões apenas para facilitar a apresentação dos dados.
4Até o final da Primeira Guerra Mundial, o termo Grande Síria englobava o
Líbano em suas fronteiras.
5Outros grupos de imigrantes também chegaram ao Brasil sem capital, mas não se
tornaram mascates, entretanto.
6Aula ministrada em maio de 2006.
7Nome dado por Halliday (apud Shadid_e_Koningsveld,_2002:176) ao processo em
que racismo, xenofobia e estereótipos caracterizam a visão ocidental do Islã.
8Utilizo tal termo baseando-me no conceito de "Orientalismo" formulado por
Edward_Said_(1990) para definir todo um modo de pensar e produzir conhecimento
que criou a imagem de um Oriente dependente e incapaz de modo a legitimar a
exploração destes países pelos impérios francês e inglês, numa primeira fase, e
pelos americanos, ao fim.
9Peregrinação a Meca.
10O Zakat constitui a doação de 2,5% dos lucros anuais dos muçulmanos aos mais
pobres. Representa um dos cinco pilares da religião islâmica, sendo os demais:
1) a shahada, declaração de que só existe um Deus e Muhammad é seu mensageiro;
2) as cinco orações diárias; 3) o jejum durante o mês do Ramadã, significando a
abstenção de comida, bebida e relações sexuais, do nascer ao pôr do sol; e por
fim, 4) o Hajj, a peregrinação a Meca, obrigatória a todo muçulmano e muçulmana
com condições físicas e financeiras.
11Utilizo a visão de Bourdieu da polaridade entre dominantes e dominados na
análise das disputas realizadas entre diferentes grupos étnicos pela construção
da "identidade muçulmana" devido à vantagem cultural dos árabes oriunda de seu
vínculo com a tradição de fundação da religião e a importância religiosa da
língua árabe, seja como idioma da revelação divina, seja como a língua usada
obrigatoriamente nas orações. A isso, soma-se a questão da territorialidade,
representada pela presença dos lugares sacros na Arábia Saudita. Todos estes
fatores conferem uma vantagem real aos árabes emrelação a qualquer muçulmano de
origem não árabe. Desta forma, a polaridade entre dominantes e dominados,
proposta por Bourdieu, apresenta-se commais veemência neste campo. A própria
ênfase dos muçulmanos brasileiros e indianos, por exemplo, na ideia de que eles
são "os mais fiéis seguidores do Islã", mostra a reação a esta
desvantagemcultural emrelação aos árabes. No caso das disputas entre gêneros,
porém, é possível pensar no poder como algomenos polarizado. Desta forma,
utilizaria a concepção de poder de Foucault_(1997) para analisar a disputa
entre homens e mulheres pela construção da identidade muçulmana.
12Durante a condução da minha pesquisa de campo, ouvi de convertidas
brasileiras e indianas o argumento de que a dominação masculina seria uma
consequência cultural árabe. Da líder do departamento feminino da Liga, uma
imigrante libanesa de segunda geração, ouvi que os abusos a que são sujeitas as
mulheres muçulmanas são oriundos da forma equivocada como a religião vem sendo
praticada, além da educação oriental a que são submetidas estas moças, educação
que pregaria a submissão e a dependência femininas. Para mais detalhes sobre a
visão dasmuçulmanas no Brasil a respeito da dominação feminina no Islã,
consultar Castro_(2008).
13Pode-se apontar como exemplos a sala de orações criada por convertidos
brasileiros no centro de Belo Horizonte e a Comunidade Bilal al Habashi,
fundada na cidade de São Paulo por muçulmanos africanos e brasileiros ligados
ao movimento negro. Segundo informantes, alguns convertidos deixaram a Liga
para integrar esta comunidade.
14Apesar deste não ser desprezível de forma alguma. A ausência de críticas ao
consumismo na Liga da Juventude Islâmica é coerente com o perfil de seus
membros: comerciantes de roupas. A valorização, em Campinas, do conhecimento em
todas as suas formas, não apenas a teológica, também é compatível com o perfil
de uma comunidade formada em grande medida por pesquisadores e educadores de
diversas áreas, liderados naquele momento por um acadêmico sem formação
teológica tradicional.
15Na ausência de sheikhs com uma formação religiosa formal, obtida em centros
de educação religiosa oficiais, escolhe-se como líder(es), o(s) indivíduo(s)
que apresenta(m) maior conhecimento da religião, além de reputação ilibada.