O Relatório Meltzer de 2000 e a reforma do Banco Mundial e do FMI
Debe incluirse como parte del sistema estadounidense la red global de
organizaciones especializadas, particularmente las instituciones financieras
internacionales. El Fondo Monetario Internacional (FMI) y el Banco Mundial se
consideran representantes de los intereses globales y de circunscripción
global. En realidad, empero, son instituciones fuertemente dominadas por los
Estados Unidos y sus orígenes se remontan a iniciativas estadounidenses.
Zbigniew Brzezinski (1998, 36'37)
Los expertos del FMI y del Banco Mundial parecen tener todos los atributos de
una autoridad internacional, pero no obstante abrigan ciertas dudas respecto al
tipo de poder con el que cuentan. Dentro del ámbito de Washington, ellos ocupan
una posición paradójica. Por una parte se encuentran cerca de los lugares en
donde las decisiones cruciales son tomadas, pero, por otra, la dita proximidad
sólo resalta su propia falta de autonomía en los juegos de poder sobre los que
tienen un controle precario.
Yves Dezalay e Bryant Garth (2005, 137)
Introdução
Desde meados dos anos 1990 a eclosão de crises financeiras alimenta o debate
sobre a reforma das instituições financeiras internacionais (IFIs) ' em
particular, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em pauta
estão desde a revisão da representação dos Estados nessas instituições até o
papel que elas deveriam ou poderiam cumprir na economia mundial do início do
século 21, marcada por uma alta volatilidade e pela discrepância aguda entre a
magnitude das massas de capital transacionadas diariamente nos mercados
financeiros e o tamanho da carteira de empréstimos das instituições de Bretton
Woods.
Com a crise econômica deflagrada em 2008 nos Estados Unidos e logo disseminada
para outras regiões não foi diferente. Àquela altura, parte do establishment
oficial e privado americano e diversos analistas da academia e da imprensa de
negócios dos Estados Unidos afirmavam que o Banco Mundial e o FMI atravessavam
a maior crise de relevância da sua história. A recessão das maiores economias
do mundo (Estados Unidos, Japão e zona do euro), o avanço e a disseminação da
crise e o retorno do nacionalismo econômico em alguns países, porém, obrigaram
as grandes potências ' a começar pelos Estados Unidos ' a se mobilizarem.
Rapidamente, o tema da irrelevância do Banco Mundial e do FMI foi posto de lado
em nome da necessidade do seu fortalecimento como instrumentos de gestão da
crise. Resultado: o FMI nunca emprestou tanto e tão rapidamente como na segunda
metade de 2008, enquanto os compromissos financeiros do Banco Mundial saltaram
de US$ 24,7 bilhões em 2008 para US$ 58,7 bilhões em 2010.
Nesse contexto, vale a pena revisitar um dos episódios relativos à reforma do
FMI e do Banco Mundial mais contundentes da história: o trabalho da Comissão
Consultiva sobre Instituições Financeiras Internacionais do Congresso americano
entre 1998'2000 e seus desdobramentos imediatos.
O Relatório Meltzer
No calor da crise financeira que varreu grande parte da Ásia oriental, a
controvérsia sobre o papel das IFIs ganhou nova dimensão. Em novembro de 1998,
o Congresso americano aprovou a liberação de fundos adicionais ao FMI da ordem
de US$ 18 bilhões, com o objetivo de fazer frente à tormenta. Porém, a oposição
conservadora exigiu a designação de uma Comissão Consultiva sobre Instituições
Financeiras Internacionais para analisar, em seis meses, sete instituições
importantes e recomendar mudanças. A presidência da comissão ficou a cargo do
republicano Allan Meltzer e foi composta por outros 10 especialistas (5
indicados pelos republicanos e 5 pelos democratas) provenientes dos meios
financeiro, político e acadêmico dos EUA, como mostra a Tabela_1. O trabalho
centrou-se no FMI, no Banco Mundial[1] e nos três bancos regionais de
desenvolvimento ' Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco de
Desenvolvimento Africano (BAfD) e Banco de Desenvolvimento Asiático (BAD) ',
deixando em segundo plano a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco de
Compensações Internacionais ' Bank for International Settlements (BIS). A
partir de dados fornecidos pelas próprias instituições, especialmente pelos
bancos, a comissão concluiu o relatório final em fevereiro de 2000. O impacto
do Relatório Meltzer ' como ficou conhecido ' sobre as instituições gêmeas de
Bretton Woods, em particular sobre o Banco Mundial, foi devastador.

A Comissão aprovou uma breve resolução por unanimidade e o informe final por 8
votos contra 3. Votaram a favor todos os republicanos e parte dos democratas '
Fred Bergsten, Jerome Levinson e Esteban E. Torres. A resolução afirmou dois
pontos: primeiro, o FMI, o Banco Mundial e os três bancos regionais deveriam
cancelar a dívida dos países pobres altamente endividados que implementassem
uma estratégia de desenvolvimento econômico e social eficaz, em conexão com o
Banco Mundial e as instituições de desenvolvimento regional; segundo, o FMI
deveria concentrar a sua carteira na provisão de liquidez em curto prazo,
abandonando a concessão de empréstimos de longo prazo para programas de redução
da pobreza e outros fins (Meltzer et al. 2000, 18). Em outras palavras,
recomendava-se, por um lado, o cancelamento da dívida multilateral dos países
mais pobres à execução das reformas macroeconômicas e institucionais apregoadas
pelas instituições de Bretton Woods e sob a sua supervisão; por outro lado,
pregava-se o enxugamento do papel do FMI à condição de bombeiro do sistema
financeiro internacional, reduzindo-se a abrangência da sua atuação ' ainda
que, por outro viés, se reforçasse a importância do Fundo no âmbito da promoção
de programas de ajustamento estrutural.
O Relatório Meltzer teceu críticas bastante duras às IFIs e propôs a reforma
ampla de cada uma, sobretudo do Banco Mundial, bem como uma nova divisão de
trabalho entre elas. A rigor, parte das críticas reiterou questionamentos já
desferidos por think tanks liberal-conservadores como o Cato Institute e a
Heritage Foundation (Eberstadt e Lewis 1995; Bandow e Vásquez 1994) e por
organizações não governamentais ambientalistas e de defesa dos direitos humanos
em campanhas como 50 Years is Enough (50 Anos Bastam) (Danaher 1994). Todavia,
como um todo, o Relatório propiciou elementos novos ao debate sobre o presente
e o futuro das organizações gêmeas de Bretton Woods.
O Relatório partiu de três ideias-chave. A primeira era a redução drástica da
importância das IFIs como provedoras de fundos para mercados emergentes diante
do agigantamento dos fundos provenientes dos mercados de capital, embora alguns
países pobres continuassem altamente dependentes do dinheiro das IFIs. A
segunda era a perda da importância política estratégica dos empréstimos
multilaterais após o fim da Guerra Fria. A terceira, a reforma das IFIs como
medida vital para a manutenção da liderança dos EUA no plano internacional.
Em linhas gerais, segundo o Relatório, os problemas mais importantes das IFIs
seriam: a) a superposição considerável de ações entre o Banco Mundial e o FMI,
e entre o primeiro e os demais bancos regionais de desenvolvimento; b) a
amplitude excessiva do seu âmbito de atuação; c) a falta de transparência e
responsabilização (accountability) das suas operações; d) a impossibilidade de
evitar o aumento da frequência e da intensidade das crises financeiras
internacionais; e) o confisco de recursos internacionais para cumprir objetivos
definidos pelo governo dos EUA ou pelo Tesouro americano; f) a incapacidade de
desenvolver programas regionais e globais bem-sucedidos para fazer frente a
problemas transnacionais em áreas como meio ambiente e saúde pública, entre
outras; g) o uso excessivo de empréstimos condicionados e a imposição de
múltiplas condicionalidades; h) a incapacidade de fazer com que os tomadores de
crédito cumprissem os compromissos acordados; i) a reticência em reduzir os
empréstimos aos países que não cumpriam com suas obrigações (Meltzer et al.
2000, 31).
O Relatório criticou a atuação do FMI nas crises financeiras do México (1982 e
1994'1995), do leste da Ásia (1997'1998) e da Rússia (1998'1999), afirmando que
a assistência prestada pelo Fundo não as preveniu nem as tratou do modo mais
eficaz. Conclusão: as intervenções do FMI (tanto a assistência estrutural a
longo prazo como o controle das crises a curto prazo) não estão associadas, em
geral, com nenhum benefício econômico claro para os países receptores (ibid.,
45). O Relatório reconheceu que os governos do G7, particularmente o dos EUA,
usam o FMI como um veículo para lograr fins políticos próprios, e afirmou que
a instrumentalização do Fundo pelo Poder Executivo perturba o processo
democrático dos países credores ao eludir a autoridade parlamentar sobre a
ajuda externa ou a política exterior (ibid.).
Como solução, o Relatório propôs a reestruturação do FMI como uma instituição
mais enxuta voltada para três únicas funções, as quais, se levadas a cabo
corretamente, incrementariam a estabilidade global, melhorariam o
funcionamento dos mercados e ajudariam os países a melhorar suas políticas
monetárias e fiscais internas (ibid., 47). A primeira função seria a de evitar
crises financeiras e a sua propagação, provendo liquidez a economias emergentes
solventes. Nesse sentido, o FMI passaria a atuar como quase-emprestador de
última instância, e não em primeira instância, a fim de ' segundo o Relatório
' minimizar o risco moral (moral hazard), isto é, a certeza de que, na hora de
o mercado cobrar o seu preço, a instituição e o Estado salvarão os grandes
investidores de um modo ou de outro. Para terem acesso à assistência financeira
do FMI, os países teriam de cumprir um conjunto de condições consideradas
relativamente fáceis de monitorar e de pôr em prática ' como a abertura do
mercado doméstico aos bancos estrangeiros, ajuste fiscal rigoroso e controle
inflacionário ', e não mais um rol extenso de mudanças estruturais,
institucionais e financeiras, como vinha ocorrendo. Os países pré-qualificados
pelo FMI teriam condições melhores de obter acesso a empréstimos privados em
termos mais favoráveis. Os países não qualificados só receberiam assistência
financeira se implementassem reformas estruturais, cuja supervisão ficaria a
cargo do Banco Mundial, dos bancos regionais e do próprio mercado. A segunda
função do FMI seria, precisamente, a de recolher, publicar e disseminar
informação financeira e econômica sobre os países-membros, a fim de orientar os
investidores privados sobre o seu desempenho econômico. Por fim, a terceira
função seria a de proporcionar assessoramento (porém não impor condições) com
relação à política econômica dos países-membros (ibid., 48).
No que diz respeito ao Banco Mundial e aos três bancos multilaterais regionais,
o Relatório constatou altos custos e baixa efetividade na redução da pobreza e
no fomento às reformas institucionais. As causas de tal desempenho, segundo o
informe, radicavam no fato de que: a) a maior parte dos recursos do Banco fluía
para alguns poucos países que já tinham acesso a capitais privados; b) a
quantidade de fundos que os bancos multilaterais proviam aos seus principais
tomadores de empréstimos era ínfima, quando comparada aos recursos obtidos nos
mercados financeiros; c) a garantia dada pelo governo receptor ' requisito para
todos os empréstimos do Banco ' eliminava na prática qualquer conexão entre o
fracasso do projeto e o risco de perda do Banco; d) a fungibilidade do dinheiro
dificultava ou mesmo impossibilitava o monitoramento do uso adequado dos
recursos emprestados; e) os Estados não implementavam reformas impostas por
terceiros ' no caso, por organismos multilaterais; f) projetos de
desenvolvimento só tinham êxito se o país receptor tivesse interesse
significativo no projeto e canalizasse esforços para viabilizá-lo (ibid.,
29'30).
A partir de dados fornecidos pelo próprio Banco Mundial, o relatório mostrou
que, entre 1993 e 1999, 70% dos empréstimos do Banco Mundial ' cerca de US$ 13
bilhões ' haviam sido destinados a apenas 11 países, todos com acesso amplo aos
mercados de capitais. Tais cifras serviam para demonstrar, segundo o Relatório,
a contradição entre o discurso em prol da redução da pobreza absoluta defendido
pela instituição e a destinação efetiva da sua carteira. Por outro lado, o fato
de que a soma emprestada aos 11 maiores tomadores representasse somente o
equivalente a 1,4% dos US$ 880 bilhões providos por fontes privadas foi tomado
como ilustração inapelável da pouca relevância do Banco como emprestador
(ibid., 63). O informe não poupou palavras para diagnosticar a mudança radical
do contexto internacional e a necessidade de readequação imediata do Banco
Mundial e dos três bancos regionais:
Com o fim da guerra fria, os empréstimos como um movimento
estratégico saíram de moda. A necessidade de comprometer grandes
quantidades de capitais para a contenção terminou. Uma nova geração
de líderes nos setores público e privado nas nações em
desenvolvimento, educados nas universidades do Ocidente, converteram-
se em sofisticados criadores de políticas (...). Os países abriram
seus mercados; o comércio internacional floresceu e o capital humano,
tecnológico e financeiro se movia mais facilmente. O que é mais
importante, a explosão dos mercados financeiros, tanto em alcance
como em desejo de assumir riscos, desafiou a vantagem comparativa dos
Bancos [multilaterais] na transferência de recursos. (...). Os Bancos
devem aceitar que não são mais uma fonte significativa de fundos para
o mundo emergente, e que não podem prover mais do que uma pequena
fração do que os mercados oferecem (ibid., 60).
Além de mostrar que a destinação dos recursos do Banco Mundial não visava aos
países mais pobres, o Relatório apontou que a qualidade técnica dos projetos e
programas financiados ' avaliada segundo a relação entre objetivos e resultados
' havia sido muito baixa durante o período 1990'1999, segundo os critérios do
próprio Banco. Levando em conta o desempenho da instituição na África, no sul e
no leste da Ásia e na América Latina, chegou-se à conclusão de que, como médias
gerais, 47% dos empréstimos para ajustamento (estrutural e setorial) e 59% dos
empréstimos para projetos fracassaram em obter resultados satisfatórios em
longo prazo (ibid., 75). No continente africano ' justamente onde o Banco
deveria, em tese, mostrar a sua vantagem comparativa na redução da pobreza ', o
percentual de fracasso chegou a 73%.
O Relatório destacou, ainda, a superposição considerável de empréstimos do
Banco Mundial e dos bancos regionais. A Tabela_2 ilustra essa superposição,
particularmente alta em casos como Coreia, Indonésia e China na Ásia,
Argentina, Brasil e México na América Latina e Marrocos, Argélia e Tunísia na
África. Tal situação resultaria na perda de eficiência no uso de recursos e
numa competição desnecessária por clientes e projetos (ibid., 65).
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Para modificar tal quadro, o Relatório propôs uma reforma ampla do Banco
Mundial, dos bancos regionais e da divisão de trabalho entre eles. Em relação
ao Banco Mundial, recomendou-se a redução significativa do seu papel de
emprestador internacional. Todos os seus programas nacionais e regionais na
América Latina e na Ásia passariam para os respectivos bancos regionais. Na
África, o Banco permaneceria como a principal fonte multilateral de crédito,
até que o BAfD tivesse condições operacionais de assumir esse papel. Uma parte
do seu capital passaria aos bancos regionais e a outra seria reduzida de acordo
com a diminuição da sua carteira de empréstimos. Seu nome mudaria para Agência
de Desenvolvimento Mundial e a sua atuação junto ao setor privado limitar-se-ia
à provisão de assistência técnica e à disseminação de boas práticas.
Empréstimos seriam cancelados. Mudanças na mesma direção ocorreriam nos bancos
regionais, de tal maneira que, no conjunto, os mesmos concentrariam a sua
atuação apenas nos 80 ou 90 países mais pobres, sem acesso aos mercados de
capitais. Embora o Relatório admitisse que o desvio de recursos do Banco
Mundial e dos demais bancos multilaterais para o socorro às crises financeiras
tenha sido um meio pelo qual os maiores acionistas ' com destaque para os EUA '
executaram suas políticas internacionais sem se submeter ao processo
orçamentário e legislativo, propôs-se que esse papel deveria caber, dali em
diante, apenas ao FMI.
Segundo o Relatório, o Banco tinha crescido tanto e ocupava-se de tantas áreas
que teria perdido eficiência no gasto dos recursos e eficácia nos resultados,
razão pela qual seria preciso reduzir com urgência o seu tamanho e o seu âmbito
de atuação. Ou seja, o Relatório criticava o Banco por fazer coisas demais e
mal e propunha que o mesmo fizesse poucas coisas e bem; ironicamente, a mesma
crítica que o Banco Mundial fazia genericamente ao Estado em inúmeras
publicações (Banco Mundial 1991, 1996, 1996a, 1997; Burki e Perry 1998). Uma
vez reformado, ele se concentraria em apenas duas funções. A primeira seria a
produção de bens públicos globais, como tratamentos melhorados para
enfermidades tropicais e a AIDS, uma proteção racional dos recursos ambientais,
sistemas de infraestrutura entre países, o desenvolvimento de tecnologia para a
agricultura tropical e a criação de melhores práticas gerenciais e
regulatórias (ibid., 84).
A segunda, mais estratégica, seria o fornecimento de assistência técnica a
governos e bancos regionais direcionada à criação de sistemas legais que
apoiassem direitos de propriedade claramente definidos, regimes fiscais e
administrações públicas transparentes, políticas que promovessem o livre fluxo
de bens e capital ao longo prazo e normas de governança corporativas (ibid.,
85). Curiosamente, a educação não foi mencionada.
Em outras palavras, o novo Banco Mundial deixaria de atuar como prestamista e
reforçaria o seu papel político e intelectual como promotor das reformas
institucionais necessárias à realização da liberalização econômica. Nos países
com acesso ao mercado de capitais, a carteira dos bancos passaria ao setor
privado, desde que os Estados receptores dessem as mesmas garantias que davam
aos bancos. De acordo com o Relatório, mesmo projetos comumente não financiados
pelos mercados de capitais (como nas áreas de infraestrutura, desenvolvimento
rural, etc.) estariam agora na sua órbita de valorização, uma vez isentos de
riscos pelo Estado. Literalmente: O setor privado está preparado para
financiar projetos socialmente desejáveis com um fluxo de caixa limitado, se o
governo garante pagar a dívida, como o faz quando os países pedem empréstimos
dos bancos de desenvolvimento (ibid., 61).
Já nos 1980 ou 1990, países tidos como verdadeiramente pobres (isto é, sem
acesso aos mercados de capitais), o Banco Mundial e os bancos regionais
continuariam financiando o aliviamento da pobreza focado na provisão de
recursos para projetos de saúde pública, educação primária e infraestrutura
física, porém ' eis a grande novidade ' não mais por meio de empréstimos e sim
de subvenções pagas diretamente aos projetos, com base no seu desempenho. As
subvenções seriam outorgadas por licitações competitivas, cobririam de 10% a
90% dos custos dos projetos (dependendo do acesso aos mercados de capitais e da
renda per capita) e seriam pagas diretamente aos provedores dos serviços
(fossem eles nacionais ou estrangeiros), e não aos governos. Caberia ao Estado,
mediante a assistência técnica dos bancos multilaterais, cobrir o restante dos
custos dos projetos e atenuar/responder por eventuais riscos políticos
(descumprimento de contratos, adulteração das regras do jogo, etc.). Os
provedores poderiam ser organizações não governamentais (ONGs), empresas
privadas ou agências públicas. A quantidade e a qualidade do desempenho seriam
fiscalizadas por auditores externos (firmas especializadas). Tal enfoque
situaria a ajuda externa no plano visível do mercado não apenas por rebaixar
custos, mas por fixar metas e garantir a destinação correta dos fundos. Tal
enfoque de aliviamento da pobreza estaria aberto também a doadores bilaterais.
O esquema funcionaria da seguinte maneira:
Um país com renda de US$ 1.000 per capita que se qualifica para uma
subvenção de 70% decide que a vacinação de suas crianças contra o
sarampo é uma meta desejável. Se a agência de desenvolvimento [isto
é, o Banco Mundial ou um dos bancos regionais] confirma essa
necessidade, o governo solicitaria ofertas competitivas de provedores
do setor privado, organizações não governamentais, tais como
instituições de caridade, e entidades do setor público ou o
Ministério da Saúde. Supondo que a oferta qualificada mais baixa
fosse de US$ 5 por criança vacinada, a agência de desenvolvimento
acordaria pagar US$ 3,5 (70%) por cada vacina, diretamente ao
provedor. O governo seria responsável pelo US$ 1,5 restante da tarifa
(30%). Os pagamentos seriam feitos somente após a certificação de um
agente independente. (Meltzer et al. 2000, 81).
De acordo com o Relatório, um sistema desse tipo teria uma dupla vantagem de
manter os preços relativos dos insumos necessários à prestação do serviço e
condicionar os pagamentos aos resultados. Para o provedor ' especializado
naquela atividade ' haveria a certeza de lucro. A corrupção seria
desestimulada, pois os pagamentos seriam efetuados diretamente aos provedores e
teriam como base critérios de mercado. O mesmo sistema teria o potencial de se
estender além dos projetos nacionais, para programas regionais, onde a
cooperação entre os governos participantes daria escala maior às economias
(ibid., 81).
Além desse novo modelo de assistência externa para o aliviamento da pobreza, o
Relatório (ibid., 82'83) propôs também que o Banco Mundial e os bancos
regionais concedessem empréstimos, com percentuais variáveis de subsídio sobre
os juros, aos países mais pobres, com o objetivo de fomentar a realização de
reformas institucionais ou apoiar a sua sustentação. O desempenho do programa
de reformas seria avaliado por auditores independentes, e quanto mais eficiente
fosse a sua implementação, mais favoráveis seriam as condições de pagamento dos
empréstimos.
Uma das condições que permitiria aos EUA insistir em um novo modelo de
assistência externa condicionado estritamente ao desempenho e aos resultados
seria, segundo o Relatório, o fim da Guerra Fria. Desde 1989, não haveria mais
qualquer razão fundamental para assistir a regimes corruptos e instáveis que
tiveram alguma vez importância estratégica (ibid., 57). Daí a necessidade de
reforma das IFIs para assegurar que cada dólar (...) leve consigo o incentivo
de estimular o desempenho e alcançar resultados que possam ser monitorados
(ibid., 58).
A reforma das IFIs na direção proposta pelo Relatório serviria à manutenção da
liderança dos EUA no plano internacional e ao avanço das reformas estruturais
econômicas e institucionais, os quais, por sua vez, demandariam o aumento da
influência americana sobre as IFIs. Literalmente:
O interesse dos EUA não é inteiramente comercial, financeiro ou
mercantil. Com a ajuda de outras economias de mercado democráticas,
somos os líderes em disseminar a democracia, o Estado de direito e a
estabilidade econômica. Os esforços dos EUA para reestruturar as
instituições financeiras internacionais deveriam continuar essa
tradição de liderança, fomentando acordos apropriados para o novo
ambiente que esses esforços criarão. As reformas são necessárias para
permitir que as instituições financeiras internacionais tenham um
papel importante (...) durante os próximos 50 anos (Meltzer et al.
2000, 33).
Do ponto de vista político, as propostas contidas no Relatório Meltzer
orientaram-se para: a) a potencialização da liberalização econômica
internacional; b) a afirmação da primazia americana na condução da reforma das
instituições de Bretton Woods; c) o esvaziamento do papel financeiro dos bancos
multilaterais de desenvolvimento (BMDs) em favor do financiamento privado em
países de renda média; d) o condicionamento da anulação total ou parcial da
dívida dos países mais pobres com as IFIs à execução das reformas econômicas
liberais; e) a constituição de uma política de ajuda externa (multilateral e
bilateral) aos países mais pobres baseada em subvenções diretas a prestadores
de serviços condicionadas à mercantilização plena dos serviços públicos,
mensurada segundo critérios de resultado tangíveis.
A minoria derrotada dentro da Comissão
Embora concordassem com a necessidade de reforma das IFIs, os três membros da
Comissão contrários ao texto final do Relatório consideraram suas proposições
falhas e totalmente carentes de respaldo, advertindo que, se adotadas,
aumentariam o risco de uma instabilidade global e afetariam negativamente os
interesses dos EUA (Meltzer et al. 2000, 103). Para eles, o Relatório
apresentava uma visão enganosa do impacto econômico e social da ação das IFIs,
uma vez que não reconhecia o papel que haviam desempenhado na promoção do
crescimento econômico, na redução da pobreza e na manutenção da hegemonia
americana. Nas suas palavras: O resultado final da era das IFIs', apesar das
imperfeições óbvias, é um êxito indubitável, de proporções históricas, em
termos tanto econômicos como sociais. Os Estados Unidos se beneficiaram
enormemente como resultado dela (ibid., 103).
Em relação ao FMI, afirmaram que a proposta de limitar o papel do FMI ao apoio
a países pré-qualificados à sua assistência simplesmente minaria a sua
capacidade de prevenir e responder a uma crise financeira internacional. Sem a
autorização para negociar reformas de políticas, o FMI não poderia fazer com
que o socorro financeiro servisse de veículo para a saída da crise. Por outro
lado, limitar a atuação do Fundo a um rol de critérios pré-qualificadores
esvaziaria a importância política dos países que o apoiam, o que fomentaria a
desordem econômica global (ibid., 104'6).
Em relação ao Banco Mundial, os três membros da Comissão declararam que, se
aplicadas, as propostas do Relatório: a) limitariam os fundos direcionados aos
países mais pobres; b) castigariam os países pobres que obtinham acesso aos
mercados de capitais ao negar-lhes empréstimos; c) tornaria os empréstimos
multilaterais aos países mais pobres dependentes da boa vontade dos países
doadores, uma vez que os créditos da Associação Internacional de
Desenvolvimento (AID) eram financiados por repasses do Bird, os quais, em larga
medida, dependiam dos países de renda média e de grandes projetos de
infraestrutura; d) deixaria os países de renda média totalmente dependentes da
volatilidade dos mercados de capitais; e) esvaziaria o papel desempenhado pelo
Banco no fortalecimento de coalizões domésticas comprometidas com as reformas
liberais (ibid., 106'8).
A resposta do Tesouro
Quatro meses depois da conclusão do Relatório Meltzer, já no final do mandato
do presidente Bill Clinton, saiu a resposta oficial do Tesouro. Destacando os
pontos de concordância e discordância, a resposta reafirmou a importância
estratégica das IFIs para os interesses econômicos e políticos dos EUA:
As IFIs estão entre os mais efetivos e eficientes meios disponíveis
para avançar as prioridades da política norte-americana pelo mundo.
Desde o seu nascimento, elas são centrais para tratar dos principais
desafios econômicos e do desenvolvimento do nosso tempo. Elas
promovem crescimento, estabilidade, mercados abertos e instituições
democráticas, resultando em mais exportações e empregos nos Estados
Unidos, enquanto avançam nossos valores fundamentais por todo o mundo
(U.S. Department of Treasury 2000, 2).
Como produto do que chamou de consenso bipartidário sobre a política americana
para as IFIs, o Tesouro arrolou sete pontos de concordância com o Relatório
Meltzer: a) a necessidade de maior transparência das instituições; b) a criação
de novos mecanismos para incentivar os países a reduzirem a sua vulnerabilidade
a crises financeiras, como a linha de crédito contingente do FMI, condicionada
à realização ex-ante de reformas estruturais; c) um novo foco dentro das IFIs
sobre a importância de sistemas financeiros fortes e abertos, administração da
dívida e regimes cambiais mais flexíveis; d) a revisão do enfoque de
empréstimos das IFIs para os países mais pobres, centrada numa maior
seletividade e com foco ainda mais direcionado ao crescimento econômico, ao
combate à corrupção e à redução da pobreza, sobretudo por meio de investimentos
em saúde e educação básicas; e) um aumento do cancelamento da dívida e da ajuda
financeira dirigida aos países mais pobres; f) o protagonismo dos bancos
multilaterais de desenvolvimento junto à comunidade internacional na provisão
de bens públicos globais, como a promoção do desenvolvimento sustentável, o
combate a doenças infecciosas e a adoção de boas práticas de desenvolvimento;
g) maior clareza na distinção dos respectivos papéis desempenhados pelos bancos
multilaterais de desenvolvimento e pelo FMI (U.S. Department of Treasury 2000,
3'4).
Após elencar os pontos de concordância, o Tesouro passou aos pontos de
discordância. Na visão do governo Clinton, como um todo as propostas de reforma
das IFIs apresentadas pelo Relatório Meltzer prejudicariam a funcionalidade
delas para a defesa da economia e dos interesses estratégicos americanos.
Literalmente:
O teste crítico na avaliação da conveniência de propostas
alternativas de reforma deveria ser uma avaliação sobre se elas
fortaleceriam ou enfraqueceriam a capacidade das instituições para
tratar dos desafios econômicos que são críticos para os interesses
dos Estados Unidos. Na nossa visão, as recomendações centrais da
maioria, tomadas como um todo, prejudicariam substancialmente os
interesses estratégicos econômicos e nacionais dos Estados Unidos,
por reduzir dramaticamente a capacidade do FMI e dos BMDs de
responder a crises financeiras e privá-los de instrumentos efetivos
para promover a estabilidade financeira internacional e a reforma
econômica orientada ao mercado e ao desenvolvimento. (...)
Especificamente, se as propostas da maioria da Comissão estivessem em
seu lugar em 1997 e 1998, nem o FMI nem o Banco Mundial seriam
capazes de responder à crise financeira severa que se espalhou pelos
mercados emergentes durante aquele período. Como resultado, a crise
seria mais profunda e mais prolongada, com maior devastação sobre as
economias afetadas e consequências potencialmente muito mais severas
para produtores rurais, trabalhadores e homens de negócio norte-
americanos (ibid., 5).
Referindo-se ao Banco Mundial e aos demais BMDs, a posição do Tesouro foi
igualmente clara:
Se as recomendações da Comissão fossem aplicadas tal como escritas,
países tão diversos como Brasil, Indonésia, Turquia e África do Sul '
onde interesses estratégicos e econômicos importantes e de longo
prazo dos Estados Unidos estão claramente em jogo ' teriam acesso
negado à assistência dos BMDs. Se essas recomendações fossem
aplicadas hoje, o Banco Mundial e os bancos regionais de
desenvolvimento seriam efetivamente excluídos de empréstimos de todo
tipo, em qualquer circunstância. Esses países atualmente absorvem
inteiramente um terço das exportações norte-americanas, uma porção
que cresceu consideravelmente durante a década passada. Além disso,
eles são o lar de uma parte substancial dos pobres do mundo (ibid.,
27).
Segundo o Tesouro, se as propostas de reforma contidas no Relatório Meltzer
estivessem em vigor no início dos anos 1990, teriam excluído os BMDs do apoio à
liberalização econômica nas sociedades do leste da Ásia e na América Latina,
precisamente em um período de oportunidades históricas para a reforma
construtiva (ibid., 5). Sem a ação dos BMDs, o apoio para as políticas de
desregulação financeira, liberalização comercial, privatização, reforma
agrícola e outras em economias que, naquele momento, eram sócias comerciais
cada vez mais importantes dos EUA teria sido, enfim, muitíssimo menor.
Para o Tesouro, ainda, o esvaziamento do papel financeiro do Banco Mundial
proposto pelo Relatório Meltzer oneraria os EUA ao obrigar o país a aumentar os
gastos com a assistência bilateral ao desenvolvimento, contrariando a queda
dessa modalidade ao longo dos anos 1990 (ibid., 5).
Na visão do Tesouro (ibid., 7'8), as propostas do Relatório Meltzer para o
Banco Mundial e os bancos regionais seriam desastrosas para o avanço
internacional da liberalização econômica por várias razões. Em primeiro lugar,
porque eliminariam a capacidade dessas instituições de impulsionar a
reestruturação econômica em países que contavam com grandes mercados nacionais,
uma agenda extensa de reformas ainda pendentes e, em muitos casos, acesso
frágil e limitado aos mercados privados de capital. Em segundo lugar, porque
limitariam enormemente a capacidade dos BMDs de promover a empresa privada, a
privatização de empresas públicas e o desenvolvimento de mercados domésticos de
capitais. Em terceiro lugar, porque reduziria o âmbito de ação do Banco
Mundial, precisamente a instituição mais forte, mais experiente e mais
competente entre todos os BMDs (ibid., 8). Em quarto, porque a retirada dos
BMDs do papel de fornecedores de empréstimos de emergência para países em crise
financeira não poderia ser inteiramente suprida pelo FMI. Em quinto, porque o
sistema de subvenções diretas a prestadores de serviço simplesmente não
funcionaria. Haveria falta de recursos para a assistência financeira
multilateral, em função do fim da alavancagem financeira fornecida pelos
empréstimos convencionais dos BMDs ' cada US$ 1 aportado pelos EUA entre 1995 e
1999 havia gerado US$ 60 de assistência ao desenvolvimento ' e dos recursos
advindos dos pagamentos de créditos concessionários. Além disso, a subvenção
direta não seria um instrumento financeiro efetivo quando comparada aos
empréstimos convencionais, pelo fato de não fomentar melhorias no enfoque geral
de políticas e nas instituições públicas domésticas.
O Tesouro também expôs a agenda de reformas do governo Clinton para os BMDs.
Seis áreas deveriam ser revistas (ibid., 12'14). Em primeiro lugar, a concessão
de empréstimos e créditos dos BMDs deveria seguir metas claras e mensuráveis de
performance dos clientes, excluindo do acesso ao financiamento aqueles que não
apresentassem resultados tangíveis no avanço da liberalização econômica e das
reformas institucionais. Em segundo lugar, os BMDs deveriam focalizar as suas
carteiras de empréstimos para a redução da pobreza, priorizando os
investimentos em saúde primária, educação básica e água potável. No âmbito da
assistência técnica, os bancos deveriam orientar os Estados a como remodelar o
gasto público de modo a priorizar aquelas áreas. Em terceiro lugar, os BMDs
deveriam estabelecer uma abordagem mais seletiva que facilitasse a graduação
dos clientes, de modo que os empréstimos declinassem à medida que eles
expandissem a sua capacidade para atrair financiamento privado. Não deveriam
ser cogitados novos aumentos do capital geral dos bancos para hard loans,
apenas para soft loans. Em quarto lugar, os BMDs precisariam dar às suas
operações um alto grau de transparência. Em quinto lugar, o Banco Mundial e os
demais bancos multilaterais deveriam fomentar e coordenar esforços
internacionais para a provisão de bens públicos globais no âmbito da saúde
pública e da gestão ambiental. Por fim, a relação entre os BMDs e o FMI deveria
ser mais seletiva, a fim de eliminar sobreposições e inconsistências.
As propostas do Relatório Meltzer para o FMI também foram rejeitadas pelo
Tesouro. Primeiro, porque limitaria os empréstimos do FMI apenas a países pré-
qualificados, deixando de fora um número potencialmente grande de clientes.
Segundo, porque retiraria do FMI a aplicação de condicionalidades mais duras e
amplas, consideradas vitais para a restauração da confiança dos investidores
privados e a retomada do crescimento econômico. Terceiro, porque eliminaria a
capacidade do FMI de fornecer créditos mais brandos aos países pobres,
enfraquecendo tanto a pressão pela adoção de políticas econômicas liberais como
a efetividade da ajuda externa ao desenvolvimento (ibid., 6'7).
As propostas do Tesouro para a reforma do FMI abarcaram cinco pontos. Primeiro,
que o Fundo priorizasse o fornecimento de um fluxo permanente de informações
dos governos para os mercados. Segundo, que esse trabalho de vigilância se
concentrasse nos pontos mais suscetíveis à maior vulnerabilidade financeira,
como taxas de câmbio e indicadores de liquidez. Terceiro, que o FMI atuasse
principalmente na prevenção do contágio nos mercados emergentes e jogasse um
papel mais ativo na provisão de um enfoque macroeconômico ' em conjunto com os
programas de redução da pobreza do Banco Mundial ' nos países mais pobres.
Quarto, que o Fundo enfatizasse as soluções das crises financeiras baseadas no
mercado, isto é, na catalisação de financiamento privado em termos apropriados,
a fim de reduzir o risco moral. Quinto, que o FMI se modernizasse como
instituição, o que passaria pela criação de um departamento de avaliação de
operações (como já existia no Banco Mundial) e de um grupo formal, constituído
por financistas, para aprofundar o entendimento do Fundo sobre as tendências
do mercado global (ibid., 12). A revisão da distribuição do poder de voto dos
Estados-membros mereceu uma única linha em todo o documento.
O Tesouro foi terminantemente contra a proposta de perdão da dívida
multilateral dos países mais pobres altamente endividados apresentada pelo
Relatório Meltzer. Além de estimular o risco moral, tal medida minaria, segundo
o Tesouro, uma fonte cada vez mais importante de financiamento da AID: o
pagamento dos débitos pelos mutuários. Com isso, haveria menos fundos
disponíveis para países elegíveis aos créditos da AID. Em lugar do
cancelamento, que custaria ao Banco Mundial cerca de US$ 20,3 bilhões, o
Tesouro propôs um plano de redução da dívida dos países pobres que custaria ao
Banco apenas US$ 6,3 bilhões (ibid., 39'41).
Governo Bush e incorporação seletiva das propostas do Relatório Meltzer
Com a posse de George W. Bush em janeiro de 2001 e a conformação de uma maioria
parlamentar republicana, não houve mais ataques daquela virulência contra as
IFIs por parte do Congresso. Tal como ocorrera com os governos Ronald Reagan e
George H. W. Bush, a passagem da direita republicana do Congresso para o
Executivo tende a moderar o seu discurso ' recorrente desde o final dos anos
1970 ' acerca do ônus político e financeiro dos organismos multilaterais para
os EUA, a partir do reconhecimento de que tais organizações são, na verdade,
instrumentos úteis demais para a defesa de interesses americanos de longo prazo
para serem fragilizadas ou mesmo desmanteladas (Babb 2009, 18; Pereira 2010,
242'74).
Inicialmente, o novo governo tomou as IFIs como veículos de promoção da
liberalização econômica, seguindo a linha dos seus antecessores. Depois de 11
de setembro de 2001, porém, a segurança e o humanitarismo foram postos no
centro da política externa americana para as IFIs, traduzindo-se numa colagem
entre pobreza e instabilidade política global. Os objetivos econômicos não
foram abandonados, mas enquadrados como meios para fins geopolíticos. Ou seja,
depois do 11 de setembro, o governo Bush pautou o interesse americano nas IFIs
com um novo amálgama de temas que fundia o liberalismo do Consenso de
Washington, o neoconservadorismo religioso sob a forma da teologia da ajuda aos
pobres e a guerra contra o terrorismo (Babb 2009, 214'15). Além disso, o Banco
Mundial foi alçado à linha de frente das operações de reconstrução do
Afeganistão e do Iraque por meio de empréstimos ' que se materializavam em
contratos altamente lucrativos para firmas americanas e europeias ' e,
sobretudo, assessoramento técnico para a reestruturação do Estado e a reescrita
dos marcos constitucionais fundamentais.
Ligada à anterior, outra prioridade cara à política externa dos EUA (e do Reino
Unido) assumida pelo Banco Mundial se traduziu no aumento da sua atuação nos
chamados Estados frágeis, caracterizados por alta instabilidade política,
conflitos internos ou transfronteiriços graves e paralisação ou colapso da
autoridade pública e do sistema de tomada de decisões. O tema remete à
literatura sobre Estados fracassados ou falidos (failed states), em voga no
mainstream anglo-americano (Cooper 2003; Mallaby 2004; Fukuyama 2005). Nesse
âmbito, o Banco criou em 2001 um Fundo Fiduciário para financiar operações em
países africanos. O Banco também passou a participar da coordenação de diversas
iniciativas bilaterais ' com a United States Agency for International
Development (USAID) e o Department for International Development do Reino Unido
' e multilaterais ' com o Grupo de Aprendizagem e Assessoria da Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Organização das Nações
Unidas (ONU) e a União Europeia.
A vitória de Bush criou uma nova oportunidade para a aplicação seletiva de
ideias apresentadas no Relatório Meltzer e algumas delas orientaram a atuação
da Conta do Desafio do Milênio (Millennium Challenge Account), a mais
importante iniciativa de ajuda externa bilateral desenvolvida pelo governo
republicano (Lancaster 2007). Com relação às IFIs, uma das ideias mais
importantes empurradas pelos EUA foi a conversão de empréstimos em subvenções.
A proposta, apresentada no encontro do G8 em 2001, sugeria que a metade dos
recursos da AID no período 2003'2005 fosse gasta sob a forma de subvenções.
Outros doadores, particularmente os europeus, foram contra e argumentaram que
um componente de 10% de subvenção seria mais plausível, uma vez que parte dos
recursos da AID advém do pagamento dos créditos acrescidos de juros, de modo
que um percentual elevado de subvenções minaria em médio prazo a sua capacidade
financeira, se não houvesse uma compensação por parte dos Estados doadores. Em
maio de 2002, os EUA propuseram um grau de subvenção de 22%. Em junho, o G7
anunciou um acordo de que entre 18% e 21% dos desembolsos da AID seriam sob a
forma de subvenções. Para a reposição de fundos seguinte (2006'2008), os EUA
asseguraram um aumento da subvenção para 31% dos desembolsos (Babb 2009,
223'24).
Mas a proposta mais polêmica, levada adiante no calor da disputa eleitoral de
2004, foi a de cancelamento total da dívida multilateral dos países pobres
altamente endividados, a maior parte dos quais na África, cujo custo recairia
integralmente sobre as IFIs. Essa proposta se chocava com a proposta britânica,
que advogava um cancelamento mais moderado que oneraria o mínimo possível as
IFIs, pois o custo seria em grande parte absorvido pelos Estados doadores
mediante o aumento da ajuda externa (Frankel 2005; Blustein 2005). Note-se que,
em momento algum, houve desacordo entre as potências quanto à exigência de que,
para ser elegível ao perdão da dívida, os países pobres tivessem de implementar
uma série de condicionalidades econômicas e institucionais estabelecidas pelas
IFIs. O desacordo era sobre o instrumento para fazer cumprir as
condicionalidades, e não sobre o princípio da condicionalidade.
O compromisso final, conhecido como Acordo de Gleneagles, aproximou-se mais da
proposta americana do que da britânica, seguindo o princípio de que o ônus
recairia, sobretudo, sobre as IFIs, com a promessa dos doadores de, num futuro
incerto, aumentar as contribuições para a AID. O Banco Mundial e doadores
europeus argumentaram que a conversão de empréstimos em subvenções e o
cancelamento da dívida sem a compensação por parte dos doadores reduziriam
significativamente a capacidade de financiamento da AID. As consequências de
longo prazo do Acordo sobre o financiamento dos BMDs eram incertas no final do
governo Bush (Babb 2009, 202).
Conclusões
O fato de uma comissão do Congresso americano ter produzido, ainda que não
consensualmente, propostas como as contidas no Relatório Meltzer, seria
impensável sem a confluência específica de determinadas pressões internacionais
e domésticas. No âmbito internacional, a irrupção de crises financeiras
sucessivas, que expuseram o grau de instabilidade da economia internacional e
as contradições da liberalização. No âmbito doméstico, o acirramento da disputa
política entre o governo Clinton e a maioria republicana no Congresso.
No geral, a resposta do Tesouro ao Relatório Meltzer não fez mais do que
reafirmar as linhas gerais da liberalização econômica. No tocante aos BMDs, as
suas propostas enfatizaram a promoção das reformas institucionais, o reforço
das condicionalidades e a manutenção das IFIs como bombeiras da globalização
financeira. Nenhuma reforma relevante foi cogitada. Sem surpresa, o repasse de
funções do Banco Mundial para os bancos regionais ' mais suscetíveis à
influência dos Estados da periferia do que o Banco Mundial ' foi rejeitado.
Afinal, como fez questão de frisar Allan Meltzer, os Estados Unidos têm um
controle mais direto sobre o Banco Mundial, razão pela qual o Tesouro dos EUA
não deseja ver um deslocamento de responsabilidade e poder para tais Estados
(Meltzer et al. 2000, 7).
No tocante ao FMI, igualmente nenhuma mudança relevante foi considerada.
Com o governo Bush, algumas ideias do Relatório Meltzer para reformar as IFIs
se traduziram na política americana. As principais delas foram a transformação
de empréstimos dos BMDs em subvenções e o cancelamento total da dívida
multilateral dos países pobres altamente endividados que cumprissem um conjunto
de condicionalidades. Retomando o discurso tradicional da direita republicana
acerca do ônus financeiro dos organismos multilaterais para o Tesouro dos EUA,
a defesa do cancelamento da dívida feita pelo governo Bush se baseava na ideia
de que o perdão custaria muito pouco ou nada para o contribuinte americano,
pois seria assumido na sua maior parte pelas IFIs. Os desdobramentos
financeiros de tais iniciativas compõem o rol de questões em pauta nas
negociações pela reforma do Banco Mundial e do FMI.
De todo modo, a concentração, a mutação e a geografia cambiante da crise
econômica deflagrada em 2008 nos países mais ricos, e o subsequente
fortalecimento financeiro das IFIs amparado pelos seus acionistas mais
poderosos, constituem um cenário bastante distinto dos anos 1990, quando crises
financeiras eclodiram em países emergentes na Ásia, na África e na América
Latina. Frente a temas como o socorro financeiro a países europeus pelo FMI, a
questão do cancelamento da dívida multilateral dos países pobres altamente
endividados tende a ser posta de lado.