Análise de Política Externa e Política Externa Brasileira: trajetória, desafios
e possibilidades de um campo de estudos
Introdução
A Análise de Política Externa (APE) é hoje um campo de estudos bem consolidado
dentro da grande disciplina das Relações Internacionais (RI). Numerosos
indicadores testemunham essa consolidação, como a existência de revistas
especializadas (destacando-se a Foreign Policy Analysis) e de diversos manuais
específicos sobre APE e capítulos sobre APE nos principais manuais de Relações
Internacionais; a criação de grupos de trabalho ou seções sobre APE nas
principais associações acadêmicas nacionais e internacionais de Ciência
Política/Relações Internacionais (ABRI e ABCP no Brasil, International Studies
Association nos EUA e British International Studies Association no Reino
Unido); e a inclusão de disciplinas com essa denominação nas grades
curriculares dos cursos de Relações Internacionais em todo o mundo.
Em princípio, a substância da APE não se diferencia da substância da disciplina
mãe, Relações Internacionais/Política Internacional. Ambas abrangem, com
efeito, todos aqueles fenômenos suscetíveis de serem incluídos no continuum
conflito-cooperação e que ultrapassam as fronteiras nacionais. O que outorga
especificidade à APE é seu foco nas ações internacionais de unidades
particulares. Com efeito, a APE tem como objeto o estudo da política externa de
governos específicos, considerando seus determinantes, objetivos, tomada de
decisões e ações efetivamente realizadas1.
Se tradicionalmente esse governo específico era um governo nacional, o legítimo
responsável pela elaboração da política externa do Estado, nas últimas décadas
os diversos processos de descentralização e regionalização associados à
globalização têm feito com que outros níveis de governo diferentes do nacional
(supranacionais ou subnacionais) desenvolvam suas próprias políticas externas,
tornando-se assim objetos válidos da APE. A política externa da União Europeia
tem sido analisada sob essa lente (White 2001), bem como aqueles governos
subnacionais com atividade externa consistente (Soldatos 1990; McMillan 2008;
Salomón 2011).
Em teoria, as ferramentas da APE poderiam ser também aplicadas ao estudo das
ações internacionais de atores internacionais não governamentais, como empresas
ou organizações não governamentais (ONGs). Contudo, isso só é realmente viável
na medida em que essas unidades desenvolvam uma atividade externa planificada e
coerente, ou seja, uma política (policy). Mesmo assim, as grandes diferenças
entre atores governamentais e não governamentais, começando pela ausência de
constituency destes últimos, limitam consideravelmente a utilidade da aplicação
desse enfoque ' originalmente concebido para analisar políticas governamentais
' para a análise da ação externa de atores não estatais.
Isso não supõe, necessariamente, que a APE seja uma disciplina "estadocêntrica"
no sentido de desconsiderar o papel de atores não estatais e de dinâmicas não
protagonizadas pelo Estado na política internacional. Colocar o foco nos
processos políticos estatais, como faz a APE, não significa considerar que só
estes são relevantes para compreender a realidade internacional. Aliás, a APE é
bastante atenta à interação das unidades de decisão governamentais com uma
pletora de variados atores dentro e fora das fronteiras do Estado que
influenciam a formação e implementação dessa política pública.
A política externa, com efeito, é uma política pública, embora com uma
especificidade que a diferencia do resto das políticas públicas: o fato de ser
implementada fora das fronteiras estatais, o que pode levar a uma distância
considerável entre objetivos e resultados2. Por sua condição de política
pública, cabe distinguir a política externa da mera "ação externa", um conceito
mais amplo que inclui todo tipo de contatos, planificados ou não, de um governo
com outro ator fora de suas fronteiras. Por sua vez, entender a política
externa como política pública leva a considerar seu processo de elaboração, no
qual incidem, como em qualquer outra política pública, as demandas e conflitos
de variados grupos domésticos.
Sendo a política externa uma dimensão das relações internacionais e uma
política pública, não é surpreendente que a inserção disciplinar da APE tenha
oscilado entre o campo da Política Pública e o das Relações Internacionais.
Como relata Carlsnaes (2002, 331), ainda em meados dos anos 1970 a APE era
percebida nos Estados Unidos mais como subárea do primeiro campo que do
segundo.
Além dessa dupla vinculação, a APE tem uma forte relação com outras
disciplinas, em particular com a Psicologia Cognitiva e a Psicologia Social
(indispensáveis para abordar os processos de tomada de decisões), a Sociologia,
a Economia, o Direito e a História, mas também a Teoria dos Sistemas e a
Neurociência, entre outras. Isso, é claro, também é verdade para a grande
disciplina das Relações Internacionais. Contudo, é perceptível uma diferença de
grau entre elas, com a APE especialmente dependente, no seu desenvolvimento, de
contribuições transdisciplinares que nem sempre têm presença em outras áreas
das Relações Internacionais3.
Por fim ' e não menos importante ', por APE não entendemos aqui tão somente o
campo de estudos sobre a política externa centrado na análise de processo
decisório. É verdade que essa dimensão foi a marca da constituição da
subdisciplina conhecida por esse nome nos anos 1950. Nos dias de hoje,
entretanto, seria equivocado atribuirmos à pesquisa sobre o impacto do processo
decisório no conteúdo da política externa como o único objeto de investigação
para o qual se volta a APE. Ao nosso entender, os estudos de processo decisório
constituem hoje um, dentre outros, dos focos desse amplo campo de estudos, que
inclui todos os aspectos (influências, contextos e práticas sociais, entre
outros) que incidem em todas as fases (desde a formação da agenda até a
implementação) de uma política externa.
No Brasil, a área de APE encontra-se em processo de consolidação. Seu
instrumental teórico-conceitual é cada vez mais usado na pesquisa acadêmica e
vários cursos de graduação e programas de pós-graduação em RI incluem a
disciplina de APE no seu currículo. Diferentemente do passado, em que a
política externa brasileira era vista como singular frente às demais políticas
públicas e, portanto, pouco afeita a ser investigada por ferramentas que dessem
conta de sua formulação no campo da política, na atualidade isso tem mudado
consideravelmente.
Tendo em conta o exposto acima, este artigo tem dois objetivos. O primeiro é
oferecer ao público brasileiro uma visão abrangente do campo de estudos de APE,
condizente com a diversidade que, de fato, caracteriza a prática e a
investigação sobre política externa. O segundo é mostrar as tendências pelas
quais a APE vem se desenvolvendo no Brasil. Para tanto, dividimos o artigo em
três seções, além desta introdução e da conclusão. Na primeira seção tratamos
da constituição da subdisciplina de APE na década de 1950 e de como, após esse
momento fundador, ela foi se desenvolvendo até os dias de hoje. Na segunda
vinculamos a APE às grandes perspectivas teóricas da grande disciplina das RI.
Na terceira começamos fazendo referência aos estudos que podem ser considerados
como antecedentes do desenvolvimento da APE no Brasil: as análises sobre a
política externa brasileira feitas sob a lente da História, da Ciência Política
e mesmo das Relações Internacionais, mas sem diálogo com as discussões mais
específicas dentro da APE e sem considerar essa mesma produção de conhecimento
sobre a realidade brasileira como inserida no campo disciplinar da APE; em
seguida fazemos uma revisão preliminar da pesquisa sobre política externa
brasileira realizada no Brasil que situa a si mesma dentro do campo da APE.
Finalmente, a título de conclusão, fazemos um breve balanço sobre essas
tendências da produção brasileira no campo, apontando possíveis caminhos para
seu desenvolvimento futuro.
A trajetória da APE como subdisciplina
O artigo seminal de Richard Snyder, Henry W. Bruck e Burton Sapin, Decision-
Making as an Approach to the Study of International Politics (1954), é
considerado a pedra fundamental da APE como subdisciplina ou campo de estudos
com identidade própria. A proposta de análise estava fortemente inserida dentro
da Ciência Política behaviorista e influenciada, em particular, pelo modelo
eastoniano de sistema político, nesse momento em pleno auge (Easton 1953). O
ponto de partida era a ideia de que a política externa é, antes de tudo, um
produto de decisões, e que o modo pelo qual as decisões são tomadas afeta
substancialmente seu conteúdo. Ou seja, a política externa deveria ser
investigada a partir do suposto de que ela se constitui essencialmente de uma
série de decisões tomadas por um ou mais indivíduos chamados decisores; que
esses decisores agem de acordo com a definição que fazem da situação; e que
essas decisões não surgem pura e simplesmente a partir dos estímulos externos,
mas são sim processadas por um mecanismo dentro do Estado. Em contraponto ao
que as análises sistêmicas de base realista defendiam, a partir dessa nova
perspectiva o analista estaria em condições de explicar por que Estados com
posições similares no sistema internacional comportavam-se de modos distintos.
A partir dessa contribuição de Snyder e de seus coautores, que impactou
fortemente os estudos de política externa, em particular nos Estados Unidos,
foram traçados dois caminhos distintos de desenvolvimento da subárea. Um,
fortemente atrelado à Ciência Política behaviorista, procurou desenvolver uma
"grande teoria" da política externa. Outro, metodologicamente mais plural e
introduzindo elementos de diversas perspectivas disciplinares (teoria das
organizações, geografia, psicologia social, psicologia cognitiva...), se
materializou na construção de teorias mais específicas, de médio alcance, sobre
uma grande variedade de fenômenos relacionados com a produção da política
externa. Enquadrado na tentativa behaviorista de aproximar metodológica e
epistemologicamente as ciências sociais às ciências naturais, o projeto de
desenvolver uma Política Externa Comparada (Comparative Foreign Policy) sob a
liderança intelectual de Rosenau (1966, 1974, 1980) foi sem dúvida o motor da
subdisciplina por quase 20 anos. O ambicioso objetivo do projeto era chegar a
uma teoria geral da política externa, capaz de explicar qualquer política
externa e até de predizer atuações específicas. A maneira de fazer isso era
identificar, a partir de dados extraídos de múltiplas fontes, as correlações
entre as características das nações e os tipos de comportamento de umas com
relação às outras. O recente surgimento dos computadores facilitava as análises
multivariáveis. Grandes projetos baseados na construção de enormes bancos de
dados ' como os projetos Interstate Behavior Analysis (IBA), Dimensions of
Nations (DON), ou Comparative Research on the Events of Nations (CREON) (Hudson
2005, 20) ' foram criados com esse objetivo. As secretarias de Estado e de
Defesa dos EUA, confiantes de que os resultados contribuiriam a prever as ações
do inimigo soviético, os financiaram generosamente.
Porém, esses ambiciosos objetivos não foram atingidos. Em vez de uma teoria
geral, os comparativistas tinham, depois de décadas de trabalho, apenas uma
extensa lista de possíveis variáveis relevantes. O fracasso se deveu em parte a
que, como reconheceu a figura fundamental do movimento behaviorista em ciência
política, David Easton, os objetivos eram inatingíveis: o estudo das sociedades
humanas exige métodos diferentes dos da física. E em parte porque os desenhos
de pesquisa behavioristas eram bastante deficientes. Eles se baseavam, com
efeito, na ideia "indutivista ingênua", pré-popperiana (Chalmers 1993), de que
era possível proceder a generalizações a partir da simples observação dos
dados, sem uma teoria prévia a partir da qual se identificassem as conexões
relevantes4.
A falta de resultados dos comparativistas e as fortes críticas resultantes
reforçaram o caminho que já vinha sendo trilhado por outros estudiosos. Assim,
descartando o ambicioso objetivo inicial de construir uma teoria geral da
política externa, os esforços passaram a estar focados na elaboração de teorias
"de médio alcance" sobre fenômenos muito mais restritos, complementares ou não
entre eles.
A título de exemplo, podemos citar o clássico trabalho de Graham Allison sobre
a crise dos mísseis de Cuba (Allison 1971), origem do enfoque da "política
burocrática", muito fértil até os dias de hoje (Hilsman 1987; Kozak e Keagle
1988; Kaarbo 1998). Da mesma forma, as abordagens sociocognitivas, apoiadas em
teorias dos campos disciplinares da Psicologia Social e da Psicologia
Cognitiva, buscariam no estudo das crenças, percepções e imagens, entender como
a dinâmica de funcionamento de um pequeno grupo (Janis 1972) ou os erros de
processamento de informações pelos indivíduos (Jervis 1976; Jervis, Lebow e
Stein 1985; Glad 1989; George 1994) impactam sobre as decisões de política
externa.
Nas últimas décadas, desde que o projeto de Política Externa Comparada foi
rejeitado por seu próprio idealizador (Rosenau 1989), esse foco nos atores
específicos ' líderes, pequenos grupos, organizações burocráticas mais amplas,
grupos de interesse, etc. ' se tornou o principal signo de identidade da
subárea. Ao mesmo tempo, como veremos na próxima seção, o interesse pelos
fatores domésticos nos enfoques mais gerais das Relações Internacionais foi
aumentando, o que fomentou uma maior conexão entre a APE e a grande área de
Relações Internacionais.
APE e as matrizes teóricas das Relações Internacionais
Contribuições liberais
O legado liberal constitui-se, ao nosso modo de ver, na base de sustentação da
subdisciplina da APE. A razão disso é a própria resposta que o liberalismo
oferece às grandes questões das Relações Internacionais: o conflito recorrente
entre Estados é evitável, a cooperação é possível, e o indivíduo, agindo por
meio de instituições, é o principal agente de mudança na política
internacional. Uma das principais inovações da nascente subdisciplina da APE
nos anos 1950 foi a de abrir a caixa preta do Estado e passar a considerar a
importância dos fatores domésticos na formação de políticas externas (sem que
isso significasse ignorar os fatores sistêmicos); a influência das correntes
liberais na APE é evidente.
A resposta liberal é oposta à realista, focada na estrutura anárquica do
sistema internacional e seus efeitos, isto é, no caráter recorrente do conflito
internacional. Na explicação realista da política internacional, as variáveis
internas têm pouco peso em comparação com as variáveis sistêmicas. Nas
explicações liberais, pelo contrário, as variáveis internas carregam quase todo
o peso da explicação.
Isso pode ser ilustrado com as contribuições dos liberais-internacionalistas na
primeira metade do século 20, todas elas visando a explicar fenômenos como o
imperialismo (Hobson 1902), a irracionalidade da guerra entre potências
industrializadas (Angell 1913), ou o papel pacificador das organizações
internacionais (Zimmern 1936; Mitrany 1943) fundamentalmente por meio de
variáveis internas. Posteriormente, teorias de cunho liberal como o
neofuncionalismo (Haas 1958), o transnacionalismo (Deutsch 1957) ou o modelo da
interdependência complexa (Keohane e Nye 1977) continuaram colocando os fatores
internos no centro das explicações. A partir dos anos 1990, os defensores da
"tese da paz democrática" defenderam a ideia de que um fator doméstico (tipo de
regime político) é fundamental para explicar a conduta belicosa ou pacífica dos
Estados, e até tentaram elevar essa tese ao status de "lei das relações
internacionais" (Levy 1989).
Mais recentemente, Andrew Moravcsik (1997, 2008) tentou redefinir a teoria
liberal de maneira a incluir as principais variáveis com as quais as diferentes
correntes liberais tentaram explicar a política externa/internacional:
ideacionais (efeitos das ideologias ou identidades culturais na política
externa); institucionais (efeitos dos tipos de instituições de representação);
e econômico-comerciais (efeitos dos tipos de políticas econômicas). O Novo
Liberalismo de Moravcsik é uma tentativa de formular uma teoria geral das
Relações Internacionais, dando precedência às variáveis internas sem
desconsiderar, porém, o impacto das variáveis sistêmicas (Moravcsick 2008,
249). Mas existem outras propostas muito mais delimitadas também passíveis de
serem inseridas dentro do paradigma liberal, como as de Putnam (1988), Milner
(1997) ou Martin (2000).
Contribuições realistas
Embora, em grande medida, a APE tenha sido construída em oposição aos
pressupostos realistas, isso não significa que a contribuição realista para a
compreensão da política externa possa ser ignorada. De fato, excluindo o
neorrealismo de Waltz, as diferentes versões do realismo se ocuparam e
continuam se ocupando da política externa.
Cabe salientar que Hans Morgenthau, sem dúvida a figura mais representativa do
realismo clássico, tratou tanto das escolhas políticas do governante e outros
tomadores de decisão (isto é, política externa) quanto dos fatores sistêmicos
que afetam a todos os estados por igual (política internacional) (Morgenthau
1948).
Essa preocupação dos realistas com a política externa persistiu até que, com a
publicação da Theory of International Politics de Kenneth Waltz, em 1979, o
realismo estrutural ou neorrealismo se tornou predominante como corrente do
pensamento realista (que, por sua vez, era a predominante dentro da academia de
RI dos EUA). O objetivo de Waltz nessa obra era construir uma teoria da
política internacional: uma teoria sobre os processos recorrentes
(fundamentalmente a guerra) no sistema político internacional. Waltz não tinha
a intenção de explicar políticas externas individuais. A esse respeito, ele
afirmava que, dada a enorme quantidade de fatores (internos e sistêmicos) que
contribuem à formação de políticas externas, é praticamente impossível elaborar
teorias de política externa (Waltz 1979). Em todo caso, não era sua intenção
fazer isso.
Por sua vez, sua teoria de política internacional prescinde de todos os fatores
domésticos (forma de governo, de Estado, ideologia, composição de grupos de
interesse) como variáveis explicativas, e mantém apenas a distribuição de poder
entre as principais potencias do sistema como o principal fator condicionante
(junto com a anarquia ou falta de governo centralizado) da política
internacional. Fica claro então que a política internacional não é, para Waltz,
a soma de políticas externas, como o era para o realismo tradicional. Tampouco
aceitou Waltz a ideia apontada por autores como Elman (1996) de que mesmo sendo
outra sua intenção, era sim possível inferir dos pressupostos da sua teoria de
política internacional (por exemplo, o maior peso relativo dos fatores externos
do que os internos) alguns elementos que permitiriam construir uma teoria
neorrealista da política externa.
Na mesma linha de Elman, os autores da corrente do realismo neoclássico surgida
nos últimos anos da década de 1990 (Schweller 1998; Wohlfort 1993; Zakaria
1998) declararam sua intenção explícita de construir uma teoria realista da
política externa. Segundo eles, o neorrealismo e o realismo neoclássico são
complementares: o primeiro trata da política internacional e o segundo, da
política externa. O realismo neoclássico continua sendo realista porque a
variável independente com a qual a política externa é explicada é a preocupação
dos Estados pela posição relativa que ocupam na distribuição de poder
internacional, argumento tipicamente realista. Mas não deixa de ser uma teoria
de política externa porque não busca explicar questões de política
internacional (como condições para a cooperação internacional ou causas de
guerra) senão a atuação de Estados individuais. Nas palavras de autores dessa
corrente, o que se procura explicar é "como, e sob que condições, as
características dos Estados afetam a avaliação que os lideres fazem das ameaças
e oportunidades internacionais e das políticas externas diplomáticas, militares
e econômicas selecionadas pelos Estados" (Lobell, Ripsman e Taliaferro 2009,
tradução nossa). Ao mesmo tempo, o realismo neoclássico (re)introduz de maneira
sistemática os fatores domésticos em suas explicações de política externa:
recursos, capacidade de mobilização, influência dos atores sociais domésticos e
grupos de interesse, nível de coesão das elites, etc. Esses fatores não são
considerados os determinantes principais das políticas externas, mas sim
variáveis intervenientes, presentes em modelos que dão prioridade explicativa
aos fatores sistêmicos.
Contribuições construtivistas
Embora o Construtivismo tenha sido concebido (pelo menos na vertente idealizada
por Alexander Wendt) como complementar ao liberalismo (Wendt 1992), seria um
erro supor que ele é, como aquele, fundamentalmente uma teoria de política
externa. Para começar, o Construtivismo não é, estritamente, uma teoria da
política internacional/relações internacionais senão uma teoria social mais
ampla que pode ser aplicada ao estudo da política internacional. Essa teoria
social postula a importância do componente ideacional nas relações sociais em
geral. Isto é, o papel das ideias é, para os construtivistas, tão determinante
na vida social quanto os fatores materiais.
Além disso, o foco das análises construtivistas não são os Estados individuais,
e sim as próprias ideias (normas, identidades, interesses) e a maneira como
estas surgem, se propagam e se modificam. Os diversos atores, estatais ou não
estatais, interessam aos construtivistas na medida em que participam desses
processos de criação e difusão de normas.
Isso não significa que não existam conexões e influências mútuas entre o
Construtivismo e a APE. Uma primeira conexão que podemos detectar é a
influência dos enfoques sociocognitivos presentes na APE na constituição da
corrente Construtivista em relações internacionais, influência reconhecida por
vários autores (Finnemore e Sikkink 2001; Wendt 1992). Esses enfoques, com
elementos provenientes da Sociologia, da Psicologia Social e da Psicologia
Cognitiva, tinham sido deixados de lado pelas correntes dominantes em RI nos
EUA, mas nunca deixaram de estar presentes na APE. Além disso, a APE e o
Construtivismo guardam outra importante convergência, para além das suas
respectivas ênfases na cognição, qual seja a importância que ambos atribuem à
ação dos agentes na política internacional.
É possível que, na atualidade, o Construtivismo seja mais influente na APE que
vice-versa, e que a rica pesquisa construtivista sobre formação de interesses
(Wendt 1992, 1999), normas internacionais (Finnemore e Sikkink 1998), redes de
ativismo transnacional (Keck e Sikkink 1998) ou interação de estruturas e
agentes (Wendt 1999), entre outros temas, ao ser aplicada à análise das
políticas externas individuais, esteja reforçando essa dimensão cognitiva que
já existia na APE.
Por outra parte, embora a APE seja, como vimos, compatível tanto com
explicações realistas, que dão mais peso aos fatores sistêmicos na explicação
de políticas externas, quanto com explicações liberais, que postulam a
preponderância dos fatores domésticos, é importante salientar que boa parte dos
autores que trabalham com a APE permanecem neutros a esse respeito, deixando
que a pesquisa empírica decida, para cada caso específico, que tipo de fatores
teve peso maior. Isso é semelhante à posição construtivista, que, a priori, não
concede um peso maior nas explicações dos fenômenos internacionais nem às
estruturas nem aos agentes. Assim, de maneira semelhante aos muitos autores
que, em vez de se identificarem como "liberais" ou "realistas", se identificam
prioritariamente como "analistas de política externa", os construtivistas
também se opõem ao determinismo das teorias tradicionais das RI. Ao nosso modo
de ver, essa é uma coincidência muito salutar.
Constituição e desenvolvimento do campo de estudos da APE no Brasil
Nesta seção trataremos de dois momentos cronologicamente consecutivos do campo
de estudos da APE no País. O primeiro relativo à sua formação, quando as
análises sobre a política externa brasileira eram realizadas sem diálogo com as
discussões mais específicas dentro da APE. O segundo momento, que nos é
contemporâneo, apresenta uma visão panorâmica das tendências da pesquisa sobre
política externa brasileira realizada no Brasil, agora sim inserida no campo da
APE.
Se no mundo anglo-saxão o desenvolvimento da disciplina de Relações
Internacionais e da subárea de Análise de Política Externa datam,
respectivamente, do início e de meados do século 20, o impacto de ambas no
Brasil, assim como em outros países da América Latina (Tickner 2002), foi bem
posterior, começando só em meados da década de 1970. Até então a reflexão sobre
a política externa e as relações internacionais encontrava-se concentrada em
outros campos disciplinares e nos círculos de diplomatas, ou, como já
desenvolvido em outra oportunidade, nos escritos de intelectuais enquanto
diplomatasprimeiramente, depois acrescidos das contribuições dos diplomatas
enquanto intelectuais(Pinheiro e Milani 2012). O tema era explorado, portanto,
em grande parte no campo do Direito Internacional, do Jornalismo especializado
e da História Diplomática. Evidentemente, cada um desses campos imprimia aos
escritos a marca característica da natureza da sua própria narrativa:
formalista e fracamente politizada no caso dos estudos inseridos no Direito
Internacional Público; datada e com forte conteúdo imediatista, no caso das
contribuições de natureza mais jornalística; e de fortíssimo viés oficialista
no caso dos estudos no campo da História Diplomática, na medida em que, nesse
caso, era notória a superposição entre a atividade de pesquisa e a prática
dessa mesma diplomacia (Santos 2005, 24).
O processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil e o
fortalecimento e expansão da universidade por meio do estabelecimento de cursos
de pós-graduação nas diversas áreas de conhecimento a partir da década de 1970
viria favorecer a formação de uma comunidade acadêmica que, aos poucos, iria
buscar autorização para tratar de temas de política externa e relações
internacionais, juntamente com aqueles que já vinham oferecendo sua
contribuição (Pinheiro e Milani 2012). Formava-se assim a área de Relações
Internacionais no País.
Por outro lado, a partir dos anos 1970, o crescente multipolarismo econômico e
político internacional ' coexistente com a bipolaridade estratégica ' abriria
oportunidades para um comportamento mais flexível e proativo dos países
periféricos em geral e dos latino-americanos em particular (até então mais
reativos que proativos na política internacional), enriquecendo suas agendas de
política externa e dando uma motivação tanto política como acadêmica ao estudo
da política externa.
Este contexto levou a que acadêmicos brasileiros buscassem refletir sobre o rol
de oportunidades internacionais do País no período a partir das ferramentas
analíticas das Relações Internacionais. No seu conjunto, essa produção refletia
em grande parte a preocupação dos formuladores da política externa brasileira
de então acerca do "marco de autonomia possível da política externa, a partir
do declínio da hegemonia norte-americana e das mudanças na política externa do
país a partir de 1974" (Herz 2002, 18). Dentre outros trabalhos desenvolvidos
nessa chave podemos citar os de Martins (1975), Lima (1986) e Camargo (1988).
Mas, além dessa preocupação de ordem acadêmica e normativa sobre o período que
lhes era contemporâneo, os estudiosos lançaram-se à investigação a respeito de
períodos pretéritos em que as restrições sistêmicas, embora mais rígidas que as
contemporâneas, não teriam impedido um comportamento mais autônomo por parte do
Brasil (Hirst 1982; Moura 1980, dentre outros). Desenvolvia-se assim o campo de
estudos sobre a Política Externa Brasileira, agora sob a égide da Analise de
Política Externa. De fato, como bem notado por Lima, "no seu início, a área de
Relações Internacionais [no Brasil] se confundia com a Análise de Política
Externa e ambas eram identificadas como um campo disciplinar próprio, distinto
das demais disciplinas que também iniciavam seu processo de
institucionalização" (Lima, no prelo).
Além disso, o fortalecimento da produção intelectual das comunidades acadêmicas
stricto sensu (em acréscimo à produção intelectual de diplomatas, inicialmente
muito influente) trouxe ângulos de visão bem mais receptivos à hipótese da
existência de dissenso e mesmo de conflito interno sobre os rumos da política
externa brasileira, interpretação em geral ausente da produção de autoria dos
diplomatas em vista de sua incompatibilidade com o quadro cognitivo desses
representantes dos interesses nacionais.
O fato é que, nos dias de hoje, em decorrência da expansão e da
institucionalização de cursos de graduação e pós-graduação em Relações
Internacionais no País, assim como da formação de alguns profissionais em
universidades estrangeiras com larga tradição na área, a produção da comunidade
de estudiosos no Brasil no campo de estudos de APE é não apenas maior, mas sem
sombra de dúvida feita a partir de um profícuo diálogo com a produção teórica e
analítica de APE no mundo.
É de se notar que, embora a área de RI seja hoje muito maior em quantidade e em
diversidade temática e teórica do que na sua formação original, isso não levou
a uma redução do campo específico da APE nos estudos sobre política externa
brasileira. Isso é visível tanto nas dissertações de mestrado e teses de
doutorado sobre o tema como também na expressiva quantidade de trabalhos sobre
a política externa brasileira apresentados nos encontros regulares das
associações científicas nacionais e internacionais5. Da mesma forma, os
periódicos nacionais especializados têm sido veículos privilegiados de
divulgação de pesquisas na área6.
A liberalização do regime político brasileiro nos anos 1980 e a diversificação
da pauta de interesses do País em decorrência do fim da Guerra Fria e da
intensificação da globalização também são fatores que contribuíram fortemente a
incrementar o interesse pelas ferramentas da APE para pensar a política externa
brasileira, já que o aumento da participação de atores sociais nos debates e no
processo de formulação da política externa brasileira, bem como o acesso mais
democrático às informações sobre a política externa, estimularam os
pesquisadores a investigar o papel desses novos atores na política externa.
Por fim, a crescente visibilidade do Brasil na comunidade internacional
aumentou o interesse por parte de pesquisadores sobre a política externa do
País, além de expandir ainda mais o leque de temas a constituir a agenda da
política externa brasileira. Desse contexto resulta um retrato bastante
promissor da área, cujas tendências resumiremos a seguir.
No corte mais convencional da APE, ou seja, aquele voltado para o exame das
unidades de decisão e do processo decisório stricto sensu, os estudos sobre a
política externa brasileira tem sido relativamente tímidos. De fato, para além
de pesquisas que buscaram lançar luz sobre o funcionamento da arena decisória
da política externa brasileira durante o período militar autoritário que, ao
contrário do que afirmavam as teses então vigentes, demonstraram a grande
complexidade do período (Gonçalves 1993; Pinheiro 2000), só recentemente
surgiram novas perspectivas de trabalho nessa linha. Concorreu para esse
renovado interesse a respeito das unidades decisórias a própria mudança
ocorrida no cenário doméstico e internacional que potencializou a presença de
novas unidades no processo de decisão. Assim, a presença dos governos
subnacionais ' municípios e estados ' na construção de parcerias internacionais
para o País tornou-se objeto de investigação de alguns pesquisadores (Vigevani
2004; Salomón 2011), assim como a ação externa dos chamados ministérios
domésticos e outras agências federais, que vêm alterando a arquitetura da arena
decisória, trouxe para o debate a literatura sobre minorias burocráticas
(Kaarbo 1998), como fizeram Macedo (2008) e outros.
Deve-se registrar, igualmente como um primeiro passo na direção de reflexões
mais analíticas, as pesquisas que buscam mapear esse novo arranjo institucional
(Rivarola Puntigliano 2008; França e Sanchez Badin 2010; Figueira 2011;
Pinheiro 2009). Apesar de a discussão sobre as conseqüências desta nova
configuração (Pinheiro e Milani 2012) ser ainda incipiente, essa preocupação
que encontra respaldo na literatura sobre Administração Pública, Políticas
Públicas e Sociologia das Instituições certamente fornecerá insumos essenciais
para futuras pesquisas de fôlego mais analítico. Ainda no campo de processo
decisório, a análise cognitiva tem sido uma ferramenta utilizada com bastante
sucesso. Arbilla (2000), por exemplo, demonstrou como os arranjos
institucionais domésticos foram responsáveis por mudanças conceituais
adaptativas e graduais e que a reformulação do quadro conceitual da diplomacia
brasileira constituiu um complexo processo político no qual estava em jogo a
própria implementação das mudanças nas respectivas agendas externas. Já Silva
(1995) propôs uma análise a respeito da influência das ideias sobre a
formulação da política externa brasileira focalizada na atuação do País na Liga
das Nações e nas Nações Unidas utilizando uma série de enfoques que dão ênfase
aos fatores ideacionais (Goldstein e Keohane 1993; Vetzberger 1990; Yee 1996).
Outros, embora claramente inseridos nesse mesmo campo, afirmam se inserir no
campo do Construtivismo, o que só ajuda a confirmar as tangencias entre este e
a análise cognitiva, conforme referido acima. Esse é o caso, por exemplo, de
Saraiva e Briceño Ruiz (2009), que analisaram as percepções de atores políticos
domésticos no interior dos maiores países membros do Mercosul a respeito do
processo de integração, assim como as ideias presentes na esfera pública de
apoio ou de rejeição ao bloco.
No campo das contribuições realistas, vale registrar a presença de um trabalho
(Alves 2002) que irá buscar em Waltz as explicações para o comportamento do
Brasil durante a 2ª Guerra Mundial. O mesmo Alves (2007) iria, anos mais tarde,
retomar o realismo como perspectiva teórica para analisar comparativamente a
posição do Brasil frente à 2ª Guerra Mundial e a guerra da Coreia. Dessa feita,
porém, o autor busca na vertente neoclássica do realismo a explicação para o
comportamento do Brasil, entendendo que variáveis intervenientes domésticas
tiveram peso explicativo para os dois casos.
Já com relação ao viés liberal, os exemplos abundam. O modelo do Jogo de Dois
Níveis tem despertado particular interesse dos estudiosos que examinam a
política externa brasileira nos fóruns comerciais internacionais. Curiosamente,
porém, esta que tem sido uma das linhas de investigação mais presentes no campo
é também a que revela mais lacunas na utilização do modelo, talvez pela sua
exigência intrínseca de ter que incorporar um considerável volume de dados
empíricos. Ainda assim podemos citar como um exemplo, dentre vários outros, de
sua utilização o trabalho de Oliveira (2003) sobre o contencioso do açúcar
entre Brasil e Argentina no Mercosul.
O conceito de estruturas domésticas desenvolvido por Risse-Kapen (1995) também
é um instrumento de investigação que vem sendo utilizado. Apoiado nele e com
louvável atenção à pesquisa empírica, Carvalho (2003) trata do papel de grupos
de interesse na formação da posição oficial brasileira para a III Conferência
Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, em 1999. Da
mesma forma, alguns pesquisadores têm lançado mão da contribuição de Martin
(2000) e de Milner (1997) para analisar a relação entre Poder Executivo e Poder
Legislativo na política externa brasileira. O trabalho de Alexandre (2006), por
exemplo, apresenta resultados muito interessantes ao demonstrar a validade da
hipótese de delegação sugerida por Martin no papel do Congresso Brasileiro na
política externa. Em linha semelhante, a pesquisa de Castro Neves (2003)
examina a relação entre os poderes Executivo e Legislativo na formulação da
política externa com relação aos acordos do Mercosul e da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca), apontando para o papel efetivo do Legislativo na
defesa dos seus interesses, apesar da centralidade do poder Executivo no
processo decisório em matéria de política externa. Vale destacar igualmente que
o papel do Poder Legislativo vem sendo também avaliado a partir da investigação
sobre como se comportam os grupos de interesse brasileiros na política
comercial por meio da sua ação no Congresso Nacional (Oliveira e Onuki 2008).
Já o Construtivismo também tem atraído diversos pesquisadores interessados em
avaliar a co-constituição agente e estrutura na política externa brasileira e
não apenas o papel das ideias no comportamento dos formuladores de decisão, mas
também de onde vêm essas ideias, crenças e valores e, mais, o que ocorre quando
essas mesmas ideias são socialmente compartilhadas e permanecem válidas por um
tempo mais longo. A titulo de exemplo, vale citar o trabalho de Mello e Souza
(2007) a partir do modelo de Keck e Sikkink (1998) sobre a influência das redes
de advocacia transnacional no sucesso brasileiro por ocasião da disputa
comercial com os EUA em torno dos direitos de propriedade intelectual relativos
a patentes farmacêuticas de remédios contra a Aids.
Por fim, há também a opção por dialogar com outras disciplinas, expandindo
assim as possibilidades de compreensão sobre a política externa brasileira.
Esse é o caso, por exemplo, de Vedoveli (2010), que, por meio do estudo dos
conceitos empregados por Rio Branco, Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, associou a
discussão sobre construção de identidade elaborada por Kratochwil (2006) às
ferramentas da História, em particular da História dos Conceitos (Koselleck
1992).
Considerações finais
Nossa visão positiva sobre o presente e o futuro desse campo de estudos no
Brasil não impede que apontemos para algumas lacunas que precisam ser
prontamente preenchidas, considerando os trabalhos citados como exemplos das
linhas epistemológicas e metodológicas mais contempladas atualmente no País. A
primeira delas refere-se à discussão sobre a influência da opinião pública na
formulação e conteúdo da política externa brasileira, carência já registrada
por Faria (2008). Nesse sentido, de bom grado recebemos a pesquisa realizada
por Franco publicada em 2009, assim como os surveys realizados com a chamada
comunidade de política externa brasileira, conforme denominação de Souza, em
duas diferentes oportunidades (2001, 2008). Da mesma forma, gostaríamos de
registrar o survey, ainda em andamento, sob coordenação de Maria Hermínia
Tavares de Almeida no âmbito do projeto do Centro de Investigación y Docencia
Económicas (Cide/USP), intitulado O Brasil e o Mundo, cujos primeiros
resultados já estão disponíveis ao público7. Não podemos deixar de sublinhar,
entretanto, que o acesso aos dados não dispensa os pesquisadores de enfrentar a
difícil tarefa de conceituar opinião pública, assim como de imputar
causalidades.
Outra lacuna, a nosso ver mais surpreendente, refere-se aos estudos centrados
no líder. Essa ausência nos chama atenção não apenas pela natureza do
presidencialismo imperial brasileiro (Lima 2000), o que por si só já seria
razão suficiente para avaliar as características particulares do mandatário na
política externa; mas, igualmente ' e ainda que de modo fortuito ', pelas
características particulares dos nossos líderes mais recentes, cujos carisma,
centralismo e ascendência apenas reforçam a importância dessa linha de
investigação.
Por fim, cabe reafirmar que este artigo não pretendeu mais do que compartilhar
com nossos leitores a nossa visão sobre o campo de estudos de APE e seu
desenvolvimento no Brasil. Resta-nos apenas registrar que em nenhum momento
pretendemos realizar um levantamento exaustivo da produção brasileira a
respeito. Nosso objetivo foi tão somente indicar que perspectivas analíticas
foram utilizadas ' algumas mais intensamente, outras menos ', que diálogos
interdisciplinares foram e têm sido realizados e que caminhos ainda podem e
devem ser trilhados.
No entanto, para além dessa avaliação panorâmica, talvez valha reiterar um
único aspecto. De fato, não só devido à sua relevância epistemológica, como
também por seu caráter de estímulo para os que já se dedicam a pesquisas nesse
campo de estudos e para os que ainda poderão vir, consideramos importante
sublinhar aquela que é, a nosso modo de ver, a marca desse campo de estudos:
sua pluralidade e abertura a novas perspectivas. Esse traço não apenas vem
permitindo contemplar a própria reconfiguração pela qual passa a própria
política externa nos dias atuais, como nos capacita como cidadãos a atuar sobre
ela.