O ofício do historiador hoje: entrevista com Stuart B. Schwartz
Professor no Departamento de História da Universidade de Yale, Stuart Schwartz
é considerado um dos mais importantes historiadores do período colonial. Entre
seus livros publicados no Brasil, destacam-se: Burocracia e sociedade no Brasil
colonial (Perspectiva, 1979); Segredos internos: engenhos e escravos na
sociedade colonial (Companhia das Letras, 1988); Escravos, roceiros e rebeldes
(Edusc, 2001); A América Latina na época colonial (com James Lockhart,
Civilização Brasileira, 2002); As excelências do governador: o panegírico
fúnebre a D. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Companhia das Letras, 2002).
Publicou ainda artigos em revistas brasileiras e editou importantes coletâneas
ainda não traduzidas para o português, como Implicit understandings: observing,
reporting, and reflecting on the encounters between Europeans and other peoples
in the Early Modern Era (Cambridge University Press, 1994); Tropical babylons:
sugar and the making of the Atlantic World (University of North Carolina Press,
2004). Dirigiu com Frank Salomon, o volume sobre a América do Sul The Cambridge
history of native peoples of the Americas (Cambridge University Press, 1999).
Organizou também a edição em língua inglesa da obra de João Capistrano de
Abreu, Chapters of Brazil colonial history 1500-1800 (Oxford University Press,
1997); e, recentemente, reuniu e traduziu documentos sobre os primeiros 150
anos da colonização portuguesa: Early Brazil: a documentary collection to 1700
(Cambridge University Press, 2010).
A entrevista a seguir foi concedida pelo historiador norte-americano em sua
última passagem por São Paulo, em agosto de 2009, por ocasião do lançamento de
seu livro Cada um na sua lei: tolerância religiosa e salvação no mundo
atlântico ibérico1. Nela, Schwartz aborda as transformações dos estudos latino-
americanos e o papel dos novos brasilianistas nas universidades brasileiras e
norte-americanas nas últimas duas décadas, chama atenção para a complexa
relação entre as agendas políticas governamentais e o mundo universitário. Os
requisitos exigidos para o exercício da profissão são também objeto da sua
reflexão no contexto das novas tecnologias de informação. Schwartz menciona
ainda seus projetos de pesquisa em andamento, entre os quais um estudo sobre a
história social dos furacões no Caribe, inspirado na obra de Fernand Braudel.
Redigido era Bush, comenta o seu mais recente livro sobre as atitudes de
contestação individuais e irreligiosidade no mundo ibero-atlântico; e explicita
seu estilo interpretativo em que articula a história social com a história
cultural e antropológica. Responde às críticas e reconstitui as polêmicas
suscitadas pela publicação da obra coletiva The Cambridge history of native
peoples, resenhadas em L'Homme por Claude Levi-Strauss2 e nos Annales Histoire
et sciences sociales por Luiz Felipe de Alencastro e Carmen Bernand3.
A ERA DOS BRASILIANISTAS: PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA E AGENDAS GOVERNAMENTAIS
Iris Kantor - Entre os historiadores brasileiros, até pelo menos meados da
década de 1990, você foi reputado como um historiador brasilianista. Como se
formaram os primeiros especialistas em história do Brasil nas universidades
norte-americanas?
Já antes da década de 1950 havia brasilianistas nos Estados Unidos, pessoas
como Alexander Marchant, cuja obra Do escambo a escravidao: sobre as relações
entre portugueses e indígenas, publicada em 1943, inaugurou uma nova abordagem
interpretativa. Igualmente, Stanley Stein trouxe a perspectiva dos estudos de
comunidades (desenvolvido por Robert Redfield da escola de Chicago), para o
campo da história em seu clássico trabalho sobre a transição do trabalho
escravo para o trabalho livre na cidade de Vassouras, no Rio de Janeiro,
doutorado defendido em Harvard em 1951. Mas foi apenas com a revolução cubana e
a crise de consciência intelectual que se seguiu que o interesse pelas
realidades regionais da América Latina floresceu na academia. O Brasil era
ainda pouco estudado, e um número pequeno de estudiosos como o próprio Stanley
Stein, Lewis Hanke (Columbia), Richard Morse (Yale), George Boehrer (Kansas) e
alguns outros começaram a orientar pesquisas sobre o país. Os Estados Unidos
patrocinaram o estudo de línguas estratégicas pouco estudadas, entre as quais o
português, o que foi um incentivo para os estudantes.
No início da década de 1960, a percepção dos políticos norte-americanos das
repercussões do governo de Jango e dos movimentos camponeses liderados por
Julião sugeriam que o Brasil seguiria o exemplo de Cuba. Os gestores norte-
americanos buscaram estimular a formação de especialistas que pudessem
dissuadir as correntes de esquerda no Brasil. No entanto, por ironia, a maioria
dos jovens estudiosos treinados como brasilianistas nos Estados Unidos acabaram
lendo Florestan Fernandes, Caio Prado etc. Depois de 1964, eles frequentemente
tomaram posições que contradiziam os interesses da política estadunidense para
a região. Talvez o caso mais famoso envolvendo um brasilianista tenha sido o de
Bradford Burns, cuja oposição às intervenções dos Estados Unidos na Nicarágua e
em El Salvador o fez ser denunciado publicamente pelo presidente Ronald Reagan.
Monica Dantas - Afinal, qual seria o papel dos brasilianistas no mundo
universitário contemporâneo?
Acho que ainda há uma espécie que se pode chamar brasilianista, mas a função do
brasilianista mudou, e o mundo não é mais o mesmo. Porém, sempre houve e sempre
haverá especialistas estrangeiros que se interessam pelo Brasil e dedicam seus
interesses ao país; sua história, sua situação social, política etc.
No momento eu sou, num certo sentido, um dos últimos da geração em que ser
brasilianista representava algo aqui no Brasil; uma pessoa que vinha olhar de
fora, que apresentava as mais recentes tendências, metodologias etc. Houve um
momento em que a palavra brasilianista era muito bem acolhida. No entanto, nos
últimos quarenta anos, com a profissionalização do ensino no Brasil, com a
expansão dos programas de pós-graduação e a decorrente ampliação do número de
professores e profissionais, com formação ou no Brasil ou no exterior, o quadro
realmente mudou muito. Já não há mais necessidade do olhar externo oferecido
pelos brasilianistas, eles já não são mais mediadores das mais novas técnicas e
metodologias. Mesmo assim, acho que ainda há um lugar para um "olhar de fora"
que enriquece a visão brasileira, que apresenta outro ponto de vista. A
formação de brasilianistas no exterior ainda é uma coisa positiva, mas, na
verdade, atualmente, há menos apoio nos Estados Unidos para os estudos
brasileiros; outras preocupações, outros lados do mundo têm preocupado mais os
norte-americanos. A batalha pelos direitos civis, principalmente da população
negra, nos Estados Unidos, está agora também em uma situação diferente; a
comparação com o Brasil já não é tão atraente como era nos anos de 1960 ou
1970. Tudo isso mudou um pouco, e uma das queixas nos Estados Unidos é de que
não temos pessoas suficientes entrando no campo da história, especialmente no
campo da história da América Latina, interessadas em estudar o Brasil.
Iris Kantor - Mas o fluxo inverso também ocorre. Há brasileiros dando aulas nos
Estados Unidos?
Sim, isto tem mudado. É muito difícil distinguir um brasilianista, agora, dos
brasileiros; além disso, há brasileiros brasilianistas, brasileiros formados
nos Estados Unidos, e brasilianistas brasileiros, que são pessoas como Robert
Slenes, Douglas Libby, John Monteiro, Michael Hall... Norte-americanos que se
radicaram no Brasil. Então, são brasilianistas brasileiros, impossível
distinguir. Portanto, o significado da palavra tem se transformado ao longo do
tempo.
Iris Kantor - Hoje, quais temas, países ou áreas de concentração responderiam
mais aos interesses da política de Estado norte-americana? Como a pesquisa
universitária se relaciona com as agendas estatais, e como os intelectuais
convivem com esses interesses?
Essa é uma questão muito difícil e complexa. Nos Estados Unidos, poucos
acadêmicos estudam uma região ou uma cultura, em seus trabalhos de doutorado,
tendo em vista uma atividade política governamental. Para tanto, é mais
frequente obter um título em direito ou economia e ir trabalhar diretamente
para o governo. A maior parte dos acadêmicos não tem uma agenda política
imediata ou um engajamento com o governo. Contudo, pode-se argumentar que a
universidade como um todo é fortemente influenciada por financiamentos que vêm
do governo ou até mesmo do setor privado.
Pode-se dizer que a academia norte-americana como um todo está bem mais à
esquerda do que a nação. Isso leva aos constantes apelos por paridade em
nomeações, grupos de vigilância estudantil relatando sobre a política dos
professores e reclamações contra acadêmicos da Ivy League na Corte Suprema etc.
Nos Estados Unidos há uma tendência profunda de anti-intelectualismo que
normalmente impede os acadêmicos de exercerem influência política direta. Os
casos de Kissinger, Brzehzinsky e alguns outros são exceções. Raramente, por
exemplo, os governos seguiram o exemplo de J. F. Kennedy e nomearam
embaixadores saídos da academia.
Atualmente, estudos sobre China e Oriente Médio estão recebendo muito mais
estímulo governamental do que o estudo da América Latina, embora o crescimento
do potencial econômico do Brasil seja constantemente mencionado nos
noticiários. Assim como o México, alvo de atenções em função das disputas pós-
modernas do tráfico de drogas e das questões de imigração, o Brasil, também,
cada dia mais, tenderá a ganhar centralidade nos Estados Unidos.
Monica Dantas - A definição das áreas de investigação centradas no recorte
regional ou nacional (American Studies, Latin-American Studies, Brazilian
Studies) ainda é produtiva?
Os efeitos da globalização são perceptíveis. As abordagens regionais (América
Latina, Ásia Oriental, África etc.) predominaram na academia por um longo
tempo. As ciências sociais ambicionam, porém, um conhecimento mais
generalizante e uma perspectiva menos cultural de seu campo de estudos
específicos. Essa postura, aliada à tendência em direção a estudos sobre a
globalização diminuiu o papel de especialistas regionais e de centros
regionais. Além disso, o fracasso dos especialistas da União Soviética e do
Leste Europeu em prever o colapso da própria União Soviética nos anos de 1980
diminuiu consideravelmente a reputação de estudos em escala regional/nacional
como um paradigma para entender a dinâmica social e política de qualquer região
ou país.
O OFÍCIO DO HISTORIADOR HOJE
Monica Dantas - Nos últimos anos houve profundas mudanças no sistema de pós-
graduação. Do seu ponto de vista, quais as diferenças essenciais entre um
mestrado e um doutorado, ou as pesquisas e as obras são essencialmente
similares?
Esse processo já está em curso há bastante tempo. Quando os franceses acabaram
com o Doctorat d'État, também houve questionamentos. De certa forma, essas
mudanças correspondem às novas demandas da sociedade contemporânea.
Muitas dissertações de mestrado são publicadas no Brasil. Nos Estados Unidos
eles raramente são publicados. O nível dos programas de mestrado nos Estados
Unidos é apenas preparatório e não exige o mesmo nível de preparação que um
programa de doutorado. Porém, o programa de mestrado dos Estados Unidos
propicia a realização de bons trabalhos, muitos deles equivalentes aos dos
estudantes europeus e brasileiros que estão entrando em programas de doutorado.
Acredito firmemente que as teses e os programas de doutorado não deveriam
demorar tanto. A tese deveria ser a primeira e não a última coisa que um
estudante escreve.
Iris Kantor - O sistema em curso é cada vez mais opressivo, os pesquisadores
são impelidos a publicar e divulgar suas investigações antes mesmo de elas
estarem completamente concluídas. Doutorados que levassem mais tempo para serem
concluídos não seriam mais consistentes e menos vulneráveis aos modismos
acadêmicos?
Sim. Às vezes há essa queixa nos Estados Unidos: uma vez formados, com tanta
pressão para publicar, muitos pesquisadores publicam coisas mais secundárias,
porque não têm o "luxo" de aguardar o tempo necessário para pensar e investigar
de uma maneira exaustiva; e este é o preço que estamos pagando.
Monica Dantas - Mas isso não seria perigoso? O seu último livro, por exemplo,
levou dez anos para ser feito; será que, de fato, não são necessários vários
anos para que se possa gestar uma pesquisa e um bom livro?
Um livro como o de Marcel Bataillon, Erasmo na Espanha (1950), por exemplo,
seria muito difícil de ser concebido hoje, ninguém mais pode dizer: "vou
escrever um livro de oitocentas páginas sobre Erasmo na Espanha". Realmente,
não há mais a possibilidade de se fazer isso. É realmente muito difícil, dada a
estrutura dos estudos de história - e considerando que a grande maioria dos
historiadores está realmente ganhando o pão de cada dia lecionando -, conceber
a ideia de escrever um livro de oitocentas páginas que talvez quinhentas
pessoas no mundo venham a ler. Existem exceções, mas acho que é uma coisa fora
do comum.
Talvez a resposta seja a obra coletiva, ou o desenvolvimento de uma série de
trabalhos que poderia resultar em uma obra grande, mas que satisfaça as
demandas, os requisitos da vida profissional. Em nosso sistema, conheço vários
casos de pessoas que produziram o primeiro livro, conseguiram a tenure e depois
foram dormir [risos]. Passaram os vinte anos seguintes incapazes de produzir
sequer mais uma obra. Estes são os perigos da profissão.
Monica Dantas - Nos Estados Unidos, a universidade te libera das aulas para
você escrever e pesquisar? Os anos sabáticos, por exemplo, ainda existem?
Na maioria das universidades norte-americanas há uma política de sabáticos: a
cada seis anos você tem direito a um ano livre para fazer pesquisa. Em outras,
há programas parecidos, mas não exatamente iguais. Há também, em várias
universidades, sistemas de semestres livres, especialmente para jovens
professores, para que convertam a tese de doutorado em livro. Existem apoios
desse tipo para o desenvolvimento do corpo docente, e essa é uma grande
vantagem, porque escrever e ao mesmo tempo preparar aulas é muito, muito
difícil.
Iris Kantor - Como você avalia as transformações do nosso campo profissional
desde o seu doutoramento na Universidade de Columbia em 1968? O que de fato
mudou no ofício do historiador nos últimos cinquenta anos, do ponto de vista do
cotidiano e da organização da pesquisa? Há mudanças significativas?
Sim, a digitalização. Comecei na época da máquina de escrever, depois passei
para a máquina de escrever elétrica e depois para os primeiros computadores.
Tenho acompanhado essas transformações tecnológicas, e vejo o seu impacto na
pesquisa.
Eu estava pensando no meu pai, ontem. Ele nasceu realmente no início do mundo
do avião e viveu para ver homens caminhando na lua, viveu transformações muito
radicais. Eu também estou vivendo outra transformação radical, essa da
Internet, do CD-ROM etc.
Tudo alterou completamente o nosso modo de trabalhar. Os estudantes agora fazem
pesquisa com laptops e vão para o arquivo fazer um scan. Lembro que quando fui
aos arquivos portugueses havia um senhor, no Arquivo da Biblioteca da Ajuda em
Lisboa, que vivia de copiar documentos à mão, porque não havia sequer uma
máquina de fotocópia. Então esse senhor, o Sr. Balheiro, fazia as cópias à mão
e eu pagava tantos escudos por página. Isso tudo mudou, e há vantagens e
desvantagens.
Monica Dantas - E quais seriam as desvantagens?
Creio que, às vezes, o contato direto com o documento vale algo. Não sei. É
como consultar um livro na Internet: você perde algo. Há uma perda de
informação. Por exemplo, eu estava na Espanha, para a pesquisa de meu novo
livro, e tive a oportunidade de trabalhar na biblioteca colombina, que era a
antiga biblioteca de Colombo na Catedral de Sevilha, onde também há um arquivo
com vários tipos de documentos. Consultando alguns livros de catequese do
século XVI - que eram muito populares na época e dos quais há muitos exemplos
na América -, foi interessante notar que esses livros eram muito pequenos. Daí
eu entendi que eles eram assim porque quando as pessoas (os imigrantes)
chegavam a Sevilha para partir rumo à América, elas queriam levar algo para a
viagem. Como quando estou me preparando para tomar um avião, separo um jornal,
uma revista... Eram então livros de bolso, ou "guia para os pecadores". Eram
edições muito pequenas. Assim, se você consulta isso só pela Internet, perde o
livro como objeto, o aspecto táctil do livro. Isso é um sacrifício; ainda que a
revolução digital seja muito importante, eu não estou preparado para deixar os
livros de lado.
Monica Dantas - Ainda sobre a revolução digital: hoje há uma circulação de
informações muito maior do que havia vinte ou trinta anos atrás. Temos, a
princípio, um corpus de dados e informações à disposição, mas até que ponto
isso é um benefício? Ou isso pode trazer problemas?
Necessariamente os dois. Por um lado, você tem um mundo de documentação muito
mais amplo. Pode-se fazer uma busca por um termo, por exemplo, "inquisição"; no
Google aparecerão coisas que não poderia imaginar. Mas, ao mesmo tempo, o
documento não faz nada em si, é sempre a conceitualização do historiador que
torna o documento importante ou não. Os estudantes devem aprender que a
conceitualização é o ponto de partida e que o documento só serve para certos
fins. Um documento pode dizer coisas diferentes a pessoas diferentes.
Monica Dantas - Antigamente havia uma quantidade menor de documentos porque o
acesso era mais difícil, e o pesquisador tinha que se dedicar mais para
construir um embasamento teórico, metodológico e conceitual para lidar com
aquele número relativamente restrito de fontes. Até que ponto esse excesso de
informação não estaria levando a uma espécie de "neopositivismo"?
Podemos dizer que sim, mas acho que o positivismo não depende do número dos
documentos, depende da mentalidade do historiador. O número de eventos, fatos,
documentos não faz história. É o historiador que faz a história. Levando isso
em conta, acho que este perigo não é tão grande. Não depende, ao menos, do
número de documentos. O que é possível é verificar se os pensamentos são
originais, porque é muito fácil agora conferir na internet quando as coisas são
repetidas ou reutilizadas.
Iris Kantor - Como lidar com o problema dos acervos digitais que nem sempre
fornecem referências exatas sobre o universo documental à disposição?
Esse é o problema dos estudantes com a Wikipédia, por exemplo, ou outros
similares. Pois não há como saber de quem é a definição ou as definições da
Wikipédia, ou por que o verbete foi escrito daquela maneira. Às vezes a
informação que vem da internet contém erros enormes ou preconceitos. Tenho
usado a internet, aproveitando para ler uma documentação que não estava
disponível antes, mas eu nunca poderia depender só disso. Talvez para as
futuras gerações de historiadores o arquivo se torne algo cada vez mais
distante. Se eu já tenho muita coisa na internet, então porque preciso ir até o
arquivo? Esse é o meu medo em relação aos alunos.
A HISTORIA SOCIAL PELO PRISMA DA CULTURA: NOVOS OBJETOS DE INVESTIGAÇÃO
Iris Kantor - Gostaria de falar um pouco sobre seu último livro e os novos
projetos de pesquisa. Quais os temas que o têm preocupado neste momento?
Acabo de completar este livro sobre a história de religião ou irreligião (Cada
um na sua lei), em que faço uma história cultural, um verdadeiro noviciado
neste campo.
Monica Dantas - Até que ponto este é um livro de História da Cultura, e até que
ponto é um livro de História do Cotidiano, já que você recupera as vivências e
as expressões cotidianas em relação às práticas religiosas? Isso é uma História
da Cultura ou é uma História do Cotidiano? Uma everyday life...
Não sei se devemos separar cotidiano de cultura. Creio que não. Cotidiano é
simplesmente a cultura do dia a dia, em certo sentido. Na minha concepção,
cultura é uma coisa muito abrangente, muito dinâmica. Não há uma cultura, mas
culturas que estão em "movimento" constante, em mudança permanente. As culturas
têm sua vida cotidiana e, no meu modo de entender, não há uma separação, não
vejo muita diferença entre uma coisa e outra. Num certo sentido, também não
percebo a diferença em relação aos antigos interesses por História Social,
porque ainda estou interessado nisso. Simplesmente, nesse caso, concentrei-me
nos indivíduos em vez de me deter nos grupos sociais, mas sempre com um olhar
para a origem desses grupos sociais e sua relação com a sociedade como um todo;
continuo interessado nisso.
Tenho atualmente três projetos que gostaria de terminar antes de me aposentar,
ou antes de deixar a história de lado. Um deles é um projeto pequeno. Não tenho
falado sobre isso, mas é um projeto que desenvolvi com uma pós-graduanda
holandesa em Yale. Por muitos anos eu tive acesso a um texto de um senhor
holandês chamado Otto Keye, intitulado "As terras quentes e as terras frias".
Uma espécie de panfleto escrito no século XVII para promover a imigração
holandesa às terras quentes, o Suriname, e não para Nova Amsterdam, a América
do Norte. Um texto muito interessante, mas como não fiz sequer um ano de
holandês, quando esta estudante fez meu curso - ela é especialista em História
Contemporânea - eu a convidei para trabalhar nisso comigo. Ela foi à Holanda e
fez a investigação... O que me interessou é que esse Otto Keye nunca esteve no
Suriname, mas tinha experiência no Brasil holandês. Tudo o que ele descreve da
terra tropical não é exatamente sobre o Suriname, mas sobre o Brasil. Quantos
escravos são necessários para começar uma fazenda, quanta mandioca deve ser
plantada etc. Voltou à Holanda, depois da expulsão dos holandeses do Brasil, e
formou um tipo de companhia com outro senhor holandês - que tinha muito contato
com a Inglaterra. Eles montaram uma colônia ao norte da América do Sul, o
Suriname, na parte que agora é Guiana Francesa, e que fracassou. Ocorreu uma
briga, ele matou a filha do outro, houve um processo na Holanda, e toda essa
documentação existe. Ou seja, é um caso de ressaca (vamos dizer) da expulsão
dos holandeses do Brasil. É um exemplo de uma dessas colonizações que falharam,
fracassaram. Será um pequeno projeto que talvez resulte num livro pequeno, uma
narrativa, algo assim... Ainda não sei como será. Já fizemos bastante coisa e
vamos continuar trabalhando nele.
Monica Dantas - E os outros dois?
Um deles, que eu venho desenvolvendo desde o início da minha carreira é
intitulado "O Atlântico no período da restauração": o Brasil e o Atlântico no
mundo desde 1580 até 1670. No início, Espanha e Portugal eram os grandes
poderes mundiais e, no final, poderes do segundo ou terceiro escalão. Procuro
entender como foi essa transformação, o que implicou e qual foi o papel do
Atlântico Sul nesse processo. Venho recolhendo materiais nos últimos quarenta
anos e estou esperando uma oportunidade de sentar e escrever. Venho trabalhando
em arquivos da Inglaterra, da França, da Holanda. Tenho muito material. Até
demais.
O outro projeto é uma História Social dos furacões, um projeto que venho
desenvolvendo há vários anos, muito estimulado pela leitura de Fernand Braudel.
Quero trabalhar um pouco com o Caribe, onde passo muito tempo por causa da
minha esposa, Maria Jordan, que é porto-riquenha. Por isso, pensei em escrever
algo, mas não queria mais tratar da escravidão. Tenho dois livros sobre
escravidão e acho que já disse o que tinha para dizer; estou buscando, então,
uma maneira de inserir o Caribe, mas que não seja pelo viés da escravidão.
Relendo Braudel percebi que o caso do Caribe seria ideal para trabalhar as
relações entre meio ambiente, sociedade e história. É uma zona de ocorrências
anuais de furacões. E o Caribe é muito interessante porque tem ilhas
britânicas, francesas, holandesas, espanholas, e todas têm que se confrontar
com o mesmo fenômeno natural. Ou seja, é uma oportunidade para uma história
comparativa de mentalidades, de política e de cultura. Comecei isso há quinze
anos e já publiquei dois ou três artigos4. Este projeto já está bem adiantado.
Tenho agora que decidir entre fazer dois livros. Um só sobre Porto Rico, porque
tenho muito material, e outro mais geral, sobre o Caribe, que exige muito mais
pesquisa, visitar, por exemplo, os arquivos das ilhas francesas e inglesas. Ou
então fazer um só livro, integrando tudo.
A ideia do livro sobre Porto Rico seria tratar de cinco furacões ao longo da
História, desde Colombo até o presente. São momentos políticos bem distintos:
da dominação espanhola, o momento da penetração dos norte-americanos, durante a
Grande Depressão etc. Assim, pela história desta ilha exploro como a sociedade
confronta um desastre natural. Esses são três projetos já começados, e gostaria
de terminá-los.
HISTÓRIA COMPARADA DAS AMÉRICAS
Monica Dantas - Como fazer uma historia comparada das Américas? O espaço
atlântico permitiria esse tipo de abordagem? Quais são as possibilidades de
trabalhar simultaneamente com as colônias britânicas da América do Norte e o
restante da América?
Para o projeto do furacão, penso no grande Caribe. O Caribe do sul dos Estados
Unidos, do México etc. Tudo isso faria parte do estudo. O estudo do mundo
Atlântico tem que integrar a América espanhola. É uma parte fundamental do
projeto. Meu foco seria a rebelião portuguesa de 1640, porque me parece
importante estudar uma guerra que durou trinta anos e opôs os dois impérios
ibéricos, deixando espaço para os franceses, os ingleses, os holandeses.
Mas se aqui no Brasil sou conhecido como brasilianista, minha autodefinição é
de um historiador do "early modern hispanic world", porque tenho passado muito
tempo pesquisando fontes espanholas, trabalhando no Caribe, no México, em
Cartagena. Dessa forma meu olhar é mais amplo do que o Brasil. Vejo o Brasil
nesse contexto.
Sempre conto a história da minha primeira visita ao Brasil, quando vim com uma
carta de recomendação para uma entrevista com José Honório Rodrigues. Ao chegar
ao Rio de Janeiro, telefonei: "estou aqui, sou estudante de Lewis Hanke e
gostaria de cumprimentar e visitar o senhor". E ele disse: "não é possível
nesse momento porque amanhã estou viajando para a América Latina". Eu fiquei
impressionado porque eu acabara de chegar à América Latina, e a América Latina
para José Honório era a Bolívia ou o Peru. O Brasil não era a América Latina.
Essa era uma das diferenças entre um brasilianista e um brasileiro naquele
tempo; nós não nos considerávamos apenas brasilianistas, porque também éramos
especialistas em história da América Latina. Isso é a verdade sobre todos os
brasilianistas. A nossa responsabilidade foi sempre a de ensinar a história da
América Latina, não só a História do Brasil.
Iris Kantor - Qual é o lugar da história hemisférica nesse contexto latino-
americano? Ou seja, qual a importância de fazermos uma história comparada das
sociedades americanas?
Isso seria muito bom. Há excelentes historiadores especializados em América
espanhola. Acabo de passar um mês no Chile, e eles sabem pouco de
historiografia brasileira. Estão tratando exatamente dos mesmos assuntos, dos
mesmos temas e não têm nenhuma ideia da historiografia brasileira. Quatro anos
depois da publicação do livro de Laura [de Mello e Souza] sobre bruxaria, O
diabo e a Terra de Santa Cruz5, um senhor chamado Fernando Cervantes publicou
um trabalho sobre o diabo no México. Exatamente o mesmo tema, com muitas fontes
parecidas etc. Mas não há nenhuma citação do livro da Laura. Pior do que isso é
que todas as resenhas também nunca fizeram menção à existência do livro da
Laura, que era sobre o mesmo tema, com a mesma metodologia e resultados
semelhantes. Esse ano, quando estive no Chile, eles expressaram muito interesse
na historiografia brasileira, porque agora eles estão interessados em
escravidão, já que também houve escravidão no Chile. Há um grupo na
Universidade do Chile que está trabalhando com escravidão. Seria muito bom
fortalecer essas conexões.
Monica Dantas - Fica a sensação de que a ibero-américa e a anglo-américa tendem
a ser tratadas separadamente, com a justificativa de que foram dois modelos de
colonização distintos, o católico e o protestante.
De fato, a historiografia norte-americana é caracterizada por uma busca da
singularidade dos Estados Unidos. Os britânicos, também, são muito
autocentrados. Os especialistas britânicos em Early Modern History são muito
fechados. Poucos têm uma visão mais ampla que inclua a Europa. A culpa,
portanto, é um pouco deles. Mas há bons livros sobre o Canadá francês, por
exemplo, que tratam dos mesmos temas que são de interesse aqui: mestiçagem,
comércio.
Monica Dantas - Você concorda com essa excepcionalidade?
Não! Seria uma estupidez. Mas há uma virada agora porque a William and Mary
Quarterly, que é a principal revista sobre América do Norte colonial, tem agora
um latino-americanista no conselho. Eles acabam de publicar uma resenha
coletiva do meu livro, feita por alguns latino-americanistas e alguns
especialistas em América do Norte. Além disso, publicam, de vez em quando,
artigos sobre escravidão, textos que fazem menção ao Brasil ou à América
espanhola. Há uma nova abertura, ou ao menos um desejo.
Iris Kantor - O livro que você escreveu em parceria com James Lockhart, A
América Latina na época colonial, já propõe uma história comparada da América
hispânica e da América portuguesa. Há interesse no mundo editorial norte-
americano pela publicação de obras de escopo comparativo?
Sim. Não são muitas, mas há algumas. O estudo de John Elliott, Empires of the
Atlantic World: Britain and Spain in America (1492-1830)6 é um bom exemplo. O
nosso livro foi publicado nos Estados Unidos em 1983 e ainda está à venda. Há
uma edição em espanhol e uma brasileira. Não sei se vende ou não vende, mas...
Não é um livro comparativo, não intencionalmente, ao menos. Nosso desejo era
fazer uma história integrada da América Latina em que o Brasil fosse colocado
com suas peculiaridades, mas como parte do mesmo processo.
Monica Dantas - Quanto ao século XIX, o Brasil me parece um grande incômodo
para grande parte dos estudiosos, seja de países da América hispânica, seja da
América inglesa. E, na verdade, o problema parece ser: "era uma monarquia".
Sempre se lê o Brasil a partir da ideia "todo mundo virou república e o Brasil
virou uma monarquia".
Sim, a relação do Brasil com a América espanhola no século XIX é uma relação
tensa. Toda a questão do Rio da Prata (no início do Império), a Guerra do
Paraguai (ao fim do Império), o barão do Rio Branco que nunca nutriu muita
amizade pelos argentinos e falou dos países da América Central como as "putas"
dos Estados Unidos e esse tipo de coisa. Isto sempre complicou a relação, mas
ao mesmo tempo, após a decretação da República, foi Rio Branco quem estabeleceu
as primeiras embaixadas na América espanhola. O Brasil do século XIX estava
muito voltado ainda para a Europa.
O livro de João Camillo de Oliveira Torres, A democracia coroada7, defende que,
de fato, a única república, no século XIX, foi a monarquia brasileira, porque
as outras eram ditaduras. Enquanto havia caudilhos nas repúblicas do resto das
Américas, o Brasil era o único país com uma situação política estável, com
eleições, etc. [risos].
CADA UM NA SUA LEI? ATITUDES DE CONTESTAÇÃO ONTEM E HOJE
Iris Kantor - Voltando ao seu último livro: você demonstra a perfeita
compatibilidade entre a história cultural e a análise socioeconômica.
Sim. Sou profundamente materialista, e isto tem uma influência na maneira que
vejo as coisas. Sempre busco as explicações econômicas, os interesses
econômicos das gentes. Mas, às vezes, encontro pessoas que não estão buscando
seus interesses econômicos, cuja classe não explica seu pensamento e suas
ações, porque somos, como seres humanos, uma mescla, uma mistura de interesses.
Não somos sempre previsíveis, não estamos sempre buscando o interesse econômico
e tudo o que é subordinado a isso. Mesmo os senhores de engenho, que queriam
ganhar muito dinheiro, paravam os engenhos aos domingos. Então, como explicar?
Porque eles viviam o cotidiano da sua cultura. Como seres humanos, somos muito
complexos, e economia, sociedade e cultura formam o contexto das nossas ações.
Gostei muito dos personagens com que me deparei na leitura dos processos da
Inquisição. Essas pessoas tornaram-se minhas amigas, e o mais impressionante é
que elas - a despeito de toda a força do governo, toda força da igreja, toda
força da sua sociedade, dos seus vizinhos e amigos - impulsionavam em outra
direção e manifestaram suas opiniões: "Não, eu não concordo com isso. Eu não
vou viver minha vida dessa maneira. O meu entendimento da nossa religião é
outro...". Eles representam algo muito singular. E a decisão individual é uma
coisa que inspira respeito; mesmo nos tempos mais horríveis - no holocausto
etc. - houve pessoas que disseram: "Não, não concordo. Não vou fazer isso".
Estava lendo um livro recentemente, um livro que concorria com o meu para o
prêmio internacional Cundill oferecido pela Universidade McGill de Montreal, no
Canadá. É de Peter Fritzsche, historiador da Universidade de Illinois que
escreve sobre a Alemanha contemporânea. Ele publicou um livro chamado Vida e
morte no Terceiro Reich em que procura entender por que as pessoas colaboraram
com os nazistas, mesmo quando eles mesmos não eram nazistas. Eles sabiam dos
objetivos dos nazistas e, por uma razão ou outra, diziam: "não quero problema",
"talvez tenha um bom resultado para mim", "não quero colocar minha família em
perigo" etc. Por alguma razão eles decidiram assim. E, num certo sentido, meu
livro trata da outra face da moeda, pois, no meu caso, algumas pessoas
decidiram não colaborar. Mesmo assim, nós dois estamos procurando por que,
dentro da sociedade, pessoas tomam suas próprias decisões, pois isso também é
um dos motores da história. Trata-se da mesma pergunta que temos em relação a
Voltaire, Espinoza, aos grandes pensadores, pois eles são singulares no seu
pensamento...
Monica Dantas - E os anônimos?
Os anônimos também. Mas, como conjunto, se fossem muitos, poderiam mudar o
pensamento. Mudar a sociedade.
Iris Kantor - De que forma sua abordagem pode ser relacionada com a ascensão
dos neoconservadores na cena política norte-americana nos últimos quinze anos?
Não quero me estender muito sobre política nessa entrevista, mas a verdade é
que fiquei muito, muito descontente e frustrado com o regime dos últimos oito
anos. Não gostei nada da reintrodução da religião dentro de um Estado laico.
Achei e acho um erro que um governo esteja motivado por pensamentos religiosos
em sua política externa, em sua política interna, na educação etc. Nesse
sentido, sou um filho da Revolução Francesa, sou muito francês. Realmente
acredito na separação entre religião e governo. Religião é sobre a verdade,
governo é sobre negociação. Acho que os dois planos da realidade não devem ser
unidos. Isso não quer dizer que religião não seja importante na vida das
pessoas, mas acho que deve ser uma coisa privada e não pública. Isso
seguramente estava por trás dos meus pensamentos quando eu estava fazendo essa
pesquisa; pois aquele era um momento em que, apesar da religião ter peso no
governo, havia pessoas que diziam que "não, isso não é a maneira de armar a
sociedade".
Monica Dantas - No caso dos Estados Unidos a liberdade religiosa aparece como
um dos princípios fundadores do novo Estado, mas também há uma grande
identificação entre ser religioso e ser uma boa pessoa. Nesse sentido, a
impressão que se tem é de que há quase uma condenação ao agnosticismo ou ao
ateísmo, como se fosse o outro lado da moeda da liberdade religiosa norte-
americana.
Sim, justamente. Os primeiros..., os pais da constituição, muitos deles eram
deístas, eram religiosos no sentido de que acreditavam na existência de um
criador... Jefferson não era um cristão no sentido normal. Ele fez sua própria
Bíblia, tirando as partes que não gostava. Hoje em dia, nos Estados Unidos, há
uma tendência, um desejo, de transformar esses fundadores em cristãos, em bons
cristãos, muito religiosos. À época da independência dos Estados Unidos, menos
de metade das pessoas era praticante em igrejas formais. Menos da metade! O
livro de meu colega, John Butler, de Yale, é sobre a história da religião dos
Estados Unidos. Ele resgata as pessoas que não iam regularmente às igrejas.
Metade! Mas agora há uma tendência a reinventar os "pais fundadores" como
homens muito religiosos.
Monica Dantas - "They are sanctifying the founding fathers".
Sim, "sanctifying the founding fathers". Quando eu estava na escola, o grupo
dos conservadores convidou um senhor para fazer uma palestra e eu fui recebê-
lo. Fiquei de queixo caído porque ele estava completamente equivocado. Nos
Estados Unidos, que é um país da vanguarda da ciência, é muito estranho
questionar a teoria da evolução nas escolas. O que é isso? Imagine! Você acha
que se nós não fizermos pesquisa com células-tronco, os coreanos e os japoneses
vão deixar de fazê-lo? Isso só vai deixar nosso país muito atrás. Muito atrás!
É por isso que religião e Estado devem ser separados, sempre. O contrário fará
com que os Estados Unidos caiam para segunda categoria. Por isso aqueles oito
anos, acredito, foram um desastre para os Estados Unidos.
POLÊMICAS E MODELOS INTERPRETATIVOS: ENTRE A DISPUTA DA AMÉRICA E A
PREEMINÊNCIA ACADÊMICA
Iris Kantor - Eu gostaria de entrar um pouco no debate em torno das teorias
pós-estruturalistas e pós-colonialistas. Qual a sua opinião a respeito das
interpretações estruturalistas dominantes nos anos de 1960 e 1970? Como você vê
esses modelos teóricos?
A teoria é uma arma. Ajuda ou não ajuda? Pode ser "helpful or not helpful". Eu
nunca abracei o pós-colonialismo, porque nunca me ajudaram a explicar os
fenômenos que eu queria explicar. Às vezes, os livros que falam de pós-
colonialismo tratam do período do colonialismo. Não entendo o que é pós-
colonialismo. Isso não me atrai.
Iris Kantor - Os Estados nacionais que tiveram um passado colonial não teriam
nada em comum?
Antigamente dizia-se que a falta de desenvolvimento da África decorria de ter
vivido séculos como colônia, impossibilitando que os países se desenvolvessem
de maneira a estabelecer a estabilidade política, econômica etc. Mas, ao mesmo
tempo, desconsideram a Malásia, o sudeste asiático, os tigres do sudeste, que
também eram colônias. A Índia, por exemplo, a grande colônia da Inglaterra,
agora está em processo de desenvolvimento. Logo, acho que o colonialismo pode
resultar em atraso ou não. Assim, essa visão não ajuda muito para pensar sobre
a especificidade da situação política.
Monica Dantas - Como você vê a aplicação de modelos matemáticos na análise
historiográfica?
Há vários tipos de perguntas históricas e cada uma merece um tratamento
adequado. Se estou interessado no desenvolvimento da indústria do algodão,
tenho que buscar certo tipo de fonte e aplicar certos métodos, certas técnicas
para responder tais perguntas. Se procuro as origens do pensamento religioso,
tenho que recorrer a outros métodos e fontes. Então, a minha metodologia é
sempre um pastiche. É muito prática e é um tipo de apropriação de vários
métodos em função do objeto. Cada pergunta é diferente. Por exemplo, uma
pergunta sobre "onde" é diferente de uma acerca do "porquê". Se estou
interessado na pergunta de "onde", então a cartografia é muito boa; espaço,
lugar etc. Se estou interessado em "quando" ou "como", então é necessário outra
maneira de pensar. Sou muito eclético nesse sentido.
Íris Kantor - Os dois volumes da obra coletiva coordenados por você e Frank
Salomon - The Cambridge history of native peoples (1999) foram objeto de
acirrada polêmica nas páginas da prestigiosa revista francesa Annales em 2002.
Passados sete anos, qual é sua percepção das críticas que lhes foram dirigidas?
Tenho pensado muito nisso, não sou concorrente dos historiadores e antropólogos
franceses, ao contrário, sempre admirei seus livros, e alguns deles são
realmente velhos amigos. Meu livro mais recente é dedicado a Nathan Wachtel,
que é o fundador da antropologia histórica francesa; portanto, não há disputas
intelectuais em jogo. No fundo, acho que a polêmica tem algo a ver com a
diferença entre a França e os Estados Unidos no que concerne à integração dos
imigrantes e à formação da identidade nacional. O multiculturalismo dos Estados
Unidos - que não é tratado em nosso livro - parece ser uma preocupação dos
franceses, que têm outra maneira de integrar os imigrantes, e pretendem que
eles se tornem completamente franceses. O debate sobre o véu islâmico é uma
prova disso.
A visão política francesa considera que os norte-americanos estão errados na
sua maneira de fazer a integração dos imigrantes, e creio que a polêmica
suscitada pelo livro foi uma oportunidade para explicitar esse desacordo. A
crítica ao nosso volume veio de dois lados: de um lado, a notável historiadora
Carmen Bernand disse que éramos demasiados favoráveis aos índios e que todas as
fontes indígenas eram preferidas às fontes europeias etc. De outro, o ataque de
Lévi-Strauss, que foi seu orientador, foi na direção oposta, ao afirmar que
procuramos desculpar os europeus pela destruição das culturas indígenas. Então
estávamos danados pelos dois lados [risos].
Por essas razões, trata-se de um debate muito incômodo e infrutífero. Mas o
pior aconteceu quando fizemos nossa resposta para ser publicada nos Annales e
os editores na ocasião não quiseram publicá-la tal como tinha sido redigida, e
suprimiram certos pontos para proteger a fama de certas pessoas. Sim, os
editores alteraram nossa resposta tirando certas partes. Os Annales dedicaram
duas resenhas aos nossos dois volumes, uma de Luiz Felipe de Alencastro para o
caso do Brasil, e outra de Carmen Bernard para região dos Andes. A resenha de
Luiz Felipe de Alencastro é excelente e muito pertinente; embora enfatizasse
posições que diferiam das nossas, apreciamos plenamente seus comentários e sua
perspectiva mais abrangente. Contudo, os editores não nos permitiram colocar
nosso acordo com Luiz Felipe de Alencastro, porque isso sugeria que não
estávamos dando igual valor à outra resenha; na verdade, não o fizemos porque
sentimos que esta era tendenciosa.
Por exemplo: Carmen Bernand escreveu que: "há uma falta de bibliografia escrita
por pessoas importantes, especialmente os franceses. Onde estão os livros de
fulano? Onde estão os livros de sicrano?" Acho que ela não entendeu que a
Cambridge history não tem notas de rodapé; a Cambridge history tem poucas
notas, mas cada capítulo tem um ensaio bibliográfico. Ela não deu muita atenção
aos ensaios bibliográficos. Disse: "onde estão os livros de Wachtel? Como os
estudantes vão saber deste tema sem os livros de Wachtel?" etc. Fiz uma
contagem dos livros dos autores mencionados no ensaio bibliográfico. Wachtel
era citado vinte e uma vezes, outro autor, vinte e duas vezes e, um terceiro,
dezoito vezes. Eu, na resposta, disse isso. Não quiseram publicar porque
revelava que talvez ela não tivesse entendido a organização do livro.
Monica Dantas - E tiraram mesmo?
Tiraram: "vamos deixar este parágrafo de resposta à parte porque é uma 'conta
de boticário'". Depois, quando publicaram nossa resposta, o titulo que nós
escolhemos foi "Um americano imaginário em Paris"; um jogo com o filme An
American in Paris, porque achamos que muitas críticas eram feitas à maneira
"americana" de pensar mais do que às posições defendidas no livro. Além disso,
os Annales publicaram uma nota do editor, antes de nossa resposta, que dizia:
"estamos publicando essa resposta, todo mundo sabe que daqui a cem anos vamos
ainda estar lendo as obras de Lévi-Strauss etc.". Tínhamos um problema: o Lévi-
Strauss queria uma história triste dos índios. Os índios como vítimas. Nosso
problema é que no século XX há índios. Há movimentos indígenas na Bolívia. Como
explicar isso se fizermos somente uma história triste dos índios? Como explicar
o Evo Morales ou os movimentos indígenas no Chile? O índio deve ser ator na sua
história e não somente vítima. Esse era o problema de Lévi-Strauss; mas daí a
chamar-nos de equivalentes a negadores, ou negacionistas do holocausto
americano..., aí já era demais, e especialmente de um homem que tanto admiro e
que foi tão importante na minha formação e na de todos nós. Houve também muita
crítica dos volumes sobre América Central. Murdo Macleod, que é escocês de
origem, queria responder e também não quiseram publicar a resposta dele.
Iris Kantor - Nos Annales também?
Sim, nos Annales. E ele tratou de responder a Serge Gruzinski - que fez a
resenha do seu volume sobre Mesoamerica -, afirmando que se tratava de uma
representação da historiografia anglo-saxônica. Só que Murdo Macleod nasceu nas
ilhas da Escócia e cresceu falando gaélico e não falando inglês. Chamá-lo de
anglo-saxônico é no mínimo uma incorreção.
Em nossa resposta dissemos que a crítica se relacionava mais com a crise da
antropologia na França do que com nosso volume e que, realmente, depois do
estruturalismo, a antropologia na França perdeu a orientação, não sabendo mais
para onde ir. Mas, mesmo que não saibam disso, estão seguros de que querem
chegar lá primeiro, antes dos norte-americanos. Mas o problema do futuro das
ciências humanas no período pós-estruturalista não é só francês; é, na
realidade, mundial.
Monica Dantas - Mas até que ponto as ciências sociais não estão em crise, uma
crise dos sociólogos e antropólogos com os historiadores? Haveria uma crise de
paradigma, que não necessariamente é uma crise da história, e daí o incômodo e
mal-estar?
Sou formado em antropologia e história. Tenho uma forte tendência para a
antropologia. Mas a antropologia que eu gostava era a de Sidney Mintz, Marshall
Sahlins e Clifford Geertz. A antropologia contemporânea ou pós-moderna, que
está preocupada com o antropólogo, não me interessa muito, porque não me ajuda
muito. Eles estão questionando se o observador é participante. Seguramente é
participante. O historiador sabe isso desde o início [risos]. E sabe que todas
as fontes são criações imperfeitas. A pergunta para o historiador é sempre se
ele pode cruzar esta série de imperfeições e extrair algo de valor nas fontes
que analisa. Todas elas, de uma maneira ou outra, deformam em algum grau a
realidade. Talvez esse exercício crítico seja, afinal, um ato de fé para o
historiador. Mas em relação a isso sempre fui e ainda sou um crente.
IRIS KANTOR é professora do departamento de História da Universidade de São
Paulo.
MONICA DANTAS é professora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade
de São Paulo.
[*] Transcrição e tradução de José Rogério Beier.
[1] Schwartz, Stuart. Trad. Denise Bottmann, São Paulo: Companhia das Letras,
2009.
[2] L'Homme, 2001, pp. 158-59.
[3] Annales, vol. 57, nº 5, 2002.
[4] Cf., por exemplo, Schwartz, S. "The hurricane of San Ciriaco: disaster,
politics and society in Puerto Rico, 1899-1901". Hispanic American Historical
Review, vol. 72, nº 3, 1992, pp. 303-34.
[5] Souza, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo:
Companhia das Letras, 1986.
[6] New Haven: Yale University Press, 2006.
[7] Petrópolis: Vozes, 1964 (1ª edição 1957).