O não reconhecimento sistemático e a prática da crítica: Bourdieu, Boltanski e
o papel da teoria crítica
Nos últimos anos, a sociologia da crítica, tal como elaborada por Luc Boltanski
e seu grupo de pesquisa em oposição explícita à concepção objetivista da
ciência social crítica de Pierre Bourdieu, emergiu como um novo paradigma na
teoria social. No entanto, somente agora as sobreposições e diferenças em
relação à Teoria Crítica da tradição da Escola de Frankfurt se fazem ver. No
que segue, explorarei essa relação defendendo três teses: 1) que o modelo de
ciência social crítica de Bourdieu se baseia na suposição - problemática tanto
empírica como metodologicamente - de uma forma sistemática de não
reconhecimento que assume o papel tradicionalmente desempenhado pela ideologia;
2) que a sociologia da crítica oferece uma alternativa convincente ao modelo de
Bourdieu ao levar a sério a autocompreensão dos atores e, portanto, as
categorias empregadas em suas práticas de justificação e crítica; e 3) que, com
todo respeito a Boltanski, uma versão revisada da Teoria Crítica - cujos
elementos podem ser encontrados na obra de Axel Honneth - pode desempenhar um
papel complementar decisivo, já que tais autocompreensões e práticas podem
sofrer do que se poderia denominar "patologias de segunda ordem". Essa forma de
entender a Teoria Crítica oferece uma nova perspectiva sobre a política de
reconhecimento,tanto no nível teórico como no da prática social, ao ligar a
"micropolítica do reconhecimento", negociada no âmbito das práticas cotidianas
de justificação e crítica, às suas condições "macropolíticas", i.e., a formas
institucionalizadas e estruturais de reconhecimento e não reconhecimento.
Em contraste com abordagens objetivistas que tendem a compreender os atores
sociais como "idiotas desprovidos de juízo"1, e não como agentes dotados de
capacidades reflexivas, a sociologia pragmática da crítica rejeita, com razão,
a ideia de uma separação entre o ponto de vista supostamente objetivo do
cientista social e a perspectiva irrefletida dos chamados agentes
"ordinários"2. Em vez disso, os atores são considerados capazes daquelas formas
de reflexividade crítica que observadores científicos frequentemente consideram
monopólio seu.De fato,ser capaz de tomar distância do contexto prático imediato
e refletir criticamente sobre ele é "uma capacidade cuja existência tem de ser
pressuposta se quisermos compreender o modo como os membros de uma sociedade
complexa criticam e questionam as instituições, discutem uns com os outros ou
convergem para um acordo"3.
Enquanto é típico das abordagens no interior do paradigma da ciência social
crítica identificar, no nível macro, estruturas sociais e mecanismos que
explicam a reprodução do status quo, a sociologia da crítica segue o exemplo da
etnometodologia e se coloca no nível micro, descrevendo práticas situadas de
crítica e justificação. Ainda, contudo, que isso se justifique em termos de um
alargamento da perspectiva teórica, essa inversão tende a negligenciar a
possibilidade de certas condições sociais bloquearem o exercício ou mesmo a
formação das capacidades reflexivas e críticas dos atores. Para dar conta dessa
possibilidade, a teoria social tem de focar - no "nível meso" - aquelas
condições sociais, amplamente ignoradas pela sociologia da crítica, que podem
criar obstáculos para práticas de crítica e justificação no mundo real.Em
contraste com a abordagem de Bourdieu,no entanto, a hipótese de que certas
condições bloqueiam as capacidades reflexivas dos atores não implica que os
atores sejam eles mesmos estruturalmente (i.e., em virtude da estrutura da
prática em que se engajam) incapazes de compreender essa situação e, portanto,
estejam presos em uma posição ingênua, pré-reflexiva.
A "virada pragmática" proposta por Boltanski e outros não deveria levar-nos a
abandonar o projeto da Teoria Crítica, como se toda a crítica necessária já
estivesse articulada nas práticas cotidianas de crítica. As capacidades
reflexivas dos atores "ordinários" e suas práticas de justificação e crítica,
que são convincentemente reconstruídas pela sociologia da crítica,constituem a
base social e metodológica da Teoria Crítica.Isso não deveria,contudo,levar-nos
a atribuir uma autoridade epistêmica à perspectiva dos participantes que seja
imune a ser colocada em questão de um ponto de vista informado em termos
teóricos4.
CIÊNCIA SOCIAL CRÍTICA E NÃO RECONHECIMENTO ESTRUTURAL
De acordo com um modelo teórico que poderia ser chamado de "ortodoxo", a
ciência social crítica começa substituindo uma questão por outra:em vez de
perguntar-se por que,em um caso particular,pessoas se rebelam ou entram em
greve, nós deveríamos perguntar-nos por que, na maior parte do tempo, elas não
apenas toleram o status quocomo participam na sua reprodução e o veem como
natural e/ou legítimo5. Uma vez que parece haver uma óbvia contradição entre o
comportamento das pessoas e seus interesses básicos,é razoável suspeitar que os
atores ordinários não reconhecem [misrecognise] sua situação objetiva e seus
reais interesses de um modo sistemático, i.e., de um modo não totalmente
fortuito.
Para explicar o fenômeno do não reconhecimento sistemático [systematic
misrecognition], a ciência social crítica aponta para o "fato" de que os
agentes não sabem realmente o que estão fazendo - de que eles são, na verdade,
prisioneiros de uma ideologia que mascara sua situação e seus interesses6. Ser
prisioneiro de uma ideologia significa estar confinado em uma forma falsa de
consciência que é tanto objetivamente necessária como necessariamente falsa.
Essa noção "ortodoxa" de ideologia não apenas implica que os atores não sabem o
que estão fazendo, mas também que não compreendem, nem podem compreender,o
quanto o que eles estão fazendo e pensando contribui para a reprodução da ordem
social. O sistemático não reconhecimento da parte dos atores é então
contrastado com o discernimento dos "reais" mecanismos de reprodução
social,disponível para aqueles que conseguem, como que "de um ponto de vista
externo", diagnosticar formas de falsa consciência. Nessa forma de compreendê-
la, a ideologia pode ser identificada desde um ponto de vista objetivo e
epistemicamente privilegiado, situado fora do contexto ideológico e que tem de
ser fornecido pela ciência social.
A concepção "ortodoxa" da ciência social crítica implica, portanto, uma
oposição assimétrica entre ciência e crítica, de um lado, e, de outro, a
perspectiva ingênua dos agentes "ordinários", submetidos a formas estruturais
de não reconhecimento. Consequentemente, os atores sociais são vistos como
objetos do discurso crítico, e não como interlocutores em seu próprio
direito,cuja autocompreensão pudesse fornecer mais que meras informações
adicionais. Foi esse dogma da assimetria, e o imperativo metodológico de uma
ruptura metodológica com a perspectiva dos participantes a ele associado, que
animaram o projeto de uma sociologia que é a um só tempo científica e crítica.
Isso está no centro da sociologia crítica de Bourdieu. Para ele, a ruptura com
a autocompreensão dos atores é tanto epistemológica como metodológica.Ela
presume uma radical descontinuidade entre,de um lado, a consciência ordinária,
o senso comum e a perspectiva dos participantes e, de outro, a perspectiva das
ciências sociais. Essa ruptura é levada a cabo por meio de uma operação dupla:
a delimitação metateórica da ciência por oposição ao senso comum (juntamente
com a desqualificação epistemológica do último) e o imperativo metodológico de
lutar pelo conhecimento científico contra o senso comum, a opinião vulgar e a
ideologia.Bourdieu e seus coautores se situam claramente nesse quadro
durkheimiano ao caracterizar do seguinte modo o primeiro princípio metodológico
de sua abordagem: "O fato social é conseguido contra a ilusão do conhecimento
imediato", exigindo uma permanente "vigilância epistemológica" da parte do
sociólogo7. Segundo esse entendimento, a sociologia está engajada em uma luta
contínua contra a "sociologia espontânea" dos agentes ordinários e sua
autocompreensão,contra os "movimentos espontâneos da prática ingênua" que
ameaçam "contaminar" a análise sociológica8. Há um conflito estrutural
insolúvel entre a análise sociológica científica e as interpretações dos
atores, que, em virtude de sua imersão na prática social, são incapazes de
distanciar-se daquilo que estão fazendo e se tornam vítimas de uma mera "ilusão
de reflexividade"9.
Essa concepção de uma forma de não reconhecimento que não é contingente, mas
estrutural - no sentido de que é constitutiva para o funcionamento da prática
em questão e a reprodução da ordem social -, vem desempenhando um papel
decisivo no trabalho de Bourdieu desde sua análise da troca de presentes. A
verdade dessa troca - que ela não é,na realidade,uma questão de presentes
desinteressados,mas sim uma luta sublimada por poder simbólico e vantagem
material - não pode ser reconhecida a partir de dentro da autocompreensão
"oficial" que molda a perspectiva dos participantes. O que os atores estão
fazendo (objetivamente) não coincide com o que eles pensam (subjetivamente)
estar fazendo. Esse não reconhecimento da estrutura de sua prática é necessário
no sentido de que é um dos fundamentos da mesma: a prática em questão, nesse
caso a troca de presentes, existe e funciona "porque, estritamente falando, os
sujeitos não sabem o que estão fazendo", de modo que "o que eles fazem tem mais
significado do que o que eles sabem"10.
Para dar conta dessa estrutura de não reconhecimento, Bourdieu fala de uma
"verdade dúplice". Por um lado, o presente realmente é, e tem de ser,aquilo que
parece ser - um ato generoso,sem interesse ou cálculo; mas, por outro lado,
esse ato está sujeito à lógica implacável e à "força sem força" da troca de
presentes11. Essa "verdade dúplice" só é acessível do ponto de vista do
sociólogo observador - os próprios atores estão presos na meia verdade que lhes
é disponível do lado de dentro. Segundo Bourdieu, a contradição entre a
"verdade subjetiva" dos participantes e a análise objetiva do observador
sociológico não se limita à troca de presentes; ela explica o caráter
distintivo de todas as práticas simbólicas. A automistificação dessas práticas
só pode ser desmascarada por uma "ciência geral da economia das práticas"12.
O não reconhecimento, que é constitutivo para o funcionamento das práticas
sociais, é o resultado de um trabalho de negação e repressão que é
interiorizado pelos sujeitos no curso de sua iniciação a essas práticas através
da educação ou "adestramento". Como uma "segunda natureza", o habitusque
resulta dessa formação permite aos atores que se movam no mundo social "como
peixes na água": nós sabemos, imediata e intuitivamente, qual comportamento é
apropriado e o que devemos fazer;e geralmente o fazemos sem maiores
reflexões.Como o habituscondiciona e estrutura nossas experiências,
pensamentos, avaliações e práticas, ele impõe estritos limites à reflexão e à
crítica. Dentro desses limites - a que poderíamos chamar "a caverna da prática"
- encontramos o reino da doxa.A doxados participantes de uma prática garante
que eles não reconheçam o que estão pensando e fazendo, e que não façam
perguntas para as quais não haja uma resposta imediata e "oficial".A imunidade
das práticas - e,na verdade,do mundo social como um todo - à reflexão crítica e
ao questionamento se ancora, através do habitus, nas autocompreensões dos
atores, assegurando o funcionamento e a reprodução da ordem social.
No quadro teórico de Bourdieu,o habituse o não reconhecimento sistemático
desempenham, em dois aspectos, uma função análoga à da ideologia no modelo
"ortodoxo". Primeiramente, eles são elementos cruciais na reprodução do status
quoe têm de ser analisados desde uma perspectiva funcionalista. Em segundo
lugar, o seu funcionamento tem, por razões estruturais, de permanecer opaco aos
atores, que estão aprisionados na doxa, e só pode ser desvelado pelo sociólogo
que rompe com essa forma incorporada e necessariamente falsa de consciência13.
O sistema semi-ideológico de convicções e disposições que constitui o habitusé
ao mesmo tempo necessário e adequado de um ponto de vista objetivo efalso, já
que se baseia em um fundamental não reconhecimento de suas próprias condições,
causas e efeitos.
O que Bourdieu denomina dominação simbólica - uma forma de dominação que é bem-
sucedida em ocultar o seu caráter dominante - se baseia tão somente no
reconhecimento que lhe é conferido pelo dominado, mas esse (não) reconhecimento
está enraizado na "imposição dissimulada (e, portanto, não reconhecida) de
sistemas de classificação e estruturas mentais que são objetivamente ajustados
a estruturas sociais"14 e,por serem parte do habitus,estão realmente protegidos
contra serem postos em questão.De acordo com Bourdieu,os atores são cúmplices
na (re)produção de sua própria dominação, mas lhes é impossível chegar a uma
compreensão adequada desse processo, para assim transformá-lo, porque ele
parece constituir um círculo vicioso: "1. O sistema se reproduz porque não é
reconhecido. 2. Por reproduzir-se, o sistema produz o efeito do não
reconhecimento"15. Tendo praticamente bloqueado, assim, o acesso cognitivo dos
atores "ordinários" à realidade social,o sociólogo "se instala em uma posição
de eterno denunciante de um sistema que é capaz de mascarar-se eternamente em
relação a seus sujeitos"16.
A SOCIOLOGIA DA CRÍTICA E O RECONHECIMENTO DOS ATORES "ORDINÁRIOS"
Em contraste com a subestimação das capacidades reflexivas dos atores e a
superestimação do conhecimento sociológico que são características do modelo de
ciência social crítica proposto por Bourdieu, a sociologia da crítica começa
supondo uma simetria básica entre agentes "ordinários" e sociólogos
"profissionais". Ela rejeita o imperativo metodológico de uma ruptura com a
perspectiva dos participantes e enfatiza a reflexividade envolvida e requerida
nas práticas sociais cotidianas.Podemos caracterizar a estrutura teórica e
metodológica dessa abordagem através dos quatro princípios a seguir17:
Princípio da simetria:a rejeição da
ruptura que é constitutiva para o modelo ortodoxo da ciência social
crítica anda lado a lado com o reconhecimento da "simetria entre, de
um lado, as linguagens descritivas ou princípios explicativos
empregados pelas ciências sociais e, de outro, os modos de
justificação ou crítica empregados pelos atores"18.
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Princípio do pluralismo: a rejeição
da ideia de um círculo vicioso de não reconhecimento e reprodução do
status quoanda lado a lado com o reconhecimento de uma pluralidade de
modos de ação (ao ver de Boltanski: violência, amor, rotina e
justificação), bem como da pluralidade interna desses modos de
ação,em especial o metarregime de justificação.
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Princípio das capacidades
reflexivas: a rejeição da compreensão dos agentes "ordinários" como
"idiotas desprovidos de juízo" anda lado a lado com o reconhecimento
de suas capacidades reflexivas e, mais genericamente, "daquilo de que
as pessoas são capazes" (ce dont les gens sont capables)19.
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Princípio das gramáticas do
consenso:a rejeição da ideia de que as regras do jogo social se
imponham pelas costas dos atores ignorantes anda lado a lado com o
reconhecimento de que os próprios atores têm de negociar e renegociar
constantemente essas regras, coordenando suas ações em contextos
sociais concretos e produzindo críticas efetivas uns dos outros,
assim como justificações aceitáveis.
Nos conflitos da vida cotidiana, atores "ordinários" fornecem ampla evidência
de sua capacidade para assumir diferentes pontos de vista, distanciar-se da
situação e envolver-se em complexos discursos de crítica e justificação. A
fragilidade da ordem social e a pluralidade de regimes de justificação tanto
possibilitam quanto exigem dos atores que ajam de um modo reflexivo e crítico.
Assim, eles não apenas têm de possuir um "senso prático" incorporado,mas também
certo tipo de maestria na "arte de viver em diferentes mundos"20 que lhes
permita orientar-se em contextos sociais heterogêneos e espaços argumentativos
que só se sobrepõem parcialmente:
A habilidade para desligar-se do contexto imediato, para sair da
confusão daquilo que é presente [...] constitui a habilidade mínima
que os seres humanos têm de possuir se querem envolver-se em
situações sem perder-se inteiramente nelas21.
No interior das práticas de crítica e justificação, e de seus repertórios de
argumentação social e culturalmente mediados, os agentes podem fazer referência
a uma pluralidade de ordens normativas e regimes de justificação22. Tanto a
possibilidade como a necessidade da crítica dependem não apenas dessa
pluralidade e dos conflitos que vêm com ela,mas também da "força factual do
normativo" - a eficácia das expectativas normativas - e da "força normativa do
factual" - a permanente frustração dessas expectativas.
Para ser válida, a crítica tem de ser capaz de justificar-se a si
mesma,i.e.
esclarecer os fundamentos normativos que a sustentam, especialmente
quando confrontada com as justificações que aqueles que estão
sujeitos à crítica fornecem para suas ações. Assim, ela continua a
referir-se à justiça, pois, se a justiça for uma ilusão, qual o
sentido de criticar? Por outro lado, no entanto, a crítica apresenta
um mundo em que a exigência de justiça é incessantemente violada. Ela
desmascara a hipocrisia das pretensões morais que ocultam a realidade
das relações de força, exploração e dominação
23.
A pluralidade de regimes de justificação e a permanente possibilidade de
tensões entre eles abrem dois caminhos para a crítica social que são
corriqueiramente tomados pelos agentes "ordinários" no curso de suas vidas
cotidianas. O primeiro tipo de crítica aceita o regime de justificação em
questão (e o tipo de "teste" que vem com ele) e coloca em questão a sua
aplicação a uma situação concreta - ele pode, portanto, ser entendido como um
tipo de crítica interna ou reformista. O segundo tipo de crítica coloca em
questão, como inadequado à situação, o próprio regime de justificação, sendo
assim mais radical:
A primeira [forma de crítica] écorretiva em sua intenção:uma crítica
que revela aqueles aspectos [...] que infringem a justiça e, em
particular, as forças mobilizadas por alguns dos protagonistas sem
que os demais tenham ciência disso [...].Uma segunda maneira de fazer
a crítica [...] pode ser ditaradical
. Nesta instância, já não se trata de corrigir as condições do teste
com vistas a torná-lo mais justo, mas de suprimi-lo e, no fim das
contas,substituí-lo por um teste diferente
24.
Essas duas formas de crítica não devem ser entendidas como sintomas de uma
sociologia espontânea e ingênua, como sugere Bourdieu, mas antes como uma
espécie muito elaborada de "sociologia popular" que também mobiliza recursos
teóricos introduzidos no discurso social pela sociologia:
Quando se trata de questionar ideologias e representações sociais,
devem ser asseguradas a todos os seres humanos as mesmas capacidades
elementares dos cientistas sociais. Deve ser reconhecido que aquilo
que as ciências sociais produzem já está incluído no círculo
hermenêutico da sociedade25.
Dessa descrição do mundo social se segue uma máxima metodológica que é a um só
tempo simples e desafiadora: "siga os próprios atores". Os sociólogos têm de
seguir os atores "ordinários" em suas ações, interpretações e avaliações porque
são estes que possuem conhecimento relevante sobre o mundo social. Eles já não
devem ser considerados como meros informantes produzindo dados adicionais, mas
sim como sociólogos leigos produzindo interpretações e explicações do que estão
fazendo que não são nem um pouco menos sofisticadas do que aquelas de seus
colegas profissionais26. Em contraste com o modelo de Bourdieu, o sociólogo é
agora entendido como estando sempre, em certo sentido, um pouquinho atrasado.
Sua única chance de ganhar algum terreno é levar os atores a sério e analisar
as suas práticas de crítica e justificação sem impor um quadro teórico que os
transforme em "idiotas desprovidos de juízo". A sociologia da crítica tenta
seguir essa máxima em três níveis: no nível da pragmática, ela analisa práticas
efetivas de crítica e justificação; no nível da "gramática",ela analisa as
regras e condições às quais os atores têm de aderir de modo a participar de
maneira bem-sucedida dessas práticas;e no nível da "tópica" ela analisa os
repertórios de argumentação e os modos de falar que os atores empregam em
diferentes contextos sociais.Apesar, contudo, das promissoras perspectivas
abertas por essa abordagem, temos de perguntar: é suficientemente complexa a
análise proposta pela sociologia da crítica?
Partir do "fato" da crítica e da justificação, como faz a sociologia da
crítica, envolve fazer duas suposições consideravelmente fortes em relação às
condições desse "fato". As condições "subjetivas" das práticas de justificação
e crítica são as capacidades e competências que os atores se atribuem
mutuamente e que o sociólogo também tem de atribuir a eles de modo a entender o
que estão fazendo. As condições "objetivas" consistem na existência de um
metarregime de justificação e de uma pluralidade de regimes de justificação a
que os atores podem referir-se quando se dedicam à crítica corretiva ou
radical. Mas será que podemos realmente pressupor que as condições subjetivas e
objetivas das práticas de crítica - e, portanto, o ponto de partida da
sociologia da crítica - estão dados na realidade social? Não há condições
sociais sob as quais as capacidades reflexivas dos atores são bloqueadas ou
reprimidas? A sociologia da crítica parece excluir a possibilidade de uma
distribuição desigual, ou de restrições estruturais, da capacidade de
distanciamento do próprio contexto e de envolvimento com a crítica. E esta é,
contudo, uma possibilidade que uma abordagem sociológica com foco nas
capacidades reflexivas deveria levar a sério. De modo similar, ela teria de
levar em conta, no que diz respeito às condições "objetivas" das práticas
sociais de justificação e crítica,a possibilidade de que certos contextos
sociais sejam eficazmente blindados contra a pressão da justificação, e de que
certos discursos hegemônicos de justificação suprimam recursos alternativos de
argumentação.Essas são formas de reduzir significativamente as possibilidades
de crítica disponíveis em uma sociedade.Em poucas palavras,as condições
subjetivas e objetivas das práticas de crítica podem ser restringidas de
maneiras que não podem ser ignoradas caso a teoria social queira conservar sua
relevância prática27.
A TEORIA CRÍTICA E AS "PATOLOGIAS DE SEGUNDA ORDEM"
A sociologia da crítica se vê,assim,confrontada com um duplo problema. Seu
ponto focal parece muito restrito: limitar-se aos discursos críticos que já são
parte do "círculo hermenêutico da sociedade" implica excluir formas de crítica
que são ao mesmo tempo mais teóricas e mais radicais.Conforme o próprio
Boltanski sublinhou recentemente, os atores são muitas vezes "realistas" e se
adaptam ao que consideram possível, eventualmente "fechando os olhos" para o
que lhes parece fora de lugar. Se a crítica deve ir além desse viés realista -
e, portanto, além das formas ordinárias e estabelecidas de crítica -, ela
necessita de uma Teoria Crítica que permita construir uma posição alternativa.
"Tornar a realidade inaceitável" (rendre la réalité inacceptable) - mostrando
aos atores que ela é inaceitável do ponto de vista deles mesmos- através de uma
explicação teórica ou redescrição é,por vezes, o único modo de escapar ao jugo
da realidade e à predominância dos "realistas"28. Além disso, como já indiquei,
a sociologia da crítica não parece levar em conta as condições sociais do
exercício ou da formação das capacidades reflexivas e críticas que pressupõe. A
sociologia da crítica não nega,é claro,que os atores adquiram e exercitem suas
capacidades no interior de contextos sociais existentes e,portanto,sempre sob
determinadas condições sociais. Devido, porém, à sua orientação
"situacionista", essa abordagem tende a considerar esses contextos e condições
como meros recursos que os atores podem mobilizar,e não como potenciais
restrições estruturais às suas capacidades reflexivas e práticas críticas.
Como defendeu o próprio Boltanski, em um artigo escrito com Bourdieu há
bastante tempo, a ideia de um "comunismo linguístico", i.e., a crença em uma
distribuição igual (de facto) das capacidades comunicativas e da habilidade de
fazer-se ouvir parece não ser mais que uma "ilusão"29.Dependendo de sua posição
social,os atores possuem "voz" e poder social de justificação - poder de
demandar justificações e produzi-las - em graus que variam radicalmente. A
Teoria Crítica tem,portanto,de perguntar-se sob quais condições sociais -
ou,mais especificamente e seguindo Axel Honneth, dentro de quais relações de
reconhecimento - os atores podem formar e exercer suas capacidades reflexivas.
É precisamente essa a questão que torna necessário ir além do horizonte da
sociologia da crítica e reintroduzir o ponto de vista da Teoria Crítica, sem
abandonar, contudo, as descobertas teóricas do "igualitarismo metodológico"
daquela.
Se certas condições sociais - relações de reconhecimento que são assimétricas,
ideológicas ou patológicas, i.e., relações de não reconhecimento30 - bloqueiam
a formação e o exercício das capacidades reflexivas dos atores, parecemos estar
diante de um caso daquilo que pode ser denominado uma "patologia de segunda
ordem", que se manifesta na forma de um "déficit reflexivo estrutural" da parte
dos atores31. Em tal situação,as condições de primeira ordem que parecem ser
problemáticas do ponto de vista normativo - relações de injustiça, exploração,
não reconhecimento etc. - não são, em um sentido relevante, acessíveis aos
afetados, seja porque não são vivenciadas ou reconhecidas como tal, seja porque
são intuitivamente percebidas, mas equivocadamente interpretadas e, por
conseguinte, aceitas como legítimas ou naturais. A teoria social deveria
perguntar-se, portanto, por que certas situações não são vivenciadas como
injustas, alienantes ou envolvendo não reconhecimento, e por que a percepção de
uma situação como injusta, alienante ou envolvendo não reconhecimento nem
sempre se traduz em uma consciência coletiva correspondente, para não falar em
uma ação coletiva transformadora32.
Uma resposta a essas questões tem de fazer referência aos obstáculos materiais
e simbólicos que podem impedir os atores de se engajarem em práticas de
crítica. Neste sentido, a aparência ideológica legítima e natural de certas
práticas e instituições, i.e., o seu não reconhecimento pelos atores
envolvidos, pode ser caracterizado como um fenômeno de segunda ordem. Ele
diminui efetivamente a probabilidade de que se reflita criticamente sobre as
opiniões,disposições e modos de agir que podem ser situados no primeiro nível,
e que embasam essas práticas e instituições. "Patologias de segunda ordem"
podem, portanto, ser entendidas como formas de bloquear a avaliação, a crítica
e a transformação das "patologias de primeira ordem". Deve-se notar que o
diagnóstico das "patologias de segunda ordem" não precisa necessariamente fazer
referência a uma concepção substancial de uma vida "normal" ou "saudável". Se
essas "patologias" são, em vez disso, entendidas de um modo formal e
"negativo",o diagnóstico delas pode basear-se em uma análise das restrições
estruturais das capacidades dos atores que resultam de certas relações sociais
(de reconhecimento e não reconhecimento).
É crucial que essas restrições sejam em quase todos os casos parciais:que uma
capacidade seja restringida,i.e.,que sua formação ou seu exercício sejam
bloqueados,não significa que a pessoa afetada seja inteiramente desprovida
dela,mas sim que,sob certas condições sociais, ela só a possui em um nível
restrito.Sob quase todas as circunstâncias, nós temos de atribuir ao menos
capacidades reflexivas elementares aos atores. Além disso, eles mesmos é que
julgam, no fim das contas, se estão realmente enfrentando uma "patologia". Os
próprios atores têm de entender reflexivamente, com base em sua
autocompreensão, que certas condições sociais são inaceitáveis. Para que possa
funcionar, portanto, a Teoria Crítica já pressupõe certa receptividade para as
suas hipóteses por parte dos atores:
Se os proponentes de uma teoria crítica querem esclarecer e emancipar
um grupo de agentes, eles têm de encontrar na experiência, na forma
de consciência e na crençadesses agentes os meios de emancipação e
esclarecimento. Se não conseguimos encontrar as experiências
apropriadas de sofrimento e frustração,e os princípios de
aceitabilidade reflexiva,na vida e na forma de consciência desses
agentes, aIdeologiekritik
não pode começar, e nós não temos nenhum direito de chamá-los de
"iludidos"
33.
A tarefa crítica e emancipatória da teoria social está, portanto, em
identificar, analisar e criticar, no contexto de um discurso envolvendo os
afetados,as condições sociais que impedem ou bloqueiam a formação ou o
exercício de suas capacidades reflexivas.Desse ponto de vista, a teoria social
crítica é uma reflexão sobre as condições (sociais) de possibilidade da crítica
e,nesse sentido,uma forma de "metacrítica"34.
Permitam-me passar agora a um exemplo, de modo a dar alguma substância a essas
algo abstratas observações metodológicas. Em As almas da gente negra, o
sociólogo e escritor afroamericano W. E. B. Du Bois apresenta uma análise e uma
"densa descrição" dos efeitos sociais e psicológicos da "segregação racial",
centrando o foco na perda da capacidade de alguém enxergar a si mesmo com os
próprios olhos, i.e., sem a mediação do olhar não reconhecedor da população
branca. Du Bois vincula o "estranho significado de ser negro" sob essas
condições ao fato de os afroamericanos serem "separados"35 do mundo das pessoas
brancas por um "enorme véu"36. A metáfora do "véu" implica que, para além dos
efeitos mais imediatos de ser excluído de certas atividades e lugares (i.e.,
formas políticas e sociais de exclusão), essa exclusão também repercute na
autopercepção dos excluídos e no seu modo de vivenciar o mundo.É claro que Du
Bois considera o véu, primariamente, como o testamento da cegueira da população
branca, mas também como algo que deforma as capacidades cognitivas e
perceptivas dos afroamericanos, impedindo-os de desenvolver uma "verdadeira
autoconsciência":
É uma peculiar sensação essa consciência dupla, esse senso de estar
sempre olhando para si mesmo através dos olhos de outrem, de medir a
própria alma com o metro de um mundo que a vê com tranquilo desprezo
e pena.
Essa experiência afeta a integridade física do sujeito:
Não se sente nunca a própria duplicidade - um americano,um negro;
duas almas, dois pensamentos, dois esforços irreconciliáveis; dois
ideais conflitantes em um corpo escuro que só não sucumbe devido à
sua obstinada força37.
O "duplo eu" é "deficiente", e uma atmosfera social repressiva e cheia de
preconceito o empurra para um permanente "autoquestionamento,
autodepreciação"38. As "almas aprisionadas no véu" vivem em "dois mundos
separados", e a sua consciência dúplice, individual e coletiva, não lhes
permite ter a autoconfiança epistêmica e prática que é básica para o seu
agir39.Sob essas condições de um não reconhecimento institucionalizado e
estrutural, os atores são impedidos de desenvolver ou exercitar as suas
capacidades reflexivas. Essas deformações podem resultar em "feridas
ontológicas, cicatrizes psíquicas e hematomas existenciais"40. A permanente
experiência de ser classificado e tratado como uma "semipessoa", com
capacidades cognitivas reduzidas, não permite aos afetados distanciar-se do
mundo social de que dependem - ainda mais por estarem excluídos da ontologia
social dominante41.
Como é bem sabido, Du Bois julgava que seria necessária uma avant-gardecultural
(os conhecidos "10% talentosos" ) para iniciar um processo de emancipação
agindo em nome e no verdadeiro interesse das massas mal-educadas.Sua solução
revela as tentações do elitismo e os perigos do paternalismo epistemológico e
político que são inerentes ao diagnóstico dos déficits estruturais de
reflexividade e das "patologias de segunda ordem".Mesmo que esses déficits e
patologias não se identifiquem com uma incapacidade de refletir, a problemática
solução de Du Bois ilustra um dilema com que a Teoria Crítica se defronta em
todas as suas variantes.Como observou Henry Louis Gates em relação à crítica do
colonialismo:
Você pode fortalecer discursivamente o nativo e se arriscar às
acusações de subestimar a violência epistêmica (e literal) do
colonialismo; ou pode superestimar a natureza absoluta da dominação
colonial e arriscar-se às acusações de negar a subjetividade e a
capacidade de agir dos colonizados, repetindo assim, no texto, as
operações repressivas do colonialismo42.
Para ser fiel ao seu intuito emancipatório, a Teoria Crítica tem de evitar a
"armadilha da incapacitação", i.e., o perigo de restringir ainda mais as
capacidades dos atores através do seu diagnóstico; mas ela acaba por cair
inevitavelmente nessa tensão43. O único modo de levar essa tensão em conta é
insistir que as restrições estruturais das capacidades reflexivas dos atores
têm de ser diagnosticadas e trazidas a um diálogo entre os teóricos críticos e
os atores sociais - um diálogo que, até certo ponto, já pressupõe as próprias
capacidades que são restringidas. Ao mesmo tempo, o "igualitarismo
metodológico" e o "princípio da simetria", que são de fundamental importância
para uma concepção não paternalista e não autoritária da Teoria Crítica, não
podem esconder as assimetrias em termos de poder,conhecimento,influência e
capacidades argumentativas que podem ser explicadas por déficits estruturais de
reflexividade.Como quer que essas assimetrias sejam compreendidas, o seu
diagnóstico não pode ser validado a partir da posição supostamente privilegiada
do sociólogo observador; elas constituem sempre uma hipótese a ser
empiricamente verificada em um discurso envolvendo os concernidos.O próprio
diagnóstico - e, mais especificamente, a sua falsificação e verificação - está
intimamente ligado à autocompreensão dos atores e não pode ser avaliado
independentemente desta.
Em vez de dedicar-se a uma crítica substancial e normativa daquelas
autocompreensões que considera falsas, a Teoria Crítica deveria limitar-se a
identificar e analisar as restrições das capacidades reflexivas dos atores que
conduzem a distorções sistemáticas do processo social em que tais
autocompreensões são formuladas e reformuladas. Isso torna necessário levar em
conta as condições "macropolíticas" do reconhecimento institucionalizado e
estrutural44. Uma vez que a teoria social focaliza as condições sociais -
aquelas relações de reconhecimento assimétrico ou não reconhecimento - que
funcionam como "patologias de segunda ordem", bloqueando as práticas sociais de
crítica,ela pode ser entendida como uma crítica de segunda ordem: uma espécie
de metacrítica voltada a restabelecer as condições sociais da crítica, a torná-
las acessíveis às práticas reflexivas e transformadoras dos próprios atores.
"Aquilo de que as pessoas são capazes" (ce dont les gens sont capables) é,
portanto, a um só tempo o ponto de partida e o objetivo da Teoria Crítica. A
ideia condutora por trás dessa concepção ainda é, talvez, melhor captada pelo
jovem Marx:"Assim,nós podemos expressar o objetivo de nosso periódico em uma
frase: uma autocompreensão (filosofia crítica) da época envolvendo suas lutas e
aspirações"45.
Robin Celikates é professor de filosofia política e social na Universidade de
Amsterdam.
[*] Publicado originalmente em: Bankowsky, M. e Le Goff, A. (orgs.).
Recognition theory and contemporary french moral and political philosophy:
reopening the dialogue (reappraising the political). Manchester: Manchester
University Press, 2012.
[1] Celikatesusa a expressão"judgmental dopes", que traduzimos por "idiotas
desprovidos de juízo".(N.T.)
[2] Cf. Garfinkel, H.Studies in ethno-methodology. Cambridge: Polity,1984,
pp.67-73.
[3] Boltanski, L.eThévenot, L.On justification. Princeton: Princeton University
Press, 2006, p.15.
[4] Para uma discussão mais detalhada dessas questões, cf. Celikates, R.Kritik
als soziale Praxis. Frankfurt am Main: Campus, 2009.
[5] Cf. a excelente introdução de Rosen, M. On voluntary servitude: false
consciousness and the theory and ideology. Cambridge: Polity, 1996.
[6] Cf. Giddens, A.The constitution of society. Berkeley: University of
California Press, p. xvi: o modelo ortodoxo tem por premissa a compreensão da
ação social como "o resultado de forças que os atores nem controlam nem
compreendem". Para uma compreensão alternativa, não ortodoxa, da críticada
ideologia, cf. Jaeggi, R. "Rethinking ideology". In: de Bruin, B.e Zurn, C.F.
(orgs.).New waves in political philosophy. Houndmills: Palgrave
Macmillan,2009,pp.63-86.
[7] Bourdieu, P., Chamboredon, J.-C. e Passeron, J.-C.The craft of sociology.
Berlim: W. de Gruyter,1991,p.13.
[8] Ibidem,p.24.
[9] Ibidem.
[10] Bourdieu, P. Outline of a theory of practice. Cambridge: Cambridge
University Press,1977,p.79.
[11] Cf. Bourdieu, P. Pascalian meditations. Stanford: Stanford University
Press, 2000, pp.188-202.
[12] Bourdieu, Outline of a theory of practice,op.cit.,p.183.
[13] Sobre a relação entre não reconhecimento, dominação simbólica e ideologia,
cf. Bourdieu, P. e Eagleton, T. "Doxa and common life. An interview". In:
Zizek, S. (org.). Mapping ideology. Londres: Verso, 1994, pp. 265-77; Wacquant,
L."De l'idéologie àla violence symbolique". In: Lojkine, J. (org.). Les
sociologies critiques du capitalisme.Paris: PUF, 2002, pp. 25-40; Voirol, O. "Reconnaissanceet méconnaissance". Informations sur les
sciences sociales, vol.43,nº3,2004,pp.403-33.
[14] Bourdieu, P. Language and Symbolic Power. Cambridge-MA: Harvard University
Press,1991,p.169.
[15] Rancière, J. "L'éthique de la sociologie". In: Rancière, J. Les scènes du
peuple. Paris: Horlieu,2003,p.367.
[16] Ibidem. Para uma defesa da posição de Bourdieu, cf. Gautier, C. "Critique
sociologique et sens commun". In: Gautier, C. e Laugier, S. (orgs.).
Normativités du sens commun. Paris:PUF, 2009, pp.419-45, e a contribuição de
Christian Lazzeri para o livro Recognition theory and contemporary french moral
and political philosophy...,op. cit.
[17] Cf. Nachi, M.Introduction à la sociologie pragmatique. Paris: Armand
Colin,2006, cap.1. Quanto à relação entre a sociologia crítica e a sociologia
da crítica ,cf. Bénatouil, T. "Atale of two sociologies". European Journal of
Social Theory,vol.2,nº3,1999,pp. 379-96.
[18] Boltanskie Thévenot, On justification, op. cit., p.11. Sobre o potencial
crítico do senso comum, cf. também Anderson, E. Value in ethics and economics.
Cambridge-ma: Harvard University Press, 1993, cap.5.
[19] Cf. Boltanski, L. L'amour et la justice comme compétences. Paris:
Métailié, 1990, parteI.
[20] Boltanskie Thévenot, On justification, op. cit., p.148.
[21] Ibidem, p. 146. Cf. também Boltanski, L'amour et la justice comme
compétences, op. cit., p.74.
[22] Boltanskie Thévenot, On justification, op. cit., p.235.
[23] Boltanski, L.e Chiapello, E. The new spirit of capitalism. Londres: Verso,
2005, p.18.
[24] Ibidem, pp. 32-3. Cf. também Boltanskie Thévenot,On justification, op.
cit., pp. 219-25.
[25] Chiapello, E. "Reconciling the two principal meanings of the notion of
ideology". European Journal of Social Theory,vol.6,nº2,2003,p.157.
[26] Cf. Latour, B.Reassembling the social. Oxford: Oxford University Press,
2005, Introd.; e Boltanski, L'amour et la justice comme compétences, op. cit.,
cap.I.3.
[27] Cf. também Honneth, A. "Verflüssigungen desSozialen". WestEnd. Neue
Zeitschrift für Sozialforschung, vol. 5, nº2, 2008, pp. 84-103.
[28]Cf. Boltanski, L. De la critique. Paris: Gallimard, 2009; Boltanski, L.
Rendre la réalité inacceptable. Paris: Demopolis, 2008; Boltanski, L.e Honneth,
A. "Soziologie der Kritik oder Kritische Theorie? Ein Gespråch mit Robin
Celikates". In: Jaeggi, R. e Wesche, T. (orgs.). Was ist Kritik?Frankfurt am
Main: Suhrkamp, 2009, pp.83-116.
[29] Boltanski, L. e Bourdieu,P. "Le fétichisme de la langue (etl'illusion
ducommunisme linguistique)". Actes de la Recherche en Sciences Sociales,vol.
1,nº4, 1975,pp.2-33. Cf. também Bourdieu, Language and
symbolic power,op. cit., p.43.
[30] Cf. Honneth, A. "Recognition as ideology". In: Van den Brink, B. e Owen,
D.(orgs.). Recognition and power. Cambridge: Cambridge University Press, 2007,
pp. 323-47; Celikates, R."Recognition, system justification and reconstructive
critique". In: Lazzeri,C. e Nour, S. (orgs.). De l'inclusion.Paris: Presses
Universitairesde Paris 10, 2009, pp.85-99.
[31] Cf. Honneth, A. "Pathologies ofthe social". In: Rasmussen, D. (org.). The
handbook of Critical Theory. Oxford: Blackwell, 1996, pp. 369-99; Zurn, C.
"Social pathologies as second-order disorders". In: Petherbridge, D. (org.).
The critical theory of Axel Honneth. Leiden: Brill, 2011;
Fischbach, F. Manifeste pour une philosophie sociale. Paris: La Découverte,
2009, pp. 155-9.
[32] Cf. Honneth, A. "Moral consciousness and class domination". In:
Disrespect. Cambridge: Polity, 2007, pp. 80-96.Cf. também a excelente discussão
em Renault, E. L'expérience de l'injustice. Paris: La Découverte, 2004, bem
como a contribuição de Christian Lazzeri para o livro Recognition theory and
contemporary french moral and political philosophy..., op. cit.
[33] Geuss, R. The idea of a critical theory. Cambridge: Cambridge University
Press,1981,p.65.
[34] Cf. também Boltanski, De la critique, op. cit.
[35] A expressão de Du Boisque traduzimos por "separados"é shut out. (N. T.)
[36] Du Bois, W. E. B. "The souls of the blackfolk". In: The Oxford W. E. B Du
Bois reader.Oxford: Oxford University Press,1996,pp.100-1.
[37] Ibidem,p.102.
[38] Ibidem,pp.102,105.
[39] Ibidem,pp.147,150.
[40] West,C. "Black strivingsina twilight civilization". In: West, C. The
Cornel West reader. Nova York: Basic Civitas Books,1999,p.102.
[41] Sobre os efeitos de uma experiência pessoal da "subpessoalidade", cf.
Mills, C. Blackness visible. Ithaca: Cornell University Press, 1998, cap.1.
[42] Gates,H.L. "Criticalfanonism". Critical Inquiry, vol.17, nº3, 1991,p.462.
[43] Cf. Bader, V. "Misrecognition, power, and democracy". In: Van den Brink, e
Owen (orgs.), Recognition and power,op.cit.,pp.258-9.
[44] Cf. também Deranty, J.-P.e Renault, E. "Politicizing Honneth's ethics of
recognition".Thesis Eleven, vol.88,nº1,2007,pp.92-111.
[45] Marx, K. Writings of the young Marx on philosophy and society.
Indianapolis: Hackett,1997,p.215.