Tudo é interseccional?: Sobre a relação entre racismo e sexismo
A discussão sobre interseccionalidade tem ocupado um espaço importante na
pesquisa de gênero. O reconhecimento de que formas sexuais de injustiça são,
por um lado, análogas e, por outro, empiricamente entrelaçadas com outras
formas de injustiça - como as relacionadas a "raça", etnia e religião -
encontra nesse conceito sua expressão teórica. Se levarmos em consideração
razões histórico-linguísticas, a importância de refletir com maior precisão
sobre a relação entre racismo e sexismo é evidente por si só. A palavra alemã
Sexismustem origem no inglês norte-americano. O termo de origem sexismfoi, por
sua vez, criado por analogia com o termo racism na segunda metade dos anos
1960. Um texto de intervenção do Southern Student Organizing Committee, um
grupo de ativismo político de Nashville, Tennessee1, registra uma das primeiras
ocorrências textuais de uso do termo. Em 1969, em texto intitulado "Freedom for
Movement Girls - Now", o grupo declarou:
Os paralelos entresexismoeracismo
são nítidos e claros. Cada um deles incorpora falsas suposições sob a
forma de mito. E, assim como o racista é aquele que proclama,
justifica ou pressupõe a supremacia de uma raça sobre outra, da mesma
forma, o sexista é aquele que proclama, justifica ou pressupõe a
supremacia de um sexo (adivinha qual) sobre o outro
2.
Podemos fazer objeções a diversos aspectos das teses defendidas nessa citação,
se levarmos em conta o contexto do estado atual da reflexão sobre o tema. Em
primeiro lugar, impõem-se objeções contra tamanha redução das diversas facetas
do racismo e do sexismo nas premissas e opiniões adotadas. Concepções que
trabalhem com mais dimensões parecem ser capazes de nos levar mais longe.
Seguindo a análise do poder de Michel Foucault, desenvolvi um modelo que
diferencia uma dimensão epistêmica, que abarca o conhecimento racista e sexista
e seus discursos correspondentes; uma dimensão institucional, referente a
formas institucionalizadas de racismo e de sexismo; e uma dimensão pessoal,
que, além de posicionamentos individuais a respeito da identidade ou da
subjetividade, também abrange ações individuais e interações pessoais3. Em
segundo lugar, as concepções de sexismo que dão ênfase a grupos de gênero
definidos de maneira inequívoca não devem servir como base teórica, mas devem
antes ser entendidas como parte do problema a ser analisado e criticado - pelo
menos quando não se pretende reproduzir a naturalização da existência de apenas
dois gêneros. O mesmo vale para o recurso à categoria "raça". Essa perspectiva
permite adotar uma postura crítica à naturalização na medida em que a
existência de "raças" humanas não é entendida como fato biológico. Ao
contrário, os processos de construção de "raças" humanas são tratados como
componentes epistêmicos do racismo a serem analisados. Pelo menos em relação à
situação na Europa, acredito ser apropriado também considerar, em terceiro
lugar, formas "diferencialistas" em que a incompatibilidade de diferentes
culturas é proclamada como superioridade "racial" - Etienne Balibar chamou
essas formas de neorracismo4.
No entanto, a intenção não é negar totalmente certaplausibilidade na criação de
analogias. Isso porque tanto racismos quanto sexismos podem ser entendidos como
fenômenos complexos de poder que operam no contexto de atribuição de diferenças
categoriais. Mesmo que não seja sempre necessariamente assim, eles
frequentemente funcionam por meio de referências a características corporais e,
portanto, por meio de referências a supostas certezas biológicas. É por isso
que atribuições de diferença de cunho racista ou sexista são geralmente
atribuições de diferenças naturalizadas que exigem validade atemporal ou pelo
menos por longos períodos de tempo. Nesse sentido também as formas racistas e
sexistas de poder são diferentes daquelas que operam vinculadas a relações de
classe ou de produção. Uma diferenciação heurística já um pouco antiga proposta
por Nancy Fraser trata dos racismos e sexismos como problemas sociais com uma
dimensão político-econômica ecom uma dimensão cultural-avaliativa. Em outras
palavras: seriam problemas de distribuição ede reconhecimento, enquanto as
formas de poder relacionadas a classes ou camadas sociais são primariamente
descritas de maneira político-econômica e poderiam ser combatidas apenas por
meio de medidas de redistribuição5. E mesmo se quisermos nos opor a essa
diferenciação, ao afirmarmos que um hábito específico da camada social de uma
pessoa pode, do mesmo modo, ser apresentado como motivo do reconhecimento
negado - um ponto que, a propósito, a própria Fraser admitiu em publicações
posteriores sobre o tema6 -, na maior parte das vezes um hábito desse tipo é
considerado uma característica social que, em condições de mobilidade social,
poderia ser transformada pelo menos no horizonte de tempo de alguns anos. Em
regra, isso é diferente nos casos de atribuições racistas e sexistas. Não faz
diferença se se tratam de afirmações sobre as propriedades características de
um "tipo de raça", da tese de que conflitos étnicos são a consequência
inevitável de contatos étnicos ou de pressupostos da existência de identidades
de gênero e de sexualidade "normais" - nos casos de atribuições racistas e
sexistas, a ideia de que elas seriam fundamentadas na natureza humana é
dominante. É por isso que atribuições de diferença de cunho racista ou sexista
são geralmente atribuições de diferenças naturalizadas que exigem validade
atemporal ou pelo menos por longos períodos de tempo.
Apesar de podermos estabelecer semelhanças ou paralelos desse tipo entre
racismo e sexismo, ainda falta muito para obtermos um quadro completo das
relações entre ambos os fenômenos. Embora o diagnóstico da analogia tenha
marcado o feminismo de maneira decisiva há bastante tempo - é incorporado desde
os primeiros movimentos feministas norte-americanos, que surgiram no contexto
do movimento pela abolição da escravidão, passando por teóricas como Simone de
Beauvoir até textos e slogans dos movimentos de mulheres norte-americanos e da
parte ocidental da Europa -, ele é, há muito, incisivamente criticado. Todos,
ativistas e cientistas de grupos "raciais" e étnicos minoritários à frente,
argumentaram que entender o racismo e o sexismo como paralelos obstruía a visão
para seus entrelaçamentos. Contrárias a formulações aditivas como o conceito de
"tripla opressão", elas sugeriram entender o racismo sob a perspectiva de
gênero - gendered- e o sexismo como "racificado" - racialized- e, a partir daí,
diferenciar cada variante distinta de racismo e sexismo. Isso significa partir
do pressuposto de que racismo e sexismo se cruzam de formas diferentes
dependendo do contexto e, assim, também podem se manifestar dessas formas
correspondentes. Partindo da observação de que as figuras de referência
implícitas ao contexto de tematização do racismo eram quase sempre homens e que
as figuras de referência implícitas ao contexto da tematização do sexismo eram
quase sempre mulheres brancas, nacionais ou que de alguma forma fizessem parte
da "cultura dominante"7, foram convincentes ao mostrar que a força explicativa
da criação de analogias é especialmente fraca justamente em relação àquelas
pessoas que sofrem com formas de racismo e sexismo ao mesmo tempo. Disso
decorreu a seguinte recomendação para a análise política e científica: racismo
e sexismo não deveriam ser tratados como problemas análogos - o foco da relação
deveria estar antes em seus múltiplos entrelaçamentos e combinações8.
Enquanto ambas as posições - de um lado, a criação de analogias e, do outro, a
recomendação da busca por entrelaçamentos - são por vezes interpretadas como
excludentesentre si9, eu defendo a seguir que ambassão úteis à conceituação das
complexas relações entre racismos e sexismos e que, além dessas, existem ainda
outras classificações úteis para tratar dessa relação. Proponho a diferenciação
de quatro modos de relações entre racismo e sexismo.
O primeiroestabelece semelhanças entre formas de racismo e de sexismo, o
segundo, diferenças entre eles, o terceiro, acoplamentos entre ambos, e o
quarto, cruzamentos, entrelaçamentos ou intersecções. Eu defendo a tese de que
um modelo que abarque semelhanças, diferenças, ligações eintersecções tem
efeitos muito mais benéficos para a compreensão das relações entre racismo e
sexismo do que a tentativa de formular a relação em apenas uma dimensão e
reduzi-la a um único termo como o da interseccionalidade ou da
interdependência. Por isso semelhanças, diferenças, ligações e intersecções
devem ser justapostas em vez de serem tratadas como alternativas teóricas. Por
mais que essas relações sejam formadas de maneiras distintas, que racismo e
sexismo sejam antes de tudo descritos como fenômenos separados entre si no que
diz respeito à identificação de semelhanças e diferenças, e que, por outro
lado, justamente suas junções estejam em primeiro plano no que tange à
classificação de ligações e intersecções, continuo partindo do pressuposto de
que cada uma dessas definições da relação corresponde a certos ganhos
cognitivos. Mas esses ganhos são de alcance limitado e, por isso, precisam de
complementação recíproca. Para tornar essa tese plausível, vou discutir a
seguir cada uma das classificações da relação. Além disso, em cada seção
pretendo alcançar o objetivo de propor um ponto de vista que me pareça
analiticamente útil a respeito de cada classificação da relação.
Antes de começar essa tarefa, ainda me permito fazer uma observação preliminar
a respeito da natureza e da pretensão das reflexões a serem desenvolvidas a
seguir. O modelo, ou as diferenciações que proponho aqui, foi desenvolvido a
partir da literatura pertinente ao tema publicada até o momento - em sua
maioria trabalhos teóricos. Não pretendo reunir características que
necessariamentecorrespondam às manifestações empíricas do racismo e do sexismo.
Minha ideia é antes tentar montar um panorama sobre os principais fatores que
possivelmentepodem caracterizar a relação entre ambos em casos concretos.
Racismo e sexismo são fenômenos complexos e não estáticos que diferem de acordo
com o contexto. Por isso, afirmações gerais sobre sua relação não podem ser
outra coisa que não propostas a respeito das possíveis características dessas
relações - ou, formulado de outro jeito, cartografias de suas possíveis
características. As exposições desenvolvidas a partir de agora cumprem seu
propósito, portanto, se despertarem para a compreensão das complexidades das
relações entre racismo e sexismo, por um lado, e sobre os possíveis elementos e
características dessas relações, por outro. Um procedimento como esse não
substitui estudos empíricos. Meu objetivo é antes oferecer uma lista de
aspectos que, se considerados na análise de casos individuais, talvez possa nos
levar mais longe nessa questão.
SEMELHANÇAS
Como já indiquei logo de início, racismo e sexismo são semelhantes no que diz
respeito aos aspectos centrais de seus mecanismos de funcionamento. Diferenças
categoriais são construídas em ambos os casos - por exemplo, entre homens e
mulheres, entre heterossexuais, homossexuais e bissexuais, entre negros,
brancos e asiáticos, entre alemães ou europeus e turcos, ou entre cristãos,
judeus e muçulmanos. Suposições sobre membros desses grupos sociais
minoritários são, em casos extremos, marcadas por mitos que levam à
naturalização e, assim, à fixação de suas supostas características. É dessa
forma que temos de lidar tanto com a imagem do "eterno feminino" como com a
figura do "eterno judeu" - ou com a presunção de que sociedades não europeias,
como as da África pré-colonial ou mesmo as da África colonial e pós-colonial,
seriam desprovidas de história. Além de construções de mitos como essas, um
segundo aspecto semelhante pode ser apontado:tanto nos casos de racismos como
de sexismos, as respectivas atribuições categoriais de diferenças são
utilizadas para legitimar formas de estratificação e de segregação. O lugar
apropriado de uma pessoa dentro - ou também fora - de uma sociedade é deduzido
a partir de seu pertencimento a determinado grupo e das características
específicas que são atribuídas aos diversos grupos sociais. As mulheres, por
exemplo, deveriam então pertencer ao lugar onde seus filhos estão e os
muçulmanos, a lugares fora da Europa. Analogias estruturais entre racismos e
sexismos são particularmente convincentes naqueles momentos em que se constata
que homens brancos, nacionais e, na maior parte das vezes, heterossexuais são
considerados a norma da qual desviam todos aqueles que não reúnem essas
características. A história do pensamento político nos oferece exemplos desses
momentos10, mas também a história da antropologia física, dentro de cujos
limites foram comparados e igualados os crânios de mulheres brancas com os de
homens não europeus - então vistos como pertencentes a "raças inferiores" - no
século xix. Após essa primeira operação, ambos os grupos eram então comparados
com homens brancos europeus e, a partir de então, as características de menor
inteligência e, como contrapartida, de forte emotividade e impulsividade
poderiam lhes ser atribuídas11. Mas também a sexologia do final do século xix e
do início do século xx oferece exemplos, uma vez que era orientada pela
antropologia comparativa no que se refere à sua metodologia e iconografia e,
consequentemente, também pela pesquisa racial - pelo menos nos Estados Unidos.
Nesse sentido, ela põe ideias sobre supostos órgãos sexuais anormais e
suposições sobre desvios sexuais em contato direto, atribuindo ambos a mulheres
negras e também a lésbicas, além de criar conexões entre desejos homossexuais e
os então chamados desejos "inter-raciais". Em ambos os casos, uma escolha
sexual anormal era atestada12.
No entanto, a referência a analogias estruturais entre racismo e sexismo também
foi instrumentalizada com intenções emancipatórias, mais precisamente por
movimentos de mulheres brancas na América do Norte e na Europa Ocidental que,
assim - e também ao fazerem uso de palavras de ordem como "as mulheres são os
negros do mundo"13 -, dramatizavam suas próprias questões. Esse tipo de
equiparação redutora foi atacada com razão, tanto por tornar as mulheres negras
invisíveis, como também por minimizar as experiências da escravidão e da
exploração. Essa crítica completamente justificada à criação de paralelos
altamente problemáticos não deve, contudo, levar à recusa generalizada de todo
e qualquerdiagnóstico de analogias. A questão seria antes a de analisar, em
cada caso, em que medida as eventuais semelhanças são suficientes e qual
posição é respectivamente atribuída às mulheres de grupos minoritários
"raciais", étnicos ou religiosos.
DIFERENÇAS
Não é tarefa fácil identificar diferenças entre contextos de problemas
demarcados de forma intencionalmente vaga. Não obstante, dois aspectos
distintos devem ser abordados nesse momento. O primeiro diz respeito aos
padrões de estratificação e de segregação que são produzidos em contextos de
racismos e sexismos. O segundo aspecto se refere ao valor da reprodução
[sexual] em discursos racistas e sexistas e em seus respectivos arranjos
institucionais. Se nos detivermos à literatura publicada nos últimos anos sobre
o complexo temático "raça/ classe/gênero" ou sobre gênero e etnia no contexto
da teoria social de língua alemã, encontraremos diversas propostas com teor
semelhante que podem ser aplicadas a padrões de diferenciação racistas e
sexistas. Aprendemos aqui que o gênero produz, por um lado, inclusão- a das
mulheres na esfera da família e da vida doméstica - e, por outro,
subordinaçãonas arenas do trabalho e da política. Em contrapartida, "raça" e
etnia também produzem subordinaçãonas arenas do trabalho e da política, mas a
exclusãoaparece aqui como segundo momento, no nível do Estado e da nação14.
Contudo, certa cautela é adequada diante de generalizações esquemáticas desse
tipo. Nesse sentido, deveríamos, por exemplo, perguntar até que ponto discursos
e arranjos institucionais estruturados de forma sexista ainda efetivamente
relegam as mulheres ao interior do espaço privado - e, além do mais, a quais
mulheres eles se referem. Mesmo na Alemanha, o trabalho doméstico vem sendo
cada vez mais terceirizado e geralmente tem ficado sob a responsabilidade de
mulheres imigrantes ilegais. Apesar das atividades domésticas continuarem a
pertencer às tarefas clássicas atribuídas às mulheres, elas são executadas no
âmbito do emprego e, assim, fora das quatro paredes da própria casa. Elas ainda
estão, portanto, relacionadas ao espaço privado das famílias, mas são, ao mesmo
tempo, desenvolvidas no contexto de um mercado de trabalho - ainda que
informal. E, assim, são em certa medida desenvolvidas em um espaço social
externo. No contexto do racismo devemos, por sua vez, diferenciar entre o
modelo do racismo colonial, que antes serve à estratificação social e, assim, à
subordinação, e o "neo"-racismo diferencialista, que antes aspira à
homogeneização e cujo momento de exclusão é mais acentuado. No entanto, podemos
consolidar a ideia de que a diferenciação público/privado tem um papel mais
importante no sexismo do que no racismo e que, no racismo, a construção do
estranhamento ou do momento da des-familiarização - para pegar emprestado o
termo de Birgit Rommelspacher - é mais importante.
Agora podemos passar ao segundo aspecto:o do valor da reprodução. Devemos notar
neste momento que normas sexistas de gênero são centradas na reprodução em
sentido amplo, ou seja, tanto normas sexuais como também classificações de
gênero estão incluídas aqui. Tudo o que possibilita e facilitaa reprodução
[sexual] é considerado normal e natural: o maior exemplo é o da ideia da
existência de apenas dois gêneros, complementada por normas de gênero tais como
a da normalidade do desejo heterossexual. Todas as demais variações de sexo,
gênero e desejo são privadas do status de normalidade, uma vez que contestariam
e serviriam de impedimento aos requisitos naturais da reprodução humana. Se, em
comparação, observarmos discursos e instituições racistas, a reprodução ganha
um valor e uma função completamente diferentes, o que não significa que ela
deixa de ser importante. Discursos e instituições racistas servem na maior
parte das vezes à homogeneização e à segregação e, assim, ao impedimentoda
mistura entre "raças", incluindo especialmente os âmbitos da família e da
descendência, e, portanto, servem ao impedimento da reprodução biológica entre
diferentes grupos. Todas as proibições de casamentos mistos são comprovações
paradigmáticas desse ponto. Assim podemos concluir de forma cautelosa que o
toposda reprodução é importante de maneiras distintas em discursos e
instituições racistas e sexistas. Enquanto o sexismo tem como objetivo
possibilitar formas específicas de reprodução, o racismo busca impedir a
miscigenação, incluindo aqui o impedimento à reprodução entre grupos
diferentes, e a indistinção de fronteiras que dela decorre.
LIGAÇÕES
A preocupação sexista com a reprodução e a preocupação racista com a
homogeneidade, bem como acerca do impedimento de misturas "raciais", são
compatíveis entre si e podem ser conectadas a um complexo demográfico ou, para
usar outro vocabulário, a um complexo biopolítico. A conexão ou ligação
consiste no seguinte fato:em tempos em que a necessidade de crescimento
populacional é proclamada, medidas pró-natalidade que afetam as habitantes do
país - incluindo desde a restrição a direitos reprodutivos até estruturas de
incentivo financeiro [relativos à reprodução] - se correlacionam com uma
política restritiva de imigração. Por meio dessa combinação, as mulheres
nacionais são principalmente tratadas como mães, enquanto potenciais imigrantes
e seus descendentes são excluídos e representados com menor valor. Nesse
contexto, Verena Stolcke fala de uma "racist-cum-sexist ideology", uma
ideologia racista-sexista15. Ela esclarece:
O recente alerta sobre as taxas declinantes de natalidade em alguns
países europeus e o natalismo fomentado por essa preocupação são
apenas parte de mais uma instância do racismo que reforça o papel
maternal das mulheres. Se, como argumentam alguns políticos
conservadores desses países, o declínio nas taxas de natalidade
estivesse ameaçando os assim chamados Estados de Bem-Estar, uma
solução certamente seria a de oferecer emprego para os desempregados
e/ou abrir suas fronteiras aos milhões de pobres do Terceiro Mundo,
mas eles geralmente não são "brancos'"16.
Essas ligações foram levadas ao extremo nas políticas nazistas para a família e
para o extermínio. Mas ligações desse tipo também podem ser estabelecidas na
atualidade. O slogan "Kinder statt Inder" - "crianças ao invés de indianos" -
serve de exemplo ao contexto alemão, uma vez que Jürgen Rüttgers, primeiro-
ministro em exercício da Renânia do Norte-Vestefália, utilizou-o em sua
campanha eleitoral ao parlamento estadual em 2000. Naquela época estava em
curso um debate público sobre a iniciativa do governo federal de conceder
greencards a fim de suprir a então virulenta escassez de mão de obra
qualificada, principalmente na área de tecnologia da informação. Como ninguém
na Alemanha ansiava por uma migração por empregos induzida pelo greencard,
muito menos de especialistas em computadores vindos da Índia, os tabloides
criaram o termo "Computer-Inder" - "indiano do computador" - e passaram a
divulgar imagens assombrosas de grandes famílias indianas que supostamente
teriam decidido se estabelecer em pequenas cidades alemãs. O objetivo de
Rüttgers era resolver a escassez de mão de obra qualificada por meio da
formação de crianças e não por meio da imigração. É relativamente claro que ele
tinha crianças alemãs em mente e não crianças imigrantes de origem indiana.
Além disso, ele provavelmente pensava, sobretudo, em meninos, crianças das
mulheres tratadas implicitamente como mães em seu slogan eleitoral. Visto que
ele era "apenas" contra a imigração, mas não a favor da manutenção de
estruturas familiares tradicionais, ele também poderia mostrar seu compromisso
em favor de iniciativas que despertassem o interesse especialmente de meninas e
mulheres por carreiras em tecnologia da informação e que lhes facilitasse o
acesso a essas profissões. Ele não o fez e esse é o motivo pelo qual o slogan
"crianças ao invés de indianos" de fato ilustra a ligação que nos interessa
aqui.
Outra ligação entre racismo e sexismo pode ser estabelecida, embora se trate de
uma variante posicionada de forma um pouco distinta: a da "etnicização do
sexismo"17, para tomar emprestada uma expressão de Margarete Jåger. De forma
mais geral, também podemos falar do othering18 do sexismo, ainda que tenhamos
que recorrer a um termo em inglês. Os padrões e as estruturas sexistas são aqui
etnicizados na medida em que são principalmente atribuídos a outrosgrupos
étnicos e religiosos que recentemente aumentaram em número, de modo que seu
próprio grupo é representado como justo em respeito às questões de gênero,
ainda que implicitamente - ou ao menos como mais justoque os demais grupos.
Margarete Jåger fala aqui de um "cruzamento de discursos" - expressão que eu
mesma reformulo como "ligação" de discursos sobre mulheres e imigrantes e que
ilustro por meio das declarações que frequentemente apareceram nas entrevistas
conduzidas por Jåger. Foram recorrentes as manifestações de que imigrantes na
Alemanha ou muçulmanos em geral seriam mais sexistas do que a maioria da
população de origem não turca e não muçulmana. Nessas suposições, as mulheres
do grupo supostamente mais sexista são vitimizadas de forma geral - um exemplo
disso é a tese de que o véu islâmico simbolizaria em sia subordinação ou mesmo
a submissão das mulheres. Essa variante de ligação representada pelo otheringdo
sexismo também não é completamente estranha ao próprio feminismo. Há muitos
anos, Chandra Talpade Mohanty já criticava a construção de uma "diferença do
terceiro mundo" entre mulheres ocidentais e mulheres oprimidas não ocidentais.
Trata-se da construção de uma diferença vitimizadora que não só marcava as
tentativas ocidentais de planejar o feminismo global, mas que também afetava
negativamente as perspectivas de sucesso dessa empreitada19. No plano nacional
ou da política interna, as teses de Alice Schwarzer ilustram o otheringdo
sexismo no que diz respeito ao islamismo e, em especial, ao significado do véu
islâmico. Com a intenção de, nesse caso, denunciar o sexismo de
fundamentalistas islâmicos no Irã, Schwarzer não só comparou o véu das mulheres
islâmicas à suástica20, mas também comparou o significado simbólico do véu com
o da estrela de Davi. Segundo Schwarzer, tanto o lenço quanto a estrela
identificam partes da população como pessoas de segunda classe21. Essas
comparações podem ser criticadas em vários níveis. Podemos nos opor ao fato de
Schwarzer não enxergar a abertura interpretativa pertencente às características
constitutivas dos símbolos e de instrumentalizar o holocausto de forma
histórica e moralmente questionável a fim de dar ouvidos a questões feministas
atuais. São, porém, dois outros aspectos que tornam suas comparações exemplos
para o otheringdo sexismo. Em primeiro lugar, ela oculta o fato de que muitas -
se não todas - mulheres muçulmanas usam o véu sem coerção e que isso ocorre
pelas mais variadas razões. Ela aceita apenas uma interpretação que resulta na
avaliação do véu como sinal de uma cultura e de uma religião sexistas22. Em
segundo lugar, Schwarzer se limita ao Islã em sua crítica a religiões e
práticas religiosas baseadas em hierarquias de gênero. O catolicismo, ainda
fortemente ancorado nas instituições e nos ideais da Alemanha, cuja política
sexual e de igualdade entre gêneros também poderia receber algumas acusações,
fica em regra excluído de suas análises. Ao mesmo tempo, ela não só generaliza
as violações dos direitos das mulheres praticadas em nome do Islã - que de fato
existem e que também devem ser criticadas enquanto continuarem a existir - como
típicas do islamismo, mas também reduz o Islã a essas violações.
INTERSECÇÕES
Não está claro o que precisamente se quer dizer com o termo "intersecção" nas
discussões atuais. Se seguirmos o posicionamento de Ladelle McWhorter23, então
as intersecções são atualmente proclamadas em relação a estruturas sociais,
significados históricos, relações de poder e identidade. Seriam avaliadas
discursivamente e institucionalmente, bem como em sua relação com as práticas
locais. Na atual discussão europeia, o termo "intersecções" serve como símbolo
para todas as formas possíveis de combinações e de entrelaçamentos de diversas
formas de poder expressas por categorias de diferença e de diversidade,
sobretudo as de "raça", etnia, gênero, sexualidade, classe/camada social, bem
como, eventualmente, as de religião, idade e deficiências. Quanto a isso, ao
menos originariamente o termo era muito mais restrito e, assim, era conceituado
de forma mais precisa. A teórica do direito norte-americana Kimberlé Crenshaw
introduziu o conceito no debate sobre a teoria da diferença precisamente para
explicar que, nas experiências de discriminação por qual passavam mulheres
negras nos Estados Unidos, os fatores de discriminação sexista e de
discriminação racista nem sempre eram distinguíveis. Em 1989, Crenshaw afirmou
o seguinte em Demarginalizing the intersection of race and sex:
A discriminação, assim como o tráfego de veículos em um cruzamento
[intersection], pode fluir em uma direção ou em outra. Se um acidente
acontece no cruzamento, ele pode ter sido causado por carros vindos
de várias direções e, às vezes, por carros que vêm de todas as
direções. De forma semelhante, se uma mulher negra sofreu uma
injustiça porque ela está no cruzamento, a injúria cometida contra
ela pode resultar da discriminação sexual ou da discriminação racial
24.
Com base nessa imagem do cruzamento, Crenshaw defendeu uma reforma do direito
antidiscriminação norte-americano. Segundo seu diagnóstico, esse direito
funcionaria de uma forma específica que lhe permitia apenas reagir a casos
baseados em questões de gênero - em que a mulher branca era o padrão - ou a
fatos racistas - e então os homens eram a norma. Ao analisar diversos casos
judiciais em que discriminações contra mulheres afro-americanas no mercado de
trabalho não puderam ter seguimento em razão dessa lógica unidimensional, ela
demonstra que, sem essa reforma jurídica, as mulheres negras estavam ameaçadas
de cair nas lacunas do direito antidiscriminação25. A própria Crenshaw ampliou
seu conceito de interseccionalidade e, em ensaio posterior sobre violência
contra women of color - "mulheres de cor" -, ela tratou da interseccionalidade
estrutural, da interseccionalidade política e da interseccionalidade nas
ciências sociais26. Apesar disso, é o direito que está no foco de seus
trabalhos. Com relação à interseccionalidade estrutural, ela trata, por
exemplo, da situação precária de mulheres imigrantes, cuja permanência como
residentes no país depende de seus maridos violentos; em relação à
interseccionalidade política, ela discute diversas medidas políticas e
jurídicas contra a violência doméstica, que têm no tratamento injusto à
situação específica das women of colorseu traço comum; e, em relação à
interseccionalidade nas ciências sociais, ela trata de um estudo sobre a
tematização de estupros no direito, que, mais uma vez, reproduz os problemas já
citados. Sem de modo algum querer reduzir o grande valor desses trabalhos,
acredito que eles não colocam de forma suficientemente ampla a questão de como
pode ser mais esclarecedor entender a interseccionalidade do racismo e do
sexismo como fenômenos de poder complexos e entrelaçados empiricamente de
múltiplas formas, com uma dimensão epistêmica, uma institucional e outra
pessoal. A fim de apresentar minha proposta, quero primeiro voltar mais uma vez
a essas três dimensões - que se inter-relacionam e se apoiam mutuamente umas
nas outras - apresentadas brevemente no início do texto. Em seguida espero
poder mostrar que é possível e proveitoso fazer algumas afirmações relacionadas
a cada uma das três dimensões, além de mostrar que o sentido da
interseccionalidade difere de dimensão para dimensão.
Em primeiro lugar, portanto, faço novamente referência às próprias dimensões. A
dimensão epistêmicado racismo e do sexismo está relacionada a discursos e
saberes, mas também contém símbolos e imagens. A dimensão institucionaldiz
respeito a arranjos institucionais que produzem formas estruturais de
hierarquização e de discriminação. Por fim, a dimensão pessoaldiz respeito a
atitudes, mas também à identidade e à subjetividade de pessoas - tanto daquelas
que pertencem a grupos sociais com status de maioria no que se refere ao
racismo e ao sexismo, quanto daquelas que podemos atribuir a grupos
minoritários. Além disso, a dimensão pessoal também se refere a ações
individuais e a interações pessoais.
Se revisarmos a literatura relevante em busca de uma compreensão abrangente e
socioteórica da interseccionalidade, mais cedo ou mais tarde vamos nos deparar
com os trabalhos de Patricia Hill Collins, principalmente com as diferentes
edições de seu livro
Black feminist thought
27. Nessa obra, a principal questão de Collins é analisar as condições de vida
de mulheres afro-americanas e, portanto, a possibilidade de generalização de
sua proposta está limitada aos componentes de conteúdo. No entanto, daqui pode
ser extraído um quadro teórico que também pode ser esclarecedor para outros
contextos -trata-se de seu conceito de "matriz de dominação". Por meio do
conceito, Collins designa organizações específicas de relações sociais
hierárquicas de poder. Nesse sentido, as matrizes de dominação seriam
caracterizadas, por um lado, por um arranjo específico de sistemas sobrepostos
de opressão, tais como "raça", estrato social, gênero, sexualidade, estatuto de
cidadão, etnia e idade; e, por outro, por uma organização específica de suas
esferas de poder. Collins lista quatro esferas diferentes de poder: primeiro a
esfera estrutural, relacionada a arenas tais como ocupação profissional,
governo, educação, direito, economia e moradia, na qual o poder é exercido por
meio de leis e políticas públicas; em segundo lugar vem a esfera disciplinar,
em que o exercício do poder se dá por meio de hierarquias burocráticas e de
técnicas de controle e vigilância; em terceiro, a esfera hegemônica, em que
ideias e ideologias atuam no sentido de despolitizar opiniões discrepantes, ou
também em que grupos sociais se controlam mutuamente e acabam por produzir o
mesmo efeito; e, por fim, em quarto lugar, a esfera interpessoalque abarca o
racismo cotidiano, as experiências cotidianas de discriminação e as reações de
oposição e de resistência a esses atos. A diferenciação da matriz de dominação
em esferas de poder proposta por Collins é transversal à diferenciação de
variadas dimensões entre racismo e sexismo que eu mesma propus. O modelo de
Collins é principalmente caracterizado pela reunião de diversas formas ou
campos de ação do poder. No entanto, ele fornece um ponto de partida muito útil
para a diferenciação dimensional que proponho, não só no que diz respeito ao
conceito de matriz de dominação, mas também pelo material empírico que, ao
servir de ilustração dos efeitos da matriz, ganha espaço não menos importante
em seu livro. Diante desse pano de fundo, eu me proponho a desenvolver uma
concepção sobre as intersecções entre racismo e sexismo que abarque uma
dimensão epistêmica, institucional e também pessoal a partir dos resultados
obtidos por Collins.
Em relação à dimensão epistêmica, temos então que lidar com normas de gênero
"racializadas" e com representações e atribuições "raciais" sexualizadas - e
aqui a interseccionalidade também implica uma pluralização ou uma diferenciação
interna de categorias usuais da diversidade. Estereótipos e atributos da
feminilidade negra se diferenciam, por exemplo, de normas de gênero
concernentes a mulheres brancas ou asiáticas. Estereótipos e atributos da
feminilidade negra e da masculinidade negra também se diferenciam entre si.
Em relação à dimensão institucional, a interseccionalidade de racismo e sexismo
resulta em complexo entrelaçamento entre diferentes estruturas institucionais -
um entrelaçamento entre, por exemplo, condições de acesso e permanência no
mercado de trabalho, estruturas familiares e a concreta situação da política
educacional. Seu efeito é, entre outros, o fato de que o papel tradicional da
mulher identificado pelo feminismo burguês e "branco" - a saber, a existência
como dona de casa e mãe - nunca se constituiu de fato para as mulheres afro-
americanas.
Por fim, quanto à dimensão pessoal, a interseccionalidade aponta, entre outros,
a processos de subjetivação ou de formação de identidades com diferentes pontos
de referência. Para tratar desse tema, Encarnación Gutiérrez Rodríguez cunhou o
termo "etnicização de gênero"28.
Como parte de uma pesquisa sobre os processos de formação identitária de
mulheres que migraram para a Alemanha, Gutiérrez Rodríguez mostrou que o
desenvolvimento de uma identidade de gênero sempre inclui processos de
etnicização, uma vez que não existem normas de gênero que sejam etnicamente
neutras. A questão de se os indivíduos se dão conta de sua própria etnicização
ou não continua a depender de sua posição social: em todos os casos,
integrantes de minorias étnicas foram percebidos como portadores de registros
étnicos marcados mais fortemente do que integrantes de grupos étnicos
majoritários. Esses resultados são interessantes e orientadores da dimensão
pessoal do racismo e do sexismo principalmente por sugerirem que os processos
de formação de identidades étnicas e de gênero não podem ser diferenciados com
clareza - porque eles estão entrelaçados.
Levando em consideração todos esses aspectos, podemos então dizer que as
intersecções entre racismo e sexismo não constituem algo unitário, mas têm
significados distintos dependendo da dimensão específica. E o que difere aqui é
sobretudo a forma, a configuração das relações de intersecção. Nesse sentido,
intersecções significam: primeiro, normas de gênero pluralizadas e normas que
dizem respeito aos pertencentes de uma "raça" ou de um grupo definido
etnicamente; segundo, cruzamentos institucionais com efeitos que diferenciam
grupos sociais; e, em terceiro lugar, processos multifatoriais de formação de
identidades.
CONCLUSÃO
Afirmações úteis a respeito de semelhanças, diferenças, ligações e intersecções
podem ser feitas no contexto das relações entre racismos e sexismos. A defesa
de uma conceituação multidimensional das relações de ambos os complexos de
problemas é a consequência direta dessa primeira ideia. O atual interesse
feminista por formas de interseccionalidade não deve por isso levar à completa
substituição de "antigos" diagnósticos centrados nas analogias - estes devem
ser antes completados e corrigidos onde for preciso. E também as ligações e
intersecções não devem ser confundidas entre si. Além disso, sempre que
pensarmos a respeito de ligações e intersecções, devemos perguntar - ou melhor:
saber - o que precisamente se combina e se cruza. Em todo caso, não podemos
pressupor que os elementos individuais das ligações e intersecções funcionam
necessariamente de acordo com os mesmos princípios. Nesse sentido, parece útil
perguntar pelas semelhanças e diferenças entre racismos e sexismos. No entanto,
a análise de semelhanças e diferenças nunca será suficiente.
Ina Kerner é professora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade
Humboldt de Berlim.
[*] Publicado originalmente em Feministische Studien, 1, maio 2009.
[1] Cf. Oxford English Dictionary, col. xv, 1989, p. 112.
[2] Disponível em: <http://scriptorium.lib.duke.edu/wlm/vanauken>.
[3] Kerner, Ina. Differenzen und Macht. Zur Anatomie von Rassismus und
Sexismus. Frankfurt a. M. : Campus, 2009.
[4] Balibar, E. "Gibt es einen 'Neo-Rassismus'?". In:Balibar, E. eWallerstein,
I. Rasse, Klasse, Nation. Ambivalente Identitåten. Hamburgo/Berlim: Argument,
1990.
[5] Fraser, N. Die halbierte Gerechtigkeit. Frankfurt a. M. : Suhrkamp,2001,
pp.23 ss.
[6] Fraser, N. eHonneth, A. Umverteilung oder Anerkennung? Eine politisch
philosophische Kontroverse. Frankfurt a. M. :Suhrkamp, 2003, pp.37ss.
[7] Rommelspacher, B. Anerkennung und Ausgrenzung: Deutschland als
multikulturelle Gesellschaft. Frankfurt a. M. : Campus, 2002;
Schirrmacher, F. e Schwarzer, A. "Die Islamisten meinen essoernst wieHitler".
Frankfurter Allgemeine Zeitung, 4/7/2006, p.45.
[8] Ver, por exemplo:Combahee RiverCollective. "ABlackFeminist Statement". In:
Kolmar, W. K. eBartkowski, F. (orgs. ). Feminist theory. A reader. Nova York:
McGraw-Hill Humanities, 2006; hooks, b. Feminist theory: from
margin to center. Boston: South End Press, 1984; Anzaldúa, G.
(org. ). Making face, making soul/ Haciendo caras. Creative and critical
perspectives by feminists of color. San Francisco: AuntLuteBooks, 1990; Collins, P. H. Black feminist thought. Knowledge,
consciousness, and the politics of empowerment. NovaYork/Londres: Unwin Hyman,
1991; FeMigra. "Wir, dieSeiltånzerinnen. Politische
Strategien von Migrantinnen gegen Ethnisierung und Assimilation". In: Eichhorn,
C. e Grimm, S. (orgs. ). Gender Killer. Texte zu Feminismus und Kritik. Berlin/
Amsterdam: Edition ID-Archiv, 1994,pp.49-63.
[9] Por exemplo, Walgenbach, K. "Gender alsinterdependenteKategorie". In:
Walgenbach, K. , Dietze, G. , Hornscheidt, A. e Palm, K. Gender als
interdependente Kategorie. Neue Perspektiven auf Intersektionalitåt, Diversitåt
und Heterogenitåt. Opladen: BarbaraBudrich,2007,pp.23-64.
[10] Maihofer, A. "Gleichheit nur für Gleiche?". In:Gerhard, U. e outros (orgs.
). Differenz und Gleichheit. Menschenrechte haben (k)ein Geschlecht.
Königstein: Ulrike Helmer, 1997, pp. 351-67; idem, "Dialektik
der Aufklårung - Die Entstehung der modernenGleichheitsidee, desDiskurses der
qualitativenGeschlechterdifferenz und der Rassentheorie im 18. Jahrhundert.
In: Hobuß, S. eoutros (orgs. ). Die andere Hålfte der Globalisierung.
Menschenrechte, Ökonomie und Medialitåt aus feministischer Sicht. Frankfurt a.
M. : Campus,2001,pp.113-32.
[11] Stepan, N. L. "Race and gender: the role of analogy in science". In:
Goldberg, D. T. (org. ). Anatomy of racism. Minneapolis: University of
Minnesotta Press, 1990.
[12] Somerville, S. B. Queering the color line. Race and the invention of
homosexuality in American culture. Durham: DukeUniversity Press, 2000.
[13] Schrader-Klebert, K. "Die kulturelle RevolutionderFrau". In: Kursbuch, 17,
1969, pp.1-45.
[14] Lenz, I. "Grenzziehungen und Öffnungen: ZumVerhåltnis von
GeschlechtundEthnizitåtzuZeiten der Globalisierung". In:Lenz, I. e Germer, A.
(orgs. ). Wechselnde Blicke. Frauenforschung in internationaler Perspektive.
Opladen: vs Verlag für Sozialwissenchaften, 1996, p. 20027;
Klinger, C. " Ungleichheit in den VerhåltnissenvonKlasse, Rasseund Geschlecht"
. In: Knapp, G. -A. eWetterer, A. (orgs. ). Achsen der Differenz.
Gesellschaftstheorie und feministische Kritik II. Münster:Westfålisches
Dampfboot,2003, p.13-48; Eichhorn, C. "'Frauen sind die Neger
aller Völker'. Überlegungen zuFeminismus, Sexismus und Rassismus". In:
Redaktion diskus (org. ). Die freundliche Zivilgesellschaft. Rassismus und
Nationalismus in Deutschland. Berlim: idVerlag,1992,p.95-104.
[15] Stolcke, V. "Is sex to gender as race is to ethnicity?". In:Valle,
Teresadel(org. ). Gendered anthropology. Londres/NovaYork:Routledge, 1993, p.
17-37.
[16] Ibidem, p. 36. Ver também Miles, R. Rassismus. Einführung in die
Geschichte und Theorie eines Begriffs. Hamburgo/Berlin: Argument, 1999; Rommelspacher, B. Dominanzkultur. Texte zu Fremdheit und
Macht. Berlin: OrlandaFrauenverlag, 1995, p. 106.
[17] Jåger, M. "Ethnisierung von Sexismus im Einwanderungsdiskurs. Analyse
einer Diskursverschrånkung". In: Wichter, S. e Antos, G. (orgs. ).
Wissenstransfer zwischen Experten und Laien. Umriss einer
Transferwissenschaft.Frankfurt/M. :Peter Lang, 2000, p. 105-20. Disponível on-
line em: <http://www.uni-duisburg.de/DISS/Internetbibliothek/Art.../
Ethnisierung_von_Sexismus.htm> .
[18] Eminglêsno original. [N. T.]
[19] Mohanty, C. T. "Under Western Eyes. Feminist Scholarship and Colonial
Discourses". In: Mohanty, C. T., Russo, A. e Torres, L. (org.). Third World
women and the politics of feminism. Bloomington/Indianapolis: Indiana
University Press, 1991, p. 51-80.
[20] Schwarzer, A. Der große Unterschied. Gegen die Spaltung von Menschen in
Månner und Frauen. Frankfurt a. M.: Fischer, 2002.
[21] Schirrmacher, F. e Schwarzer, A., "Die Islamisten meinen es so ernst wie
Hitler", op. cit.
[22] Ver também Rommelspacher, B. Anerkennung und Ausgrenzung: Deutschland als
multikulturelle Gesellschaft, op. cit., pp. 119 ss.; Oestreich, H. Der
Kopftuch-Streit. Das Abendland und ein Quadratmeter Islam. Frankfurt a. M.:
Brandes & Apsel, 2004; Braun, C. von e Mathes, B.
Verschleierte Wirklichkeit. Die Frau, der Islam und der Westen. Berlim: Aufbau,
2007.
[23] "Sex, race, and biopower: A foucauldian genealogy". Hypathia, vol. 3, nº
19,2004,pp. 38-62.
[24] Crenshaw, K. "Demarginalizing the intersection of race and sex: A black
feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and
antiracist politics". The University of Chicago Legal Forum, 1989, pp. 139-67.
[25] Um dos exemplos selecionados por Crenshaw é o caso DeGaffenreid vs.
General Motors (GM) de 1976, que trata de demissões por razões operacionais.
Naquela época, cinco mulheres negras entraram com uma ação judicial alegando
que o sistema de senioridade da empresa na realidade reproduzia a antiga
discriminação contra mulheres negras. Antes de 1964, ano em que o Civil Rights
Act entrou em vigor, a General Motors nunca tinha contratado mulheres negras.
Todas aquelas contratadas a partir de 1964 perderam seus empregos em 1970 após
uma onda de demissões organizada segundo o princípio da senioridade. Em sua
sentença, o tribunal decidiu que este não poderia ser declarado como caso de
discriminação de gênero, uma vez que a GM já contratava mulheres [brancas]
antes de 1964. A denúncia de discriminação racial foi rejeitada com a sugestão
de reuni-la com outras queixas de racismo contra a GM - embora esses outros
casos não tratassem do problema de senioridade. Não foi permitido às
denunciantes entrar com uma ação como mulheres negras: as ações contra
discriminação por motivo de gênero e também por motivo "racial" tiveram
apreciação negativa. Em dois outros casos tratados por Crenshaw, o problema
consistia no fato de que mulheres negras eram privadas pelos tribunais de
desempenharem a função de representantes do grupo das discriminadas sexualmente
e das discriminadas por questões raciais. Mais uma vez, não era possível à
parte afetada ter êxito em denúncias na condição de mulher - e não de mulher
negra - e também em denúncias na condição de negra (ver Crenshaw,op. cit., pp.
141 ss.).
[26] Crenshaw, K. "Mapping the margins: intersectionality, identity politics,
and violence against women of color". In: Crenshaw, K. e outros (orgs.).
Critical race theory. the key writings that formed the movement. Nova York: The
New Press,1995,pp.357-83.
[27] Black feminist thought. Knowledge, consciousness, and the politics of
empowerment. NovaYork/Londres: Unwin Hyman, 1991e2000.
[28] Gutiérrez Rodríguez, E. Intellektuelle Migrantinnen - Subjektivitåten im
Zeitalter von Globalisierung. Eine postkoloniale dekonstruktive Analyse von
Biographien im Spannungsverhåltnis von Ethnisierung und Vergeschlechtlichung.
Opladen:Leske eBudrich, 1999. 06