Monumento e sombra na Brasília de Marcel Gautherot
O fotógrafo francês Marcel Gautherot (Paris, 1910-Rio de Janeiro, 1996) era
conhecido pela paciência com que escolhia os ângulos de suas imagens e pelo
extremo cuidado com cada elemento da composição, a ponto de esperar por horas,
sob sol a pino, até que uma nuvem ocupasse determinada posição junto a uma
casa1. Suas próprias imagens são a maior demonstração de que, para ele,
fotografar era sobretudo um ato de compor, sendo capaz de prever mentalmente o
lugar adequado de cada elemento. Não por acaso, num de seus raríssimos
depoimentos, ele diz que "Fotografia é arquitetura" e que "uma pessoa que não
entende de arquitetura não é capaz de fazer uma boa foto"2.
Entre 1925 e 1927, na Escola Nacional de Artes Decorativas, em Paris, Gautherot
frequentou, sobretudo, as aulas de arquitetura. Ele não chegou a concluir o
curso, mas costumava se apresentar como arquiteto. Conhecedor das ideias de Le
Corbusier na época, a necessidade de "entender de arquitetura" para fotografar
significava também banhar a cena com uma luz generosa e estruturar a composição
a partir de formas geométricas primárias, de maneira clara e harmônica.
Em Brasília, no início dos anos 1960, Gautherot escolheu a luz do fim de tarde
para registrar os volumes brancos projetados por Niemeyer. Boa parte de suas
imagens do eixo monumental, sobretudo do Congresso Nacional e da praça dos Três
Poderes, conjuga o céu imenso com formas arquitetônicas modeladas em
chiaroscuro, diagonais criadas por perspectivas agudas e sombras densas, às
vezes totalmente negras, em primeiro plano.
Nessa cidade, Gautherot não encontrou dificuldades para estruturar suas imagens
geometricamente, já que a própria arquitetura lhe forneceu motivos matemáticos.
Outro procedimento decisivo em suas fotos é a criação de uma espécie de
equivalência entre as áreas de céu e chão, por meio do uso de filtros que
equilibram as diferentes intensidades de luz da cena. O asfalto se torna
límpido como o céu e o céu, denso como o chão.A atmosfera transparente e o
aspecto artificial resultam também do fato de ele colocar todos os planos em
foco, produzindo uma espécie de hipervisão da cena e distinguindo assim suas
imagens da experiência "real" da visão, na qual os objetos à distância perdem
definição. Assim como fotógrafos modernos ligados à straight photographnorte-
americana ou à Nova Objetividade alemã, por exemplo, ele dispõe de uma técnica
tão precisa que faz o "real" parecer irreal.
A luz tropical e as amplas áreas vazias lhe impuseram o desafio de representar
o espaço monumental sem incorrer numa monotonia acachapante. O problema se
agravava pelo fato de ele trabalhar com o filme de formato quadrado3. Lorenzo
Mammì já notou que o fotógrafo muitas vezes contornou essa dificuldade ocupando
o primeiro plano com sombras de edifícios ou de pessoas4. Nas fotos do eixo
monumental já construído, as sombras em primeiro plano se tornaram um de seus
principais recursos de composição: elas ocupam e demarcam a vastidão do
território, criam formas geométricas, diagonais, ritmos e novas perspectivas
que reforçam a profundidade dos espaços representados.
Gautherot fotografou Brasília sobretudo a pedido de Oscar Niemeyer. Entre o fim
dos anos 1950 e o início dos 1960, ele viajou diversas vezes para registrar a
construção e os primeiros anos da cidade, produzindo cerca de 3500 negativos
sobre o assunto5. Foi comissionado pelo próprio arquiteto e pela Novacap6, a
Companhia Urbanizadora da Nova Capital, de cujo Departamento de Urbanismo e
Arquitetura Niemeyer foi diretor. Também fotografou a capital para agências de
publicidade francesas, empresas como a Air France e Aerospatiale. Na capital,
seguiu o modelo de trabalho free-lanceadotado desde que se radicou no Brasil,
em 1940, quando passou a colaborar com regularidade para o Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; para a Comissão Nacional de
Folclore, criada em 1947; para a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, a
partir de 1958; para empresas particulares, como a Companhia de Seguros Sul
América7;além de ter se tornado um dos principais fotógrafos da emergente
arquitetura moderna brasileira. Ele muitas vezes viajava por conta própria para
depois vender suas fotos para órgãos públicos, empresas e arquitetos.
As imagens de Gautherot exerceram um papel essencial na divulgação de
Brasília.Sobretudo Oscar Niemeyer se utilizou amplamente de suas fotos para
divulgar projetos em livros, revistas e exposições. Suas imagens do canteiro de
obras e dos monumentos oficiais quando prontos foram amplamente publicadas na
Módulo: Revista de Arquitetura e Artes Plásticas, dirigida por Niemeyer e
voltada principalmente para a divulgação de seus projetos. Em quantidade bem
menor, apareceram também na revista Brasília, então editada pela Novacap8. Fora
do Brasil, entre o final dos anos 1950 e a década de 1960, suas fotos
ilustraram matérias de revistas, como as norte-americanas The Architectural
Forum e Arts & Architecture, as francesas Aujourd'hui Art et Architecture e
L'Architecture d'Aujourd'hui. Além disso, desde a construção de Brasília, essas
imagens continuaram sendo amplamente editadas em livros, manuais e revistas,
nacionais e internacionais sobre Brasília, sobre arquitetura brasileira, sobre
Oscar Niemeyer e, mais recentemente, sobre a própria obra de Marcel Gautherot.
Nos últimos anos, elas ultrapassaram a fronteira da fotografia arquitetônica
para figurar em mostras de artes visuais, algumas delas sobre a arte geométrica
construtiva no Brasil ou na América Latina9.
É importante destacar que, entre suas fotos dos eixos monumental e residencial,
há algumas que, embora revelem aspectos essenciais dos projetos da cidade, não
poderiam ser classificadas apenas como "fotografias de arquitetura". O conjunto
possui uma série de "digressões fotográficas", autorretratos e imagens de
índole lírica, feitas sem a preocupação de uma aplicação prática.Uma atenção
especial aos desenhos formados por sombras e os registros da Sacolândia - o
conjunto de moradias feitas com sacos de cimento vazio, que abrigavam famílias
de operários - amplia nosso conhecimento sobre o escopo de suas preocupações e
experimentações formais, mostrando que seu interesse por Brasília ia além da
produção de imagens publicitárias bem-feitas. Esse artigo aborda "fotografias
de arquitetura" e também imagens que não se enquadram nessa categoria.
O autorretrato realizado na Esplanada dos Ministérios, por volta de 1962, é um
exemplo. Nele, a sombra subverte a escala dos monumentos, destoando da presença
coadjuvante que a figura humana costuma ter em suas fotos de arquitetura. A
sombra não se sobrepõe aos outros elementos e o sentido de clareza é mantido.O
assunto da fotografia parece ser a própria perspectiva, elemento essencial na
configuração monumental daquele espaço, e motivo de o plano-piloto ter sido
acusado de promover um "barroco revival"10.O autorretrato é também como uma
afirmação da capacidade da fotografia de ordenar o espaço a partir da
perspectiva, como se esta fosse a maneira mais adequada de representar a
monumentalidade "neobarroca" da esplanada.
Em Brasília, a objetividade e a clareza características de sua obra, quando
combinadas à presença marcante de sombras densas e perspectivas profundas,
criam um resultado inusitado, pois a tornam muito semelhante, do ponto de vista
formal, às obras iniciais do pintor italiano Giorgio de Chirico realizadas
entre 1911 e 1915, durante sua primeira estada em Paris.Não foram encontrados
documentos relatando a ligação entre os dois artistas. Por outro lado, como
veremos adiante, Brasília foi comparada às paisagens de De Chirico por
intelectuais e artistas, muitas vezes como uma estratégia de crítica ao que
percebiam como um urbanismo de viés autocrático.Por outro lado, a semelhança
entre as imagens chama a atenção para aspectos ambíguos da obra de Gautherot,
abrindo espaço para interpretações que vão além do caráter estritamente
propagandístico pelo qual é conhecida.
Na foto da praça dos Três Poderes, uma escada que parece dar para o nada11 e a
presença insólita da escultura A Justiça, de Alfredo Ceschiatti, remetem aos
elementos enigmáticos, às estátuas fantasmagóricas e aos sólidos geométricos de
função inexplicável que habitam as pinturas de Giorgio de Chirico. A praça
vazia, os edifícios ao fundo, o horizonte distante cortando a cena ao meio e a
sombra triangular de uma construção que é vista apenas parcialmente, em
primeiro plano, aproximam ainda mais essa fotografia da estrutura compositiva
das telas de De Chirico, sobretudo daquelas pautadas nas praças italianas com
amplas áreas livres rodeadas por construções que remetem ao renascimento ou ao
neoclassicismo.
Em O enigma de um dia, vemos uma praça monumental quase vazia, volumes
delineados em chiaroscuro, sombras longas em diagonal, figuras humanas pequenas
e distantes como aquelas que costumam circular na Brasília de Gautherot.Nas
pinturas realizadas na década de 1910, o artista combina esculturas que remetem
à Antiguidade clássica, estátuas de personagens contemporâneos e elementos
modernos como a chaminé de uma fábrica ou o trem no horizonte da obra citada.
Apesar da técnica de representação ilusionista e de escritos nos quais De
Chirico por vezes se refere a praças de Turim12, suas pinturas não representam
lugares específicos.Parecem com a cena congelada de um sonho, ou de um
pesadelo, constituído pela vaga lembrança de cidades históricas que, no
entanto, são também as cidades modernas transformadas pela era industrial. O ar
é pesado, predomina a sensação de inércia, angústia e solidão.
No entanto, conforme De Chirico, seus quadros não tinham origem em sonhos13,
mas no que ele considerava uma experiência "metafísica", ou uma "revelação" que
acontece a partir da observação distanciada do mundo real. No texto "Meditações
de um pintor", de 1912, ele recorre a Arthur Schopenhauer - que junto com
Friedrich Nietzsche é uma das referências mais importantes de sua obra - para
explicar como se dá essa revelação:
Uma obra de arte realmente imortal só pode nascer pela
revelação.Schopenhauer foi quem melhor definiu e também (porque não?)
explicou esse momento quando, emParerga und Paralipomena, diz: "Para
ter ideias originais, extraordinárias e até imortais, basta que nos
isolemos do mundo por alguns momentos tão completamente que os fatos
mais comuns nos pareçam novos e desconhecidos; é assim que eles
revelam sua verdadeira essência"14.
A expressão "pittura metafísica" foi cunhada em 1917 por De Chirico e Carlo
Carrá, quando ambos estavam internados em um hospital militar em Ferrara, mas
se refere a um vocabulário estético desenvolvido pelo primeiro desde
aproximadamente 1913.A proposta surge sem um programa específico, tampouco o
termo "metafísico" se refere a uma definição filosófica precisa. Ainda assim,
pittura metafisicaidentifica cenas arquitetônicas calmas e vazias,
caracterizadas por um sentido de mistério e alucinação criado por perspectivas
artificiais e pela justaposição ilógica de objetos representados de forma
realista, recurso que mais tarde será adotado pelos surrealistas. Entre 1918 e
1921, data em que o movimento se dispersa, a revista italiana Valori
Plasticipublica textos de Carrá e de De Chirico na tentativa de definir uma
estética metafísica15. Em "Sobre a arte metafísica", de 1919, De Chirico
explica:
[...] Tudo tem dois aspectos: um normal, que quase sempre vemos e é
visto pelas pessoas em geral;o outro, o espectral ou metafísico, que
só pode ser visto por raras pessoas num momento de clarividência ou
de abstração metafísica, tal como certos corpos, que existem dentro
da matéria e não podem ser penetrados pelos raios de sol, só aparecem
sob a força da luz artificial, sob o raio X, por exemplo16.
De acordo com o crítico norte-americano James Thrall Soby, organizador de uma
importante retrospectiva realizada pelo moma, em 1968, teria sido por meio da
obra de Nietzsche que o pintor se interes-sou pela luminosidade típica do
outono europeu, quando as cidades são invadidas por longas sombras. Em seu
diário publicado em 1945, De Chirico afirma que, para ele, o dado mais
impactante na obra do filósofo alemão foi:
[...] Uma estranha e profunda poesia, infinitamente misteriosa e
solitária, baseada noStimmung (que pode ser traduzido como...
atmosfera), baseado, quero dizer, noStimmungde uma tarde de outono
quando o tempo está claro e as sombras são mais longas que no verão,
pois o sol está começando a baixar. A cidade italiana onde isso é
mais notável é Turim17.
Na interpretação de Giulio Carlo Argan, o uso da perspectiva clássica em De
Chirico não tem como resultado a representação da realidade, mas a evocação da
ideia de nulidade e vazio18. Além da função de construir um espaço de aparência
monumental no plano bidimensional, em suas telas a perspectiva parece exagerada
ou é transgredida pela presença de mais de um ponto de fuga na imagem, ou fora
dela. Em Gare Montparnasse("A melancolia da partida"), diferentes pontos de
fuga criam um espaço fragmentado e de aspecto deformado. A perspectiva
proeminente que forma a sequência de colunas à direita da estação não é
acompanhada pela linha do que parece ser a ponta de uma construção à direita do
quadro. Isso faz com que a rampa de acesso aos trens, onde caminham as duas
figuras, perca o efeito de profundidade, apresentando-se como uma forma plana.
A relação entre plano e profundidade se torna ambígua.
Três características da obra do pintor coincidem especialmente com os recursos
de composição utilizados por Gautherot em Brasília: 1) sombras que desenham
formas geométricas e recortam os planos; 2) sombras de pessoas ou construções
ausentes na cena; 3) sombras projetadas numa direção diferente daquela para
onde convergem as linhas da perspectiva que desenham o espaço. No caso do
fotógrafo, o terceiro aspecto acontece sobretudo em imagens das rampas do
Congresso Nacional, onde uma sombra densa cria formas geométricas e novas
perspectivas, dificultando de imediato o reconhecimento do lugar. São momentos
de exceção em que o fotógrafo se distancia da representação realista do
referente, criando espaços recortados, em que a relação entre plano e
profundidade se torna ambígua. A foto das rampas do Congresso Nacional
apresenta uma perspectiva vertiginosa, ao mesmo tempo que o triângulo formado
pelas linhas da rampa e sua sombra se impõe de imediato como uma forma plana.
Como emGare Montparnasse, nessas fotos a representação do espaço ganha
contornos inverossímeis.
Os lugares pintados por De Chirico pertencem a um tempo abstrato e, neles,
ainda conforme Argan, o elemento clássico é a essência de seu sentido
metafísico. Para o pintor, a arte seria necessariamente perene e estaria acima
das contingências históricas19. A ideia de criar uma arquitetura de valor
definitivo, que fosse também uma forma de arte plástica e se mantivesse bela,
independentemente do contexto histórico, orientou também os projetos de Oscar
Niemeyer e Lucio Costa em Brasília.
Numa das interpretações mais acertadas sobre a obra de Oscar Niemeyer, Sophia
S. Telles argumenta que o raciocínio do arquiteto acontece na escala do desenho
e não da construção20. Aos técnicos competentes, caberia dar volume ao desenho
e o artista poderia, assim, seguir tranquilamente, livre de toda contingência.
De acordo com a crítica, Niemeyer não constrói uma metáfora da natureza, mas
suas formas se querem tão leves e naturais que a elas cabe apenas a
contemplação21.
Ao comentar seus projetos para Brasília, o arquiteto discorre sobre a
prioridade da intenção monumental, apresentando a arquitetura como forma de
compensação. Na praça dos Três Poderes, ele buscou:
Formas que não se apoiassem no chão rígidas e estáticas, como uma
imposição da técnica, mas que mantivessem os Palácios como que
suspensos, leves e brancos [...]. Formas de surpresa e emoção que,
principalmente, alheassem o visitante, por instantes que fossem - dos
problemas difíceis, às vezes invencíveis, que a vida a todos
oferece22.
Até o fim dos anos 1950, boa parte da arquitetura moderna brasileira permaneceu
vinculada às propostas de Le Corbusier formuladas nos anos 1920 e 193023. Como
em outros escritos, em "Considerações sobre arte contemporânea", de 195224,
Lucio Costa se aproxima das ideias do arquiteto franco-suíço, em especial dos
argumentos expressos no livro Por uma arquitetura, publicado em 1923.Para
ambos, a arquitetura é uma arte plástica, sendo justamente sua qualidade
plástica o fator que a diferencia da simples construção25. A atenção às
questões funcionais e a aplicação das técnicas da era maquinista são
compromissos fundamentais, mas não bastam a uma obra arquitetônica. O elemento
plástico junto com seu "conteúdo lírico e passional", nas palavras de Lucio
Costa, são os fatores que, por provocarem comoção, têm o potencial de conferir
à arquitetura um caráter perene: "aquilo por que haverá de sobreviver no tempo,
quando funcionalmente já não for mais útil"26.
No texto "Lucio Costa e Le Corbusier: afinidades eletivas", Carlos A. Ferreira
Martins chama a atenção para as correspondências entre o conceito de "beleza
perene" proposta pelos pintores teóri-cos do purismo Charles-Édouard Jeanneret
(que na época começou a assinar seus textos sobre arquitetura como Le
Corbusier) e Amedée Ozenfant, e as afirmações de Lucio Costa sobre a qualidade
plástica da obra arquitetônica como sendo o motivo que a fará "sobreviver no
tempo"27. Nas palavras do urbanista, ele teria concebido Brasília "na escala do
Brasil definitivo"28.
Assim como nas pinturas de De Chirico, os projetos de Niemeyer para a praça dos
Três Poderes também combinam passado e presente. Encontramos ali ecos da
Antiguidade clássica (as colunas dos palácios, o mármore e a escultura A
Justiça, de Ceschiatti, encomendada pelo arquiteto) convivendo com sólidos
geométricos de concreto armado e com o sentido despojado das superfícies lisas
e das transparências próprias da arquitetura moderna.Nesse lugar, o insólito
advém da ideia de suspensão, do céu imenso, do vazio monumental combinado à
claridade ofuscante, sem encontrar algo que a atenue, refletida no chão branco
de pedra portuguesa.
Nas fotos de Gautherot, o alheamento do que é contingente e transitório é
sugerido, sem dúvida, pela própria arquitetura de Niemeyer desenhada com
sólidos geométricos cobertos por uma capa branca, lisa e homogênea; mas também
pelo trabalho do fotógrafo na captação da luz. De modo geral, suas imagens
afirmam a conquista do território, o domínio da técnica, a riqueza e a ordem
que deveriam se tornar perenes a partir de Brasília. Nelas, o aspecto etéreo e
extratemporal reforça a ideia de permanência e o mito do desenvolvimento.
A ideia de suspensão característica dos projetos de Niemeyer explica em parte o
sentido "metafísico" ou "onírico" por vezes atribuído ao centro cívico de
Brasília, ou "surrealista" atribuído às obras do arquiteto29. Para isso,
contribuem também as perspectivas monumentais determinadas pelo plano-piloto e
a austeridade da praça dos Três Poderes. Quando o lugar não é palco de eventos
oficiais, a perspectiva do eixo monumental pode causar a impressão de uma
distância inalcançável, uma sensação de solidão e impotência que justifica
também sua comparação com a dimensão nostálgica das obras de Giorgio de
Chirico.
Em textos sobre Brasília, Niemeyer cita outras referências para os projetos da
praça dos Três Poderes:
Lembrava-me da praça de São Marcos, na Itália, com o palácio dos
Doges, da catedral de Chartres, de todos esses monumentos que acabava
de conhecer, obras que causam um impacto indescritível pela beleza e
audácia com que foram realizadas, sem contribuírem para a emoção
razões técnicas ou funcionais30.
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No mesmo depoimento, ao comentar especificamente o projeto para a praça dos
Três Poderes, o arquiteto menciona Jean Carzou, um pintor francês pouco
conhecido, cuja obra não tem expressão na história da arte moderna:
Não a pretendia fria e técnica, com a pureza clássica, dura, já esperada das
linhas retas.
Desejava vê-la, ao contrário, plena de formas, sonho e poesia, como as
misteriosas pinturas de Carzou. [...] Formas que não pesassem no chão, como uma
imposição técnica, mas que mantivessem os palácios como que suspensos, leves e
brancos, nas noites sem fim do Planalto31.
Provavelmente, Niemeyer referia-se à dimensão fantástica das pinturas de Carzou
realizadas durante a guerra e logo após 1945, pois evocam um mundo de
perspectivas vazias e silenciosas, formado por entulhos, ruínas, charretes
destruídas, árvores incineradas e canhões enferrujados. Suas paisagens
desoladoras são por vezes habitadas por arlequins, por um São Jorge em luta com
o dragão, personagens femininas semelhantes a fadas e figuras esqueléticas que
caminham a esmo.
Essas pinturas são marcadas por um grafismo conciso e cerrado. Nelas, as formas
são construídas a partir de um emaranhado de linhas que em nada lembra as
superfícies lisas das obras de Niemeyer. Por outro lado, podemos ver uma
correspondência entre a aparência leve dos edifícios do arquiteto e as formas
delgadas das construções que aparecem nas pinturas de Carzou, embora as obras
do artista francês tenham um aspecto sombrio e às vezes lúgubre, diferente da
luminosidade radiante do país tropical. Além disso, não há paralelos entre os
sólidos geométricos de Niemeyer e as edificações ecléticas representadas nas
obras de Carzou. O pintor cria cenários que remetem à destruição da guerra,
enquanto o brasileiro constrói um mundo possível após o conflito.Ainda assim, a
citação do arquiteto se justifica nos céus límpidos e amplos, nos espaços
vazios e nas perspectivas agudas que caracterizam as pinturas do artista
francês. Além disso, a escultura Os guerreiros, de Bruno Giorgi, na praça dos
Três Poderes, com sua forma delgada e conotação arcaica, lembra os objetos
queimados ou enferrujados que aparecem nas pinturas em questão.
Conforme o embaixador Wladimir Murtinho32, a presença de esculturas no espaço
de Brasília não significava "arte integrada no sentido verdadeiro". A capital
seria "um espaço metafísico" no qual a "ideia de grande praça solta e um objeto
no meio, que se encontra nos quadros de Giorgio de Chirico, é reencontrada
[...]". E complementa que, na cidade, "a perspectiva é tão forte que acaba
"placando" (sic) os objetos. [...] As esculturas, aqui, estão mas não
contam"33.
O escritor italiano Alberto Moravia, que visitou uma série de cidades
brasileiras em 1960 a serviço do jornal milanês Corriere della Sera, descreveu
Brasília como barroca, opressiva e alucinante.Suas palavras sobre o palácio do
Congresso Nacional:
As duas torres sobem, sobem, repletas de centenas de janelas; no
final, abaixo delas surge um longo edifício horizontal sobre o qual
pousam duas frigideiras enormes de cimento amarelado, uma virada para
baixo e a outra virada para cima.Por um momento os olhos não
acreditam no que veem, uma vez que, enquanto até um arranha-céu
altíssimo é aceitável justamente porque é geométrico, a naturalidade
de uma sopeira que parece ser feita para o apetite de um gigante tem
alguma coisa de alucinante. [...] Não há gigantes;mas a impressão de
gigantismo arquitetônico e, portanto, de esmagamento e aniquilação da
figura humana permanece e se afirma durante toda a visita. Brasília
foi construída por vontade de Kubitschek, que é um presidente
democrático, para um Brasil democrático. Mas a observação daqueles
edifícios que se elevam como torres no meio de enormes espaços vazios
faz pensar em lugares e monumentos de antigas autocracias [...].A
atmosfera ditatorial é, por outro lado, confirmada pela solidão
metafísica dos lagos de asfalto em que surgem os edifícios. Essas
solidões urbanas antecipadas nas perspectivas surrealistas de De
Chirico e Salvador Dalí expressam muito bem o sentido de mistério e
desorientação que o homem moderno sente diante dos poderes que o
governam.[...] Mas, para entender Brasília, é preciso, em nossa
opinião, referir-se ao Brasil colonial da Bahia e outras cidades
barrocas do litoral. Ao barroco delirante das igrejas coloniais
corresponde, de fato, no sentido psicológico, o gigantismo não menos
exaltado de Brasília. Fica claro que estamos diante de uma explosão
barroca mascarada de funcionalismo.[...] Uma concepção
grandiloquente, embora expressa com uma linguagem moderna34.
Na opinião do autor, assim como as igrejas barrocas ostentavam o poder do
colonizador português, Brasília ostentaria o poder do Estado colonizador do
sertão. As cúpulas do Congresso fazem com que o escritor identifique algo de
amedrontador e irreal naquele lugar. Parte desse espanto tem origem no tamanho
do empreendimento. Além disso, a capital frustrava alguns dos símbolos de
identidade nacional mais arraigados - a paisagem litorânea paradisíaca, o
ambiente caloroso e hospitaleiro, a terra do carnaval -, causando estranhamento
tanto em brasileiros quanto em visitantes internacionais.Moravia usa os
adjetivos "surrealista", "metafísica" e "barroca" de maneira livre, sem rigor
conceitual. Ainda assim, é preciso considerar que, se o plano-piloto possui o
sentido monumental e cenográfico característicos da cidade capital barroca, por
outro lado, a lisura, a leveza e as curvas suaves das obras de Niemeyer não se
confundem com as superfícies rebuscadas, agitadas, repletas de protuberâncias,
cheios e vazios que caracterizam o barroco35.
É comum que relatos sobre Brasília de diferentes naturezas adquiram um forte
acento poético. É o caso do relatório do plano-piloto de Lucio Costa, de
depoimentos de Niemeyer ou mesmo de textos de Juscelino Kubistchek sobre a
capital36. Essa característica é especialmente notável nos dois textos de
Clarice Lispector sobre a cidade - "Nos primeiros começos de Brasília" (1964) e
"Brasília: esplendor" (1974)37 -, ambos fortemente impregnados do sentido
autobiográfico que identifica a prosa da escritora.
O primeiro dos textos é como uma fábula fundadora de um mundo antigo, em que é
forte também a impressão de "irrealidade". A cidade surge como o cenário de um
sonho:
Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial.
Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando
o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para
aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade
de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em
primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas
necessidades.Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu
dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da
cidade.Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia veem
nisso uma acusação. Mas minha insônia não é bonita nem feia, minha
insônia sou eu, é vívida, é o meu espanto. É ponto e vírgula. Os dois
arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles
ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um
novo mistério. - Quando eu morri, um dia abri os olhos era Brasília.
Eu estava sozinha no mundo, havia um táxi parado.Sem chofer.Ai que
medo.- Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários.- Olho
Brasília como olho Roma:Brasília começou como uma simplificação final
de ruínas. [...] No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres
louros e altíssimos que não eram americanos nem suecos e que
faiscavam ao Sol. Eram todos cegos. [...] A raça se extinguiu porque
nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos
e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos.[...] - Foi construída
sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que
tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles
quiseram negar que a gente não presta. Construção com espaço
calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos,
todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível
nos jornais.- Aqui eu tenho medo.- A construção de Brasília:a de um
Estado totalitário38.
Clarice opta pela contradição. O texto sugere uma crítica mais ou menos sutil
ao urbanismo funcionalista de Brasília. Fala da sensação de solidão e propõe
que os arquitetos agem como demiurgos confiantes em sua capacidade de
solucionar os problemas da vida moderna por meio do planejamento. Os
"brasiliários" belos, cegos, faiscantes, puros e estéreis são como metáforas da
claridade saneadora que banha a cidade por todos os cantos. "Foi construída sem
lugar para ratos" sugere um lugar asséptico onde não pode haver sujeira nem
erro, onde o homem não pode temer nem pecar. Ainda assim, o texto não assume um
ponto de vista maniqueísta ou unilateral. Apesar de toda crítica, a autora
mantém uma postura ambígua, deixando entrever seu espanto e admiração:"Se eu
dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade".
A escritora transforma em prosa poética alguns dos questionamentos que vieram a
público na época da construção e inauguração de Brasília.No Congresso
Internacional Extraordinário de Críticos de Arte, realizado no Brasil, em
195939, os participantes estiveram longe de um consenso sobre o urbanismo e a
arquitetura da capital, embora poucos tenham questionado diretamente a cidade.
Um dos momentos mais polêmicos do encontro ocorreu durante a segunda sessão
sobre "Urbanismo", quando o crítico italiano Bruno Zevi apontou a crise da
arquitetura moderna afirmando que suas formas e pressupostos não davam mais
conta dos desafios impostos pela sociedade contemporânea. Ele ponderou suas
objeções a Brasília dizendo que os problemas da cidade eram os defeitos da
cultura arquitetônica atual: "Se há defeitos, é porque Brasília concretiza os
problemas que nós - todos nós, em todas as partes do mundo - não resolvemos"40.
A questão central seria a dessincronia entre o ritmo da cidade e de seus
habitantes que, na opinião do crítico, não poderia ser solucionada apenas por
um plano-piloto.Ele cita a distância entre sua geração e a de pioneiros da
arquitetura moderna:
Le Corbusier, Gropius, Mies van der Rohe, a geração dos arquitetos
que Le Corbusier chamou de "jovens de 70 anos", tinham absoluta
certeza de que podiam construir artificialmente uma cidade que depois
teria vida, um autômato que criaria alma, nós, os "velhos de 30, 40 e
50 anos" temos muito mais dúvidas que os "jovens de 70 anos"41.
Na mesma sessão, Mário Pedrosa contestou Zevi com argumentos pautados nas
especificidades culturais e históricas do Brasil, o que, bem verdade, marcou
suas intervenções durante todo o congresso. Pedrosa acreditava na importância
simbólica da arquitetura moderna num país como o Brasil, "condenado ao
moderno"42, onde "forçar a história"43 faz parte da tradição cultural.Embora
fosse um crítico ao governo jke embora tenha reconhecido a importância da
intervenção de Zevi, Pedrosa defende a necessidade de confiar na vitalidade do
país, pois, em seu "ponto de vista particularmente brasileiro"44, a construção
da nova capital representava a possibilidade de uma transformação social sem
precedentes:
Detesto falar como brasileiro e falar a favor de Brasília, ou antes
dos que a constroem. Mas não lhes faço apologia, nem apologia de
Brasília. Estou empenhado na sua aventura, fui empolgado por essa
aventura.Vejo nela algo de importantíssimo, porque no fundo se trata
do esboço de uma mentalidade nova neste país. Trata-se, no fundo, de
uma revolução que começa. Isolada com seus belos palácios e
monumentos, Brasília não é nada.Mas é um símbolo;e, sobretudo, pode
vir a ser a expressão da vontade consciente de um Brasil novo para
forçar a história deste país.45
Na visão de Pedrosa, a mudança pressupunha o planejamento de toda a região em
torno da capital e a realização urgente de uma reforma agrária.Por fim,
entusiasmado sobretudo com o plano de Lucio Costa, o crítico declara que, no
caso específico de Brasília, ele é a favor da monumentalidade:"[...] no plano
urbanístico marcado pela simplicidade autêntica e humana, [...], o monumental é
símbolo da revolução que Brasília representou ou deveria representar"46.
Com o término e em consequência do congresso, aparecem críticas mais explícitas
na imprensa internacional, algumas delas se voltando abertamente contra o
aspecto monumental da capital. Em outubro de 1959, Sibyl Moholy-Nagy, que não
participou do encontro no Brasil, mas visitou a cidade em obras, publica o
artigo "Brasília: majestic concept or autocratic monument?" na revista norte-
americana Progressive Architecture. A autora apresenta a transferência da
capital brasileira como uma decisão governamental autoritária, questiona seu
isolamento político e o resultado do concurso para o plano-piloto. Sibyl
Moholy-Nagy vê o palácio do Congresso Nacional como um clichê das ideias de Le
Corbusier, uma aplicação de concepções que o mestre franco-suíço já havia
descartado há muito. Critica também as dimensões da praça dos Três Poderes e do
setor bancário apontando como excessivas as distâncias entre os edifícios e a
consequente dificuldade de comunicação entre eles. Brasília seria parte de um
cenário de "implicações trágicas da arquitetura moderna mal compreendida",
resultado da "tendência em direção a uma aplicação irresponsável que tem
marcado e corrompido a escrita de Le Corbusier"47.
Bruno Zevi aprofunda sua crítica com o artigo "Inchiesta su Brasília",
publicado na revista italiana L'Architettura Cronache e Storia, em 196048.
Repetindo a ressalva de que os defeitos da cidade são aqueles da cultura
arquitetônica e urbanística contemporânea, o autor afirma que "Brasília não
convence", taxando-a de "autoritária", "cenográfica", "retrógrada" e "fria".Sua
arquitetura seria "retórica" e "caprichosa". Na opinião de Zevi, a capital
brasileira seria "uma cidade kafkiana, o paraíso dos burocratas". O crítico
denuncia a falta de planejamento regional e a acusa de ser uma das principais
causas da grave crise econômica brasileira que então se estabelecia. Para ele,
na praça dos Três Poderes não há nada do dinamismo espaço-temporal
característico do urbanismo moderno, ao contrário:"Oitocentista ou ainda mais
antigo, aqui nos encontramos no classicismo mais retrógrado". Brasília causa em
Zevi uma impressão de artificialidade, como se os projetos de Costa e Niemeyer
não conseguissem transpor o plano do projeto para a realidade 49.
Gautherot olha para Brasília com mais generosidade.De um modo geral, é como se
ele, a despeito da nacionalidade francesa, se alinhasse ao "ponto de vista
particularmente brasileiro" adotado por Mário Pedrosa durante o Congresso
Internacional Extraordinário de Críticos de Arte. Sobretudo pelo trabalho de
luz e sombra, suas fotografias interpretam a "artificialidade" de Brasília como
um mundo convertido em arte plástica, em correspondência com os propósitos de
Lucio Costa e Niemeyer, com quem ele conviveu desde 1940.
Mas o otimismo de Gautherot, assim como o de Mário Pedrosa e de outros
intelectuais que apostaram em Brasília, não significava indiferença em relação
às contradições do projeto político que resultou na construção da capital.
Basta pensar nas aproximadamente setenta fotografias de Gautherot sobre a
Sacolândia. Ele pretendia transformar a série num livro, mas não encontrou
editores interessados no assunto50. O conjunto demonstra que, na capital, ele
também procurou um espaço para circular com liberdade, registrando além do que
lhe era encomendado por órgãos públicos e revistas de arquitetura.
De modo geral, a obra de Gautherot sobre o Brasil - a arquitetura, o homem, a
cultura popular, as cidades, a natureza e o patrimônio histórico - possui um
sentido edificante característico de uma parcela significativa da fotografia
moderna51. As grandes áreas de sombra de suas fotos de Brasília comprometem
essa positividade, sobretudo no caso dos autorretratos e em fotos que não foram
divulgadas nos contextos das revistas de arquitetura e exposições. Se, por um
lado, as sombras demarcam a grandiosidade de Brasília, por outro, criam zonas
de indeterminação. As sombras, o excesso de limpidez, o sentido de assepsia e
de "irrealidade" aproximam essas fotografias do discurso ambíguo de Clarice
Lispector. É nesse sentido também que as semelhanças das fotos de Gautherot com
as pinturas de De Chirico apontam para a complexidade das referências
artísticas e culturais que compõem a paisagem de Brasília e suas
representações.
Heloísa Espada é doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pela Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e coordenadora da área de
artes visuais do Instituto Moreira Salles.
[1] O arquiteto Augusto C. da Silva Telles conta que, no início dos anos 1960,
encontrou Gautherot em São Gonçalo (RJ), no calor de janeiro, sentado embaixo
de um guarda-sol, aguardando uma nuvem se deslocar até onde ele queria, para
então fotografar a fazenda Columbandê. Telles, Augusto C. da Silva."Marcel
Gauthe rot e o Iphan". In:O Brasil de Marcel Gautherot.São Paulo: Instituto
Moreira Salles, 2001, p.11.
[2] Angotti-Salgueiro, Heliana. "Fotografando a arquitetura barroca,
vernacular, moderna".In: O olho fotográfico: Marcel Gautherot e seu tempo. São
Paulo: Faap, 2007, p.253.
[3] Quando publicadas em revistas, as fotos de Gautherot eram frequentemente
cortadas de modo a se adaptarem ao layout da publicação. Mesmo assim, seus
contatos sugerem que, ainda que pudessem ser editadas, ele trabalhava a
composição em toda a área do negativo 6'6.
[4] O crítico discorre sobre uma imagem da Esplanada dos Ministério sem
construção, naquala sombra densa e ondulada, em primeiro plano, assume um
aspecto vegetal, sendo comparada às raízes e árvores fotografadas pelo artista
na Amazônia, nos anos 1940. Mammì, Lorenzo. "A construção da sombra". In:
Espada, Heloisa (org.). As construções de Brasília. São Paulo: Instituto
Moreira Salles, 2010, pp.96-105.
[5] As fotos integram o acervo do Instituto Moreira Salles que, em 1999,
adquiriu a coleção de aproximadamente 25 mil imagens realizadas por Marcel
Gautherot ao longo de sua trajetória profissional.
[6]Segundo o próprio fotógrafo em: Gautherot, Marcel André. Depoimento -
Programa de História Oral. Brasília: Arquivo Público do Distrito Federal, 1990.
[7] As informações sobre as empresas para as quais Gautherot prestou serviços
foram tiradas dos depoimentos de Oscar Niemeyer, Alcides Rocha Miranda, Janine
e Olivier Gautherot (esposa e filho do fotógrafo), Augusto da Silva Telles e
Marcos Jaimovich a Ana Luiza Nobre, em 2001e 2002. As entrevistas integram o
acervo do Instituto Moreira Salles.
[8] O fotógrafo Mário Fontenelle foi o principal colaborador da revista
Brasília.
[9] Ver Kudielka, Robert e outros. Das Verlangen nach Form. Neoconcretismo und
zeitgenössische Kunst aus Brasilien.Berlim: Akademie der Künste, 2010; Fundación Juan March. Cold America. Geometric abstraction in Latin
America (1934-1973). Madri: Fundación Juan March, 2011.
[10] Marcelo, Miltone Maurício Roberto, os "irmãos Roberto", sócios do
escritório MMM Roberto, em entrevista ao Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24/
03/1957. In: Xavier, Alberto (org.). Lucio Costa: sobre arquitetura. Porto
Alegre: Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, 1962, p.279. Lucio Costa atribuiu o projeto urbanístico da capital aos
princípios dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) e ao seu
apego à"[...] amorosa lembrança de Paris, daquela urbanização ainda dos séculos
XVII, XVIII e XIX, com seus eixos e belas perspectivas sabiamente centradas -
tradição, digamos, 'clássico-barroca' -e com os gramados ingleses de minha
infância."Costa, Lucio. "Eixo monumental". In: Lucio Costa: registro de uma
vivência.São Paulo: Empresa das Artes, 1995, p.304.
[11] A escada dá acesso a uma sala subterrânea onde hoje funciona o Espaço
Lucio Costa, aberto à visitação pública, com maquetes de Brasília, informações
sobre a cidade e cópias do relatório vencedor do concurso do plano-piloto.
[12] Soby, James Thrall. Giorgio de Chirico.Nova York: The Museum of Modern
Art, 1968.
[13] De Chirico, Giorgio. "Sobre a arte metafísica". Valori Plastici.Roma, ano
I, nº4-5, abr.-maio 1919. In: Chipp, Herschel B. Teorias da
arte moderna.São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.453.
[14] De Chirico, Giorgio. "Meditações de um pintor", 1912.In: Ibidem, p.402.
[15] Giorgio Morandi também participa do movimento nesse período.
[16] De Chirico, Giorgio. "Sobre a arte metafísica". In: Chipp, op. cit.,
p.456.
[17] De Chirico, Giorgio. Memoire della mia vita. Roma: Astrolabio, 1945, apud
Soby, op. cit., 1968, p. 28. Como dissemos, uma luz semelhante a essa descrição
é utilizada por Gautherot em boa parte de suas fotografias de Brasília.
[18] Argan, Giulio Carlo. Arte moderna.São Paulo: Companhia das Letras, 1992,
p.504.
[19] Segundo Argan, na obra de De Chirico: "A arte, em suma, não quer manter
qualquer relação como mundo presente, não quer combater por causa alguma, não
quer esposar nenhuma ideologia; quer ser apenas ela mesma [...]". Ibidem,
p.372.
[20] Telles, Sophia S. Arquitetura moderna no Brasil: o desenho da superfície.
São Paulo: dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 1988, p. 72.
Nesse trabalho, entre outras análises, a autora discorre sobre a relação da
obra de Niemeyer com a estética barroca.
[21] Ibidem, p.83.
[22] Niemeyer, "Forma e função na arquitetura". Módulo: Revista de Arquitetura
e Artes Plásticas, n.21. Rio de Janeiro, dez.1960.
[23] Em meados dos anos 1940, a obra de Le Corbusier se afasta do purismo e do
racionalismo, aproximando-se de uma tendência identificada como brutalista,
cujas construções se caracterizam pelo uso da massa bruta do concreto
descoberta. O novo direcionamento se tornará uma referência para a geração
brutalista que surge em seguida.
[24] Costa, Lucio."Considerações sobre arte contemporânea". Cadernos de
Cultura. Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do Ministério da Educação e
Cultura, 1952. In: Xavier, op.cit., pp.202-28.
[25] Ibidem, pp. 202-04. Em Por uma arquitetura, p.73, Le Corbusier escreve:
"Quando uma coisa responde a uma necessidade, ela não é bela, ela satisfaz toda
uma parte de nosso espírito, a primeira parte, aquela sem a qual não há
satisfações ulteriores possíveis. [...] A arquitetura tem um outro significado
e outros fins que acusar as construções e responder às necessidades
(necessidades tomadas no sentido, aqui subentendido, de utilidade, de conforto,
de disposição prática). A arquitetura é a arte por excelência [...]". "A
arquitetura está além das coisas utilitárias. A arquitetura é assunto de
plástica. Espírito de ordem, unidade e intenção [...]." Ibidem, p.103. Sobre o
aspecto utilitário da arquitetura, o autor comenta: "Isso é construção, não é
arquitetura. A arquitetura existe quando há emoção poética. A arquitetura é
assunto de plástica." Ibidem, p.149.
[26] Costa, Lucio."Considerações sobre arte contemporânea". In: Xavier, op.
cit., p. 202. O argumento de que ao arquiteto compete atingir o sentido de
perenidade - objetivo de toda arte - por meio do lirismo aparece no livro
Urbanism, de Le Corbusier, publicado pela primeira vez em Paris, em 1925.
[27] Martins, Carlos A. Ferreira."Lucio Costa e Le Corbusier: afinidades
eletivas". In: Conduru, Roberto e outros. Um modo de ser moderno: Lucio Costa e
a crítica contemporânea.São Paulo: Cosac Naify, 2004, pp.71-82.
[28] Costa, Lucio."Outros depoimentos, Brasília: sobre preservação", 3/12/1985.
Fonte: Arquivo eletrônico Casa de Lucio Costa. Referência do documento: CV05-
00225L. <www.jobim.org/lucio/handle/123456789/512>.Grifos do autor.
[29] Ver, por exemplo, Underwood, David.Oscar Niemeyer e o modernismo das
formas livres no Brasil.São Paulo: Cosac Naify, 2003, pp.74-75.
[30] Niemeyer.Minha experiência em Brasília. Rio de Janeiro: Revan, 2006, p.10.
[31] Ibidem, p.29.
[32] O embaixador Wladimir Murtinho, um grande promotor de atividades culturais
no âmbito do Ministério das Relações Exteriores, foi um importante colaborador
de Oscar Niemeyer na elaboração e na construção do palácio do Itamaraty. Além
de fornecer dados para a definição do programa do palácio, Murtinho participou
da escolha dos artistas que teriam obras integradas ao projeto, e forneceu
suporte burocrático e jurídico a Niemeyer durante a construção. Ao longo da
década de 1960, foi responsável também por coordenar a transferência do
Itamaraty do Rio de Janeiro para Brasília.
[33] Entrevista gravada com Wladimir Murtinho, Brasília, 5/04/1979. In: Prieto,
Sonia. Bruno Giorgi: quatro décadas de escultura.São Paulo: dissertação de
mestrado, ECA-USP, 1981, p.205.
[34] Moravia, Alberto. "Brasília barroca". Corriere della Sera, Milão, 28/08/
1960. In: Folha de S. Paulo, São Paulo, 25/01/2009.
[35] A professora Sophia Telles já faz essa ressalva quanto à comparação da
obra de Niemeyer com o barroco em sua dissertação de mestrado.Telles, op.cit.
[36] Kubitschek, Juscelino. Por que construí Brasília?. Rio de Janeiro: Bloch,
1975.
[37] "Nos primeiros começos de Brasília"foi escrito em 1962 e publicado pela
primeira vez em 1964, como parte do volume de crônicas Para não esquecer.
"Brasília: esplendor", de 1974, foi divulgado no ano seguinte, no livro Visões
do esplendor: impressões leves, junto do primeiro texto. Portanto, nesse
segundo livro, os dois escritos formam um único grande texto sobre a capital.
[38] Lispector, Clarice. "Nos primeiros começos de Brasília". In: Visão do
esplendor: impressões leves.Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
[39] Em 1959, a seção brasileira da Associação Internacional de Críticos de
Arte (ABCA-AICA), junto ao escritório da AICA em Paris, realizou o Congresso
Internacional Extraordinário de Críticos de Arte a partir do tema "Cidade nova:
síntese das artes", tendo a nova capital brasileira como mote da discussão.
Mário Pedrosa (secretário-geral da ABCA) foi o principal organizador do evento,
contando com o apoio de Sergio Milliet (presidente) e de Mário Barata. O
encontro foi realizado em três locais: no palácio do Supremo Tribunal Federal
da Brasília ainda em obras; em São Paulo, onde acontecia a V Bienal do Museu de
Arte Moderna de São Paulo; e no Rio de Janeiro, no novo edifício do Museu de
Arte Moderna da cidade projetado por Afonso Reidy. O encontro reuniu alguns dos
principais nomes da crítica de arte, da arquitetura e do urbanismo mundiais,
como Meyer Schapiro, Giulio Carlo Argan, Gillo Dorfles, Richard Neutra, Bruno
Zevi, Werner Haftman, André Chastell, Romero Brest, Tomás Maldonado e André
Bloc, além dos brasileiros Mário Pedrosa, Sergio Milliete Mário Barata, entre
outros. O congresso realizado no Brasil fez parte das discussões da UNESCO
sobre a reconstrução das cidades no pós-guerra.
[40] Zevi, Bruno. "Segunda sessão: Urbanismo". In: Congresso Internacional
Extraordinário de Críticos de Arte (1959: Brasília, DF; São Paulo, SP; Rio de
Janeiro, RJ), op. cit., p.38.
[41] Ibidem.
[42] Pedrosa, Mário. "Reflexões em torno da nova capital". In: Pedrosa,
op.cit., 2004, pp.389-90.
[43] Ibidem.
[44] Pedrosa, Mário. In: Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de
Arte (1959: Brasília, DF; São Paulo, SP; Rio de Janeiro, RJ), op. cit., p.46.
[45] Ibidem.
[46] Ibidem, p.47.
[47] Moholy-Nagy, Sibyl. "Brasília: majestic concept or autocratic monument?".
Progressive Architecture. Nova York, v.40, n.10, out. 1959, p. 89.Tradução da
autora.
[48] Zevi, Bruno. "Inchiesta su Brasilia". L'Architettura Cronache e Storia.
Milão, n.51, jan.1960, pp.608-19. Entre as imagens que
ilustram o texto de Zevi, há duas fotografias de Marcel Gautherot reproduzidas
em formato pequeno e sem muito destaque: uma da Esplanada dos Ministérios em
construção e outra enfocando as colunas do palácio da Alvorada.
[49] Ibidem, pp.608-15. Tradução da autora.
[50] Segala, Lygia. Entrevista. Marcel Gautherot. Rio de Janeiro, Museu do
Folclore, 07/12/1989. Acervo Instituto Moreira Salles.
[51] Basta pensar em fotógrafos engajados politicamente como Alexander
Rodchenko e Paul Strand, por exemplo.