Janízaros democráticos?: O papel da Turquia na primavera Árabe
Os levantes políticos da Primavera Árabe e as vitórias eleitorais de partidos
islâmicos trouxeram de volta à tona o debate a respeito do "modelo turco" que
"integra Islã, democracia e economia vibrante de maneira bem-sucedida", de
acordo com um artigo efusivo de 2011 do New York Times , que saudou o primeiro-
ministro da Turquia Recep Tayyip Erdoğan como "provavelmente a figura mais
influente do Oriente Médio". Funcionários da Casa Branca enfatizaram o exemplo
positivo que a Turquia poderia dar como país muçulmano que mantém relações
diplomáticas com Israel; em 2009, Obama, em uma visita a Ancara muito
anunciada, saudou o governo do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP)
como um "parceiro-modelo" e um dos pilares da Otan. O International Crisis
Group descreve a Turquia como "objeto de inveja do mundo árabe", usufruindo
"uma democracia sólida, um líder legitimamente eleito que parece representar o
ânimo popular, produtos populares do Afeganistão ao Marrocos inclusive
dezenas de seriados televisivos dublados em árabe que estão em televisores em
toda parte e uma economia que vale cerca de metade de todo o mundo árabe".
Turistas de outros lugares da região acorriam para testemunhar "uma sociedade
muçulmana em paz com o mundo, economicamente avançada e onde tradições
islâmicas coexistem com os padrões de consumo ocidentais"1.
O louvor é ecoado por Tariq Ramadan, que declarou a visita de Erdoğan ao Egito,
à Tunísia e à Líbia, em setembro de 2011, "um imenso sucesso popular" "árabes
e muçulmanos olhavam com espanto e admiração" enquanto Erdoğan falava em favor
do direito dos palestinos à existência. "Ele está do lado certo da História",
proclamou Ramadan. "A Turquia pode e deve desempenhar um papel importante",
ajudando "a reconciliar os muçulmanos com confiança, autonomia, pluralismo e
sucesso"2. Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet
Davutoğlu se orgulhava de trazer uma nova pax ottomana para a região, uma
abordagem "zero problemas com os vizinhos" que expandiria a influência de
Ancara no Cáucaso e no mar Negro, no Oriente Médio e no Mediterrâneo, ao mesmo
tempo ajudando a intermediar relações melhores entre Israel e os Estados
árabes. Essa visão nega quaisquer ambições imperiais neo-otomanas; antes, é
descrita por seus proponentes como uma questão de "soft power ", sublinhando o
rosto sorridente que desejam associar a ela. Como uma estrutura emergente de
sentimento, a pax ottomana foi abraçada por camadas da intelligentsia e pela
cultura popular, indo muito além das fileiras do AKP3. A nostalgia por tudo que
é ottomanesque arrastou até a Turquia secular, levando a taxas de audiência
recordes para uma novela sobre o sultão Süleyman e as intrigas de seu harém;
formas banalizadas e sexualizadas de esplendor imperial tornaram-se parte do ar
que se respira.
Depois de uma década de governo do AKP, um consenso internacional tem retratado
a Turquia de Erdoğan como a alternativa "bem-sucedida" tanto ao autoritarismo
árabe secular quanto ao islamismo revolucionário do Irã. Pesquisas de opinião
revelam uma aceitação mais cautelosa: relata-se que cerca de 60% dos árabes
veem a Turquia como um modelo. Até que ponto um exame de cabeça fria da
política externa e do histórico doméstico do AKP sustenta essas afirmações?
A NOVA OSTPOLITIK
O AKP assumiu o governo em novembro de 2002 como um partido outsider ,
capitalizando a crise do sistema político depois dos colapsos da economia turca
em 1999 e 2001. Suas origens estavam em um movimento social conservador,
construído com base em política de rua, escolas religiosas e mobilizações
populares; sua ideologia combinava ética empresarial, devoção religiosa e
parlamentarismo com uma linha pró-muçulmana convencional, portanto pró-
Palestina, opondo-se à intervenção militar anglo-americana na região. Mas a
nova liderança do AKP Erdoğan, Abdullah Gül, Bülent Arınç também era
veementemente pró-União Europeia (UE) e fazia visitas frequentes aos Estados
Unidos4. Nas eleições de novembro de 2002, o AKP amealhou 60% das cadeiras do
Meclis, o parlamento turco, ainda que com apenas 34% dos votos. Seu primeiro
teste de política externa aconteceu na primavera de 2003 com a invasão do
Iraque pelos Estados Unidos que teve a oposição de uma esmagadora maioria da
população turca. Os resultados das três votações no Meclis sobre a guerra quase
nem precisam ser relembrados. Em fevereiro de 2003, os deputados do AKP
apoiaram uma decisão de permitir que bases americanas na Turquia fossem
reforçadas, em preparação para a invasão. A segunda votação, realizada na
ausência de Erdoğan, em março de 2003, assistiu a uma rebelião dos deputados do
AKP, que se juntaram à oposição do Partido Republicano do Povo (PRP) para
derrotar a moção do governo que permitia que tropas americanas lançassem a
invasão a partir do solo turco. No momento da terceira votação, algumas semanas
depois, Erdoğan tinha disciplinado seu partido: uma maioria maciça de deputados
do AKP votou a favor da guerra e do envio de forças turcas para apoiar a
ocupação anglo-americana do Iraque (além das tropas que tinham patrulhado por
muito tempo a região curda do Iraque sob a zona de exclusão aérea anglo-
americana).
No fim, a utilização do exército turco como parte da força de ocupação no
Iraque foi bloqueada pelo líder curdo iraquiano Massoud Barzani, e talvez
também pelo governo Bush, como punição pela curta rebelião do Meclis. O mais
impressionante, no entanto, e que dá uma medida da hegemonia que o AKP
usufruía, foi o nível de apoio popular para a posição pró-Bush de Erdoğan, que
foi entendida como um golpe de mestre estratégico: uma concessão a curto prazo
que garantiria apoio americano para a Turquia e recompensas importantes a longo
prazo. A terceira votação foi também saudada pelos liberais atlanticistas da
Turquia como um bem-vindo passo na direção de uma participação mais plena nas
intervenções militares da "comunidade internacional", principalmente em antigas
terras otomanas. Esse apoio foi vantajoso para o governo Erdoğan quando ele
emprestou apoio a intervenções militares ocidentais bem-sucedidas em países
muçulmanos. Assim, em 2006, quando a população turca condenou quase
unanimemente a invasão do Líbano e o bombardeio do sul de Beirute por Israel,
Erdoğan e Gül, então ministro das Relações Exteriores, insistiram na
participação turca na força da onu enviada para conter o Hezbollah, o que as
forças de defesa israelenses evidentemente não tinham conseguido fazer, com a
justificativa de "socorrer" as vítimas libanesas.
De forma semelhante, o vice-primeiro-ministro Bülent Arınç explicou que o
exército turco está no Afeganistão para ajudar a Otan a "proteger a paz".
Quando doze soldados turcos foram mortos lá recentemente em um acidente de
helicóptero, os apoiadores liberais do governo com destaque para o ex-maoísta
Şahin Alpay se apressaram a apontar a indissociabilidade entre os interesses
turcos e os interesses "globais", em resposta a um questionamento contundente
do novo líder, pró-esquerda, do PRP, Kemal Kılıçdaroğlu, sobre se as tropas
turcas estavam no Afeganistão "para defender os interesses da nossa nação".
Conservadores islâmicos, entretanto, argumentam que o contingente turco da ISAF
[Força Internacional de Assistência à Segurança, da Otan] está lá para proteger
os afegãos dos excessos do imperialismo ocidental uma desculpa usada com
frequência quando se defende a participação da Turquia em ocupações lideradas
pelos Estados Unidos5. Eles também enfatizam a necessidade de proteger o modelo
turco do Islã contra uma suposta versão al-Qaeda. A participação da Turquia na
ISAF , junto com a da Jordânia e a dos Emirados Árabes Unidos, tem claramente
valor simbólico, e não militar, para os Estados Unidos: a presença de tropas de
países predominantemente muçulmanos supostamente prova que essa não é uma
cruzada cristã contra o Islã. Na verdade, ela ajuda a manter a Turquia presa em
seu papel costumeiro de "ponte" entre o imperialismo ocidental e o mundo
muçulmano uma ponte para a travessia das forças da Otan. Uma minoria de
forças islâmicas mais radicais, junto com a esquerda, muito reduzida, ainda
resiste ao envolvimento, orientado pelo Ocidente, da Turquia na região e exige
uma ação diplomática e militar independente. Mas um número muito maior de
intelectuais e ativistas islâmicos apoia o governo em sua tentativa de afirmar
a liderança islâmica e ao mesmo tempo permanecer uma extensão do Ocidente.
NEO-OTOMANO?
Uma vez que o objetivo da política externa central do AKP de entrada na ue
tinha sido adiado depois da rejeição pelos eleitores cipriotas do plano de
Kofi Annan para contornar o fato flagrante de quarenta anos de ocupação militar
da ilha pela Turquia , a ostpolitik de Ancara adotou uma nova ênfase. Em 2007,
quando líderes franceses e alemães fizeram discursos de campanha eleitoral
sobre a "Europa cristã", Erdoğan, Gül e Davutoğlu puderam apontar para o novo
papel da Turquia no Oriente. Durante a Guerra Fria, os esforços da política
externa de Ancara tinham sido quase exclusivamente voltados para o Oriente (se
é que as antigas relações com Israel podem ser incluídas nessa expressão). A
desintegração do Império Otomano tinha deixado um legado de desconfiança mútua
em toda a região até então governada de Istambul. Os turcos acusavam os árabes
de "apunhalá-los nas costas" ao cooperar com potências ocidentais após a
Primeira Guerra Mundial; a modernização (e turquificação) kemalista visava a
uma ruptura decisiva com a cultura islâmica e árabe, incluindo a romanização do
alfabeto e a "purificação" desarabizante da língua. Similarmente, a dominação
turca histórica era um leitmotiv negativo para os Estados árabes, fossem
repúblicas seculares, fossem monarquias conservadoras; livros didáticos árabes
se referiam aos turcos, não apenas aos otomanos, como imperialistas. Assim como
os kemalistas atribuíam o "atraso" turco à influência decadente da cultura
árabe, os nacionalistas árabes culpavam o colonialismo e a exploração otomanos
pelos baixos níveis de desenvolvimento econômico de seus países. É verdade que
alguns islamitas árabes detectavam aspectos virtuosos no passado otomano,
enquanto alguns islamitas turcos também tinham nostalgia pelos tempos em que
turcos, árabes e outros coexistiam sob o estandarte do Islã. Mas, se havia uma
compaixão generalizada em relação aos sofrimentos dos palestinos, havia pouca
solidariedade prática pró-árabe entre os islamitas turcos, e a mais influente
organização religiosa do país, a comunidade Gülen dirigida pelo clérigo
Fethullah Gülen de seu exílio autoimposto na Pensilvânia , defende uma agenda
cultural explicitamente nacionalista turca6.
No início dos anos 2000, porém, três desenvolvimentos estavam começando a
colocar a Turquia sob uma luz mais positiva, ainda que com alguns pontos
escuros, para o mundo árabe. Em primeiro lugar, o país tinha combinado sua
adesão ao neoliberalismo com uma democratização parcial, enquanto regimes
árabes neoliberalizantes insistiam no autoritarismo, justificando seus aparatos
de segurança repressivos para a elite global como um baluarte contra o
islamismo radical, e para as massas árabes como uma defesa contra a ameaça
israelense7 (uma desculpa ridícula, já que os governantes árabes
sistematicamente fecharam os olhos para as depredações praticadas por Israel
nos territórios ocupados, contentando-se com demagogia antissionista). Em
segundo lugar, quando sua recuperação econômica do crash de 2001 ganhou fôlego,
a Turquia passou a contar com entradas recordes de investimento estrangeiro
direto, principalmente de países do Golfo, e começou a exibir números de
crescimento mais altos embora também desigualdades que se ampliavam
rapidamente. Em terceiro lugar, o advento do governo do AKP despertou a
curiosidade do mundo árabe: a tradição kemalista da Turquia era habitualmente
retratada como ateia e antiárabe, mas os líderes do AKP eram aparentemente
devotos e, no caso de Erdoğan, tinham um toque popular. Assim, enquanto a
brutalidade da polícia, a pobreza, a desigualdade e o desemprego se
intensificavam sob regimes árabes neoliberais autoritários, a Turquia reemergia
na imaginação popular árabe como uma entidade ambivalente. O governo Erdoğ an
se tornava um símbolo de força muçulmana, mas também evocava inquietação com a
arrogância imperial dos turcos.
Essa arrogância foi amplamente exibida no tratamento dado pelo governo Erdoğan
aos curdos da Turquia. Desde 1984, o Estado turco matou um número estimado em
40 mil de seus cidadãos curdos comparável pelo menos às mortes atribuídas a
Bashar Assad e a repressão da língua e da cultura curdas foi mais selvagem na
Turquia do que na Síria, no Iraque ou no Irã8. Nos dois primeiros anos de
governo, o AKP introduziu algumas medidas descriminalizando a cultura curda,
entre elas a permissão para transmissões limitadas de tv e ensino privado em
língua curda, embora estas ficassem aquém do que os curdos vinham
reivindicando. Mas, em 2005, o AKP começou a tomar um rumo estridentemente
nacionalista turco, intensificando a repressão militar no sudeste e envolvendo
as cidades em gigantescas bandeiras turcas. Ao mesmo tempo, e encorajado pela
região curda autônoma de fato criada sob os auspícios da ocupação dos Estados
Unidos no norte do Iraque, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK)
encerrou seu cessar-fogo de cinco anos. A Turquia intensificou devidamente seus
ataques aéreos a campos do PKK no Iraque, irritando o governo regional de
Massoud Barzani. O governo Bush interveio para repreender severamente seus
aliados em janeiro de 2005 e novamente em outubro de 2007, intermediando
acordos pelos quais a mão de Barzani seria molhada por empresas de construção
turcas, enormes contratos de infraestrutura seriam concedidos ao governo no
Curdistão iraquiano, entre eles o do aeroporto Sulaymaniyah, de US$ 40 milhões,
enquanto o exército turco era autorizado a bombardear livremente militantes do
PKK abrigados no norte do Iraque9. Depois de sucessivas ondas de prisões, os
ativistas estimam que haja agora pelo menos três mil estudantes turcos-curdos
na prisão, assim como jornalistas e professores universitários, nem todos eles
curdos, acusados de "propaganda terrorista" ou de "insultar a nação turca".
"ZERO PROBLEMAS"
Foi nesse contexto que Erdoğan, Gül e Davutoğlu lançaram a iniciativa
diplomática que batizaram de "zero problemas com os vizinhos", com o objetivo
de impressionar os Estados do Oriente Médio com a influência de Ancara em
Washington, e Washington com sua nova influência no Oriente Médio. Muito
dinheiro foi gasto na melhoria de embaixadas turcas, e muito tempo e energia em
viagens diplomáticas pela região. A política de "zero problemas" tinha um
componente comercial substancial. Economicamente, a Turquia permanece
predominantemente orientada para o Norte e o Oeste: em 2010, o comércio turco
com a ue foi de quase US$ 125 bilhões (exportações turcas de US$ 52,7 bilhões,
importações de US$ 72,2 bilhões), enquanto o comércio com a Rússia e outras ex-
repúblicas soviéticas foi de US$ 35,1 bilhões. Em contraste, o comércio com o
GCC (Gulf Cooperation Council) e o Iêmen foi de US$ 10,3 bilhões (US$ 6,7
bilhões de exportações, US$ 3,6 bilhões de importações); o comércio com o Norte
da África foi de US$ 8,2 bilhões; com o Egito, de US$ 3,2 bilhões; com a Síria,
de US$ 2,5 bilhões, dos quais três quartos compostos de exportações turcas. No
entanto, em 2010 o comércio com o Oriente Médio e o Norte da África foi
substancialmente maior do que tinha sido em 2002 até o triplo com a Síria,
quase o quádruplo com o Norte da África, o quíntuplo com o GCC e o Iêmen e o
séptuplo com o Egito10. Grande parte disso foi representada pela indústria da
construção civil turca, com projetos muitas vezes facilitados por empréstimos
de bancos turcos; empresas de alimentos e têxteis turcas investiram no Egito,
na Síria e no Golfo. A diplomacia "zero problemas" de Davutoğlu também levou a
um bem-vindo relaxamento das restrições para vistos de entrada de visitantes de
Estados árabes na Turquia, colocando-os em pé de igualdade com turistas da UE e
da Rússia. As exigências de visto para marroquinos e tunisianos foram atenuadas
em 2007, e para sírios, libaneses, jordanianos e líbios em 2009. No ano
seguinte, a Turquia amarrou um acordo com Síria, Líbano e Jordânia para criar
uma zona de livre-comércio com quatro países, a Associação Econômica e
Comercial de Vizinhos Próximos. A ofensiva diplomática da Turquia envolveu
naturalmente relações mais cordiais com os governantes do Golfo, Mubarak, Ben
Ali, Assad, Kadafi, e assim por diante. Em 2010, Erdoğ an voou para Trípoli
para ser reverenciado pelo líder líbio com o Prêmio de Direitos Humanos Al-
Kadafi daquele ano.
"Zero problemas" com Israel era um elemento central da política de Davutoğlu. O
comércio bilateral com Israel quase triplicou no governo do AKP, passando de
US$ 1,3 bilhão, em 2002, para US$ 3,4 bilhões, em 2010. A Turquia fez grandes
compras de armas israelenses, os exercícios militares conjuntos foram ampliados
e ofereceu-se à Força Aérea israelense o livre uso do espaço aéreo sobre Konya
para suas missões de treinamento. Davutoğlu e Erdoğan investiram muito esforço
na tentativa de mediar as relações entre Israel e seus vizinhos. Erdoğan estava
particularmente encantado com o papel que imaginou para si de "facilitador" em
uma nova iniciativa de paz sírio-israelense em 2008. De acordo com diplomatas
locais, suas inúmeras viagens entre Bashar Assad e Ehud Olmert permitiam que "a
Turquia se sentisse importante" e que Israel demonstrasse suas "intenções
pacíficas". Relatou-se que Erdoğan se sentiu "chocado e traído no que ele
achava serem compromissos pessoais de Olmert" quando o primeiro-ministro
israelense lançou a ofensiva da Operação Chumbo Fundido em Gaza no fim de
dezembro de 2008, cerca de um dia depois de uma aconchegante discussão com
jantar de cinco horas com Erdoğan, durante a qual o líder turco fizera um longo
telefonema para Assad. Naturalmente Olmert não fizera nenhuma menção aos planos
das forças de defesa israelenses para Gaza. Esse foi o pano de fundo do
protesto de Erdoğan em Davos algumas semanas depois, quando, ao participar de
um painel com Shimon Peres, leu críticas de Avi Shlaim e outros ao ataque a
Gaza e deixou a plataforma no momento em que o moderador tentou fazer com que
ele resumisse sua fala. Isso rendeu a Erdoğan elogios abundantes na imprensa
árabe por "enfrentar Israel", embora os exercícios da Força Aérea israelense no
espaço aéreo turco continuassem, e, em 2010, Tel Aviv cumprisse devidamente a
entrega de tanques M-60 recondicionados e drones Heron, para que o regime do
AKP os utilizasse contra o PKK no norte do Iraque11.
As relações turco-israelenses foram ainda mais tensionadas pelo caso Flotilha
da Liberdade, em maio de 2010, quando comandos israelenses mataram nove
ativistas turcos a bordo do Mavi Marmara quando este navegava na direção de
Gaza para romper o embargo israelense-egípcio. Muitos dos ativistas a bordo
eram filiados à IHH, uma organização de auxílio islâmica que fornece ajuda a
muçulmanos afligidos pela guerra. Na partida do navio houvera uma manifestação
em grande escala organizada pelo Partido da Felicidade, o remanescente do
agrupamento islâmico mais intransigente do qual Erdoğan e os outros líderes do
AKP haviam se separado em 2001, e que desde então tem sido apenas um ator
político menor. Vários parlamentares do AKP aparentemente também tinham tentado
ir a bordo, mas o governo os havia mandado voltar pouco antes de o Mavi Marmara
iniciar sua jornada fatídica. Embora comentaristas na Turquia especulassem que
a rota do navio fora aprovada pelo governo, o AKP negou qualquer ligação.
Enquanto isso, em uma rara declaração à imprensa para o Wall Street Journal ,
Fethullah Gülen, o líder islâmico mais influente da Turquia, acusou os
ativistas da flotilha de "desafiar a autoridade", um pecado grave para
intérpretes conservadores do Islã12. Na verdade, o AKP conseguiu satisfazer aos
dois lados: em resposta aos críticos israelenses e americanos que disseram que
ele deveria ter impedido o navio de navegar, pôde argumentar que não tinha
nenhum controle sobre a situação; entre seu eleitorado islâmico e os muçulmanos
em todo o mundo, no entanto, ele pôde ganhar crédito por uma tentativa de
romper o embargo a Gaza. Alinhado com essa abordagem, Gül pediu um inquérito
oficial da onu sobre o destino da Flotilha da Liberdade. Como era previsível, o
relatório da onu, presidido pelo ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia Geoffrey
Palmer, concluiu que o bloqueio de Gaza uma população de quase 2 milhões de
pessoas presas em condições semelhantes às de um gueto, com suprimentos
dependentes do capricho de Israel era perfeitamente aceitável sob a
legislação internacional13.
PRIMAVERA ÁRABE
A diplomacia "zero problemas" do AKP foi ainda mais desorganizada pelas
revoltas árabes de 2011. Assim como os Estados Unidos e a maior parte da UE, o
governo turco permaneceu em silêncio em janeiro de 2011, enquanto protestos
contra o regime de Ben Ali cresciam na Tunísia, em contraste com o apoio
imediato ao movimento oferecido, por diferentes motivos, pelo Qatar, pelo Irã e
pelo Hezbollah. Erdoğan fez uma intervenção mais notável no Egito. Falando na
tv turca em 1º de fevereiro de 2011, uma semana após o primeiro "dia de fúria",
ele aconselhou Mubarak a "atender ao desejo de mudança do povo, sem hesitação"
"você deve ser o primeiro a dar um passo para a paz, a segurança e a
estabilidade no Egito, sem permitir que exploradores, círculos corruptos e
círculos que têm cenários sombrios para o Egito tomem a iniciativa"14. Isso
estava amplamente alinhado com o apelo do governo Obama, em 30 de janeiro, a
uma "transição ordeira", e na verdade seguiu-se ao anúncio de Mubarak de que
ele não concorreria à eleição presidencial marcada para setembro de 2011. Mas
serviu para posicionar Erdoğ an como um amigo da praça Tahrir.
Como Washington, mais uma vez, Ancara silenciou quando protestos irromperam no
Bahrein em meados de fevereiro e fechou os olhos quando manifestantes foram
atingidos com tiros e bombas de gás lacrimogêneo na Praça da Pérola. Em 20 de
março, apenas uma semana depois de tanques sauditas terem rolado pela calçada
para esmagar os manifestantes pela democracia, Erdoğan anunciou que a Turquia e
a Arábia Saudita "dão uma contribuição importante para a paz e a estabilidade
regionais, e exibem um modelo de cooperação"15. De fato, Erdoğan e Davutoğlu
agiram para consolidar as relações turcas com a Arábia Saudita à medida que a
Primavera Árabe se enfraquecia, trabalhando para fortalecer a sectarização
sunitas contra xiitas e alauitas da região. Ancara, prudentemente, também se
calou sobre o levante no Iêmen, onde interesses sauditas e americanos poderiam
ter sido ameaçados se as demandas por empregos, padrão de vida e democratização
fossem atendidas. Quando a repressão se acirrou, as divisões dentro da elite
tribal governante assumiram maior relevância, por fim lançando tribo contra
tribo, em vez de ativistas contra a ditadura16. Negociações tribais acabaram
levando à remoção do presidente Saleh sem nenhuma grande mudança no aparelho do
Estado, que se manteve adequado aos propósitos dos sauditas e do governo
Obama17.
A geopolítica da Primavera Árabe sofreu uma mudança decisiva com a
militarização da revolta líbia, sob os auspícios das potências da Otan. Em 17
de março de 2011, a "comunidade internacional" autorizou-se a impor uma zona de
exclusão aérea de fato, uma guerra aérea contra o regime de Kadafi e tomar
"todas as medidas necessárias", nos termos da Resolução 1973 do Conselho de
Segurança da onu. Nesse caso, o governo Erdoğan se dividiu18. A princípio o
próprio Erdoğan havia se oposto à intervenção da Otan, deixando consternados
seus apoiadores liberal-atlanticistas. Em 15 de março, ele anunciou em uma
entrevista na tv que havia telefonado pessoalmente a Kadafi e o aconselhado a
ouvir o povo e nomear um novo presidente. Seguiram-se muitas guinadas depois
que a operação da Otan foi posta em prática. Em 25 de março, uma força naval
turca foi enviada para impor o bloqueio de portos controlados por Kadafi. O
Meclis aprovou o envio de mais forças, inclusive tropas, se necessário.
Representantes turcos protestaram contra o fato de a Operação Harmattan, da
França, se aproveitar secretamente da ação combinada das potências da Otan, e a
base aérea de Izmir foi oferecida para o bombardeio. Os franceses contra-
argumentaram que Erdoğan e Davutoğlu estavam ressentidos por não terem sido
convidados para a reunião de cúpula que Sarkozy havia convocado após a
aprovação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da onu. Sarkozy agiu para
impedir que a Turquia desempenhasse um papel de liderança no ataque. Isso não
foi difícil, dados os sentimentos ambíguos e as divisões internas entre as
forças pró-governo na Turquia. Erdoğan e Davutoğlu decidiram a contragosto dar
apoio logístico à Otan. No início de julho de 2011, Davutoğlu voou para Bengasi
para encontrar os líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT) e anunciar o
reconhecimento pela Turquia do CNT como legítimo representante do povo líbio.
Essas incoerências foram em boa parte causadas pelas dificuldades de conciliar
a abordagem "zero problemas" de Davutoğlu com as realidades das alianças
ocidentais da Turquia, no contexto do que era, para Washington, Paris e
Londres, uma guerra periférica de menor importância. Junto com os Estados
Unidos e outros importantes Estados ocidentais, a Turquia tinha desenvolvido
não só boas relações diplomáticas, mas também bons negócios com Kadafi,
lucrando em especial com o boom de construção líbio após 2009. Não estava claro
que a derrubada violenta do regime beneficiaria a Turquia, ao passo que as
potências ocidentais, que tinham mais controle sobre a transição, poderiam
contar com sua capacidade de dividir e manipular os novos detentores do poder
líbio. Mas as guinadas do governo turco tinham outra fonte: os ideólogos e
militantes de formação islâmica, que ainda constituíam as vértebras ideológicas
do AKP, haviam combatido ditaduras; mas tinham também se oposto à ação militar
ocidental na região, que desde 1990 adotara, ainda que seletivamente, a agenda
da derrubada de ditadores. Como vimos, muitos desses apoiadores do AKP estavam
agora fazendo as pazes com o papel subimperial da Turquia na região, como um
baluarte da ordem da Otan. Essa era a dimensão diplomática e geopolítica de um
processo mais amplo de absorção que descrevi em outro lugar como uma "revolução
passiva"19. Em maio de 2011 um mês em que mais de setecentos civis líbios
foram mortos por ataques aéreos da Otan, de acordo com Trípoli , Davutoğ lu
resumiu a posição desses ex-anti-imperialistas islâmicos em relação às revoltas
radicais da Primavera Árabe:
Um espírito revolucionário, uma cultura de rebelião se desenvolveu
nesta região [...] Se eu não estivesse neste cargo, ou se fosse
jovem, eu entoaria "Vida longa à revolução". Mas, como a grande
potência [ büyük devlet] que guarda a estabilidade na região, temos
de assegurar que as pessoas sejam prejudicadas o mínimo possível20.
Uma empatia "desencantada" e madura com a juventude e a rebeldia combinada a um
elogio da ordem e da estabilidade; uma "ética de responsabilidade" que defende
o Estado como o protetor de populações indefesas, ao mesmo tempo que seus
mísseis chovem sobre elas; tais são as realizações do modelo turco do AKP.
Claro, pode-se apontar para conversões semelhantes em Paris, Londres e Berlim.
GUERRA A DAMASCO
Até certo ponto, a resposta do governo Erdoğan à revolta na Síria seguiu um
caminho semelhante. Aqui, as próprias políticas de livre mercado que Erdoğan e
Davutoğlu vinham promovendo por meio da Associação Econômica e Comercial
regional haviam ajudado a piorar a má situação da juventude nas cidades
agrícolas decaídas, de Daraa, no sul, a Homs, Hama e Idlib, que seriam o centro
da revolta, enquanto uma minúscula elite tinha ficado espetacularmente rica.
Inicialmente, no fim de março e em abril de 2011, enquanto o regime de Damasco
enfrentava manifestações com gás lacrimogêneo e canhões de água, Erdoğan buscou
de novo se posicionar como mediador, tentando persuadir Assad a negociar com o
braço político da Irmandade Muçulmana síria e marcar eleições. Ao mesmo tempo
que navios de guerra turcos eram preparados para a operação da Otan contra
Kadafi, Erdoğan informava à imprensa internacional que havia insistido para que
Assad adotasse uma abordagem "positiva, reformista" "é nosso desejo sincero
que não haja aqui eventos dolorosos como na Líbia"21. O objetivo de Ancara era
uma transição democrática administrada que ampliasse a base do regime de Assad
uma estratégia de revolução passiva que reconhecia que, para que
permanecessem as mesmas, as coisas teriam de mudar22.
Isso estava em nítido contraste com a linha de Riad, tal como transmitida a um
ex-operador do Departamento de Estado americano por um "alto funcionário
saudita", que observou que "desde o início da revolta síria, o rei acreditou
que a mudança de regime seria extremamente benéfica para os interesses
sauditas, em particular vis-à-vis a ameaça iraniana. 'O rei sabe que, afora o
colapso da própria República Islâmica, nada enfraqueceria mais o Irã do que
perder a Síria'"23. À medida que a posição da Arábia ganhava força em
Washington, no entanto, a linha turca também começou a mudar24. Embora mantendo
contato com o regime de Assad, o governo Erdoğan permitiu que o líder da ala
militar da Irmandade Muçulmana síria desse uma entrevista coletiva à imprensa
em maio de 2011 em Istambul; em junho de 2011, a Turquia organizou uma
conferência da oposição síria. Em julho de 2011, o Exército Livre da Síria
(ELS), visando a derrubada militar do regime de Assad, foi criado na província
meridional turca de Hatay, com apoio logístico dos Estados Unidos e dinheiro e
armas sauditas; líderes do ELS receberam a proteção da polícia turca. Isso só
poderia servir para confirmar a decisão fatalmente destrutiva de Assad, baseada
na visão baathista de islamitas sunitas sírios de que deviam fidelidade a
potências do Golfo, de tentar manter a ordem existente pela força. A principal
demanda do ELS era uma zona de exclusão aérea; ou seja, o bombardeio ocidental
de defesas sírias. Suas campanhas, concentradas principalmente nos arredores de
Homs, eram travadas de olho nos meios de comunicação ocidentais incorporados em
suas fileiras; quanto maior a atrocidade, mais provável era criar pressão
internacional a favor de ataques aéreos americanos. O número de mortos subiu
devidamente, enquanto forças sírias bombardeavam posições do ELS em áreas
residenciais, e uma multidão de milícias sectárias, tanto alauitas como
sunitas, saqueava e matava em meio à destruição.
Na Turquia, o ufanismo da imprensa islâmica liberal e conservadora cresceu
regularmente até o início de 2012. Pedidos de intervenção turca também vinham
de forças conservadoras no mundo árabe, particularmente do diário Sharq al-
Awsat , sediado em Londres, cuja principal precondição era que deveria haver de
antemão a aprovação ocidental. A Irmandade Muçulmana e outras forças islâmicas
haviam jogado de bom grado a carta anti-imperialista quando Erdoğ an falara em
separar a religião do Estado, mas jogaram a carta da intervenção humanitária
quando quiseram se livrar de um regime. No momento em que escrevo, nem a
Turquia nem os Estados Unidos estão prontos para uma incursão terrestre
descrita eufemisticamente como uma "zona-tampão" ou um bombardeio aéreo,
também conhecido como zona de exclusão aérea. Isso parece ser conveniente
também para Israel. Argumentou-se que:
Um regime de Assad enfraquecido mas estável, em comparação com um
regime sob "domínio islâmico", parece preferível para os dirigentes
israelenses [...] Embora Israel veja vantagens em uma redução da
influência iraniana na Síria, também vê um futuro sombrio em uma
Síria pós-Assad, em que grupos islâmicos poderiam ganhar
proeminência. Como consequência, o endosso pouco entusiasmado de
Israel à queda de Assad ajudou a reduzir o senso de urgência entre os
dirigentes americanos25.
Em meio a essa incerteza, a ala mais pró-ocidental do governo turco acompanhou
as iniciativas americanas. No início de março de 2012, Gül era favorável à "via
iemenita" para a Síria: Assad devia nomear um de seus assessores, como Saleh
havia feito, e se afastar, deixando as estruturas de governo intactas; a
notoriamente dividida oposição síria ainda não estava pronta para governar o
país. Na semana seguinte, ele alertou contra a intervenção militar, pedindo uma
"solução política" e uma reunião ampliada dos "Amigos da Síria" em Ancara que
incluísse a Rússia, descartando, assim, uma opção militar26. Durante o mesmo
período, Erdoğan deu as costas às exigências da Liga Árabe, que
significativamente incluíam um "corredor humanitário" significando uma
invasão terrestre por parte da Turquia, o que levaria inevitavelmente a um
conflito armado com o regime de Assad. Portanto, apesar de suas pretensões à
liderança regional, a Turquia não conseguiu articular uma posição própria
coerente. O melhor que Erdoğan foi capaz de propor foi contrabalançar a posição
de Gül com a da Liga Árabe, ou seja, uma versão limpa da posição de Riad. A
Turquia não liderou, seguiu atrás. A falta de clareza do governo permite
interpretações conflitantes de suas ações. Mesmo entre os colunistas do diário
pró-governo Yeni Şafak , alguns veem ampla "prova" de que o AKP está tentando
tirar Assad do poder o mais depressa possível, enquanto outros acreditam que a
prioridade do governo é a estabilidade em suas fronteiras e um rápido cessar-
fogo27.
COMUNALISMO SUNITA
No geral, a imprensa turca islâmica foi muito mais receptiva à ideia de
intervenção na Síria do que na Líbia, e pelo pior dos motivos. Além da simpatia
pela Irmandade Muçulmana e por outras forças islâmicas na Síria, fortemente
visadas historicamente pelo regime baathista, há uma identificação com os
sunitas contra os xiitas sírios (nenhum desses motivos tinha impedido o AKP de
desenvolver laços estreitos com Assad). Vozes pró-Turquia argumentaram que as
divisões sectárias ou tribais presentes na sociedade da Líbia, do Bahrein, do
Iêmen ou da Síria tornam o modelo parlamentar-constitucionalista moderadamente
islamizado da Turquia ainda mais desejável, mostrando um caminho para sair do
atoleiro. Mas, em vez de ficar acima dessas cisões, a Turquia se afundou ainda
mais em seu próprio cenário étnico e sectário complexo, à medida que a
turbulência política se aproximava de suas fronteiras. A hegemonia pacífica do
AKP se baseia principalmente no fato de que a Turquia tinha extirpado à força
seus 20% de população cristã, por meio do extermínio dos armênios e da expulsão
dos gregos, entre 1915 e meados da década de 1950; esse não é um modelo muito
bom a ser seguido por sírios e libaneses. E, apesar de os marginalizados e
empobrecidos alevitas da Turquia terem práticas religiosas diferentes das dos
alauitas sírios, e muito poucos laços com eles, o ódio dos sunitas sírios pelo
governo da minoria alauita em Damasco pode ser facilmente reproduzido contra
eles. O movimento islâmico turco foi liderado, ocupado e esmagadoramente
apoiado pelos sunitas, apesar da existência no país de uma considerável minoria
sectária muçulmana. Em 2012, os alevitas turcos mais uma vez encontraram marcas
de giz em suas portas, que lembravam as da década de 1970, quando turbas
sunitas lideradas pelos nacionalistas de extrema-direita Lobos Cinzentos, mas
atraindo conservadores e islamitas executaram grandes massacres sectários.
O conflito sírio tem implicações complexas para a Turquia. Os dois países têm
uma fronteira muito extensa; a Síria é uma importante rota de comércio turca
para a região central árabe, e os turcos sunitas têm muitas relações comerciais
ao longo do caminho. Acima de tudo, o possível nascimento de mais um pequeno
Estado curdo assombra a ordem dominante da Turquia. No norte da Síria, o
Partido da União Democrática (PYD), a ala síria do PKK, é a mais bem implantada
e a mais organizada das forças curdas. No verão de 2011, quando o governo
Erdoğan deu seu apoio ao ELS, Assad ofereceu um acordo de cidadania aos curdos
sírios e parou de compartilhar informações sobre o PKK com a Turquia. Ancara
tentou levar Barzani, o governante do Curdistão iraquiano, a impor sua
hegemonia sobre os curdos sírios, mas os resultados tiveram curta duração.
Quando Assad retirou suas forças das fronteiras norte e sul para expulsar o ELS
de Aleppo, em julho de 2012, o PYD foi deixado no controle de uma série de
cidades fronteiriças curdas: Ayn al Arab, partes de Qamishli, Efrin, Amude. De
modo danoso para a exemplaridade da Turquia, os protestos dos curdos sírios
contra o papel de Ancara foram um dos motivos para as altercações no Conselho
Nacional Sírio, o agrupamento de oposição apoiado pelo Ocidente, junto com
diferenças sobre a intervenção externa e a democracia interna28. Na verdade,
enquanto prisioneiros políticos eram libertados no Egito e na Tunísia,
prisioneiros civis curdos bem como jornalistas, estudantes e professores não
curdos continuavam a povoar prisões turcas. Em dezembro de 2011, agindo com
base em informações obtidas por drones dos Estados Unidos, jatos turcos
lançaram um ataque aéreo contra um grupo de curdos pobres que carregavam
cigarros contrabandeados através das montanhas perto da fronteira com o Iraque,
matando três dúzias deles. Como poderia um país que tratava seus próprios
cidadãos curdos dessa forma servir como um modelo para aqueles de seu vizinho?
MIRANDO O IRÃ
Finalmente, qualquer revisão das relações da Turquia com a Síria também
significa uma redefinição das relações com outro vizinho, o Irã. Nos anos que
antecederam a Primavera Árabe houvera uma aproximação importante entre Ancara e
Teerã, apesar do ceticismo americano (e israelense). O surgimento do Curdistão
iraquiano ajudou os governantes de ambos os países a convergir na luta contra a
insurgência curda. O comércio bilateral aumentou significativamente nos últimos
dez anos; o Irã é hoje o segundo maior fornecedor de gás natural da Turquia, só
ficando atrás da Rússia29. Em maio de 2010, a Turquia e o Brasil intermediaram
um acordo de processamento de urânio de baixo teor com o Irã, ambos
aparentemente pensando que tinham sinal verde de Washington. Em setembro de
2011, porém, a Turquia havia concordado em instalar um sistema de radar de
defesa contra mísseis da Otan perto de sua fronteira com o Irã, alegando que
não haveria nenhuma menção ao programa nuclear do Irã como justificativa. Joost
Lagendijk, ex-codiretor da delegação de parlamentares Turquia-ue, sugeriu que
os Estados Unidos "precisam da Turquia" não apenas para derrubar Assad, mas
também para desafiar o controle iraniano sobre o Iraque30.
No rescaldo da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos, a campanha de longa
data de Israel para manter seu monopólio nuclear na região se amalgamou à
hostilidade saudita ao Irã e ao "crescente xiita" que, aos olhos de Riad, se
estende desde o Irã, através do Iraque de Maliki, até a Síria e o sul do Líbano
controlado pelo Hezbollah. Com a sectarização crescente, a Turquia parece estar
desempenhando um papel cada vez mais aberto em uma coalizão sunita apoiada pelo
Ocidente cujo alvo final é o Irã. Se havia rumores de descontentamento nos
Estados Unidos, e entre círculos seculares e conservadores na Turquia, de que
Ancara estava ficando muito íntima do Irã e até do próprio Ahmadinejad em 2009-
2010, o pêndulo agora oscilou de volta, ganhando mais impulso da base sunita do
AKP e do movimento islâmico em geral. Há conversas crescentes sobre uma
possível guerra com o Irã, em especial se a Turquia decidir enviar tropas para
a Síria. Ao mesmo tempo, a imprensa árabe sunita tem celebrado, com alguma
cautela, o advento da "Turquia sunita". Comentaristas árabes, e alguns de seus
colegas turcos, gostam de invocar as rivalidades históricas entre os impérios
Otomano e Persa, como se o regime do AKP precisasse inflar suas pretensões
imperiais31. Alguns intelectuais islâmicos afirmam que jáhá uma guerra sectária
em curso, e que o Irã, o Iraque e a Síria a começaram. Eles estão embarcando na
onda de sectarização, alegando que não podemos ignorar esse "fato" e que a
Turquia deveria estar se preparando para travá-la como uma guerra sunita-
xiita32.
No Iraque, sugere-se, isso poderia significar uma coalizão de sunitas
iraquianos e forças curdas, com maior apoio sunita árabe e turco, alinhados
contra o governo dominado por xiitas de Maliki em Bagdá. Houve uma insinuação
disso em abril de 2012, quando o vice-presidente (sunita) do Iraque, Tariq
Hashemi, se refugiou na Turquia depois de primeiro "visitar", ou fugir para, o
Qatar e a Arábia Saudita, após o regime de Maliki ter emitido um mandado de
prisão contra ele33. O governo iraquiano reagiu com um ataque verbal, e a
Turquia revidou na mesma moeda. No meio dessa disputa de gritos
transfronteiriça, Massoud Barzani decidiu visitar a Turquia e as tensões
aumentaram ainda mais. Apesar da posição oficial do AKP contra a divisão do
Iraque em três Estados, especulações febris proliferaram: o verdadeiro projeto
de Erdoğan era a criação de uma confederação curda, sob tutela turca34? Não
havia dúvida de que o governo do AKP descera de seu trono suprassectário
autoatribuído quando decidiu abrigar uma figura destacada acusada
internacionalmente de massacres sectários, mesmo que algumas das acusações
sejam forjadas (e que outras possam ser atribuídas a Maliki). O regime
confirmou, mais uma vez, a autoidentificação sunita do Estado turco.
RETROCESSOS
A Turquia precisa enfrentar seus próprios problemas de repressão sectária e
étnica, coerção estatal e desigualdade econômica antes que possa se oferecer
como um modelo para qualquer outro país. Não se pode esperar que as bolhas
imobiliária e de crédito que elevaram suas taxas de crescimento nos últimos
anos durem; sua oferta de serviços sociais é escassa, e sua distribuição de
renda é a mais desigual da OCDE, pior que a do Egito ou a da Tunísia35. No
front das liberdades civis, é verdade que o AKP travou uma luta decidida contra
os enormes poderes que o Alto Comando militar usufruía sob o antigo regime; mas
esta tem cada vez mais tomado a forma de substituir o militarismo kemalista por
um novo Estado policial. A mais poderosa organização religiosa da Turquia, a
fechada comunidade Gülen, exerce vasta influência na polícia e no Judiciário;
alguns sugerem que ela agora está sendo estendida ao mit, o serviço de
inteligência. Acredita-se que Gülen seja o responsável pela prisão de vários
jornalistas críticos ao longo dos últimos dois anos36. Em 2010, o governo Erdoğ
an forçou a aprovação de um conjunto notavelmente ambíguo de emendas à
autoritária Constituição de 1980, mantendo alguns de seus componentes mais
nacionalistas e repressivos: "insultar a nação turca", prontamente estendido a
qualquer crítica ao Estado, continua a ser uma ofensa criminosa.
Em 2002, muitos liberais turcos tinham imaginado que o AKP era a melhor aposta
do país para a "modernização" e a "integração com o mundo", e especialmente
para o ingresso na UE. Círculos intelectuais da "esquerda libertária", ou
özgürlükçü sol , desempenharam um papel decisivo no reforço da aprovação ao
projeto de liberalização conservadora do AKP. Eles se lançaram atrás do AKP
durante sua luta com as forças armadas, e por um longo período estenderam esse
apoio incondicional também a outras políticas do governo, inclusive a suas
emendas constitucionais. Intelectuais liberais influentes comemoraram o papel
da polícia na "democratização" da Turquia leia-se, retirar gradualmente o
poder dos militares e descobriram a face humana dos novos quadros da polícia.
Essa ingenuidade traía uma leitura reducionista do Estado turco, cujo
autoritarismo era atribuído à "tutela militar", e uma incapacidade de analisá-
lo como um conjunto diferenciado de instituições e atores sociais com
preocupações e interesses ora coincidentes, ora conflitantes. A estratégia dos
liberais de ignorar as tendências autoritárias do governo Erdoğan se voltaram
contra eles quando as emendas constitucionais foram seguidas pela mais pesada
onda de repressão em muitos anos. Alguns agora se tornaram críticos do regime
AKP-Gülen.
Internacionalmente, os defensores de um modelo turco para o mundo islâmico
frequentemente o contrapõem aos exemplos do Irã ou da Arábia Saudita, situados
no extremo oposto do espectro. Os eventos de 2011 sugerem um quadro diferente.
As principais linhas de demarcação na região estão ficando menos ideológicas e
já não são traçadas entre "islâmicos moderados" e conservadores. A exacerbação
do conflito sírio começou a cristalizar diferenças sectárias supostamente
"primordiais". Por mais dessemelhantes que possam ser em alguns aspectos,
Arábia Saudita e Turquia encontram-se agora no mesmo campo, com o Irã como o
inimigo comum. Mas, ainda que a situação possa mudar, é a Arábia Saudita, com
apenas um terço da população da Turquia, que parece estar tendo o maior sucesso
na moldagem do atual fluxo político a seus próprios interesses. Nem um murmúrio
é emitido pela "comunidade internacional" quando ela submete sua população
xiita ao mesmo tratamento que Assad dá aos manifestantes sírios. Erdoğan fez
grande estardalhaço de sua turnê em setembro de 2011 pelas capitais do Egito,
da Tunísia e da Líbia, acompanhado de 280 empresários turcos dispostos a
aproveitar fontes baratas de mão de obra e declarando sua intenção de triplicar
o investimento turco37. Mas a visita também demonstrou os limites da influência
turca. A Irmandade Muçulmana não tinha nenhuma objeção a citar a Turquia do AKP
como um modelo econômico, mas a demanda de Erdoğ an de um Estado secular
incitou uma amarga resposta "anti-imperialista" dos Irmãos: a organização disse
a ele que não se intrometesse nos assuntos internos do Egito. Enquanto isso, a
primeira visita externa do presidente Morsi foi a Riad.
A política de "zero problemas com os vizinhos" do AKP está arruinada, enquanto
a campanha insultuosa do rei Abdullah contra o Irã está agora na ordem do dia,
promovida não só por Washington, Israel, o mundo sunita e a UE, mas também por
Wall Street, com apenas a Rússia e a China resistindo à rixa internacional.
Embora a convulsão da Síria confronte Ancara com o repentino fortalecimento de
seu inimigo interno, o PKK, a Família Saud pode esperar ver o Líbano voltar ao
seu bolso se o Hezbollah for debilitado pela fraqueza ou queda de Assad. Além
disso, a liderança turca tem demonstrado constantemente sua vontade de
priorizar a realpolitik sectária em detrimento dos princípios da democratização
e da autodeterminação. Bahrein, com sua maioria xiita e sua monarquia
autocrática sunita, serviu como um teste decisivo. Não só a Turquia fechou os
olhos quando a monarquia esmagou violentamente os protestos; nos primeiros
meses de 2012, como um prelúdio a uma crescente cooperação com os regimes do
Golfo, Gül visitou os Emirados Árabes Unidos e exigiu democracia para a Síria
durante seus encontros amigáveis com os autocratas lá. Nada poderia ilustrar
melhor a natureza dos compromissos de Ancara com a democracia e a não
intervenção na região. Ao longo da Primavera Árabe, a Turquia só fez
solidificar suas relações com os sauditas; está seguindo de perto não apenas as
políticas de Washington e Israel, mas também as de Riad reforçando ainda mais
as forças da reação na região.
CIHAN TUĞAL é professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley
(eua).
[*] Publicado originalmente em New Left Review, 76, jul.-ago. 2012.
[1] "In Turkey's example, some see map for Egypt". New York Times , 5/02/2011.
Ver também International Crisis Group (icg). "Turkey and the Middle East:
ambitions and constraints", 7/04/2010, p. 20. Eu gostaria de agradecer a Aynur
Sadet por comentários sobre o texto.
[2] Ramadan, Tariq. "Democratic Turkey is the template for Egypt's Muslim
Brotherhood". New Perspectives Quarterly, vol. 28, nº 2,
2011.
[3] Cagaptay, Soner. "The empires strike back". New York Times, 14/01/2012.
[4] Ver Tuğal, Cihan. "NATO's Islamists". New Left Review, 44, mar.-abr. 2007, em que este texto se baseia.
[5] Laçiner, Sedat. "Neden Afganistan'dayız?. Star, 22/03/2012.
[6] Kösebalaban, Hasan. "Making of enemy and friend: Fethullah Gülen's
national-security identity". In: Yavuz, M. Hakan e Esposito, John L. (orgs.).
Turkish Islam and the secular state: the Gülen Movement. Syracuse: Syracuse
University Press, 2003.
[7] Ver, por exemplo, Stepan, Alfred e Robertson, Graeme. "An 'Arab' more than
'Muslim' democracy gap". Journal of Democracy, vol. 14, nº 3,
2003.
[8] As estimativas da população curda variam muito, mas números conservadores
sugerem 14 milhões na Turquia, 2 milhões na Síria, 6 milhões no Iraque e 7
milhões no Irã.
[9] Em 2010, o comércio da Turquia com o Iraque havia subido para US$ 7,4
bilhões, dos quais US$ 6 bilhões correspondiam a exportações turcas, quase
todas para o Curdistão iraquiano, onde a Turquia controla agora 95% do mercado
de construção. Ver Kiri şci, Kemal. "Turkey's 'demonstrative effect' and the
transformation of the Middle East". Insight Turkey, vol. 13, nº 2, 2011, p. 38.
[10] Kiri şci, op. cit., p. 38.
[11] ICG, op. cit., pp 14-15, 24.
[12] "Reclusive Turkish imam criticizes Gaza Flotilla". Wall Street Journal, 4/
06/2010. Essa era a primeira vez que Gülen, firmemente pró-
Israel, tinha se manifestado abertamente contra o governo.
[13] A coordenação entre as forças aéreas turca e israelense foi suspensa, mas
reiniciada no fim de 2011: "Turkey, Israel reinstate air force coordination
mechanism". Today's Zaman, 22/12/2011. Para comentários
internacionais sobre o Mavi Marmara, ver Baruh, Lemi e Popescu, Mihaela.
"Communicating Turkish-Islamic identity in the aftermath of the Gaza flotilla
raid". New Perspectives on Turkey, 45, 2011, pp. 76- 7.
[14] "Erdoğan's Cairo speech". Blog da Foreign Policy, postado em 2 de
fevereiro de 2011, citando o blog MideastWire, de Nicholas
Noe.
[15] "Erdoğan: 'Suudi Arabistan'la tam bir iş birligği içindeyiz'". Milliyet,
20/03/2011.
[16] Fattah, Khaled. "Yemen: A social intifada in a republic of dheikhs".
Middle East Policy, vol. 18, nº 3, 2011, p. 81.
[17] "US teaming with new Yemen government on strategy to combat Al Qaeda". New
York Times, 26/02/2012.
[18] Assim como o Conselho de Segurança da onu, com os membros temporários
Alemanha, Índia e Brasil se abstendo sobre a Resolução 1973; porém, os membros
permanentes Rússia e China permitiram que a resolução fosse aprovada ao
concordar em não usar seu poder de veto. Os americanos também estavam
divididos: o secretário de Defesa, Robert Gates, opondo-se à intervenção, os
assessores mais próximos de Obama (Susan Rice, Samantha Power) insistindo nela;
o Congresso não foi consultado, numa violação da lei.
[19] Tuğal, Cihan. Passive revolution: absorbing the Islamic challenge to
capitalism. Stanford: Stanford University Press, 2009.
[20] Aydınta şbaş, Aslı. "Davutoğlu'yla zor sohbet". Milliyet, 5/05/2011.
[21] Strauss, Delphine. "Erdoğan urges Assad to hasten reform". Financial
Times, 28/03/2011.
[22] Cebeci, Erol e Üstün, Kadir. "The Syrian quagmire: what's holding Turkey
back?". Insight Turkey, vol. 14, n º 2, 2012, p. 16.
[23] Hannah, John. "Syria: the king's statement, the president's hesitation".
Blog daForeign Policy, 9 de agosto de 2011.
[24] Em abril de 2011, Hannah escreveu, com referência ao homem de Riad em
Washington, o príncipe Bandar bin Sultan: "Trabalhando em conjunto com os
Estados Unidos, Bandar [...] pôde se revelar um grande trunfo nos esforços para
moldar as revoltas do Oriente Médio de 2011, em uma direção que serve aos
interesses dos eua [...] Bandar trabalhando sem referência aos interesses dos
eua é claramente motivo de preocupação. Mas Bandar trabalhando como um parceiro
de Washington contra um inimigo comum iraniano é um grande trunfo estratégico.
Baseando-se em recursos e prestígio sauditas, a engenhosidade e a inclinação
de Bandar para uma atuação ousada poderiam ser utilizadas de forma excelente em
toda a região de maneiras que reforcem a política e os interesses dos eua:
através de medidas econômicas e políticas que enfraqueçam os mulás iranianos
[e] solapem o regime de Assad". Hannah, John. "Bandar's return". Foreign
Policy, 22/04/2011.
[25] Cebeci e Üstün, op. cit., p. 20.
[26] "Suriye'ye Yemen modeli". Sabah, 3/03/2012; "Mu'arada
Tunisiyya-Turkiyya li ay Tadakhkhul min Kharij al-Mintiqa fi Suriyya". Sharq
al-Awsat, 9/03/2012.
[27] Ver Karagül, İbrahim. "Suriye için 'Misak-ı milli'. Yeni Şafak, 27/03/
2012; e Emre, Akif. "S uriye açmazında yeni dönemeç. Yeni
Şafak, 27/03/2012.
[28] "Akrad Suriyya yatawaqq'un fashal mu'tamar Istanbul al-muqbil", Sharq al-
Awsat, 29/03/2012.
[29] McCurdy, Daphne. "Turkish-Iranian relations: when opposites attract".
Turkish Policy Quarterly, vol. 7, n º 2, 2008.
[30] Lagendijk, Joost. "Using Turkey's expertise to deal with Iran". Today's
Zaman, 29/02/2012.
[31] 'Adil al-Tarifi, "Turkiyya 'al-Sunniyya' [...] wa Fashal siyasa al-
Ihtiwa". Sharq al-Awsat, 25/04/2012.
[32] Por exemplo, ver Karagül, İbrahim. "Korkulan oldu, bölündük...", Yeni Ş afak; Ünal, Ali. "Terör ve dış gelişmeler". Zaman, 26/03/2012.
[33] "Baghdad turji' muhakama al-Hashemi mujaddadan". Sharq al-Awsat, 11/05/
2011.
[34] Çakır, Ru şen. "Özal'ın hayali gerçekleşiyor mu?", Vatan, 24/04/ 2012.
[35] "Social Justice in the oecd ' How do the member states compare?".
Gütersloh, 2011.
[36] A comunidade Gülen recebeu cobertura notavelmente simpática nos principais
meios de comunicação ocidentais. Ver, por exemplo, "Turkish schools offer
Pakistan a gentler vision of Islam". New York Times, 4/05/2008; "Global Muslim networks: how far they have travelled". Economist, 6/
03/2008; "Meet Fethullah Gülen, the world's top public
intellectual". Foreign Policy, 4/08/2008.
[37] "Turkey, Egypt form strategic cooperation council". Today's Zaman, 13/09/
2011.