Brasil, junho de 2013, classes e ideologias cruzadas
JORNADAS OU ACONTECIMENTOS?
Se a memória não me falha, por volta da quinta-feira, 20, comecei a ouvir
referências às manifestações que vinham ocorrendo como as "Jornadas de Junho".
Lembro-me de colegas, nos corredores da universidade, usando a expressão em
caráter entre sério e brincalhão. Depois, eu próprio cheguei a utilizá-la em
artigo de jornal1. Algum tempo passado, no entanto, hesito em repetir a
fórmula.
As jornadas originais constam de O 18 Brumário de Luís Bonaparte como nada
menos que "o mais colossal acontecimento na história das guerras civis
europeias". Trata-se do momento em que, na conjuntura aberta pela revolução de
1848, o proletariado de Paris lança-se a uma tentativa insurrecional, sendo
esmagado pela repressão à bala comandada pelo general Cavaignac. Apesar da
derrota armada, Marx empenha-se em registrar que os insurretos sucumbiram com
todas as honras, tendo feito a Europa tremer "frente ao terremoto de junho"2.
O junho brasileiro também produziu um tremor de terra, porém não chegaria a
qualificá-lo de terremoto, uma vez que o travejamento fundamental da ordem não
foi questionado. As relações de classe e propriedade não estiveram diretamente
no centro das manifestações e as regras do jogo político foram visadas de
maneira difusa. Prova disso é que as propostas de Constituinte exclusiva e
plebiscito para a reforma política caíram no vazio, tendo sido esquecidas quase
logo depois que o mês acabou.
Por que falar em abalo sísmico, então? Porque em certo momento os protestos
adquiriram tal dimensão e energia que ficou claro estar ocorrendo algo nas
entranhas da sociedade, algo que podia sair do controle. Mas nunca restou
nítido o que estava acontecendo. Ainda penso que, como escrevi à época3, tendo
se espalhado por mais de 350 municípios4, mobilizado milhões de pessoas,
obrigado à revogação do preço das passagens e ameaçado a Copa das
Confederações, os movimentos de fato moveram uma placa tectônica quando
começaram a se espalhar para as vastas periferias metropolitanas. Foi então que
as autoridades, encabeçadas pela presidente Dilma Roussef, ativaram as
alavancas de emergência, demonstrando que a trinca tinha sido devidamente
detectada na cabine de comando. Diferentemente do caso francês, entretanto, não
houve aqui um desenho insurrecional. Ninguém seriamente imaginou estar em curso
uma tentativa de revolução.
Os acontecimentos se dividiram em três fases, as quais duraram cerca de uma
semana cada uma. A ebulição foi iniciada por fração pequena, embora valorosa,
da classe média, com mobilizações praticamente circunscritas à cidade de São
Paulo nos dias 6, 10, 11 e 13 de junho5. Nessa primeira etapa havia um objetivo
específico: a redução do preço das passagens do transporte público. As
iniciativas seguiram o modelo adotado pelo Movimento Passe Livre (mpl) em anos
anteriores. Convocados pelas redes sociais, os manifestantes percorriam e
paralisavam grandes vias públicas por horas a fio, ao final havendo escaramuças
com a polícia. Foi isso que aconteceu na primeira (avenida Paulista) e na
segunda (zona oeste paulistana) jornada, com a cifra de presentes subindo, ao
que parece, de 2 mil para 5 mil pessoas6.
Na terceira convocação do MPL, para a terça, 11, outra vez reuniram-se 5 mil
pessoas, mas houve verdadeira batalha campal com as legiões da ordem. Muitas
cenas de violência policial e destruição do patrimônio por grupos de jovens
foram reportadas pelos jornais. A repetição e intensificação dos embates
levaram o governador paulista, Geraldo Alckmin, a anunciar um endurecimento
para a quarta demonstração (na quinta, 13), quando um número indefinido de
pessoas - a Polícia Militar (pm) calculou 5 mil, segundo os organizadores havia
20 mil - marchou pacificamente do centro da cidade até a rua da Consolação,
sendo impedidas de prosseguir em direção à avenida Paulista. A partir daí
inicia-se repressão violentíssima, que se espalha por ampla região da
pauliceia, tendo a PM atuado sem controle por horas, atingindo transeuntes e
jornalistas de maneira indiscriminada. Depoimentos de partícipes e observadores
deram conta de policiais "enlouquecidos" e "cenas de guerra" a céu aberto.
O uso desmedido da força atraiu a atenção e a simpatia do grande público.
Inicia-se, então, a segunda etapa do movimento, com as manifestações de 17, 18,
19 e 20 de junho, quando alcança o auge. Agora outras frações da sociedade
entram espontaneamente em cena, multiplicando por mil a potência dos protestos,
mas simultaneamente tornando vagas as suas demandas. De milhares, as contas de
gente na rua passam a centenas de milhares. Na segunda, 17, quando o mpl chama
a quarta jornada, que juntou em São Paulo 75 mil pessoas7, ela é replicada nas
maiores capitais do país da maneira espontânea. Surge quase um cartaz por
manifestante, o que leva a uma profusão de dizeres e pautas: "Copa do Mundo eu
abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação", "Queremos hospitais padrão
Fifa", "O gigante acordou", "Ia ixcrever augu legal, maix fautô edukssão", "Não
é mole, não. Tem dinheiro pra estádio e cadê a educação", "Era um país muito
engraçado, não tinha escola, só tinha estádio", "Todos contra a corrupção",
"Fora Dilma! Fora Cabral! pt = Pilantragem e traição", "Fora Alckmin", "Zé
Dirceu, pode esperar, tua hora vai chegar", foram algumas das inúmeras frases
vistas nas cartolinas. Diversos outros temas também compareceram, como a
atuação do deputado Feliciano (psc-SP) na Comissão de Direitos Humanos da
Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda Constitucional 37, vetando a
possibilidade de o ministério público fazer investigações independentes, o voto
distrital e o repúdio aos partidos. Um pouco daquele "que se vayan todos"
argentino de 2001 apareceu no ambiente. A depredação de edifícios públicos
(Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Congresso Nacional, Itamaraty)
pareceu ser expressão de um clima de repúdio aos políticos em conjunto.
Com o início da Copa das Confederações (16 de junho), São Paulo perde
centralidade, com o protagonismo passando às praças onde haveria jogos
(Brasília, Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte e Rio de Janeiro). No Rio, em
particular, as manifestações adquirem certo sabor de sublevação popular, com
mobilizações se estendendo na terça, 18, para a Baixada Fluminense (Duque de
Caxias, São Gonçalo, etc.). Na quarta (19), 10 mil estudantes e membros dos
movimentos sociais em Fortaleza entram em confronto com a polícia antes e
depois da partida entre Brasil e México.
Nessa mesma quarta, assustados, a prefeitura do município e o governo do estado
de São Paulo atendem à reivindicação e revogam o aumento da tarifa8. Na quinta,
20, em suposta comemoração, a onda atinge o ponto máximo, com demonstrações em
mais de 100 cidades, algumas delas gigantescas, alcançando, no conjunto, cerca
de 1,5 milhão de participantes. Quatro dias depois, em resposta, a presidente
Dilma Rousseff propunha a Constituinte exclusiva para a reforma política, a
qual seria, de acordo com o projeto, depois submetida a plebiscito popular.
Na terceira e última etapa, que vai do dia 21 até o final do mês, o movimento
se fragmenta em mobilizações parciais com objetivos específicos (redução de
pedágios, derrubada da pec 37, protesto contra o Programa Mais Médicos, etc.)9.
Por exemplo, em São Paulo, uma passeata contra o Projeto de Emenda
Constitucional 37 reuniu cerca de 30 mil pessoas no sábado, 22. Na mesma tarde,
em Belo Horizonte, perto de 70 mil pessoas protestaram contra os gastos para a
Copa diante do jogo entre Japão e México. Ainda sob o impulso da força liberada
na segunda fase, mas já separadas por inclinações diferentes, as manifestações
começam a se dividir, como um rio que se abrisse em múltiplos braços no
descenso da montanha.
Sem retirar a óbvia importância das demonstrações, em nenhum momento elas foram
insurrecionais. Talvez chamá-las de "Jornadas de Junho", portanto, leve a
engano. Porém como denominá-las? Diz-se que, anos depois de 1968, o filósofo
Jean-Paul Sartre afirmava ainda estar tentando entender o que havia acontecido.
Desconfio que o mesmo vá ocorrer conosco. Por muito tempo ficaremos a nos
perguntar tanto sobre a gênese quanto sobre o significado desses acontecimentos
de junho, como, segundo o filósofo Paulo Arantes, os franceses tratam o famoso
maio soixante-huitard10.
Sem nenhuma pretensão, portanto, de deitar cátedra sobre tema que deverá ser
alvo ainda de muita pesquisa, as hipóteses que seguem, elaboradas quase no
calor da hora, pretendem nada mais que contribuir para a reflexão coletiva.
Consciente das lacunas da visão que disponho, ocupo-me aqui apenas de discutir,
de maneira preliminar, duas dimensões que julgo importantes para o debate: a
composição social e as ideologias que se cruzaram nas ruas. Quanto ao nome,
sendo a França a pátria, desde 1789, das mobilizações de massa, farei como os
franceses, usando "acontecimentos de junho".
CLASSE MÉDIA TRADICIONAL E NOVO PROLETARIADO
Houve dois pontos de vista sobre a composição social dos acontecimentos de
junho. O primeiro identificou neles uma extração predominante de classe
média11, enquanto o segundo tendeu a enxergar uma forte presença do precariado:
"a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que
entram e saem rapidamente do mercado de trabalho"12. Analisando as pesquisas
disponíveis13, gostaria de sugerir uma terceira hipótese: a de que elas possam
ter sido simultaneamente as duas coisas, a saber, tanto expressão de uma classe
média tradicional inconformada com diferentes aspectos da realidade nacional
quanto um reflexo daquilo que prefiro denominar de novo proletariado, mas cujas
características se aproximam, no caso, daquelas atribuídas ao precariado pelos
autores que preferem tal denominação: trata-se dos trabalhadores, em geral
jovens, que conseguiram emprego com carteira assinada na década lulista (2003-
2013), mas que padecem com baixa remuneração, alta rotatividade e más condições
de trabalho14.
Adianto que devido à limitação das informações com as quais pude contar,
recolhidas em algumas poucas manifestações de determinadas cidades, por
institutos que usaram diferentes categorias, permitindo, portanto, pequena
comparabilidade, não há como decidir por nenhuma das hipóteses mencionadas. O
meu intuito é, por consequência, apenas o de oferecer uma interpretação
alternativa, mostrando a respectiva plausibilidade no cotejo com a idade, a
escolaridade e a renda dos manifestantes.
No Quadro_1 pode-se verificar o predomínio dos jovens sobre as demais faixas
etárias nas manifestações. Com efeito, a faixa que vai até 25 anos, ponto em
que se costuma situar a passagem para a vida adulta15, perfez a maioria
relativa dos participantes em todos os casos, chegando mesmo à maioria absoluta
em São Paulo (20/06) e Belo Horizonte (22/06).
Deve-se observar, contudo, que não foi pequena a presença de não jovens, ao
menos na segunda fase, à medida que as passeatas ganhavam amplitude. Comparando
os números encontrados pelo Datafolha em São Paulo, vemos que de 17 para 20 de
junho aumenta a proporção de mais velhos. Mas não estamos em face de um
crescimento linear, pois a posterior demonstração de Belo Horizonte teve
caráter particularmente jovem.
Apesar da tendência à maior mistura intergeracional, é nítido que a porcentagem
sempre caía à medida que se caminhava em direção a idades mais avançadas, sendo
mínima a adesão de adultos com mais de 50 (5% em São Paulo) ou 60 anos (2% no
Rio de Janeiro). Foi, portanto, um movimento formado por base majoritária de
jovens, complementada por significativo contingente de jovens adultos
(aproximadamente de 26 a 39 anos), com pequena inserção de adultos da meia-
idade para cima. Somados, os dois blocos principais agregavam cerca de 80% dos
que estavam na rua.
Tais jovens e jovens adultos possuíam alta escolaridade, segundo se pode ver no
Quadro_2. A fração dos que tinham apenas passagem (completa ou incompleta) pelo
ensino fundamental foi residual em São Paulo, tanto no dia 17 (1%) quanto no
dia 20 (2%), e em Belo Horizonte na tarde de 22 (4%). Embora substancialmente
maior no Rio de Janeiro na noite de 20 de junho (14%), indicando que a passeata
carioca pode ter tido um caráter mais popular, esteve longe de ser cifra
dominante. Infelizmente não dispus do mesmo dado para as oito capitais, mas a
pequena proporção dos que só chegaram ao ensino médio sem concluí-lo (8%)
confirma a mínima parcela de baixa escolaridade, denotando a virtual ausência
da base da pirâmide social brasileira nas manifestações16.
Inversamente, as cifras são particularmente elevadas na alta escolaridade. Nas
oito capitais pesquisadas, nada menos que 43% dos manifestantes tinham diploma
universitário, quando, em 2010, apenas 8% da população brasileira possuía o
canudo17. Mesmo em São Paulo, onde a formação universitária é mais comum, os
diplomados não superavam 18% da população com 15 anos ou mais em 201018. Tal
informação torna plausível uma influência relevante da classe média tradicional
nas manifestações, como propuseram alguns analistas, uma vez que, apesar das
importantes transformações recentes, em que um contingente de jovens de baixa
renda ingressou no ensino superior, é provável que, na maioria dos casos, a
posse do diploma seja elemento distintivo de pertença à camada que já se
estabeleceu há pelo menos uma geração19. Mesmo no Rio de Janeiro e em Belo
Horizonte, onde as manifestações teriam apresentado conotação mais popular, os
institutos encontraram respectivamente 34% e 33% de diplomados no ensino
superior20.
Somando os diplomados aos que estavam cursando universidade, abarca-se um vasto
contingente (quase 80%) das manifestações de São Paulo em 17 e 20, assim como
de Belo Horizonte a 22 (quase 70%). Se lembrarmos que, segundo o Ministério da
Educação, em 2011 apenas 15% dos jovens brasileiros estavam matriculados no
ensino superior, mesmo tendo duplicado o número de ingressantes em uma
década21, pode-se dimensionar o significado da proporção alcançada pelos que
tinham acesso às instituições universitárias nos acontecimentos de junho.
Também o alto volume dos que tinham o curso médio completo ou que estavam
cursando universidade nas oito capitais (49%) e no Rio de Janeiro (52%), praças
para as quais não dispus da quantidade isolada de estudantes universitários,
confirma que o nível educacional apurado naquelas ocasiões aponta para a metade
superior da sociedade, com um perfil, no mínimo, de classe média baixa (ensino
médio)22 e com fortes tintas de classe média tradicional, dando sustentação à
percepção de que as manifestações teriam sido expressão desse setor social.
Porém a renda revela um cenário diferente (Quadro_3). Para começar, a ala de
baixíssimo ingresso não foi insignificante como sugeria o filtro por educação.
Houve 15% com renda familiar mensal até dois salários mínimos nas oito capitais
e 20% em Belo Horizonte23. Somados aos que tinham entre dois e cinco salários
mínimos familiares mensais, que estão dentro do que se pode considerar baixo
rendimento no Brasil, no conjunto respondiam por cerca de 50% dos
manifestantes. Em outras palavras, uma parte substantiva estava na metade
inferior da distribuição de renda, criando um contraste em relação à imagem que
havia sido sugerida pela escolaridade, dimensão na qual a quase totalidade dos
manifestantes encontrava-se na metade superior.

Tomando-se uma renda per capita entre algo como 1,5 e 3,5 salários mínimos,
vemos que ela é genericamente compatível com renda familiar mensal de até cinco
salários mínimos para quatro pessoas24. Esses manifestantes estariam, portanto,
dentro da faixa na qual o economista Waldir Quadros inclui ocupações como
balconista, professor de ensino fundamental, auxiliar de enfermagem, auxiliar
de escritório, recepcionista, motorista, garçom, barbeiro, cabeleireira e
manicure25. A classificação pela renda familiar não nos permite saber a renda
per capita do manifestante, mas, ao dizer que 45% dos participantes em oito
capitais e 56% em Belo Horizonte não tinham renda familiar acima de cinco
salários mínimos, o Ibope e o Innovare estão nos indicando que boa parte deles
podia ter uma das profissões descritas por Quadros, não pertencendo, pois, à
classe média tradicional, que se caracteriza por abrigar profissionais liberais
ou funções não manuais, técnicas e administrativas26. As ocupações arroladas
por Quadros estariam dentro da categoria "médio-inferior" estabelecida por
Souza e Lamounier, ou seja, na metade de baixo da estratificação por
ocupações27.
Isso nos leva à seguinte equação. Enquanto ao olhar por escolaridade vimos uma
acentuada presença do topo da escala social, remetendo para a classe média
tradicional, do ângulo da renda e da ocupação que se pode deduzir dela, as
pesquisas apontam uma incidência expressiva da metade inferior da pirâmide nas
manifestações. Seria a confirmação de que o novo proletariado ou precariado,
conforme sugerido por alguns autores, foi para as ruas. Se considerarmos que a
maioria dos manifestantes era jovem, tendo entrado recentemente no emprego -
significativamente, o Ibope mostrou que 76% dos manifestantes estava no mercado
de trabalho nas oito capitais, a Innovare encontrou proporção parecida em Belo
Horizonte (71%) e a Plus Marketing no Rio de Janeiro (70%) -, a hipótese torna-
se plausível28.
Mais ainda, como tem assinalado o sociólogo Gustavo Venturi, em função "do
processo relativamente acentuado de escolarização ao longo da última década e
meia"29 é razoável pensar num novo proletariado com nível escolar elevado. Em
função disso, deve-se cogitar a possibilidade de ter estado presente nas
manifestações uma massa de jovens de escolaridade mais alta que a renda, o que
resolveria a equação extraída dos quadros_1, 2 e 3. Convém lembrar que com a
ampliação das vagas nas universidades públicas, com o Prouni e com a explosão
do ensino superior privado a quantidade de ingressantes nas universidades pulou
de 1 para 2,3 milhões por ano de 2001 a 201130.
Tendo em vista o exposto, sugerimos que a melhor imagem para descrever a
composição social das manifestações seja a de dois blocos relativamente
equivalentes, formados por jovens e jovens adultos de classe média e outro por
pessoas da mesma faixa etária, mas pertencentes à metade inferior da estrutura
social brasileira, sendo estes com menos escolaridade média. O Quadro_3 sugere
que, com exceção do Rio de Janeiro (que, como vimos, apresentou um desvio em
relação à dimensão do rendimento), metade dos manifestantes tinha renda
familiar acima de cinco salários mínimos e cerca de 20% recebiam acima de dez
salários mínimos familiares mensais, soma de recursos mais próprios da classe
média tradicional. Isso reforça a impressão de que havia, sim, um contingente
de classe média nas manifestações, mas ele não respondia pelo todo. A segunda
fase das manifestações teria produzido, em consequência, um cruzamento de
classes. Embora os dados não sejam suficientes para fechar um diagnóstico, para
aí apontam as pistas mais interessantes que eles nos deixam, juntamente com as
evidências de que o subproletariado pouco participou dos protestos.
ESQUERDA, DIREITA E, SOBRETUDO, CENTRO PÓS-MATERIALISTA
Socialmente heterogêneos, os acontecimentos de junho foram também tão
multifacetados no plano das propostas que não espanta haja todo tipo de
imputação ao seu sentido ideológico: desde o ecossocialismo até impulsos
fascistas, passando por diversas gradações de reformismo e liberalismo.
Acabaram por ser uma espécie de "Jornadas de Juno", cada um vendo nas nuvens
levantadas nas ruas a forma de uma deusa diferente.
Os extremos do espectro foram, naturalmente, mais visíveis que os pontos
intermediários. Apareceu de imediato o viés progressista das manifestações, que
poderiam prenunciar novo ciclo de lutas dos trabalhadores, como o que tendo se
iniciado em 1978 vigorou até o final da década de 198031. Surgiu também com
clareza a vertente à direita, que pretendeu desencadear uma pressão regressiva
em relação ao campo popular que está no governo com o lulismo desde 2003. Mas,
na verdade, quiçá junho de 2013 seja mais bem compreendido se olharmos para o
centro. Essa é a hipótese que desejo expor nesta seção.
Como já vimos, os acontecimentos de junho podem ser divididos em três fases. O
Movimento Passe Livre (mpl) foi o artífice e fio condutor ideológico da
primeira. Para o mpl, "as barricadas erguidas contra os sucessivos aumentos das
passagens são expressão da digna raiva contra um sistema completamente entregue
à lógica da mercadoria"32. A qualquer bom entendedor fica claro que, do ponto
de vista do mpl, a briga contra as tarifas de transporte são um modo de lutar
contra o capitalismo, o sistema que se rege pela "lógica da mercadoria".
Referido a uma antiga tradição nacional de subsidiar a passagem dos estudantes,
o mpl inspira-se diretamente em revoltas ocorridas em Salvador (2003) e
Florianópolis (2004). Na capital de Santa Catarina, o levante juvenil foi capaz
de obter a lei do passe livre estudantil33. Além do caráter anticapitalista, um
elemento nas mobilizações baiana e catarinense atraiu o núcleo paulista do MPL:
foram iniciativas horizontais e descentralizadas, isto é, que representavam "um
afastamento dos modelos hierarquizados"34 de luta. Herdeiros de uma tradição
autonomista que chegou ao Brasil nos anos 1980, o MPL tem o que o filósofo
Pablo Ortellado chama de "enorme cuidado com o processo"35.
O público percebeu-o na entrevista que dois representantes do mpl, Lucas
Monteiro de Oliveira e Nina Cappello, deram ao programa Roda Viva da tv Cultura
na noite da segunda, 17 de junho, depois de terem conduzido aquela que talvez
tenha sido uma das maiores concentrações políticas na história da capital
paulista. Firmes e precisos nas respostas, os dois jovens demonstraram, por
meio do apego absoluto ao objetivo do movimento - revogação do aumento de
tarifas que estava em vigor há duas semanas -, que da parte deles não haveria
nenhum risco de manipulação do tsunami que se erguera naquela tarde36. Se, como
diz Ortellado, "a forma do movimento deve espelhar a sociedade que a gente
quer", a entrevista foi um bom exemplo de que a sociedade desejada pelo mpl é
de fato participativa, pois os dois membros destacados para falar aos
telespectadores foram fiéis ao que se poderia chamar de mandato imperativo: só
disseram o que a "assembleia" os autorizava a dizer.
Demonstraram, assim, uma prática democrática diferente daquela a que estamos
acostumados, em que os representantes estão tão distantes dos representados que
se estabelece uma espécie de mandato livre extremado. Um pequeno detalhe do
programa deu ainda uma demonstração de solidez pessoal. Indagada sobre aspectos
triviais de sua vida particular, como opções de lazer, tipos de livros e filmes
preferidos, etc., Cappello recusou-se a entrar no assunto. Não estamos aqui
para falar de nós, respondeu Cappello, apoiada por Oliveira, abstendo-se de
aproveitar a oportunidade para projetar-se como liderança individual, pronta
para ser absorvida e tragada pelo star system. Ao não entrar no jogo, Cappello
deu uma segunda demonstração de que estava ali apenas para expressar um anseio
coletivo e não a sua subjetividade pessoal. O respeito absoluto ao coletivo e a
recusa da oportunidade de ascensão individual colocaram, em breves minutos de
tv, toda uma nova ética política em circulação37. Aquela entrevista representou
a aparição, no cenário político brasileiro, de uma nova esquerda, em sintonia
com aquela do Occupy Wall Street norte-americano e dos Indignados espanhóis.
Só que ao, coerentemente, recusar uma prática que impusesse desde o alto o
sentido das mobilizações, o mpl as abriu para visões de mundo muito diferentes
da sua. As tendências de centro e direita pegaram carona na corrente
deslanchada pela nova esquerda, só que os caronistas foram tantos que, em certo
momento, acabaram por mudar a direção do veículo. Acredito que setores de
classe média de centro e de direita intuíram que havia ali uma oportunidade
para expressar um mal-estar difuso com a situação do país.
Pesquisa realizada pelo Datafolha quando começavam os protestos (6 e 7 de
junho) já detectara que entre os eleitores com renda mais alta a avaliação
positiva do governo Dilma Roussef caíra de maneira acentuada, indo de 67% em
março para 43% três meses depois. Aparentemente, o chamado do mpl, que se
dirigia, sobretudo, aos jovens proletários, caiu nos ouvidos irritados da
classe média. Mas irritados por quê?
O instituto Vox Populi, que encerraria outra pesquisa quatro dias depois do
Datafolha, indicava que metade da amostra se dizia muito preocupada com a
inflação38. Embora divirjam em quase tudo, economistas de diversas tendências
estavam de acordo em que tinha havido um fenômeno, talvez tópico, mas de alguma
relevância, no campo do aumento de preços nos meses anteriores. Para o ex-
ministro tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros, as majorações no varejo, ou
seja, aquelas que efetivamente impactam o bolso do consumidor chegaram a rodar
em torno de 10% nos primeiros meses de 201339. No outro canto do ringue, o
economista Marcio Pochmann, do pt, afirmava que, para os de renda superior, a
carestia seria ainda maior, pois a sua cesta de consumo seria dominada pelos
serviços, que subiram mais40. Assim, a aceleração do custo de vida para os
setores médios nos meses que precederam as manifestações poderia explicar, em
parte, a insatisfação que acabou por se expressar nas ruas em junho. Sozinha a
inflação não teria, a meu ver, potencial para fornecer o combustível dos
protestos, mas ela pode ter potencializado as inúmeras críticas que os setores
médios, tanto à esquerda quanto à direita, faziam ao lulismo, já aguçadas pelas
difíceis condições de vida urbana, em particular nos quesitos mobilidade e
segurança.
O fato é que, a partir do momento em que importantes setores de classe média
foram para a rua, o que havia sido um movimento da nova esquerda passou a ser
um arco-íris, em que ficaram juntos desde a extrema-esquerda até a extrema-
direita. As manifestações adquirem, a partir daí, um viés oposicionista que não
tinha antes41, tanto ao governo federal quanto aos governos estaduais e
municipais. Na terça, 18, em São Paulo, durante a quinta manifestação
paulistana, um grupo com características que se semelhavam às da extrema-
direita destacou-se da multidão e tentou depredar a prefeitura de São Paulo,
dirigida por um político do pt apoiado diretamente por Lula na eleição de 2012.
Abandonado pela polícia, o centro velho foi saqueado por lumpemproletários
naquela noite, lembrando cenas dignas das manobras fascistas do século XX. No
Rio de Janeiro, teve início uma campanha contra o governador do estado e o
prefeito da cidade. Ao mesmo tempo bandeiras brasileiras passaram a ser
elemento constante, ao lado de cartazes por menos impostos.
A direita buscou tingir as manifestações de um sentimento anticorrupção. Convém
lembrar que, no Brasil, essa é sempre a arma favorita da oposição, e o objetivo
quase único da direita, nesta quadra, é opor-se ao governo federal, tirando o
pt do poder e, se puder, impedindo-o para sempre de voltar. Como a corrupção é
um fluxo de transações indevidas entre os bens públicos e os interesses
privados, os governos, enquanto gestores da riqueza coletiva, estão
constantemente no centro das denúncias. Acrescente-se que o chamado mensalão,
cujo julgamento, amplamente televisionado, ocorrera seis meses antes da
explosão, pode ter tido efeito sobre os acontecimentos de junho, mobilizando
uma fração que viu no chamado do mpl para ir às ruas a oportunidade de colocar
em pauta um assunto profundamente entalado na garganta.
A vantagem da bandeira anticorrupção é que ela penetra em todas as camadas
sociais, pois flui com facilidade pelo senso comum. Quem pode ser a favor da
corrupção? As camadas médias tradicionais nutrem o preconceito de que a falta
de instrução das camadas populares as levaria a aceitar a corrupção (o que é
duvidoso) em troca de benefícios. Em todo caso, o "rouba, mas faz", com o qual
se procurou caracterizar nos anos 1940 a ação de Adhemar de Barros, na última
quadra, mais ou menos sutilmente, tem servido para enquadrar o lulismo. Ao
mesmo tempo, a direita estabelece uma relação entre a corrupção e as carências
sociais, buscando convencer os setores populares de que se ela fosse varrida
para fora da casa haveria recursos para todos viverem bem. Trata-se de um
argumento falacioso, mas intuitivo.
É possível que, no afã de atingir o governo federal e o pt, erigidos em
inimigos número 1, a direita tenha apostado no "que se vayan todos", mesmo com
algum prejuízo a administrações dirigidas pelo psdb. A depredação da Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro, para onde se desloca, a partir da noite de 17 de
junho, a centralidade antes posta em São Paulo, quiçá respondeu a uma
estratégia do tipo Argentina-2001, embora não haja comprovação de quem tenha
sido a responsabilidade daquele ato. Vale observar, de passagem, que o uso
sistemático da violência, seja pela polícia, seja por manifestantes, tornou-se
uma rotina de junho em diante, sem que se conheça, exatamente, de onde vem e
por que prosperam tais posturas42.
Se, de um lado, a direita teve êxito em marcar a segunda etapa com um viés
anticorrupção, de outro, as manifestações ganharam conotação popular à medida
que apareceram as palavras de ordem contra os gastos com a Copa do Mundo de
2014 e as Olimpíadas de 2016, sobretudo nos locais em que ocorreram os jogos da
Copa das Confederações. O chamado "branqueamento" dos modernos templos do
futebol construídos para 2014, cujos ingressos ficaram inacessíveis aos
"morenos", isto é, o grosso da população, parece ter ocasionado uma justificada
revolta nos "de baixo".
Com a crítica aos dispêndios para o calendário esportivo, entrava em cena uma
segunda bandeira de esquerda, após a da redução das tarifas. Afinal, o que está
em jogo é a destinação de dinheiro público para construir estádios luxuosos e
rendosos em termos de negócios, mas depois pouco úteis, em um país onde os
pobres não têm esgoto, atendimento médico, transporte aceitável, segurança
pública e, agora, para cúmulo da ironia, passaram a ser excluídos também do
próprio futebol. Em última análise, a crítica da desigualdade constitui o
leitmotiv do enredo "anti-Fifa". Não por acaso, na quarta, 19, o Movimento dos
Trabalhadores sem Teto, de tradição progressista, juntou gente nas periferias
sul e leste de São Paulo para protestar "contra o aumento do custo de vida e
contra o preço da Copa do Mundo, que é paga pelos trabalhadores"43.
A ascensão de lutas nas metrópoles era previsível. A elevação da temperatura
nos centros urbanos estava clara pelo menos desde a última campanha eleitoral
(2012), em que com poucas exceções as capitais elegeram prefeitos de oposição,
qualquer que fosse a orientação partidária do mandato que se encerrava44. O
reformismo fraco que caracteriza o lulismo encontra mais dificuldade para
avançar em contextos hiperurbanizados, pois aí as mudanças custam caro e/ou
implicam confrontos de classe, que não fazem parte do modelo45. Além disso, de
acordo com a arquiteta Ermínia Maricato, nos últimos anos os "despejos
violentos foram retomados", vitimando a população pobre, e "os megaeventos -
como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, entre outros - acrescentam mais lenha
nessa fogueira"46. Em outras palavras, a ocorrência, naquele momento, da Copa
das Confederações constituía ótima chance para levantar o problema das
persistentes desigualdades citadinas.
Penso, portanto, que a direita trouxe para a segunda fase das manifestações o
problema da corrupção e a esquerda, o das iníquas condições de vida urbana,
produzindo um cruzamento ideológico que se compôs, em alguma medida, com a
mistura de classes que observamos na seção anterior. Mas o realmente novo foi a
atuação do centro, o qual teve a vantagem de poder assumir uma e outra
bandeira, bradando simultaneamente contra os gastos públicos privatizados pelo
capital e contra a corrupção. Funcionou, assim, como uma espécie de inesperado
generalizador do programa espontâneo das ruas. A única condição para que
pudesse levar adiante tal operação aditiva foi a de não transformar a
reivindicação de hospitais e escolas "padrão Fifa" em um verdadeiro combate ao
capitalismo, como quer a esquerda, nem a perseguição aos corruptos, em uma
obsessão vingativa à esquerda, como propõe a direita.
O centro dispõe da possibilidade de encampar as duas bandeiras sempre que
apareçam como o reflexo de uma sociedade moderna em confronto com um Estado
envelhecido. Ao enfocá-las desse modo retira o potencial de confronto dentro da
sociedade que as palavras de ordem podem ter. O centro que apareceu nas
manifestações acredita em um tecido social unificado e participativo contra um
aparelho estatal opressivo, do qual quer remover velhos hábitos,
simultaneamente atrasados e corruptos. Por isso é tão relevante o uso das redes
sociais. Além de servir como senha de modernidade em contraposição a um Estado
antiquado, a internet seria a maneira de permitir a participação social que
combateria as práticas políticas correntes47.
Em essência, o centro que se expressou nas ruas do Brasil a partir da segunda,
17 de junho, pode ser caracterizado como pós-materialista, nos termos do
cientista político Ronald Inglehart. Para Inglehart, à medida que as sociedades
vão resolvendo os seus problemas materiais ocorre uma mudança de valores, os
quais passam gradativamente daqueles que enfatizam "a segurança econômica e
física" para aqueles que ressaltam "a autoexpressão e qualidade de vida"48.
Seria uma transição intergeracional, realizada conforme os que já são
socializados em um ambiente de classe média, livres do fardo material das
gerações anteriores, vão se tornando maioria, provocando mudança profunda na
maneira de enxergar a política por parte dos cidadãos.
Um bom exemplo da transição pós-materialista aplicada ao universo brasileiro
pode-se encontrar na análise dos acontecimentos de junho produzida pelo
economista André Lara Resende, não por acaso um dos intelectuais mais próximos
da ex-senadora Marina Silva. Para Resende, as manifestações foram expressão da
insatisfação com um Estado que teria se tornado um inútil "sorvedouro de
recursos". "Os sinais dessa situação estão tão evidentes que não é preciso
conhecer e analisar os números. O Executivo, com 39 ministérios ausentes e
inoperantes; o Legislativo, do qual só se tem más notícias e frustrações; o
Judiciário pomposo e exasperadoramente lento"49. A malaise antiestatista teria
se propagado por meio da internet, à revelia das instituições e também dos
meios de comunicação tradicionais. Daí a surpresa que a eclosão de junho teria
causado em todos os atores políticos estabelecidos. Por meio da rede de
computadores a mudança cultural se difundiu de maneira despercebida, conclui
Resende.
A transformação subjacente de valores aparece caracterizada da seguinte forma
por Resende: "A relação entre renda e bem-estar só é claramente positiva até um
nível relativamente baixo de renda, capaz de atender às necessidades básicas da
vida. A partir daí, o aumento do bem-estar está associado ao que se pode chamar
de qualidade de vida, cujos elementos fundamentais são o tempo com a família e
os amigos, o sentido de comunidade e confiança nos concidadãos, a saúde e a
ausência de estresse emocional"50. Em outras palavras, os protestos teriam
evidenciado a existência de uma nova agenda e de uma nova postura que são,
acredito, típicos do que Inglehart chama de pós-materialismo.
Se o meu raciocínio estiver correto, a segunda fase não teria representado uma
apropriação do movimento pela direita, mas uma muito mais sutil ressignificação
por parte de um centro pós-materialista. Por meio dela, tanto os "hospitais
padrão Fifa" como as "punições exemplares aos corruptos" passaram a simbolizar
a "modernização do Brasil". A hipótese de que um centro pós-materialista possa
ter formado o eixo da segunda fase dos acontecimentos de junho encontra amparo
nos dados disponíveis sobre o perfil ideológico dos manifestantes (Quadro_4).
Não apenas o centro é a posição individualmente majoritária, mas, se
considerarmos que a centro-esquerda e a centro-direita podem ser vistas como
parte de um centro ampliado, chegaremos a que perto de 70% dos participantes
giravam em torno de posições centristas. Faz sentido pensar que esquerda e
direita se encontraram no centro ao cruzarem, em sentidos opostos, as avenidas
do país.
PARA ONDE VAI O NOVO PROLETARIADO?
A forte presença de uma jovem classe média nas manifestações, como assinalei
antes, é naturalmente compatível com a ideologia de centro que acabou por ser
dominante no auge do movimento. Porém entender como soaram para o novo
proletariado, também presente, as posições pós-materialistas talvez seja uma
das mais interessantes perguntas que ficam dos acontecimentos de junho.
Cabe observar que para trabalhadores de baixa renda ainda está posta uma agenda
materialista, diante da qual esquerda e direita têm respostas nítidas: mais
Estado, de um lado, e mais mercado, de outro. O centro, por sua vez, tenta
escapar do dilema por meio do recurso à "maior participação social", proposta
da qual, em tese, ninguém discorda, mas que colocada fora do conflito
distributivo só interessa a quem já está com seus problemas materiais
resolvidos.
Como é fácil notar, há pouca proximidade entre as "madames vestidas a caráter e
cheias de balangandãs, brandindo cartazes sobre o 'fim da corrupção' e fazendo
propaganda de um endereço no Twitter"51 observadas pelo diretor do Vox Populi,
Marcos Coimbra, nas TVs que mostravam a Copa das Confederações e os
"trabalhadores jovens e inseridos em precárias condições de trabalho, além de
sub-remunerados" que manifestaram insatisfação nas ruas52. Por que, então, os
segundos seriam arrastados pela ideologia das primeiras?
Poder-se-ia dizer que as madames de balangandãs talvez sejam a base da direita
e não do centro. Mas o jovem cientista político Henrique Costa conta o seguinte
episódio ocorrido em uma estação de metrô e trem de São Paulo durante a
mobilização de 17 de junho. Enquanto um grupo de jovens da periferia promovia
uma espécie de "passe livre já" por meio do "pula catraca", jovens de classe
média gritavam para eles: "sem vandalismo, sem vandalismo". Depreende-se do
relato que os dois grupos chegaram às vias de fato53. A julgar pela história
narrada, houve uma tensão latente, às vezes transbordante, entre as duas
camadas sociais que marcaram as manifestações.
No entanto, é possível que, embora objetivamente distante, o universo da classe
média pós-materialista seja alvo de desejo de jovens que começam a se mover
naquela direção por meio da elevação educacional. Ensina a sociologia que,
quando não existem fortes subculturas de classe em ação, os indivíduos podem
desenvolver identificações com o lugar social para o qual querem ir e não com o
terreno de onde vêm.
Segundo a pesquisa do Ibope, na noite de 20 de junho, quando levadas em
consideração as três principais reivindicações espontaneamente levantadas pelos
manifestantes entrevistados, a mudança do ambiente político ficou em primeiro
lugar, tendo sido mencionada por 65% dos presentes, com 50% fazendo referência
especificamente à corrupção. A questão do transporte ficou em segundo lugar,
com 54% das respostas, e os gastos com a Copa em terceiro, com 40%. Seria
interessante pesquisar, no futuro, se houve alguma associação entre essas
opções, a escolaridade e a renda dos entrevistados.
Com as evidências atuais não é possível afirmar para que lado pendeu o novo
proletariado. Tanto pode ter havido uma compreensão de que os problemas postos
só poderão ser resolvidos com gastos sociais do Estado, como pensa a esquerda,
quanto uma adesão à noção contrária, defendida pela direita, de que só o
combate à corrupção (da esquerda) pode levar a uma maior produção de riqueza.
Mas também é plausível ter havido uma simpatia pela ideia de que a solução dos
problemas sociais brasileiros passa por maior participação social e uma redução
do Estado, como quer o centro pós-materialista. Até mesmo uma divisão entre as
três correntes é imaginável.
O que percebemos no Quadro_4 é que, no auge das manifestações, as diversas
correntes ideológicas estavam juntas nas ruas. Apesar da expulsão simbólica da
esquerda partidária da avenida Paulista (talvez por grupos de extrema-direita
sob o beneplácito silente de manifestantes de centro), na noite da quinta, 20,
onde tudo havia começado duas semanas antes, a esquerda social lá permaneceu,
representando uma parcela significativa, embora não majoritária, do protesto.
Da mesma maneira, havia uma direita, a qual, contudo, era bem menor do que
fizeram pensar as primeiras impressões a respeito do acontecido. O centro, por
sua vez, predominava do ponto de vista numérico e, como buscamos sugerir,
cultural. Descobrir como o novo proletariado reagiu ao estranho cruzamento
ocorrido ajudará a entender melhor o significado profundo dos acontecimentos de
junho.
1 Singer, André. "Flores de inverno". Folha de S.Paulo, 03/08/2013, p. A2.
2 Marx, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011, p.
35.
3 Singer, André. "Esquerda ou direita?". Folha de S.Paulo, 22/06/2013, p. A2.
4 Segundo a Agência Estado, em 30/06/2013, <www.ultimosegundo.com.br>, acessado
em 21/09/2013.
5 Houve, também, duas pequenas manifestações no Rio de Janeiro, nos dias 6 e 10
de junho.
6 A menos que assinalado, os números de manifestantes correspondem à avaliação
da imprensa, segundo apareceram na Folha de S.Paulo e O Globo. Tais avaliações
são sempre controversas. Utilizo-as apenas como referência, não pretendendo que
estejam sempre corretas.
7 Informação do Datafolha. Participantes reportam a impressão de número bem
maior.
8 A revogação dos aumentos aconteceu também no Rio de Janeiro e em dezenas de
outras cidades.
9 A não ser por menções pontuais, este artigo não se propõe a analisar a
evolução do movimento social depois de junho, restringindo-se a oferecer uma
interpretação dos acontecimentos daquele mês.
10 Em debate na USP (22/08/2013), Arantes explicou que, dada a dificuldade de
rotular o que ocorreu, os franceses acabaram por adotar a fórmula neutra
"acontecimentos de maio" para falar de 1968.
11 Ver, por exemplo, Boito, Armando. "O impacto das manifestações de junho na
política nacional". Brasil de Fato, 02/08/13.
12 Ver, por exemplo, Braga, Ruy. "Sob a sombra do precariado". In: Maricato,
Ermínia e outros. Cidades rebeldes. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 82.
13 O conjunto de dados a que tive acesso foi o seguinte: duas pesquisas
realizadas pelo Datafolha em São Paulo, nas manifestações dos dias 17 de junho
(766 entrevistas, com margem de erro de quatro pontos percentuais para mais e
para menos) e 20 de junho (551 entrevistas, com margem de erro de quatro pontos
percentuais para mais ou para menos). A primeira foi consultada em
<www.datafolha.com.br> em 22/09/2013; a segunda foi consultada na Folha de
S.Paulo, 22/06/2013, p. C6; pesquisa realizada na manifestação do Rio de
Janeiro no dia 20 de junho pela Plus Marketing, com 498 entrevistas entre 16h e
20h30 e seleção aleatória por intervalo de tempo com manifestantes acima de 15
anos. A margem de erro foi de 4,2 pontos percentuais; pesquisa nacional
realizada pelo Ibope nas manifestações do dia 20 com 2002 entrevistas em oito
cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife,
Fortaleza, Salvador e Brasília. As entrevistas foram feitas com manifestantes
acima de 14 anos e a margem de erro foi dois pontos percentuais para mais e
para menos. Consultada em <g1.globo.com> em 22/09/2013; pesquisa feita em Belo
Horizonte na manifestação do dia 22, pelo Instituto Innovare, com 409
entrevistas de cinco minutos e margem de erro de cinco pontos percentuais para
mais ou para menos. Consultada em <www.innovarepesquisa.com.br> em 22/09/2013.
Agradeço a Antônio David ter-me alertado para a pesquisa do Ibope, assim como
aos institutos Plus Marketing e Innovare pelo envio dos respectivos relatórios.
14 O debate sobre precariado versus novo proletariado ainda está em curso, mas
envolve aspectos que não vêm ao caso para a discussão que desejo fazer neste
artigo.
15 Segundo a socióloga Helena Abramo, o grupo de 16 a 24 anos "é o que vem se
tornando convenção, no Brasil, para abordagem demográfica sobre juventude, pois
corresponde ao arco de tempo em que, de modo geral, ocorre o processo
relacionado à transição para a vida adulta". Abramo, Helena Wendel. "Condição
juvenil no Brasil contemporâneo". In: Abramo, H. W. e Branco, P. P. M. Retratos
da juventude brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo/Instituto Cidadania,
2005, p. 45.
16 Na divisão proposta por Amaury de Souza e Bolívar Lamounier em A classe
média brasileira, Rio de Janeiro, Elsevier, 2010, pp. 18-9, a
passagem apenas pelo ensino fundamental seria característica dos 54% que
compõem as duas camadas de base da sociedade, que eles chamam, respectivamente,
de classe trabalhadora e classe baixa.
17 <www.redebrasilatual.com.br>, acessado em 26/09/2013.
18 Dados calculados a partir do censo de 2010 do IBGE.
19 Uso a expressão "classe média tradicional" no sentido que aparece em Souza e
Lamounier, op. cit., p. 25: a classe média tradicional é a que "realizou suas
conquistas no passado e hoje tem ganhos estabilizados. A geração anterior já
nasceu na classe média, possui casa própria, colocou os filhos em escolas
privadas, fez poupança e investimentos, e conta com ampla rede de relações a
que pode recorrer em caso de necessidade". A educação universitária aparece
como fator essencial ou muito importante para definir quem é e quem não é de
classe média para 87% dos 2002 pesquisados pelo Ibope para Souza e Lamounier no
final de 2008.
20 Não dispomos do número de diplomados em universidade nas manifestações de
São Paulo.
21 Weber, Demétrio Weber. "Brasil tem 6,7 milhões de universitários",
<www.g1.globo.com>, acessado em 26/09/2013.
22 Sobre a classe média baixa, ver Souza e Lamounier, op. cit., pp. 20 e 21.
23 Em particular, a composição apurada no Rio foi surpreendente, pois 34% teria
apenas até um salário mínimo de renda familiar mensal. Convém, em todo caso,
manter o resultado carioca em suspenso, por ser muito diferente dos demais.
24 Trata-se aqui de uma aproximação grosseira, pois isso vai depender,
evidentemente, do tamanho da família. Mas, considerando-se que as famílias têm,
em média, quatro membros, tal aproximação parece justificável para efeitos de
raciocínio.
25 Para chegar a esse resultado, fiz uma conversão, em salários mínimos da
época, da classificação apresentada em Quadros, Waldir. "Brasil: um país de
classe média". Le Monde Diplomatique Brasil, 01/11/2010.
26 Ver Souza e Lamounier, op. cit., p. 164.
27 Ibidem.
28 Embora o dado deva ser visto com cuidado, pelas razões já mencionadas, cabe
mencionar que a Plus Marketing encontrou 88% dos manifestantes do Rio na faixa
até cinco salários mínimos.
29 Venturi, Gustavo. "PT 30 anos: crescimento e mudanças na preferência
partidária". Perseu, 5, 2010, p. 204.
30 Weber, Demétrio. "Brasil tem 6,7 milhões de universitários",
<www.g1.globo.com>, acessado em 26/09/2013.
31 Por meio de artigos de jornal e entrevista no curso dos acontecimentos, foi
esta a minha primeira intuição. Ver, além dos artigos citados, Evelin,
Guilherme. "A energia social não voltará atrás". Época, 787, 24/06/2013. Creio que ela estava parcialmente correta, mas não percebi
que havia outras forças também em jogo, como procuro mostrar neste artigo.
32 Movimento Passe Livre - São Paulo. "Não começou em Salvador, não vai
terminar em São Paulo". In: Maricato, Ermínia e outros. Cidades rebeldes. São
Paulo: Boitempo, 2013, p. 13.
33 Movimento Passe Livre - São Paulo, op. cit.
34 Ibidem, p. 14.
35 Coletivo DAR e Desinformémonos. "Pablo Ortellado: experiência do mpl é
'aprendizado para o movimento autônomo não só do Brasil como do mundo'",
<Coletivodar.org/2013/09>, acessado em 16/09/2013.
36 Diversos depoimentos de participantes dão conta de que a manifestação da
segunda, 17, em São Paulo, talvez tenha sido maior que a da quinta, 20, embora
no resto do país tenha sido diferente.
37 A entrevista pode ser vista em <www.brasil247.com/pt/247/video/105798/>.
38 A pesquisa Vox Populi contou com 2200 entrevistas em 207 municípios.
39 Barros, Luiz Carlos Mendonça de. "A nova classe média e o governo". Folha de
S. Paulo, 14/06/2013, p. B7.
40 Cintra, Luiz Antonio. "Brasil, caro pra chuchu". Carta Capital, 751, 5/06/
2013, p. 26.
41 A pronunciada queda na aprovação dos governos, percebida pelas pesquisas de
opinião realizadas no final de junho, confirmam isso.
42 O problema da violência, envolvendo, entre outros pontos, a compreensão dos
black blocs, é um dos temas relevantes que fogem ao escopo deste artigo.
43 "Atos bloqueiam cinco estradas paulistas, e trânsito chega a 10 km". Folha
de S. Paulo, 20/06/2013, p. C8.
44 Ver Singer, André. "O alerta das metrópoles". Folha de S. Paulo, caderno
"Especial Eleições", 29/10/2012, p. 2.
45 Ver Singer, André. Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto
conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
46 Maricato, Ermínia. "É a questão urbana, estúpido". In: Maricato, Ermínia e
outros. Cidades rebeldes. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 24.
47 Sobre a importância dada à internet, é sintomática a entrevista do sociólogo
Manuel Castells a respeito dos acontecimentos de junho. Ver Mendes, Daniel.
"Dilma é a primeira líder mundial a ouvir as ruas". Istoé, 2276, 28/06/2013.
48 Inglehart, Ronald e Welzel, Christhian. Modernização, mudança cultural e
democracia. São Paulo: Francis, 2009, p. 130.
49 Resende, André Lara. "O mal-estar contemporâneo". Valor, 05/07/2013.
50 Ibidem.
51 Coimbra, Marcos. "O sentido das manifestações", <www.voxpopuli.com.br>,
acessado em 29/09/2013.
52 Antunes, Ricardo e Braga, Ruy, op. cit.
53 Costa, Henrique. "O presente e o futuro das jornadas de junho". Carta Maior,
11/08/2013, <www.cartamaior.com.br>, acessado em 24/09/2013.